Sófocles, Ájax

Nicolas Poussin 1594–1665

Personagens

Atena
Odisseu, filho de Laertes
Ájax, filho de Telamon
Coro, de marinheiros de Salamina comandados por Ájax
Tecmessa, concubina de Ájax
Mensageiro
Teucro, meio irmão de Ájax
Menelau
Agamenon, filhos de Atreu, também chamados Atridas
Eurisaces, filho ainda pequeno de Ájax (personagem mudo)

Cenário: A história ocorre no acampamento grego junto a Tróia reduzida a ruínas. O dia amanhece. Vê-se Odisseu em frente à tenda de Ájax. Ele se sobressalta ao ouvir a voz de Atena, que aparece por cima da tenda. Odisseu a ouve mas rziio a vê.

Atena
 Sempre te vejo alerta, filho de Laertes, pronto para surpreender teus inimigos. Neste momento estás em frente à tenda de Ájax, perto de suas naus, junto ao acampamento. Observo-te há poucos instantes; vens seguindo os movimentos deste herói, examinando as pegadas recentes, querendo saber se agora ele se encontra em sua tenda ou não. Posso dizer que o faro de um cão da Lacônia te leva ao objetivo sem qualquer desvio; o homem está lá; ele acaba de entrar e sua fronte está molhada de suor, tanto quanto seus braços prestes a enforcar. Já não terás de imaginar, cheio de dúvidas, o que esta porta inda te oculta e em vez disso deves dizer-me por que te cansas assim; estou a par de tudo e posso auxiliar-te.
Odisseu
 Ah! Voz de Atena, voz de minha deusa amada! Ouvindo-a, reconheci o teu chamado, embora ainda estejas longe de meus olhos. Meu coração recebe-o sofregamente. Dir-se-ia que ele é um clarim etrusco falando alto por sua boca de bronze. Sim! Desta vez ainda me compreendeste; meus passos giram em volta de um inimigo, de Ájax protegido por seu grande escudo. É dele, e não de qualquer outro chefe grego, que meus passos seguem a pista há algum tempo. Durante a noite ele cometeu contra nós   um crime incrível – se ele foi de fato o autor, pois n a verdade nada sabemos de certo. Andávamos sem rumo, eu e minha escolta, e só por isso me p ropus esta missão. Há pouco descobrimos que nossos rebanhos, conquistados após a batalha final, foram exterminados pelas mãos de homens, que também abateram os guardiães das reses. Os gregos atribuem esse crime a Ájax. Um de nossos soldados o viu no momento em que ele pulava sozinho, alucinado, no meio da planície com a sua espada ainda vermelha de abundante sangue fresco. A própria testemunha trouxe-me a notícia em todos os detalhes, e neste momento estou seguindo a pista do exterminador. Guiam-me umas poucas pegadas, mas há outras que até agora me fazem perder a pista; Não posso imaginar de quem seriam elas. Estás chegando em boa hora; tua mão deve indicar-me o caminho certo a seguir, como fez no passado e fará no futuro.
Atena
 Já sei e vim juntar-me num instante a ti com o único objetivo de te proteger na realização desta caçada a Ájax.
Odisseu
 Dize se ajo bem, querida p rotetora.
Atena
 Não tenhas dúvida; ele é o autor do feito.
Odisseu
 Qual o motivo desta violência insana?       
Atena
 O penoso despeito em relação aos gregos porque não lhe outorgaram as armas de Aquiles.
Odisseu
 Por que, então, a louca matança do gado?
Atena
 Alucinado, ele pensava que tingia as mãos convulsas no sangue de. vossos chefes.
Odisseu
 Seus planos visavam, de fato, os chefes gregos?
Atena
 Se eu não agisse ele os teria exterminado.
Odisseu
 Foi dele o plano deste golpe audacioso? De onde veio esta idéia temerária?
Atena
 Ele saiu à noite para vos matar dissimuladamente e sem acompanhantes.
Odisseu
 E executou o plano só, até o fim?
Atena
 Ele chegou às portas das tendas dos chefes.
Odisseu
 E lá cessou a sua fúria homicida?

Atena
 Eu o contive. Espalhei sobre seus olhos a ilusão solerte de um triunfo horrível e o dirigi assim para vossos rebanhos, presas de guerra ainda à espera da partilha, entregues aos vossos guardadores de bois. Ele precipitou-se sobre os animais fazendo uma carnificina pavorosa entre as chifrudas reses enquanto avançava. Em seu delírio, ora lhe parecia que aprisionava os dois atridas e os matava com suas próprias mãos, e ora imaginava que eliminava um chefe e em seguida outro a cada nova arremetida contra os animais. E eu incentivava o homem furioso e o impelia para o fundo dessa rede em que estava encontrando a sua perdição. Depois de saciada a cólera mortífera vi-o amarrando os animais ainda vivos e conduzindo-os até a própria tenda, como se se tratasse de prisioneiros e não de bois carnudos; lá recomeçou a maltratá-los, dando a nítida impressão de estar lidando com criaturas humanas em vez de bestas. Mas minha intenção agora é que deponhas como testemunha única dessa demência óbvia junto aos gregos todos. Não tenhas medo; fica aí e não receies que ele te faça mal; desviarei de ti o seu olhar e não serás reconhecido.

 

(Atena desce até as proximidades da porta da tenda de Ájax, que está no interior da mesma, e lhe dirige a palavra)

Tu, que amarraste com fortes contas os braços de teus cativos e os puseste para trás! Saí! Sou eu quem te chama, Ájax! Sai daí! Ouve-me e vem até a porta desta tenda!
Odisseu
 Que estás fazendo, Atena? Pára de chamá-lo!  
Atena
 Fica tranqüilo. Queres parecer covarde?
Odisseu
 Não! Deixa-o na tenda! Basta, pelos deuses!


Atena
 Mas, que receias? Trata-se apenas de um homem.
Odisseu
 De um inimigo. Fique ele atrás da porta.
Atena
 Zombar de um inimigo é doce zombaria.
Odisseu
 É bom saber que ele inda está em sua tenda.
Atena
 Tens medo de ver frente a frente um homem louco?
Odisseu
 Se ele não fosse louco eu não teria medo.
Atena
 Ele não te verá, inda que estejas perto.
Odisseu
 Que dizes? Seus olhos não vêem, mesmo abertos?
Atena
 Obscurecê- los-ei; não serás visto; acalma-te.
Odisseu
 Quando um deus nos ajuda, nada é impossível.
Atena
 Faze silêncio, então, e permanece aí.
Odisseu
 Se queres, fico, mas prefiro outro lugar.
Atena
 Dirigindo-se novamente a
Ájax
 no interior da tenda. Estou chamando-te pela segunda vez! Não és atencioso com tua aliada.  Abre-se a porta da tenda.
Ájax
 aparece com a espada ensanguentada nas mãos.
Ájax
 Salve, filha de Zeus, divina Atena! Salve! Ah! Quanto me ajudaste! Quero oferecer-te por estas belas presas que matei na caça um condigno troféu feito de ouro maciço.
Atena
 Falaste bem, mas dize: mergulhaste a espada no sangue dos guerreiros gregos muitas vezes?
Ájax
 Não negarei; posso vangloriar-me disto.
Atena
 Teu braço armado ergueu-se até contra os atridas?  
Ájax
 Ergueu-se, e nunca mais eles me humilharão.
Atena
 Se compreendo bem, os dois já não existem.
Ájax
 Sim; estão mortos. Tirem-me as armas agora!
Atena
 Bravo! Mas onde está o filho de Laertes? Qual foi o seu destino? Ele fugiu de ti?
Ájax
 Perguntas onde está a raposa maldita?
Atena
 Sim; penso em Odisseu, em teu grande inimigo.
Ájax
 Nenhum dos hóspedes foi tão bem-vindo, deusa; ele está sentado lá dentro, acorrentado. Ainda não tive vontade de matá-lo.
Atena
 Que farias primeiro? Em que vantagens pensas?
Ájax
 Antes eu mesmo o amarrarei com minhas mãos a um pilar que fica abaixo de meu teto.
Atena
 Para fazer ainda o que ao infeliz?
Ájax
 Seu dorso nu há de ficar arroxeado por meu açoite até que eu o veja sem vida.
Atena
 Não tortures tão cruelmente o desgraçado!
Ájax
 Seja como quiseres, deusa, em tudo mais. Se queres, satisfaze teus outros desejos, mas este é o mal que lhe reservo, e nenhum outro.
Atena
 Se isso te dará prazer, que seja assim. Vai logo, então, golpeia-o sem compaixão e não freies nenhum de teus terríveis ímpetos!
Ájax
 Vou completar minha tarefa. Quanto a ti, apenas peço que estejas sempre a meu lado como a boa aliada que foste até hoje.
Ájax
 volta à tenda e fecha a porta.
Atena
 V iste, Odisseu, como é grande o poder dos deuses? Quem mostraria em tempo algum maior prudência e também mais bravura na hora de agir?
Odisseu
 Até onde posso saber, ninguém, Atena. Compadeço-me dele em seu grande infortúnio embora seja o pior dos meus inimigos, pois ele está atado a um destino horrível. Medito ao mesmo tempo sobre a minha sorte   !  Ájax  e sobre a deste herói, pois vejo claramente  que somos sombras ou efémeros fantasmas vivendo a nossa vida como os deuses querem.
Atena
 Se é assim, impregna-te destes conceitos, faze o maior esforço para que teus lábios jamais digam quaisquer palavras insolentes contra n enhuma divindade. Não assumas uma atitude altiva se p revaleceres sobre outras criaturas nesta vida breve em valentia ou em riqueza; um dia apenas reduz a nada as tolas pretensões humanas ou então as exalça. Os homens mais prudentes são sempre amados pelos deuses, mas os maus são justamente detestados entre eles.
Atena
 desaparece e ÜD!SSEU afasta-se. Entra o Couo.
Coro
 Quando tens sorte ficamos alegres, filho de Telamon, ilustre rei de Salamina, a ilha celebrada, cujos embasamentos são banhados pelas ondas do mar. Mas quando atingem-te golpes de Zeus divino ou se levantam dos batalhões de combatentes gregos rumores repassados de calúnias contra tua pessoa, inquietamo-nos como se fôssemos pombos que sentem os olhos se turvarem nas alturas. Para nossa vergonha detectamos durante a noite há pouco tempo finda murmúrios incisivos contra ti: dizem que apareceste nas pastagens onde correm as éguas assustadas e massacraste os rebanhos dos gregos – parte de nossos despojos de guerra com muitos sacrifícios conquistados por nossas finas lanças -, dizimando-os com tua espada sedenta de sangue. São estas as histórias inventadas pelo astuto Odisseu e sussurradas aos ouvidos de todos os guerreiros em seu trabalho de persuasão. Agora és o alvo das denúncias; tudo que ele propala ganha crédito, e cada ouvinte, mais que o delator, exulta de maneira desdenhosa com teus exacerbados sofrimentos. Aponta para os grandes tuas flechas e elas logo atingirão o alvo. Se alguém lançasse contra nós, humildes, acusações iguais às que te atingem, quem lhe daria crédito entre os gregos? São vítimas da inveja os poderosos, mas sem os grandes homens os pequenos são como um paredão que desmorona por falta da devida proteção. Para que um muro se mantenha erguido as pedras de menores dimensões têm de juntar-se inevitavelmente aos blocos grandes e estes aos pequenos. E os tolos não têm no devido tempo a mínima noção destas verdades. São tolos os que clamam contra ti e sendo poucos somos impotentes para neutralizar os seus ataques quando não estás próximo de nós. Mas já que longe de teu firme olhar eles fazem ruído como pássaros em bandos numerosos na presença de um grande abutre, com toda a certeza o terror os domina e quando, enfim, apareceres repentinamente, todos se prostrarão por terra, mudos, incapazes sequer de usar a voz. Então foi Ártemis, filha de Zeus, que se compraz em dominar os touros – ah, gritaria horrível de se ouvir, mãe de nosso pudor! -, que em altos brados te lançou contra o rebanho pacato  presa de guerra dos valentes gregos? Foste algum dia menos generoso com ela depois de alguma vitória? Deixaste-a frustrada, por acaso,  sem as devidas oferendas ótimas de gloriosos despojos de guerra, sem sacrifícios de animais silvestres? Seria, então, o próprio Eniálio/ deus revestido da couraça brônzea,  que, depois de te oferecer o apoio de sua lança, teria motivos de queixa contra ti, senhor, e armou uma cilada nas trevas da noite para vingar-se assim de tua afronta?  Jamais, filho de Telamon, tu mesmo perderias o senso até chegar ao ponto de atacar qualquer rebanho! Não! Foi um mal mandado pelo céu que desabou sobre tua cabeça!  Queiram Zeus soberano e Febo e Apolo dar fim depressa aos murmúrios dos gregos! Mas se furtivamente os chefes deles, dois combativos reis, ou este príncipe da raça infame dos filhos de Sísifo  obstinam-se na invenção de histórias deste teor, não deves, senhor nosso, ficar em tua tenda à beira-mar, alimentando pérfidos rumores. Vamos! Levanta-te! Deixa o assento em que há tanto tempo estás inerte, nesta passividade inquietante! Assim fazes subir até o céu a chama que anuncia teu desastre! A insolência de teus inimigos agora alastra-se incontidamente até os vales abertos aos ventos. Todos zombam de nós com más palavras e a mágoa mora em nossos corações.

