Sêneca, Hércules Furioso

Os Crimes do Maior Herói Grego

Ferdinand-Victor-Eugène Delacroix 1798 – 1863

A peça teatral Hércules Furioso foi escrita por Lúcio Aneu Sêneca foi um famoso dramaturgo, estadista e filósofo que viveu entre os anos de 4 a.C a 65 a.C. no tempo do imperador Nero. Esta adaptação para o teatro romano de uma peça perdida do grego Eurípides conta a história conta a história do maior crime cometido pelo herói, que é considerada o início de sua vida heroica.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por Luciano Antônio Marchiori.

 

Hércules Furioso

Personagens

Juno
Anfitrião
Mégara
Filhos de Hércules (em silêncio)
Lico
Hércules
Teseu
Coro (de cidadãos de Tebas)

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PRIMEIRO ATO

Juno

Irmã do Tonante, — pois somente este nome me foi deixado — abandonei Júpiter, sempre ausente, e, despojada de meu marido, deixei as mais altas regiões do éter. Expulsa do céu, cedi meu lugar às concubinas. A terra deve ser habitada por mim: as concubinas ocupam o céu. [5]

Deste lado, na elevada região do polo glacial, a Ursa, altiva constelação, guia as frotas de Argos; aqui, por onde se prolonga o dia na fresca primavera, reluz aquele que por entre as ondas raptou Europa, a tíria. [10] Ali, as Atlântides, vagando por todo lado, exibem seu bando temível para as embarcações e para o mar; Daqui, Órion, ameaçador, aterroriza os deuses com sua espada e Perseu, áureo, sustém suas estrelas. Ali, astros radiantes, cintilam os Gêmeos Tindáridas e aqueles por cujo nascimento firmou-se a terra outrora móvel. [15]

E não só o próprio Baco e sua mãe acessaram os súperos: para que nenhuma parte fique isenta de infâmia, o firmamento traz consigo a grinalda da jovem de Cnosso.

Mas lamento coisas antigas! [20] Quantas vezes Tebas, uma terra cruel e selvagem, repleta de sacrílegas moças, tomou-me por madrasta! É possível que Alcmena, vitoriosa, ascenda e obtenha meu lugar e que, da mesma forma, ocupe os astros que lhe foram prometidos, o filho para cujo nascimento o céu susteve o dia e Febo luziu tardio no mar do Oriente, tendo sido ordenado a manter o seu brilho imerso no Oceano [25] — nem assim cessará meu ódio! Que meu ânimo brutal produza intensas iras e, suprimida a paz, que meu pungente sofrimento gere guerras eternas!

Que tipo de guerras? [30] Tudo o que uma terra inimiga possa criar, tudo o que os céus e o mar produziram de terrível, cruel, pernicioso, atroz e selvagem foi abatido e dominado; com os males, Hércules se eleva e se engrandece. Ele se deleita com minha ira e transforma meu ódio em louvores a si! [35]

Ao dar-lhe ordens com toda crueldade, comprovei quem é seu pai e abri espaço à sua glória. Sua indômita virtude é cultuada desde onde o sol traz o dia até onde o depõe, dando cor aos dois povos etíopes com a proximidade de seu fulgor e em todo o mundo fala-se de Hércules como um deus. [40]

Já me faltam monstros; é mais fácil para Hércules executar minhas ordens do que para mim ordená-las; alegre ele acolhe meus comandos. Que feras, por pior que sejam, podem ser enviadas para prejudicar o impetuoso jovem? Com efeito, ele traz consigo como armas as mesmas que temeu e que derrotou: [45] vem armado com o leão e com a hidra. E as terras não são suficientemente extensas: eis que arrombou as portas do Jove infernal e retornou aos súperos com os esplêndidos despojos do rei derrotado. É pouco ter retornado; ele destruiu as leis das sombras. Dissipada a noite nos infernos [50] e subjugado Plutão, eu vi, eu mesma vi Hércules lançando ao pai os espólios do irmão. Por que ele não arrasta, acorrentado e esmagado por cadeias, o próprio deus que recebeu por sorte coisas equivalentes às de Júpiter e não se apossa do Érebo conquistado? Eis que ele descobre o Estige! [55] Do fundo dos manes foi aberta uma via de regresso e jazem manifestos os mistérios da terrível morte. Por outro lado, ele, feroz, tendo rompido o cárcere das sombras, triunfa de mim e com mão orgulhosa conduz o tenebroso cão pelas cidades argólicas.

[60] Eu vi o dia desabar com a visão de Cérbero e vi o sol apavorado; a mim também invadiu o tremor, e, vendo as três cabeças do monstro submetido, temi o que eu mesma havia ordenado.

Todavia, queixo-me excessivamente por coisas vãs: é com os céus que devo me preocupar, para que os reinos superiores não sejam ocupados por aquele que venceu os inferiores; ele roubará o cetro ao pai. [65] E não virá aos astros como Baco, por um caminho lento: ele buscará um caminho entre ruínas e desejará reinar em um mundo desolado. Ele se ensoberbece com a sua força provada e soube, carregando-o, [70] que o céu pode ser vencido por sua força; pôs a cabeça debaixo do mundo e esse trabalho de imenso peso não dobrou seus ombros; e o céu melhor se fixou no pescoço hercúleo. Sua cerviz imóvel suportou os astros e o céu, bem como a mim, que o comprimia: ele procura o caminho aos súperos.

Avança, minha ira, avança e reprime esse que planeja grandes coisas; [75] combate-o, dilacera-o com as tuas próprias mãos; por que confias a outrem tamanho ódio? Afastem-se as feras e que o próprio Euristeu, farto de dar ordens, descanse. Liberta os Titãs que ousaram violar o império de Júpiter. [80] Abre a caverna da montanha siciliana, e que a terra dórica, temerosa com o gigante derrubado, elimine as cabeças caídas do terrível monstro. Que a Lua sublime conceba outras feras. Mas Hércules venceu tudo isso. Acaso podes encontrar páreo para Alcides? Ninguém há, a não ser o próprio: pois então que ele mesmo faça a guerra contra si. [85] Apresentem-se as Eumênides, despertadas do mais profundo do Tártaro, espalhem o fogo de sua cabeleira de chamas e agitem o açoite de suas furiosas mãos de víboras.

Vai agora, soberbo, ataca a morada dos deuses, despreza as coisas humanas [90] Crês que já tivesses escapado do Estige e dos manes cruéis? Aqui te mostrarei os ínferos. Convocarei a deusa Discórdia, oculta em profunda escuridão, além do exílio dos perversos, a deusa guardada por uma caverna imensa de um rochedo oposto. [95] Do fundo do reino de Plutão, elevarei e arrancarei tudo o que restou: virá o Crime odioso e a Impiedade feroz banhando-se com seu próprio sangue; virá o Erro e a Loucura, sempre armada contra si — isso, seja isso empregado como agente de nossa dor! [100] Começai, servas de Plutão, agitai ligeiras o facho ardente; Megera conduza essa horrenda tropa de serpentes e, com luctífica mão, segure uma tocha colossal, acesa em uma pira. Fazei isto, buscai a vingança para o Estige violado. [105] Feri o peito de Hércules, que sua mente seja atormentada por um fogo mais violento que aquele que arde nas forjas do Etna. Para que Alcides possa seguir privado de seu espírito, agitado por grande furor, deves enlouquecer primeiro — ó Juno, por quê ainda não enlouqueceste? [110] Se planejo fazer algo digno de uma madrasta, alterai primeiro a mim, a mim, irmãs, privando-me de minha mente.

Revertam-se os meus intentos: peço que ele, ao retornar, veja seus filhos incólumes e que retorne com mão forte! [115] Encontrei o dia em que a odiosa força de Hércules me sirva de auxílio. Ele me venceu: vença também a si, e, tendo retornado dos ínferos, deseje perecer! Que tenha nascido de Júpiter, isso pode me ser útil. Permanecerei firme, e, para que sejam lançados com precisão, brandirei seus dardos com minhas mãos, guiarei as armas do louco, enfim, favorecerei o combatente Hércules. [120] Executado o crime, seja lícito que o pai admita no céu tais mãos!

