Sêneca, Hércules em Eta

O morte do maior herói grego

Guido Reni (1575–1642)

A peça teatral Tiestes foi escrita por Lúcio Aneu Sêneca foi um famoso dramaturgo, estadista e filósofo que viveu entre os anos de 4 a.C a 65 a.C. no tempo do imperador Nero. Esta adaptação para o teatro romano de uma peça perdida do grego Eurípides narra os eventos que levaram a morte do herói Héracles pelo centauro trapaceiro chamado Nesso.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por José Geraldo Heleno.

 

Hércules em Eta

Personagens

Hércules
Licas
Iole
Dejaneira
Ama
Hilo
Alcmena
Filoctetes
Coro (das mulheres da Écalia)

 

 Hércules

(1) Ó Pai dos deuses, de cuja mão, ambas as moradas de Febo408 sentem o raio atirado, reina com segurança: – eu te trouxe a paz, em qualquer lugar onde Nereu409 impede que as terras se estendam (mar a dentro) (5). Não precisas troar: os pérfidos reis jazem por terra; todo cruel tirano, que havia e que era  para tu fulminares, nós já destruímos. Mas o céu, ó pai, ainda me é negado? Eu me mostrei certamente, digno de Júpiter, por toda parte, e minha madrasta[1] atestou que tu és meu pai. Por que, pois, tramas demoras (10)? Por acaso sou temido? Por acaso Atlas não poderá sustentar Hércules colocado sobre si juntamente com o céu? Por que, meu pai, por que me negas os astros? A morte certamente me devolveu a ti (15). Capitulou todo o mal, que geraram a terra, o mar, o ar e os infernos: nenhum leão[2] erra mais pelas cidades da Arcádia; a Estinfálide foi golpeada; não mais existe uma fera de Mênalo; a serpente aniquilada cobriu de sangue o bosque (das Espérides) com seus pomos de ouro, a hidra[3] derramou seu veneno (20), e eu dispersei no Hebro os gordos rebanhos (de Diomedes) conhecidos pelo sangue dos estrangeiros, e arranquei os espólios da belicosa habitante do Termodonte[4]. Venci aquele que tem poder sobre a morte, e não apenas voltei, como também o dia apavorado viu o negro Cérbero, e, este contemplou o sol (25); nenhum Anteu[5] da Líbia recuperou sua energia, Busíris[6] caiu diante de seus altares, Gerião[7]foi dominado apenas com minha mão, bem como o horrível touro417, temor de cem povos. Tudo o que a terra hostil gerou foi derrotado por minha mão direita (30): aos deuses não foi permitido permanecer irados. Se o mundo me nega as feras, a madrasta me nega a alma, devolve agora o pai ao filho, ou os astros ao forte. Não te peço que me mostres o caminho; dá-me somente a permissão, pai: o caminho eu encontrarei. Ou se temes que a terra engendre monstros (35), que ela se apresse em (criar) qualquer  mal,  enquanto  a terra tem  e  vê Hércules. Pois, quem enfrentará qualquer espécie de mal? Ou quem, digno do ódio de

Juno, estará de volta pelas cidades de Argos? Conduzi com segurança minhas glórias. Nenhum país silencia sobre mim (40).

Conheceram-me a raça dos Citas[8], sob a Ursa gelada, os Indianos que (no Oriente) habitam sob Febo, e os Líbios (que habitam) sob Câncer. A ti, brilhante Titã[9], tomo por testemunha: estive contigo em todos os lugares onde brilhas, e tua luz não pôde acompanhar os meus triunfos. Passei à frente dos ciclos alternados do sol, (45) e o dia ficou contido dentro da minha jornada. A natureza perdeu para mim: faltou terra para meus passos. A natureza se cansou primeiro. A noite e o caos distante correram ao meu encontro: dali, donde ninguém volta, eu voltei a este mundo. Suportei as ameaças de Oceano (50) e nenhuma tempestade foi capaz de quebrar meu barco, não importando o lugar por onde passei. Que participação é essa de meu tio paterno[10]? O éter ainda vazio (de Hércules) não pode bastar ao ódio de tua esposa, a terra teme conceber feras que eu venha a vencer e não inventa monstros (55). Feras me são negadas. E Hércules começa a ocupar o lugar de monstro. Quantos males  eu combati, quantos crimes venci desarmado! O que quer que de temível se me opôs, minhas mãos sozinhas o abateram. Nem como adolescente eu temi as feras e nem como criança[11]. Tudo o que me é ordenado é fácil (60). Nenhum dia brilhou para mim na ociosidade. Ó quantos monstros venci, sem que nenhum rei mo tenha ordenado! A força se manifestou em mim mais terrível do que em Juno. Mas de que me aproveita ter tornado a humanidade livre dos medos? Os deuses não têm paz (65): toda a terra, uma vez purificada, vê no céu tudo aquilo que temeu: Juno para lá transferiu as feras. Câncer[12] aniquilado circula pela região tórrida e é tido como a constelação da Líbia, e faz crescer os trigais. O leão[13] leva para Astréia[14] o ano fugaz (70). E ele próprio, agitando com o pescoço a juba ardente, resseca o úmido Austro e aspira as nuvens. Eis que toda fera já invadiu o céu e me antecedeu. E eu, vencedor, daqui da terra contemplo meus feitos. Juno concedeu os astros primeiro aos monstros (75) e às feras, para tornar a mim o céu temível. Ainda que ela tenha contaminado de monstros o mundo (inteiro), e, irada, torne o céu pior do que a terra e pior do que o Estige, um lugar será reservado a Alcides! Se depois das feras, depois das guerras, depois do cão do Estige (80), ainda não mereci os astros, que o (monte) Peloro425 da Sicília se una ao litoral de Hespéria, formando assim um único território; eu dali afastarei os mares. Se ordenares que mares sejam reunidos, que o Istmo reúna as águas, e uma vez reunidos os mares, os navios áticos sejam conduzidos por nova rota (85). Que se mude o mundo: que corra o Istro por novos vales, e o Tânais tome outras direções. Dá-me, Júpiter, dá-me, pelo menos, deuses para eu proteger. Daquela parte que eu protegerei, tu poderás retirar teu raio. (90) Se me ordenas cuidar do pólo glacial, ou da zona tórrida, considera que nessa parte os deuses estarão em segurança.   Por ter matado uma serpente, Peão[15] mereceu templos em Cirra[16] e uma morada no céu. E, no entanto, a quantas Píton equivale só a Hidra! Baco e Teseu já se foram para junto dos deuses (95). Mas que parte do mundo representa o Oriente submetido, ou que é a Górgona diante das outras feras? Que filho mereceu de ti e da madrasta os astros por seus próprios méritos?

Peço o mundo que sustentei.

(Dirigindo-se a Licas[17])

Mas tu, companheiro dos trabalhos de Hércules, Licas (100), anuncia meus triunfos: os lares vencidos de Êurito[18] e seu reino destruído. (Dirigindo-se a seus companheiros) E vós, mais que depressa, levai o rebanho por onde a praia que conduz ao templo de Júpiter Ceneu[19]contempla o mar da Eubéia, tão temido quando sopra o Austro.

(Sai Hércules na direção do promontório

Ceneu, pretendendo aí fazer sacrifício a Júpiter)

 

Coro

É semelhante aos deuses aquele que possuiu, ao mesmo tempo, a vida e a fortuna (105). A vida é como a morte, quando é arrastada com lentidão por aqueles que sofrem. Quem pôs sob seus pés a fatalidade voraz e o barco do rio supremo nunca entregará cativos seus braços às cadeias (110), nem se tornará nobre troféu.

Nunca é infeliz aquele para quem morrer é fácil. Se seu barco o trai em alto mar, quando o Áfrico encontra o Bóreas, ou o Euro o Zéfiro, dividindo as águas (115), ele não recolhe os fragmentos do navio destroçado, como se esperasse o litoral em meio às ondas. Somente aquele que, por si mesmo, for capaz de devolver a vida, não poderá ser vítima no naufrágio.

A nós, disforme magreza e lágrimas nos dominam (120), e os nossos cabelos estão sujos das cinzas da pátria. Não nos sepultaram, nem a chama devoradora, nem o fragor (da destruição). Aos que são felizes, tu acompanhas, ó morte, e aos desgraçados abandonas. Nós seguimos de pé! Mas aquele sítio será entregue, ai de nós, não mais às muralhas da pátria, mas às florestas (125); e os templos destruídos se tornarão choupanas imundas. Agora, o gélido Dólopo[20] conduzirá seus rebanhos por onde se estende, ainda morna, a camada de cinzas que resta da destruída Ecália. No que fora outrora essa cidade, o pastor tessálico, tirando sons de sua flauta  rústica, cantará o nosso tempo numa melodia triste (130). Quando, então, deus tiver feito passar uns poucos séculos, se indagará sobre o lugar que terá sido o de nossa pátria. Feliz eu habitei lugares não estéreis e glebas nada pobres do solo tessálico (135). Sou chamada para Traquine, para seus duros rochedos e suas relvas eriçadas sobre montanhas tórridas: um bosque nada agradável ao rebanho montívago. No entanto, se melhor sorte recebe algumas de nós, escravas, ou a região do Ínaco[21] veloz as levará (140), ou elas habitarão as muralhas de Dircéia[22], por onde corre o Ismeno lânguido num filete d’água. Foi aí que se casou a mãe do orgulhoso Hércules[23]. Que pedra engendrou tais rochedos da Cítia? Acaso foi o Ródope que te transportou, feroz Titã (145)? ou foi o Atos escarpado? Ou foi uma fera do mar Cáspio? Quem, de corpo raiado[24], te ofereceu os seios túmidos? É falsa a história das noites geminadas, quando o éter reteve as estrelas por mais longo tempo, e Lúcifer[25] cedeu seu lugar a Héspero[26] (150) e a deusa de Delos[27], retardando seu curso, impediu o sol (de aparecer)? Seus membros são imunes a quaisquer ferimentos: a espada se mostra romba e mais cego é o aço. De encontro a seu corpo nu, a espada se quebra, a pedra recua. Despreza o destino (155), e, com seu corpo invencível, desafia a morte. As lanças não o podem trespassar, nem o arco retesado com uma flecha cítica, nem os dardos que carrega o Sármata (160) das regiões geladas, ou os habitantes das plagas soalheiras, que dirigem seus ataques contra o vizinho Nabateu, esse Parta mais certeiro em seus golpes do que os Cretenses.

Os muros da Ecália, ele derrubou com seu corpo. Nada o consegue deter: tudo o que decide vencer, já está vencido. Que parte ele dominou com ferimentos (165)? Sua fisionomia se mostrava mais  terrível,  quando   a ameaça era  de  morte, e ter visto as ameaças de Hércules é o bastante. Que gigantesco Briareu[28], que corpulento Gias, quando se ergueu sobre os montes tessálicos para atingir o céu com suas mãos de serpentes (170), mostrou tal rosto? Grandes recompensas se manifestam nas grandes destruições, o que é cômodo: (assim), nada de mau nos resta. – Infelizes, nós vimos o irado Hércules.

Iole

Eu, de minha parte, infeliz, não lamento, nem os templos derrubados com seus deuses, nem os lares destruídos (175), nem os pais ardendo em chamas misturados aos filhos, ou os deuses misturados aos homens, ou os templos aos sepulcros. Eu não lamento nenhum mal que atinge a todos: a fortuna chama minhas lágrimas para outra direção (180): e o destino me manda chorar outras ruínas. O que primeiro lamentarei, o que chorarei por último? Chorar tudo ao mesmo tempo é vantajoso. Mas a natureza não me deu senão um peito para que os golpes (nele desferidos) soem à altura de meu destino. A mim, ó deuses, ou transformaime (185) no lamentoso rochedo Sípilo[29], ou depositai-me nas margens do Eridano, onde sussurra fúnebre a floresta das irmãs de Faetonte441. Ou ainda, acrescentai-me aos rochedos Sículos, onde, como a Sereia[30]tessálica, eu lamente o meu destino (190). Ou então, transportai-me para as florestas da Edônia[31], qual alada Dáulia que costuma chorar o filho sob a sombra de Ísmaro. Torna apropriadas minhas lágrimas, e a áspera Traquine retumbe (195) com (a história de) meus males. Mirra[32], a cipriota, conserva suas lágrimas, a esposa de Ceix[33] lamenta sua perda, a filha de Tântalo[34] se torna a que sobrevive a si. Filomela[35] perde seu rosto, e a Átide448 repete (200), em lamento, o nome de seu filho. Por que meus braços ainda não se cobrem de penas de aves?

Feliz (serei eu), feliz, quando a floresta se tiver tornado a minha casa, e, como pássaro assentado em solo pátrio (205), murmurante e lastimosa, divulgar minha desventura, e a tradição falar de Íole-pássaro. Eu vi, eu vi, infeliz de mim, a sorte de meu pai, quando, atingido pela maça mortífera, caiu por terra despedaçado pelo palácio inteiro (210). Se o destino te houvesse reservado um túmulo, quantas vezes, ó pai, terias que ser recolhido! Pude eu presenciar a tua morte, Toxeu, tuas faces tenras ainda imberbes e com seu sangue ainda não forte (para a luta) (215)? Por que lamentar vossos destinos, pais meus, os quais uma morte benévola colocou em segurança?

Minha sorte é que me demanda lágrimas. Brevemente, trabalharei como cativa as rocas e os fusos de uma dona (220). Ó cruel beleza e formosura que me hão de proporcionar a morte! A ti somente nossa casa deve todas (as desgraças), desde que meu pai me negou a Alcides e temeu ser sogro de Hércules. Agora, a casa de minha senhora me chama.

 

Coro

Por que, insensata, recordas o reino ilustre de teu pai e seu ocaso? Afaste-se de teu olhar a felicidade anterior. Feliz aquele que sabe suportar a condição de escravo e a de rei (230), e pode ir adequando sua atitude. Esvaziou de forças e poder ao mal aquele que enfrenta as quedas, com alma inalterável.

 

(Entra a ama de Dejanira. Segundo F. J. Miller, a cena muda para o espaço em frente ao palácio de Hércules e Dejanira em Traquine).

 

Ama, Dejaneira

Ama

Ó quão sanguinária fúria incita as mulheres, quando uma casa se abre, ao mesmo tempo, à concubina e à esposa (235)! São menos temíveis Cila e Caríbdis, que agitam os mares da Sicília: qualquer outra fera é melhor. De fato, desde que reluziu a beleza da amante cativa e brilhou Iole como um dia sem nuvem, ou como um astro luminoso que cintila à noite (240), a esposa de Hércules permanece como uma desvairada; espalhando seu olhar terrível; como a tigresa parida, escondida sob os rochedos armênios, ela surge com a face ameaçadora; ou como a Mênade, que, tendo Lieu incorporado em si, recebe ordem de agitar o tirso (245), hesita duvidosa por um instante sobre para onde dirigir seus passos. Depois disso, ela corre enlouquecida pelo palácio de Hércules. A casa inteira é insuficiente (para seu furor). Ela corre, ela vacila, ela pára. Toda sua dor lhe acorre ao rosto, quase nada lhe resta no profundo peito. O choro sucede às ameaças (250). Nenhuma atitude sua é permanente, e ela não manifesta sua fúria, contida numa expressão constante: ora suas faces se inflamam, ora a palidez repele o rubor, e a dor se manifesta, instável, de todas as maneiras: ela chora, ela grita, ela implora, ela geme.

Acabam de ranger as portas: eis que, com passo apressado, e com palavras confusas (255), vêm à tona os segredos de sua alma.

(Entra Dejanira, saindo do interior do palácio)

 

Dejaneira

Não importa que parte da morada etérea ocupas, esposa do Deus do Trovão, envia a Alcides uma fera que esteja à altura do que quero. Se, maior do que um pântano, alguma serpente (existe, que) move sua cabeça sempre capaz de renascer (260), e nunca foi vencida; se algo (existe, que) supera as feras, por (ser) feroz, temível e aterrorizante, e ante cuja visão Hércules desvia os olhos, que saia de seu antro imenso. Se, no entanto, as feras me são negadas, converte em algo este meu ser, te peço. Na minha atual disposição, eu posso converter-me em qualquer monstro (265). Concede-me uma imagem equivalente à minha dor: Meu peito não segura as ameaças.