(Entra Tecmessa

 

Tecmessa
 Há diante de nós muitos motivos, marinheiros leais das naus de Ájax, sobrinhos de Erecteu filho da Terra, para lamentações intermináveis, pois nos preocupamos com razão com a linhagem do rei Telamon, longe de Salamina, sua pátria. Neste momento o grande, o respeitado, o feroz Ájax, deve estar deitado no chão de sua tenda, triste vítima de um furacão que lhe escurece a alma!
Coro
Depois da calma a noite recém-finda nos trouxe um desencanto esmagador. Fala, filha do frígio Teleutas, pois Ájax ardoroso fez de ti uma cativa e agora mulher e te protege com seu grande amor. Deves saber de algo e nos dirás palavras mensageiras da verdade.
Tecmessa
 Mas pode-se explicar o inexplicável? Equivalente à morte é o evento cujo relato ireis ouvir de mim. Vítima de um acesso de loucura, Ájax, nosso excelente amigo Ájax, deixou praticamente de existir durante a noite finda; basta olhar no interior de sua ampla tenda as muitas vítimas ensanguentadas, sacrificadas pelas mãos de um homem; ele é o autor de uma hecatombe horrível.
Coro
 Ah! São fatídicas, esmagadoras, estas notícias que nos trazes hoje        do herói fogoso! … Os gregos, insensíveis, divulgam-nas; um terrível rumor as amplifica. Temos muito medo Ájax  dos grandes males ainda por vir.   Quando for descoberto, o responsável será por certo condenado à morte por haver empunhado a espada negra para imolar durante seu delírio os nossos bois e os pastores montados.  
Tecmessa
 Ainda tenho a impressão de vê-lo· chegando das pastagens – sim, pastagens! trazendo os bois atados uns aos outros. Algumas reses ele degolou em sua tenda; de outras separou os flancos de uma extremidade a outra, partindo-as completamente ao meio. Continuando, ele tomou nos braços um par de carneiros  de patas brancas; de um deles ele cortou a cabeça e depois de arrancar com a mão a língua lançou-a ao solo. O outro ele amarrou em pé num dos esteios existentes em sua tenda e depois, apanhando uma longa correia apropriada para prender cavalos, fez com ela um duplo açoite dos mais ruidosos, usando-o para atacar a besta enquanto a insultava, transtornado, com torrentes de palavras terríveis que só um deus, e nunca um dos mortais, teria sido capaz de ensinar-lhe. 
Coro
 Está chegando a hora de cobrirmos nossas cabeças com véus e fugirmos furtivamente, ou então sentarmo-nos nos bancos onde os remadores ficam a bordo de nossas velozes naus, e de impeli-las com força total pelos caminhos do mar insondável, sob os golpes lançados contra nós pelos dois reis irmãos, filhos de Atreu. Temos medo de morrer alvejados por pedras, atacados cruelmente em companhia do herói infeliz que um destino espantoso esmaga aqui.
Tecmessa
 Tudo acabou; sem a luz de um relâmpago, a tempestade que tinha caído sobre sua cabeça já passou. Ájax recuperou a lucidez mas somente para ser atingido por novos e piores sofrimentos. Rememorar os males que ele mesmo se infligiu sem participação de qualquer companheiro, só lhe deixa entrever sofrimentos infinitos. (ORIFEU Se o acesso acabou, em minha opinião tudo vai melhorar; finda a perturbação, o mal agora nos parece menos grave.
Tecmessa
 Se te fosse dado escolher, dize-me logo qual poderia ser a tua preferência: ser venturoso enquanto os amigos se afligem, ou partilhar as muitas amarguras deles, acabrunhados por terríveis sofrimentos?
Corifeu
 Um duplo mal, mulher, é a pior desgraça.
Tecmessa
 Então o mal cessou, mas nossas dores não.       
Corifeu
 Que dizes? Não posso entender tuas palavras.
Tecmessa
 O nosso amigo, vítima da insanidade, Sentia-se feliz com o mal que o desvairava, enquanto nós, desarvorados a seu lado, sabíamos que nossa mente estava sã. Recuperada agora a lucidez por ele, iremos vê-lo inteiramente dominado por uma incrível amargura; nós, porém, sofremos, tão desesperados quanto antes. Não há nisto dois males em vez de um apenas?
Corifeu
 Concordo e temo que venha de um deus o golpe. E como poderíamos ter qualquer dúvida se, livre de seu mal, ele não nos parece nada melhor do que quando inda estava aflito?
Tecmessa
 É esta a minha opinião; quero que saibas.
Corifeu
 Mas, como teve início o mal? Como a demência dominou Ájax? Conta-nos as tuas penas, pois te diriges a pessoas que as partilham.
Tecmessa
 És nosso amigo; logo ficarás sabendo. Chegava ao fim a noite. As fogueiras noturnas já não luziam. Ájax empunhou num átimo a sua espada de dois gumes, pois lhe veio subitamente a decisão de se lançar a uma guerra sem razão nem objetivo. Eu ponderei dizendo-lhe: “Que fazes, Ájax? Por que começas a marchar sem ser chamado? Não recebeste uma mensagem, não ouviste o som de nenhuma trombeta. A esta hora todos os combatentes gregos inda dormem.” Ele me respondeu em escassas palavras com o refrão invariável: “O silêncio, mulher, é o ornamento maior das mulheres.” Compreendi e me calei; ele saiu. Não sou capaz de te dizer o que ocorreu no acampamento, mas ele voltou mais tarde trazendo touros, cães pastores, e além disso um certo número de ovelhas e carneiros. Ele matou na tenda alguns deles na hora cortando-lhes logo as cabeças; de outras vítimas levantou os focinhos e as decapitou; outros foram exterminados a pancadas. Ájax brutalizou diversos animais atados como estavam, e precipitou-se sobre o rebanho como se estivesse agindo contra criaturas humanas. De repente, aparecendo à porta ele se dirigiu a pessoas imaginárias, vomitando uma torrente de terríveis invectivas contra os dois reis filhos de Atreu e logo após contra Odisseu, entre estrondosas gargalhadas. Ah! Que vingança altiva ele tinha a impressão de estar tirando contra eles! Logo após o herói voltou à sua tenda, e com o tempo, aos poucos e não sem terríveis sofrimentos, recuperou finalmente a razão – coitado! Ao ver o vulto do desastre que causara, desesperado ele deu murros na cabeça, gritou, caiu – mais uma queda a acrescentar às incontáveis do rebanho dizimado -, arrancando com as unhas tufos de cabelos. Durante muito tempo Ájax ficou parado, silencioso e abismado. Finalmente falou comigo, apenas para ameaçar-me dos mais terríveis males se eu não lhe dissesse tudo que se passou com ele, e quis saber qual era mesmo o seu estado. Eu, caro amigo, dominada pelo terror, disse-lhe tudo         que aconteceu – ao menos tudo que sabia. Nesse momento começou a soluçar assustadoramente, como nunca fez,  ele, que não cessava de dizer outrora que chorar é coisa de fracos e covardes. Não se tratava de gritos de dor intensa; eram gemidos roucos (pensei que escutava mugidos de algum touro) . Agora está ali,  aniquilado por seu enorme infortúnio, sem querer aceitar alimentos e água, imóvel e prostrado em meio aos animais sacrificados antes pela sua espada. Sem dúvida nenhuma Ájax premedita  uma desgraça, a crer nos sombrios presságios de suas falas e queixumes. Age, amigo! Quis ver-te justamente por estas razões. Entra na tenda! Ajuda-o se achas que podes fazer algo por mim! Homens iguais a ele  cedem apenas às palavras dos amigos.
Corifeu
 Ah! Têcmessa! Ah! Nobre filha de Teleutas! Tuas palavras expressivas me amedrontam! As desventuras de Ájax, nosso herói, lançaram-no numa agonia delirante, irreversível. Ouve-se a voz de
Ájax
 entre gemidos no interior da tenda.
Ájax
 Ai! Ai de mim!
Tecmessa
 Temo que ele piore com o passar do tempo; não ouves os gemidos comoventes de Ájax?
Ájax
 Ai! Ai de mim!   
Corifeu
 Ele parece estar doente, ou se lamenta lembrando-se por certo de algum mal passado, cujas repercussões ainda está sentindo.
Ájax
 Ai! Meu filho! Meu filho!
Tecmessa
 Ai! Infeliz de mim! Como sou infeliz! Ele te chama agora, nosso filhinho! Que terá Ájax em mente? Tu, Eurisaces, onde estarás neste instante? Minha infelicidade é muito grande! Enorme!
Ájax
 Do interior da tenda. Estou chamando Teucro!  Onde está Teucro? Ele inda corre sem parar em busca de despojos de guerra enquanto eu morro?
Coro
 Ájax parece lúcido. Vamos entrar! Abra-se a porta! É possível que me vendo ele recobre um pouco da serenidade.
Tecmessa
 Estou em frente à porta; abri-la-ei agora. Poderás ver a sua obra e seu estado.     
Tecmessa
 abre a porta; vê-se
Ájax
 desolado entre os animais por ele massacrados.
Ájax
 Ah! Marinheiros meus! Ah! Meus amigos! Somente vós permaneceis fiéis às leis da lealdade! Vede a vaga que se elevou para me aniquilar, inflada há pouco tempo contra mim por uma tormenta destruidora que me atacou e acaba de envolver-me!
Corifeu
 Ai! Ai de m im! Pareces uma testemunha verídica demais! Teu ato, por si mesmo, prova sem deixar dúvidas que enlouqueceste.
Ájax
 Executantes da tarefa árdua dos marinheiros, meus caros amigos que embarcastes para ferir as ondas com vossos remos! Afinal vos vejo em condições de pôr fim à desdita que está me aniquilando! V inde! V inde! Peço-vos! Ajudai-me! Destruí-me!
Corifeu
 Desejo ouvir de ti palavras mais p ropícias. Não insistas em agravar tua desgraça impondo à tua dor remédios dolorosos!
Ájax
 Vedes o herói valente, audacioso, que nunca estremeceu nas duras lutas contra inimigos em qualquer lugar, aquele cujo braço amedrontava até as feras imunes ao medo? Hoje zombam de mim às gargalhadas! …
Tecmessa
 Imploro-te, Ájax, meu senhor! Não digas isto!
Ájax
 Sai já daqui! Volta teus calcanhares e vai embora! Ai! Pobre de mim! . . .
