Cultura Egípcia

Carlo Mancini (1829-1910)

O Egito é conhecido como a “Benção do Nilo”, pois suas cidades floresceram às margens deste rio se tornando as mais organizadas do mundo. Toda a região é dividida em distritos (chamados “nomos”), sendo vinte nomos ao norte e vinte-dois nomos ao sul.

 

A Geografia

Por dois mil anos, o império egípcio se desenvolveu ao longo das águas do rio Nilo, pois tudo ao redor é formado por terras desérticas e inabitáveis. São quarenta e duas cidades no total que presidem sobre os Nomos e servem de lar para quase dois milhões de de pessoas em seus centros urbanos e em suas cercanias numa bem organizada cadeia hierárquica .

Os vinte nomos ao Norte são liderados pela cidade de Mênfis e ficam ao nível do mar, na região do Delta do Nilo, onde este rio desemboca no Grande Verde Mar. É a região mais fértil do rio Nilo, onde a agricultura e pecuária se tornaram a base da economia egípcia.

Os Nomos ao Sul são liderados por Tebas e ficam em regiões mais altas, mais próximas da nascente deste rio. É uma região menos fértil, mas certamente de maior extensão, cuja atividade central é a mineração e a extração de rochas calcárias.

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A História

Nos primórdios da civilização egípcia, pequenas comunidades que habitavam o vale do Nilo evoluíram para aglomerados culturais complexos caracterizados pelo amplo domínio da agricultura, pecuária e da manufatura de cerâmica. Em seguida, dominaram a tecelagem e a metalurgia do cobre. Não demorou até o comércio florescer e as primeiras elites políticas se formarem. O império egípcio então começou com Menés, filho do Escorpião Rei. Ele finalizou o longo processo iniciado por seus antecessores de unificar todo o Egito através de alianças políticas e comerciais.

A primeira capital do Egito Unificado era a cidade de Mênfis, fundada por Menés e que se tornou centro político do Egito por mais de mil anos. Disputas de poder, no entanto, fizeram a capital se mudar para a cidade de Tebas por outros mil anos e assim se manteve até o período recente. Enfim, tudo mudou outra vez com a rebelião dos homens contra os deuses. O novo faraó do Egito proclamou a si mesmo de Aquenáton, o Guardião do Deus Único, elevando este deus ao status de única e verdadeira divindade. Ele assim desafiou os deuses novos e antigos, proibindo a adoração ao deus-sol Rá, a quem chamou de um usurpador do poder celestial. Em seguida, fundou uma nova cidade que fica a meio caminho entre Tebas e Mênfis: A Cidade de Aquetáton.

O novo faraó Aquenáton obrigou todo o povo egípcio a se converter ao culto do Deus Único e, em pouco tempo, este culto monoteísta se tornou a religião oficial do império. Essa revolução monoteísta, no entanto, só durou por dezessete anos enquanto Aquenáton esteve vivo. Ao fim deste período, os sacerdotes da antiga religião perseguiram os seguidores do Deus Único numa conspiração que envolveu  o irmão do faraó Semencaré e o poderoso general Horemheb. Juntos, eles expulsaram esses seguidores com seu profeta maior e restabeleceram a milenar religião politeísta do Egito. Assim, começou uma nova era às margens do rio Nilo: a 19º dinastia egípcia, cujo representante atual é o faraó Ramsés, o Grande.

 

Thomas Seddon, 1885

O Império

A primeira capital do Egito foi Mênfis, capital das terras do Norte.  Ela deteve a hegemonia de todo o Egito pelos primeiros mil anos do império e suas terras do Norte ficam na região ao nível do Grande Verde Mar. São terra as mais propícias à agricultura e pecuária; e estão divididas em vinte distritos (“Nomos”), sendo suas cinco cidades principais enumeradas a seguir:

  1. Mênfis, que é governada pelo engenhoso deus Ptah (1º Nomo),
  2. Sais, que é governada pela curandeira deusa Neith (5º Nomo)
  3. Heliópolis, que é governada pelo sábio deus Toth (13º Nomo)
  4. Avaris, governada pelo vigilante deus Sopdu (14º Distrito)
  5. Bubastis, que é governada pelo violento deus Maahes (18º Nomo)

A segunda capital do Egito foi Tebas, líder das terras do Sul. Ela deteve a hegemonia de todo o Egito por outros mil anos do império. Suas terras ficam numa posição mais elevada e são propícias à mineração e à extração de pedra calcária tão importante para a engenharia egípcia. Elas estão divididas em vinte e dois distritos (“Nomos”), cujas cinco cidades principais são:

