Abidos

Cidade do Deus-Morto

Deus-Governador: Ihy
Cidades: Terra Grandiosa (8º nomo do Alto Egito)
Idioma: Egípcio

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Estátua do deus-menino Ihy

A cidade de Abidos não nasceu de um povoamento, mas cresceu a partir de Um cemitério utilizado pela elite da cidade de Tinis. Era o local onde os mais ricos eram enterrados com os tesouros que acumularam em vida para auxiliar no caminho pelo mundo dos espíritos. Como toda necrópoles egípcia era habitada por soldados que faziam a guarda dos tesouros mortuários, pelos sacerdotes que realizavam as cerimônias sagradas e pelos trabalhadores na sua manutenção como coveiros, escultores e jardineiros. O local só começou a crescer como uma verdadeira cidade ao acomodar pessoas em peregrinação para ilustres tumbas, sendo a primeira delas pertencente ao primeiro faraó Menés, filho do Escorpião-rei e unificador de todo o Egito.

O grande aumento populacional da cidade só ocorreu, no entanto, séculos depois quando o deus-falcão Hórus derrotou o trapaceiro deus Set na guerra pelo Egito. O pai de Hórus, o grande Osíris, que havia sido morto e esquartejado pelo vilão, merecia um sepultamento digno. O filho assim trouxe o seu corpo mumificado em procissão desde o Baixo Egito até a cidade onde o primeiro faraó estava enterrado. Ele foi carregado por todo o percurso pelos seus cinco netos, os filhos de Hórus, até onde uma grande tumba foi erguida para que o antigo deus-governante pudesse ser reverenciado. Logo, milhares de pessoas, que primeiro vieram em peregrinação, resolveram fazer do local o seu lar e o grande Templo de Osíris começou a formar seus próprios sacerdotes.

Os cinco filhos de Hórus permaneceram na cidade de Abidos para governar o local. O mais proeminente desses filhos se chama Ihy. Ele habita formas humanas de crianças e é constantemente visto nos festivais sagrados da cidade num estado de frenesi enquanto balança o chocalho sagrado chamado de Sistro. Essa ação é importante, pois a principal fonte de renda de Abidos vem das peregrinações diárias para homenagear o deus morto e dos festivais que acontecem ao longo do ano. O maior desses festivais ocorre em duas datas diferentes. A “Paixão de Osíris” ocorre no período de seca do rio Nilo conhecido como a fase de Plantação. Nos primeiros dias, são realizados sacrifícios num tom solene, respeitoso e triste por simbolizar a morte desse deus. Depois, uma peça teatral reconta sua morte e esquartejamento por Set, seguido da busca por seus pedaços e sua mumificação pela deusa Ísis. Para cada pedaço reunido na peça, os presentes batem o punho no peito em tom de alegria. Por fim, o festival se encerra com o plantio de trigo nos campos próximos, pois o florescer deste simbolizará o renascimento do deus.

A “Ressurreição de Osíris”, ocorre meses depois, no início da primavera quando o rio Nilo está no nível mais alto de sua fase de Inundação. No primeiro dia é realizada um procissão levando uma estátua de Osíris até seu Grande Templo sob a orientação de Wepwawet, a forma lupina que o deus Rá tomou para o receber no mundo dos espíritos. No segundo dia, uma nova procissão é realizada até o rio Nilo, onde uma barca leva a estátua de Osíris até sua tumba. No terceiro dia, todos os presentes velam o corpo do deus no intuito de protegê-lo dos seus demônios inimigos. No quarto dia, um cerimônia é realizada pelos sacerdotes para simbolizar seu funeral. Por fim, no quinto dia, após uma noite de orações e cânticos, todos aguardam ardorosamente o nascer do sol quando a estátua de Osíris ressurge e recebe a coroa de Ma’at, iniciando assim as festividades com um banquete e muita cerveja para todos.

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Frederick Arthur Bridgman (1847–1928)

Yuyu

O complexo de templos de Osíris possui um tamanho modesto quando comparado com outras cidades mais abastadas. Este possui cerca de dez templos modestos que foram construído ao longos dos séculos. A maioria não passa de um grande salão, não maior que uma casa egípcia média, com cerâmicas ao fundo para se acumular as cinzas das oferendas ao deus Osíris pelos peregrinos. O local é decorado com estátuas do próprio deus Osíris e vasos doados pela população mais rica do Egito, incluindo de Faraós, tendo suas imagens e feitos descritos deles. Um pouco mais afastado, há o templo recém completado por Ramsés em homenagem ao seu pai Seti com a história do Egito em suas paredes e sete pequenas capelas dedicadas a diferentes deuses, tendo ao fundo um espaço labirinto a céu aberto com colunas maciças chamado de Osireu.    