Tecmessa
 Ah! Pelos deuses todos! Cede às minhas preces e luta por recuperar a lucidez!
Ájax
 Como sou infeliz! Com minhas mãos pus contra mim os gênios vingadores! … Precipitei-me contra os bois chifrudos e contra os alvos e belos carneiros, banhando-me no sangue escuro deles! . . .
Corifeu
 Por que te entregas a tão grande desespero? Aconteceu; o que é não deixará de ser.
Ájax
 Ah! Tu, que espreitas tudo, tu, que estás em toda parte, artífice de males, tu, filho de Laertes, mais nojento de todos os canalhas deste exército! Que gargalhadas longas, jubilosas, deves estar dando por minha causa!
Corifeu
 É sempre com o beneplácito dos deuses que nós, simples mortais, choramos ou sorrimos.
Ájax
 Ah! Se eu pudesse vê-lo, mesmo assim, em meio a este desespero imenso em que me encontro agora! Ai de mim!
Corifeu
 Não deves proferir palavras desdenhosas. Não vês ainda a desventura a que chegaste?
Ájax
 Ah! Zeus, progenitor de meus avós! Faze com que o pérfido Odisseu, o terrível canalha, morra logo . e com ele pereçam os dois reis!  Depois não me incomodo de morrer.
Tecmessa
 Se estes são teus votos, deseja também que eu morra juntamente contigo, senhor! Por que continuar vivendo se morreres?
Ájax
 Ah! Trevas, toda a minha luz! Ah! Érebo  esplendoroso para mim! Levai-me para viver convosco! Sim! Levai-me! Já não sou digno de elevar os olhos à procura da ajuda dos bons deuses e até dos homens! … Veio atormentar-me e mata-me a filha de Zeus supremo,  deusa dotada de grande poder. Que terra ainda me receberá? Onde procurarei refugiar-me se minha boa fama, amigos meus, morreu com as vítimas mortas por mim, e se sou condenado a um triunfo cuja conquista me leva à loucura? Queiram os céus que todos os soldados de nosso exército cheguem aqui segurando uma lança em cada mão, dispostos a me tirarem a vida!
Tecmessa
 Ah! Infeliz de mim! Terei de ouvir o herói por excelência usar palavras que jamais pensou até há pouco tempo em proferir?
Ájax
 Ah! Estreito de vagas estrondosas, barrancos, grutas e belas pastagens perto do mar! Só por pensar em vós demorei tanto, tanto tempo em Tróia sem sequer repousar! Nunca, jamais podereis ver-me desfrutando a vida (estejam certos deste fato os homens de mente sã!). Ah! Ondas do Escamandro,  tão próximas de mim, tão agradáveis a todos os argivos! Nunca mais vereis o homem que fui até ontem, homem tão bravo que Tróia arrogante – direi aqui palavras presunçosas -, até há pouco não vira outro igual no exército vindo da terra grega! Mas vede agora a grande humilhação que o reduziu p raticamente a nada! . . .
Corifeu
 Não posso defender-te nem deixar que fales envolto no infortúnio imenso que te abate.
Ájax
 Menos agitado. Ai! Ai! Quem poderia há pouco imaginar que este meu nome corresponderia agora tão bem aos males reservados para mim?  É hora de repetir duas ou três vezes ”Ai! Ai! ” enquanto enfrento estes reveses todos! Meu pai voltou há algum tempo desta terra próxima ao Ida, onde com sua bravura fez jus ao primeiro lugar entre os soldados vindos da Grécia antes desta expedição, trazendo para sua casa grande glória sem qualquer mácula. E eu, sendo seu filho,  dotado de valor igual, cheguei a Tróia, e aqui meu braço realizou feitos dignos dos dele, mas agora estou aqui, morrendo, vítima do desprezo dos chefes argivos! Mas de uma coisa ao menos eu tenho certeza:  se ainda vivo Aquiles tivesse querido deixar as suas armas a um dos amigos a fim de consagrar o valor de um herói, tê-las-ia entregue a mim, somente a mim, em minhas próprias mãos. Mas na realidade  os dois atridas, graças a intrigas sórdidas ofereceram-nas ao maior dos vilões; eles menosprezaram minha valentia e se minha alma e meus olhos desatinados não me tivessem compelido a desviar-me    de meus propósitos, nunca mais eles dois profeririam contra qualquer um dos gregos uma sentença tão ignóbil quanto a deles! Foi necessário que a filha do grande Zeus de olhar feroz, deusa indomável, no momento  em que eu erguia o braço forte contra eles, me tirasse a razão, pondo em meu coração a raiva furiosa, por causa da qual tive de mergulhar ambas as minhas mãos no sangue destes animais, enquanto os dois  riem de mim agora porque se livraram – ai, ai de mim! – da punição bem merecida, frustrando minha decisão. Mas quando um deus deseja nossa ruína, até o mais covarde supera o mais valente. Que farei agora?    As divindades obviamente me detestam; todo o exército dos gregos me abomina; sou odiado pela cidade de Tróia e por esta planície onde combatemos. E como poderia eu, para voltar  a Salamina, deixar nossa frota aqui, deixar sós os atridas e cruzar os mares? Que espetáculo ofereceria eu no dia de me apresentar a Telamon, meu pai? Suportaria ele depois disto minha presença se eu enfim lhe aparecesse sem títulos de glória que me distinguissem, e sem o prêmio inestimável da bravura que outrora lhe foi concedido em sua terra com a coroa portadora de nobreza e outras honrarias tão caras aos homens? Não! Esta idéia me parece intolerável! Iria eu até os muros dos troianos para enfrentá-los e, depois de um feito heróico, cair sem vida pondo fim a tantos males? Mas esta solução sem dúvida encheria os dois atridas de alegria. Impossível! Melhor seria imaginar uma façanha capaz de convencer o meu idoso pai de que, nascido dele, não sou um soldado sem coração! É realmente vergonhoso querer viver por muito tempo quando a vida é uma sucessão constante de amarguras. Que prazer nos traria o perpassar dos dias se eles nos afastam da morte fatal apenas para ouvirmos expressões de escárnio? Eu não admiraria um homem que soubesse apenas alimentar esperanças vãs. Viver com honra ou perecer honradamente é o lema para quem de fato nasceu nobre! E basta. Ouvistes tudo que eu tinha a falar.
Corifeu
 Ninguém poderá pretender que nos disseste palavras enganosas, Ájax; elas vêm de teu modo de ser. Agora silencia e deixa teus amigos certos te afastarem dessa resolução; renega estas idéias!
Tecmessa
 Ai, Ájax, meu senhor! Não há maior desgraça para um mortal do que ser joguete da sorte. Sou filha de um pai livre, cujos bens imensos fizeram dele um homem muito poderoso,  talvez nunca igualado por qualquer dos frígios, e eis-me hoje aqui como simples cativa. Foi esta obviamente a decisão dos deuses e mais ainda de teu braço. Sendo assim, conjuro-te pelo Zeus de nossa lareira  e pelo leito que selou nossa união: poupa-me por favor das palavras cruéis que eu teria de ouvir dos inimigos teus se me deixasses sob o jugo de outro homem! No triste dia em que morreres e no qual,  deixando a vida, ter-me-ás também deixado, nesse dia funesto – podes ter <:erteza! – levada à força – ai de mim! – pelos argivos, serei, assim como teu filho, destinada a ter como alimento o pão dado aos escravos.  E com palavras rudes meu novo senhor lançar-me-á aos gritos seus duros insultos: “Agora podeis ver a companheira de Ájax, do mais impetuoso herói de nosso exército! Olhai-a, reduzida à condição de escrava  depois de a invejarem por sua ventura.” Eis as palavras que me serão dirigidas e enquanto me perseguir meu cruel destino expressões como estas te envergonharão, a ti, senhor, e a todos os teus consangüíneos.  Escuta a voz da honra! Ela não consente que abandones teu pai nos anos da velhice, que abandones também a tua mae idosa, a esta hora dirigindo suas súplicas aos deuses para que retornes vivo à pátria.  Tem piedade também de teu filho, Ájax! Desejarias que, carente dos cuidados devidos à infância, ele se criasse muito longe de ti, completamente só, nas mãos de algum tutor indiferente a ele?    Que sorte miserável queres infligir-nos, a ele e a mim, morrendo agora? Nada vejo para onde possa voltar meus olhos tristes, nada e ninguém além de ti! A tua lança destruiu minha triste pátria, e outro golpe    d a sorte adversa fez caírem neste chão meu pai e minha mãe, levados pela Morte para morarem nas profundezas do inferno. Quem poderia para mim substituir riqueza e pátria, quem senão tu, senhor? A minha vida está em ti, somente em ti, e tu, Ájax, também deves pensar em mim. É um dever dos homens jamais esquecerem o bem que se lhes faz; favor chama favor. Quem, por descaso, deixa perder-se a memória de um benefício, j amais, em tempo algum, será considerado um homem bem-nascido.
Corifeu
 Seria ótimo, Ájax, se teu coração sentisse tanta piedade como o meu; ouve as ponderações de tua companheira!
Ájax
 Ela merecerá de mim plenos louvores se obedecer às m inhas determinações.
Tecmessa
 Obedecer-te-ei em tudo, amado Ájax.
Ájax
 Traze-me, então, meu filho, pois desejo vê-lo.
Tecmessa
 Eu tinha muito medo e o tirei daqui.
Ájax
 Queres dizer: quando meu mal manifestou-se.
Tecmessa
 Se ele estivesse perto talvez perecesse.       
Ájax
 Seu fim se ajustaria ao meu triste destino.
Tecmessa
 Tive o cuidado de afastá-lo deste risco.
Ájax
 Concordo com teu ato e com tua prudência.
Tecmessa
 Que serviços ainda te posso prestar?
Ájax
 Deixa-me ver meu filho e conversar com ele.
Tecmessa
 Nossos servos o guardam bem perto daqui.
Ájax
 Por que ainda não chegou? Traze-o logo!
Tecmessa
 Teu pai te chama, filho meu querido. Traga-o já até aqui seu preceptor!
Ájax
 Ele já vem? Ou tua voz não o alcança?
Tecmessa
 Vejo o escravo aproximando-se com ele.