Por que revolves o âmago da terra profunda e subvertes o mundo? Por que pedes calamidades a Plutão? Todas essas feras que ele poderá temer, tu encontrarás neste meu peito (270). Aceita esta arma para (armar) teus ódios: agora eu sou a madrasta: tu podes arruinar Alcides. Conduze minhas mãos para qualquer lugar. Por que demoras, ó deusa? Serve-te de minha fúria. Que impiedade mandas que se faça? Eu já a criei dentro de mim. Por que hesitas? Já que te é lícito ficar indiferente (275), minha ira me será bastante.

Ama

De um peito pouco são, minha filha, reprime os gemidos e domina as chamas: freia tua dor, mostra-te como esposa de Hércules.

Dejaneira

A cativa Iole dará irmãos a meus filhos. E, de escrava, se tornará nora de Júpiter? A chama, pois, e a torrente fluirão no mesmo curso? E a Ursa ressequida beberá no mar azul? Não partirei  sem  me  vingar. Embora  tenhas sustentado o céu, e o mundo inteiro deva a paz a ti, existe algo mais poderoso do que a hidra: o ressentimento de uma (285) esposa irada. Que fogo do ardente Etna se enfurece tão impetuoso contra o céu? Tudo o que já venceste, este meu arrebatamento o vencerá. Uma cativa usurpará meu leito conjugal? Até agora, eu temia os monstros, mas já não há mal algum: cessaram as desgraças, e em lugar das feras, existe (290) a detestável amante. Ó supremo senhor dos deuses, e tu, brilhante Titã, fui tão somente a esposa do Hércules incerto quanto à vitória; os votos que dirigi aos deuses deram resultado para a cativa; fui fecunda em benefício da amante: foi para ela, ó deuses superiores, que ouvistes minhas preces, é (295) para ela que ele retorna incólume! Ó dor, que nenhuma vingança aplaca, procura suplícios horríveis, inéditos, infandos. Ensina a Juno o de que é capaz o ódio: ela (que) não sabe irar-se o bastante.    Em meu favor, tu fazias as guerras; por minha causa (agora) foges (300). Aquelôo[36]tingiu as águas com seu próprio sangue, quando em lenta serpente se transformou e, em seguida, a serpente transformou-se em um touro feroz e ameaças dirigiu-te; e tu, num único inimigo, venceste mil feras. Agora não te interesso mais, uma cativa é preferida a mim (305). Mas não será preferida: o dia, que há de ser o último de nosso casamento, este também o será de tua vida. Mas, o que é isto? Minha alma recua e depõe as ameaças? Agora a cólera recrudesce? Por que te prostras, infeliz ressentimento? Perdes a fúria (310)? Tu me devolves novamente a fidelidade de uma esposa virtuosa? Por que não deixas que se alimentem as chamas? Por que apagas este fogo? Conserva-me este impulso. Sejamos iguais: fazer votos não será preciso. Estará presente a madrasta para nos conduzir as mãos, mesmo sem ser invocada.

 

Ama

Que crime tu preparas, insensata (315)?

Matarás teu marido cuja glória conhecem o Ocidente e o Oriente, e cuja fama, elevada até o céu, mantém sob seu domínio os povos? A terra dos gregos se insurgirá contra tua casa. Primeiro a raça de teu próprio sogro, em seguida (320) toda a raça dos Etólios será destruída. Logo em seguida, pedras e tochas serão atiradas contra ti: toda a terra defenderá seu vingador. Tu, sozinha, a quantos castigos serás submetida! Acreditas que tu podes fugir da terra e do gênero humano? O pai de Alcides tem nas mãos o raio (325). Olha agora, no céu, o fogo ameaçador de sua ira e o dia que reboa quando o raio é atirado; Teme essa mesma morte que tu crês em tuas mãos. É senhor, aqui, um tio paterno de teu Alcides. Ali, infeliz (330), encontrarás deuses da família de Júpiter, não importando para onde vás.

Dejaneira

É o maior crime que se pode cometer, eu mesma o reconheço; mas a dor manda que seja cometido.

Ama

Morrerás.

Dejaneira

Morrerei, sem dúvida, mas como esposa do famoso Hércules; e nenhum dia, dissipada a noite, me encontrará sozinha (335); nenhuma escrava concubina usurpará meu leito. O dia nascerá no Ocidente; até o gelado pólo envolverá os indianos, ou Febo, em sua trajetória morna, aquecerá os Citas, antes que me vejam abandonada as noras da Tessália.

Apagarei,  com  meu   sangue,  as  tochas nupciais (340). Que pereça ele, ou que me faça perecer. Às feras esmagadas acrescente também sua esposa. Seja possível a Hércules relacionar até a mim entre seus trabalhos; e eu, moribunda, pelo menos, abraçarei, com meu corpo, o leito de Alcides. Ir, partir para as sombras, agrada a esposa de Hércules (345), mas não sem antes vingar-se. Se algo concebeu Iole de meu Hércules, eu o arrancarei com minhas próprias mãos, mas antes atacarei a amante, em meio a suas tochas nupciais. Que, como inimigo, sacrifique-me ele como vítima nesse dia de suas núpcias, contanto que eu caia sobre Iole morta (350). Morre feliz aquele que, (em sua queda), esmaga os que odeia.

Ama

Por que alimentas, tu própria, tuas chamas (de ódio), e fomentas tanto a tua dor? Infeliz, por que temes sem motivo? Amou ele Iole, é verdade, mas enquanto estava ainda de pé seu pai, e ele procurava nela a filha de um rei. A rainha rebaixou-se para o lugar de escrava: o amor perdeu as forças, e a situação infeliz arrancou dela muito (de seu atrativo). Desejase o ilícito, enquanto se despreza o que é lícito.

Dejaneira

Sua pior fortuna mais inflama o amor de Hércules. Ele ama nela justamente o que lhe falta do pátrio lar (360), o fato de seus cabelos penderem livres do ouro e das pedrarias. Talvez, tomado de compaixão, ele ame as próprias desventuras. Isto é freqüente em Hércules: ele ama suas cativas.

Ama

De fato, a irmã[37] do dardânio Príamo, por ele amada, foi cedida a um escravo. Soma a isso quantas mulheres casadas (365) e quantas virgens ele amou antes: inconstante, ele amou à vontade. Com efeito, a virgem arcádia, Auge, enquanto conduzia o coro de Palas, tendo sofrido a violência da desonra, perdeu para ele a importância, e não reteve nenhum vestígio do amor de Hércules. Por que evocarei outras? Faltam, de fato, as

Tespíades[38] (370). Por elas, Alcides ardeu de paixão por pouco tempo. Hóspede de Tmolo[39], ele cortejou a mulher Lídia, e, tomado de amor, postou-se junto a seus fusos ligeiros, que torciam, com sua mão potente, o fio úmido. De sua parte, seu ombro desnudouse da pele do monstro (375), cobriu com uma mitra seu cabelo, e, como um criado, continuou de pé, e, lânguido, untou sua cabeleira hirsuta com a mirra sabéia. Por toda parte, inflamou-se ele (de amor), mas (sempre) ardeu em chama passageira.

Dejaneira

Os amantes costumam fixar-se, depois de viverem paixões errantes.

Ama

Ele vai preferir a ti uma escrava descendente de inimigo (380)?

Dejaneira

Assim como grande beleza se apossa das florestas da primavera, quando o primeiro calor reveste o bosque nu, mas em seguida o Bóreas expulsa o Notos enfraquecido, e o inverno rigoroso faz cair totalmente as folhas, e vês, em seus troncos desolados, o bosque disforme (385), da mesma forma, nossa beleza, ao percorrer o longo caminho (da vida), perde sempre alguma coisa, e brilha em nós foi outrora desejado, acabou, e está perdido para sempre. A maternidade, muito daquele encanto já roubou de mim (390). A velhice (outro tanto) me arrancou com passo rápido. Vês como a escrava não perde sua grande beleza? Cessaram completamente seus cuidados, e a sujidade a acompanha. No entanto, sua beleza brilha mesmo nos seus sofrimentos, e nada tirou dela o infortúnio nem seu triste destino (395), senão seu reino. Este temor, ó minha ama, inquieta meu coração; este pavor me rouba o sono. Eu era uma esposa ilustre para todas as gentes; e toda mulher, com desejo invejoso, elegia para modelo o meu casamento (400); assim como qualquer espírito que suplicasse a deus. Fui, para as mulheres argólicas, a medida de suas ambições. Que sogro semelhante a Júpiter eu terei, ó minha ama? Que marido me será dado sob este céu? Mesmo que aquele que manda em Alcides, Euristeu, me unisse a si pelos laços do himeneu, isso valeria (405) menos. Ter sido privada do leito real é coisa leve: sofre grande queda, no entanto, aquela que perde Hércules.

Ama

A geração de filhos concilia quase sempre os ânimos dos cônjuges.

Dejaneira

Não obstante isto, essa geração mesma dividirá os nossos leitos.

Ama

Por ora, ela é trazida escrava, como presente para ti (410).

Dejaneira

Este que vês, coberto de glória, percorrer cidades, levando sobre as costas o espólio fulvo  de  uma  fera,  que  dá o cetro  aos infelizes e o arranca aos poderosos; envergado pela enorme clava em sua mão temível, cujos triunfos os Seres longínquos cantam (415), bem como quaisquer outros povos que habitam o mundo, é indiferente (a tudo isso), e o ornamento da glória não o estimula. Ele erra pelo mundo, não para se igualar a Júpiter, ou para se exibir pelas cidades argólicas. Ele está à procura do que amar: ele deseja o leito das virgens. Se (420), por qualquer razão, uma lhe é negada, ela é raptada, e ele se enfurece contra seus povos, busca, entre as ruínas, as mulheres casadas; e esse vício desenfreado é chamado de virtude. A ilustre Ecália foi destruída. Um mesmo sol e um mesmo dia viram-na de pé e em escombros. O motivo dessas guerras é o amor (425). Tantas vezes haverá temor, quantas vezes um pai tiver que negar sua filha a Hércules. Quem se recusa a se tornar sogro, se torna sempre inimigo; se ele não se torna genro, torna-se violento. Depois disso, por que conservo inocentes minhas mãos, até que ele finja estar louco, e, com sua mão violenta (430), entese o arco e esmague a mim e a meu filho? Assim Alcides expulsa suas esposas: assim são os seus divórcios! Nem pode apresentar-se como culpado: ele fez com que sua madrasta parecesse a toda terra a causa de seus crimes. Por que te enches de torpor, furor estéril (435)? O crime precisa ser iniciado. Prossegue, enquanto a mão ferve em ódio.

Ama

Matarás teu marido?

Dejaneira

Certamente o de minha rival.

Ama

Matarás o filho de Júpiter?

 

Dejaneira

Na verdade, o concebido por Alcmena.

Ama

Pela espada?

Dejaneira

Pela espada.

Ama

Se não o podes?

Dejaneira

Matá-lo-ei à traição.

Ama

Que furor é este?

Dejaneira

Aquele mesmo que me ensina meu marido

(440).

Ama

Matarás este varão, que nem a madrasta pôde matar?

Dejaneira

A ira celeste torna desgraçados aqueles que ela oprime; a ira humana os aniquila.

Ama

Contém (tua ira), infeliz, e teme!

 

 

Dejaneira

Menospreza a todos, aquele que primeiro desprezou a morte. Ir ao encontro da espada é que eu quero.

Ama

Tua dor (445), ó menina, é maior do que o crime. A culpa pede o ódio na mesma intensidade. Por que estabelecer tamanha crueldade para delitos tão pequenos? Sofre apenas na medida em que és ultrajada.

DEJANRIA

Acreditas ser um mal pequeno para uma mulher casada uma amante? Tudo o que alimenta essa dor é muito pesado, acredita-o!

Ama

O amor do famoso Alcides desapareceu de teu coração (450)?

Dejaneira

Não desapareceu, minha ama; permanece, e está arraigado, profundamente fixo nas entranhas, crê nisso! Mas um amor irado é uma grande dor.

Ama

Quase sempre, com artes mágicas misturadas a preces, as esposas amarram seus casamentos. Eu já mandei a um bosque reverdecer em meio ao frio e (455) a um raio deter-se após lançado. Agitei o mar, tendo cessado o vento, e aplaquei o oceano agitado. A terra seca se abriu em novas fontes. Os rochedos adquiriram movimento; enfrentei as portas e as sombras de Plutão; e, por ordem de minhas preces, os (460) manes falam, e o cão do inferno se calou. O mar, a terra, o céu e o Tártaro me ficaram submissos. A meia- noite contemplou o sol, e o dia contemplou a noite: nada faz valer suas leis diante de meus encantamentos: nós o reverteremos. Minhas palavras mágicas encontrarão o teu caminho (465).

Dejaneira

Que ervas produz o Ponto, ou que ervas alimenta o Pindo sob as rochas da Tessália, em que encontre o malefício diante do qual ele se detenha? Ainda que, com uma reza mágica, dos astros, a lua descesse à terra; o inverno visse a colheita de grãos; e, com um canto mágico, o raio ligeiro parasse (470); e, invertidos os turnos, o meio dia fervesse de estrelas forçadas (a aparecer): nem tudo isso o faria ceder.

Ama

O Amor venceu até os deuses.

Dejaneira

Talvez só mesmo por ele será vencido o amor, a quem será entregue espólio; e o amor se tornará o último trabalho de Alcides (475). Mas, te suplico, por todas as divindades do céu, e por esse meu temor: o quanto de misterioso estou tramando, que tu escondas num lugar inacessível; e o guarde sob juramento de silêncio.

Ama

Que é isso que me pedes para manter em segredo?

Dejaneira

Não são flechas, não são armas, não é o fogo ameaçador.

 

Ama

Confesso que posso prestar o juramento de silêncio (480) se isso não é um crime: por vezes a lealdade é crime.

DEJANRIA

Olha ao redor, vamos, que ninguém roube nossos segredos, e que teu olhar siga investigando por toda parte.

Ama

Sim! O lugar é seguro, e está livre de qualquer juízo (485).

Dejaneira

Há em um lugar afastado do palácio real, uma gruta silenciosa que guarda meu segredo. Esse lugar não recebe os primeiros raios do sol, e nem os raios da tarde, quando Titã, ao ocultar o dia, mergulha seu carro cansado no oceano avermelhado (490). Ali se esconde a garantia do amor de Hércules. Minha ama, te farei uma confissão: o autor dessa poção mágica é Nesso, que a grávida Nefele gerou para o chefe tessálico, lá onde o Pindo adentra seus cumes por entre os astros, e o monte Ótris se ergue rijo para além das nuvens (495). Com efeito, logo que, vencido pela clava de Hércules, Aquelôo, hábil em tomar todas as formas, depois de se disfarçar de todas as feras, por fim revelou-se (ele mesmo), e baixou sua cabeça disforme (guarnecida) de um único chifre. Alcides, vencedor, voltava para Argos, tendo-me por esposa (500). Por acaso, o (rio) Évenos, transbordando pelos campos, e arrastando para o mar um grande turbilhão de água, estava turbulento, e quase atingia as árvores mais elevadas. Nesso, acostumado a atravessar a vau a correnteza, pediu um preço para me  transportar;  e,  já me carregando sobre o dorso (505), na parte em que a coluna que falta ao cavalo, liga o homem, vencia as ameaças do rio transbordado. O impetuoso Nesso já havia saído totalmente das águas, e Alcides ainda se debatia no meio da correnteza, fendendo com passos largos a torrente ameaçadora (510). Ele, então, viu que Alcides estava longe: “tu serás minha presa”disse – e “também minha mulher; teu marido está retido pelas águas”. E me levando abraçada, acelerou os passos. Águas não seguram Hércules. “Transportador infiel” – diz ele – “ainda que o rio Ganges e o Istro (515) corram com suas águas juntas num só leito, eu vencerei a ambos, e, com meu dardo, te atingirei na fuga”. Seu arco precedeu suas palavras. Em seguida, sua flecha, levando-lhe um profundo ferimento, paralisou-o em sua fuga, e o feriu de morte. Aquele, desejando agora a luz do dia, recolheu, com sua destra, o líquido putrefato que corria da ferida e mo entregou dentro de um casco seu, que ele arrancara com extrema violência com sua mão furiosa. Em seguida, enquanto morria, acrescentou estas palavras: “Com esta poção” – continuou – “as feiticeiras me disseram que o amor pode ser segurado (525). Isto ensinou Micale às noras tessálicas, a única entre todas as magas que a lua segue, deixando abandonadas as estrelas. Tu mesma oferecerás a teu marido as vestes untadas com este líquido poderoso” – recomendou – “se alguma amante odiosa usurpar teu leito, e se teu esposo levianamente der (530) (outra) nora ao pai altíssono. Que nenhuma luz incida sobre isto, que somente trevas espessas o cubram: assim, este sangue poderoso preservará suas virtudes”. A quietude interrompeu suas palavras, e o torpor levou a morte a seus membros fatigados (535).