É agora que minha guerra deve começar; já brilha o dia e Titã avulta na rosada aurora.

***

Coro

Já esparsas brilham as estrelas lânguidas no mundo que declina. [125][125bis] A noite, vencida, reduz os astros errantes com a luz que renasce; Lúcifer conduz a tropa resplandecente. [130] O signo glacial do elevado polo, a Ursa Maior de sete estrelas, chama a luz, tendo virado o leme. Titã, já erguido das águas azuladas, espreita acima do Eta. Derramado o dia, enrubescem os bosques já famosos pelas cadmeias bacantes, e foge a irmã de Febo, que há de retornar. [135]

O duro Labor se levanta, a todos inquietando e abrindo as casas. Dispersado o rebanho, um pastor escolhe o pasto em meio à gélida e branca geada [140]; um novilho solto, com a fronte ainda não rompida, brinca no prado aberto. As mães restauram seus úberes vazios. Um cabrito atrevido anda errante na relva macia, ligeiro, em corrida incerta. [145] Pende estrídula no mais elevado ramo, a concubina trácia; entre os ninhos ruidosos anseia expor suas penas ao novo sol e em redor, uma turba confusa ressoa, atestando o dia com misto murmúrio. [150] O nauta, incerto da vida, confia ao ventos as velas, quando uma aura enfuna o frouxo tecido. [152][152bis]

Este, pendendo de rochedos corroídos, [155] prepara anzóis desguarnecidos, ou então, suspenso, contempla os prêmios ao repuxar de sua destra: sente o trêmulo peixe na linha. Tais coisas são para os que têm o tranquilo sossego de uma vida inocente e [160a] uma casa feliz com o pouco que lhe pertence. [160b-1a]

Esperanças assustadoras erram pelas cidades [161b-3a] e também medos inquietantes. [163b] Aquele, privado de sono, cultua as soberbas soleiras e as duras portas dos poderosos; [165] este outro acumula abundantes riquezas sem finalidade, boquiaberto com seus tesouros, [167b] e ainda pobre em meio ao ouro acumulado; aquele, atônito e inchado por uma aura vazia, o elevam o favor do povo e o vulgo mais instável que as ondas; [170] este, vendendo raivosas querelas do fórum barulhento [173], aluga, desonesto, suas iras e palavras. [173bis]

A tranquilidade segura conhece a poucos, os quais, lembrados da velocidade do tempo [175] retêm momentos que nunca hão de retornar. Enquanto os fados permitem, vivei felizes! A vida se apressa em curso veloz e nos dias que voam é girada a roda do ano ligeiro. [180] As duras irmãs realizam suas tarefas e não reconduzem para trás os seus fios. Já a descendência dos homens, incerta de si, é arrastada na direção dos fados. Por vontade própria buscamos as ondas estígias [185] [num grande turbilhão, perturbadoras esperanças]. [162]

Excessivamente, ó Alcides, com peito forte, tu te apressas em visitar os tristes manes. As Parcas vêm no tempo certo; a ninguém é lícito negligenciar a ordem, a ninguém é lícito adiar o dia marcado; [190] a urna recebe os povos convocados. Que a um outro a glória leve para inúmeras terras e que a fama loquaz o louve por todas as cidades e o eleve, [194] semelhante aos céus e aos astros; [194bis] que outro vá, altivo, em um carro. A mim, que minha terra me proteja em um lar secreto e seguro. Aos indolentes vem a velhice com suas cãs e num lugar humilde se estabelece a riqueza exígua, [200] mas segura, de uma casa pequena. A virtude excessiva desaba profundamente.

— Mas eis que chega triste Mégara com os cabelos soltos, trazendo consigo um pequeno grupo e, vagaroso pela velhice, caminha o pai de Alcides. _______________________________________

SEGUNDO ATO

Anfitrião
 [205] Ó grande soberano do Olimpo e senhor do mundo, estabelece já um limite para tão grande sofrimento e um fim para esse flagelo. Nenhuma luz jamais brilhou segura para mim; o fim de um mal é o passo para outros males futuros. Tão logo meu filho retorna, um novo inimigo se prepara. [210] Antes mesmo de chegar à casa feliz, ele segue, sob ordens, a uma outra guerra; e nenhum descanso lhe resta, nenhum tempo livre, exceto enquanto recebe ordens. Desde o princípio, Juno obstinadamente o persegue, encarniçada. Acaso foi imune o seu tempo de infância? Venceu monstros antes mesmo [215] que pudesse tê-los reconhecido como tal. Serpentes cristadas de duas cabeças mostravam suas bocas gêmeas, em cuja direção se arrastava o indefeso menino, contemplando com olhar suave e tranquilo os ígneos olhos das serpentes; carregou os estreitos anéis com semblante sereno e, apertando as túmidas gargantas com suas mãos delicadas, exercitou-se para a Hidra. [220] A ligeira fera de Mênalo, ostentando sua cabeça ornada com abundante ouro, foi apanhada em seu curso; gemeu o Leão, máximo temor de Nemeia, esmagado pelos braços de Hércules. [225] Para que recordar os terríveis estábulos do povo bistônio e seu rei, dado como pasto aos rebanhos? E o hirsuto monstro do Mênalo, habitual nos densos cimos de Erimanto, acostumado a agitar os bosques arcádios? E o touro, medo não desprezível para uma centena de povos? [230] Entre os longínquos rebanhos das raças de Hespéria pereceu o triforme pastor do litoral tartéssio e sua presa foi impelida desde o mais remoto Ocidente. Citéron alimentou o gado, notório no Oceano. [235] Ordenado a adentrar as regiões do sol estival e os adustos reinos que o meio-dia abrasa, Hércules rompeu os montes, dos dois lados, e, quebrado o obstáculo, fez um largo caminho para o Oceano impetuoso. Depois disso, assaltou as casas dos bosques opulentos e arrebatou os espólios dourados da vigilante serpente. [240] Qual! Os cruéis monstros de Lerna — múltiplo mal — finalmente não os venceu com fogo e os instruiu a morrer? E as Estinfálides — habituadas a esconder o dia com suas asas abertas — não as buscou desde as próprias nuvens? [245] Não o venceu a solitária rainha do povo do Termodonte, de leito sempre celibatário? E o trabalho do horrendo estábulo de Augeu não afugentou suas mãos, audaciosas para todo feito ilustre.

Que proveito tem essas coisas? Hércules carece de seu mundo protegido. As terras sentiram a ausência do autor de sua paz. [250] Próspero, feliz, novamente o crime é chamado de virtude; os bons obedecem aos malfeitores, a justiça está nas armas, o temor oprime as leis. Perante minha face, vi caírem, por truculenta mão, os filhos defensores do reino paterno [255] e vi ele mesmo — derradeira estirpe do nobre Cadmo — sucumbir. Vi o régio ornamento de sua cabeça arrancado juntamente com a cabeça. Quem choraria suficientemente por Tebas? Terra fértil em deuses, por qual senhor estremeces? Terra de cujos campos e de cujo âmago fecundo [260] ergueu-se uma juventude nascida com rigorosa espada, e cujos muros construiu Anfíon, filho de Júpiter, arrastando as pedras com seu melodioso canto; uma terra a cuja cidade veio — não uma única vez — o pai dos deuses, abandonando o céu; essa cidade que recebeu os habitantes dos céus, [265] que os fez e — seja lícito dizê-lo — talvez os fará, agora é oprimida com sórdido jugo.

Ó descendência de Cadmo, raça de Ofíon, a que ponto decaíste! Tremes por um ignaro expatriado que carece de suas fronteiras, um fardo para nós. [270] Aquele que persegue crimes por terra e mar e que despedaça reinos cruéis com sua mão justa, agora ausente, é escravo, e suporta as mesmas coisas as quais impede de serem feitas: Lico, o exilado, ocupa a hercúlea Tebas. [275] Mas não a ocupará! Hércules estará por perto e exigirá castigos; das profundezas emergirá até os astros; encontrará um caminho ou o criará. Que tu estejas presente, salvo, e retornes aos teus, e por fim, venhas vitorioso à tua casa vencida!

