Livro das Perseguições

Livro das Perseguições

 

I – Imperador Galo

  1. O imperador Décio, que não reinou um par de anos completos, pois em seguida foi degolado junto com seus
    filhos, foi sucedido por Galo. [Eusébio 7.1.1]
  2. Neste tempo morre Orígenes, já cumpridos sessenta e nove anos de sua vida. [Eusébio 7.1.1]
  3. O bispo de Alexandria chamado Dionísio, por sua parte, escrevendo a Hermamon, falou sobre Galo o imperador Galo: [Eusébio 7.1.1]
  4. “Acontece que Galo nem reconheceu o mal de Décio nem teve a precaução de examinar o que o derrubou, mas veio a estatelar-se contra a mesma pedra que estava diante de seus olhos.” [Eusébio 7.1.1]
  5. “Quando o império andava bem e os assuntos se resolviam a um pedido, expulsou os santos varões que
    perante Deus intercediam por sua paz e por sua saúde.” [Eusébio 7.1.1]
  6. “Em consequência, junto com os santos, perseguiu também as orações feitas em seu favor.” [Eusébio 7.1.1]
  7. Na cidade de Roma, depois que Cornélio exerceu o episcopado em torno de três anos, estabeleceu-se como seu sucessor a Lúcio. [Eusébio 7.2.1]
  8. Este viveu em seu ministério algo menos que oito meses, e ao morrer transmitiu seu cargo a Estevão. [Eusébio 7.2.1]
  9. É a este que Dionísio escreve sua primeira carta Sobre o batismo, já que na época havia-se levantado um importante problema. [Eusébio 7.2.1]
  10. Questionou-se se deveria purificar de novo com o batismo aos que se convertiam de uma heresia qualquer. [Eusébio 7.2.1]
  11. Havia prevalecido ao menos um costume antigo: usar com estas pessoas apenas a oração com imposição de mãos. [Eusébio 7.2.1]
  12. Cipriano, pastor da igreja de Cartago e mais importante dos de então, afirmou que não se deveria admitir quem não tivesse primeiramente sido purificado do erro mediante o batismo. [Eusébio 7.3.1]
  13. Mas Estevão, por outro lado, julgando que não se deveria juntar inovação nenhuma contrária à tradição que havia prevalecido desde o princípio, desagradou-se muito com ele. [Eusébio 7.3.1]
  14. Dionísio tratou longamente do assunto com ele por carta, e no final mostra-lhe que, uma vez acalmada a perseguição, todas as igrejas de todas as partes rechaçaram a inovação de Novato e recuperaram a paz umas com as outras. [Eusébio 7.4.1]
  15. Ele escreveu: “Saiba agora, irmão, que se uniram todas as igrejas que anteriormente se achavam separadas, as do Oriente e as de mais longe ainda.” [Eusébio 7.5.1]
  16. “Todos os que as presidem em todas as partes têm o mesmo sentimento, extremamente contentes com esta paz inesperada.” [Eusébio 7.5.1]
  17. Demetriano em Antioquia, Teoctisto em Cesaréia, Mazabanes em Elia, Marino em Tiro, Heliodoro em Laodicéia (falecido Telimidro), Heleno em Tarso e todas as igrejas da Cilicia.” [Eusébio 7.5.1]
  18. Assim como Firmiliano e toda a Capadócia, pois Nomeio somente os bispos mais eminentes, para não alongar minha carta nem tornar pesado meu discurso. [Eusébio 7.5.1]
  19. As duas Sírias inteiras e a Arábia, às quais em todos os momentos socorrestes e às quais agora tens escrito, assim como Mesopotâmia, o Ponto e Bitínia. [Eusébio 7.5.2]
  20. Dizem em uma palavra, todas, por toda parte, saltam de alegria e glorificam a Deus por esta concórdia e amor fraterno.” [Eusébio 7.5.2]
  21. Quanto a Estevão, depois de ter cumprido seu ministério durante dois anos, sucede-o Sixto. [Eusébio 7.5.3]
  22. Escrevendo a este sua segunda carta sobre o batismo, Dionísio expõe conjuntamente a opinião e a sentença de Estevão e dos demais bispos. [Eusébio 7.5.3]
  23. Sobre Estevão diz o seguinte: “Havia ele pois escrito anteriormente sobre Heleno e também sobre Firmiliano e todos da Cilicia, da Capadócia e, evidentemente, da Galácia e de todos os povos limítrofes.” [Eusébio 7.5.4]
  24. “Daí em diante não estariam em comunhão com eles, por esta mesma razão, porque diziam que rebatizam os hereges.”” [Eusébio 7.5.4]
  25. “Considera-se a magnitude do assunto, porque, em realidade, haviam-se tomado decisões sobre isto nos maiores concílios de bispos, segundo minhas informações.” [Eusébio 7.5.5]
  26. Deste modo, aos que provinham das heresias, se fazia passar novamente por um catecumenato. Depois os lavavam e purificavam novamente da sujeira de seu antigo e impuro fermento. [Eusébio 7.5.5]
  27. “Os nossos amados co-presbíteros Dionísio e Filemon primeiramente pensavam como Estevão. [Eusébio 7.5.6]
  28. Eles me escrevem sobre os mesmos assuntos, mas escrevi-lhes primeiro brevemente e agora com muito mais amplitude.” [Eusébio 7.5.6]

II – Heresia de Sabélio

  1. Isto é o que há sobre a questão mencionada, mas na mesma carta Dionísio falou também dos hereges de Sabélio, que em seu tempo prevaleciam. [Eusébio 7.6.1]
  2. Acerca da doutrina agora surgida em Ptolemaida de Pentápolis, era uma doutrina ímpia e que contém muitas blasfêmias sobre o Deus-Todo-poderoso, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. [Eusébio 7.6.1]
  3. Era um doutrina também de muita incredulidade no que se refere a seu Filho unigênito, o primogênito de toda a criação, o Verbo feito homem. [Eusébio 7.6.1]
  4. “Assim como era também falta de sensibilidade para o Espírito Santo, como chegassem de todas as partes manifestos e irmãos com a intenção de discuti-lo.” [Eusébio 7.6.1]
  5. Dionísio diz que escreveu algumas coisas conforme minhas possibilidades e com ajuda de Deus, explicando-as de uma maneira bastante didática. [Eusébio 7.6.1]
  6. Em sua terceira das cartas sobre o batismo a que o próprio Dionísio escreve a Filemon, presbítero
    de Roma, expõe-se o seguinte:  “Eu também li as obras e as tradições dos hereges”  [Eusébio 7.7.1]
  7. “Por breve tempo manchei minha alma com seus infames pensamentos, mas disso tirei uma vantagem: poder refutá-los por mim mesmo e abominá-los com muito mais força.” [Eusébio 7.7.1]
  8. “Em realidade, um irmão, um dos presbíteros, separava-me e me metia medo, porque me deixava
    envolver no pântano da maldade daqueles.” [Eusébio 7.7.2]
  9. “De fato eu estava manchando minha alma e ele, como comprovei, dizia a verdade.” [Eusébio 7.7.2]
  10. Uma visão enviada por Deus veio a dar-me forças e uma voz se dirigiu a mim e me ordenou. [Eusébio 7.7.3]
  11. Disse expressamente: ‘Leia tudo o que cair em tuas mãos, pois tu és bastante para emendar e provar cada coisa. Isto tens desde o princípio e foi causa de tua fé’. [Eusébio 7.7.3]
  12. Eu aceitei a visão, que concordava bem com a sentença apostólica que diz aos mais robustos: Sede cambistas experimentados.” [Eusébio 7.7.3]
  13. “Eu recebi esta regra e este modelo de nosso bem-aventurado papa Heraclas. Efetivamente, aos que provinham das heresias, ainda que houvessem se separado da Igreja. [Eusébio 7.7.4]
  14. “E com maior razão aos que não haviam se separado, mas que, sendo membros da congregação somente em aparência, na realidade era-lhes atribuído estar relacionado com algum dos mestres hereges.” [Eusébio 7.7.4]
  15. “Ele Expulsava-os da Igreja e não os admitia, ainda que pedissem, até que houvessem exposto publicamente tudo o que houvessem escutado entre os adversários.” [Eusébio 7.7.4]
  16. “Então os admitia à assembléia, sem exigir para eles um novo batismo, uma vez que já haviam anteriormente recebido dele o santo banho.” [Eusébio 7.7.4]
  17. “Aprendi também que não somente os africanos introduziram agora este costume, mas que isto foi decidido muito antes.
  18. Ele foi decidido nos tempos dos bispos que nos precederam nas igrejas mais populosas e nos concílios dos irmãos, em Iconio, em Sinade e em muitas partes. [Eusébio 7.7.5]
  19. Não me atrevo a subverter suas decisões e fazê-las entrar em luta e rivalidade, porque não mudarás de lugar, diz-se, os marcos de teu vizinho que teus pais puseram.” [Eusébio 7.7.5]
  20. A quarta de cartas de Dionísio sobre o batismo ele escreveu a Dionísio em Roma, então honrado com o presbiterado, mas que não muito depois recebeu também o episcopado daquela igreja. [Eusébio 7.7.6]
  21. Por esta carta pode-se reconhecer como este era um homem ilustrado e admirável, segundo atesta Dionísio
    de Alexandria, que depois de outras coisas escreve-lhe fazendo menção ao assunto de Novato. [Eusébio 7.7.6]
  22. “Porque a Novaciano odiamos com razão, pois cindiu a Igreja, arrastou alguns irmãos à impiedade e à blasfêmia.” [Eusébio 7.8.1]
  23. Ele transmitiu também um ensinamento sacrílego sobre Deus, caluniou nosso bondoso Senhor Jesus Cristo acusando-o de ser impiedoso. [Eusébio 7.8.1]
  24. E, por complemento a todo o dito, anulava o santo batismo, subvertia a fé e a confissão que o precedem, e expulsava por completo o Espírito Santo dos mesmos. [Eusébio 7.8.1]
  25. “Fazendo-o ainda que houvesse alguma esperança de que permanecesse ou inclusive de que voltasse a eles.” [Eusébio 7.8.1]