Tu, que a lealdade dá acesso a meus segredos, esforça-te para que o líquido aplicado penetre em sua veste brilhante, atinja, através de suas articulações, a sua mente, e, avançando em silêncio, penetre suas entranhas.

 

Ama

Executarei, o mais rápido possível, os teus mandados, minha menina. Invoca, porém, com tuas preces, o deus invencível, que, com sua mão delicada, lança dardos certeiros.

Dejaneira

Eu te imploro, a ti, a quem temem, tanto o céu quanto os deuses, quanto o mar; e aquele que atira o raio do Etna, ó menino alado, motivo de temor até para tua mãe, lança ligeiro uma flecha com tua mão certeira. Tira-a, não dentre as flechas leves, mas dentre a categoria mais pesada, te peço, uma que tuas mãos jamais arremessaram contra alguém. É necessária uma flecha não leve, para que Hércules possa amar. Mantém firmes tuas mãos e prepara o arco com seus dois cornos se tocando (550). Agora, neste momento, toma a flecha, com a qual outrora, atingiste brutalmente Júpiter. Tendo deposto o raio, o deus, com a testa guarnecida (de chifres), se inchou e, (sob a forma de) um touro, rompeu veloz o mar, levando consigo a donzela assíria[40]. Envia-lhe o amor, que ele ultrapasse todos os exemplos (de paixão) (555). Que ele aprenda a amar sua esposa. Se a beleza de Iole acendeu quaisquer chamas no peito de Hércules, apaga a todas, e ele se sacie com minha paixão. Ó tu, que muitas vezes venceste a Júpiter, o deus do raio; ó tu, (que muitas vezes venceste) aquele que porta o cetro sombrio do pólo tenebroso (560), o condutor da multidão mais numerosa e senhor do Estige. Tu, que és um deus mais temível do que a madrasta irada, conquista este triunfo: sê o único vencedor de Hércules. (A ama retorna com a veste e o filtro)

 

Ama

A substância foi trazida, bem como aquilo que, tecido na roca de Palas, extenuou todas as mãos servis (565). Acrescente-se agora o filtro, para que a roupa de Hércules absorva essa desgraça. Com minhas preces, (Enquanto elas estão ocupadas com a veste, percebem que Licas se aproxima) aumentarei seu poder maléfico. Nesse exato momento, surge o diligente Licas. É preciso esconder esta substância temível, para que o truque não seja descoberto.

(Entra Licas)

Dejaneira

Ó espécie, igual a quem nem os palácios soberbos têm (570), nome sempre fiel aos reis, Licas, toma estas vestes que nossas mãos teceram, enquanto, sem rumo, vagava Hércules pelo mundo, e, enquanto dominado pelo vinho, ele apertava contra seu corpo impetuoso a mulher lídia; e agora se apossa de Iole. Quem sabe, por merecimento (575), dobrarei seu rude coração: merecimentos já venceram os maus. Pede que meu esposo não ponha estas vestes antes de alimentar, com incenso, as chamas, e tornar favoráveis os deuses, depois de ter cabeleira hirsuta cingida pelo choupo branco. (Licas toma o vestido e parte para sua missão) Quanto a mim mesma, dirigirei meus passos para o interior do palácio real (580), e louvarei, com preces, a mãe do terrível deus do amor. (Para suas companheiras etólias) Vós, companheiras que eu trouxe dos lares pátrios da Calidônia, chorai a minha sorte, digna de lamentação.

(Dejanira sai)

 

Coro DAS MULHERES ETÓLIAS

Coro

Turma de companheiras dos primeiros anos (de tua vida), nós choramos tuas desgraças, filha de Eneu (585); choramos, ó venerável senhora, teu leito ameaçado. Nós, acostumadas a contigo brincar nas rasouras do Aquelôo, quando, no fim da primavera, o rio amainava suas águas caudalosas, e, tênue, serpenteava em seu volume habitual (590), o louro Licormas, ao precipitar-se de sua fonte, não corria como um rio turbulento, nós, costumávamos ir contigo aos altares de Palas e freqüentar os coros das virgens, e levar, nos cestos cadmeus (595), os objetos sagrados de Baco, quando, já expulsa a estrela do inverno, a terceira estação faz sair o sol, e quando a Ática Elêusis, consagrada à deusa da colheita, fecha o período de seu culto (600). Agora, não importa a desgraça que tu temes, recebenos como companheiras fiéis de tua sorte; pois a fidelidade é rara, depois que a boa sorte se desfez. Tu, quem quer que sejas, que deténs o cetro do poder (605), ainda que todo o povo bata, ao mesmo tempo, às cem portas em teu palácio, e que caminhes rodeado de toda uma multidão, mesmo com tanta gente em torno, dificilmente numa turba tão numerosa, numa única (pessoa) confiarás. Uma Erínia guarda teu umbral dourado (610), e quando se abrem as grandes portas, entram as astúcias e as trapaças matreiras, bem como a espada oculta. E quando tu te preparas para apresentar-te em público, a inveja é tua companheira. Quantas vezes a aurora sucede à noite (615), podes crer, tantas vezes o mesmo rei terá nascido. Poucos honram os reis, e não os reinos: à maioria atrai o brilho da corte; este deseja, triunfante, caminhar pelas cidades em festa, ao lado do próprio rei (620):  a  glória  queima  seu peito infeliz.

Aquele deseja saciar sua fome de riquezas, e nem toda a região do Istro gemífero o satisfaz, e nem toda a Lídia lhe mata a sede; nem a terra exposta ao Zéfiro, que se extasia com o famoso Tago[41] irradiante em sua correnteza dourada (625). Nem mesmo se todo o Hebro ficasse sob seu domínio, e o rico Hidaspes[42] unisse (uma margem e outra de) seus campos, e ainda ele visse correr dentro de seus domínios o Ganges com todo o seu volume (630): para os avarentos, para os avarentos o universo é pouco. Este cultiva os reis e os palácios reais, não para que, com o arado sempre em ação, nunca pare de trabalhar o encurvado arador ou (para que) lavrem o campo milhares de lavradores (635); este deseja as riquezas somente para controlálas. Aquele freqüenta os reis, para calcar a todos (sob os pés), levar à desgraça alguns, e não ajudar ninguém. Ele deseja ser poderoso apenas para fazer o mal. Que (pequena) parte (desses) morre no tempo do destino! (640) (Estes) que a lua vê feliz (à noite), o romper do dia os vê na desgraça! É raro a felicidade e a velhice coincidirem. Mais suave do que a púrpura do Tiro, um prado relvoso costuma acalentar sonos tranqüilos (645). Tetos de ouro quebram o sossego, e a púrpura cria noites insones. Oh, quem dera se abrissem os corações dos ricos! Quantos temores planta em seu âmago uma grande fortuna! Até o mar de Brútio é menos agitado quando o Cauro[43](650) agita suas vagas. O pobre vive uma vida segura. Ele possui taças feitas da frondosa faia, mas não as segura com mão trêmula. Ele colhe alimentos fáceis e comuns, mas (655) não contempla sobre si espadas desembainhadas. O sangue usa copos de ouro. A mulher casada com um marido comum não usa, em forma de colar, os famosos presentes do mar avermelhado (660), nem lhe pesa as orelhas enfeitadas de pérola a pedra colhida no  mar do  Oriente, nem  sua lã delicada, levada tantas vezes ao vaso brônzeo de Sidon, bebe a cor vermelha, nem, com a agulha meônia, ela adorna (665) os tecidos que o Ser[44], exposto a Febo Oriental, obtém das árvores orientais; ervas quaisquer tingiram as lãs toscas que suas mãos teceram. Mas ela não aquece leitos hesitantes (670). A Erínia, com sua tocha funesta, persegue aquelas cujo dia os povos[45] celebraram, já a (mulher) pobre não se dá por feliz, senão depois de ter visto que as felizes sucumbiram (675). Todo aquele que abandona a via da moderação não anda jamais em caminho seguro. Quando aquele jovem pediu para dirigir o sol por um dia apenas, e sentou-se no carro paterno, e não o guiou pelo caminho costumeiro, mas dirigiu-se, errante por rota desconhecida, para as regiões celestes que escapam aos raios de Febo, arruinou junto consigo o próprio universo. Enquanto sulca o caminho do céu à meia altura, Dédalo alcança o litoral tranqüilo, e não dá seu nome a mar algum (685); Ícaro, por sua vez, como ousa desafiar os pássaros de verdade, e, jovem, olha com desprezo as asas de seu pai, e voa próximo ao próprio sol, empresta seu nome a um mar desconhecido. O orgulho é terrivelmente pago com a ruína (690). Que outro se proclame feliz e grandioso; a mim, que multidão alguma proclame poderoso (695). Que minha embarcação modesta costeie o litoral, e que nenhum vento impetuoso obrigue meu barquinho a romper o alto mar. A Fortuna passa ao largo das velas precavidas, e persegue, em alto mar, os navios cujas velas tocam as nuvens. Mas, por que, aterrorizada, com o semblante pávido, surge, com passos precipitados, a rainha, qual Tíada[46] atingida por Baco? Segue-a a ama silenciosa e tensa, e agita a cabeça. Que revés te envolve novamente? Responde, infeliz: mesmo que tu te negues, teu rosto diz tudo o que ocultas (705).

 

TERCEIRO EPISÓDIO

 

Dejaneira

Corre um tremor geral através de meus membros convulsos. De horror, arrepiam-se meus cabelos. O terror se assenta em minha alma ainda agitada, e o coração dispara estupefato. Minhas entranhas assustadas pulsam através das veias latejantes. Como o mar, agitado pelo Austro (710), permanece ainda assim revolto, mesmo serenado o dia com o acalmar dos ventos, assim meu espírito permanece atormentado, não obstante afastado o medo. Uma vez que a divindade começa a perseguir os felizes, com toda certeza, ela lhe vai ao encalço. As grandes coisas têm este desfecho (715).

Coro

Que desgraça tão insuperável te tumultua, infeliz?

Dejaneira

Logo que foi enviada a vestimenta impregnada do veneno de Nesso, e gemendo, conduzi meus passos para os aposentos nupciais, não sei o quê minha alma temeu, e (se) eu preparava uma catástrofe. Interessame fazer uma experiência. O malvado Nesso me proibiu que seu fero sangue fosse exposto ao sol (720) e ao fogo. Esse artifício mesmo me alertou que se tratava de um embuste. Casualmente, os raios do sol não estavam embaçados por nenhuma nuvem, o ardente Titã dava livre curso a um dia causticante. O temor agora suporta apenas que se me abram os lábios: Atirada no meio do sol e de seus raios  luminosos  (725), o  pincel  com  o qual tinha sido tingido o tecido e impregnada a veste, me aterroriza, e, ao contato com os terríveis raios de Febo, ele se incendeia e se avoluma; o filtro incendeia. Coisa monstruosa! É como o Euro ou o tépido Noto que derretem as neves que o escarpado Mimante[47] perde no início da primavera (730), e como no mar Jônio, Leucade461, em frente, quebra as ondas, e o vagalhão serenado se desfaz em espuma no próprio litoral, ou como os incensos, derretidos pelo calor do fogo, se esvaem na direção dos deuses (735). Assim, toda a lã se dissolve, e perde seus flocos. E enquanto eu observo estupefata, a causa mesma de meu espanto desaparece; mais do que isso: a própria terra produz tremores e espuma (738), e tudo o que é tocado por aquele veneno se arruína. (Vê-se Hilo se aproximando) Vejo meu filho apavorado, e com pés ligeiros (740) conduzindo seu andar. (A Hilo) Dize-me que novidade trazes.

Hilo

(Correndo em cena).

Vai, foge, procura, se algo existe para além das terras, do mar, dos astros, do Oceano, dos infernos: foge, mãe, para além dos trabalhos de Alcides!

Dejaneira

Não sei que grande calamidade minha alma pressente (745).

 

Hilo

Corre para os reinos da Trívia[48], ou para os templos de Juno: estes te estão abertos; todos os outros santuários te estão fechados.

Dejaneira

Dize que desgraça se abate sobre mim, inocente.

Hilo

Aquela glória e segurança única do universo, que o destino dera à terra para o lugar de Júpiter (750), ó mãe, desapareceu. Uma peste queima os membros e os músculos de

Hércules, e eu não sei como. O dominador de monstros, ele mesmo, aquele vencedor, está vencido, se lamenta, e chora. Que queres saber mais?

Dejaneira

Os desgraçados têm pressa em conhecer suas desgraças (755). Dize-me em que situação se encontra a nossa casa. Ó lares, lares infelizes! Agora viúva, agora rejeitada, agora ficarei aniquilada.

Hilo

Não somente tu deves chorar Hércules. Vencido, ele é motivo de choro para o mundo inteiro. Não penses que tuas desgraças, ó mãe, sejam somente tuas (760). Todo o gênero humano já está em pranto. Eis que essa mesma dor que tu lamentas, todos lamentam. Tu padeces uma desgraça comum ao mundo inteiro. Experimentaste a dor da perda: és apenas a primeira, mas não a única, ó infeliz, a chorar por Hércules.

 

 

Dejaneira

Quão próximo da morte se encontra o meu

Alcides, fala, explica, por favor (765).

Hilo

A morte, que uma vez foi vencida por ele em seu próprio reino, dele se afasta, e nem o destino ousa cometer tão grande impiedade. Talvez, Cloto[49] tenha afastado o fuso de sua mão trêmula, e o destino tenha medo de concluir (seu trabalho) em relação a Hércules. Ó dia! Que dia abominável (770)! Um final destes atingirá aquele grande Alcides?

Dejaneira

Tu dizes que ele me precede (no caminho) para a morte e para as sombras, e para o mundo mais temível? Ou posso, primeiro, experimentar a morte? Responde-me se ele ainda não morreu.