  1. Tebas, que é governada pela cordial deusa Amunet (4º Nomo),
  2. Elefantine que é governada pelo criativo deus Knum (1º Nomo)
  3. Abidos, governada pelo militarista deus Onúrios (8º Nomo),
  4. Kemenu, governado pelo derrotado deus Amun (15º Nomo)
  5. Cinópolis, que é governada pelo espiritual deus Anúbis (17º Nomo)

A balança de poder sempre oscilou entre essas duas cidades: Mênfis e Tebas. Mesmo quando o deus Set conquistou o Egito com um exército invasor e governou a partir da cidade Avaris, a capital egípcia nunca deixou de ser Tebas que liderou uma grande resistência contra o deus usurpador. No entanto, com a ascensão do novo faraó Ramsés, o Grande, uma capital foi fundada em sua homenagem: Per-Ramsés, a Casa de Ramsés.

 

A Política

James Tissot (1836–1902)

Os governantes do Egito, seja o próprio líder-maior chamado de “Faraó” ou qualquer governante dos quarenta e dois estados egípcios chamados de “Nomarcas”, são considerados por todos os seus súditos como verdadeiros deuses. Eles tomam as decisões necessárias para suas cidades como o fazem há muitos séculos sempre mudando de corpos físicos para permanecerem imortais.

Os deuses egípcios são criaturas incorpóreas, por isso, necessitam habitar corpos humanos para interagir com seus servos e súditos. Essa forma imaterial e divina chama-se de “Ka“, cuja tradução mais próxima para os outros povos é de uma “alma divina”. É natural que todos os corpos humanos nasçam, envelheçam e morram. Quando enfim o ciclo de vida do corpo humano habitado pelo deus chega ao fim, a essência divina é transferida para o novo governante no momento da coroação. Esse corpo humano utilizado pelos deuses como mero veículo é chamado de “Khat”, recebendo grandes poderes mágicos e de transmutação.

Note que os veículos humanos não perdem o controle sobre seus corpos mesmo quando um deus o habita. É uma relação simbiótica de mútua influência. Assim, ainda é natural que jogos de intriga e poder continuem a ocorrer dentro dos palácios reais. Mesmo que o trono seja tomado por algum usurpador, por conspiradores ou por novas dinastias, o novo Khat humano receberá a essência divina que estava no governante deposto. Na verdade, as disputas de poder palacianas são estimuladas pelos próprios deuses que gostam de ver seus corpos humanos renovados para que tenham o melhor material humano à sua disposição.

 

David Roberts (1796–1864)

As Leis

É responsabilidade do Faraó e dos Nomarcas a promulgação de leis, a aplicação da justiça e a manutenção da lei e da ordem, através do um conceito egípcio denominado de “Ma’at”. Esse conceito traduz num código legal e moral baseado no senso comum do que é certo e errado.

Conselhos locais de anciãos, conhecidos como Corte de Kenbet são responsáveis pela decisão em casos judiciais de pequenas causas e disputas menores. Os casos mais graves envolvendo assassinato, grandes transações de terrenos e roubo de túmulos são encaminhados para o Grande Kenbet, presidido na capital do império pelo Grande Faraó ou por seu segundo em comando: o Vizir.

Durante o processo legal, a Vítima e o Acusado representam a si próprios, juramentando aos deuses a dizer apenas a verdade e expondo seus discursos de defesa. Em seguida, as provas são então apresentadas. E enfim, o Kenbet decide a pena sobre o condenado e até sobre sua família conforme a gravidade do crime. A pena para crimes menores são multas, espancamentos, mutilações faciais ou o exílio. Crimes graves são punidos com a morte por decapitação, afogamento ou empalamento.

 

A Economia

David Roberts (1796–1864)

O Egito é considerado uma benção do rio Nilo. Essa frase não poderia ser mais verdadeira, pois as características geográficas favoráveis contribuem para produção abundante de alimentos. São cultivados o trigo, a cevada e vários outros cereais para produção de pão, biscoitos, bolos e cerveja. O linho e o algodão são colhidos antes da floração para produção de roupas. O papiro que cresce nas margens do Nilo para seu uso na escrita. Outros produtos bastante utilizados são: pepino, cebola, feijão, fava, alho e também frutas como a tâmara, melancia, romã, melão e pêssego.

As estações do ano são divididas conforme os ciclos do rio Nilo: Akhet (inundação), Peret (plantio) e Shemu (colheita). Durante o período da inundação, os egípcios analisam e predizem as condições favoráveis para planejar a capacidade de cultivo. Durante o plantio, agricultores utilizam arados puxados por bois para plantar as sementes, que são irrigadas pelo sistema de diques. Enfim, na Colheita, os agricultores usam foices e depois debulham o produto com um mangual para separar a palha do grão e colocá-lo em sacas nos celeiros reais para posterior distribuição.