Mégara
 Emerge, meu esposo, e aniquila com as tuas mãos as dispersas trevas. Se não há caminho algum de volta, se a via foi fechada, [280] retorna pelo orbe fendido e traz contigo tudo aquilo que se oculta, possuído pela negra noite. Arruinados os montes, obtendo íngreme percurso para o rio veloz, tal qual o fizeste certa vez — com ímpeto imensurável [285] abriu-se o vale do Tempe: abalado com o teu peito, o monte ruiu para aqui e para lá e, rompido o dique, a torrente do tessálio rio correu por um novo caminho — assim também lança-te a buscar teus pais, teus filhos e tua pátria, trazendo contigo os termos das coisas; [290] restitui tudo o que o tempo ávido escondeu ao passo de tantos anos e conduze diante de ti os povos esquecidos de si e temerosos da luz. Os espólios são indignos de ti se trazes tão somente o que lhe foi ordenado; [295] todavia, falo excessivamente de coisas grandiosas, desconhecendo a nossa sorte. Quando virá a mim o dia em que abraçarei a ti e a tua destra e lamentarei o teu demorado retorno sem recordações de mim?

A ti, condutor dos deuses, touros indômitos trarão uma centena de dorsos; [300] a ti, soberana das messes, oferecerei ritos secretos: a ti, com silente devoção, tácita Elêusis agitará grandes tochas; então, aos meus irmãos considerarei restituídas suas almas e saberei que viceja meu pai, governando seus reinos; mas se alguma potestade maior [305] te mantém recluso, a ti, Hércules, seguimos: ou tu defendes a todos com teu regresso, a salvo, ou a todos arrasta contigo — tu nos arrastarás e nenhum deus erguerá os quebrantados.

Anfitrião
 Ó companheira de meu sangue, com casta fidelidade preservas os filhos e o leito do magnânimo Hércules; [310] concebe coisas melhores em tua mente e aviva o teu ânimo! Hércules seguramente estará entre nós, ainda mais engrandecido, tal como costuma ficar logo depois de cada trabalho.

Mégara
 Aquilo que os míseros muito desejam, nisso creem facilmente.

Anfitrião
 Muito ao contrário, aquilo que temem em demasia, julgam nunca poder mudar ou destruir. [315] A confiança no medo está sempre propensa ao pior.

Mégara
 Afundado, sepultado e oprimido com todo o orbe por cima de si, que caminho Hércules tem aos súperos?

Anfitrião
 O mesmo caminho que tinha então, quando foi-se por ressequida plaga e por flutuantes areias, como que por agitado mar, [320] e pelo estreito que duas vezes se afasta e duas vezes retorna; quando, abandonado o navio, desprevenido detevese pelas breves vagas de Sirtes e, presa a popa, atravessou os mares a pé.

Mégara
 Iníqua, a Fortuna raramente poupa as máximas virtudes. [325] Mesmo seguro, ninguém pode se expor, durante muito tempo, a perigos tão numerosos. Quem amiúde atravessa por desventuras, algum dia as encontra.

Mas eis que vem Lico, cruel e trazendo ameaças em sua fisionomia; e tal como em seu ânimo, assim também transparece em sua marcha, agitando o cetro alheio com sua destra. [330]

***

 

Lico
 Eis que governo as opulentas regiões de Tebas e tudo o que de solo fértil cinge a oblíqua Fócida; tudo o que o Ismeno rega, tudo o que Citéron vê de seu elevado cume [335], e o estreito Istmo que fende dois braços de mar]; indolente herdeiro, não possuo os vetustos direitos de uma casa paterna; não tenho nobres ancestrais, tampouco ínclita estirpe de altivos títulos; mas tenho preclara virtude! Quem se jacta de sua linhagem, louva coisas alheias; [340] porém, os cetros roubados são mantidos com trêmulas mãos. Toda salvação reside na espada: o que sabes que é teu, a rigorosa espada protege contra os cidadãos constrangidos. Um reino em lugar estrangeiro certamente não é estável; contudo, uma mulher pode consolidar meus poderes, [345] Mégara, a mim unida com o facho nupcial nos tálamos reais: minha obscura ancestralidade auferirá brilho à partir de sua ilustre linhagem. Certamente não creio que ela recusará ou desprezará meu leito de núpcias; porque, se ela o recusar, pertinaz, com orgulhoso coração, [350] fica determinado que destruirei completamente a casa de Hércules. O ódio ou a maledicência do povo deterá tal feito? A arte primeira de um reino é saber aturar o ódio.

Portanto, tentemos! A sorte nos concedeu a ocasião, pois a própria Mégara, com o triste disfarce de sua roupa, a cabeça velada, [355] está de pé junto ao deuses protetores e ao seu lado mantém-se o verdadeiro genitor do Alcida.

Mégara
 Que novidades prepara este que é a ruína e o flagelo de nossa família?

O que tenta?

Lico
 Ó portadora de um ilustre nome, proveniente de régia estirpe; [360] indulgente, por um instante acolhe minhas palavras, com ouvido paciente. Se os mortais sempre nutrissem ódios recíprocos e se o incipiente furor nunca se retirasse dos corações, se o feliz mantivesse as armas, e o infeliz as preparasse, nada faria cessar a guerra; [365] então, o campo estaria coberto por desoladas planícies, derrubada a tocha das casas, cinzas espessas cobririam os povos sepultados. Ao vencedor convém desejar que a paz seja restabelecida, ao vencido, isso é necessário. — Vem, toma parte em meu reino; associemos nossos corações; toma esta garantia de fidelidade: [370] toca a minha destra. Por que te calas, com semblante feroz?

Mégara
 Como eu tocaria a mão salpicada com o sangue de meu pai e com o duplo massacre de meus irmãos? Antes disso, extinguir-se-á o oriente e o ocaso trará de volta o dia; paz leal haverá entre neves e chamas; [375] Cila juntará o flanco siciliano ao ausônio; e muito antes, com suas vicissitudes alternadas, o fugidio Euripo se aquietará, ocioso no mar de Eubeia.

Arrebataste meu pai, meus reinos, meus irmãos e meu lar pátrio — que mais há? Apenas uma coisa me resta [380] ainda mais cara que irmão e pai, reino ou lar: o ódio por ti, o qual lamento ser comum a mim e ao povo; quão pequena é minha parte nisso!

Domina enfatuado, leva contigo ares altivos: pelas costas, um deus vingador persegue os soberbos. [385]

Conheci os reinos tebanos: para que mencionar mães sofridas e inclinadas a crimes? Para que falar de uma dupla atrocidade e de um misto nome de cônjuge, filho e pai? Para que lembrar o duplo acampamento de irmãos? Para que evocar precisamente tantas piras funerárias? A soberba mãe tantálida jaz enrijecida em seu luto: [390] entristecida, a pedra chora no frígio Sípilo. Além disso, o próprio Cadmo, erguendo sua terrível cabeça cristada, tendo percorrido em fuga os reinos da Ilíria, deixou longas marcas de seu corpo arrastado. Tais exemplos te esperam. Governa como lhe apraz, [395] enquanto te chamam os fados habituais de nosso reino.

Lico
 Vamos, raivosa, abandona essas palavras ferozes e aprende com o alcida a aturar as ordens dos reis. Eu — embora carregue cetros roubados em minha destra vencedora e governe tudo sem medo das leis as quais as armas vencem [400] — falarei um pouco em favor de minha causa. Em cruenta guerra pereceu teu pai? Pereceram teus irmãos? As armas não guardam limite. Não pode ser abrandada ou reprimida facilmente a ira de uma espada rigorosa. O sangue deleita as guerras; [405] todavia, agi eu por ímproba cupidez e aquele agiu em prol de seu reino!? Busca-se o êxito da guerra, não a causa. Mas agora pereça toda memória. Já que o vencedor depôs suas armas, também ao vencido convém depor seus ódios. Não peço que, ajoelhada, [410] adores o soberano. Apenas isto é aprazível: que acolhas as tuas desgraças com grandeza de alma. És cônjuge digna de um rei: associemos nossos tálamos.