III – Sobre os Batismos

  1. Também a quinta carta de Dionísio foi escrita ao bispo de Roma Sixto. [Eusébio 7.9.1]
  2. Nela, depois de dizer muitas coisas contra os hereges, expõe nos seguintes termos algo ocorrido em seu tempo. [Eusébio 7.9.1]
  3. Ele disse: “De fato, irmão, também eu necessito conselho e peço teu parecer para um assunto importante que me foi apresentado, e temo equivocar-me.” [Eusébio 7.9.1]
  4. “Efetivamente, um dos irmãos admitidos à comunidade, fiel antigo, segundo críamos, formava parte da assembleia já muito antes de minha ordenação e antes de instalar-se o bem-aventurado Heraclas.” [Eusébio 7.9.2]
  5. “Achando-se junto aos recém-batizados e tendo escutado as perguntas e as respostas, acercou-se de mim chorando e lamentando-se.” [Eusébio 7.9.2]
  6. “Ele caiu aos meus pés, e confessava e jurava que o batismo com que havia sido batizado entre os hereges não era este.” [Eusébio 7.9.2]
  7. “Nem tinha absolutamente nada em comum com ele, já que aquele estava cheio de impiedade e blasfêmias.” [Eusébio 7.9.2]
  8. “Ele dizia que agora tinha a alma inteiramente trespassada pela dor e que não se atrevia sequer a levantar os olhos para Deus.” [Eusébio 7.9.3]
  9. “Pois tinha começado naquelas palavras e práticas sacrílegas, e por isto pedia poder obter esta purificação, esta acolhida, esta graça puríssima.” [Eusébio 7.9.4]
  10. “Isto precisamente é o que eu não ousei fazer, e lhe disse que bastava para isto a comunhão em que estava admitido há tão longo tempo.” [Eusébio 7.9.4]
  11. “Eu efetivamente não poderia atrever-me a rebatizar alguém que ouviu a Eucaristia e que respondeu com os outros ao Amem. [Eusébio 7.9.4]
  12. “Ele esteve de pé ante a mesa, estendeu suas mãos para receber o sagrado alimento, recebeu-o e durante bastante tempo e participou no corpo e no sangue de nosso Senhor. [Eusébio 7.9.4]
  13. “Eu exortava-o a ter ânimo e a acercar-se e participar das coisas santas com fé segura e boa esperança.” [Eusébio 7.9.4]
  14. “Mas ele não parou de chorar e tremeu ao acercar-se à mesa, e apenas depois de muitos pedidos conseguiu acompanhar-nos de pé nas orações.” [Eusébio 7.9.5]
  15. Além das cartas citadas, conserva-se também de Dionísio outra sobre o batismo, que ele e a comunidade que governava dirigem a bispo Sixto e à sua igreja em Roma. [Eusébio 7.9.6]
  16. Nela expõe a doutrina acerca do problema comentado, por meio de uma longa demonstração. [Eusébio 7.9.6]
  17. Também se conserva dele, depois destas, outra dirigida a Dionísio de Roma, a que trata de Luciano.
  18. Estas são todas as cartas que há sobre eles. [Eusébio 7.9.6]

IV – Imperador Valeriano

  1. O imperador Galo e sua equipe, depois de terem detido o comando quase dois anos, foram derrotados,
    sucederam-lhes no governo Valeriano e seu filho Galieno. [Eusébio 7.10.1]
  2. Outra vez pois, nos é dado conhecer o que conta Dionísio por sua carta dirigia a Hermamon. [Eusébio 7.10.2]
  3. Ele leva sua narrativa da seguinte maneira: “E também ao apóstolo João foi igualmente revelado.’ [Eusébio 7.10.2]
  4. Foi-lhe dada, diz, uma boca que profere arrogâncias e blasfêmias, e lhe foram dados poder e quarenta e dois meses.” [Eusébio 7.10.2]
  5. “Ambas as coisas são de admirar em Valeriano, e sobretudo deve-se considerar como era no princípio, como era favorável e benevolente para com os homens de Deus. [Eusébio 7.10.3]
  6. “Nenhum outro imperador, nem mesmo aqueles que se diz que foram abertamente cristãos, tiveram uma disposição tão favorável e acolhedora.” [Eusébio 7.10.3]
  7. “No começo recebia-os com uma familiaridade e uma amizade manifestas, e toda sua casa estava cheia de homens piedosos e era uma igreja de Deus.” [Eusébio 7.10.4]
  8. “Mas o mestre e chefe supremo dos magos do Egito conseguiu persuadi-lo a se desembaraçar deles. [Eusébio 7.10.4]
  9. “Ele ordenava ao imperador matar e perseguir os puros e santos varões, porque eram contrários e obstáculo de seus infames e abomináveis encantamentos.” [Eusébio 7.10.4]
  10. “Pois estes varões eram efetivamente capazes, com sua presença e com sua vista, e mesmo somente com sua respiração e o som de suas vozes, de destruir as armadilhas dos pestíferos demônios. [Eusébio 7.10.4]
  11. “Ele sugeria ao imperador realizar iniciações impuras, sortilégios abomináveis e ritos de maus auspícios.” [Eusébio 7.10.4]
  12. “Assim como degolar pobres crianças, imolar filhos de pais desafortunados, abrir entranhas de recém nascidos e cortar e despedaçar as criaturas de Deus,  como se por isso tudo pudessem ser felizes.” [Eusébio 7.10.4]
  13. “Em consequência, Macriano ofereceu aos demônios bons sacrifícios de ação de graças pelo império que
    esperava. [Eusébio 7.10.5]
  14. “Ele, que no princípio havia estado à frente das contas universais do imperador, não teve um só pensamento razoável nem universal.” [Eusébio 7.10.5]
  15. “Ele caiu sob a maldição do profeta que diz: Ai dos que profetizam segundo seu próprio coração e não veem o universal!” [Eusébio 7.10.6]
  16. “E não compreendeu a providência universal nem temeu o juízo do que está antes de tudo, através de tudo e sobretudo, pelo que converteu-se em inimigo da Igreja universal.” [Eusébio 7.10.6]
  17. “Ele se tornou alheio e desterrou a si mesmo da misericórdia de Deus, e fugiu para muito longe de sua própria salvação, mostrando nisto a verdade de seu próprio nome, que significa distante.” [Eusébio 7.10.6]
  18. “O imperador Valeriano, de fato, induzido por tais excessos, viu-se objeto de insultos e ultrajes tendo sido derrotada várias vezes por seus inimigos.” [Eusébio 7.10.7]
  19. “Ele sofreu segundo a sentença de Isaías sobre os que escolheram para si os caminhos e as abominações que sua alma quis; pois eu não preferirei suas zombarias e hei de recompensar seus pecados.” [Eusébio 7.10.7]
  20. “Macriano, por sua vez desejava loucamente o império para si, apesar de não merecê-lo.” [Eusébio 7.10.8]
  21. “E não podendo revestir com os ornamentos imperiais seu corpo aleijado, propôs seus dois filhos, que assim receberam os pecados paternos.” [Eusébio 7.10.8]
  22. “Pois foi bem clara neles a predição feita por Deus: Eu, que castigo os pecados dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam.” [Eusébio 7.10.8]
  23. “Com efeito, ao lançar seus próprios malvados desejos, que se haviam frustrado, sobre as cabeças de seus filhos, também lhes transferiu sua própria maldade e seu ódio a Deus.” [Eusébio 7.10.9]

V – Imperador Macriano

  1.  Por outro lado, quanto à perseguição de seu tempo, que crescia terrivelmente, as próprias palavras de Dionísio, dirigidas contra Germano, um bispo de seu tempo que tentava difamá-lo, declaram quanto ele e
    outros tiveram que suportar por causa de sua piedade para com o Deus do universo. [Eusébio 7.11.1]
  2. Expõe-no da seguinte maneira: “Mesmo assim, realmente corro o perigo de cair em grande loucura e estupidez se me vejo obrigado a expor a admirável dispensação de Deus para conosco.” [Eusébio 7.11.2]
  3. “Como é bom ocultar o segredo do rei, mas glorioso revelar as obras de Deus, revelarei a violência de
    Germano.” [Eusébio 7.11.2]
  4. “Eu não vim só ante Emiliano, prefeito do Egito, mas acompanhavam-me meu co-presbítero Máximo e os diáconos Fausto, Eusébio e Queremon; e conosco entrou um dos irmãos de Roma ali presentes.” [Eusébio 7.11.3]
  5. “Emiliano não me disse primeiro em bom tom: ‘Não tenham reuniões’, porque isto seria supérfluo e sem importância para ele, que ia direto ao assunto. [Eusébio 7.11.4]
  6. “Porque para ele, a questão não era que não nos reuníssemos com outros, mas que nós mesmos não fôssemos cristãos.” [Eusébio 7.11.4]
  7. “Por isso nos intimava a deixar de sê-lo, pensando que se eu mudasse de parecer os outros me seguiriam.” [Eusébio 7.11.4]
  8. “Mas eu dei uma resposta que não se diferenciava muito nem se afastava do Há que se obedecer mais a Deus do que aos homens!” [Eusébio 7.11.5]
  9. Abertamente testemunhei que adoro ao Deus único e a nenhum outro, e que jamais mudaria de parecer nem deixaria de ser cristão. [Eusébio 7.11.5]
  10. Então ele nos ordenou andar até uma aldeia próxima ao deserto, chamada Kefró. [Eusébio 7.11.5]
  11. “Introduzidos Dionísio, Fausto, Máximo, Marcelo e Queremon, o governador Emiliano disse que verbalmente conversou com eles sobre a humanidade a eles empregada. [Eusébio7.11.6]
  12. “Disse que Efetivamente lhes dava o poder de se salvar, contanto que voltassem ao que considerava conforme a natureza, que era adorar os deuses salvadores de império e esquecer do que é contrário.” [Eusébio 7.11.7]
  13. “E perguntou o que diziam pois a isto, Pois esperava que eles não fossem  uns ingratos para com esta sua
    humanidade, posto que os estão exortando ao melhor’.” [Eusébio 7.11.7]
  14. Dionísio respondeu: “Nem todos adoram a todos os deuses, mas cada um adora aos que crê que o são, e assim nós rendemos culto e adoramos ao Deus único e criador de todas as coisas.” [Eusébio 7.11.8]
  15. “O Deus o que pôs também o império nas mãos dos augustos Valeriano e Galieno, amados de Deus, e ao imperador dirigimos continuamente nossas súplicas pelo império, com o fim de que permaneça inabalável.” [Eusébio 7.11.8]
  16. Emiliano, que exercia como governador, disse: “Pois, quem vos impede de adorar também a este, se é que é Deus, com os deuses que o são por natureza?”
  17. E afirmou: “Porque vos é ordenado dar culto aos deuses, e a deuses que todo o mundo conhece.” [Eusébio 7.11.9]
  18. Dionísio respondeu: “Nós não adoramos a nenhum outro”. [Eusébio 7.11.9]
  19. Emiliano disse: “Estou vendo que vós sois não somente ingratos, mas também insensíveis à mansidão de nossos augustos.” [Eusébio 7.11.10]
  20. “Não ireis permanecer na cidade, mas sereis deportados às regiões da Líbia, a um lugar chamado Kefró.” [Eusébio 7.11.10]
  21. “É o local que escolhi, por mandato de nossos augustos, e de nenhuma maneira vos será permitido, nem a vós nem a nenhum outro, fazer reuniões ou entrar nos chamados cemitérios.” [Eusébio 7.11.10]
  22. “Agora bem, se acontecer que algum de vós não se apresentar no lugar que lhe mandei ou for encontrado em reunião com alguém, sobre si mesmo terá chamado o perigo.” [Eusébio 7.11.11]
  23. “Pois não lhe há de faltar a necessária vigilância e assim retirai-vos pois para onde vos mandei”. [Eusébio 7.11.11]
  24. Assim, apesar de Dionísio se achar doente, Emiliano o obrigou a sair apressadamente, sem dar sequer o prazo de um dia. [Eusébio 7.11.11]
  25. Que tempo tinha ele, pois, para convocar ou não convocar uma reunião?” [Eusébio 7.11.11]