 

(Ájax recebe EURISACES das mãos do escravo)

 

Ájax
 Dá-me logo o menino! Ele não terá medo ao ver o sangue ainda fresco pelo chão se de fato é meu filho e se por sorte herdou as qualidades de seu desditoso pai; se assim não for, deve amoldar-se sem demora aos modos rudes de seu pai e ter a alma igual à minha. Desejo- te apenas, filho, toda a ventura que teu triste pai não teve; quanto ao restante, assemelha-te a ele em tudo e nada terás em comum com os homens maus. Invejo-te neste momento, filho meu, porque não percebes a nossa desventura: nada sentir é a melhor coisa da vida. Essa inocência chega ao fim quando aprendemos a grande diferença entre alegria e dor. Quando tiveres consciência, nunca deixes, diante de inimigos, de mostrar quem és e de que pai nasceste. Até lá alimenta-te de leves brisas e dirige tua vida com vistas a p roporcionar à tua mãe a mais pura satisfação. Entre os aqueus – tenho certeza – ninguém será insolente a ponto de fazer-te afrontas humilhantes, embora eu já não viva. Deixarei contigo um guardião bastante forte e confiável para cuidar de ti e para te educar; seu nome é Teucro e ele não se queixará de suas penas, por mais longe que hoje esteja à caça de inimigos nossos. Quanto a vós, bons marinheiros e soldados reunidos, peço vosso incondicional apoio a Teucro para poder cumprir a missão que lhe dou. Para isso levai ao seu conhecimento minha vontade agora expressa. Seu dever é conduzir meu filho à nossa pátria amada, onde deve mostrá-lo a Telamon, meu pai, e a Eribéia, minha mãe; em Salamina ele terá o encargo de cuidar de ambos na velhice penosa, até chegar a hora de irem para o último retiro – o Hades.D         Com referência às minhas armas, não desejo Ájax  que elas sejam oferecidas em concurso    diante dos chefes aqueus, principalmente do causador de toda a minha desventura. Aceita neste instante, meu querido filho, este escudo, motivo de teu próprio nome, o nome de Eurisace; deverás usá-lo valendo-te desta correia bem pregada aos sete duros couros de outros tantos bois.  As minhas outras armas serão enterradas juntamente comigo para todo o sempre. Dirigindo-se a TÊCMESSJI. Vamos! D epressa! Toma esta criança agora! Depois, fecha a porta da tenda com ferrolhos em vez de aparecer gemendo em frente a ela (sabemos que as mulheres gostam de chorar). Não tardes a fechar a porta! Não convém a um bom médico, mulher, ficar dizendo fórmulas mágicas misturadas com lágrimas quando a doença já exige cirurgia.
Corifeu
 Estou sentindo medo ouvindo-o dizer com tanta ênfase palavras incisivas …
Tecmessa
 Ah! Ájax, meu senhor!. .. Que estarás planejando no íntimo de teu dorido coração?
Ájax
 Não faças questão de saber, nem me interrogues; devemos dominar-nos em certos momentos.
Tecmessa
 Ai! Ai de mim! Meu desespero é muito grande! Por nosso filho, pelos deuses, não nos faltes!  
Ájax
 Fatigas-te demais, mulher. Inda não sabes que nada mais estou devendo às divindades?
Tecmessa
 Desejo ouvir de ti palavras menos lúgubres …
Ájax
 E tu, dirige-te a quem pode ainda ouvir-te!
Tecmessa
 Não queres escutar-me?
Ájax
 Falas muito, Têcmessa.
Tecmessa
 Porque estou horrorizada, meu senhor …
Ájax
 Fazendo mençiio de entrar na tenda e dirigindo-se a um servo. Vem fechar esta porta sem demora, servo!
Tecmessa
 Ah! Pelos deuses! Deixa-me tocar-te ainda!
Ájax
 Demonstras grande ingenuidade se pretendes tentar mudar o meu temperamento agora!
Ájax
 entra na tenda. Saem
Tecmessa
 e seu filho.     
Coro
 Insigne Salamina! Estás feliz entre as ondas que açoitam tuas praias, famosa para sempre, enquanto nós, desventurados, há tempo demais estamos acampados neste solo perto do monte Ida, onde sem trégua durante longos, incontáveis meses, nos consumimos em expectativa tendo apenas uma esperança amarga: a de chegar um dia ao negro Hades abominável. Neste instante Ájax,· presa de um frenesi, obra dos deuses, indiferente à nossa inquietação – ai, ai de nós! – força-nos a sofrer mais uma provação. Tu o mandaste há tantos anos embarcar conosco como um herói sempre vitorioso nos combates mais acirrados. Hoje, alheio a tudo neste desespero, ele é motivo de grande agonia para todos os seus bons companheiros. E os feitos de seu braço, até há pouco provas de valentia incomparável, apenas acentuam n esta hora a ingratidão dos atridas ingratos. Quando a triste mãe dele, recurvada sob o peso dos anos da velhice e agora encanecida pela idade, souber que a mente de seu nobre filho está em ruínas, há de dar – coitada! um grito lancinante, lancinante como o canto queixoso de algum pássaro, de um rouxinol ferido pela dor; com gemidos terrivelmente agudos ela demonstrará seu sofrimento enquanto suas mãos irão bater com golpes surdos em sua cabeça para arrancar-lhe os cabelos alvíssimos. Descer ao Hades nos braços da Morte é o mal menor que pode acontecer a quem está doente de demência quando, marcado pelo sangue nobre para ser o m ais valente dos gregos em suas muitas, exaustivas lutas, demonstra sua incapacidade de ser fiel a antigos p ropósitos para apegar-se a outros que o transtornam. Ah! Telamon ! Ah! Pai muito infeliz! Que terrível desastre alguém irá anunciar-te acerca de teu filho! Nunca nenhum dos divinos eácidas foi vítima de um fado mais cruel!
Ájax
 reaparece à porta da tenda empunhando uma espada.
Ájax
 O tempo, em seu constante, inexorável curso, mostra o que estava ainda escondido nas sombras enquanto nos impede de ver claramente o que fulgura à luz do dia. Nada existe digno de fato do nome de inesperado e todos vemos que falham da mesma forma o juramento mais solene e mais sagrado e o mais inabalável de nossos propósitos. Eu mesmo, que há algumas horas demonstrava uma firmeza inflexível como o ferro recém-endurecido pela rubra têmpera, estou sentindo enfraquecer-se lentamente a força de minha linguagem incisiva, só por ouvir uma mulher. A compaixão tenta impedir-me de deixá-la aqui viúva e o filho órfão entre tantos inimigos. Irei imediatamente às praias planas para banhar-me e para me purificar de minhas culpas e escapar desta maneira do pesado rancor da deusa. Avançarei depois até algum lugar nunca pisado por pés humanos; lá, cavando o solo virgem, enterrarei o ferro desta minha espada, arma odiosa, mais que todas detestada, de tal maneira que ninguém jamais a veja:           que a Noite e o Hades a recebam e a ocultem nas profundezas da Mãe-Terra! Desde o dia de mau agouro em que minhas mãos receberam Ájax  das mãos de Heitor este presente singular  do maior de meus inimigos, nenhum bem obtive dos argivos. O velho provérbio mostrou logo depois sua veracidade: “Não são presentes os presentes de inimigos; não esperes tirar qualquer proveito deles.”  Também eu no futuro saberei ceder diante dos bons deuses; terei de aprender a prestar aos atridas minhas homenagens; eles são nossos chefes e devo render-me; não pode haver dúvida alguma quanto a isto.   As divindades mais terríveis sempre curvam-se diante de direitos jamais contestados. O longo inverno acompanhado pela neve d<‘ílugar ao verão portador de colheitas. O carro soturno da noite se recolhe   quando aparecem os alvos corcéis do dia, deixando-o brilhar com todo o seu fulgor. O sopro dos ventos temíveis adormece o mar sem fim cheio de vagas estrondosas. O sono onipotente, finda a noite escura,  liberta os seres que fizera adormecer, pois não pode manter indefinidamente o seu domínio benfazejo sobre eles. E nós, não devemos mostrar discernimento? Pois quanto a mim, neste momento percebi  que só devemos odiar um inimigo com a idéia de lhe querer bem mais tarde; quanto aos amigos, não pretendo desde agora dar-lhes ajuda senão com o pensamento de que eles não serão amigos para sempre.  É diminuto o número de criaturas cuja amizade é uma guarida segura. Mas tudo correrá bem para todos nós.

(Dirigindo-se a TECMESSA, que voltdvd).

Entra, mulher, e pede aos deuses que perfaçam plenamente os desejos de meu coração.  E vós, amigos, também deveis acatá-los tanto quanto minha mulher, e quando Teucro chegar à minha tenda devereis dizer-lhe que pense em mim e seja bom para convosco. Estou partindo para onde devo ir. Dai atenção às minhas recomendações e se assim for talvez descobrireis bem cedo que apesar desta minha imensa desventura inda posso encontrar a desejada paz.

(Sai Ájax e TECMESSA entra na tenda).