Mégara
 Um gélido tremor percorre meus membros exangues. Que aberrações feriram meus ouvidos? Certamente não fiquei tão horrorizada quando, [415] violada a paz, o bélico fragor ressoou nos muros. Tudo suportei intrepidamente. Diante do tálamo estremeço: agora me vejo como escrava. Correntes oprimam meu corpo e prolongada fome estenda minha morte lenta: nenhuma outra força vença a minha fidelidade. [420] Morrerei tua, Alcides.

Lico
 Um esposo submerso nos infernos produz tais ânimos?

Mégara
 Ele atingiu os infernos para que possa alcançar os súperos.

Lico
 O peso da imensa Terra o oprime.

Mégara
 Não será oprimido por peso algum aquele que carregou o céu. [425]

Lico
 Serás coagida!

Mégara
 Quem pode ser coagido não sabe morrer.

Lico
 Dirás que antes prepararei o presente real para os novos tálamos.

Mégara
 Ou a tua morte ou a minha.

Lico
 Morrerás, louca!

Mégara
 Encontrarei meu esposo.

Lico
 E a ti é preferível um servo do que meu cetro? [430]

Mégara
 Quantos reis este “servo” entregou à morte!

Lico
 Por que, então, ele serve a um rei e suporta um jugo?

Mégara
 Suprime essas duras ordens: para que será a virtude?

Lico
 Crês que a virtude pode ser exibida a feras e monstros?

Mégara
 É próprio da virtude domar as coisas que inspiram pavor a todos.

[435]

Lico
 As trevas do Tártaro oprimem os que perseguem coisas grandiosas.

Mégara
 Não é suave o caminho da terra aos astros.

Lico
 De que pai foi gerado esse que almeja as moradas dos deuses?

Anfitrião
 Cala-te, miseranda esposa do grandioso Hércules. É meu papel devolver ao alcida seu pai e sua estirpe verdadeira. [440] Depois de tantos feitos memoráveis do ingente varão e depois de ter pacificado com sua mão tudo aquilo que Titã vê ao nascer e ao se pôr; depois de tantos monstros completamente domados, depois de Flegra espargida com ímpio sangue e depois de deuses defendidos, [445] ainda não é evidente de que pai foi gerado? Mentimos que é Júpiter? Crê tu no ódio de Juno.

Lico
 Por que profanas Júpiter? A raça mortal não pode ser atrelada ao céu.

Anfitrião
 Essa relação é comum a muitos deuses.

Lico
 Acaso foram servos antes de se tornarem deuses? [450]

Anfitrião
 O pastor de Delos alimentou os rebanhos de Feras.

Lico
 Mas não andou como um exilado errante por todas as regiões.

Anfitrião
 A quem deu à luz a mãe exilada em uma terra instável?

Lico
 Porventura temeu Febo monstros ou feras selvagens?

Anfitrião
 Um dragão foi o primeiro a embeber as setas de Febo. [455]

Lico
 Tu ignoras quão graves males o infante padeceu?

Anfitrião
 Expulso do útero de sua mãe por um raio, sem demora o menino postou-se próximo ao pai fulminante. Qual! Aquele que governa os astros, que agita as nuvens, quando menino não se escondeu na caverna de um rochedo corroído? [460] Nascimentos tão grandes têm seu preço de inquietação e nascer como um deus sempre custou muito.

Lico
 Quem quer que tenha te parecido miserável, considere-o um homem.

Anfitrião
 Quem quer que tenha te parecido forte, negues que seja miserável.

Lico
 Chamaríamos “forte” aquele de cujos ombros penderam um leão, [465] feito de presente para uma moça, e uma clava; e cujo flanco pintado resplandeceu com uma veste sidônia? “Forte” chamaríamos aquele cuja eriçada cabeleira esteve umedecida com nardo; aquele que movimentou suas notórias mãos ao som não viril de um tamborim, [470] cingindo sua fronte feroz com bárbara mitra?

Anfitrião
 O delicado Baco não enrubesce por espargir sua vasta cabeleira, nem por vibrar o tirso com as mãos suaves, quando — com passo pouco vigoroso — arrasta seu vestido ornado com ouro estrangeiro. [475] Depois de muitos trabalhos, a virtude costuma sói relaxar.

Lico
 Isso o comprova a casa do arruinado Êurito e o grupo de virgens opressas como se fossem gado; nenhuma Juno, nenhum Euristeu ordena tal coisa. Isso é obra do próprio Hércules.

Anfitrião
 Não tomaste conhecimento de tudo; [480] isto sim é obra do próprio Hércules: Érix fraturado por sua própria luva e junto a Érix o líbio Anteu; e os altares que, gotejantes pela imolação dos hóspedes, beberam com justiça o sangue de Busíris; isto é obra do próprio Hércules: o íntegro Cicno — imune a ferro ou ferida — [485] forçado a padecer a morte; e o não singular Gerião vencido por uma única mão.

Estarás entre esses, que todavia não ultrajaram tálamos com estupro algum.

Lico
 O que é lícito a Júpiter é lícito a um rei: deste uma esposa a Júpiter, darás também a um rei; [490] e tendo-te por mestre, tua nora aprenderá isto, que não é novidade: seguir um homem melhor, e com a aprovação do marido; mas se ela, pertinaz, recusar a se unir a mim em núpcias, mesmo assim obterei um nobre descendente da esposa coagida.

Mégara
 Ó sombras de Creonte e penates de Lábdaco, [495] ó ímpios fachos nupciais de Édipo! Dai agora os fados costumeiros a nosso matrimônio. Agora, vinde agora, ó cruentas noras do rei do Egito, com as mãos impregnadas de abundante sangue. Falta uma Danaide ao cômputo: terminarei o crime nefando. [500]

Lico
 Posto que recusas, obstinada, o nosso matrimônio e repeles um rei, saberás do que são capazes os cetros. Tu abraças os altares, mas nenhum deus te arrebatará de mim, nem mesmo se, demolido o orbe, o vencedor Alcides puder se transportar aos numes súperos. [505] Amontoai as árvores; ardam em chamas os templos sobre os seus suplicantes; ateado o fogo, que uma única pira funerária consuma a esposa e toda a família.

Anfitrião
 Eu, o genitor do alcida, te peço este obséquio, pois me convém rogar: que eu caia primeiro. [510]

Lico
 Quem ordena todos a pagar um castigo com a morte, não sabe ser tirano. Impõe coisas diferentes: impede o mísero de morrer, ordena o ditoso. Eu, enquanto a fogueira cresce com os lenhos a serem queimados, com sacrifício votivo honrarei o soberano dos mares. [515]

Anfitrião
 Ó suprema força dos numes, ó pai e senhor dos celestiais — com cujos dardos arremessados os humanos estremecem — detém a ímpia destra de um fero rei! Por que suplico aos deuses em vão? Onde quer que estejas, meu filho, ouve-me!

Por que desabam os templos, [520] agitados com súbito movimento? Por que ruge o solo? Um fragor infernal ressoou do mais fundo das profundezas. Fui ouvido!

Sim, é o som do passo de Hércules!

***

Coro

Ó Fortuna, invejosa dos varões fortes, quão iníquos prêmios tu divides entres os homens bons! [525] “Reine Euristeu em fácil ócio; que o filho de Alcmena atormente, entre todas as guerras com monstros, suas mãos que já sustentaram o céu: que ele corte os múltiplos pescoços da serpente; enganadas as irmãs, que ele traga de volta as maçãs, [530] quando o dragão — preposto aos preciosos frutos — tiver entregue ao sonos suas mui vigilantes pálpebras.”

