Cronologia Minoana

 

 

Afresco de Coletores de Açafrão

 

A ilha de Creta vive hoje a Era Minoana. Esse período de grande prosperidade foi antecedido por três outros períodos históricos, cada um dominado por uma diferente estágio civilizatório chamados respectivamente de Inicial, Avançado e Pós-Catástrofe. Cada um desses estágios é descrito a seguir:

 

Creta Inicial

O começo. – iniciação do bronze

A introdução do cobre e o seu uso para ferramentas e armas, marca o fim do Neolítico em Creta,[78] sendo que a Idade do Bronze na ilha começou em 2 700 a.C.[5] Da Idade do Bronze Inferior (3 500 – 2 500 a.C.), a Civilização Minoica em Creta mostrou uma promessa de grandeza.[79] A tese de Arthur Evans de que a introdução de metais em Creta foi ocasionada por imigrantes do Egito não mais se sustenta,[80] na medida em que outras teorias argumentam em favor da instalação de colônias no Norte da África e na Ásia Menor. No entanto, os dados arqueológicos não suportam tal colonização, e os dados antropológicos não evidenciam a chegada de novas populações naquela época.[81] A teoria atual é que todo o Mar Egeu estava sendo habitado por um povo chamado de pré-helênico ou egeano.[82]

O Egito aparentemente não exercia então grande influência na região, sendo que a Anatólia desempenhou um papel relevante no início da arte dos metais em Creta.[80] A disseminação do uso do bronze no Mar Egeu está ligada a grandes movimentos populacionais na costa da Ásia Menor para Creta, Cíclades e sul da Grécia continental. Essas regiões estavam entrando em uma fase de desenvolvimento social e cultural, marcado principalmente pela expansão das relações comerciais com a Ásia Menor e Chipre. No entanto, a civilização neolítica continuou, especialmente na primeira parte do período. Assim podemos ver as mudanças sobretudo em termos de organização, melhoria das condições de vida e em termos de tecnologia.[81]

Afresco Os PugilistasEdifício Beta, Acrotíri

A partir desse momento, Creta viveu a transição de uma economia agrícola para outros modelos econômicos, em resultado do comércio marítimo com outras regiões do Egeu e Mediterrâneo Ocidental.[83] Com sua marinha, Creta ocupa um lugar de destaque no Egeu. A utilização de metais aumenta as transações com os países produtores: os cretenses procuravam cobre do Chipreouro do Egitoprata e obsidiana das Cíclades.[8] Os portos estavam crescendo tornando-se grandes centros sob influência do aumento das atividades comerciais com a Ásia Menor, sendo que a parte oriental da ilha mostra-se predominante neste período.[84] Centros na parte oriental (Vasilicí e Mália) começam a notabilizar-se e sua influência irradia ao longo da ilha dando origem a novos centros, entre eles Amnisos,[85] Cnossos e Festo; tais centros são ligados por uma estrada erigida ao longo da ilha.[77] Parece que a partir do minoano antigo, aldeias e pequenas cidades tornam-se numerosas e as fazendas isoladas são raras [86] No entanto, é importante lembrar que algumas cavernas ainda continuaram a ser ocupadas neste período.[87]

No final do III milênio a.C., várias localidades na ilha desenvolveram-se em centros de comércio e trabalho manual, devido à introdução do roda de oleiro na cerâmica e na metalurgia de bronze. Além disso, é evidente o aumento da população, assim como uma elevada densidade populacional, especialmente no centro-oeste.[83] O estanho da Península Ibérica e da Gália, bem como o comércio com a Sicília e Mar Adriático, começaram a frear o comércio oriental. No âmbito da agricultura, é conhecido através das escavações que quase todas as espécies conhecidas de cereais e leguminosassão cultivadas e todos os produtos agrícolas ainda hoje conhecidos como o vinho e uvas,[88] azeite e azeitonas, já ocorriam nessa época.[81] O uso da tração animal na agricultura é introduzida.[89]

As habitações mais características do período são encontradas em Vasilicí, Pírgos e Ierápetra, no entanto também foram identificadas construções suntuosas em outras partes da ilha, como por exemplo as necrópoles de ArchanesCrissolacosMáliaRussólacos e Cato Zacro.[90] Há tolos em diversas regiões de Creta, especialmente na planície de Messara onde 75 destes túmulos foram identificados.[91]

 

 

 