 

Coro
 V ibramos de alegria, esvoaçamos de incontidos desejos! Pan! Ah! Pan! Aparece-nos, Pan, tu, que visitas com tanto gosto nossas longas praias; deixa o Cileno e seus picos rochosos batidos pela neve! Aparece-nos, deus guia do coro dos outros deuses! Vem comandar nossas danças em Nisa ou lá em Cnossos, tu, que agora sabes sem recorrer a mestres! Neste instante só podemos pensar em nossas danças. Venha também nosso senhor Apolo, o deus de Delos, e atravesse logo o mar Icário com sua imagem bem conhecida pelos seus devotos, para juntar-se a nós, atento sempre às nossas p reces muito fervorosas! Ares nos livra de um desgosto horrível. Ah! Já chegou mais uma vez a hora! Chegou a hora, Zeus, na qual o brilho de um belo dia cobre nossas naus, maravilhoso, prestes a estender-se sobre as ondas do mar sem fim, o dia em que nosso muito querido Ájax, deixando num instante de pensar em suas mágoas, logo obedece ao ritual dos santos sacrifícios, já imbuído no sagrado espírito          da necessária disciplina rígida. O tempo onipotente apaga tudo Ájax  que ocorre neste mundo; quanto a nós,    não cremos em impossibilidades desde o momento em que nosso senhor, mudado contra toda expectativa, pôs fim a seu furor contra os atridas e às suas querelas ferocíssimas.    Entra u m
Mensageiro
 dirigindo-se ao CoRo.
Mensageiro
 Quero contar-vos antes de mais nada, amigos, um acontecimento recém-ocorrido. Teucro chegou aqui, vindo dos montes Mísios, mas enquanto ele vem para o centro da praça onde se reúnem os chefes, ouve insultos dos gregos todos. Ele avança hostilizado pelos soldados que, formando um grande círculo, a par da novidade apareceram logo e o cobrem de censuras; à sua direita e à sua esquerda, nenhum combatente o poupa. Todos o chamam de irmão de um alucinado cujo desejo é fazer mal ao nosso exército, e dizem que ele não escapará da morte por apedrejamento. É tão intenso o ódio que as mãos já tiram as espadas das bainhas e as vibram contra o vento. A querela se abranda depois de ter crescido assustadoramente, graças à intervenção dos soldados mais velhos. Dirigindo-se ao CoRII’EU. Mas, onde está neste momento Ájax? Dize-me, pois desejo informá-lo do acontecimento. Devo fazer depressa um relato completo ao grego mais interessado em conhecê-lo.
Corifeu
 Não o encontrarás agora em sua tenda; ele saiu há pouco para pôr em prática              seus planos mais recentes, de conformidade com os sentimentos dele finalmente expostos.
Mensageiro
 Ai! Ai de mim! O meu mandante me enviou tarde demais (ou pensará que me atrasei?) .
Corifeu
 Mas, como se pode falar em negligência nesta situação delicada e premente?
Mensageiro
 Teucro quer impedir a saída de Ájax de sua tenda até ele mesmo chegar.
Corifeu
 Se ele partiu foi por estar persuadido a percorrer o bom caminho; seu desejo é reconciliar-se com todos os deuses.
Mensageiro
 Quantas palavras cheias de tola candura (se Calcas realmente for bom adivinho ) ! . . .
Corifeu
 Que dizes, homem? Que sabes sobre este assunto?
Mensageiro
 Revelarei agora tudo que conheço, pois eu mesmo fui testemunha desse fato. No círculo dos soberanos componentes do Conselho Real, somente o vate Calcas se levantou. Passando pelos dois atridas e pondo afetuosamente a sua mão na mão de Teucro, disse-lhe com veemência que de qualquer maneira retivesse Ájax em sua tenda enquanto o dia cintilasse, e o impedisse, usando todos os recursos, de sair dela se quisesse vê-lo vivo, Ájax pois só no mesmo dia, apenas neste dia,    em sua opinião, a cólera de Atena inda o perseguiria. “As criaturas ímpares e altivas – repetia o adivinho sábio são o alvo do peso das grandes desgraças mandadas pelos deuses. Este é o destino     daqueles que, tendo nascido apenas homens, se atrevem a ter pensamentos sobre-humanos. Ájax foi insensato no momento em que, deixando o lar, ouviu do pai conselhos bons: ‘Na luta deseja a vitória, filho meu,   mas sempre com o beneplácito divino.’ Sua resposta insana e insolente foi: ‘Com a divina ajuda, pai, até um homem sem qualquer mérito seria vencedor. De minha parte estou totalmente seguro   de obter a glória sem a proteção dos deuses!’ Esta foi a resposta cheia de jactância. Em outra ocasião, quando a divina Atena quis incitá-lo a voltar o braço homicida contra os troianos, ele teve a ousadia    de dirigir- lhe estas palavras espantosas além de todos os limites: ‘Vai, senhora, vai ajudar os outros soldados argivos; meus batalhões jamais recuarão, Atena, onde quer que eu esteja!’ Com estas palavras    ele atraiu contra si mesmo _justamente a cólera implacável da deusa ofendida, pois não eram humanos os seus pensamentos. Se apesar disso ele puder sobreviver a este dia, talvez possamos salvá-lo,   se alguma divindade quiser ajudar-nos.” O adivinho nada mais teve a dizer. Teucro se levantou imediatamente e me mandou trazer sem perder um minuto as instruções já reveladas quando entrei. Segue-as rigorosamente; se falharmos, nosso herói morrerá, ou Calcas nada sabe.


Corifeu
(Dirigindo-se a Tecmessa, que estava no interior da tenda).

Infortunada Têcmessa, triste mulher, vem e julga tu mesma esta notícia urgente trazida por um mensageiro recém-vindo; ela nos rasga a carne e nos deixa prostrados.
Tecmessa
 Saindo da tenda. Mal tive uma ligeira trégua, mensageiro, em minhas aflições sem fim, e logo chegas para me despertar! Como sou infeliz!
Corifeu
 Ouve este homem; ele nos revelará o destino de Ájax para atormentar-nos.
Tecmessa
 Ah! Homem! Que dirás? Estaremos perdidos?
Mensageiro
 Ignoro tua própria sorte. Quanto a Ájax, se ele realmente já saiu daqui não sei de coisa alguma com certeza, Têcmessa.
Tecmessa
 Ájax saiu; meu coração, cheio de angústia, pergunta-se o que vens anunciar-nos, homem!
Mensageiro
 Teucro deu ordens para o retermos na tenda e não o deixarmos sair daqui sozinho.         
Tecmessa
 Onde está Teucro? Por que fala assim o homem?
Corifeu
 Ele chegou há pouco e teme que a saída de Ájax venha a ser a sua perdição.
Tecmessa
 Ai! Infeliz de mim! De quem ouviste isto?
Mensageiro
 Do vate Calcas, filho famoso de Têstor. Hoje decide-se a vida ou a morte de Ájax.
Tecmessa
 Como sou infeliz, amigos! Preservai-me de ser aqui um simples joguete da sorte. Ide! Apressai-vos! Um de vós deve fazer o n ecessário para que Teucro apareça com a máxima presteza aqui no acampamento, e os outros devem revistar agora mesmo todos os cantos desde o leste até o oeste, em busca de sinais desta saída trágica! Só agora percebo que ele me enganou, privando-me das atenções habituais … Ai! Ai de mim! Que poderei fazer, meu filho? Não devemos permanecer aqui imóveis! Não! Não! Irei até onde puder levar-me a minha força! Apressemo-nos! Partamos! A hora não é para ficarmos parados, quando se trata de salvar um grande homem que avança velozmente ao encontro da morte!
Corifeu
 Estou pronto a marchar; já falamos demais. Seguir-se-ão com rapidez passos e atos!

(Sai precipitadamente o Corifeu, acompanhado pelos homens do Coro por Tecmessa. A cena desloca-se para um prado à beira-mar onde se destacam algumas moitas. Vê-se junto a uma delas Ájax fixando sua espada no solo com a ponta para cima).


Ájax
 Está firme a espada para o sacrifício, pronta a varar meu corpo da melhor maneira, se ainda posso demorar-me em falatórios. Ela foi o presente de um anfitrião abominado por minha alma e por meus olhos, e agora está fixada no solo inimigo de Tróia detestada, depois de afiada na pedra que desgasta o ferro, e bem plantada com o maior desvelo para me trazer, como um grande favor, a morte imediata. Já estou pronto. Agora, Zeus, és o primeiro, como convém, a quem devo implorar ajuda. Não pretendo pedir-te um favor muito grande. Concede-me somente a graça de mandar um mensageiro a Teucro dando-lhe a notícia, para que ele seja o primeiro a levantar meu corpo traspassado pela espada férrea molhada com meu sangue quente. Não desejo que ele, encontrado antes por meus inimigos, seja pasto de cães e de aves carniceiras. Eis tudo que espero de ti agora, Zeus. Invoco depois dele Hermes Infernal, guia dos mortos. Peço-lhe que me entorpeça suavemente, e que num salto ao mesmo tempo fácil e rápido eu consiga atravessar a longa espada no meu corpo. Ainda invoco as virgens inflexíveis, divinas Erínias de calcanhares rápidos, que sempre observam os males praticados pelos homens maus. Fiquem elas sabendo como vou morrer – pobre de mim! – por causa dos filhos de Atreu e os faça perecerem miseravelmente – ah, miseráveis! -; e da mesma forma que elas verão meu próprio sangue derramado aqui, eles pereçam sob os golpes de parentes depois de derramarem por seu turno o sangue!    Avante, Erínias, vingadoras expeditas! Participai deste banquete e não poupeis nenhum dos súditos dos dois chefes argivos! E tu, sol cintilante que guias teu carro pelas alturas do insondável firmamento,    quando vires a terra de meus ancestrais retrai as rédeas recobertas de ouro puro para comunicar a minha desventura e meu fim melancólico a meu velho pai e a minha mãe – coitada! E quando a infeliz     receber a notícia, logo sairão de sua boca soluços intermináveis que repercutirão pela cidade inteira. Mas, de que serve lamentar-me inutilmente? Devo entregar-me por inteiro à minha obra,    e com a máxima p resteza! Ah! Morte! Ah! Morte! Chegou a hora! Vem! Olha bem para mim! No outro mundo ainda falarei contigo, pois estarás perto de mim a todo instante. Tu, ao contrário, claridade deste dia,    e tu, sol em teu carro! Desejo saudar-vos pela última vez! Nunca mais vos verei! Luz e solo sagrados da terra natal! Ah ! Salamina, que sempre serves de assento à lareira da casa dos antepassados!   Atenas muito ilustre com teu povo irmão! E vós, fontes e rios que meus olhos viram nestas planícies troianas, agradeço-vos! Adeus, vós todos que me haveis dessedentado! Dirijo-vos as minhas últimas palavras.     A partir deste instante falarei apenas com os habitantes das profundezas do inferno!
Ájax
 lança-se sobre sua espada. Seu corpo fica encoberto por uma moita. Entra o CoRo, dividido a princípio em dois
Semicoro
S, examinando as moitas. P RIMEIRO
Semicoro
 Penas seguem-se a penas, sempre penas! Onde não estiveram nossos passos?    Onde? Nenhum lugar sabe dizer o seu segredo . . . Estejamos atentos! Já ouvimos ruídos por aqui! S EGUNDO
Semicoro
 Somos nós, companheiros de viagem. P RIMEIRO
Semicoro
 E que tendes a nos dizer agora? S EGUNDO
Semicoro
 Examinamos cuidadosamente o lado a oeste de nossas naus. PRIMEIRO
Semicoro
 Pudestes descobrir o que buscamos? S EGUNDO
Semicoro
 Cansamo-nos demais e nada vimos. PRIMEIRO
Semicoro
 Nada encontramos depois de passar por todo o lado que dá para o leste. Em parte alguma há sinais do homem.
Coro
 Não há, então, pessoa alguma aqui no meio destes rudes pescadores que passam horas em busca de peixes, ou algum deus sentado no alto Olimpo, ou entre os rios que correm do Bósforo, ninguém que tenha visto em qualquer parte, andando sem destino, aquele homem de coração feroz, e nos ajude gritando para nos orientar?                 Ficamos desolados meditando que estamos apenas desperdiçando o nosso tempo e também nosso alento, sem encontrar nesta corrida inútil um sinal favorável, sem achar    o homem infeliz que p rocuramos. Ouve-se um grito vindo de uma das moitas.
Tecmessa
 Ai! Ai de mim!
Corifeu
 De quem será o grito ouvido neste instante, proveniente de uma destas moitas próximas?
Tecmessa
 Ai! Infeliz de m im!
Corifeu
 É da esposa, da cativa, pobre Têcmessa, que vejo mergulhada em tantas aflições.
Tecmessa
 Eis para mim a morte, o fim, a ruína, amigos! . . .
Coro
 Que lhe terá acontecido agora?
Tecmessa
 A.jax está ali no chão, banhado em sangue ainda quente, traspassado pelo ferro oculto aos nossos olhos por seu corpo inerte.     
Coro
 Ah! Nossas esperanças de retorno! Matando-te, senhor, deixas sem vida teus fiéis companheiros de viagem! Ai! Ai! Mulher de coração partido!
Tecmessa
 Este era o seu destino. Gemeis com razão.
Corifeu
 De que mãos ele se valeu para morrer?
Tecmessa
 De suas próprias mãos. Tudo é bastante claro; a espada plantada no chão, que lhe atravessa o corpo morto, denuncia o assassino.
Coro
 Ai! Ai de nós! Que trágico desastre! Verteste assim o sangue, solitário, despercebido de teus bons amigos. E nós, alheios a tudo que ouvíamos, sem nada saber do que acontecia, não pudemos cumprir nosso dever. Onde? Onde jaz o nosso chefe agora, o rude Ájax de nome fatídico?
Tecmessa
 Ele não poderá ser visto por enquanto. É meu dever cobrir-lhe o corpo com um manto, para ocultá-lo da cabeça até os pés. Ninguém – nem o mais íntimo de seus amigos teria coragem de vê-lo como está, expelindo pelo nariz e pelo golpe de sua espada todo o sangue quase negro. Ah! Que farei? Qual dos amigos o erguerá?          Teucro, talvez? Ele chegaria a propósito se viesse ajudar-me a preparar o corpo de seu irmão. Ai! Ájax tão desventurado!    Quem foste até há pouco e agora quem és! Mereces os lamentos até de inimigos.
Coro
 Ah ! Infeliz! Devias – vemos bem chegar ao fim cumprindo teu destino, teu fado extremamente doloroso, com esse coração irredutível! Por que, forçosamente, sem parar, deixavas escapar tantos queixumes cheios de ódio contra os dois atridas, levado por uma aversão funesta? O pleito pelas armas desastrosas está na origem destes nossos males, desde o dia funesto em que o criaram para entregá-las ao mais valoroso entre os guerreiros gregos cá em Tróia.
Tecmessa
 Ai! Ai de mim!
Corifeu
 Sei muito, muito bem, que a infelicidade traspassa teu coração cheio de bondade.
Tecmessa
 Ai de mim!
Corifeu
 Não causa admiração, mulher, que intensifiques teus sentidos soluços no momento amargo de ser privada de um amigo como Ájax.
Tecmessa
 Apenas imaginas, mas minha alma sente e sofre muito mais do que eu desejaria. Concordo plenamente com tuas palavras.
Tecmessa
(Dirigindo-se no filho, que a acompanha nas busca).