Hilo

A terra eubéia, que se eleva num imenso pico (775), é batida por todos os lados (pelas ondas). O promontório Cafareu[50] cinde o mar de Frixo[51]; por isso, seu flanco se expõe ao Austro. E no lado em que sofre a fúria do Aquilão[52] nevoso, o Euripo instável faz refluir as águas errantes; e sete vezes eleva as vagas, e outras tantas as abaixa (780), até que o Titã mergulhe no oceano suas parelhas cansadas. Aí, numa rocha elevada, que muitas nuvens envolvem, brilha o antigo santuário de Júpiter Ceneu. Logo  que  todo  o  rebanho  a  ser imolado se postou em volta do altar, e todo o bosque ecoou ao mugido dos touros enfeitados de ouro (785), Hércules despiu a pele do leão, suja do sangue corrompido. Depôs o peso de sua clava, e livrou seus ombros da pesada aljava. A seguir, refulgente com a tua veste, cingindo, com o choupo branco, sua cabeleira hirsuta, ele acendeu o altar: “Recebe em teu altar estes frutos, meu pai verdadeiro”, diz ele, “e o fogo sagrado se avive pelo incenso em profusão, que o rico árabe, adorador de Febo, colhe das árvores sabéias. A terra está pacificada”, diz, “e também o céu e os mares. Subjugados todos os monstros, estou de volta vencedor (795). Depõe o raio”. Estupefato o próprio Hércules, um gemido cai em meio a suas preces. Nesse momento, ele enche o céu com um clamor horrendo: semelhante ao touro que foge com o cutelo de dois gumes e que leva (em sua fuga) a ferida e o cutelo, e enche com seu vasto urro o templo que estremece (800); ou semelhante ao raio que reboa atirado no firmamento. Assim ele fere, com seu grito, os céus e o mar. A vasta Cálcis retumba, e toda a Cíclade lhe recebe os sons. Em seguida, os rochedos de Cafareu, e depois, todo o bosque repete os gritos de Hércules (805). Nós o vemos chorar. O povo acredita ter voltado sua antiga fúria. Então seus servidores empreendem a fuga. Mas ele, virando o rosto inflamado para um lado e para o outro, segue apenas um entre todos: ele procura Licas. Este, abraçando o altar com sua mão trêmula (810), experimenta, só de medo, a morte, e pouco resta de si para o castigo. E enquanto, com sua mão furiosa, (Hércules) segura o cadáver: “Por esta mão, esta”, diz, “pensarão, ó destinos, que fui vencido? Licas vence Hércules. A calamidade é outra. Hércules destrói Licas (815). Sejam meus feitos manchados: seja este o meu último trabalho.” Num arremesso, Licas é atirado para os céus, e esparge as nuvens com seu sangue derramado; da mesma forma se lança contra o céu a flecha que se vê atirada pela mão do Geta (820), ou aquela que arremessa o Cidão[53]. Até esses dardos, no entanto, irão menos alto. O tronco cai no mar, a cabeça sobre os rochedos: um só corpo jaz em dois lugares ao mesmo tempo. “Resiste!”, diz: “a loucura não me tirou a razão. Este mal é mais sério do que a loucura e a cólera: agrada-me contra mim mesmo enfurecer-me”.

Tão logo identifica o mal (825), ele se enfurece. Ele próprio dilacera seus membros, e arranca grandes pedaços, separando-os com a própria mão. Tenta se despir de suas roupas. Somente isto eu vi que o próprio Hércules não podia. Tendo, no entanto, insistido em arrancá-las, ele arrancou as próprias carnes: a própria roupa é parte de seu corpo horrendo (830). A vestimenta se mistura à pele. A causa da terrível desgraça não é claramente visível, mas há, sem duvida, uma causa. Suportando com dificuldade o mal, ora lânguido, com a face debruçada, ele toca o chão (835), ora ele pede água: a água no entanto não lhe vence o mal. Ele procura a praia com o ruído das ondas, e penetra no mar. A turma dos servidores contém-no em seu caminhar errante. Ó sorte acerba! Tornamo-nos iguais a Alcides. Neste momento, um barco o retira do litoral de Eubéia (840), e o leve Austro carrega o pesado Hércules. A alma[54] deixa seu corpo. A noite lhe serra os olhos.

Dejaneira

Por que não ages, ó minha alma? Por que te paralisas? O crime foi consumado. Júpiter reivindica seu filho, Juno seu rival. Ele deve ser restituído ao universo. Exibe, pelo menos, o que é possível restituir. Que uma espada cravada trespasse o meu corpo (845). Assim, é assim que se deve fazer. Uma mão tão frágil executa um castigo tão grande? Destrói, com teus raios, sogro, esta nora celerada. Que tua mão não se muna de uma arma leve: lança do céu aquele raio, com o qual, se não tivesse, de ti, nascido Alcides (850), terias fulminado a hidra. Fere-me como a uma calamidade desgraçada insólita, e como a um mal pior do que o de uma madrasta irada. Lança um dardo semelhante ao que outrora foi lançado contra o Faetonte errante. Eu também pus a perder os povos, ao perder apenas Hércules. Por que pedes uma arma aos deuses (855)? Poupa agora teu sogro. Envergonhe-se a esposa de Alcides de implorar a morte[55]. Esta mão será uma prece mais eficiente: a morte seja buscada por mim mesma; apanha o mais rápido possível uma espada. Por que tem que ser uma espada? Qualquer coisa que leve à morte é uma arma além do suficiente: atirar-me-ei de uma pedra altíssima (860). Esta, esta que, por primeiro, recebe o dia que nasce; seja eleito o Eta, daqui me agrada atirar meu corpo. Que uma rocha abrupta me rasgue, e toda pedra arranque um pedaço de mim; que minhas laceradas mãos fiquem penduradas, e todo o flanco do escarpado monte se torne vermelho (865). Uma morte só é breve: breve? … Mas ela pode ser prolongada. Não sabes escolher, minha alma, sobre que arma te jogarás. Quem dera estivesse, oh quem dera, pendurada em meu quarto nupcial a espada de Hércules! Sobre esse ferro eu deveria morrer. Mas, morrer por uma única mão me será bastante (870)? … Juntai-vos, nações; e o mundo inteiro me lance pedras e tochas acesas; que mão alguma se abstenha agora. Apanhai as armas: eu vos roubei o vingador. A partir de agora, os reis cruéis impunemente portarão seus cetros (875), monstros invencíveis também nascerão impunemente. Os altares acostumados a receber vítimas semelhantes ao sacrificador ressurgirão. Eu abri o caminho para os crimes. Tendo-vos roubado o

justiceiro, eu vos expus aos tiranos, aos reis, aos monstros, às feras e às divindades cruéis. Tu não fazes nada, companheira do deus Troante (880)? Imitando teu irmão[56], não espalhas o fogo roubado a Júpiter, não o atiras e não me destróis tu mesma? Por mim, foi de ti roubada tua glória ilustre e teu triunfo ingente. Eu, Juno, antecipei a morte de teu rival.

Ama

Por que pões a perder tua casa abalada (885)? Tudo isso é (fruto) de um erro, mesmo que se trate de um sacrilégio. Não é culpado quem quer que, sem vontade, se torne culpado.

Dejaneira

Todo aquele que se desculpa no âmbito do destino mereceu errar: agrada-me ser punida com a morte.

Ama

Deseja parecer culpado aquele que procura morrer.

DEJANRA

A morte só torna inocentes os enganados (890).

Ama

Fugirás a Titã?

Dejaneira

O próprio Titã me foge.

 

Ama

Deixarás a vida?

Dejaneira

Uma vida infeliz, para seguir Alcides.

Ama

Ele ainda está vivo, e respira o ar dos céus.

Dejaneira

Do momento em que Hércules pôde ser vencido, a partir daí ele começou a morrer.

Ama

Abandonarás teu filho e romperás o fio de tua vida (895)?

Dejaneira

Tendo o filho sepultado não importa qual mãe, esta viveu muito tempo.

Ama

Seguirás teu homem?

Dejaneira

As castas costumam precedê-los.

Ama

Se tu própria te condenas, tu mesma te argúis de crime.

Dejaneira

Nenhum culpado pode, ele próprio, derrogar suas penas.

 

Ama

A muitos, cujo culpado fora um erro e não sua mão direita, a vida foi poupada (900): quem pode condenar seu próprio destino?

Dejaneira

Qualquer um que tenha recebido um destino iníquo.

Ama

Este mesmo (Hércules) estendeu morta Mégara trespassada por suas flechas, como seus jovens filhos (905), cravando-lhes, com sua mão furiosa, as flechas envenenadas pela hidra. Tornado triplamente parricida, ele concedeu o perdão a si mesmo, e não à loucura. Na fonte cinífia[57], sob o céu da Líbia, ele lavou seu crime e purificou sua mão direita. Para onde vais, infeliz? Por que condenas tuas próprias mãos?

Dejaneira

É Alcides derrotado (que) condena minhas mãos (910). Eu quero punir meu crime.

Ama

Se conheço Hércules, ele sairá, sem dúvida, vencedor desse mal cruento, e a dor recuará diante de teu Alcides.

Dejaneira

Essa terrível peste destruiu o corpo de meu esposo (915).

 

Ama

Conforme se diz, o veneno da hidra devorou os membros. E tu acreditas que o veneno da serpente morta não possa ser vencido por aquele que resistiu ao monstro vivo? Mesmo com o dente dela cravado, ele, vencedor, se ergueu no meio do pântano; seus membros, mesmo banhados no veneno (por ela) derramado, estrangularam a hidra. O sangue de Nesso vencerá este que venceu as próprias mãos do terrível Nesso (920)?

Dejaneira

Em vão se retém aquele que decidiu morrer: além disso, está decidido por mim que vou fugir à luz. Viveu o bastante quem morre com Alcides.

Ama

Suplicante (925), por esses cabelos senis, e por esses seios quase maternos, eis que te conjuro: afasta de teu coração ferido as ameaças desmedidas, e repele esta decisão horrível de uma morte sinistra.

Dejaneira

Quem, por acaso, dissuade de morrer a um infeliz, é ele mesmo cruel: muitas vezes, morrer é um castigo (930), mas com freqüência, é um presente; para muitos foi uma indulgência.

Ama

Defende, pelo menos, tua mão direita, infeliz. E saiba ele que o crime resultou de uma fraude, e não é de uma esposa.

Dejaneira

Eu serei defendida lá em baixo: os infernos absolverão a ré. Por mim mesma sou condenada;  que  Plutão   purifique   estas mãos (935). Estarei imémore diante de tuas margens, ó Letes, e, como uma triste sombra, receberei o meu esposo. Mas tu, que tiranizas os reinos do pólo sombrio, prepara-me o suplício. (Este meu erro ultrapassa os crimes que um qualquer tenha ousado: Juno não ousou arrebatar Hércules da terra) (940). Prepara-me um suplício horrível. Que a cabeça de Sísifo descanse e a pedra pese sobre meus ombros. Que a água inconstante me fuja e que a onda enganadora iluda minha sede. Eu mereci oferecer minhas mãos a teu turbilhão (945), ó roda que torturas o rei dos Tessálios[58]. Que um abutre faminto espicace por toda parte essas entranhas. Falta uma Danaide[59]: eu farei sua vez. Abri as portas, Manes. Recebe-me em tua companhia, esposa de Fásis474. Esta mão direita é pior (950), pior que teus dois crimes; és tanto mãe culpada, quanto irmã cruel. Acrescenta-me, como companheira, a teus crimes, esposa trácia[60]. Acolhe tua filha, minha mãe Altéia, e reconhece em mim tua verdadeira descendência (955). O que de tão grande tuas mãos já destruíram?[61] Fechai-me os Elísios, vós todas, esposas fiéis, que habitais as entranhas do bosque sagrado. Se, por outro lado, alguma manchou as mãos com o sangue de seu homem, ou, esquecida do casto himeneu, tal uma cruenta descendente de Belo[62], se ergueu de espada em punho (960), reconheça ela nas minhas, as suas próprias mãos, e as exalte. Para o meio dessa turba de esposas quero ir. Mas essa mesma turba de esposas rejeitará minhas mãos sinistras. Invencível esposo, tenho a mão criminosa, mas a alma é inocente. Ó meu espírito, crédulo demais (965)! Ó Nesso enganador! Justamente pelos ardis de um meio monstro[63], desejando afastá-lo da concubina, eu o afastei de mim. Afasta-te, ó Titã; e tu, ó vida, que conservas na doce luz os desgraçados. Para quem estará privada de Hércules, esta luz de nada vale. Eu te punirei (970), e abandonarei a vida. Ou prolongo meus dias, meu esposo, e me salvo da morte para tuas mãos? … Alguma força inda te resta … e tuas mãos armadas são capazes de retesar o arco que lançará as flechas? Ou tuas flechas não voam mais, e, tendo a mão enfraquecida, o arco não obedece a ti (975)? Se tu podes me dar a morte, ó valente esposo, eu a espero de tua mão direita. Minha morte seja adiada: quebra-me como (fizeste) ao inocente Licas. Espalha meus restos por cidades estranhas, e lança-me num mundo desconhecido de ti. Mata-me, como ao monstro da Arcádia[64](980), e como a todos os outros que te resistiram e dos quais, meu esposo, tu saíste vencedor.

Hilo

Pára agora, mãe, eu te peço. Perdoa-te essa fatalidade: teu erro é isento de culpa.

Dejaneira

Se posso esperar de ti uma verdadeira piedade, ó Hilo, mata agora tua mãe. Por que treme de pavor a tua mão (985)? Por que desvias o rosto? Este crime será um ato de piedade. Hesitas, covarde? Eu te roubei Hércules. Estas, estas mãos mataram o pai a quem tu deves o ter por avô o deus do trovão. Maior honra eu te roubei pela morte (de Hércules), do que a que lhe proporcionei, dando-te à luz. Se te é desconhecida a impiedade (990), aprende-a com tua mãe; quer escolhas mergulhar a espada em meu pescoço, quer prefiras perfurar o ventre materno, tua mãe te mostrará uma alma

intrépida. O crime não  será  praticado  por ti  somente. Eu serei abatida pela tua mão (995), mas com decisão minha. Tu temes, filho de Alcides? Então, não cumpras quaisquer tarefas mandadas, e nem erres pelo universo combatendo os monstros. Se algum monstro nascer, faz renascer teu pai. Prepara tua mão intrépida. Eis que se abre diante de ti um peito cheio de misérias: fere-o (1000). Eu perdôo teu crime: as próprias Eumênides abster-se-ão ante tua mão direita – Soou um som de açoites. Quem é esta que agita a cabeleira eriçada de serpentes e bate suas asas negras sobre as têmporas medonhas? Por que me persegues, ó cruel Megera, com tua tocha ardente (1005)? Vens pedir vingança por Alcides? Eu o vingarei. Já tomaram assento, ó deusa terrível, os juízes do inferno? Vejo abertas as portas do cárcere. Quem é esse homem já velho que carrega sobre os ombros alquebrados essa enorme pedra? Eis que a pedra já dominada (1010) começa a rolar de volta. Quem é aquele cujos membros são torturados pela roda? Eis que aqui se põe de pé a pálida e cruel Tisífone[65]. Ela me interroga. Poupa-me das pancadas, te peço; poupa-me, Megera: suspende as tochas infernais; meu crime é de amor. Mas o que é isso? A terra treme (1015) e o palácio desaba, com seu teto desmanchado. Donde vem toda essa multidão ameaçadora? O universo inteiro se atira contra mim. Daqui e dali os povos gritam de indignação, e toda a terra exige seu vingador. Agora, poupai-me, nações: para onde dirigirei, às pressas, minha fuga (1020)? Só a morte resta como porto para as desgraças minhas. Tomo por testemunha o disco flamejante do irradiante Febo! Tomo por testemunhas os deuses superiores! Eu, que vou morrer, ainda deixo na terra Hércules.