Creta Avançada

Tempos áureos – destruição de santorini

Ca. 2 000 a.C. foram construídos os primeiros palácios minoicos,[83] sendo estes a principal mudança do minoano médio.[92] Como resultado da fundação dos palácios, assistiu-se à concentração de poder em alguns centros, impulsionando o desenvolvimento econômico e social. Os primeiros palácios são CnossosFesto e Mália, localizados nas planícies mais férteis da ilha, permitindo que seus proprietários acumulassem riquezas, especialmente agrícolas, o que é evidenciado pelos grandes armazéns para produtos agrícolas neles encontrados.[23] Esse período de mudanças permitiu que as classes superiores praticassem de modo contínuo as atividades de liderança e ampliassem sua influência. É provável que a hierarquia original das elites locais tivesse sido substituída por uma estrutura monárquica do poder, onde os palácios eram controlados por reis – uma precondição para a edificação de grandes edifícios.[93][94] O sistema social era provavelmente teocrático, sendo o rei de cada palácio o chefe supremo oficial e religioso.[95]

Fontes escritas dos povos do Oriente indicam que o Mar Egeu e a Ásia Menor passaram por uma reviravolta, causando uma reação cretense.[96] Com o poder concentrado, os minoicos poderiam lutar melhor contra os perigos de fora. A aparição dos palácios contrasta com o aparente declínio das civilizações cicládica e heládica, e é surpreendente numa ilha que não havia tido o desenvolvimento artístico das Cíclades, nem a organização econômica de certos lugares do Peloponeso, como Lerna.[97] A localização dos palácios corresponde a grandes cidades que existiram durante o pré-palaciano.[98] Cnossos controlava a região rica do centro-norte de Creta, Festo dominou a área periférica de Messara, e Mália o centro-leste. Nos últimos anos os arqueólogos falam de territórios bem delimitados ou estados, um fenômeno novo na área grega.[99]

A presença de trabalhos específicos entre os minoicos é indício de ampla especialização, divisão bem sucedida do trabalho e abundante mão-de-obra. Um sistema burocrático e a necessidade de melhor controle de entrada e saída de mercadorias, além de uma possível economia baseada em um sistema escravista, formaram as bases sólidas para esta civilização.[23] Com o passar do tempo, o poder dos centros orientais começa a declinar, sendo substituídos pelo ascendente poderio dos centros do interior e ocidentais. Isto ocorreu principalmente devido a distúrbios políticos na Ásia (invasão cassita na Babilôniaexpansão hitita e invasão hicsa no Egito) que enfraqueceram o mercado oriental, motivando um maior contato com a Grécia continental e com as Cíclades.[77] Durante o MMI os túmulos abobados param de ser erigidos na região de Messara.[100]

No final do período MMII (1 750 – 1 700 a.C.), houve uma grande perturbação em Creta, provavelmente um terremoto,[101] ou possivelmente uma invasão vinda da Anatólia.[102] A teoria do terremoto é sustentada pela descoberta do templo de Anemospília pelo arqueólogo Sakelarakis, no qual foram encontrados os corpos de três pessoas (uma delas vítima de um sacrifício humano) que foram surpreendidas pelo desabamento do templo.[103] Outra teoria é que havia um conflito dentro de Creta, e Cnossos saiu vitorioso.[104] Os palácios de CnossosFestoMália e Cato Zacroforam destruídos.[20] Mas com o início do período neopalaciano a população voltou a crescer,[105][106] os palácios foram reconstruídos em larga escala[107] (no entanto, menores que os anteriores[108]) e novos assentamentos foram construídos por toda a ilha, especialmente grandes propriedades rurais.[109]

Este período (séculos XVII e XVI a.C., MMIII/neopalaciano) representa o apogeu da Civilização Minoica.[104] Os centros administrativos controlavam extensos territórios, fruto da melhoria e desenvolvimento das comunicações terrestres e marítimas, mediante a construção de estradas e portos, e de navios mercantes que navegavam com produções artísticas e agrícolas, que eram trocadas por matérias-primas.[95] Entre 1 700 – 1 450 a.C., a monarquia de Cnossos deteve a supremacia da ilha.[94] Essa monarquia, apoiada, pela elite mercantil surgida em decorrência do intenso comércio, criou um império comercial marítimo, a talassocracia.[110][111] Heródoto e Tucídides afirmaram que os cretenses dominaram com sua marinha todo o Mar Egeu, destruíram a pirataria, colonizaram a maior parte das Cíclades, e cobraram tributos e equipamentos dos habitantes das ilhas. A extensão da talassocracia minoica é atestada pela grande quantidade de cidades com nome Minoa encontradas nas ilhas do Egeu, na costa síria, no continente grego e na Sicília.[112] As regiões integradas à talassocracia minoica eram administradas por prepostos. Tucídides menciona que o lendário rei Minos enviou seus filhos para governar as províncias exteriores.[113]