Os sumo-sacerdotes de Osíris possuem a missão de organizar e celebrar os famosos rituais a Osíris, mas também realizam rituais fechados ao público. Eles devem trazer o “Grito de Osíris”, que ocorre quado água potável é derramada num recipiente especial. Também devem fazer a “Confecção de Lua Crescente” com solo fértil misturado nessa água para montar adornos de roupa a serem vendidos no festival. E realizar a “Distribuição de Corpo de Osíris”, feito de massa de trigo para ser colocada em capelas específicas ao local do rio Nilo onde Ísis encontrou partes do esposo, pois essas massas preencherão a estátua de Osíris no festival. O atual sumo-sacerdote de Osíris se chama Yuyu, que vem de uma longa linhagem de clérigos do deus. Ele é o quinto de sua família a assumir a função, sempre preparando os rituais e obedecendo as ordens do menino-deus Ihy. 

 

Siese

O jovem Siese é filho do atual sumo-sacerdote de Osíris chamado de Yuyu. Ele também já iniciou o sacerdócio ao deus Osíris, o que é tradicional em sua família, sendo atualmente um dos muitos noviços no templo. O seu pai espera que o jovem siga os passos da família, assim como o próprio Yuyu sucedeu o seu irmão Hori, que sucedeu o pai Wenennefer, que sucedeu o avô Mery, que sucedeu o bisavô Hat.

É natural que Siese tenha dúvidas quanto ao sacerdócio numa idade tão afeita a arroubos de rebeldia. Afinal, lhe causa estranheza ver seu pai, um homem sábio e influente, ser obrigado a fazer os mimos e receber ordens de uma criança. Siese até entende que o deus-menino, de apenas oito anos de idade, é o receptáculo do divino Ihy. Assim, todo o seu comando deve ser uma ordem. No entanto, muitas dessas ordens são esdrúxulas e atípicas para o que se espera de um deus; de forma que muitas de suas palavras precisam  muito bem filtradas pelos sacerdotes até alcançarem os ouvidos da população. O jovem Siese planeja assim realizar uma peregrinação aos catorze lugares onde os pedaços do deus Osíris foram encontrados por Ísis para conseguir a necessária iluminação sobre o assunto.

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John Reinhard Weguelin (1849–1927)

Filhos de Hórus

Enquanto os filho de Hórus chamado Ihy governa a cidade e Abidos habitando o corpo de uma criança, os quadrigêmeos Imset, Hapi, Duamutef e Kebehsenuef são mestres na arte do embalsamento. Eles estão diretamente ligados ao culto funerário, sendo extremamente requisitados para a preparação de cadáveres antes do sepultamento. Afinal, o preparo de um cadáver facilita a jornada pelo mundo espiritual tanto quanto os feitiços que ele leva em sua mente e os metais preciosos que leva em sua tumba.

Acredita-se que um bom embalsamento aprisiona as serpentes malignas do pós vida de devorar a carne e destruir o espírito de um morto. Ter a assinatura dos quatro irmãos descrita em sua lápide realmente não tem preço. Muitos mumificadores tentam imitar o talento dos quatro irmãos, sendo que cada um deles é visto como o guardião de um dos órgão interno. Assim, seus imitadores e admiradores colocam numa ordem específica: 1) por Imset, o fígado do morto no cofre com o símbolo de um homem voltado para o Sul; 2) por Hapi, o pulmão é colocado no cofre com o símbolo de um babuíno voltado para o Norte; 3) por Duamutef, o estômago é colocado no cofre com o símbolo de um chacal voltado para o Leste; e 4) por Kebehsenuef, os intestinos são colocados no frasco com o símbolo de um falcão voltado para Oeste. Afinal, só o coração é permitido passar ao mundo espiritual para o julgamento final do falecido.

 

Khenti-Amentiu, o Esquecido

Antes da tumba de Osíris ser construída e do deus ser sepultado no local, a necrópole de Abidos era governada por outra entidade divina. O seu nome era Khenti-Amentiu, que tinha a alcunha de “Senhor do Ocidente”, notando-se que o Ocidente é um eufemismo egípcio para o mundo dos mortos, por ser o local onde o sol se põe.

Era o poderoso Khenti-Amentiu quem guardava a cidade dos mortos e a entrada para o mundo espiritual. Ele era um dos mais poderosos deuses de todo o Egito. Pelo menos, até o próprio Osíris tomar o seu lugar. Desde então, ninguém mais ouviu falar deste deus. Sua alcunha foi incorporada pelo novo deus do mortos, sendo este chamado de Osíris, o Khenti-Amentiu, o Senhor do Ocidente. Ninguém mais se lembra que havia um anterior. No entanto, as lendas dizem que o antigo deus está vagando pelas terras do Egito, selecionando campeões que levará consigo ao mundo dos mortos para se vingar daquele que o destronou.

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Facsimile de gravura do Livro dos Mortos