(Ela sai rapidamente de cena)

Hilo

Ela foge atônita: ai de mim! Seu papel de mãe está terminado: ela decidiu morrer (1025). Agora, sobrevém o meu papel: tirar seu ímpeto de morte. Ó desgraçado amor de filho! Se tu impedes de morrer a mãe, és criminoso junto ao pai; se, ao contrário, consentes que ela morra, tu pecas contra a mãe: de um lado e de outro, a impiedade me acua. De qualquer forma, ela deve ser impedida: é justo que lhe impeça um crime (1030). (Ele se retira após a mãe)

Coro

É verdade o que, aplicando-se à lira piéria[66], o sagrado Orfeu, filho de Calíope[67], aos pés das montanhas do Ródope Trácio, cantou (afirmando) que nada nasceu eterno (1035).  Diante dos cantos dele, cessou o ruído da torrente rápida e, esquecida de prosseguir seu curso, a água perdeu o ímpeto e, quando os rios pararam (1040), os Bistones[68]distantes julgaram que o Hebro do território dos Getas tinha desaparecido. O bosque trouxe seus pássaros, e os habitantes da mata vieram. E se, por acaso, uma ave errante percorria os ares em seu vôo, ouvidos seus cantos, ela caía desfalecida (1045). O Atos arrancou suas rochas, levando em sua marcha os Centauros, e se deteve junto ao Ródope (1050), estando a neve derretida por seus cantos; e a Dríade[69], abandonando seu carvalho, se lança na direção do vate. As próprias feras vêm com seus disfarces, para onde está a música (1055). Junto ao rebanho, sem lhe causar temor, senta-se o leão marmárico[70]. Nem as corsas tremem diante dos lobos, e a serpente abandona seu antro, esquecida de seu veneno (1060). Há mais: quando, através das portas do Tênaro[71], ferindo a lira lamentosa, ele vai para junto dos Manes silenciosos, com seu canto soturno, ele vence o Tártaro e os deuses tristes do Érebo (1065),  e  não  teme  os  lagos do Estige, ligados por juramento aos deuses superiores. A roda perpetuamente em movimento, com seu turbilhão vencido, lânguida parou. O fígado de Tício cresceu, enquanto (Orfeu) entretinha as aves com seu canto (1070). Tu também escutas, marinheiro: a barca do rio infernal desliza sem nenhuma ação dos remos. Então, pela primeira vez, esqueceu-se o velho Frígio[72] (1075), mesmo com as águas imóveis, e não zombou da violenta sede, e nem estendeu as mãos para pegar os frutos. Assim, quando Orfeu deixou os infernos, espalhando sua música (1080), a cruel pedra[73] pôde não só ser vencida, como seguir o vate. As deusas supriram novamente os fusos de Eurídice, exauridos (de vida)! Mas quando o distraído Orfeu (1085) se virou, não acreditando que Eurídice, a si restituída, o seguia, ele perdeu a recompensa de seu canto: aquela que renascera, morre de novo (1090). Então, procurando, nos cantos, o consolo, Orfeu, numa toada dolorosa, aos Getas cantou esta canção: as leis estão acima também dos deuses, e daquele que, senhor do tempo, dispôs (1095) as quatro estações do apressado ano; para ninguém as parcas apressadas deixam de tecer o destino em sua roca. Tudo o que pôde nascer, poderá morrer. Hércules vencido nos manda acreditar no vate trácio (1100). Já já, um dia virá para o universo, quando, estando aniquiladas suas leis, o pólo austral esmagará tudo o que existe nas terras líbias (1105) e tudo o que possui o Garamante[74] nômade. O pólo ártico des- truirá tudo o que existe abaixo de seu eixo,  e açoita o Bóreas  seco.  O alarmado Titã (1110), uma vez perdido o céu, fará precipitar-se o dia. O palácio celeste, em sua queda, arrastará consigo o Levante e o Poente, e, de igual maneira, algum tipo de morte atingirá os deuses nesse caos (1115). E a própria morte pronunciará contra si mesma a sentença capital. Que lugar conterá o céu? A porta do Tártaro ficará escancarada, de modo a conter todo o céu desintegrado (1120)? Ou o espaço que separa da terra as regiões celestes é bastante, é suficientemente grande para acolher as ruínas do mundo? Que lugar acolherá tamanha impiedade? Ó Deus, que lugar receberá os deuses (1125)? Que único lugar acolherá esses três reinos: o mar, o Tártaro e o

Firmamento? Mas que imenso estrondo fere meus ouvidos atônitos?  É sim, é a voz de Hércules (1130).

(Entra Hércules no auge de seu sofrimento).

 

QUARTO EPISODIO

 

 Hércules, Coro

 Hércules

Faz retroceder, ó preclaro Titã, os teus cavalos esbaforidos, e faz-nos cair a noite. Perca o universo este dia em que morro, torne-se, com uma nuvem negra, medonho o firmamento; detém os passos à madrasta. É agora, ó pai, que convém restabelecer o escuro caos, e que, daqui e dali, rompidos seus apoios (1135), ambos os pólos deveriam se quebrar. Por que poupas os astros? E perdes Hércules, pai? Agora, Júpiter, vigia todos os recantos do céu, para que nenhum Gias[75] atire as montanhas tessálicas, e para que o Ótris não se torne um fardo leve para o Encélado[76] (1140). Tão logo o soberbo Plutão tenha aberto as portas do sombrio cárcere, ele quebrará as cadeias de seu pai e lhe devolverá o céu. Eu, aquele que havia nascido para o serviço de teu raio e de teu fogo, estava na terra, e retorno ao Estige: O feroz Encélado ressurgirá (1145), e lançará contra os deuses o fardo pelo qual está contido agora. Minha morte tornará todo o reino do céu, ó pai[77], uma incerteza para ti. Antes que o céu inteiro se torne um espólio (subtraído) de ti, envolve-me, pai, na ruína total do universo, destrói o céu que perdes (1150).

Coro

Não temes em vão, descendente do deus Tonante. Então o Pélio pesará sobre o Ossa tessálico, e o Atos, colocado sobre  o Pindo, misturará seu bosque aos astros celestes. Logo, Tifeu[78] vencerá os rochedos (1155), e arrastará consigo a tirrena Inárime[79]; em seguida arrastará o fogo do Etna e rasgará a encosta da montanha aberta, o Encélado ainda não vencido por teu raio: O reino do céu vai te seguir (1160).

 Hércules

Eu, que, depois de deixar para trás a morte, tendo desprezado o Estige, atravessando o meio estagnado das águas do Letes, voltei com o espólio, diante do qual Titã quase caiu, por causa de seus cavalos disparados; eu, a quem experimentaram os três reinos dos deuses, morro, e nenhuma espada range perpassando meu lado (1165), e a arma de minha morte não é um rochedo, nem uma pedra de peso igual ao de uma montanha escarpada, ou ao do Ótris inteiro; nenhum gigante de fauce feroz enterrou meu cadáver sob o Pindo inteiro (1170). Sou vencido sem inimigo, e o que mais me atormenta, (ó valor desgraçado!) o último dia de Alcides não deitou por terra nenhum monstro; não uso minha vida, ai de mim, para façanha alguma. Ó árbitro do mundo, ó deuses outrora testemunhas das obras de minha mão direita, ó terra inteira, agrada-vos que a morte de vosso Hércules se perca (1175)? Ó vergonha terrível para nós! Ó desonroso destino! Uma mulher será propalada como autora da morte de Hércules: este Alcides causador (da morte) a tantos. Se o destino inflexível queria que eu morresse pela mão de uma mulher, e se minha morte perpassou tão torpes fusos (1180), eu poderia ter caído, ai de mim, pelo ódio de Juno: teria caído pela mão de uma mulher, mas pela mão de quem possui o céu. Se isso fosse demais, ó deuses, que a Amazona (1185), nascida sob o céu da Cítia, subjugasse minhas forças; – pela mão de que mulher sou vencido eu, o inimigo de Juno! A partir desse fato, tens, madrasta, a desonra mais grave. Por que chamas de feliz a este dia? Que semelhante ser a terra gerou algum dia para tua ira? Uma mulher mortal te superou no ódio. Até agora admitias estar abaixo de Alcides (1190): és suplantada por dois. Envergonhem-se os deuses de sua cólera. Oxalá o monstro de Neméia tivesse saciado suas fauces com meu sangue ou, cercado por suas cem víboras, com meu sangue putrefato, eu sucumbisse ante a hidra! Oxalá tivesse sido dado como presa aos Centauros (1195). Oxalá eu, vencido entre as sombras, permanecesse infeliz atado eternamente a um rochedo, quando, eu arranquei à morte estupefata seus espólios mais longínquos. Assim, pois, do Estige infernal, eu recuperei a luz, triunfei dos obstáculos de Plutão, por toda parte em que a morte me fugia (1200), para ficar privado de uma morte (própria) de uma sorte ilustre. Ó monstros, vencidos monstros! Tendo visto a luz do sol, o cão triforme não me reconduziu ao Estige. Sob o céu de Hespéria, não me venceu a turba ibera do pastor feroz, nem as duas serpentes (me venceram) (1205). Quantas vezes perdi uma morte honrosa, ai de mim: qual será meu título derradeiro?

Coro

Vede como seu valor, cônscio de sua glória, não se assusta com as ondas do Letes? Ele se envergonha do autor da morte; a morte mesma não o faz sofrer. Ele arde em desejo de encerrar seu último dia (1210) esmagado sob a imensa mole de um gigante enorme, e de sofrer os golpes de um titã armado de montanhas, e de dever sua morte a um monstro furioso. Mas é tua mão, infeliz, a causa (de tua morte), porque não existe mais monstro nenhum e nenhum gigante (1215). Afinal, que força ainda sobre-existe, capaz de matar Hércules, senão tua própria mão?

 

 Hércules

Oh! Que escorpião se instalou dentro de mim, que câncer, arrancado de sua zona tórrida, incrustado fundo, queima minhas entranhas? Meu fígado, outrora cheio de sangue (1220), distende as fibras calcinadas de meu pulmão inchado. Com seu fel ressecado, meu fígado arde, e um lento vapor exaure todo o meu sangue. Primeiramente consumiu minha pele, daí o flagelo fez uma incursão nefasta dentro de meu corpo, e a peste destruiu meu flanco (1225). O mal devorou meus membros até o fundo e minhas costelas; absorveu minhas entranhas, e se assenta em meus ossos vazios; e os próprios ossos não resistem, mas, com as juntas rompidas, desfazem-se numa massa informe. Meu corpo imenso definha; e os membros de Hércules não são suficientes para esta peste (1230). Oh! Quão grande é este mal para que eu possa julgar sua extensão, ó calamidade terrível! Eis, observai, ó povos, o que resta daquele Hércules. Reconheces teu Hércules, pai (1235)? Foi com estes braços, que eu estrangulei o pescoço sufocado do monstro de Neméia? Retesado por estas mãos, meu arco derrubou dos astros mesmos as aves de Estinfalo? Com estes pés, eu venci, na corrida, o monstro veloz que sustenta uma cabeça famosa por sua fronte radiante[80]? Com a força destas mãos, a Calpe abriu passagem para o mar[81] (1240)? É graças a estas mãos que tantos monstros, tantos criminosos, tantos tiranos jazem por terra? Sobre estes ombros, se apoiou o universo? Esta é a grandeza de meu corpo? Esta é aquela nuca? Estas mãos é que eu contrapus ao céu que caía? Que guardião do Estige será, doravante, arrastado por minha mão? Onde estão minhas forças? Sepultadas antes de mim (1245)? Por que chamo de pai a Júpiter? Por que, desgraçado, reivindico o céu por intermédio do Tonante? De agora em diante, se acreditará ser meu pai Anfitrião. Monstro, não importa quem tu sejas, que te escondes em minhas entranhas, mostra-te! Por que me atinges com este ferimento oculto (1250)? Que mar da Cítia sob o pólo gelado, que preguiçosa Tétis te engendrou? Ou, que ibera Calpe que comprime o litoral da Mauritânia? Ó mal cruel! Acaso és uma serpente horrível que vibra a cabeça encimada por uma crista? Ou és algum mal desconhecido de mim (1255)? Ou, quem sabe, foste gerado do sangue do monstro de Lerna? Ou foi o cão do Estige que te deixou na terra? És todo mal e não és nenhum. Que cara tu tens? Concede-me, pelo menos, saber de que mal eu morro. Qualquer monstro, ou qualquer fera que tu sejas (1260), face a face, tu temerias. Quem te ofereceu um lugar no interior de minhas entranhas? Eis que arrancada minha pele, minha mão pôs a nu minhas vísceras, mas um esconderijo mais profundo foi achado. Ó mal semelhante a Hércules! De onde vem este lamento? De onde vêm as lágrimas para estes olhos (1265)? Meu rosto outrora invicto e jamais acostumado a oferecer lágrimas às suas desgraças – envergonho-me! – aprendeu agora a chorar. Que dia, que terra viu alguma vez o choro de Hércules? Sem lágrimas, suportei minhas desventuras. Diante de ti somente, cedeu aquela força que venceu tantos males (1270), ó monstro, que por primeiro e antes de qualquer outro, me arrancaste o choro. Meu rosto, mais duro do que a pedra escarpada, do que o aço, e do que a Simplégade[82] errante, abateu minha expressão e me fez correrem as lágrimas. Ó supremo condutor do universo, a terra me viu chorando e gemendo (1275), e – o que me atormenta ainda mais – a madrasta também o viu. Eis que se incendeiam novamente minhas entranhas, e se aviva o calor. De onde (conseguir) neste momento um raio para mim?

 

Coro

O que não pode a dor vencer? Ele, outrora mais duro do que o Hemo Gético[83] (1280) e tão inflexível quanto o pólo Parrásio[84], abandonou seus membros à violência da dor; e, agitando, com o pescoço, sua cabeça fatigada, ele vira, sob seu peso, de lado alternadamente. Algumas vezes, sua força engole o pranto (1285). Assim o Titã não ousa derreter as neves árticas, com seu raio ainda tépido; e a brancura glacial vence os raios do potente sol.

 

 Hércules

Volta teus olhos para os meus infortúnios, pai (1290). Alcides nunca recorreu a tuas mãos, nem mesmo quando a hidra enlaçava seus membros com sua cabeça fecunda[85]. Aprisionado, no meio dos lagos infernais, pela negra noite, quando me defrontei com o Destino, não te invoquei. Venci tantos monstros horríveis (1295), reis, tiranos, e nem sequer voltei meu rosto para os astros: estas mãos se responsabilizaram sempre por minha decisão. Nenhum raio brilhou jamais, por causa de mim, no céu sagrado. Este dia me manda pedir alguma coisa. Seja ele o primeiro e também o último a ouvir minhas súplicas (1300): peço-te tão somente um raio; considera-me um gigante – não menos do que eles, eu pude reivindicar para mim o céu – enquanto te julgo meu verdadeiro pai, e que eu respeitei o céu. Se és cruel, pai, ou se és compassivo, estende tua mão ao filho (1305), apressando-lhe a morte, e assegura para ti esta glória. Se, no entanto, te desagrada isso, e tua mão rejeita uma impiedade,  manda, contra mim, do monte Siciliano, os ardentes titãs. Que, em suas mãos, carreguem o Pindo ou o Ossa, e eles me esmaguem, ao atirar-me uma montanha (1310). Que Belona, com sua espada desembainhada, rompa as barreiras do Érebo e me ataque. Envia o feroz Gradivo[86], e que ele se arme, terrível, contra mim: ele é, de certo, meu irmão, mas a partir da madrasta. Tu também, irmã de Alcides, tão somente da parte do pai, atira tua lança contra teu irmão, Palas (1315). A ti estendo, madrasta, minhas mãos suplicantes: atira pelo menos, te peço, um dardo (eu posso morrer pela mão de uma mulher[87]). Já apaziguada, já saciada – por que alimentas ameaças? O que pretendes mais? Tu vês Alcides suplicante (1320); ora, nenhuma terra, nenhum monstro me viu implorando-te. Agora me é necessária – é claro – uma madrasta irada. E agora, teu ressentimento cessa? Agora tu depões ó ódio? Tu me poupas quando meu desejo é de morrer. Ó terra, ó cidades, ninguém trará para Hércules uma tocha? Nem armas

(1325)? Tu me subtraíste os dardos? Assim, nenhuma terra conceba monstros cruéis depois de meu sepultamento, e que jamais o mundo implore (pelas) mãos de Hércules. Se quaisquer monstros vierem a nascer, que nasça (também) um deus. Imolai minha desventurada cabeça com pedras de toda parte (1330). Vencei minhas tribulações. Ficas parado, mundo ingrato? Já não existo para ti? Estarias ainda dominado por monstros e feras, se não me tivesses concebido. Livrai de seus males vosso vingador, ó povos: esta ocasião vos é dada (1335) para recompensar meus méritos:

minha morte será a paga de tudo.

Alcmena

Que terras procurarei eu, a infeliz mãe de Alcides? Onde está meu filho? Onde está?

 

 Hércules

Uma túnica deu acesso aos venenos dessa mulher.

Alcmena

Onde está essa túnica? Eu vejo teus membros desnudados.

 Hércules

Foi consumida comigo.

Alcmena

Encontrou ela uma peste tão pavorosa?

 Hércules

Acredita, mãe, que a hidra de Lerna erra pelo interior de minhas entranhas e, com ela, mil monstros (1360). Que tão potente chama corta as nuvens da Sicília? Que ardente Lemnos? Que região do céu ignífero impedidora da passagem do dia em seu espaço ardente? Atirai-me no mesmo mar, companheiros meus, e no meio dos rios: que Istro me é suficiente (1365)? Nem o oceano, ele próprio maior do que as terras, mitigará meu abrasamento. Todo o elemento líquido será pouco nestes tormentos meus. Toda a água secará. Por que, senhor do Érebo, me devolveste a Júpiter? Devias terme retido: reconduz-me a tuas trevas (1370). Mostra o Hércules neste estado, aos infernos (por ele) vencidos. Nada trarei daí; por que temes de novo a Hércules? Ataca-me, sem receio, morte: agora posso morrer.