Ele adentrou as errantes casas da Cítia e os povos estrangeiros em suas moradas paternas; calcou as superfícies congeladas do oceano [535] e o tácito mar de mudos litorais. Ali, as duras superfícies carecem de ondas, e, por onde as naus estendessem suas velas enfunadas, uma senda é trilhada por intonsos sármatas: instável pelas vicissitudes anuais, o ponto permanece imóvel, [540] propício agora a suportar uma nau, a suportar agora um cavaleiro. Ali, aquela que impera sobre as raças sem marido, unindo as ilhargas com um cinturão dourado, arrancou nobre despojo de seu corpo: não só o escudo, mas também os grilhões de seu níveo peito, [545] contemplando de joelhos o vencedor.

Com que esperança foste enviado aos abismos infernais, e, audaz em trilhar vias sem retorno, viste os reinos da Prosérpina siciliana? Lá, nenhum Noto, nenhum Favônio [550] elevam os mares com túmidas ondas; lá, gêmea linhagem dos tindáridas, as estrelas não socorrem os navios receosos: um lânguido rio jaz em seu negro abismo e — quando a pálida Morte com seus dentes ávidos [555] levou aos manes inúmeras gerações — tantos povos atravessam-no com um único barqueiro.

Praza aos deuses que tu venças as cruéis leis do Estige e das Parcas as irreversíveis rocas! Aqui, o rei que impera sobre povos inúmeros [560] — quando atacavas com guerra a Pilos de Nestor —   contigo            entrelaçou      as             pestíferas        mãos, ostentando sua lança com tríplice ponta; fugiu, atingido com insignificante ferida e, embora senhor da morte, deveras temeu morrer. [565]

Rompe o destino com tua mão: aos triste ínferos esteja acessível a visão da luz, e que o inacessível umbral lhes conceda fáceis caminhos até os súperos. Orfeu pôde render os acerbos senhores das sombras com cantos e preces súplices, [570] enquanto retomava sua Eurídice. A arte que seduzira selvas, aves e pedras, que provocara lentidão nos rios, e a cujo som se detiveram as feras, essa arte acalma os ínferos com vozes não costumeiras [575] e ressoa mais nitidamente nos lugares silenciosos. As Eumênides pranteiam a jovem trácia, pranteiam-na também os deuses infensos a lágrimas; e os juízes — que com fisionomia demasiado tétrica investigam crimes e derrubam antigos réus [580] — sentam-se a prantear Eurídice. Por fim, o árbitro da morte declara: “Fomos derrotados; escapa-te rumo aos súperos, mas dada uma condição: prossegue tu, como companheira, pelas costas de teu homem; e tu, Orfeu, não olha para trás, perante tua esposa, [585] até que o claro dia tenha exposto os deuses e até que esteja perto a passagem do espartano Tênaro.” O verdadeiro amor odeia demoras e não as suporta: enquanto se apressa em contemplar a dádiva, perdeu-a.

O reino que pôde ser vencido com poesia, [590] tal reino poderá ser vencido com forças. _______________________________________

TERCEIRO ATO

Hércules
 Ó senhor da luz nutriz e glória do céu — que, percorrendo os alternados espaços num flamífero carro, mostras tua luminosa cabeça pelas terras alegres — dá–me, ó Febo, a tua vênia, [595] se teus olhos contemplaram algo ilícito: sob ordens expus à luz os arcanos do mundo. E tu, pai e senhor dos súperos, cobre tua visão com o raio oposto. E tu, que reges os mares com o segundo cetro, busca as ondas profundas. [600] Seja quem for que do alto observa as coisas terrenas, temendo ser conspurcado pela estranha forma, desvie o olhar e eleve o rosto aos céus, evitando estes portentos. A esta coisa nefanda, vejam-na somente dois: aquele que a trouxe e aquela que ordenou tal feito. Ao ódio de Juno, [605] as terras não são suficientemente extensas para meus sofrimentos e trabalhos: vi as coisas que são inacessíveis a todos, desconhecidas a Febo, cada um dos espaços obscuros que o polo inferior concedeu ao funesto Jove; e se me agradassem as terceiras regiões da partilha, eu poderia reinar. Venci o caos da noite eterna, [610] e algo mais funesto que a noite; venci os lúgubres deuses e o fados. Menosprezada a morte, retornei. Que outra coisa resta? Vi e expus os ínferos. Se há algo mais, dá-me, Juno: já há muito tempo suportas minhas mãos inativas; que coisas ordenas que sejam vencidas? [615]

Mas por que uma tropa hostil ocupa os templos e o terror das armas bloqueia o sacro portal?

Anfitrião
 Porventura os desejos iludem meus olhos ou de fato aquele domador do mundo e glória da Grécia abandonou a silente morada com sombrias nuvens? [620] Aquele é meu filho? Meus membros paralisam-se de alegria. Ó, filho, certa porém tardia salvação de Tebas! Por acaso observo alguém elevado aos ares ou desfruto, iludido, uma sombra vã? És tu mesmo? Reconheço os músculos e os ombros e também a nobre mão em teu elevado tronco. [625]

Hércules
 Donde vem, meu pai, esse desalinho e minha esposa coberta por vestes lúgubres? Donde meus filhos cobertos de repugnante imundície? Qual desgraça oprime nossa casa?

Anfitrião
 Teu sogro pereceu, Lico apoderou-se dos reinos e procura levar teus filhos, teu pai e tua esposa à morte. [630]

Hércules
 Terra ingrata, ninguém vem em socorro da casa de Hércules? O mundo defendido viu tamanha atrocidade? Por que desperdiço o dia em queixumes? Seja imolada a vítima; que minha virtude leve esta nódoa e torne Lico o último adversário do alcida. [635] Sou impelido a beber o sangue inimigo.

Resiste, ó Teseu, para que nenhuma súbita força ataque. As guerras me requerem. Guarda o abraço para mais tarde, meu pai, guarda-o para mais tarde, minha esposa. Que Lico anuncie a Plutão que eu retornei!

Teseu
 Ó rainha, [640] afasta de teus olhos a expressão lacrimosa; e tu, Anfitrião, uma vez salvo o teu filho, reprime as lágrimas que caem. Se conheço Hércules, Lico pagará a Creonte a punição devida. “Pagará” é demorado: paga; isso também é demorado: [já] pagou.

Anfitrião
 Deus, que tem o poder, favoreça o meu desejo e assista minhas fraquezas. [645]

Ó magnânimo companheiro de meu grande filho, revela o elenco de suas virtudes: quão longa é o caminha que conduz aos tristes manes; como suportou duros grilhões o cão do Tártaro.

Teseu
 Tu me obrigas a recordar ações horrendas [650] mesmo para uma mente tranquila. A custo, ainda, há certeza da aura vital; turva-se a luz de meus olhos e minha vista enfraquecida apenas suporta o desabituado dia.

Anfitrião
 Vence, Teseu, por completo, tudo o que de pavor resta no fundo de teu peito e não te prives do melhor fruto de [655] teus trabalhos: o que foi duro de suportar é doce de se lembrar. Conta as horrendas desventuras.

Teseu
 Invoco a todas as divindades do mundo e a ti, que um reino extenso dominas, e também a ti, a quem em vão procurou tua mãe por todo o mundo: [660] sejame lícito revelar impunemente as leis ocultas e sepultadas pelas terras.

A terra espartana eleva uma célebre montanha, onde o Tênaro com densos bosques oprime o mar; aqui, a casa do odioso Plutão abre suas bocas e escancara-se um elevado rochedo; numa caverna imensa, abre-se um enorme abismo com suas gargantas colossais e um largo caminho se revela a todos os povos. Primeiramente, a via não principia cega pelas trevas; o tênue brilho da luz deixada pelas costas e o incerto fulgor do sol enfraquecido diminuem e [670] iludem a visão. Assim misturado à noite, o dia costuma apresentar sua luz, cedo ou tarde. Daí, estendem-se amplos espaços com regiões vazias, nas quais avança, imerso, todo o gênero humano; e caminhar não é trabalho: a própria via conduz para baixo. [675] Tal como a agitação do mar amiúde arrasta as embarcações contra a sua vontade, assim também os impelem o ar descendente e o ávido caos; e as sombras tenazes jamais consentem que seu passo volte para trás.