VI – Dionísio em Kefró

  1. Felizmente, com a ajuda de Deus, nem sequer da reunião visível eles se abstiveram. [Eusébio 7.11.12]
  2. Por uma parte os cristãos da cidade colocaram grande empenho em se reunir como se Dionísio estivesse com eles: ausente com o corpo, mas presente com o espírito. [Eusébio 7.11.12]
  3. Por outra parte, em Kefró veio a habitar com eles uma igreja numerosa, pois alguns irmãos lhes seguiam da cidade e outros juntavam-se a eles desde o Egito [Eusébio 7.11.12]
  4. Ali mesmo em Kefró Deus lhes abriu uma porta para a palavra. No início, é verdade, os perseguiram e os apedrejaram, mas logo alguns pagãos, muitos, deixaram os ídolos e se converteram a Deus.” [Eusébio 7.11.13]
  5. “Nunca antes tinham recebido a palavra, e só então semeava-se entre eles pela primeira vez, graças a Dionísio e seus companheiros.” [Eusébio 7.11.12]
  6. “É como se Deus tivesse os conduzido até os pagãos para esta causa, pois assim que cumpriram este ministério, novamente lhes afastou. [Eusébio 7.11.14]
  7. “De fato, Emiliano quis os trasladar a lugares aparentemente ainda mais ásperos e mais líbicos.” [Eusébio 7.11.14]
  8. “Ele mandou que os de todas as partes confluíssem para Mareota, depois de designar para cada um uma
    aldeia da região.” [Eusébio 7.11.14]
  9. “Mas a Dionísio e os seus companheiros colocou mais aldeias no caminho, para lhes prender em primeiro lugar.” [Eusébio 7.11.14]
  10. “Era evidente que ia dispondo e preparando tudo de modo que, quando quisesse prender-lhes todos, pudesse ter-lhes bem à mão.” [Eusébio 7.11.14]
  11. “Quando ordenaram partir para Kefró, por mais que ignorasse em que direção se achava este lugar, pois quase não se tinha ouvido sequer o nome antes, ainda assim, Dionísio partiu animado e tranquilo. [Eusébio 7.11.15]
  12. Mas quando anunciaram que ele deveria trasladar à região de Colutio, os que estavam presentes sabem como isso lhe afetou. [Eusébio 7.11.15]
  13. Na mesma hora o molestou e o tomou por grande mal, porque, ainda que esses lugares não fossem mais conhecidos ou familiares, ainda assim, afirmava-se que a região carecia de cristãos e de homens honrados. [Eusébio 7.11.16]
  14. No entanto, em troca, ele se achava exposto às moléstias dos viajantes e às incursões dos salteadores. [Eusébio 7.11.16]
  15. Ele consegui porém se consolar na recordação dos irmãos que estavam mais perto da cidade. [Eusébio 7.11.17]
  16. Afinal, em Kefró tinha numerosas relações com os irmãos vindos do Egito ao ponto de poder ter
    assembléias mais amplas. [Eusébio 7.11.17]
  17. Ali, por outro lado, com a cidade mais perto, poderia gozar mais frequentemente da visão dos que verdadeiramente eram muito amados e da maior intimidade e amizade,. [Eusébio 7.11.17]
  18. Pois eles viriam e se hospedariam, e como nos bairros mais afastados, haveria reuniões parciais, e assim sucedeu. [Eusébio 7.11.17]

VII – Mais Martírios

  1. Depois de outras coisas, Dionísio ainda escreve o seguinte acerca do que lhe sucedeu: “Germano se gaba de muitas confissões de fé diante das autoridades!” [Eusébio 7.11.18]
  2. “Ao menos pode dizer que é muito o que houve contra ele, tanto quanto pode enumerar de nós: sentenças, confiscos, proscrições, despojo dos bens, destituição de dignidades, indiferença pela glória mundana, desprezo de elogios de governantes e senadores, inclusive dos contrários.” [Eusébio 7.11.18]
  3. “Também suportar ameaças, gritarias hostis, perigos, perseguições, vida errante, angústias toda classe de tribulações, as mesmas que me sucederam sob Décio e Sabino e mesmo agora sob Emiliano.” [Eusébio 7.11.18]
  4. “Mas, de onde apareceu Germano? Que documento há sobre ele? Pois bem, estou cansado desta
    grande loucura em que vou caindo por culpa de Germano.” [Eusébio 7.11.19]
  5. “Pelo mesmo motivo desisto também de dar explicações detalhadas dos acontecimentos aos irmãos que já os conhecem.” [Eusébio 7.11.19]
  6. “Mas é supérfluo fazer uma lista nominal dos nossos, que são muitos e não os conheceis.” [Eusébio 7.11.20]
  7. “Sabei contudo que homens e mulheres, jovens e velhos, donzelas e anciãos, soldados e civis, e todo sexo e toda idade, vencedores na luta, uns por açoites e fogo e outros pelo ferro, todos receberam suas coroas.” [Eusébio 7.11.20]
  8. “Para outros, porém, não correu ainda um tempo longo o bastante para parecer aceitável ao Senhor.” [Eusébio 7.11.21]
  9. “Tampouco a mim até o presente, pelo que se vê, pelo que me reservou para o momento oportuno que bem conhece o mesmo que diz: Em tempo aceitável te ouvi e no dia da salvação te socorri”. [Eusébio 7.11.21]
  10. “Como perguntais por nossa situação e quereis que vos informe de como vamos indo? [Eusébio 7.11.22]
  11. “Seguramente já ouvistes como nos conduziam prisioneiros um Centurião e oficiais com os soldados
    e criados que iam com eles, a mim e a Caio, Fausto, Pedro e Paulo.” [Eusébio 7.11.22]
  12. “E apresentando-se algumas pessoas de Mareota, nos arrebataram, apesar de nós mesmos, arrastando-nos à força ao nos negarmos a segui-los.” [Eusébio 7.11.22]
  13. “E agora eu, Caio e Pedro, os três somente, nos achamos encerrados num local deserto e árido da Líbia, órfãos dos demais irmãos, afastados três dias de caminhada de Paretonio.” [Eusébio 7.11.23]
  14. “E pouco mais abaixo segue dizendo: “Ainda assim, na cidade de Alexandria acham-se escondidos e visitam em segredo os irmãos.” [Eusébio 7.11.24]
  15. De um lado os presbíteros Máximo, Dióscoro, Demétrio e Lúcio -já que os mais conhecidos no mundo,
    Faustino e Aquilas, andam errantes pelo Egito; [Eusébio 7.11.24]
  16. De outro, os diáconos que sobreviveram aos que morreram pela doença: Fausto, Eusébio e Queremon. [Eusébio 7.11.24]
  17. Eusébio é aquele a quem Deus fortaleceu e preparou desde o princípio para cumprir ardorosamente o serviço aos confessores encarcerados. [Eusébio 7.11.24]
  18. “Ele levou a cabo, não sem perigo, o enterro dos corpos dos perfeitos e santos mártires. [Eusébio 7.11.24]
  19. “De fato, até o presente o governador não deixa de dar morte cruel, como disse antes, a alguns dos que são conduzidos a ele. [Eusébio 7.11.25]
  20. “Nem de dilacerar outros em torturas e de consumir em cárceres e prisões o restante, ordenando que ninguém deles se aproxime, e perguntando se alguém aparece. [Eusébio 7.11.25]
  21. “E mesmo assim Deus não cessa de aliviar os oprimidos, graças ao ânimo e perseverança dos irmãos.”[Eusébio 7.11.25]
  22. Eusébio, a quem Dionísio chamou diácono, pouco depois foi instituído bispo de Laodicéia da Síria. [Eusébio 7.11.26]
  23. Quanto a Máximo, que então disse que era presbítero, sucedeu ao próprio Dionísio no ministério dos irmãos em Alexandria. [Eusébio 7.11.26]
  24. Quanto a Fausto, que naquele momento se distinguiu junto com ele por sua confissão, sobreviveu até a perseguição de nossos dias. [Eusébio 7.11.26]
  25. Já muito ancião e pleno de dias, consumou seu martírio na perseguição do imperador Diocleciano, sendo decapitado. [Eusébio 7.11.26]

VIII – Mais Martírio

  1. Na mencionada perseguição de Valeriano, três foram os que sobressaíram em Cesareia da Palestina por sua confissão de Cristo, e lançados como pasto às feras, adornaram-se com o divino martírio. [Eusébio 7.12.1]
  2. Um deles chamava-se Prisco, o outro Malco e o terceiro Alexandre. [Eusébio 7.12.1]
  3. Diz-se que estes viviam no campo e que primeiro acusaram a si mesmos de negligência e covardia. [Eusébio 7.12.1]
  4. Eles se mostraram indiferentes aos prêmios que a ocasião repartia aos que ardiam de celestial desejo e
    por não arrebatarem antecipadamente a coroa do martírio. [Eusébio 7.12.1]
  5. Depois de haverem assim deliberado, encaminharam-se a Cesareia, apresentaram-se ao juiz e conseguiram para suas vidas o final que acabamos de dizer. [Eusébio 7.12.1]
  6. Também contam que além destes, durante a mesma perseguição e na mesma cidade, uma mulher sustentou o mesmo combate; mas uma tradição afirma que esta era da heresia de Marcião. [Eusébio 7.12.1]
  7. Não muito depois, enquanto Valeriano sofria sua escravidão entre os bárbaros, começou a reinar sozinho seu filho, e governou com a maior sensatez. [Eusébio 7.13.1]
  8. Imediatamente pôs fim por meio de editos à perseguição contra os Cristãos, e ordenou por uma resolução aos que presidiam a palavra que livremente exercessem suas funções costumeiras. [Eusébio 7.13.1]
  9. A resolução rezava assim ao imperador César Publio Licinio Galieno Pio Félix Augusto, a Dionísio, Pina, Demétrio e aos demais bispos: [Eusébio 7.13.1]
  10. “Ordenei que o benefício de meu dom se estenda por todo o mundo, com o fim de que se
    evacuem os lugares sagrados.” [Eusébio 7.13.1]
  11. “Por isso também possais desfrutar da regra contida em minha resolução, de maneira que ninguém possa molestar-vos.” [Eusébio 7.13.1]
  12. E aquilo que possais recuperar, na medida do possível, já faz tempo que o concedi. [Eusébio 7.13.1]
  13. Para tanto, Aurélio Cirínio, que está à frente dos assuntos supremos, manterá cuidadosamente a regra dada por mim.” [Eusébio 7.13.1]
  14. Conserva-se também, do mesmo imperador, outra disposição que dirigiu a outros bispos e na qual permite a recuperação dos lugares chamados cemitérios. [Eusébio 7.13.1]
  15. Neste tempo, o bispo Sixto que seguia ainda regendo a igreja de Roma; Demetriano a de Antioquia, em sucessão a Fábio; e Firmiliano a de Cesaréia da Capadócia. [Eusébio 7.14.1]
  16. Além destes, regiam as igrejas do Ponto Gregório e seu irmão Atenodoro, discípulos de Orígenes. [Eusébio 7.14.1]
  17. Quanto a Cesaréia da Palestina, tendo morrido Teoctisto, recebe o episcopado em sucessão Domno; [Eusébio 7.14.1]
  18. Mas tendo este sobrevivido pouco tempo, foi instituído sucessor Teotecno, nosso contemporâneo, que também era da escola de Orígenes. [Eusébio 7.14.1]
  19. Mas também em Jerusalém, morto Mazabanes, recebe em sucessão o trono Himeneo, o mesmo que brilhou muitos anos em nossa época. [Eusébio 7.14.1]