A criação de animais de forma equilibrada é um elemento essencial da ordem cósmica. Os bovinos são os animais mais importantes, com o tamanho do rebanho refletindo o prestígio e a importância de uma pessoa. Além do gado, egípcios também criam caprinos, ovinos, suínos e aves. As abelhas também foram domesticadas para fornecer o mel. Cavalos e camelos são bastante utilizados como um animal de carga.

A caça também é uma atividade econômica importante. Embora menos essencial, os egípcios complementam sua dieta com a captura de lebres, antílopes, aves, hipopótamos e crocodilos por meio de redes, arcos e lanças, assim como pescam com o emprego de anzóis e arpões. É comum o uso de cães, hienas e leopardos domesticados para auxiliá-los nessa atividade.

Gravura do Livro Descrições do Egito. Governo da França (1809-1823.

O Comércio

O Egito é abundante em rochas nobres e metais preciosos, o que permite seus habitantes a construir monumentos, esculpir estátuas e fazer joias. Há extensas minas de ouro na Núbia, fontes de calcário no Vale do Nilo e jazidas de granito ao redor de Elefantine. Todas estas são regiões mais ao sul do Nilo. Além disso, através de lavagem, são coletadas pepitas de ouro aluvial e, através da moagem, se consegue o quartzito de ouro. Também ao sul se encontram depósitos preciosos de pórfiro, quartzo, feldspato verde, ágata, diorito, grauvaque, berilo, alabastro, cornalina, esmeralda e ametista.

A economia está organizada a nível central e é estritamente controlada. Embora os egípcios não utilizem moedas, eles criaram um peso padrão para as peças de cobre e prata. Este peso padrão se chama de “Deben”, cujo valor é capaz de comprar uma saca de grãos (250 kgs). Todo trabalhador possui um salário mínimo de cinco Deben de cobre por mês, sendo os preços dos produtos fixados em todo o país e registrados em listas para facilitar a negociação. Por exemplo, uma camisa custa cinco Deben enquanto uma vaca custa mais de cem Deben.

Os egípcios fazem intenso comércio com seus vizinhos para obter mercadorias raras e exóticas. Eles estabeleceram o comércio com a Núbia ao sul para a obtenção de plumas de avestruz, peles de leopardo, incenso, ébano e marfim. Também estabeleceram o comércio com a Fenícia ao leste, para obter produtos de cerâmica e tipos variados de tecido. E, com a Anatólia ao norte, conseguem suplementar a necessidade de estanho e cobre para a fabricação de bronze.

 

A Sociedade

Adrien Guignet 1816-1854

A sociedade é extremamente hierarquizada e patriarcal, com o homem administrando o lar. Os anciãos são consultados e honrados após a morte. No entanto, todos no Egito são iguais perante a lei; seja homem ou mulher, camponês ou palaciano. Todos tem o direito de possuir e vender imóveis; fazer contratos; se casar e se divorciar; receber herança; ter litígios em tribunal; e muito mais. Os casais podem possuir bens em conjunto e as mulheres dispõem de grande oportunidade de enriquecimento mesmo sem um marido.

O casamento é monogâmico, mas não existe uma cerimônia formal para firmá-lo. Basta um casal afirmar que queira coabitar para a união ser aceita. Por vezes, as festas realizadas são apenas para se apresentarem na sociedade como casal e comemorar entre amigos. Os homens se casam geralmente entre os dezesseis e os dezoito anos e as mulheres por volta dos doze e catorze anos. Por serem as mulheres as transmissoras do sangue real, como forma de legitimação do poder, é comum o casamento entre irmãos nas cortes palacianas; ou mesmo entre um pai e alguma de suas filhas. Os homens com uma posição econômica mais elevada podem ter uma esposa legítima (“a senhora da casa”), além de várias concubinas, o que é visto como um sinal de riqueza. No entanto, é proibido às mulheres terem mais de um homem, sendo punido com a morte.

A música e a dança são os entretenimentos mais populares, sendo os instrumentos musicais mais utilizados a flauta e a harpa. É comum também o uso de sinos, címbalos e tamborins; e chocalho/sistro é especialmente importante em cerimônias religiosas. O faraó está sempre acompanhado de músicos e dançarinas para divertimento dos presentes. Além da música, outros tipos de diversão incluem os passeios de barco, caça esportiva e jogos de tabuleiro como o Senet, cujas peças mudam ao acaso, e Mehen, com tabuleiro em forma de serpente.