Dentro de um imenso golfo, o calmo Lete desliza com plácidas águas [680] e tira inquietações, e para que nunca esteja aberta a possibilidade de voltar, ele envolve sua grave correnteza com muitas curvas: tal como o errante Meandro brinca com ondas incertas, avança e detém-se em dúvida se busca a margem ou a fonte. [685] Jaz imóvel o horrível pântano do inerte Cocito; aqui, o abutre, lá geme a sinistra coruja e ressoa o triste presságio de uma infausta ave noturna. Negras folhagens se eriçam numa fronde sombria, onde o Sono indolente ocupa o sobranceiro teixo; [690] e a triste Fome jaz com sua apodrecida boca escancarada e o tardio Pudor esconde seu rosto culpado. Seguem o Medo e o Pavor, a Ruína e a Dor, rangendo os dentes; seguem o negro Luto e a trêmula Enfermidade e também as Guerras cingidas com ferro; escondida, no extremo, [695] a inerte Velhice auxilia o próprio passo com uma bengala.

Anfitrião
 Por acaso há em alguma parte terra fértil de Ceres ou Baco?

Teseu
 Não germinam prados alegres com verde aparência, nem seara crescida se agita com lene Zéfiro; nenhum bosque tem ramos frutíferos; [700] a estéril vastidão do profundo solo é árida e a horrível terra jaz improdutiva, em eterno abandono — triste fim das coisas, confim do mundo. O ar imóvel permanece parado e a escura noite se assenta nesse mundo vagaroso; tudo é repugnante por sua tristeza, [705] e pior do que a própria morte é a região da morte.

Anfitrião
 Que dizes daquele que governa com um cetro as regiões sombrias?

Posto em que trono dirige os leves povos?

Teseu
 Há um lugar, num obscuro recesso do Tártaro, ao qual uma espessa caligem encerra com pesadas sombras; lá, de uma única fonte manam divergentes águas: uma, semelhante a um rio tranquilo (por esta juram os deuses), que com silenciosa corrente se encaminha ao sacro Estige; outra, feroz, se arrasta com enorme agitação e revolve as pedras com seu turbilhão, [715] o Aqueronte inacessível para ser atravessado novamente. O hostil palácio de Plutão é rodeado pelo duplo rio e sua imensa morada é coberta por um bosque sombrio. Lá, com vasta gruta, pendem os umbrais do tirano: este é o caminho para as sombras, esta é a porta do reino; ao redor dessa entrada, [720] jaz um campo no qual, sentado com soberba expressão, Plutão distribui as almas recémchegadas. Funesta é a majestade do deus, torva a sua fronte, que todavia traz consigo a imagem de seus irmãos e de sua linhagem tão grandiosa; o seu rosto é o rosto de Júpiter, mas do fulminante. Grande parte do terror desse reino [725] é o seu próprio senhor, a cujo aspecto teme tudo o que é temido.

Anfitrião
 É verdadeira a fama dos infernos, de que as leis tardias já são retribuídas e de que os malfeitores, esquecidos de seus crimes, recebem as devidas penas? Que é esse guia da verdade e árbitro da equidade? [730]

Teseu
 Não há somente um inquisidor, estabelecido em alta sede, que reparte os tardios juízos aos reús inquietos: dirigem-se àquele foro Minos, de Cnosso; Radamanto, àquele; neste, ouve o sogro de Tétis. O que cada um fez, o mesmo padece; o crime retorna ao autor [735] e o criminoso é molestado por seu próprio exemplo. Vi cruentos comandantes serem encerrados no cárcere e as costas de impotente tirano serem rasgadas por mão plebeia. Todo aquele que é poderoso com brandura e, senhor da vida, conserva suas mãos inofensivas, [740] todo aquele que, pacífico, rege um império não sanguinário e preserva vidas, tendo percorrido, por muito tempo, os longos espaços de uma existência vivificante, ou alcança os céus, ou, feliz, alcança as alegres regiões dos Campos Elíseos, como futuro juiz. Tu — sejas quem for — que governas, abstém-te do sangue humano: [745] teus crimes são avaliados com maior medida.

Anfitrião
 Um local específico mantém reclusos os culpados? E, conforme manifesta a fama, suplícios cruéis subjugam os ímpios com perpétuos grilhões?

Teseu
 O retorcido Ixíon é arrastado por uma roda veloz; [750] uma grande pedra está assentada na cerviz de Sísifo; em meio a uma torrente, o velho com garganta ressequida persegue as ondas; a água banha o seu queixo, e quando lhe deu confiança, já tantas vezes enganado, a onda desaparece em sua boca; frutos desamparam a sua fome. [755] Tício oferece um eterno banquete a um pássaro. As Danaides incumbem-se de vasos ilusoriamente cheios. Vagam enlouquecidas as ímpias filhas de Cadmo. Uma ave insaciável aterroriza as mesas de Fineu.

Anfitrião
 Revela agora a célebre luta de meu filho. [760] De seu tio propício ele obtém um presente ou um espólio?

Teseu
 Um lúgubre rochedo pende sobre as lentas águas, onde um estreito vagaroso se torna inerte, com as ondas paradas. Guarda este rio um velho medonho por seus modos e por sua aparência; esquálido, ele transporta os pávidos manes. [765] Pendelhe a barba desgrenhada, um nó aperta sua toga disforme. Reluzem côncavas as órbitas de seus olhos. Sendo ele próprio o barqueiro, com uma longa vara dirige sua barca. Aproximando da orla a popa livre de carga, ele torna a buscar as sombras. Alcides pede passagem; [770] tendo recuado a multidão, Caronte exclama sinistro: “Aonde vais, descarado? Detém o teu apressado passo!”. O filho de Alcmena não suportou mais delongas: com o próprio remo submete o coagido nauta e escala a popa. A barca, capaz de suportar multidões, [775] sucumbiu com um único homem. Ele se senta, e ficando mais pesada, a barca bebe o Lete pelos dois lados, com a lateral titubeante. Então, os monstros vencidos se agitam, os ferozes Centauros e os Lápitas excitados para a guerra por conta de muito vinho; buscando as últimas curvas do pântano estígio, [780] mergulha sua fecunda cabeça, o trabalho de Lerna. Depois disso, surge a casa do avaro Plutão: aqui, amedronta as sombras o selvagem cão estígio, que guarda o reino agitando sua trina cabeça com grande som. Cobras lambem sua cabeça suja com sangue corrompido, [785] pelos de víboras se eriçam e uma longa serpente sibila em sua cauda retorcida. Sua ira é semelhante à sua forma: tão logo sente o movimento de pés, ergue as cabeleiras hirtas, com a serpente agitada e com a orelha levantada capta o som enviado, [790] habituado a sentir até as sombras. Assim que o nascido de Júpiter se deteve mais próximo ao antro, o cão, inseguro, sentou-se e ambos temeram. Eis que aterroriza os mudos lugares com seu grave latido; sibila a ameaçadora serpente por todas as suas espáduas. O fragor da horrenda voz [795] emitido por sua tripla boca apavora também as sombras felizes. Então, Hércules desata os feros rictos e põe diante de si a cabeça de Cleonas e se protege com o imenso escudo; trazendo uma grande clava em sua mão vitoriosa, [800] com incessantes golpes ele a brande, ora aqui, ora lá, e reitera as pancadas. Domado, o cão cessou as ameaças e abaixou, cansado, todas as cabeças e retirou-se por inteiro da caverna. Assustaram-se ambos os senhores, assentados em seu trono, e ordenaram que conduzissem o cão; [805] entregaram-me também, como presente, ao suplicante Alcides. Depois disso, afagando com sua mão os pesados pescoços do monstro, prendeu-os com o tecido adamantino. Esquecido de si, o sempre vigilante cão de guarda do reino sombrio abaixa, tímido, as suas orelhas e — tolerando ser arrastado, reconheceu o seu dono, obediente, com a boca submissa [810] — toca ambos os lados com sua cauda anguífera. Depois que chegou às bocas do Tênaro e o brilho da luz desconhecida atingiu seus olhos não habituados, o cão vencido recobrou os ânimos e, delirante, [815] sacudiu as imensas correntes. Quase arrebatou o vencedor e lhe arrastou, inclinado para trás, deslocando o seu passo. Nesse instante, Alcides volveu os olhos para minhas mãos; com as forças duplicadas, trouxemos ao orbe o cão, enlouquecendo de ira e tentando guerras inúteis. Assim que Cérbero viu o claro dia e contemplou os puros espaços do céu resplandecente, a noite surgiu e apresentou à terra suas luzes; o cão apertou seus olhos e repeliu o detestável dia, desviou o olhar para trás e atirou-se à terra com [825] toda a sua cerviz; então, escondeu as cabeças sob a sombra de Hércules.