A influência da Civilização Minoica fora de Creta manifesta-se na presença de valiosos itens de artesanato. Cerâmicas típicas minoicas foram encontradas em MilosLernaEgina e Cufonísia. É provável que a casa governante de Micenas estivesse conectada à rede de comércio minoica. Após cerca de 1 700 a.C., a cultura material da Grécia continental alcançou um novo nível, devido à influência minoica.[94] Importações de cerâmicas do Egito, Síria, Biblos e Ugarite demonstram ligações entre Creta e essas regiões.[114] Os hieróglifos egípcios serviram de modelo para a escrita pictográfica minoica, a partir da qual mais tarde desenvolveram-se os famosos sistemas de escrita Linear A e B.[17]

erupção do vulcão Tera na ilha vizinha de Creta também conhecida como Santorini foi implacável para o rumo de Creta.[34][35] A erupção foi datada como tendo ocorrido entre 1 639 – 1 616 a.C., por meio de datação por radiocarbono;[29] em 1 628 a.C. por dendrocronologia;[115] e entre 1 530 – 1 500 a.C. pela arqueologia.[116] A destruição do assentamento minoico em Tera (conhecido como Acrotíri) pode ter impactado, mesmo que indiretamente, o comércio minoico com o norte.[117] c. 1 550 a.C., um novo abalo sísmico consecutivo às catástrofes de Tera, destruiu outra vez os palácios minoicos; no entanto, estes foram novamente reconstruídos numa escala ainda maior do que a anterior.[94][107]

 

 

 

Creta Pós-Catástrofe

Tempo de Renovação –

Ca. 1 450 a.C., a Civilização Minoica experimentou uma reviravolta, devido a outra catástrofe natural, possivelmente um terremoto. Outra erupção do vulcão Tera tem sido associada a esta queda, mas a datação e implicações permanecem controversas. O minoano recente é marcado por grande riqueza material e pela onipresença do estilo de cerâmica de Cnossos. No entanto, no minoano recente IIIB a importância de Cnossos como um centro regional, e sua “riqueza” material, parecem ter diminuído. Vários palácios importantes em locais como MáliaTílissosFestoAgia Triada, bem como os alojamentos de Cnossos, foram destruídos. O palácio de Cnossos parece ter permanecido em grande parte intacto. Durante o MRIIIB a ilha foi invadida pelos aqueus da Civilização Micênica.[107]

Os sítios dos palácios minoicos foram ocupados pelos micênicos em torno de 1 420 a.C.[118] (1 375 a.C. de acordo com outras fontes), que adaptaram o sistema gráfico minoico Linear A para as necessidades de sua própria língua micênica, uma forma de grego, que foi escrita em Linear B. Os micênicos geralmente tendem a adaptar-se, e não a destruir, a cultura, religião e arte minoica,[119] e continuam a operar o sistema econômico e burocrático dos minoicos.[94] No entanto, estudiosos como Jean Tulard, argumentam que durante este período a ilha tornou-se apenas um apêndice do continente.[120]

Edificações micênicas (túmulos, aldeias, etc.) são encontradas em muitas localidades minoicas.[121] O oeste cretense prosperava graças à proximidade com o Peloponeso. O porto de Cnossos continuou mantendo relações comerciais com Chipre.[122] Possivelmente os minoicos e micênicos acabaram por fundir-se, no entanto não são evidenciadas novas tendências artísticas na ilha.[120] Durante MRIIIA, Amenófis III em Kom el-Hatan refere k-f-t-w (Caftor) como uma das “Terras secretas do norte da Ásia”.[nt 1] São também mencionadas cidades cretenses tais como Ἀμνισός (Amnisos), Φαιστός (Festo), Κυδωνία (Cidônia) e Kνωσσός(Cnossos) e alguns topônimos reconstruídos como pertencentes às Cíclades e ao continente grego. Se os valores desses nomes egípcios são precisos, então este faraó não privilegia Cnossos de MRIII acima dos outros estados da região.[123]

Após cerca de um século de recuperação parcial, mais cidades e palácios de Creta entraram em declínio no século XIII a.C. (HTIIIB/MRIIIB). Os últimos registros em Linear A são datados de MRIIIA (contemporâneo com HTIIIA). Cnossos permaneceu um centro administrativo até 1 200 a.C.; o último dos sítios minoicos foi o sítio defensivo de Carfi, um lugar de refúgio que exibe vestígios da Civilização Minoica quase na Idade do Ferro.[124] Por volta de 1 100 a.C. os dórios atingem a ilha e causam destruição e morte.[77] Essa invasão trouxe, entre outras mudanças, o início do uso do ferro, assim como o surgimento da prática de cremação dos mortos.[125]

Teorias acerca da destruição da Civilização Minoica[editar | editar código-fonte]

Detalhe do afresco Lírios do mar, Casa das senhoras, Acrotíri

 

erupção na ilha de Tera está entre as maiores erupções vulcânicas na história das civilizações, expelindo cerca de 60 km³ de lava e sendo classificada como de nível 6 segundo o índice de explosividade vulcânica.[126][127][128] A erupção devastou o assentamento minoico em Acrotíri, que foi efetivamente enterrado sobre camadas de pedra-pomes. Além disso, foi sugerido que a erupção e seu efeito sobre a Civilização Minoica foi a origem do mito de Atlântida.[129][130]