Alcmena

Contém,          pelo     menos,            as         lágrimas,         e venceessas calamidades, e restitui-nos o Hércules invencível diante de tão (1375) grandes males, e suspende a morte: vence o inferno, como costumas.

 Hércules

Se o horrendo Cáucaso me oferecesse, preso em suas cadeias, como alimento, à ave voraz, mesmo que gemesse a Cítia, nem um frágil gemido me escaparia. Se as Simplégades errantes me prensassem entre os dois rochedos (1380), eu, intrépido, enfrentaria os choques de suas idas e vindas. Caia sobre mim o Pindo e também o Hemos, e o Atos que rompe as ondas do mar da Trácia, e o Mimante, que quebra o raio de Júpiter. Nem mesmo se o próprio firmamento, mãe, caísse sobre mim (1385), e o carro de Febo explodisse em chamas sobre meus músculos, um clamor indigno subjugaria a vontade de Hércules. Que se lancem mil feras e (me) dilacerem ao mesmo tempo; que de um lado se lancem, com seus gritos selvagens, as aves de Estinfalo; e que do outro, com toda (a força de) seu pescoço, me ataque o touro ameaçador (1390), e tudo o que, separadamente, é também temível; que surja daqui e dali um bosque, e que o cruel Sínis[88]arranque meus membros: ao ser esquartejado, manterei silêncio – nem os monstros nem as armas me arrancarão gemidos, nem qualquer coisa que possa ser lançada contra mim (1395).

Alcmena

O veneno da mulher, meu filho, não consome teus membros, mas a dura série de tuas obras e teu prolongado trabalho (é que) talvez alimentaram essas enfermidades sangrentas.

 

 Hércules

Onde a doença? Onde está ela? Há ainda no mundo algo de mau (coexistindo) comigo? Que ele venha; alguém me traga o arco até aqui (1400): a mão desarmada me bastará: Vamos! Vem logo até aqui. (Ele cai numa tristeza profunda).

Alcmena

Ai de mim. Com seu choque, a dor excessiva arrancou-lhe também os sentidos. (Às acompanhantes) Afastai, peço-vos, seus dardos, e tirai daqui, imploro, suas flechas mortíferas: ruborizadas pelo fogo, suas faces ameaçam um crime (1405). Que refúgio procurarei eu, uma anciã? Essa dor é a loucura: o único (mal) capaz de dominar Hércules. Por que ainda eu, insensata, procurarei esconderijo ou fuga? Alcmena mereceu morrer por um braço forte: ou melhor, pereça ela por um crime, antes que algum covarde me cause a morte (1410), e uma mão indigna triunfe sobre mim. Eis que, um torpor aperta suas veias enfraquecidas pelos males e cansadas pela dor, e seu peito ofegante se agita com um movimento pesado. Sede propícios, deuses. Se a mim, infeliz, recusastes o filho ilustre (1415), pelo menos, vos suplico, conservai na terra seu vingador. Desapareça a dor, expulsa, e o corpo de Hércules recupere suas forças!

Hilo

Ó luz amarga, dia cheio de crimes! A nora do Tonante morreu, seu filho jaz no solo (1420) e eu, seu neto, sobrevivo. Este perece pelo crime de minha mãe. E ela foi presa de uma fraude. Que ancião, através do impacto dosanos e numa vida inteira, poderá experimentar tão grandes infortúnios? Um só dia me arrebatou ambos os pais. E para me silenciar sobre outros males (1425), e para me conter quanto ao destino, perco meu pai, que é Hércules.

Alcmena

Domina tuas palavras, ilustre descendente de Alcides e neto de Alcmena, e, quanto ao destino, semelhante a essa infortunada: talvez um longo sono vencerá a dor de Hércules. Mas, eis que a quietude abandona sua alma (1430) enfraquecida, entrega seu corpo à enfermidade e a mim a aflição.

 Hércules (Acordando em delírio)

Que é isto? Vê-se Traquine sobre o rochedo escarpado; ou eu, situado em meio aos astros, libertei-me enfim do gênero mortal? Quem me prepara o céu? Já te vejo, já te vejo, pai, contemplo também a madrasta pacificada (1436). Que som celeste toca meus ouvidos? Juno me chama de seu genro[89]. Eu vejo o resplandecente palácio do luminso éter, e a região desgastada pela roda de Febo. Vejo a morada da noite; daí saem as trevas (1440). (Começando a sair do delírio) Que é isto? Quem fecha, pai, a cidadela celeste e me faz sair dos mesmos astros? Agora há pouco, o carro de Febo bafejava meu rosto: tão perto do céu estive. – Vejo Traquine! Quem me devolveu à terra? Imediatamente, o Eta se descortinara abaixo de mim, e abaixo de mim o mundo inteiro se apresentou (1445). Quão prazerosamente te afastaras, dor! Tu me obrigas a confessá-lo: pára, e guarda esta revelação. (A Hilo) Vês, Hilo: os presentes de tua mãe resultaram nestas dádivas. Oxalá me fosse possível, com um golpe de minha maça, destruir-lhe  impiedosamente  a vida, como eu subjuguei a monstruosa Amazona (1450) perto dos flancos do nevoso Cáucaso. Ó querida Mégara, eras tu a minha esposa, quando eu estava enfurecido? Dai-me a maça e o arco. Seja maculada minha mão direita: imprima eu uma mancha em minha honra: seja escolhida a morte de uma mulher como o último trabalho de Hércules (1455).

Hilo

Contém, pai, as terríveis ameaças de tua ira. Ela está vencida! Acabou-se. Os castigos que reclamas, ela já os sofreu. Trespassada por sua mão, minha mãe está morta.

 Hércules

Ela morreu dolosamente: ela merecia morrer pelas mãos do irado Hércules. Licas perdeu uma companheira (1460). A enfurecer-me contra seu corpo, mesmo inanimado, obrigam-me o ímpeto e a ira. Por que seu próprio cadáver escapa a minhas ameaças? Que as feras o recebam como pasto.

Hilo

A infeliz sofreu mais do que fez sofrer. Quererias, desse fato, arrancar também algum merecimento? Ela morreu de sua própria mão, mas também de tua dor (1465). Ela sofreu mais castigos do que reclamas. Mas não jazes aí por causa de crimes de uma esposa sanguinária, nem pela traição de minha mãe: Nesso, que perdeu a vida ferido por tuas flechas, construiu esses ardis. A túnica foi tingida pelo sangue dessa semi-fera, pai (1470). E Nesso te inflige agora esta vingança.

 Hércules

Estou vencido. Está tudo acabado. Meu destino se torna claro. Esta é a última luz. Ocarvalho[90] fatídico, certa vez, me previra esta sorte, e, no Parnaso, o bosque, sacudindo o templo de Cirra506 com seu mugido (proclamou) (1475): “Vitorioso, ó Alcides, um dia jazerás pela mão do homem aniquilado. Esse fim derradeiro te está reservado, quando tiveres percorrido os mares, a terra e os infernos”. Nada mais eu lamento: a mim se deveu dar este fim, para que nenhum vencedor de Hércules lhe sobrevivesse (1480). Seja escolhida agora uma morte ilustre, memorável, célebre, perfeitamente digna de mim. Tornarei famoso este dia. Que se corte toda esta floresta, e que o bosque do Eta seja amontoado: uma grande pira receba Hércules, mas antes de sua morte. (A Filoctetes) Tu, jovem da estirpe de Peante[91] (1485), executa para mim este triste ofício. Que a chama de Hércules arda durante o dia inteiro. (A Hilo) A ti, Hilo, dirijo agora meus últimos pedidos. Há, entre as cativas, uma jovem ilustre, que mostra no rosto sua raça e sua realeza: Iole, filha de Êurito (1490). Toma-a para tuas núpcias e himeneu. Vencedor sanguinário, eu lhe suprimi a pátria, seus penates, sem nada oferecer à infeliz, senão o próprio Alcides: e este mesmo agora lhe é arrebatado. Que ela compense seus infortúnios, estreite-a em seus braços o neto de Júpiter e filho de Hércules (1495); que ela gere para ti o que ela concebeu de mim. (A Alcmena) E tu também, deixa teus prantos fúnebres, suplico, ilustre mãe: para ti, Alcides vive. Graças a meu valor, consegui que tua rival seja tida por madrasta. Quer, no nascimento de Hércules (1500), aquela noite tenha sido prolongada, quer meu pai seja um mortal; – mesmo que seja falsa minha linhagem, cesse a culpa de minha mãe, bem como o crime de Júpiter eu mereci ter Júpiter como pai: eu proporcionei honra ao céu, e minha mãe concebeu-me para glória de Júpiter (1505). E o que é mais: o próprio deus, ainda que Júpiter, se alegra por ser considerado meu pai: contém logo as lágrimas, mãe. Tu serás gloriosa entre as mães argólicas. Juno, que porta o cetro celeste, e é esposa do Tonante, gerou alguém assim? Não obstante seres uma mortal, a rainha do céu teve inveja de ti (1510): desejou que Alcides fosse chamado seu filho. Agora, segue sozinho o teu caminho, Titã. Aquele que foi teu companheiro por toda parte, vou para o Tártaro e para os manes (1515). Lá para baixo, levarei, no entanto, esta glória insigne: a de que nenhum monstro venceu Alcides às claras, e a de que todo monstro Alcides venceu, às claras. ( Ele sai na direção da pira que lhe fora preparada).

 

Coro

Ornamento do mundo, ó radiante Titã, ante cujos primeiros raios, Hécate alivia as bocas fatigadas de sua biga noturna (1520), diz aos Sabeus que vivem sob a Aurora, diz aos Iberos que habitam o Ocaso, e aos que sofrem sob o carro da Ursa, e aos que são fustigados pelo carro abrasador (1525), diz que Hércules se precipita para os manes eternos e para o reino do cão vigilante, de onde nunca mais voltará. Então as nuvens sigam os cavalos velozes. Pálido, contempla a terra entristecida, e sombras disformes flutuem diante de tua cabeça (1530). Quando, ó Titã, onde, sob que céu seguirás na terra um outro Hércules? Que mãos este universo infeliz invocará, se, sob o pântano de Lerna, alguma peste multiforme espalhar sua fúria com suas cem serpentes (1535); se algum javali[92] tornar ameaçadoras aos antigos povos da Arcádia, suas florestas; se algum filho do Ródope trácio mais duro do que as terras da nevada Hélice[93] espargir novamente com sangue humano a estrebaria[94] (1540)? Quem devolverá a paz ao povo amedrontado, se os deuses irados ordenarem que (algum monstro) nasça no universo? Sucumbe de forma igual a todos aquele que a terra gerou igual ao Tonante. Que o pranto retumbe através de todas as cidades sem fim (1545), e as mulheres, com seus cabelos livres de qualquer amarra, firam suas espáduas nuas, e, excluídos os templos dos (demais) deuses, somente os templos da madrasta tranqüila permaneçam abertos. Tu vais para o Letes e para as margens do Estige (1550) donde nenhum navio te transportará; infeliz, vais para os  manes, de onde, após venceres a morte, conquistaras o triunfo: chegarás como uma sombra, com seus músculos descarnados, o rosto lânguido, e o pescoço débil (1555); e não transportará somente a ti aquela barca. Não obstante, não serás um (homem) vulgar entre as sombras: entre Éaco e os gêmeos cretenses[95], julgando as ações, abaterás os tiranos. Sede clementes, ó grandes, contende vossas mãos (1560). Digno de louvor é teres mantido limpa a espada, e, quando reinavas, teres minimamente tolerado as mortes violentas contra tuas cidades. Mas a virtude tem seu lugar entre os astros. Terás um lugar na morada do Ártico (1565), ou onde o grave Titã expõe o seu calor? Ou brilharás sob o poente morno, de onde ouvirás Calpe ressoar no encontro dos mares? Que regiões do céu tranqüilo submergirás[96]? Qual será, por ter recebido Alcides (1570), o lugar seguro entre os astros? Que teu pai te dê, pelo menos, um lugar distante do Leão horrível e do ardente Câncer, para que os céus assustados diante de tua presença, não perturbem suas leis, e nem o Titã trepide (1575). Enquanto vierem as flores com a primavera morna, ou enquanto os invernos cortarem as comas às florestas, ou enquanto o verão chamar de volta às florestas sua coma, e os frutos cessarem ao fugir o outono, o tempo jamais te apagará da terra (1580). Companheiro de Febo, como companheiro segui-lo-ás para os astros. Nascerá seara no fundo do mar, ou o mar ressonará com água doce; descerá a constelação da Ursa Glacial e gozará do mar proibido (1585), antes que os povos esqueçam tuas glórias. A ti, pai da natureza, os infelizes te suplicamos: não nasça nenhum monstro, nenhuma desgraça, não se horrorize a miserável terra com chefes cruéis. Nenhum palácio seja governado (1590) por alguém que julgue ser a única glória do reino, manter a espada sempre no ar. Se de novo algo vier a ser temido na terra, pedimos um  vingador para essa terra abandonada. Ei! Que é isto? O céu ressoa. Eis que ele geme (1595), geme o pai de Alcides; ou é o clamor dos deuses, ou a voz da temerosa madrasta, e, à vista de Hércules, Juno foge do firmamento? Ou é Atlas que, sofrendo seu peso, vacilou? Ou os manes terríveis tremeram ainda mais (1600) diante de Hércules, e o cão dos infernos, quebradas as cadeias, fugiu assustado ante a visão (de Hércules)? Enganamo-nos: eis que, com uma expressão alegre, surge aquele que Peante gerou e traz sobre os ombros as flechas e a aljava famosa junto ao povo (1605): o herdeiro de Hércules.

 

QUINTO EPISÓDIO

 

Filoctetes ou MENSAGEIRO, Coro

Coro

Narra-nos, jovem, te pedimos, os sofrimentos de Hércules, e com que disposição Alcides enfrentou a morte.

Filoctetes

Com aquela com que ninguém (enfrentou) a vida.

Coro

Ele se lançou, portanto, com alegria, sobre as últimas chamas?

Filoctetes

Ele demonstrou que as chamas já não são nada (1610). O que, sob este céu, Hércules terrivelmente deixou sem ser vencido? Eis que tudo está dominado.

Coro

Entre as chamas, que lugar coube ao homem corajoso?

Filoctetes

Único mal que ele ainda não tinha vencido sobre a terra, o fogo foi (finalmente) vencido; este também ele somou aos monstros (1615): o fogo contou-se entre os trabalhos de Hércules.

 

Coro

Dize, portanto, de que modo as chamas foram vencidas.