Mas eis que vem uma multidão numerosa com alegre aclamação, trazendo o louro nas frontes e cantando merecidos louvores ao grandioso Hércules.

***

Coro

Nascido de parto prematuro, [830] Euristeu ordenara que penetrasse o fundo do mundo. Somente este faltava ao número dos trabalhos, espoliar o rei da terceira partilha. Ousaste adentrar os cegos acessos, por onde uma via conduz aos manes remotos, [835] triste e negra selva medonha, mas frequentada por imensa turba que nela se junta. Tal como um povo caminha pelas cidades, ávido, aos jogos de um novo teatro, tal como corre ao Tonante da Élida, [840] quando o quinto estio novamente convoca os ritos; tal como a turba — quando torna a crescer o tempo da longa noite, e a Libra justa, desejosa de sonos tranquilos, retém os carros de Febo — que frequenta o mistério de Ceres [845] e, deixadas as casas, os ligeiros iniciados de Atenas se apressam a celebrar a noite: assim a turba é impelida pelos campos silentes. Uma parte, vagarosa pela velhice, caminha triste e saciada pela longa vida; outra parte, ainda, de melhor idade, corre: virgens ainda não ligadas pelos tálamos e efebos com os cabelos ainda não consagrados, e o infante que há pouco aprendeu o nome da mãe. Somente a estes foi dado, para que temessem menos, [855] suavizar a noite com o fogo posto adiante. Os outros caminham tristes pelas escuras regiões.

Qual é o vosso ânimo, quando, removida a luz, cada um, triste, sente que sua cabeça está sepultada pela terra? [860] Jazem o denso caos e as trevas horrendas, e a cor funesta da noite ou o ócio do mundo silente e as nuvens vazias. Que a velhice nos envie para lá tardiamente! Ninguém vai tarde a esse lugar, donde, [865] uma vez que foi, nunca pode retornar. O que ajuda apressar esse duro destino? Toda essa multidão que vaga por grandes terras irá aos manes e navegará até o inerte Cocito. Tudo cresce para ti, [870] não só o que o ocaso vê, mas também o orto; poupa os que virão: para ti, ó Morte, nos preparamos. É lícito que sejas preguiçosa: nós mesmos nos apressamos; a primeira hora que deu a vida a colhe.

Um dia feliz se aproxima de Tebas. Tocai reverentes os altares, sacrificai gordas vítimas; jovens mulheres misturadas a varões entoem coros solenes. Descansem, deposto o jugo, [880] os habitantes do campo fértil. Pelas mãos de Hércules há paz entre Aurora e Héspero e onde o sol, ocupando o meio, nega a sombra aos corpos; [885] todo solo que é banhado pelo extenso contorno de Tétis o trabalho de Alcides domou. Tendo atravessado os vaus do Tártaro, ele retornou dos ínferos pacificados. [890] Já não resta temor algum: nada jaz além dos ínferos.

— As eriçadas cabeleiras, ó tu que sacrificas, cobre-as com o dileto choupo. _______________________________________

QUARTO ATO

 

Hércules
 Estatelado por minha destra vingadora, [895] com a face contra a terra caiu Lico; ademais, quem quer que tenha sido companheiro do tirano tombou, companheiro também de seu castigo. Agora, vencedor, oferecerei sacrifícios a meu pai e aos súperos e honrarei os merecedores altares com vítimas imoladas.

A ti, companheira e ajudante de meus trabalhos, a ti invoco, [900] ó belígera Palas, em cuja esquerda tua égide profere ameaças ferozes com sua boca petrificante. Esteja presente o vencedor de Licurgo e do rubro mar, portando sua lança coberta com o tirso verdejante; e os numes gêmeos, Febo e a irmã de Febo [905] (a irmã é mais apta para as setas; Febo, para a lira) e todo irmão meu que habita o céu, irmão que não venha de minha madrasta. Trazei para cá opimos rebanhos; tudo o que se corta dos campos da Índia, tudo o que os árabes colhem de árvores odoríferas [910] amontoai nos altares, transborde o vapor da gordura. Que a árvore do choupo enfeite meus cabelos. A ti, Teseu, cubra um ramo de oliveira, com a folhagem da tua nação. Minha mão ao Tonante adorará, e tu, aos fundadores da cidade e às grutas silvestres [915] do selvagem Zeto; cultues Dirce, de nobre água, e o Lar tírio, de rei estrangeiro — entregai o incenso às chamas.

Anfitrião
 Filho, primeiro purifica as tuas mãos, gotejantes pela sangrenta e hostil matança.

Hércules
 Oxalá que eu pudesse fazer libação aos deuses com o sangue da odiosa cabeça! [920] Nenhum líquido mais aprazível teria banhado os altares; nenhuma outra vítima mais ilustre e mais opulenta do que um rei iníquo pode ser imolada a

Júpiter.

Anfitrião
 Pede que teu pai ponha um fim aos teus trabalhos, e que finalmente seja concedido o ócio e o descanso aos fatigados.

Hércules
 Eu mesmo conceberei preces dignas de Júpiter e de mim. Permaneçam em seu lugar o céu, a terra e o mar; que os astros eternos percorram cursos desimpedidos; profunda paz alimente os povos; que o trabalho de inofensivo campo retenha todo ferro: [930] ocultem-se as espadas. Nenhuma tempestade violenta perturbe o mar; nenhum raio seja lançado pelo irado Júpiter; nenhuma torrente, alimentada pela neve do inverno, arraste os campos arruinados. Cessem os venenos, nenhuma erva perniciosa [935] se intumesça com suco letal. Não reinem tiranos cruéis ou violentos; se a terra ainda há de trazer algum crime, que se apresse, e se prepara algum monstro, que seja meu!

— Mas o que é isto? As trevas encobriram o meio-dia. Febo caminha com o rosto obscuro, [940] sem nuvem. Quem afugenta o dia para trás e o impele ao orto? Donde uma noite ignota exibe sua negra cabeça? Donde tantas estrelas diurnas enchem o céu? Eis aqui o meu primeiro trabalho: o Leão refulge em parte não mínima do céu, [945] ferve de ira por inteiro e prepara o ataque. Logo arrebatará algum astro: está ameaçador com sua ingente boca, e expele chamas e brilha, com sua cerviz agitando a juba; tudo o que o grave outono e o frio inverno trazem de volta no gélido espaço, [950] tudo com único ímpeto ele ultrapassará e também atacará e quebrará o pescoço do Touro primaveril.

Anfitrião
 Que súbito mal é esse? Aonde, meu filho, diriges acerbos olhares, aqui e acolá? Com perturbada visão vês um falso céu?

Hércules
 A terra foi completamente subjugada, cessaram as túmidas águas, [955] os reinos infernais sentiram meu ímpeto; o céu está imune, digno trabalho do alcida. Aos altos espaços do mundo, sublime seja eu elevado, seja alcançado o éter; meu pai me promete os astros. O que? Se ele negaria? A terra não aprisiona Hércules [960] e finalmente o devolve aos súperos. Além disso, eis que toda a assembleia dos deuses me chama e abre suas portas, opondo-se apenas uma. Tu me recebes e abres o céu? Ou arrasto a entrada do mundo contumaz? Ainda duvidas? Desatarei os grilhões de Saturno e, [965] contra o reino de um pai ímpio, soltarei, insolente, meu avô. Preparem guerras os Titãs delirantes, tendo-me por chefe. Rochedos com selvas transporte e arrebate montes cheios de Centauros. Com montes duplicados prepare já um caminho aos súperos. [970] Que, sob o Ossa, Quíron veja o seu Pélion; posto como terceiro degrau, o Olimpo chegará ao céu ou a ele será arremessado.