 

Lawrence Alma-Tadema (1836–1912)

O Sexo

A vida de casado é um pilar da sociedade egípcia. Eles não veem com bons olhos que homens e mulheres tenham experiências sexuais antes do casamento. A troca do sexo por recursos financeiros também é considerada uma desonra aos envolvidos de forma que a prostituição ocorre à margem da sociedade. Até mesmo o sexo em homenagem aos deuses, tão comuns em outras culturas, não é praticado no Egito apesar da tentativa de trazer o culto de Afrodite e Ishtar sob o nome da deusa local Qetesh tenha encontrado alguns poucos adeptos. Todas essas características contribuem para que praticamente todos homens e mulheres já estejam casados antes dos vinte anos de idade.

As  relações homossexuais masculinas são extremamente danosas à honra de um indivíduo. Na própria religião, o trapaceiro deus Set tentou humilhar o seu rival Hórus quando o embriagou num banquete e tentou o estuprar. O deus da trapaça desejava causar tamanha vergonha em Hórus com esse ato que este teria que abandonar o panteão divino. O deus-falcão, no entanto, conseguiu evitar que essa desonra recaísse sobre ele ao dissimular sua embriaguez. Por outro lado, o casamento entre irmãos não é visto com tanto tabu, sendo comumente utilizado entre faraós e nobres para manter heranças e privilégios dentro de uma só família.

Apesar do pudor egípcio com o sexo homossexual masculino e com o sexo fora do casamento, é permitido ao homem casado sustentar outras mulheres. Estas passam a ser consideradas suas concubinas que, embora não tenham o mesmo direito da esposa oficial, devem ser tratadas dignamente e ter boa convivência entre si. O próprio relacionamento sexual de um homem com vários mulheres é chamado por todo o mundo como “sexo egípcio”. No entanto, esse tipo de relação poligâmica não é tão disseminado na população geral em razão dos custos necessários para se manter várias esposas e seus filhos, estando mais presente nas camadas mais ricas da sociedade.

 

A População

A população egípcia é quase inteiramente formada de artesãos e camponeses. Os artesãos trabalham em diversas atividades como tecelões, pintores, barbeiros, cozinheiros, barqueiros, ceramistas, escultores, joalheiros, ferreiros e outras profissões. Eles vendem seus produtos nos mercados e recebem por serviços prestados. Os camponeses, que formam a grande maioria, são os agricultores, pecuaristas e pescadores, que produzem a maior riqueza do Egito. No entanto, seu produto é considerado propriedade do Estado, de forma que eles estão sujeitos a impostos e são obrigados a trabalhar na construção de obras públicas durante a estação do ano chamada de Akhet (inundação).

As habitações geralmente são pequenas e construídas com tijolos de barro que mantém um frescor no ambiente mesmo no calor do dia. A cozinha tem um teto aberto para liberar a fumaça produzida ao cozer pão. As paredes são pintadas de branco e ornadas com tapetes de linho tingido. Os pavimentos são cobertos com esteiras de palha. E a mobília é composta de bancos de madeira, camas levantadas a partir do piso e mesas individuais.

Os egípcios valorizam a higiene e a aparência pessoal. Eles se banham diariamente no Nilo e usam sabão pastoso feito de gordura e giz. Tanto homens quanto mulheres raspam todo o corpo para facilitar asseio corporal e estão sempre bem perfumados, utilizando óleos aromatizados e pomadas para manter a pele sempre suave. Ambos também usam maquilagem, em especial, o creme verde de malaquita nas pálpebras para desenhar uma linha de kohl preto para alongar os olhos. Eles também colocam pó de ocre nas bochechas e lábios; e pintam as palmas das mãos e a sola dos pés com hena.

As mulheres vestem um vestido de linho branco e os homens uma tanga, com tecido enrolado na cintura. É comum andarem descalços ou usarem sandálias de junco amarradas com barbante. As crianças ficam sem roupas até os doze anos de idade, até que nessa idade os homens são circuncisados como sinal de transição. É comum, tanto de homens quanto de mulheres, o uso de perucas e joias por serem itens que mostram ascensão social, mas esses apetrechos também são usados pela população menos abastada da sociedade. As joias podem ser diademas, colares, brincos, pulseiras, anéis e cintos, que são feitas com materiais nobres como ouro, prata, cobre ou cerâmica, incrustada com pedras preciosas ou pasta de vidro colorido.