Ah! Filho meu! Agora seremos escravos e algum senhor nos dará ordens no futuro!
Coro
(Dirigindo-se a Tecmessa)

Ai! Ai de nós! É muito inquietante a expectativa do procedimento dos dois chefes atridas implacáveis contra ti e teu filho no futuro após este acontecimento horrível. Salvem-te agora as divindades, Têcmessa!
Tecmessa
 Não estaríamos onde eu e ele estamos sem o consentimento dos augustos deuses.
Corifeu
 Eles impõem-nos um fardo insuportável, esmagador, com sua carga de amarguras.
Tecmessa
 Sim! Isto é obra de Palas, filha de Zeus, deusa terrível, para glória de Odisseu.
Coro
 Venceu, enfim, o herói perseverante graças a seu caráter maleável; ele deve estar rindo às gargalhadas do desastroso acesso de loucura  – ai, a i de nós! -, e com o vencedor, enquanto ouvem as informações, riem os dois filhos de Atreu ilustre.
Tecmessa
 Que riam à vontade e vibrem, triunfantes, com o infortúnio enorme deste grande homem! Se os dois irmãos não o amavam quando vivo, depois de morto certamente chorarão sentindo muito sua falta nos combates. Os homens pouco inteligentes só percebem o valor dos bens que possuem quando os perdem. Se a morte dele é para mim uma desgraça maior ainda que a alegria dos atridas ao menos para Ájax ela será doce, pois satisfaz o seu desejo de morrer. Por que, então, iriam insultá-lo agora com suas gargalhadas? Deixando esta vida ele curvou-se à vontade das divindades, não aos desejos dos dois reis! E depois disto Odisseu poderá desperdiçar seu tempo mostrando-se insolente; para todos eles Ájax já não existe. Para mim, morrendo ele inda vive em minhas dores e soluços.            
Tecmessa
 retorn a à tenda de
Ájax
. Ouvem-se gemidos de
Teucro
, que entra lentamente em cena.
Teucro
 Ai! Ai de mim!
Corifeu
 Silenciemos! Tenho a impressão de ouvir a voz de Teucro, e seu clamor lembra desastres.  
Teucro
 Ájax querido, cara imagem fraternal, tiveste realmente a infelicidade apregoada há pouco pela voz geral?
Corifeu
 Sim, Teucro; ele morreu. Podes ter a certeza.
Teucro
 Cai sobre mim o peso do destino atroz!
Corifeu
 Ele já não existe; disso não há dúvidas.
Teucro
 Ah! Infeliz de mim! Ai! Quanta desventura!. . .
Corifeu
 Sim, Teucro! Tens muitas razões para gemer.
Teucro
 Ah ! Dor cruel! . . .
Corifeu
 Cruel demais, Teucro inditoso!
Teucro
 Ai! Ai de mim! … Que aconteceu ao filho dele? Em que lugar da Trôade ele está agora?
Corifeu
 Deve estar só e bem perto de nossas tendas.        
Teucro
 Cumpre-nos evitar que algum soldado grego venha tentar tirá-lo de nossos cuidados, como acontece com os filhotes das leoas privadas de seus machos. Vai! Vai sem demora! Ajuda-nos! O mundo sempre está disposto a desdenhar os mortos depois de enterrados.
Corifeu
 O próprio Ájax, enquanto vivia, Teucro, queria convocar-te para vir cuidar de seu filhinho, como já estás fazendo.
Teucro
(Aproximando-se do local onde estava o cadáver de Ájax)
Eis o espetáculo mais doloroso, amigos, de quantos viram os meus olhos até hoje, e o mais penoso dos caminhos numerosos já percorridos por meu pobre coração! Ele me trouxe até aqui na hora em que, ciente de teu triste fim, Ájax caríssimo, acelerei ao máximo meus longos passos para seguir tuas pegadas. Um murmúrio tão repentino como se estivesse vindo de divindades, circulou subitamente por nosso exército: acabavas de matar-te! Ouvindo-o, deixei desarvorado as tropas para gemer com o coração partido; agora, vendo-te morto é como se eu também morresse! Ai! Ai de mim! Percebo repentinamente toda a extensão de minha enorme desventura! Ah! Cena funesta demais, espelho nítido de uma coragem tão cruel! Quanta tristeza tua morte lançou em minha vida, irmão! Para onde poderei ir? A que amigos me juntarei, eu, que não soube socorrer-te em meio às tuas penas? Nosso velho pai, rei Telamon, por certo me receberá com gestos de afeição e cordialidade quando eu voltar a Salamina só, sem ti … Seria assim, se mesmo a um filho vencedor ele não apareceria certamente com um sorriso doce nestas circunstâncias? Crês que ele se constrangeria e pouparia justas injúrias contra mim, mero bastardo, filho de uma cativa de sangue inimigo, eu, que talvez por medo te houvesse traído, querido Ájax, ou – quem sabe? – por perfídia quisesse obter, valendo-me de tua morte, tuas prerrogativas no poder, no trono? Severo como é, ele há de dizer isto, mais revoltado ainda por sua velhice, sempre disposto a exasperar-se e querelar com razão ou sem ela. Enfim, serei banido, repudiado pelos meus compatriotas, que falarão de mim como simples escravo e não um homem livre como quero ser. São estes os augúrios para meu retorno. Mas desde a Trôade só terei inimigos; ninguém me apoiará e tudo sofrerei por causa de tua trágica morte, irmão. Ai! Ai de mim! Que poderei fazer agora? Como conseguirei tirar de teu cadáver esta espada afiada, este ferro cruel, arma assassina causadora de teu fim? Agora sabes como Heitor, embora morto, iria finalmente destruir-te aqui! Dirigindo-se ao CoRo. Meditai sobre a sorte destes dois guerreiros. Foi com o cinto oferecido a Heitor por Ájax que aquele, preso ao carro e rasgando seu corpo, foi arrastado e mutilado sem piedade, enquanto Ájax, o novo dono da espada como um presente oferecido por Heitor, morreu atravessado pela mesma arma sobre a qual se lançou numa queda mortal. Terá sido uma Fúria, que forjou o ferro, e terá sido Hades, artesão cruel,                     que preparou aquele cinto? Quanto a mim, aqui, como em qualquer outro lugar, direi convictamente que todas as divindades se esmeram em tramar o destino dos homens. Muitos mortais recusam-se a pensar assim; defendam eles tais idéias; eu, porém, hei de manter com a máxima firmeza as minhas.
Corifeu
 Nada mais digas. Trata agora do sepulcro onde Ájax vai jazer em paz e das palavras que terás de pronunciar na ocasião. Vendo
Menelau
 ii distâncin. Percebo agora um inimigo que talvez, como terrível malfeitor que sempre foi, venha chegando para rir de nossa dor.
Teucro
 Qual dos guerreiros gregos já vês avançando?
Corifeu
 É Menelau, por quem cruzamos tantos mares.
Teucro
 Já o vi e de perto o identifico agora.