Filoctetes

Logo que todo o nosso triste grupo chega ao monte Eta, derrubada por este aqui, uma faia perde sua sombra, e jaz por terra com seu tronco inteiro. Um outro abate impetuosamente um pinho (1620) que ameaçava os astros, e o busca do meio das nuvens: em sua queda, ele abala os rochedos e arrasta consigo a vegetação menor. Um carvalho de Caônia, muitas vezes loquaz[97], se ergue a grande altura e impede a luz de Febo (1625), e estende completamente seus ramos sobre todo o bosque. Ele geme ameaçador, muito atingido pelos ferimentos, e quebra as cunhas; o ferro, brandido contra ele, é repelido, e a ferramenta sofre o ferimento e foge ao tronco. Abatido enfim, enquanto cai, produziu grande destruição. Imediatamente, todo o lugar recebe os raios do sol (1630). Expulsas de suas moradas, e com o bosque destruído, as aves revoluteiam na luz, e, gárrulas, com asas fatigadas, procuram suas casas. Já todas as árvores haviam rugido, e os próprios carvalhos sagrados haviam sentido, no ferro, a mão terrível, e o antigo prestígio não foi proveitoso a qualquer árvore. Toda a floresta é amontoada, e seus troncos alternados elevam até os astros, para Hércules, a augusta pira: o pinheiro que fará nascer as chamas, o duro carvalho e a menor azinheira. Uma árvore de choupo (1640) branco, ornamento da fronte de Hércules, completa a pira. Quanto a ele, como um leão imenso sob o bosque nasamão[98] muge deitado sobre o peito  ferido, ele se deixa transportar:  quem  acreditaria  que ele era carregado para as chamas? Seu rosto era de quem se dirigia aos astros, não ao fogo (1645). Logo que pôs seu peso sobre o Eta, com seus olhos, ele examinou toda a pira. Depositado ali, ele esmagou a lenha. Pediu seu arco: “recebe estas dádivas”, diz ele, ó filho de Peante, toma este legado de Alcides”. Estas (flechas), a hidra provou; com elas sucumbiram as aves de Estinfalo (1650) e todos os outros monstros que eu venci à distância. Jovem feliz por sua coragem, jamais atirarás em vão estas (armas) contra o inimigo. Mesmo que do meio das nuvens quiseres derrubar as aves, elas descerão (1655), e as presas choverão do céu com teus dardos certeiros. Este arco jamais enganará tua mão direita. Ele aprendeu a equilibrar o dardo, e a dar a direção certa a suas flechas. Os próprios dardos, uma vez lançadas pela corda, não erram o percurso. Tu, peço-te, somente prepara-me o fogo e a tocha final (1660). “Esta clava”, diz ele, “que mão alguma segurou, arda comigo em meio às chamas. Somente esta arma seguirá a

Hércules. Esta também tu receberias”, diz ele, “se a pudesses carregar. Que ela engrosse a pira de seu dono”. Em seguida, pede que os horríveis despojos do monstro de Neméia ardam com ele (1665). E a pira desapareceu sob os despojos. Toda a nossa turba gemeu, e a nenhum, sua dor poupou das lágrimas. Sua mãe, louca de sofrimento, abre seu peito sôfrego e fere, com grandes golpes, seus seios desnudados até o ventre (1670). E acusando, com seus gritos, os deuses superiores, e até o próprio Júpiter, encheu todo o lugar com seu grito de mulher: “Tornas indigna, mãe, a morte de Hércules; contém tuas lágrimas”, diz ele, “que essa dor de mulher aconteça dentro de ti mesma; por que, com teu choro, proporcionas a Juno um dia feliz (1675)? Ela se alegra ao ver as lágrimas da rival. Domina teu coração ferido, mãe: é ímpio macerar teus seios e o ventre que me gerou.” E rugindo de um modo terrível, como quando  conduziu (1680),  pela   cidade  de  Argos,  o  Cão infernal e voltou vencedor do Érebo, diante do próprio Dite[99] desprezado, e da morte trêmula, deitou-se sobre a fogueira. Quem, vencedor, em seu carro ficou, dessa maneira, de pé, alegre e triunfante? Que tirano ditou leis aos povos com aquela expressão? Quanta paz lhe trouxe a morte (1685)! Nossas lágrimas se estancaram, a dor caiu vencida, até nossa própria dor; e ninguém chorou pelo que ia morrer: chorar agora já é uma vergonha: aquela mesma cujo sexo manda chorar, Alcmena, com suas faces enxutas, mantém-se de pé, como mãe já quase igual ao filho (1690).

Coro

Aquele que ia arder no fogo nenhuma prece dirigiu aos deuses, ou não elevou a Júpiter seus olhos suplicantes?

Filoctetes

Ele permaneceu estendido, seguro de si, e, observando o céu, procurou, com os olhos, (para ver) se de algum lugar o pai o contemplava. Logo, estendendo as mãos, ele diz (1695): “De qualquer lugar donde observas teu filho, ó pai, eu te imploro, a ti, para quem, com uma noite a outra reunida, um único dia suprimiu-se. Se cantam minhas glórias ambas as costas de Febo, e a raça dos Citas, e toda a região que o sol ardente tosta (1700); se a terra está plena de paz; se nenhuma cidade geme, e ninguém mancha impiamente os altares; se não há mais crimes, recebe entre os astros, eu te peço, este meu espírito. Nem  a morada da morte infernal, nem os reinos sinistros do Júpiter tenebroso me aterrorizam (1705). No entanto, eu me envergonho de ir como sombra, para junto daqueles deuses que eu venci, ó pai. Dissipadas as nuvens, clareia o dia, para que o olhar dos deuses veja teu Hercules ardente. Ainda que tu me negues os astros e o firmamento, para um dos dois lugares serás obrigado a me levar. Se a dor me arrancar algum gemido (1710), abre-me então os pântanos do Estige e entrega-me novamente à morte; antes disso, submete teu filho à prova: este dia fará com que eu me mostre digno do céu. Tudo o que foi feito antes é de pequena importância. É este dia, ó pai, que será, ou a consagração, ou a condenação de Hércules. Depois que disse estas palavras (1715): “a madrasta veja como eu suportei as chamas”, ele pediu as chamas. “Agora age, companheiro de Alcides, depressa”, diz, “agarra a tocha do Eta. Por que treme tua mão direita? Acaso tua mão temerosa foge de um crime ímpio? Devolve-me imediatamente a aljava (1720), covarde, incapaz, inútil; é essa a mão que deve retesar meu arco? Por que se assenta a palidez em tuas faces? Lança-te sobre o facho com coragem, com a expressão com que vês jazer Alcides. Contempla, infeliz, aquele que vai arder. Eis que o genitor já me chama e me abre os céus (1725). Estou indo, pai.” E seu porte não era o mesmo: com minha mão tremente, introduzi (na pira) o pinho em chamas. Recua o fogo, e as chamas relutam e evitam seus membros, mas o próprio Hércules persegue o fogo que lhe foge. Acreditarias que o Cáucaso, ou o Pindo, ou o Atos (1730) ardiam em chamas: nenhum som irrompe, tão somente o fogo geme. Ó coração invencível. O horrendo Tífon, posto sobre aquela pira, teria gemido ele próprio, e aquele que pôs sobre os ombros o Ossa arrancado (do chão), o feroz Encélado (1735). Aquele, por sua vez, levantando-se no meio das chamas, semi-queimado e (todo) lanhado, diz, lançando  um  olhar  intrépido: “Agora és mãe de Hércules: assim te convém estares firme junto à fogueira, mãe”, diz ele, “assim convém que se chore Hércules”. Posto no meio das labaredas e das ameaças da chama (1740), imóvel, inabalável, não torcendo para lado algum seus membros calcinados, ele exorta, ele aconselha; faz algo aquele que arde. Ergue frente a todos os seus servidores sua alma forte, de modo que julgarias que aquele que ardia em fogo é que queimava (o fogo). Todo o povo fica estupefato. Parecia incrível haver fogo ali (1745), tão tranqüila estava sua face, tal majestade tinha aquele homem: ele não tem pressa de ser consumido; e quando pensou que o alcançado já era suficiente para uma morte virtuosa”, ele reúne daqui e dali os troncos inflamados, em que a menor labareda crepita (1750), e os volta todos para o fogo. Intrépido e indomável, busca aqueles donde transborda o fogo mais intenso. Em seguida, cobre seu rosto com as chamas, e luzem suas espessas barbas; e quando o fogo ameaçador já tinha alcançado seu rosto, e as chamas já tinham lambido sua cabeça, ele nem fechou os olhos (1755). Mas o que é isso? Vejo sua mãe carregando no regaço os restos do grande Hércules; e, deixando cair seus cabelos desalinhados, Alcmena geme.  (Entra Alcmena carregando em seu colo uma urna funerária)

Alcmena

Temei, ó deuses, o destino: (levantando a urna) tão poucas cinzas são as de Hércules! Nisto, nisto, acabou aquele gigante! Que massa enorme, ó Titã, se reduz a nada (1760). Meu seio de velha, ai de mim, recolhe Alcides. Este é o túmulo dele: eis que Hércules mal preencheu a urna inteira; quão leve é para mim o peso deste sobre quem o céu inteiro descansou como um fardo leve. Tu ias outrora ao Tártaro e aos reinos inferiores como alguém que voltaria (1765): Quando retornarás novamente do Estige infernal? Não digo que deves, novamente, trazer troféus[100], e nem que Teseu, de volta, te deva a luz: – Mas quando voltarás daí sozinho? O mundo, pesando sobre ti, reterá tua sombra? E o cão do Tártaro poderá impedir a tua volta (1770)? Quando baterás às portas de Tênaros, ou a que gargantas por onde se atinge a morte, me dirigirei eu, tua mãe? Tu vais para os manes, com caminho só de ida? Por que gasto meu dia em queixas? Por que continuas, vida infeliz? Por que te agarras à luz (1775)? Que outro Hércules posso de novo gerar para Júpiter? Que filho tão notável me chamará, a mim, Alcmena, de sua mãe? Ó felicíssimo, meu felicíssimo esposo tebano[101], entraste nas regiões do Tártaro, quando teu filho estava no auge de sua glória. E os infernos certamente temeram a ti que chegavas (1780), tão somente porque eras pai de Hércules, mesmo que o fosses falsamente. Que países procurarei eu, já velha, odiada por reis cruéis (se é que algum rei cruel ainda restou), ai de mim! Qualquer filho que chora seus pais eliminados (1785) buscará vingança em mim, todos se lançarão sobre mim. Se qualquer pequeno Busíris[102], ou qualquer pequeno Anteu aterrorizarem a região da terra ardente, serei eu a conduzida como presa. Se qualquer habitante do Ísmaro vingar os rebanhos do sanguinário Trácio519, esses cruéis rebanhos despedaçarão meus membros (1790). Talvez a irada Juno me buscará castigos: toda sua mágoa se inflamará. Segura, pois, ela está livre do Alcides vencido, e a rival continua viva. Oh! Quantos suplícios ela me infligirá, para que eu não  possa  dar à luz! Este filho tornou temível o meu ventre (1795. Que refúgios procurarei eu, Alcmena? Que lugar, que região, que paragem do universo me defenderá? Ou para que esconderijo me conduzirei, mãe conhecida por toda parte por causa de ti? Se me dirigir para minha pátria e para meus lares infelizes? Euristeu é senhor de Argos (1800). Procurarei Tebas e

Ísmaro[103], reinos de meu esposo, e nosso leito nupcial em que, preferida, vi um dia a Júpiter? Ó felicíssima, felicíssima de mim, se eu mesma tivesse sentido Júpiter atirando o raio! Antes, criança[104], tivesse sido Alcides arrancado de minhas entranhas (1805)! Mas agora me é dado um tempo: é-me dado ver meu filho rivalizando-se em glória com Júpiter; e isto é para que me fosse dado conhecer o que o destino me podia arrancar. Que povo vive lembrando-se de ti, meu filho?

Já todo o gênero humano te é ingrato (1810). Dirigir-me-ei a Cleonas[105]? Ao país dos Arcádios me dirigirei, e procurarei essas terras enobrecidas por teus méritos? Aqui sucumbiu a terrível serpente[106], ali (foi) uma ave feroz[107], acolá um rei sanguinário[108], aniquilado por tua mão, o leão527 que, enquanto teu corpo é sepultado na terra, brilha no céu (1815). Se a terra é grata, todos os povos defendam tua Alcmena. Procurarei o país dos Trácios e os povos do Hebro? Esta região também foi defendida graças a teus méritos: estão destruídos os estábulos juntamente com seu reino. Aqui, abatido o rei sanguinário, foi estabelecida a paz (1820). Onde, pois, ela foi negada por ti? Que sepulcro, eu, uma velha infeliz, procurarei para ti? Que o mundo inteiro dispute teu túmulo. Que povo, que templos, que nações reclamam os restos do grande Hércules?

Quem,  quem  procura,  quem reivindica o fardo das mãos de Alcmena (1825)? Que sepulcro, meu filho, que túmulo te será bastante? Todo o  universo será um monumento à tua glória. Por que tremes, minha alma? Tens em tuas mãos as cinzas de Hércules, abraça seus ossos. Estes restos te darão ajuda, eles te serão uma proteção suficiente. Até tuas sombras aterrarão os reis (1830).

Filoctetes

Apesar de devido a teu filho, contém teu pranto, mãe do ilustre Alcides. Não deve ser chorada, nem pressionada à força de reza qualquer pessoa que, com seu valor, tenha conduzido até à morte seu próprio caminho. A virtude eterna de Hércules proíbe que se chore Hércules (1835). Os heróis dispensam que os choremos; os fracos o exigem.

Alcmena

Farei cessar minhas queixas, eu, esta mãe que perdeu o justiceiro da terra, do mar, e de toda parte onde brilha o sol purpúreo, que clareia os dois lados do oceano? Quantos filhos sepultei, esta mãe infeliz, num único filho (1840)? Eu não tinha reino e, no entanto, eu podia conceder reinos. Única entre todas as mães que a terra nutre, eu me abstive de (fazer) votos, nada pedi dos deuses, enquanto incólume estava o filho: o que não poderia dar-me o ardor de Hércules? Que deus poderia negar-me qualquer coisa (1845)? A eficácia dos votos estava nesta mão: tudo o que me negasse Júpiter, dar-mo-ia Hércules. Que outra mãe mortal portou em seu seio alguém como ele? Uma certa mãe528 continuou petrificada, quando ficou privada de todos os seus filhos, e chorou, de uma só vez, sua dupla grei de sete filhos (1850). A quantas greis poderia ser comparado aquele meu filho? Faltava, ainda, a essas mães infelizes seu modelo completo: eu, Alcmena, darei (esse exemplo). Cessai, mães, se uma dor obstinada ainda vos manda chorar, e aquelas que uma aflição intensa transformou em pedras (1855). Recuai todas diante destas minhas desgraças. Vamos, mãos infelizes, feri este meu peito senil. Uma única anciã, velha e alquebrada, é bastante para (chorar) um funeral tão grandioso, que em breve todo o mundo lamentará? Para te bateres, solta teus braços, ainda que cansados 1860): para que, com teus lamentos, causes inveja aos deuses. Conclama todo o gênero humano a se bater. (Aqui segue-se o canto formal de luto de Alcmena acompanhado dos usuais gestos orientais de lamentação) Ide, chorai o filho de Alcmena e do grande Júpiter, para cuja concepção um dia foi suprimido, e a aurora reuniu (1865) as duas noites. Perde-se (agora) algo mais do que a própria luz. Chorai todas juntas, nações cujos tiranos cruéis ele mandou entrar para a morada do Estige, e a depor a pesada espada banhada no sangue de seus povos (1870-1871). Derramai o pranto ante tão grandes serviços, e ressoe ele por todo o universo, pelo universo inteiro. Chore Alcides a azulada Creta, terra querida do grande Tonante: que seus cem povos golpeiem seus braços (1875b-1876a). Agora, Curetos[109], agora, Coribantes[110], brandi nas mãos vossas armas sobre o Ida. As armas são próprias para celebrar Hércules. Agora, neste momento, lamentai um verdadeiro funeral: Alcides está morto, ó Creta, (este Alcides) não menor do que o próprio Tonante. Chorai a morte de Hércules, habitantes da Arcádia, povo (existente) quando Febo  nem era nascido.

Ressoem as colinas do Partênio e do Feneu[111](1885), e que os fortes golpes ecoem no Mênalo. Pedem gemido para o grande Alcides, o javali abatido em vossos campos, e a ave que embaçava todo o sol com a asa, e que foi obrigada a seguir suas flechas (1890). Chorai, Cleonas[112] argiva: aí certa vez a direita de meu filho aniquilou o leão que aterrorizava vossas muralhas. Mães de

Bistônia, feri-vos com açoites, e o gélido Hebro ecoe com seus golpes (1895). Chorai Alcides, pois já não nascem crianças para (alimento dos) estábu-los, nem o rebanho devora vossos ventres. Chore a terra libertada de Anteu, bem como a região por ele arrancada ao feroz Gerião (1900). Feri junto comigo vossos peitos, nações infortunadas, e ouçam vossos golpes uma e outra Tétis533. Vós também, turba do apressado céu, ó deuses, chorai a sorte de Hércules. O meu Alcides, ó deuses, carregou em seus ombros, o vosso mundo e o céu (1905), quando o transportador do Olimpo estrelado, Atlas, livre de seu peso, respirou.