 

A Nobreza

Sir Edward Poynter 1836-1919

As classes mais abastadas são chamadas de “Saiotes Brancos” em referência ao vestuário de linho decorado que trajam, muitas vezes costurados com fios de ouro ou complementados com peles de animais. As sandálias são mais sofisticadas, de couro costurado com linha de papiro. E o uso de joias é praticamente obrigatório. Os mais altos cargos políticos são Nomarcas, governantes das cidades-estados, e seus Vizires, título dado ao segundo em comando. Os sacerdotes e escribas vêm a seguir, tendo a função de administrar os templos, cobrar impostos, organizar as leis e transcrever escritos como poemas, hinos, histórias e cartas.

As crianças iniciam sua educação básica no seio familiar. Os meninos aprendem com seus pais princípios éticos, visões da vida, conduta social e os ritos populares. As meninas aprendem com suas mães economia doméstica, culinária e a confecção de roupas; embora elas também podem aprender a tocar instrumentos, cantar, dançar, ler, escrever e trabalhar com operações aritméticas. No processo educacional dessas classes abastadas se utiliza os chamados “Livros de Instrução”, que contém regras para se viver ordenadamente em sociedade e elementos morais tais como justiça, sabedoria, obediência, bondade e moderação.

Acima de todos, no topo da hierarquia social, está o faraó, que possui poderes absolutos, tomando decisões militares, religiosas, econômicas e judiciais. Eles são facilmente reconhecidos por suas vestimentas ornadas de muitos símbolos de poder que incluem o “pschent”, que é a dupla coroa em sua cabeça, com uma joia na testa esculpida na forma de uma cobra e um abutre. Além disso, também são utilizados o cetro, a crossa, o chicote e a barba postiça em homenagem ao primeiro faraó.

 

Sir Edward Poynter 1836-1919

Os Escravos

Os escravos são todos os homens e mulheres submetidos ao trabalho forçados, por serem considerados uma propriedade de outra pessoa. São pessoas que não possuem bens e não recebem salários pelo seu trabalho, lhes sendo dado apenas abrigo e alimentação. Geralmente, sofrem essa condição por serem prisioneiros de guerra, criminosos condenados ou pessoas que se venderam para pagar dívidas.

Esses escravos, no entanto, são raros no Egito. Afinal, como os camponeses são obrigados a trabalhar para o Faraó nos períodos de Inundação do rio Nilo, quando não há trabalho na agricultura, não há a necessidade de escravos do próprio Faraó. Mesmo os prisioneiros de guerra e os endividados com a tributação real, o Faraó os entrega aos seus soldados como espólios de guerra ou aos sacerdotes para o trabalho no templo, mostrando que realmente não há o desejo do Palácio em acumulá-los.

Além disso, esses escravos são protegidos pelo código de justiça egípcio. O senso de certo e errado previsto no Ma’at impede que um escravo possa ser morto por seu senhor. Mesmo castigos corporais devem ser justificados numa Corte de Kenbet caso sejam excessivos. Além disso, as crianças nascidas escravas não são obrigadas a trabalhar para o senhor até sua maturidade, lhes sendo permitido viver sua infância. Desta forma, percebe-se que o conceito de escravidão no Egito, na verdade, é bem diferente daquele existente em outros povos.

 

O Exército

O exército egípcio é centralizado e liderado pelo Faraó. Ele é responsável pela defesa de todo o Egito contra invasões estrangeiras, mas também deve manter a dominação egípcia nos seus territórios. No deserto, patrulheiros vigiam as fronteiras e defendem as rotas comerciais contra bárbaros nômades. No Delta e no Vale do rio Nilo, guardas rurais defendem os cobradores de impostos e policiam as cidades contra baderneiros e ladrões. Além disso, também são os grandes aplicadores da justiça nas Cortes de Kenbet.

Os soldados são recrutados dentre a população geral recebendo bons salários para exercer suas funções. Prisioneiros de guerra podem ser incorporados ao exército com todos os direitos de um cidadão egípcio livre. Mercenários podem ser contratados em situações especiais. Os equipamentos militares típicos incluem arcos e flechas, machados, clavas, lanças e escudos redondos feitos por estiramento de pele de animais sobre uma armação de madeira. Geralmente, os soldados egípcios não usam armaduras, deixando o peito nu. No entanto, muitos os oficiais podem vestir placas metálicas protetoras.

O exército e a marinha são complementares entre si, assim, agem como uma força militar única. Os navios transportam as tropas e os oficiais exercem ambas as funções militares e navais. Recentemente, o exército começou a usar bigas e cavalos que haviam sido introduzidos na guerra anterior contra os povos Hicsos, liderados pelo deus Set. E os egípcios têm ganhado maestria nessa habilidade.