(Entra Menelau)
.
Menelau

(Dirigindo-se a Teucro)
. Que estás fazendo aqui? Não te dou permissão para levar o morto; deixa-o onde está!
Teucro
 Por que todo este desperdício de palavras?
Menelau
Minha vontade é esta, e também de Agamêmnon.
Teucro
 E quais são as razões para pronunciá-las?
Menelau
A razão é que todos nós imaginávamos ter trazido de nossa terra um aliado, amigo de todos os outros bravos gregos, mas no momento exato da comprovação vimos nele um homem pior que qualquer frígio. Não tentou ele massacrar o nosso exército e não saiu em guerra contra todos nós durante a noite para nos exterminar com sua espada? E se uma divindade amiga não tivesse desfeito antes a emboscada estaríamos mortos, vítimas da sorte que o atingiu aqui, e todos jazeríamos espalhados no chão, sem vida, como ele, sordidamente, enquanto ele estaria vivo! Para nossa alegria os deuses desviaram a demência insolente dele e a lançaram sobre nossos bois e carneiros, e é por isso que não há hoje homem com poder bastante para levar o corpo dele à sepultura; e sendo assim, lançado sobre a areia fulva seu corpo irá nutrir as aves carniceiras abandonado em plena praia. Sê prudente, então, e não provoques ondas de furor. Se não pudemos dominá-lo enquanto vivo, queiras ou não iremos obrigá-lo agora a ser enfim obediente após a morte, e nossos próprios braços o prepararão, já que ele nunca se dispôs em sua vida a escutar uma simples palavra nossa. É típico dos traidores pretenderem  estar acima das ordens dos comandantes quando são só alguns dos muitos comandados. Jamais as leis vigentes em qualquer cidade seriam respeitadas como devem ser se não houvesse reis; jamais qualquer exército ostentaria sempre a sábia disciplina sem o reforço do temor e reverência. O homem deve perceber que, mesmo quando sua estatura iguala a do maior gigante, está suj eito a sucumbir a um mal qualquer.    Quem guarda no seu coração a o mesmo tempo o decoro e receio, com toda a certeza traz em si mesmo e sempre a sua salvação. Terás de acreditar que a terra onde se pode exercitar sem qualquer freio a insolência   e agir como se quer, mesmo na calmaria acabará por afundar. Que em mim prospere sempre o temor compatível com as circunstâncias! Não devemos imaginar que, procedendo de acordo com nossa vontade, não teríamos em tempo algum qualquer desgosto neste mundo. Cada coisa na vida tem a sua hora.

(Apontando para o cadáver de Ájax)

 

. Ainda ontem este homem se mostrava brutal e insolente, e hoje é minha vez de ser altivo. Reitero a advertência de não levar à sepultura este cadáver, a menos que, cuidando de lhe dar um túmulo, queiras ser conduzido agora para o teu.
Corifeu
 Não fales em princípios sábios, Menelau, apenas para alardear com arrogância maior empáfia diante de heróis mortos!
Teucro
 Não, meus amigos; não posso admirar-me quando às vezes vejo alguma criatura humana que pelo sangue nada é, fazer tolices, se ouço alguém na aparência bem-nascido dizer palavras tolas numa discussão. Partamos do princípio, Menelau. Supões que tu mesmo trouxeste Ájax para cá na qualidade de aliado compulsório? Não foi, então, por espontânea vontade nem como senhor de si mesmo que ele veio? Que pretensões tinhas para ser o seu chefe? Com que direito queres falar como rei a homens que só Ájax, veio comandando? Partiste como rei de Esparta, Menelau, e não como nosso senhor da expedição. Não há qualquer dispositivo de comando que te dê o direito de mandar em Ájax, mais do que Ájax para poder dirigir-te. Vieste sob as ordens de outro comandante e não como chefe de todos os guerreiros. Chefia teus subordinados e lhes fala com a empáfia normal; mas, quanto a Ájax, independentemente de tuas palavras – tuas ou de qualquer dos outros chefes gregos pretendo dar-lhe a sepultura merecida e teu estardalhaço não me assustará. Se ele veio para a guerra com seus homens não foi por causa de tua mulher – de Helena como se se tratasse de pobres soldados premidos por uma miséria absoluta, mas para ser fiel aos juramentos feitos. Nem penses que foi somente para seguir-te (não o preocupavam pessoas medíocres ) . Portanto, se estás vindo traze outros arautos e mais ainda o próprio comandante-em-chefe; a todo o alarido que possas fazer não pensarei sequer em voltar a cabeça, sendo tu a pessoa que és realmente.                     
Corifeu
 Estas palavras não agradam a meu gosto quando estamos cercados de infelicidade. Expressões excessivamente duras ferem-nos, por mais judiciosas que elas possam ser.
Menelau
Não é pequena a arrogância deste arqueiro …
Teucro
 Ele age altivamente porque tem razão.
Menelau
 Serias mais altivo por trás de um escudo?
Teucro
 Apesar destas armas todas que te enfeitam, mesmo com o p eito nu eu te defrontaria.
Menelau
 Em tua terra falar bem é ter coragem . . .
Teucro
 Quando temos direito somos mais altivos.
Menelau
 Em tua opinião a justiça deseja o triunfo de Ájax, de meu assassino?
Teucro
 Teu assassino? Esta palavra é muito estranha . . . Embora assassinado inda estás vivo, homem?
Menelau
 Um deus salvou-me; para Ájax, estou morto.
Teucro
 Salvou-te algum dos deuses; não o menosprezes.
Menelau
 Mas como? Dizes que desprezo as leis divinas?
Teucro
 Se me impedes de sepultar um morto, digo.
Menelau
 Se este morto era um de nossos inimigos, seria indecoroso dar-lhe sepultura.
Teucro
 Alguma vez viste Ájax diante de ti ao lado dos troianos, contra os quais lutávamos?
Menelau
 Eu tinha ódio a ele, e ele me odiava, e tu sabias desta circunstância, Teucro.
Teucro
 Subornaste os juízes para espoliá-lo! 
Menelau
 A culpa, então, foi dos juízes, e não minha.
Teucro
 E com ardis compraste os escrutinadores.         
Menelau
 Estas palavras custarão um alto p reço a qualquer um dos gregos que as pronunciar!
Teucro
 Não tanto quanto me pagarás em seguida!
Menelau
 Inda tenho a dizer-te umas poucas palavras: este defunto nunca será sepultado!
Teucro
 Minha resposta é: eu o sepultarei!
Menelau
 Em certa ocasião vi um homem ousado só em palavras; ele falava demais aos marinheiros, incitando-os a partirem apesar do mau tempo, mas não poderias tirar de sua boca uma simples palavra quando ele tinha de enfrentar uma borrasca; envolvido em seu manto, ele não reagia sequer aos pontapés de um simples marinheiro. Ele bem poderia ter a sua boca tão arrogante quanto a tua; uma só nuvem de reduzidas proporções p renunciando os ventos de uma forte tempestade próxima abafaria logo todos os seus gritos . . .
Teucro
 Eu encontrei também há algum tempo um homem cheio de tolas pretensões, que era insolente enquanto uma pessoa estava inanimada por causa de seus infortúnios; nessa hora alguém de feições parecidas com as minhas e com a minha índole, viu-o e disse-lhe: “Não maltrates os mortos, homem! Se insistires irás certamente sofrer!” Eis a lição dada por ele em frente àquele tolo. Ten ho-o diante dos olhos novamente; a minha impressão é de que tu és ele. Minha maneira de falar é enigmática?
Menelau
Vou retirar-me; eu me envergonharia muito se alguém soubesse que prefiro usar palavras para punir se posso castigar de fato!
Teucro
 Vai já embora! Sinto uma grande vergonha de ouvir tolices do p resunçoso que és! Sai
Menelau
. C O R I F EU Chegou ao ápice uma querela terrível; vai, Teucro, apressa-te tanto quanto puderes; manda cavar imediatamente um fosso onde Ájax achará a sepultura úmida que há de preservar p elos anos por vir entre todos os homens a sua memória. Entra
Tecmessa
 com s e u filho.
Teucro
 Mais eis aqui, chegando no momento exato, o tllho e a mulher do morto; ambos pretendem cumprir como convém os seus deveres fúnebres perto da sepultura de Ájax infeliz. Vem, criancinha, vem para mais perto dele; toca entre preces o pai que te deu a vida; ajoelha-te aí pedindo proteção, tendo nas mãos cabelos em sinal de luto – os meus, os teus e também os de tua mãe.

Os suplicantes nada têm de mais precioso. Se algum dos comandantes gregos pretender tirar-te à força de perto deste cadáver, queiram os deuses que essa criatura torpe – ah, miserável! -, vá embora torpemente expulso desta terra e nunca encontre noutra um túmulo condigno, e veja sua raça ser destruída até a última raiz, como eu agora corto de minha cabeça este cacho de meus cabelos! Tu, menino, guarda-o bem; não deixes que ninguém te afaste; prende-te ao chão onde se apóiam teus joelhos!

(Dirigindo-se ao Coro).

E vós, mostrai que sois varões, e não mulheres, e defendei até que eu esteja de volta a tumba de Ájax contra tudo e contra todos!

(Sai Teucro).

 

Coro
 Quando terminará esta seqüência de anos sem repouso, e em que tempo este período que nos traz apen-as as dores do cansaço insuportável dos combatentes nos campos de Tróia para tristeza e vergonha da Grécia terá enfim o desejado termo? Por que não se eclipsou no imenso éter ou no inferno, destino de todos, o homem que mostrou à raça grega a fúria de armas ímpias em conjunto? Ah! Dores causadoras de outras dores! Foi ele quem nos privou do contato encantador das coroas de flores, das taças fundas e do som suave das flautas – ah, maldito! – e os prazeres do leito em plena noite! Quanto a nós, ele nos afastou do amor – do amor! Ainda nos demoramos aqui – ai, ai de nós! -, deitados no chão duro, com os cabelos úmidos do orvalho de todas as noites intermináveis! Jamais, em tempo algum, esqueceremos Tróia inclemente! Até há pouco, ao menos, contávamos com Ájax valoroso, nossa defesa mais eficiente contra os freqüentes ataques noturnos e contra as muitas lanças inimigas. Mas hoje Ájax deixou de existir, vítima do destino tenebroso E de agora em diante, que prazer – sim, que prazer – inda nos restará? Ah! Se pudéssemos estar agora no cabo à beira-mar cheio de bosques onde termina o planalto de Súnion,  para homenagear a insigne Atenas!
Teucro
 voltn precipitndmnente (z cenn.
Teucro
 Voltei correndo depois de ver Agamêmnon, chefe dos gregos, vindo em nossa direção. Não tenho dúvidas de que ele está chegando para agredir-me com suas falas b rutais. Entm AG,\MÉMNON com sun escoltti.
Agamenon
(Dirigindo-se à Teucro)
És tu, então, o autor das palavras ferinas ditas impunemente contra mim aqui, de acordo com relatos de meus comandados! Sim, tu, filho de uma cativa! Que farias se tivesses nascido de mãe livre, Teucro? Discursarias do alto de tua grandeza como um pavão orgulhoso dos esporões, pois hoje, quando nada és, queres mostrar-te          o defensor altivo de quem nada era, e gritas aos bons deuses que não somos chefes nem da frota dos gregos nem de nosso exército, e nem de ti. E mais: que Ájax pereceu, de acordo com as tuas p róprias convicções,   sendo ele mesmo, e mais ninguém, o seu senhor! Não é assustador ouvir estes ultrajes da boca de um escravo? E quem é esse homem que louvas enfaticamente em altos brados? Onde ele esteve? Onde foi visto a qualquer tempo   em lugares onde eu também não estivesse? Nós, gregos, não contamos com outros guerreiros além do teu? Dirigindo-se n o CoRo. Instituímos realmente uma competição funesta há pouco tempo entre os argivos para ver quem merecia herdar as armas do finado herói Aquiles; agora, por causa da revolta de Teucro, teremos de levar a fama de covardes, e se, insatisfeitos com nossa recusa a concordar, já que ele não foi escolhido na deliberação a que afinal chegaram nossos juízes, ides lançar rudemente insultos incessantes contra nossos rostos, ou ofender-nos ignominiosamente porque ele foi vencido na competição? Em face de vosso procedimento insólito nenhuma das humanas leis seria estável. Teríamos, então, de preterir aqueles que a sã justiça aponta como vencedores e pôr em primeiro lugar o concorrente que está no último? Jamais! É necessário agir honestamente nestas circunstâncias. Os fan farrões de compleição monumental não são os concorrentes mais merecedores de consideração; os homens de bom senso em toda parte são tidos como os melhores. Os bois têm flancos longos, mas um aguilhão basta para obrigá-los a marchar em ordem.