IX – Marino e Astírio

  1. Por estes anos, apesar de que em todas as partes as igrejas tinham paz, em Cesaréia da Palestina foi decapitado por ter dado testemunho de Cristo um tal Marino. [Eusébio 7.15.1]
  2. Ele pertencia aos altos cargos do exército e se distinguia por sua linhagem e suas riquezas. [Eusébio 7.15.1]
  3. A causa foi que, entre os romanos há uma insígnia de honra: o “Vitis”, o qual aqueles que a alcançam se tornam centuriões. [Eusébio 7.15.1]
  4. Havendo uma vaga liberada, o escalão designava Marino para esta promoção. [Eusébio 7.15.1]
  5. Ele já estava a ponto de receber a honra quando se apresentou outro ante o tribunal afirmado que, segundo as antigas leis, Marino não podia tomar parte nas dignidades romanas. [Eusébio 7.15.1]
  6. Isso porque era cristão e não sacrificava aos imperadores, por isso, o cargo lhe pertencia. [Eusébio 7.15.1]
  7. Diante disto, o juiz Aqueo sentiu-se turbado e começou a perguntar a Marino o que eke pensava. [Eusébio 7.15.1]
  8. No entanto, como viu que este insistia em confessar que era cristão, concedeu-lhe o prazo de três horas para que refletisse. [Eusébio 7.15.1]
  9. Achando-se fora do tribunal, acercou-se dele Teotecno, bispo do lugar, e afastou-o para conversar, e tomando-o pela mão conduziu-o à igreja. [Eusébio 7.15.1]
  10. Uma vez dentro, colocou-o ante o próprio santuário e, levantando-lhe um pouco o manto, mostrou sua espada, que pendia, ao mesmo tempo. [Eusébio 7.15.1]
  11. Ele apresentava e contrapunha a Escritura dos divinos Evangelhos, mandando que entre as duas
    coisas escolhesse a que preferia. [Eusébio 7.15.1]
  12. Mas Marino, sem vacilar, estendeu a direita e tomou a divina Escritura. [Eusébio 7.15.1]
  13. “Mantém-te pois” – disse-lhe Teotecno – “Mantém-te aferrado a Deus e quem sabe alcances, fortalecido
    por Ele, o que escolheste. Vai em paz.” [Eusébio 7.15.1]
  14. Saiu imediatamente dali; um pregoeiro lançava já seu grito chamando-o de novo ante o tribunal. [Eusébio 7.15.1]
  15. De fato havia-se cumprido o prazo previamente fixado, então se apresentou diante do juiz. [Eusébio 7.15.1] Mostrando um entusiasmo ainda maior por sua fé, tal como estava, foi conduzido ao suplício e foi executado. [Eusébio 7.15.1]
  16. Ali, Astirio é lembrado por sua grande franqueza, agradável a Deus. [Eusébio 7.16.1]
  17. Era membro do senado romano, favorito dos imperadores e conhecido de todos por sua nobre linhagem e por suas propriedades. [Eusébio 7.16.1]
  18. Achava-se presente quando se executou o mártir, e apoiando o ombro, levantou o cadáver sobre sua esplêndida e rica vestimenta e levou-o para enterrá-lo com grande magnificência e dar-lhe digna sepultura. [Eusébio 7.16.1]
  19. Os próximos e conhecidos deste homem que sobreviveram até nossos dias recordam outras inúmeras façanhas suas, inclusive a que segue, grandiosa. [Eusébio 7.16.1]
    XVII505
  20. Em Cesaréia de Filipo, que os fenícios chamam Paneas, diz-se que, nas fontes que ali surgem, ao pé da montanha chamada Paneion. [Eusébio 7.17.1]
  21. Destas fontes, nasce o Jordão, em certo dia de festa uma vítima imolada é ali lançada, e esta, por obra do demônio, torna-se invisível de modo prodigioso. [Eusébio 7.17.1]
  22. O fato é uma maravilha famosa para os que se acham presentes e uma vez Astirio assistia o evento. [Eusébio 7.17.1]
  23. Contemplando a multidão afetada pelo fato, compadeceu-se de seu erro, e levantando os olhos ao céu suplicou por Cristo ao Deus que está sobre todas as coisas. [Eusébio 7.17.1]
  24. Ele pediu que confundisse o demônio enganador do povo e que o fizesse deixar de enganar os homens. [Eusébio 7.17.1]
  25. E conta-se que assim  que orou deste modo, a vítima começou a nadar nas fontes e desta maneira cessou para eles o prodígio. [Eusébio 7.17.1]
  26. Daí em diante não se deu nenhum milagre em torno daquele lugar. [Eusébio 7.17.1]

X – Guerra na Alexandria

  1. Já que fizemos menção a esta cidade, creio que não é justo passar por alto um relato digno de memória inclusive para nossos descendentes. [Eusébio 7.18.1]
  2. De fato, a hemorrágica, que pelos Evangelhos sabemos que encontrou a cura de seu mal por obra de nosso Salvador, diz-se que era originária desta cidade. [Eusébio 7.18.1]
  3. Nela se encontra sua casa onde ainda subsistem monumentos admiráveis da boa obra nela realizada pelo Salvador. [Eusébio 7.18.1]
  4. Efetivamente, sobre uma pedra alta, diante das portas de sua casa, alça-se uma estátua de mulher, em bronze, com um joelho dobrado e com as mãos estendidas para a frente como uma suplicante. [Eusébio 7.18.1]
  5.  Em frente a esta, outra do mesmo material, efígie de um homem em pé, belamente vestido com um manto e estendendo sua mão para a mulher. [Eusébio 7.18.1]
  6. Aos seus pés, sobre a mesma pedra, brota uma estranha espécie de planta, que sobe até a orla do manto de bronze e que é um antídoto contra todo tipo de enfermidades. [Eusébio 7.18.1]
  7. Dizem que esta estátua reproduzia a imagem de Jesus e conservava-se até estes dias, como comprova-se pela passagem por aquela cidade. [Eusébio 7.18.1]
  8. E não é estranho que tenham feito isto os pagãos de outro tempo que receberam algum benefício de nosso Salvador. [Eusébio 7.18.1]
  9. Quando perguntamos por que se conservam pintadas em quadros as imagens de seus apóstolos Paulo e Pedro, e inclusive do próprio Cristo, é natural pois os antigos costumam honrá-los deste modo. [Eusébio 7.18.1]
  10. Simplesmente, os consideram como salvadores, segundo o uso pagão vigente de imagens entre eles.
  11. O trono de Tiago, primeiro que recebeu do Salvador e dos apóstolos o episcopado da igreja de Jerusalém e ao qual os livros divinos chamam inclusive de irmão de Cristo508, foi preservado até hoje. [Eusébio 7.19.1]
  12. Os irmãos do lugar vêm rodeando-o de cuidados por sucessivas gerações e claramente mostram a todos que veneração têm os antigos. [Eusébio 7.19.1]
  13. Eles continuam tendo os de hoje para com os santos varões, por serem amados de Deus. [Eusébio 7.19.1]
  14. Quanto a Dionísio, além de suas cartas já mencionadas, compôs por aquele tempo outras que ainda
    se conservam: as festivas. [Eusébio 7.20.1]
  15. Nelas tece palavras muito mais solenes acerca da festa da Páscoa. Uma é dirigida a Flávio, e outra a Domécio e Dídimo. [Eusébio 7.20.1]
  16. Ele propõe inclusive um cânon de oito anos, alegando que não convém celebrar a festa da Páscoa senão depois do equinócio da primavera. [Eusébio 7.20.1]
  17. Além destas cartas escreveu também outra a seus co-presbíteros de Alexandria, e ao mesmo
    tempo a outras pessoas em termos distintos; estas quando ainda durava a perseguição. [Eusébio 7.20.1]
  18. Apenas havia-se restabelecido a paz, e já estava de volta a Alexandria; mas eclodiu outra sedição e uma guerra. [Eusébio 7.21.1]
  19. Deste modo que não lhe era possível visitar a todos os irmãos da cidade, divididos como estavam em um e outro bando da sedição. [Eusébio 7.21.1]
  20. Uma vez mais, na festa da Páscoa, da própria Alexandria, como se estivesse do outro lado da fronteira, entrou em comunicação com eles por carta. [Eusébio 7.21.1]
  21. E escrevendo também depois disto a Hieraco, um bispo do Egito, outra carta festiva, menciona a rebelião dos alexandrinos de seu tempo. [Eusébio 7.21.2]
  22. Ele escreveu “E quanto a mim, por que admirar-se de que me seja penoso comunicar-me inclusive por carta com os que moram longe?”
  23. “Conversar comigo mesmo e deliberar com minha própria alma torna-se impossível?” [Eusébio 7.21.2]
  24. “O certo é que, na relação com minha própria entranha, isto é, com os irmãos que compartem meu teto e meus sentimentos, cidadãos também de minha própria igreja, necessito correspondência epistolar.” [Eusébio 7.21.3]
  25. “Ainda esta não vejo como arranjar-me para transmiti-la, porque seria mais fácil atravessar, já não digo para lá da fronteira, mas até do Oriente para o Ocidente, do que atravessar a própria Alexandria.” [Eusébio 7.21.3]
  26. “Pois mais vasta e mais impraticável do que aquele enorme e não trilhado deserto que Israel atravessou em duas gerações é a avenida mais central da cidade.” [Eusébio 7.21.3]