Muitos estudiosos acreditam que a erupção afetou gravemente a civilização de Creta, embora a dimensão exata do impacto seja debatida. As primeiras teorias propuseram que a queda de cinzas na metade oriental da ilha de Creta sufocou a vida das plantas, causando a fome da população local.[131] Há hipóteses que gases nocivos tenham chegado à ilha, intoxicando muitos seres vivos. Além disso, a ilha tornou-se um destino para refugiados das ilhas do Egeu.[35] No entanto, após exames de campo mais aprofundados, esta teoria tem perdido credibilidade, pois foi determinado que não mais do que cinco milímetros de cinzas caíram em qualquer lugar da ilha de Creta.[132] Estudos recentes baseados em evidências arqueológicas encontradas em Creta indicam que um enorme tsunami, gerado pela erupção de Santorini, devastou as áreas costeiras da ilha e destruiu muitos assentamentos costeiros.[130][133][134][135][136][6] O arqueólogo grego Spyridon Marinatos acreditava que cerca de 1 500 a.C. todas as cidades costeiras minoicas foram destruídas, assim como a cidade de Amnisos.[137][138] O cenário de desastres projetados, assim como as evidências do tsunami na costa norte de Creta (Tera localiza-se ao norte da ilha) permitiram o reconhecimento de que a erupção de Santorini foi de, no máximo, metade do que Marinatos aplicou, sendo então sua teoria exagerada.[139]

Foram encontrados restos minoicos significativos acima das camadas de cinzas do Tera, o que implica que a erupção não causou a queda imediata dos minoicos.[140] Como os minoicos foram uma potência marítima e dependiam de sua marinha para subsistirem, a erupção causou-lhes dificuldades econômicas significativas. Ainda está sob intensa discussão se estes efeitos foram suficientes para provocar a queda da civilização. A conquista micênica dos minoicos ocorreu no final do período MRII. Os micênicos foram uma civilização militar. Usando sua marinha funcional e um exército bem equipado, eles eram capazes de uma invasão. Há evidências de armas micênicas, encontradas em aterros da ilha de Creta. Isso demonstra a influência militar micênica.[7] Muitos arqueólogos especulam que a erupção induziu a uma crise na Civilização Minoica, que permitiu aos micênicos uma conquista fácil.[6]

Sinclair Hood escreve que a causa mais provável da destruição dos minoicos foi uma força invasora. Evidências arqueológicas levam pensar que a destruição da ilha parece ter-se devido a danos por incêndios. Hood nota que o palácio de Cnossos parece ter sofrido menos danos do que outros locais ao longo da ilha de Creta. Além de Cnossos, em muitas vilas da ilha apenas os edifícios mais importantes de governantes foram destruídos, enquanto o resto das casas permaneceram intactas. Porque as catástrofes naturais não escolhem seus alvos, é mais provável que a destruição tivesse sido produzida por invasores, pois estes teriam visto a utilidade de um centro como o palácio de Cnossos.[141] Detorakis supõe que a destruição minoica tenha sido alavancada por problemas econômicos. Com o grande aumento da demanda, a produção interna não foi suficiente para supri-la. Além disso, com o advento dos micênicos, as rotas antes detidas unicamente pelos minoicos, começaram a ser disputadas. Houve uma escassez de matérias-primas. Essa situação de sobrecarga causou desordens e desestabilização que levaram o abandono e destruição da maioria dos sítios.[137]

Tulard acredita que a destruição de muitos palácios terá sido a consequência de uma disputa contra Cnossos. No entanto, em 1 400 a.C., Cnossos cedeu por razões não identificadas, o que levou a uma nova hipótese de terremoto. Evans viu a questão como uma revolta da plebe contra uma monarquia com tendências militaristas. Alan Wace, por sua vez, sugere uma revolta dos cretenses contra os aqueus.[142] Ele cita a lenda de Teseu como suporte para a teoria de uma invasão aqueia do continente, sendo que o Minotauro simboliza a destruição do poder minoano por seus ex-vassalos. Mas a decifração das tabuletas de argila de Cnossos mostram que o grego já era a língua oficial em Cnossos e, portanto, a dinastia já era aqueia quando o palácio foi destruído.[143]

Vários autores têm observado evidências de que nesse período houve na ilha intensa atividade econômica, não necessariamente comercial, evidente pela sobrecarga nos armazéns. Por exemplo, a recuperação arqueológica de Cnossos fornece uma prova clara de desmatamento desta parte da ilha de Creta próximo aos últimos estágios do desenvolvimento minoico.[144]

 

 

 

Creta Atual

Tempos do Rei Minos