(Voltando a dirigir-se a Teucro)

Quanto a ti mesmo, Teucro, esse apetrecho simples te acalmará se te faz falta a sensatez, tu, que por um defunto, por quem é agora apenas uma sombra, não sentes receios de aparecer aqui esbanjando arrogância para dizer os impropérios que te ocorrem. Não queres mesmo ser um homem razoável? Ainda não pudeste perceber quem és? Pondera e traz em teu lugar um homem livre, detentor de direitos, para defender a tua causa junto a nós, cidadãos livres. Sou incapaz de compreender as tuas falas, pois não me é familiar a língua bárbara . . . 
Teucro
(Dirigindo-se ao cadáver de Ájax)
. A gratidão devida a um herói maior, agora morto, apaga-se muito depressa nos corações humanos, e este homem, Ájax, hoje não acha uma única palavra para recordar-se de ti, que tantas vezes puseste em risco a tua vida nos combates! E todo o teu passado acaba de perder-se, lançado aos quatro ventos. Dirigindo-se a
Agamenon
. Quero ouvir de ti, que nos impinges longos e tolos discursos: não conservaste na memória aquele dia em que os soldados gregos estavam cercados em seus postos determinados pelos chefes, já sem qualquer esperança de salvação, quando este herói veio sozinho e nos livrou de uma derrota sem remédio enquanto as chamas já crepitavam nas popas de nossas naus e Heitor, saltando por cima do fosso fundo, pulava em direção às quilhas das galeras? Quem, naquele momento, afastou o desastre   definitivamente? D ize: não foi ele o autor do feito, ele, de quem dizes hoje que nunca esteve onde também não estivesses? Não foi ele quem fez pelos soldados gregos tudo que o momento exigia? Ainda mais:    quando, sozinho diante do bravo Heitor, eleito p ela sorte e não obedecendo a qualquer ordem ele mesmo quis lutar, não deixando que se lançasse entre os soldados um sinal distintivo – algum torrão de barro  endurecido -, mas seu próprio nome escrito, tirou-o logo num salto ágil e certeiro do capacete posto em primeiro lugar. Sim, esta foi sua atitude, e depois dele estava eu, escravo e filho de uma bárbara!    Em que pensavas há poucos instantes, tu, digno de piedade, quando esbravejavas? Não sabes quem foi teu avô, o antigo Pêlops? Um bárbaro – um frígio! E esse Atreu,  também, que te engendrou? O ímpio maior,   o homem que serviu a seu irmão – coitado! – a carne de seus próprios filhos! E tu mesmo não nasceste de uma cretense que, pilhada por seu progenitor nos braços de um amante, foi atirada ao mar para servir de pasto    aos peixes mudos? Tu, fruto desse adultério, te entregas sem propósito à maledicência, amesquinhando assim um homem como eu, filho de Telamon famoso que, depois de obter a glória ímpar de ser o soldado    mais valoroso de seu tempo, se casou com a mãe de quem nasci, rainha por seu sangue, pois era filha de Laomedon, um rei, dada como presa de guerra valiosa pelo filho de Alcmené a Telamon, meu pai.  E eu, herói duplamente filho de heróis, iria desonrar um homem de meu sangue, que está ali abandonado no chão frio, correndo o risco de ser deixado por ti para ser alimento de aves carniceiras?   Não te envergonhas de dizer-me essas palavras? Fica sabendo: se insistires em lançar o cadáver de Ájax num lugar qualquer, terás de deixar lá nossos três corpos juntos – o meu, o teu e o dele! Será mais glorioso para mim mesmo perecer lutando aqui por causa dele do que combatendo ainda pela mulher de teu irmão ou pela tua! Sê comedido, então, não apenas por mim mas principalmente por ti. Se me ofenderes, arrepender-te-ás um dia por ter sido impetuoso em vez de agir prudentemente!

(Entra Odisseu).


Corifeu
 Rei Odisseu ! Terás chegado em boa hora se tua vinda compelir estes dois homens a se entenderem, e não a se confrontarem.
Odisseu
 Que há, amigos meus? Ouvi inda de longe os gritos dos nobres atridas no debate em torno do cadáver deste herói finado.
Agamenon
 E não te pareceram infamantes, rei, os impropérios que este homem nos dizia?
Odisseu
 Que impropérios? Desculpo de bom grado os ofendidos que por sua vez ultrajam.
Agamenon
 Se ouviste que o tratei de maneira ofensiva é porque recebi o mesmo tratamento.         
Odisseu
 Que te fez ele para provocar insultos?
Agamenon
 Ele afirmou que não deixará insepulto este defunto, e sua decisão final é enterrá-lo embora eu tenha proibido.
Odisseu
 Posso falar-te francamente e ser-te útil agora como tenho sido no passado?
Agamenon
 Fala; se eu não agisse assim demonstraria carência de bom senso. Em minha opinião és meu melhor amigo entre todos os gregos.
Odisseu
 Ouve-me, então: em nome de todos os deuses não abandones impiamente este cadáver. Não te deixes vencer pela brutalidade nem permitas que teu rancor chegue ao extremo de desconsiderar um direito sagrado. Ájax passou a ser meu pior inimigo em todo o exército desde o momento mesmo em que me tornei dono das armas de Aquiles, mas apesar de tudo não vou responder a seu rancor imenso com qualquer afronta; não poderei negar, tampouco, que vi nele o homem mais valente entre todos os gregos acampados há tanto tempo em frente a Tróia, à exceção de Aquiles. Se eu quisesse agora infligir-lhe uma afronta, mostraria a todos uma conduta má. Seria um atentado às leis divinas muito mais que a ele mesmo. Se morre um homem corajoso não podemos menosprezá-lo, ainda que ele fosse o alvo de nosso ódio mais intenso enquanto vivo.
Agamenon
 Como? Quando o defendes ficas contra mim.
Odisseu
 Eu o odiava enquanto era justo odiá-lo.
Agamenon
 Ele morreu; podes espezinhá-lo agora.
Odisseu
 Não devem alegrar-te os sucessos inglórios.
Agamenon
 Nem sempre é fácil a um rei ser piedoso.
Odisseu
 Mas é fácil ouvir os conselhos de amigos.
Agamenon
 Os amigos leais devem ouvir os reis.
Odisseu
 Mesmo ouvindo os amigos inda mandas neles.
Agamenon
 Esforça-te por relembrar como era o homem a quem queres p restar agora esta homenagem.
Odisseu
 D evo admitir que ele foi inimigo meu mas era também um herói sem qualquer dúvida.     
Agamenon
 Que pretendes fazer nesta situação? Respeitas a tal ponto um inimigo morto?
Odisseu
 Seus méritos foram maiores que seu ódio.
Agamenon
 Eis as contradições nas quais caem os homens . . .
Odisseu
É assim mesmo. Alguns amigos nossos, hoje fiéis, mais tarde hostilizar-nos-ão.
Agamenon
 E vens elogiar aqui esses amigos?
Odisseu
 Mas nunca elogiei as almas inflexíveis.
Agamenon
 Queres que os gregos nos vejam como covardes?
Odisseu
 Dize melhor: apenas como homens normais.
Agamenon
 Em suma: devo permitir o funeral?
Odisseu
 E não é este o fim que um dia nós teremos?
Agamenon
 De fato, os homens pensam somente em si mesmos . . .

Odisseu

E não devo pensar antes de tudo em mim?
Agamenon
 A decisão aqui é tua; não é minha.
Odisseu
 Fala como quiseres; de qualquer maneira estarás sendo generoso e isto é tudo.
Agamenon
 Então fica sabendo: já estou disposto a conceder-te mais ainda do que pedes; aquele homem, entretanto, aqui na terra ou no reino das sombras, será para mim eternamente o maior de meus inimigos. Mas poderás fazer tudo que te aprouver.

 

(Sai Agamenon).


Corifeu
 Ah! Odisseu! Quem se atrever a pôr em dúvida tua sabedoria inata é um demente!
Odisseu
 Irei mais longe; vou dizer-te agora, Teucro, que passo a dedicar-te desde este momento uma estima tão grande quanto era meu ódio. Desejo sepultar contigo este defunto e partilhar os teus cuidados sem poupar as atenções devidas aos homens valentes.   l R I R
Teucro
 Aprovo plenamente estas palavras tuas, nobre Odisseu. Desmentes de forma cabal a minha expectativa. Foste até há pouco o pior inimigo deste herói finado entre todos os gregos presentes em Tróia e terás sido o único a lhe dar apoio. Recusas-te a impor um espantoso ultraje, tu, vivo, a este morto, e a seguir o exemplo desse chefe atacado repentinamente de insanidade que, segundo seu irmão, veio até nós querendo apenas insultá-lo, negando-lhe o sepulcro. Possam afinal o venerável Pai, soberano do Olimpo, e também de Erínias que não esquecem, e afinal a Justiça, julgar duramente e sem apelação os dois irmãos ignóbeis e condená-los a morrer penosamente, da mesma forma que eles queriam deixar sem sepultura o herói digno de outra sorte! Mas inda hesito, filho do velho Laertes, em aceitar a tua ajuda neste enterro, pois teria receios de assim procedendo causar algum desgosto ao morto lá no Hades. Feita a ressalva, estou disposto a receber o teu apoio, e se tiveres intenção de convidar outros companheiros do exército, não ficaremos desgostosos. Cuidarei, eu mesmo, das formalidades a cumprir. Devo dizer-te que estás sendo para nós, neste momento triste, um generoso amigo.
Odisseu
 Reitero meu desejo, mas se não concordas aceito a tua decisão e me retiro.

(Sai Odisseu)
.
Teucro
(Dirigindo-se ao Coro).

Agora basta; não percamos tempo. Ajamos! Aprontemos nossas mãos para cavar um fosso bem profundo. Ponde logo no fogo um caldeirão para a devida purificação. Compete a alguns de vós trazer da tenda agora mesmo a armadura de Ájax.

(Dirigindo-se ao filho de ÁJAX e depois aos demais presentes).

E tu, menino, passa ternamente as mãos nos flancos de teu pai defunto; ajuda-nos tanto quanto puderes a levantar seu corpo. As veias dele, ainda quentes, estão derramando jorros escuros do sangue restante. Avançai todos que ostentais o nome de seus amigos, pois deveis prestar as homenagens ao herói perfeito. Jamais tereis um chefe mais valente!
Coro
 Nós, homens, tomamos conhecimento de muitas coisas porque são visíveis, mas o futuro e o nosso destino, nunca existiu um único adivinho capaz de conhecê-los com certeza.

FIM