XI – Doença na Alexandria

  1. “Daquele mar que, partido e separado por dois muros, pelos assassinatos neles cometidos, parecem iguais a um mar Vermelho quando os egípcios afundaram na mesma trilha. [Eusébio 7.21.5]
  2. E o rio que banha a cidade, algumas vezes foi visto mais ressecado do que o deserto sedento e mais árido que aquele no qual, ao atravessá-lo, Israel passou tanta sede. [Eusébio 7.21.5]
  3. O mesmo que Moisés gritou suplicando e por obra do único que faz maravilhas brotou bebida para eles de uma rocha. [Eusébio 7.21.5]
  4. E outras vezes, ao contrário, tanto transbordou que inundou toda a várzea, as e ruas e os campos, até ameaçar com a vinda das águas dos tempos de Noé. [Eusébio 7.21.6]
  5. E sempre corre manchado com sangue, por homicídios e afogamentos, como nos tempos de Moisés, quando converteu-se em sangue para o faraó e empestava. [Eusébio 7.21.6]
  6. Que outra água poderia purificar a água que tudo purifica? Como o vasto oceano, intransponível para o homem, poderia derramar-se e purificar este mar amargo? [Eusébio 7.21.7]
  7. Ou como o grande rio que sai do Éden poderia lavar o sangue impuro, ainda que vazasse os quatro braços em que se divide para um só: o Giom? [Eusébio 7.21.7]
  8. E quando poderia tornar-se puro o ar infestado pelos miasmas procedentes de todas as partes? [Eusébio 7.21.8]
  9. Porque tais hálitos emanam da terra, tais ventos do mar, tais eflúvios dos rios e tais exalações dos portos, que o rocio poderia ser o pus de cadáveres que apodrecem em todos os elementos indicados. [Eusébio 7.21.8]
  10. E logo o povo se admira e está incerto de onde provém as contínuas pestes e as graves enfermidades, de onde as corrupções de toda espécie e a reiterada mortandade dos homens. [Eusébio 7.21.9]
  11. E por que a grande cidade não sustenta já em si mesma aquela tão grande multidão de homens que antes alimentava, [Eusébio 7.21.9]
  12. Começando pelas crianças de peito até os anciãos de extrema velhice, passando pelo grande número de ‘velhos prematuros’, como eram chamados. [Eusébio 7.21.9]
  13. “Ao contrário, os quarentões e mesmo os setentões eram tão numerosos então, que agora seu número não chega a completar-se ainda que estejam inscritos”
  14. Estes são assinalados para a ração pública de víveres desde os quatorze até os oitenta anos; e os que aparentam ser os mais jovens parecem contemporâneos dos mais velhos de então. [Eusébio 7.21.9]
  15. “E desta maneira, ainda que vendo constantemente diminuída e consumida a família humana sobre a terra, não tremem, apesar de aproximar-se cada vez mais sua completa destruição.” [Eusébio 7.21.9]
  16. Depois disto, quando a peste interrompeu a guerra e a festa se aproximava, novamente Dionísio entrou em comunicação por carta com os irmãos, indicando-lhes os padecimentos desta calamidade. [Eusébio 7.22.1]
  17. Ele disse com estas palavras: “Certamente aos pagãos não parecerá tempo de festas a presente ocasião.” [Eusébio 7.22.2]
  18. “Para eles, nem este nem outro o é; não me refiro aos tempos de luto, mas nem sequer dos que se poderiam crer sumamente alegres.” [Eusébio 7.22.2]
  19. “Atualmente, ao menos, é certo que tudo são lamentações, tudo prantos, e os gemidos ressoam em toda a cidade por causa da multidão dos mortos e dos que cada dia continuam morrendo.” [Eusébio 7.22.2]
  20. “Porque, como está escrito dos primogênitos do Egito, assim também agora levantou-se um grande clamor, pois não há casa onde não haja um morto. [Eusébio 7.22.3]
  21. “E quem sabe não fosse mais do que um, porque em  verdade são muitas e terríveis as coisas que sucederam inclusive antes disto. [Eusébio 7.22.3]
  22. “Primeiramente nos expulsaram, e somos os únicos que, apesar de sermos perseguidos por todos e estarmos condenados a morrer, celebramos a festa da páscoa. [Eusébio 7.22.4]
  23. “Cada lugar de tribulação de cada um se converterá em paragem de assembléia festiva: campo, deserto, nave, albergue, cárcere. [Eusébio 7.22.4]
  24. “Mas a mais esplendorosa de todas as festas foi celebrada pelos mártires perfeitos, premiados com o festim do céu. [Eusébio 7.22.4]
  25. “E depois disto lançaram-se encima a guerra e a fome, que sofremos junto com os pagãos. [Eusébio 7.22.5]
  26. “Suportamos todos os maus-tratos que nos deram, mas entramos à parte no que eles faziam e padeciam entre si, e mais uma vez gozamos da paz de Cristo, que só a nós foi dada. [Eusébio 7.22.5]
  27. “Tínhamos conseguido, tanto eles quanto nós, um brevíssimo intervalo quando irrompeu esta enfermidade, coisa mais temível para eles do que todo temor e portanto mais cruel do que qualquer calamidade. [Eusébio 7.22.6]
  28. “Como escreve um particular escritor seu, foi única coisa que sobrepujou toda previsão. [Eusébio 7.22.6]
  29. “Mas não é assim para nós, pois foi um exercício e uma prova em nada inferiores às demais. [Eusébio 7.22.6]
  30. “Efetivamente, em nada nos perdoou, ainda que tenha ceifado muitos entre os pagãos.” [Eusébio 7.22.6]

XII – Imperador Galieno

  1. “Em todo caso, a maioria de nossos irmãos, por excesso de seu amor e de seu afeto fraterno, esqueceram-se de si mesmos [Eusébio 7.22.7]
  2.  “Unidos uns com os outros, visitavam os enfermos sem precaução, serviam-nos com abundância, cuidavam-nos em Cristo. [Eusébio 7.22.7]
  3. “E até morriam contentíssimos com eles, contagiados pelo mal dos outros, atraindo sobre si a enfermidade do próximo e assumindo voluntariamente suas dores. [Eusébio 7.22.7]
  4. “E muitos que curaram e fortaleceram outros, morreram, transferindo para si mesmos a morte daqueles. [Eusébio 7.22.7]
  5. “Convertiam então em realidade o dito popular, que sempre parecia ser de mera cortesia: ‘Despedindo-se deles humildes servidores’. [Eusébio 7.22.7]
  6. “Em todo caso, os melhores de nossos irmãos partiram da vida desde modo, presbíteros, diáconos e laicos, todos muito louvados. [Eusébio 7.22.8]
  7. “Este tipo de morte, pela grande piedade e fé robusta que envolve, em nada parece ser inferior mesmo ao martírio. [Eusébio 7.22.9]
  8. “E assim tomavam com as palmas das mãos e em seus seios os corpos dos santos, limpavam-lhes os olhos e fechavam suas bocas. [Eusébio 7.22.9]
  9. “Agarrando-se a eles e abraçando-os, depois de lavá-los e envolvê-los em sudários, levavam-nos sobre os ombros e os enterravam. [Eusébio 7.22.9]
  10. “Pouco depois eles mesmos recebiam os mesmos cuidados, pois sempre os que ficavam seguiam os passos dos que os precederam. [Eusébio 7.22.9]
  11. “Já entre os pagãos foi o contrário: até afastavam os que começavam a adoecer e repeliam até aos mais queridos. [Eusébio 7.22.10]
  12. “Eles lançavam os moribundos para as ruas e cadáveres insepultos ao lixo, tentando evitar o contágio e a companhia da morte, tarefa nada fácil até para os que usavam mais engenho em esquivá-la.” [Eusébio 7.22.10]
  13. “Depois desta carta, quando a cidade já estava em paz, Dionísio enviou ainda uma carta festiva aos irmãos do Egito, e logo voltou a escrever outras. [Eusébio 7.22.11]
  14. “Conservam-se dele também uma Sobre o sábado e outra Sobre o exercício. [Eusébio 7.22.11]
  15. “Comunicando-se uma vez mais por carta com Hermamon e os irmãos do Egito, explica muitas coisas sobre a perversidade de Décio e de seus sucessores, e menciona a paz dos tempos do imperador Galieno. [Eusébio 7.22.12]
  16. “Nada é melhor do que ouvir como foram estes acontecimentos: “Assim pois aquele Macriano, traindo o seu imperador Valeriano e atacando o outro Galieno, logo desapareceu com sua pilhagem, sem deixar traços. [Eusébio 7.23.1]
  17. “Todos proclamaram e reconheceram Galieno, que era ao mesmo tempo velho e novo imperador, pois era-o antes como corregente ao lado do seu pai Valeriano e veio depois deles. [Eusébio 7.23.1]
  18. “Efetivamente, conforme o dito do profeta Isaías: Vede que chega o do princípio, e o que agora surgir será novo. [Eusébio 7.23.2]
  19. “Porque assim como uma nuvem, deslizando sob os raios do sol, por um momento o cobre e sombreia e se mostra em lugar dele, esta logo passou ou se desfez. [Eusébio 7.23.2]
  20. “Novamente surge e reaparece o sol, que antes já havia saído, assim Macriano pôs-se diante e aproximou-se em pessoa ao imponente poder imperial de Galieno, mas lofo passou [Eusébio 7.23.2]
  21. “O poder imperial, como se tivesse deposto sua velhice e estivesse novamente purificado de sua anterior maldade, floresce agora com maior vigor. [Eusébio 7.23.3]
  22. “Ele foi visto e ouvido muito mais longe penetrando por todas as partes”. [Eusébio 7.23.3]
  23. “Também me agrada examinar novamente os dias dos anos imperiais, porque estou vendo que os mais ímpios, apesar de seu renome, ao fim de pouco tempo caíram no anonimato. [Eusébio 7.23.4]
  24. Por outro lado, Galieno, mais santo e amado de Deus, tendo passado já seu sétimo ano, cumpre agora o nono ano no qual celebraremos a festa da páscoa.” [Eusébio 7.23.4]

XIII – Imperador Galieno

  1. Além de tudo isto, escreveu também os dois livros sobre as promessas, cujo tema era Népos, bispo dos do Egito. [Eusébio 7.24.1]
  2. Ele ensinava que as promessas feitas aos santos nas divinas Escrituras devem ser interpretadas mais ao modo judeu e supunha que haveria um milênio de delícias corpóreas sobre esta terra seca. [Eusébio 7.24.1]
  3. Em todo caso, acreditando reforçar sua própria suposição com o Apocalipse de João, compôs sobre
    ele uma obra que intitulou Refutação dos alegoristas. [Eusébio 7.24.2]
  4. Contra esta obra ergue-se Dionísio em seus livros Sobre as promessas. [Eusébio 7.24.3]
  5. No primeiro expõe seu próprio pensamento sobre a doutrina, e no segundo discute acerca do Apocalipse de João. [Eusébio 7.24.3]
  6. Nele faz menção a Népos no começo, e escreve o seguinte: “Ele se apoia mais do que deveriam para demonstrar irrefutavelmente que o reinado de Cristo será sobre a terra.” [Eusébio 7.24.4]
  7. “Em muitas outras coisas aprovo Népos e o amo: por sua fé, por sua laboriosidade, por seu estudo sério das
    Escrituras e por sua numerosa produção de hinos. [Eusébio 7.24.4]
  8. “Muitos irmãos vêm se reconfortando até hoje com tudo isso, e meu respeito pelo homem é absoluto, ainda mais estando já morto. [Eusébio 7.24.4]
  9. “Porém, como a verdade me é mais querida e mais estimada do que todas as coisas, deve-se louvá-lo e estar de acordo com ele, sem reservas. [Eusébio 7.24.4]
  10. “Pois se diz algo retamente, mas também, se em algo não parece correto o que escreveu, deve-se examiná-lo e corrigi-lo. [Eusébio 7.24.4]
  11. “Para com alguém que está presente e que se explica por palavra, poderia ser suficiente uma conversação oral, que a base de perguntas e respostas vai persuadindo e reduzindo os contendores; [Eusébio 7.24.5]
  12. “Mas havendo no meio um escrito, e muito persuasivo segundo alguns, e contando de outra parte com alguns mestres que, não estimava a Lei e os Profetas. [Eusébio 7.24.5]
  13. “Deixando de seguir os Evangelhos e desprezava as Cartas dos apóstolos, proclamando sem mais o ensinamento deste livro como um grande e oculto mistério.
  14. “Não permitem a nossos irmãos mais simples ter pensamentos elevados e magníficos sobre a manifestação gloriosa e realmente divina de nosso Senhor. [Eusébio 7.24.5]
  15. “Nem de nossa ressurreição dentre os mortos nem de nossa reunião e configuração com Ele. [Eusébio 7.24.5]
  16. “Mas os persuadem a esperar coisas mínimas e mortais, como são as presentes, no reino de Deus, é necessário que também nós discutamos com nosso irmão Népos como se estivesse presente.” [Eusébio 7.24.5]
  17. “Ao dito acrescenta, depois de outras coisas, o seguinte: “Assim pois, achando-me em Arsinoé, onde, como sabes, há muito prevalece esta doutrina. [Eusébio 7.24.6]
  18. “Chegando ao ponto de que ocorrer cismas e apostasias de igrejas inteiras, convoquei os presbíteros e mestres dos irmãos das aldeias. [Eusébio 7.24.6]
  19. “E estando presentes também os irmãos que queriam, exortei-os a realizar em público o exame da doutrina. [Eusébio 7.24.6]
  20. “Ao me apresentarem este livro como arma e muro inatacável, estive com eles três dias em sessão contínua, da aurora ao anoitecer, tentando emendar o que estava escrito. [Eusébio 7.24.7]
  21. “Pude então admirar sobremaneira o equilíbrio, o amor à verdade, a facilidade de compreensão e a inteligência dos irmãos [Eusébio 7.24.7]
  22. “Por ordem e com moderação, desenvolvíamos as perguntas, as objeções e os pontos de coincidência. [Eusébio 7.24.8]
  23. “Por um lado, tínhamos nos recusado a nos aterrarmos obstinada e insistentemente às decisões tomadas uma só vez, ainda que isto não nos parecesse justo. [Eusébio 7.24.8]
  24. “Por outro, também não evitávamos as objeções, mas na medida do possível tentávamos abordar os temas propostos e dominá-los. [Eusébio 7.24.8]
  25. “Tampouco nos envergonhávamos de mudar de idéia e concordar se a razão o exigisse. [Eusébio 7.24.8]
  26. “Antes, com a melhor consciência, sem disfarces e com o coração aberto a Deus, aceitávamos o que ficasse estabelecido pelas argumentações e pelos ensinamentos das Santas Escrituras. [Eusébio 7.24.8]
    9. “E por último, o líder e introdutor desta doutrina, o chamado Coracion, confessou e atestou para
    que todos os irmãos presentes ouvissem que não mais se entregaria a isto. [Eusébio 7.24.9]
  27. “Nem discutiria sobre isto, nem o recordaria nem ensinaria, pois estava suficientemente convencido pelos argumentos opostos. [Eusébio 7.24.9]
  28. “E dos outros irmãos, uns se alegravam do colóquio, assim como da condescendência e disposição comum para com todos…” [Eusébio 7.24.9]