Onde estão agora, Júpiter, vossas cidadelas? Onde o palácio do céu, a ele prometido (1910)? Certamente Alcides morreu como um mortal, e, com certeza, foi objeto de funerais. Quantas vezes, ele te poupou de usar os dardos e o fogo! Quantas vezes terias que lançar o fogo (1915)! Lança, pelo menos, tua chama contra mim e me considera como Sêmele. Tu já tens, meu filho, a morada dos Elísios? Já (tens) as margens para onde a natureza chama o gênero humano? Ou o escuro Estige, depois de ter o cão raptado, te fechou a passagem, e o destino te retém nos umbrais de Plutão (1920)? Que tumulto perturba agora, meu filho, as sombras e os manes? Foge o barqueiro, levando sua barca, e, com os centauros assustados, o barqueiro provoca ferimentos, com a unha tessálica (dos centauros), nos manes atônitos, e a hidra aterrorizada mergulha sob as águas suas serpentes (1926b-1926a). As vítimas de teus trabalhos têm medo de ti, filho. Eu me engano, delirante, eu me engano! Nem os manes nem as sombras te temem (1930). A pele roubada ao leão de Argos, coberta por uma juba avermelhada, não cobre mais, sinistra, teu ombro esquerdo, e nem os dentes da fera guarnecem tuas têmporas (1935). Tuas aljavas, tornadas um presente, não são usadas, e uma direita menor lançará seus dardos. Tu vais sem arma, filho, através das sombras, junto às quais permanecerás para sempre.

Voz DE  Hércules E OS MESMOS

Voz de  Hércules (Vinda de cima)

Por que (agora), que tenho o reino do pólo estrelado, e que finalmente fui devolvido ao céu, tu me mandas com lamentação, que sinta o destino (1940)? Basta: minha virtude já me preparou o caminho para os astros e para junto dos próprios deuses.

Alcmena (Desorientada)

Donde vem, donde vem essa voz que fere meus ouvidos inquietos? Donde (vem) esse ruído que interrompe minhas lágrimas (1945)? Reconheço que o Caos está vencido. Novamente voltas do Estige para mim, meu filho, e mais de uma vez foi vencida por ti a horrível morte. De novo venceste o reino da morte e as águas lúgubres da barca infernal (1950). O Aqueronte lânguido já te é acessível, e a ti somente é permitido revisitálo. Nem o destino pode reter-te após teus funerais. Ou Plutão te fechou o caminho, e pessoalmente amedrontado, ele temeu por si (1955)? Com certeza, eu te vi estendido sobre florestas em brasas, enquanto o medo enorme da chama se enfurecia contra o céu. Tu te queimaste. – Por quê?  Por que as moradas infernais não retiveram tuas sombras (1960)? O que de ti temeram os manes? – Eu te suplico. Para Plutão, até como sombra, és por demais temido?

HERCULES

(Sua silhueta toma forma agora no espaço acima)

Não me retêm os pântanos do lamentoso Cócito, nem a barca sombria transportou minhas sombras. Agora, mãe, chega de lamentos (1965): vi uma única vez os manes e as sombras. Tudo o que, (vindo) de ti, era mortal em mim, o fogo por mim vencido, o levou: a parte paterna foi entregue ao céu, e a tua, (foi entregue) às chamas. Por isso, renuncia aos prantos que manifesta uma mãe diante de um filho sem glória. Que o luto fique para os infames (1970). A coragem tende para os astros; o temor (tende) para a morte. Contemplando-te dos astros, mãe, eu, teu Alcides, predigo: agora o sanguinário Euristeu[113] te pagará o castigo, e tu, conduzida por um carro, elevar-te-ás acima de sua cabeça soberba. A mim, convém agora subir para a morada celeste (1975). Eu, Alcides, venci mais uma vez, as regiões infernais.

(E ele desaparece das vistas )

Alcmena

Permanece um pouco mais; – ele sumiu (do alcance) de meus olhos. Ele se dirige para os astros. Eu me engano, ou meus olhos acreditam ter visto meu filho? O espírito dos infelizes é incrédulo. És uma divindade, e a eternidade te recebe eterno. Acredito em teus triunfos (1980). Procurarei o reino de Tebas, e cantarei um novo deus acrescentado aos templos. (Sai)

 

Coro:

A grande virtude nunca é levada para as sombras do Estige: vivei corajosamente, e a morte cruel não vos arrastará através das águas do Letes (1985). Ao contrário, quando a vida consumada exigir seus momentos finais, a glória vos abrirá o caminho para os deuses superiores. Mas tu, grande vencedor de monstros, e, ao mesmo tempo, pacificador do mundo, fica conosco (1990). Agora mesmo, volve teus olhos para nossa terra e, se qualquer monstro de aspecto desconhecido sacudir os povos com grave terror, aniquila-o, tu, com os raios trissulcos: que tu atires teus raios com força ainda maior do que a de teu próprio pai (1996).

 

 

[1] Juno.

[2] Leão de Neméia.

[3] Hidra de Lerna.

[4] Hipólita, rainha das Amazonas.

[5] Anteu é um gigante que Hércules teve que enfrentar, quando ia para o bosque das Espérides. Sua energia era recuperada sempre que ele punha os pés na terrra. Hércules, em luta com ele, o sustentou acima do chão, não permitindo que ele se reabastecesse com a energia da terra.

[6] Rei do Egito, que sacrificava estrangeiros, e que foi morto por Hércules.

[7] Rei mítico da Hispânia, que tinha três troncos. Hércules o venceu, tomou-lhe o rebanho e o deu a Euristeu. 417 O Minotauro.

[8] Os Citas habitam ao norte, sob a grande Ursa.

[9] O sol.

[10] Perseu.

[11] Ainda criança, Hércules estrangulou duas serpentes que Juno enviara contra ele.

[12] A constelação zodiacal de Câncer, na qual o sol atinge seu solstício de verão.

[13] A constelação do Leão representa o leão de Neméia: o sol passa do Leão para a constelação de Virgem (Astréia).

[14] Astréia, deusa da justiça, tornou-se, no céu, a constelação de Virgem (Mignon). 425 Nome de um promontório.

[15] Apolo.

[16] Delfos, onde o jovem Febo matou a serpente Píton.

[17] A partir desta nota, todas as indicações de cena foram baseadas em Miller, 1987.

[18] Rei da Ecália, cidade da Tessália setentrional. Tendo recusado sua filha Iole a Hércules, depois de lha haver prometido, o herói atacou Ecália, destrui a cidade e levou consigo Iole.

[19] Trata-se do templo de Júpiter construído sobre o promontório Ceneu na ilha de Eubéia.

[20] Dólopos são povos da Tessália.

[21] Argos ou Micenas.

[22] Tebas. Assim chamada por causa da fonte.

[23] Alcmena.

[24] Uma tigresa do Cáucaso.

[25] Estrela da manhã.

[26] Estrela da tarde.

[27] A lua.

[28] Briareu e Gias estão entre os gigantes que empilharam o Olimpo sobre o Pélio, e o Pélio sobre o Ossa para escalar o céu e expulsar os deuses.

[29] Montanha da Frígia, sobre a qual, Níobe, transformada em pedra, chora eternamente seus filhos perdidos. 441 Quando Faetonte foi precipitado no Pó pelo raio de Júpiter, seus irmãos foram metamorfoseados em choupos nas margens do rio.

[30] Ela queria tornar-se uma das sereias que habitavam esses rochedos.

[31] Edônia é a Trácia. Procne, esposa do rei da Trácia, Tereu, foi metamorfoseada em andorinha, depois que matou e serviu a seu esposo, para comer, seu filho Ítis. Dáulis é uma cidade da Fócida onde se dá o drama.

[32] Mirra, filha do rei Ciniras, de Chipre, apaixonada por seu próprio pai, deitou-se furtivamente em seu leito, onde foi amada por ele sem que ele a reconhecesse. Quando o rei descobriu quem era ela, quis matá-la. Ela refugiou-se na Arábia, onde se engravidou de Adônis e foi transformada, em seguida, na árvore que produz a mirra.

[33] Ceix, rei de Traquine, tendo sofrido um naufrágio, sua esposa Alcíone, desesperada, lançou-se ao mar. Ambos foram transformados em alcíones.

[34] Níobe.

[35] Filomela, transformada em rouxinol após a morte de Ítis, como cúmplice da irmã Procne. 448 Ateniense, Procne.

[36] Aquelôo é um rio. O deus desse rio, enamorado dos encantos de Dejanira, ousara disputá-la a Hércules. Vencido numa primeira luta, Aquelôo retorna ao combate sob a forma de uma serpente, depois, de um touro.

Vencido de novo, tem um de seus chifres arrancados por Hércules.

[37] Hércules cedeu Hesíone a Télamon, com quem ele havia tomado Tróia.

[38] As cinqüenta filhas do rei Téspio foram sucessivamente fecundadas por Hércules. Daí resultou a população que se instalou na Sardenha, sob o comando de Iolas.

[39] Alusão à morte de Mégara e de seus filhos, por Hércules, em estado de loucura.

[40] Europa.

[41] Hoje, rio Tejo.

[42] Rio da Índia, afluente do Indo.

[43] Cauro, vento do Noroeste.

[44] Herrmann traduz como chinês.

[45] O dia do aniversário das princesas.

[46] Bacante.

[47] Monte nevado da Jônia, que provavelmente devia seu nome ao gigante que sob ele se acreditava sepultado. 461 Promontório na ilha de Leucádia.

[48] Diana Trívia, assim invocada por ter sua estátua colocada nas encruzilhadas.

[49] Uma das parcas.

[50] Caphereus (ou caphareus) é o Cafareu, promontório da Eubéia.

[51] O mar Egeu, que Frixo atravessou com sua irmã no carneiro de tosão de ouro.

[52] Vento do norte.

[53] Habitante de Cidônia, cidade de Creta.

[54] A alma, no pensamento de Sêneca, é o que distingue os seres vivos dos demais seres. A alma caracteriza a vida, não só do homem. Este difere dos outros seres vivos, porque sua alma abriga a razão diretriz.

[55] Diferente de mors, nex se liga à raiz de necare. Morte causada, não sofrida.

[56] Juno é, ao mesmo tempo, irmã e esposa de Júpiter.

[57] Como observa Mignon, há aqui uma contradição de Sêneca que, em Hercules Furens, afirma que Hércules, após a morte de Mégara e dos filhos, fora purificar suas mãos no Areópago de Atenas.

[58] Íxion.

[59] Essa danaide que falta é Hipermnestra. 474 Medéia.

[60] Procne, esposa de Tereu, rei da Trácia.

[61] Altéia, rainha de Calidônia. Causou voluntariamente a morte a seu filho Meleagro, por ter este matado seus dois irmãos.

[62] As Danaides.

[63] O centauro Nesso era metade homem, metade cavalo.

[64] Erimanto, monte da Arcádia onde Hércules matou um javali.

[65] Uma das três Erínias, a vingadora dos assassínios.

[66] Piéria, região da Grécia antiga, vizinha do monte Olimpo, era consagrada às musas.

[67] A musa mãe e Orfeu.

[68] Bistones eram povos da Trácia, que habitavam o sul do monte Ródope nas costas do mar Egeu. O Hebro, um rio da Trácia, nasce nos montes Ródope, no território dos Getas.

[69] Uma ninfa de uma árvore, particularmente de um carvalho.

[70] De Marmárica, região da África, Líbia.

[71] De Tênaro, na Lacônia, Esparta.

[72] Tântalo.

[73] A pedra de Sísifo.

[74] Povo africano, ao sul da Numídia.

[75] Gias e Encélado são dois gigantes: os gigantes, quando foram vencidos, foram sepultados sob as montanhas.

[76] Um dos gigantes que tentaram destronar Júpiter e que foram sepultados sob o Etna.

[77] Sêneca, ora trata Júpiter como o deus supremo, equivalente ao Uno, ora o considera filho de Cronos, como faz nesta passagem de HO.

[78] Um dos gigantes derrotados por Júpiter e enterrados sob o Etna.

[79] Ilha do golfo de Nápoles sob a qual estava enterrado Tifeu.

[80] A corsa de chifres de ouro e pés de bronze que Hércules matou na Arcádia.

[81] Hércules separou as falésias de Calpe e de Abila, chamadas depois de colunas de Hércules, e abriu, assim, o estreito de Gibraltar.

[82] As Simplégades eram dois rochedos, na entrada do estreito de Constantinopla. Antes de o navio Argos transpô-los, eles se afastavam e se aproximavam para reter ou quebrá-los.

[83] Corresponde hoje à cadeia dos Bálcãs.

[84] O pólo de Ossa Parrásio, ou pólo Norte.

[85] A hidra era um monstro de muitas cabeças, e estas renasciam na medida em que eram cortadas, por isso o qualificativo fecundum usado por Sêneca referindo-se à cabeça do monstro.

[86] Um dos nomes do deus Marte.

[87] Essa afirmação remete à descoberta de que o veneno que o leva à morte partiu das mãos de sua mulher Dejanira, a quem ele atribui a intenção de matá-lo.

[88] Sínis era um gigante e malfeitor estabelecido no istmo de Corinto. Ele usava encurvar o cimo das árvores, aí fixar suas vítimas e as projetar nos ares. Ele foi morto por Teseu.

[89] Hércules, após a apoteose, e depois que Juno o perdoou, veio a casar-se com Hebe, filha de Zeus e de Juno.

[90] Oráculo de Dodona, no Épiro. A revelação deste oráculo se fazia a partir do ranger da madeira sagrada. 506 Oráculo de Apolo em Delfos, sobre as encostas do Parnaso. A revelação aqui se fazia pela Pitonisa, colocada no templo de Apolo.

[91] Filoctetes era filho de Peante, amigo de Hércules.

[92] Javali de Erimanto, um dos trabalhos de Hércules.

[93] Ursa Maior.

[94] Alusão às éguas antropófagas de Diomedes, rei da Trácia.

[95] Minos e Radamante que, junto com Éaco, são os juízes do inferno.

[96] Entenda-se: “com seu peso”.

[97] No bosque sagrado de Caônia, no Epiro, situavam-se um templo de Dodona e um oráculo de Júpiter. Este último era tido como o mais antigo da Grécia. Acreditava-se que o oráculo era anunciado pela própria madeira, dotada de voz, ou por pombos que ali tinham seus ninhos (MIGNON).

[98] O nasamão é um povo da Líbia, que vivia da pirataria.

[99] Plutão.

[100] Refere-se a Cérbero.

[101] Anfitrião.

[102] Pequeno Busíris e pequeno Anteu devem ser entendidos como filho de Busíris e filho de Anteu, remetendo ao que Alcmena acabara de dizer sobre algum filho que queira buscar vingança nela. 519 Diomedes.

[103] Ísmaro é um monte da Trácia.

[104] Nascituro.

[105] Cidade da Argólida onde Hércules derrotara os generais de Áugias.

[106] A hidra de Lerna.

[107] As aves de Estinfalo.

[108] Esse rei pode ser Busíris, Diomedes ou Anteu.

[109] Há uma tradição segundo a qual Júpiter havia nascido no monte Ida, em Creta, onde sua mãe confiou sua guarda às ninfas e aos curetos, os quais, para evitar que Cronos ouvisse o choro da criança, dançavam fazendo ruído com suas armas (MORENO).

[110] Os coribantes são servidores míticos de Cibele, e freqüentemente se identificam com os Curetos (MORENO).

[111] Os tradutores divergem conforme o texto estabelecido de que partem para a tradução.

[112] Cidade situada entre Argos e Corinto. Foi em suas cercanias que Hércules abateu o leão de Neméia. 533 O Oceano e o Mediterrâneo.

[113] Euristeu teve, durante toda a vida, o direito de comandar Hércules, por ter nascido algumas horas antes. Ele abusou desse direito, ordenando-lhe empresas perigosas, celebradas sob a denominação de “os doze trabalhos de Hércules”. Após a morte de Hércules, ele foi morto por Hilo. É esta morte que constitui o objeto da profecia de Hércules (MIGNON).