Khert-Neter

O Reino Sagrado dos Espíritos

Deus-Governador: Osíris

Bem no centro do mundo espiritual, quando a barca solar atravessa os céus na sexta hora do seu percurso, exatamente à meia-noite na Terra, ela sobrevoa  o grande Lago de Fogo, que é circundadas pelas areias estéreis do deus Sokar. As chamas desse lugar servem como muralhas que defendem a grande ilha que está em seu interior, pois ali está Khert-Neter, mais conhecido como o Reino Sagrado de Osíris. É ali que os mais justos são levados quando morrem.

Não há dúvidas que o mundo espiritual ao redor de Khert-Neter é assustador com monstros terríveis e criaturas sanguinárias espreitando nas sombras para devorar o ka, a essência vital, dos espíritos mais incautos. A única forma de escapar desse mundo de pesadelos é sendo aceito no Reino Sagrado de Osíris. O espírito precisa assim atravessar as terras arenosas de Sokar e subir a montanha onde está o Salão das Duas Verdades. Lá, o divino Osíris Un-Nefer, o deus juiz, a representação do deus Osíris nesse local, que está acompanhado da Grande Companhia de Deuses, escuta o espírito se apresentar com um discurso. Em seguida, seu espírito tem seu coração removido do peito e colocado na grande Grande Balança.

Se o espírito viveu uma vida altruísta e honesta, este coração é mais leve que a Pluma de Ma’at, ele pode entrar no Reino Sagrado de Osíris. Um grande corredor conduz o espírito em segurança por dentro do grande Lago de Fogo. Ele atravessa Sete Portões, cada um com seu porteiro, sentinela e arauto, para enfim chegar na Casa de Osíris. Essa grande estrutura possui entre quinze a vinte e uma entradas.

O espírito recebe o poder de assumir qualquer forma, seja jovem ou idoso, humano ou animal. Ele possui poderes para viajar para onde quiser, desde sua morada na Terra até os confins desconhecidos do universo. Ele se torna um deus, membro dos seguidores de Hórus, companheiro de Osíris em seu reino. Não menos importante, o espírito recebe uma terra no desejado Aaru, também chamado de Paraíso ou Campos dos Juncos, onde pode viver em tranquilidade arando sua terra e vivendo em sociedade com outros espíritos justos e verdadeiros.

 

Imentet

Só é permitido aos mortais entrar no mundo espiritual através do portal de Amentet, que se traduz como a “Terra Oculta”. Esse é um portal que se abre através das tumbas para que todos os mortos possam ter uma segunda existência como um espírito. Infelizmente, o mundo espiritual é perigoso e aterrorizante. O único lugar seguro, capaz de dar uma existência feliz, é o Reino Sagrado de Osíris. Assim, o dever da deusa Imentet é garantir que os mais puros e honestos consigam chegar no paraíso do deus Osíris para terem vida eterna que merecem.

A deusa Imentet é conhecida como a “Dama do Oeste”, porque fica na entrada ocidental do mundo espiritual aguardando a chegada de novas almas. Ela provém todos com o todo o alimento alimento necessário para que se fortaleçam na caminhada até os portões do Reino Sagrado. Também é seu dever guiar as almas até o Salão das Duas Verdades, onde está a Grande Balança que medirá o coração do recém-chegado. Ela é certamente uma deusa paciente e prestativa, mas caso só guiará aqueles que realmente desejem passa pelo julgamento de Osíris Un-Nefer. E, caso perceba durante o percurso que não está conduzindo uma alma de bom coração, ela não hesitará em abandonar os mentirosos e malfeitores no meio do caminho.

 

Sameref e Anmutef

A Grande Balança que mede a pureza do coração de um espírito quando comparado com a Pluma de Ma’at é apenas o início do percurso dos que buscam os paradisíacos campos de juncos do Aaru. Depois de mostrar um coração digno do paraíso, o espírito é conduzido através de Sete Portões que atravessam o grande Lago de Fogo até a Casa de Osíris. O nome desses dois sacerdotes é Sameref e Anmutef.

A magnífica Casa de Osíris possui vinte e um portais de entrada que são guardado por deus específicos, mas, conduzido por esses dois sacerdotes, é permitido ao espírito adentrar e subir os degraus deste templo. O espírito fica então de frente à outra importante representação do deus dos mortos: o Osíris, Auf-Ankh, o portador do cetro real. Os dois sacerdotes então realizam um discurso de apresentação ao Senhor dos Mortos sobre como o coração dele foi julgado puro na Grande Balança. Eles discorrem sobre como o espírito é merecedor dos alimentos divinos e da contemplação do disco solar, que em nenhuma outra região do mundo espiritual ele é visível além do Reino Sagrado.

 

Heptep

Heptet é uma serpente divina com o dever de proteger o deus Osíris em seu reino sagrado. Seus principais deveres estiveram relacionados à ressurreição de seu mestre em tempos passados quando cuidou da sua múmia. Era seu dever protegê-lo para seu renascimento nos campos de juncos de Aaru.

Como seu mestre, a serpente divina possui um barba de faraó e usa uma coroa Atef para ressaltar sua natureza real. Ela também é detentora de poderosos punhais, que carrega em ambas as suas mãos. O seu dever agora é continuar defendendo o seu mestre contra o invejoso irmão do Seti, que ainda é uma ameaça constante mesmo na sua vida eterna.

 

Conselho de Tchatcha

O vigésimo-primeiro portal da Casa de Osíris é também o seu último. Esta é a passagem final para se entrar no Reino Sagrado de Osíris para se iniciar uma vida eterna feliz e justa nos campos de junco de Aaru. Os espíritos que aqui chegam encontram uma grande mesa com o alimento divino, que são o bolo de Osíris e as ervas Sekemu. É após banquetear com a comida divina que os espíritos tomam sua forma final. Ele é enfim ressuscitado no Reino Sagrado.

O espírito recebe uma boca para falar palavras de poder; recebe um novo coração para sentir a graça divina; recebe pernas para caminhar livremente; e se torna capaz inalar o ar celestial. O espírito se torna uma divindade no processo de deificação junto aos doze membros do Conselho de Tchatcha, que são os principais deuses espirituais do panteão egípcio. São eles: os quatro deuses da caravana de Hórus (Kesta, Hapi, Tuamutef, Qebhsenuf), Shu, Tefnut, Anúbis, Thoth, Ísis, Néftis, o deus-criador Rá e senhor dos mortos Osíris Khenti-Amenti, o primeiro dentre os espíritos.

Os espíritos descobrem que esses deuses os seguiam desde que sua tumba foi selada até o momento da chegada no paraíso. Afinal, cada cidade egípcia possui membros do Conselho de Tchatcha se dividindo entre si para observando o que ocorre no seu dia a dia. No entanto, esses espíritos deificados não mais precisam se aborrecer com as coisas mudadas. Diariamente, o Conselho do Tchatcha lhes dará o alimento regular para suas necessidades e um terreno nas plantações de Sekhet-hetep para viver uma vida tranquila.