 

XIV – Heresia de Paulo

  1. Ao bispo Sixto, que presidiu a igreja de Roma durante onze meses, sucedeu Dionísio, homônimo do bispo de
    Alexandria. [Eusébio 7.27.1]
  2. E neste tempo, ao emigrar também Demetriano desta vida em Antioquia, recebeu o episcopado Paulo, o de Samosata. [Eusébio 7.27.1]
  3. Como este, contrariamente ao ensinamento da Igreja, tinha acerca de Cristo pensamentos baixos e ao nível do chão, dizendo que por natureza foi um homem comum. [Eusébio 7.27.1]
  4. Dionísio de Alexandria, convidado para assistir ao concilio, dando como desculpa sua velhice e debilidade corporal, adia sua presença pessoal, e por meio de uma carta expõe seu pensamento sobre o tema debatido. [Eusébio 7.27.1]
  5. Os outros pastores das igrejas, por outro lado, cada qual de sua terra, iam se reunindo como contra
    uma peste do rebanho de Cristo, e todos se apressavam em direção a Antioquia. [Eusébio 7.27.1]
  6. Entre eles, os que mais sobressaíram foram: Firmiliano, bispo de Cesaréia da Capadócia; os irmãos Gregório e Atenodoro, pastores das igrejas do Ponto; e depois deles, Heleno, da igreja de Tarso, e Nicomas, da de Iconio. [Eusébio 7.28.1]
  7. Mas não somente eles, como também Himeneo, da igreja de Jerusalém; e Teotecno, da de Cesaréia, limítrofe desta; e além destes, Máximo, que dirigia também com muito brilho os irmãos de Bostra. [Eusébio 7.28.1]
  8. E não seria muito difícil enumerar muitíssimos outros reunidos junto com os presbíteros e diáconos pelo mesmo motivo na citada cidade; mas de todos, pelo menos os mais destacados eram estes. [Eusébio 7.28.1]
  9. Todos pois, reuniram-se para o mesmo, em diferentes e repetidas ocasiões; e em cada reunião levantavam-se razoamentos e perguntas. [Eusébio 7.28.2]
  10. Os partidários do samosatense, tentando ocultar ainda e dissimular o que houvesse de heresia. [Eusébio 7.28.2]
  11. Os outros, de sua parte, pondo todo seu empenho em desnudar e trazer à vista a heresia e a blasfêmia daquele contra Cristo. [Eusébio 7.28.2]
  12. Mas por este tempo morreu Dionísio, no décimo segundo ano do império de Galieno, depois de haver presidido o episcopado de Alexandria durante dezessete anos. Sucede-o Máximo  [Eusébio 7.28.3].
  13. Tendo sido Galieno dono do poder durante quinze anos completos, foi instituído seu sucessor Cláudio. Este, quando terminou seu segundo ano, transmitiu o principado a Aureliano. [Eusébio 7.28.4]
  14. Nos tempos deste, reuniu-se um último concilio de numerosíssimos bispos onde foi surpreendido em flagrante e já por todos condenado abertamente por heterodoxia, o líder da heresia de Antioquia. [Eusébio 7.29.1]
  15. Ele foi excomungado da Igreja católica que está sob o céu. [Eusébio 7.29.1]
  16. Quem mais fez para acabar com sua dissimulação e deixá-lo convicto foi Malquion, homem muito eloqüente e diretor da classe de retórica nas escolas gregas de Antioquia. [Eusébio 7.29.2]
  17. Não só isto, mas também considerado digno do presbiterado da comunidade local, pela excelentíssima legitimidade de sua fé em Cristo. [Eusébio 7.29.2]
  18. Este havia empreendido contra ele, com taquígrafos que iam registrando, uma investigação que sabemos que se conservou até os dias de Diocleciano.
  19. Entre todos somente ele foi capaz de surpreender em flagrante aquele homem, apesar de sua dissimulação e engano. [Eusébio 7.29.2]
  20. Então os pastores ali reunidos com o mesmo fim escrevem de comum acordo uma só carta dirigida pessoalmente a Dionísio, bispo de Roma, e a Máximo, da de Alexandria. [Eusébio 7.30.1]
  21. Eles as transmitiram a todas as províncias, pondo a claro para todos seu próprio zelo e a perversa heterodoxia de Paulo. [Eusébio 7.30.1]
  22. Assim como transmitiam os argumentos e perguntas que haviam brandido contra ele, e expondo ainda com detalhe toda a vida e conduta daquele homem. [Eusébio 7.30.1]
  23. Talvez seja bom citar nesta obra, para fazer memória, as seguintes palavras suas: “A Dionísio, a Máximo, a todos nossos colegas no ministério por todo o mundo habitado. [Eusébio 7.30.2]
  24. “Aos Bispos, presbíteros e diáconos, e a toda a Igreja católica que está sob o céu: [Eusébio 7.30.2]
  25. “Heleno, Himeneo, Teófilo, Teotecno, Máximo, Proclo, Nicomas, Eliano, Paulo, Bolano, Protógenes, Hieraco, Eutiquio, Teodoro, Malquion, Lúcio, [Eusébio 7.30.2]
  26. “E todos os demais que conosco habitam as cidades e povoações vizinhas, bispos, presbíteros, diáconos e as igrejas de Deus: aos amados irmãos, saúde no Senhor”. [Eusébio 7.30.2]
  27. “Escrevíamos e ao mesmo tempo exortávamos a muitos, inclusive a bispos de longe, a vir e curar este mortífero ensinamento, assim como também aos benditos Dionísio o de Alexandria e Firmiliano de Capadócia. [Eusébio 7.30.2]
  28. Destes, o primeiro escreveu uma carta a Antioquia, não considerando o autor do erro digno nem de uma saudação, pelo que não lhe escreveu pessoalmente, mas a toda a comunidade, em carta. [Eusébio 7.30.3]
  29. Firmiliano, por outro lado, que inclusive veio duas vezes, condenou certamente as inovações daquele.[Eusébio 7.30.3]
  30. Como Paulo prometera mudar, crendo e esperando que o assunto se arranjaria oportunamente sem desdouro para a doutrina, Firmiliano o foi deferindo. [Eusébio 7.30.4]
  31. Estava sendo enganado pelo homem que negava a seu próprio Deus e Senhor e não observava a fé que anteriormente ele mesmo possuía. [Eusébio 7.30.4]
  32. Mas agora Firmiliano estava já a ponto de chegar a Antioquia e havia chegado concretamente até
    Tarso, pois havia experimentado a maldade negadora de Deus daquele homem. [Eusébio 7.30.5]
  33. mas no intervalo, estando nós outros reunidos chamando-o e esperando que chegasse, alcançou-o a
    morte. [Eusébio 7.30.5]

XV – Heresia de Paulo

  1. Paulo, desde o ponto em que se afastou da regra e passou a ensinamentos falsos e bastardos, não se
    devem julgar as ações do que está fora. [Eusébio 7.30.6]
  2. Nem sequer pelo fato de que era primeiramente pobre e mendigo e não havia recebido de seus pais riqueza nenhuma nem havendo-a adquirido mediante um ofício ou qualquer ocupação. [Eusébio 7.30.7]
  3. Agora chegou a uma excessiva opulência proveniente de suas ilegalidades, de seus roubos sacrílegos e do que pede e suga dos irmãos, defraudando os que foram vítimas de injustiça e prometendo ajuda por um salário. [Eusébio 7.30.7]
  4. Em realidade, enganando também estes e tirando proveito sem razão da facilidade com que dão os que estão em apuros apenas para se libertarem do incômodo, já que ele considera a religião como fonte de lucros. [Eusébio 7.30.7]
  5. Tampouco porque tinha pensamentos altivos e se orgulhava de estar investido com dignidades mundanas, preferindo que o chamem ducenário do que bispo. [Eusébio 7.30.8]
  6. Avançando jactancioso pela praça e lendo e ditando cartas enquanto passeia em público, escoltado por guardas muito numerosos, uns precedendo-o e outros seguindo-o. [Eusébio 7.30.8]
  7. O resultado é que a própria fé se vê desprezada e odiada por causa de sua ostentação e do orgulho de seu coração. [Eusébio 7.30.8]
  8. Tampouco se devem julgar os jogos de prestidigitação que organizava nas reuniões eclesiásticas aspirando a glória, deslumbrando a imaginação e ferindo com estas coisas as almas dos mais simplórios. [Eusébio 7.30.9]
  9. Fez preparar para si uma tribuna e um trono elevado, não como discípulo de Cristo, mas igual aos príncipes do mundo. [Eusébio 7.30.9]
  10. Tinha-e assim o chamava- seu secretum548; com a mão golpeava a coxa e com os pés batia na tribuna. [Eusébio 7.30.9]
  11. E aos que não o aprovavam nem agitavam os lenços, como nos teatros, nem lançavam gritos nem se levantavam de um salto junto com seus sequazes; [Eusébio 7.30.9]
  12. Homens e mulheres que nesta desordem o ouviam, portanto escutando com gravidade e em boa ordem, como na casa de Deus, a estes desprezava e insultava. [Eusébio 7.30.9]
  13. E aos intérpretes da doutrina que partiram desta vida ele insultava em público grosseiramente, enquanto que de si mesmo falava com grande ênfase, não como um bispo, mas como um sofista e um charlatão. [Eusébio 7.30.9]
  14. Fez também que cessassem os salmos em honra de nosso Senhor Jesus Cristo, porque dizia que eram modernos e obra de homens bastante moderno. [Eusébio 7.30.10]
  15. Em troca, preparou umas mulheres para que em sua honra salmodiassem em meio a igreja no grande dia de Páscoa. É de estremecer-se ouvindo-as! [Eusébio 7.30.10]
  16. E que coisas deixava que os bispos e presbíteros tratassem em suas homílias ao povo dos campos e cidades limítrofes, seus aduladores! [Eusébio 7.30.10]
    11. Porque ele não quer confessar conosco que o Filho de Deus desceu do céu, isto para expor de antemão algo do que escreveremos, e que não o diremos como simples afirmação. [Eusébio 7.30.11]
  17. Mas que será demonstrado com muitas passagens dos documentos que vos enviamos, e sobretudo aquele em que se diz que Jesus Cristo é de baixo. [Eusébio 7.30.11]
  18. Mas aqueles, quando lhe cantam salmos e o louvam ante o povo, afirmam que seu ímpio mestre desceu como anjo do céu. [Eusébio 7.30.11]
  19. E ele não só não impede isto, mas até, em sua soberba, acha-se presente quando o dizem. [Eusébio 7.30.11]
  20. Quanto às mulheres subintroductas, como as chamam os antioquenhos, as dele e as dos presbíteros e diáconos de seu séquito, [Eusébio 7.30.12]
  21. Aos quais ajuda a ocultar este e os demais pecados incuráveis, já de plena consciência e com provas convincentes para tê-los a sua mercê e para que, temendo por si mesmos, não se atrevam a acusá-lo das injustiças que comete por palavra e por obra. [Eusébio 7.30.12]
  22. E mais, inclusive tornou-os ricos, pelo que o querem e admiram os que se perdem por tais coisas… -, por que haveríamos de escrever isto?
  23. Ainda assim, sabemos, queridos, que o bispo e o clero inteiro devem ser para a multidão um exemplo549 de toda obra boa. [Eusébio 7.30.13]
  24. Não ignoramos tampouco quantos caíram por ter introduzido para si mulheres, enquanto outros tornaram-se suspeitosos tanto que, mesmo concedendo-lhe que nada fazia de indecoroso. [Eusébio 7.30.13]
  25. Não obstante era necessário ao menos precaver-se contra a suspeita que nasce de um tal assunto, para não escandalizar ninguém e evitar que outros o tentem. [Eusébio 7.30.13]
  26. Porque, como poderia repreender e advertir outro para que não coabite mais sob o mesmo teto com uma mulher e se guarde de cair, como está escrito. [Eusébio 7.30.14]
  27. Um que já afastou uma de si, mas que tem consigo duas em plena juventude e de boa aparência, e que, se vai para outro lugar, para lá as leva consigo, e isto com desperdício de luxo? [Eusébio 7.30.14]
  28. Por causa disto choram todos e se lamentam dentro de si mesmos, mas é tanto o temor à tirania e poder dele que ninguém se atreve a uma acusação. [Eusébio 7.30.15]
  29. Mas, como já dissemos, disto poderíamos corrigir um homem que tivesse ao menos um
    pensamento católico e se contasse entre nós, mas de um que traiu o mistério. [Eusébio 7.30.16]
  30. Um que se pavoneia da abominável heresia de Artemas, por que, de fato, não seria necessário manifestar quem é seu pai? cremos que não se pode pedir contas de tudo isto. [Eusébio 7.30.16]

XVI – Imperador Aureliano

  1. “Por conseguinte, ao seguir opondo-se a Deus e não ceder, vimo-nos forçados a excomungá-lo e a estabelecer em seu lugar para a Igreja católica. [Eusébio 7.30.17]
  2. Segundo providência de Deus, estamos convencidos estabelecemos outro bispo, Domno, o filho do bem-aventurado Demetriano. [Eusébio 7.30.17]
  3. Este havia presidido antes daquele, de forma notável, esta mesma igreja, varão adornado com todas as
    qualidades que convém a um bispo. [Eusébio 7.30.17]
  4. E isto vos manifestamos para que lhe escrevais e recebais dele as cartas de comunhão. [Eusébio 7.30.17]
  5. Quanto ao outro, que escreva a Artemas e que tenham comunhão com ele os que pensem como Artemas.” [Eusébio 7.30.17]
  6. Assim pois, caído Paulo do episcopado e da ortodoxia de sua fé, sucedeu-o Domno, como foi dito, no ministério da igreja de Antioquia. [Eusébio 7.30.18]
  7. Mesmo assim, como Paulo não quisesse de modo algum sair do edifício da igreja, o imperador Aureliano, a quem se solicitou, decidiu muito oportunamente o que deveria ser feito. [Eusébio 7.30.19]
  8. Ele ordenou que se outorgasse a casa àqueles com quem estivessem em correspondência epistolar os bispos da doutrina da Itália e da cidade de Roma. [Eusébio 7.30.19]
  9. Assim é que o homem antes mencionado, para extrema vergonha sua, foi expulso da igreja pelo poder mundano. [Eusébio 7.30.19]
  10. Assim era para conosco Aureliano, pelo menos por então. Mas, já avançado seu império, mudou de
    pensamento sobre nós. [Eusébio 7.30.20]
  11. Ele se deixava excitar por certos conselhos para que suscitasse uma perseguição contra nós. Eram muitos os rumores sobre este ponto em todos os ambientes. [Eusébio 7.30.20]
  12. Mas, quando estava a ponto de fazê-lo e, por assim dizer, já assinava os decretos contra nós, a justiça divina o alcançou, retendo-o no ato como que amarrando-lhe os braços. [Eusébio 7.30.21]
  13. Com isto permitiu a todos ver claramente que nunca os poderes desta vida teriam facilidade contra as igrejas de Cristo. [Eusébio 7.30.21]
  14. A mão que nos protege, por juízo divino e celeste, para nossa instrução e conversão, não permitisa que isto se levasse a cabo nos tempos que ela julga bons. [Eusébio 7.30.21]
  15. Assim pois, a Aureliano, que exerceu o poder durante seis anos, sucede Probo, e a este, que o deteve mais ou menos os mesmos anos, Caro, junto com seus filhos Carino e Numeriano. [Eusébio 7.30.22]
  16. E tendo estes por sua vez durado outros três anos incompletos, o poder absoluto passa a Diocleciano e aos que foram introduzidos depois dele por adoção. [Eusébio 7.30.22]
  17. Sob esses poderes levou-se a cabo a perseguição de nosso tempo e nela a destruição das igrejas. [Eusébio 7.30.22]
  18. Muito pouco tempo antes disto, Félix sucede no ministério ao bispo de Roma Dionísio, que nele havia passado nove anos. [Eusébio 7.30.22]

XVII – Maniqueus

  1. [Da heterodoxa perversão dos maniqueus, iniciada precisamente então]
    1. Neste tempo, também aquele louco, epônimo da endemoninhada heresia, armava-se do extravio
    da razão; o demônio, sim, o próprio Satanás, adversário de Deus, empurrava aquele homem
    para ruína de muitos. Sendo como era bárbaro em sua vida, por sua própria fala e seus
    costumes, e demoníaco e demente por natureza, empreendia façanhas em consonância com isto
    e tentava fazer o papel de Cristo, ora proclamando-se a si mesmo Paráclito556 e Espírito Santo
    em pessoa557, inflado por sua loucura, ora elegendo, como Cristo, doze discípulos co-partícipes de
    seu novo sistema.
    2. Em realidade, impingiu umas falsas e ímpias doutrinas a base de remendos recolhidos das
    inúmeras e ímpias heresias, já há muito extintas, e desde a Pérsia as foi transmitindo como
    veneno mortífero até nossa própria terra habitada, e desde então o ímpio nome dos maniqueus
    pulula até hoje entre muitos. Este foi, pois, o fundamento desta gnose de falso nome, que brotou
    nos tempos mencionados.

XXXII
[Dos varões eclesiásticos que se distinguiram em nosso tempo e quais deles viveram até o
ataque às igrejas]
1. Por este tempo, havendo Félix presidido a igreja de Roma durante cinco anos, sucede-o
Eutiquiano. Este, que não sobreviveu dez meses inteiros, deixou o cargo a Caio, contemporâneo
nosso, e havendo este exercido a presidência uns quinze anos, institui-se como sucessor
Marcelino, a quem também arrebatará a perseguição.
2. E por estas datas regia o episcopado de Antioquia, depois de Domno, Timeu, a quem sucedeu
Cirilo, contemporâneo nosso. De seu tempo conhecemos Doroteu, varão douto e julgado digno
do presbiterado de Antioquia. Este foi um amante das coisas divinas e exercitou-se na língua
hebraica, tanto que até podia ler e compreender as próprias escrituras hebréias.
3. Ele não era alheio aos estudos mais liberais, nem à instrução preliminar dos gregos, e além disto era
eunuco por natureza, feito assim já desde seu próprio nascimento, de maneira que o imperador
honrou-o com a administração da tinturaria de púrpura de Tiro.
4. A este escutamos explicar as Escrituras com sapiência na igreja. E depois de Cirilo o episcopado
da igreja de Antioquia foi recebido em sucessão por Tirano, em cujos dias o ataque às igrejas
alcançou o cume.
5. Já a igreja de Laodicéia, depois de Sócrates, foi governada por Eusébio, oriundo da cidade de
Alexandria. A causa de sua emigração foi o assunto referente a Paulo. Por causa deste subiu à
Síria, e os que nela se ocupavam das coisas de Deus impediram-no de voltar a sua casa. Para
nossos contemporâneos foi um exemplo amável de religião, como facilmente se descobre nas
expressões de Dionísio anteriormente citadas.
6. Foi instituído como seu sucessor Anatolio, um bom que, como se diz, sucede a outro bom.
Também era alexandrino de origem, e por seus estudos, por sua educação grega e por sua
filosofia alcançou os primeiros postos entre os mais ilustres de nossos contemporâneos, já que
avançou até o cume da aritmética, da geometria, da astronomia e de toda especulação teórica, da
dialética como da física, assim como da retórica. Por esta causa, como quer uma tradição, os
cidadãos de Alexandria o consideraram digno de organizar ali a escola da sucessão de Aristóteles.
7. Recordam-se, pois, dele, inúmeras outras façanhas de quando houve o sítio do Piruquío558, já que
todas as autoridades o consideravam digno de um privilégio especial; mas eu só vou mencionar,
como demonstração, o seguinte.
8. Dizem que, faltando o trigo aos sitiados, a ponto de que a fome lhes era mais insuportável do
que os inimigos de fora, o mencionado Anatolio, que se achava presente, tomou as seguintes
disposições. Como a outra parte da cidade estava aliada ao exército romano e não se encontrava
sitiada, Anatolio enviou uma mensagem a Eusébio, que se encontrava entre os não sitiados (de
fato ainda estava ali, antes de sua emigração para a Síria) e cuja glória e famoso nome haviam
chegado até o general em chefe dos romanos, e informou-o dos que pereciam de fome ao largo
do assédio.
9. Este, assim que o soube, pediu ao general romano, como um enorme favor, que garantisse a
segurança aos desertores do campo inimigo. E quando conseguiu sua petição, fê-lo saber a
Anatolio. Este, imediatamente depois de receber a promessa, reuniu o conselho dos alexandrinos.
Começou pedindo a todos que oferecessem sua destra aos romanos em sinal de amizade, mas
assim que viu que sua promessa os enfurecia, disse: “Mesmo assim, creio que ao menos nisto
não me sereis contrários, se vos aconselhar a pôr para fora das portas pelo menos as pessoas
supérfluas e absolutamente inúteis, anciãs, crianças e anciãos, e que se vão para onde queiram. Por
que vamos tê-los entre nós inutilmente se não for já para morrer? E para que estamos esgotando
pela fome os enfermos e quebrantados de corpo, já que nos é necessário alimentar apenas aos
homens e aos jovens, e reservar o trigo necessário para os que são capazes de guardar a
cidade?”
10. Com tais arrazoados conseguiu persuadir o conselho, e levantando-se o primeiro, votou um
decreto: despedir da cidade todo aquele que não fosse apto para o serviço militar, homem ou mulher, já que não havia esperança de salvação para os que ficassem na cidade e nela passassem
o tempo sem utilidade alguma, pois morreriam de fome.
11. E deste modo, quando todos os demais do conselho emitiram o mesmo voto, faltou muito pouco
para que salvassem a todos os sitiados. Preocupou-se de que primeiro fugissem os que procediam
da igreja, e logo também os demais que estavam na cidade, de qualquer idade que fossem. E não
somente dos que caíam dentro do decreto, mas também, com o pretexto destes, muitos outros que,
secretamente disfarçados de mulher e por cuidado daquele, saíam à noite das portas e lançava-se ao
exército romano. Ali Eusébio recebia a todos, e como um pai e médico, com todo tipo de
providências e de cuidados, restaurava os maltratados pelo longo assédio.
12. De tais pastores foi digna a igreja de Laodicéia, onde os dois se sucederam depois que emigraram
para lá desde a cidade de Alexandria, com a ajuda da providência divina, ao terminar a
mencionada guerra.
13. Na verdade não são muitas as obras compostas por Anatólio, mas chegaram a nós as suficientes
para poder perceber através delas sua eloqüência e sua grande erudição. Nelas apresenta sobretudo
suas opiniões acerca da Páscoa, das quais quiçá seja necessário mencionar na presente obra o
seguinte: Extrato dos Cânones de Anatólio sobre a Páscoa.
14. “Toma pois no primeiro ano o novilúnio do primeiro mês, que é o começo do período de
dezenove anos, o 26 de Famenoz segundo os egípcios, o 22 de Distro, segundo os meses dos
macedônios e, como diriam os romanos, o undécimo antes das calendas de abril.
15. O sol encontra-se no mencionado dia 26 de Famenoz, não apenas entrado no primeiro segmento,
mas no quarto dia de sua passagem por ele. Costuma-se chamar este segmento o primeiro
dodecatemórion, equinócio, começo dos meses, cabeça do ciclo e largada do curso dos planetas.
O que o precede é o último dos meses, o duodécimo seguinte, último dodecatemórion e final do
curso dos planetas. Por isso dizemos que erram muito e gravemente os que situam nele o primeiro
mês, e em conseqüência, tomam o décimo quarto dia como o dia da Páscoa.
16.Não é esta nossa doutrina; mas os judeus antigos já a conheciam, inclusive de antes de Cristo, e a
guardavam com todo esmero. Pode-se saber pelo que disseram Fílon, Josefo e Museo, e não
somente estes, mas também os que são mais antigos, os dois Agatóbulos, conhecidos como os
mestres de Aristóbulo, o famoso, que foi dos Setenta que traduziram para Ptolomeu Filadelfo e
para o pai deste as sagradas e divinas Escrituras559 dos hebreus e dedicou aos próprios reis livros
de exegese da lei de Moisés.
17. Estes, ao resolverem os problemas do Êxodo, dizem que todos devem sacrificar a Páscoa por
igual, depois do equinócio de primavera, em meados do primeiro mês, e isto se encontra quando
o sol atravessa o primeiro segmento da elíptica solar ou – como alguns deles a nomeiam – do
zodíaco. Por sua parte, Aristóbulo acrescenta que na festa da Páscoa não somente o sol, mas
também a lua, deve forçosamente atravessar o segmento equinocial,
18. porque, sendo os dois segmentos equinociais – um da primavera e outro do outono -,
diametralmente opostos entre si, e dado que o dia da festa pascal é o décimo quarto do mês, à
tarde, a lua tomará a posição diametralmente oposta com respeito ao sol, como efetivamente se
pode ver nos plenilúnios; e então o sol estará no segmento equinocial da primavera, e a lua,
forçosamente, no segmento equinocial do outono.
19. Sei que estes homens disseram também muitas outras coisas, ora verossímeis, ora avançadas,
conforme rigorosas demonstrações, por meio das quais tentavam estabelecer que a festa da
Páscoa e dos ázimos deveria a todo custo ser celebrada depois do equinócio. Mas eu passo por
alto pedir tais materiais de demonstração a aqueles para os quais o véu que cobria a lei de Moisés
foi retirado e adiante já podem contemplar sempre com o rosto descoberto a Cristo e os
ensinamentos e os sofrimentos de Cristo560. Agora bem, que entre os hebreus o primeiro mês cai
em torno do equinócio, dão a entender até os ensinamentos do livro de Enoque.”
20. E ele mesmo deixou também umas Introduções aritméticas em dez livros inteiros, e outras
provas de seu estudo assíduo e grande experiência das coisas divinas. 21. O bispo de Cesaréia da Palestina, Teotecno, foi o primeiro que lhe impôs as mãos para o
episcopado, buscando de antemão procurar para sua igreja um sucessor seu para depois da morte.
E, efetivamente, por breve espaço de tempo ambos presidiram a mesma igreja, mas tendo sido
chamado a Antioquia pelo concilio reunido contra Paulo, ao passar pela cidade de Laodicéia, os
irmãos dali retiveram-no em seu poder, por ter morrido Eusébio.
22. Mas tendo partido desta vida também Anatólio, nomeia-se Estevão, último bispo daquela igreja
antes da perseguição. Admirado por muitos em razão de suas doutrinas filosóficas e de toda sua
cultura grega, não tinha, porém, as mesmas disposições a respeito da fé divina, como demonstrou o
transcurso da perseguição, que pôs a descoberto o homem solapado, covarde e pouco viril, mais
que o verdadeiro filósofo.
23. Mas não por isso iria a igreja arruinar-se; antes o próprio Deus e salvador de todos a
restabeleceu, fazendo que imediatamente se proclamasse bispo daquela igreja a Teodoto, um
homem que com suas próprias obras tornava realidade o que seu nome e o de bispo significam561
.
Efetivamente, em primeiro lugar destacava-se na ciência que cura os corpos; mas na terapêutica
das almas não teve igual, por seu amor aos homens, sua nobreza, sua compaixão e seu zelo em
ser útil aos que necessitavam dele. Também havia se exercitado muito no que tange aos
ensinamentos divinos.
Assim era Teodoto.
24. Em Cesaréia da Palestina, Teotecno, que havia exercido com toda solicitude seu episcopado, é
sucedido por Agapio, de quem sabemos que lutou muito, despendendo a mais generosa
providência na proteção do povo e cuidando de todos com mão abundante, especialmente dos
pobres.
25. Em seu tempo conhecemos a Panfilo, homem muito distinto, verdadeiro filósofo por sua própria
vida e considerado digno do presbiterado da comunidade local. Não seria um tema pequeno
mostrar quem era e de onde procedia, mas cada aspecto de sua vida e da escola que ele constituiu,
assim como seus combates em diferentes confissões quando da perseguição e a coroa do martírio
que se cingiu ao fim de tudo, explicamos com pormenores em obra especial sobre ele562
.
26. Pois bem, este foi o mais admirável de todos os daqui. Mesmo assim, entre os mais próximos a
nosso tempo sabemos de homens de mui rara qualidade: Pierio, um presbítero de Alexandria, e
Melicio, bispo das igrejas do Ponto.
27. O primeiro se fez notar por uma vida inteiramente pobre e por seus conhecimentos filosóficos,
tendo-se exercitado extraordinariamente em especulações e comentários acerca das coisas divinas
e em homílias públicas na igreja. E Melicio (o mel de Ática chamavam-no as pessoas instruídas)
era como alguém o descreveu: o mais perfeito por sua doutrina. É impossível admirar-se como
merece o vigor de sua retórica, mas podia-se dizer que ele o tinha por natureza. E quanto à perícia
no restante e à vasta erudição, quem poderia superar sua excelência?
28. Antes que o provasses uma só vez, dirias que era o homem mais hábil e mais firme em todas as
ciências da razão. Além disso, sua vida virtuosa estava também à altura. Nós o observamos
durante sete anos completos quando, por ocasião da perseguição, andou fugitivo de uma lado para
outro pelas regiões da Palestina.
29. Na igreja de Jerusalém, depois de Himeneo – o bispo mencionado pouco acima -, recebe o
ministério Zabdas. Morto este não muito depois, recebe em sucessão o trono apostólico, ali
conservado ainda até hoje, Hermon, último bispo até a perseguição de nossos tempos.
30. E em Alexandria é Teonas que sucede a Máximo, que exerceu o episcopado depois da morte de
Dionísio por dezoito anos. Em seu tempo era célebre em Alexandria Aquilas, considerado digno
do presbiterado junto com Pierio. Estava encarregado da escola da fé sagrada563 e deu provas de
uma obra filosófica de mui rara qualidade, não inferior à de ninguém, e de uma conduta
genuinamente evangélica.
31. E depois de Teonas, que serviu durante dezenove anos, recebe em sucessão o episcopado dos alexandrinos Pedro, que também se distinguiu muito especialmente durante doze anos inteiros.
Tendo empregado os três primeiros anos anteriores à perseguição, não completos, em governar a
igreja, pelo resto de sua vida entregou-se a uma ascese muito mais vigorosa, e sem ocultar-se,
velava pelo proveito comum das igrejas, e assim foi como no nono ano da perseguição foi
decapitado e adornou-se com a coroa do martírio.
32. Depois de haver descrito nestes livros o tema das sucessões, desde o nascimento de nosso
Salvador até a destruição dos oratórios, o que abarca uns trezentos e cinco anos, em continuação
vamos deixar por escrito, para que o saibam aqueles que vierem depois de nós, quantos e de que
índole foram os combates dos que em nossos dias portaram-se virilmente na defesa da religião