Anfitrião
 Afasta para longe tais sentimentos abomináveis! De teu peito pouco são, porém grande, reprime o ímpeto demente. [975]

Hércules
 O que é isto? Os Gigantes pestíferos agitam suas armas. Tício escapou das sombras e, trazendo o peito lacerado e inane, quão próximo ao céu ele se posicionou! Citéron se abala, a elevada Palene estremece e murcham as belezas do Tempe. Este arrebatou os cimos do Pindo, [980] aquele arrebatou o Eta; Mimante se enfurece horrendamente. Flamífera Erínis ressoa com seu agitado azorrague e estende perante minha face, mais perto e mais perto, estacas queimadas em piras funerárias. A furiosa Tisífone — a cabeça armada com serpentes — depois de ter sido raptado o cão, [985] fechou a porta vacante com a tocha oposta.

— Mas eis que se esconde a prole do rei inimigo, a descendência nefanda de Lico. Ao odioso pai esta destra já vos devolverá. Que o arco arremesse leves flechas:

assim convém serem lançados os dardos de Hércules. [990]

Anfitrião
 Aonde se arrojou o cego furor? Ele flexionou o vasto arco, com as extremidades pressionadas, e soltou a aljava; ressoa estrídula a flecha lançada com ímpeto. No meio do pescoço cravou-se a seta, deixando uma ferida.

Hércules
 Destruirei as prole restante [995] e todos os seus esconderijos. Por que me demoro? Resta-me uma guerra maior em Micenas, para que desmoronem seus rochedos de Ciclopes, arruinados por minhas mãos. Para aqui e para lá vá a sua porta, derrubado o ferrolho e rompam-se os umbrais. Empurrado, desabe o cimo do batentes.

[1000] Transparece todo o palácio real: vejo aqui escondido um filho do pai celerado.

Anfitrião

Eis que, estendendo as delicadas mãos aos joelhos, roga com voz miseranda. Que crime nefando, triste e horrendo por seu aspecto: com sua destra Hércules arrebatou o suplicante e, girando-o diversas vezes, [1005] arremessou-o, delirando. Sua cabeça, todavia, ressoou: os tetos impregnaram-se com o cérebro disperso. Por outro lado, mísera, protegendo em seu seio o pequeno filho, Mégara foge do esconderijo semelhante a uma louca.

Hércules
 Ainda que te escondas, fugitiva, no seio do Tonante, [1010] esta destra te buscará onde quer que seja e te trará.

Anfitrião
 Aonde vais, mísera? Que fuga ou esconderijo buscas? Com Hércules por inimigo, não existe local de salvação. Antes, tenta abraçá-lo e acalmá-lo com branda súplica.

Mégara
 Pára agora, meu esposo, eu te suplico, [1015] reconhece Mégara! Este filho reproduz teus traços e teus modos. Percebes como ele estende suas mãos?

Hércules
 Observo minha madrasta. Segue-me, recebe o castigo, e liberta do torpe jugo o oprimido Júpiter; porém, antes da mãe, pereça este pequenino monstro.

[1020]

Anfitrião
 Aonde vais, demente? Derramarás teu próprio sangue? Apavorada pelo ígneo semblante do pai, a criança perece antes do golpe: o medo arrebatou-lhe o espírito. Na esposa, agora, é lançada a pesada clava: quebrou-lhe por completo os ossos, ao corpo mutilado falta a cabeça, [1025] que não está em nenhuma parte. (dirigindo-se a si mesmo) — Ousas contemplar tal coisa, ó velhice tão duradoura? Se o luto aborrece, tens a morte preparada. (dirigindo-se a Hércules) — Crava os dardos em meu peito, ou melhor, a ele volta essa estaca impregnada com o sangue dos monstros; aniquila este pai falso e indigno de teu nome, [1030] para que não seja importuno à tua glória.

Coro
 Para que, ancião, a ti próprio ofereces ao encontro da morte? Aonde vais, demente? Foge e, escondido bem longe, furta esse único crime às mãos de Hércules.

Hércules
 Está bem: foi destruída a casa do aviltante rei. [1035] Sacrifiquei esta grei consagrada a ti, ó esposa do maioral Júpiter; com gosto cumpri estes votos dignos de ti e Argos dará a ti outras vítimas.

Anfitrião
 Ainda não completaste a imolação, meu filho: consuma o sacrifício. Eis aqui a vítima no altar, ela espera a tua mão [1040] com a cerviz inclinada; ofereço-me, apresento-me, sigo: mata! — O que é isto? Falha a acuidade de meus olhos e a mágoa embota minha visão ou de fato vejo as mãos trementes de Hércules? Seu rosto cai em sono e o pescoço desaba, fatigado, com a cabeça baixa. [1045] Com o joelho flexionado, ele todo já desaba à terra, como o freixo caído nos bosques ou então como o molhe que dará um porto ao mar. Vives ou porventura te entregou ao falecimento o mesmo delírio que envio os teus à morte? É um sono profundo: um movimento produz alternadas respirações. [1050] Seja concedido o tempo de repouso, para que a força vencida da enfermidade alivie, com sono pesado, o seu peito oprimido. — Removei os dardos, fâmulos, para que não os retome o delirante.

***

Coro

Estejam enlutados o céu [1054] e o grande pai do alto éter, [1054bis] e a terra fértil e as ondas errantes do mar inconstante, e, antes de todos, tu, [1057] que pelas terras e pelos espaços do mar [1057bis] dispersas teus raios e a noite afugentas com teu rosto formoso, ó fogoso Titã; [1060] contigo, [1060bis] Alcides igualmente viu o ocaso e o orto e conheceu as tuas duas moradas.

Livrai o seu espírito de tantos monstros, ó súperos, livrai-o; [1064] tornai reta a sua mente, em melhor estado. [1064bis]

E tu, ó Sono domador de males, repouso da alma, melhor parte da vida humana, ó volátil descendente de astrífera mãe, lânguido irmão da dura Morte, que misturas coisas falsas com verdadeiras, [1070] certeiro e igualmente péssimo autor do futuro, paz das coisas, porto da vida, descanso da luz e companheiro da noite, que vens igualmente ao rei e ao fâmulo, que ao gênero humano, temeroso da morte, [1075] obrigas a conhecer a longa noite: calmo e suave, acolhe o cansado e com pesado torpor retém o subjugado; que o sono profundo detenha seus indômitos membros e não abandone o torvo peito [1080] antes que sua mente de outrora recupere seu curso.

Eis que, estendido no solo, revolve sonhos violentos em seu feroz coração — ainda não foi superada a desgraça de tão grande mal — e, habituado a entregar sua cabeça cansada [1085bis] à pesada clava [1085], busca esse peso na destra vazia, agitando os braços em um movimento vão, e até agora não expulsou todas as suas perturbações; mas — como uma onda agitada por ingente Noto conserva longos tumultos [1090] e se incha, já cessado o vento — assim Hércules conserva suas perturbações. Repele os insanos turbilhões da alma! Retornem ao varão a piedade e a virtude! Ou, de preferência, seja excitada a sua mente por desvairado movimento: [1095] que o cego erro vá por onde começou. Agora, só o delírio pode te garantir como inocente; [1098] a sorte mais próxima das mãos puras [1098bis] é desconhecer o crime.

Agora, ressoe o peito percutido pelas mãos de Hércules. [1101] Aos braços acostumados a carregar o mundo, [1101bis] firam os açoites com mão vingadora. Que o éter escute os grandes gemidos, escutem-nos a rainha do polo sombrio e aquele, feroz, [1105] que traz seus pescoços presos com grandes correntes, Cérbero, que jaz oculto em seu antro profundo, escute-os também o ar [1110] (que melhor sentira, todavia, os teus dardos!). Peitos dominados por tamanhos males não deverão ser feridos por um golpe leve. Com um só pranto ressoem os três reinos!

E tu, ornato e arma durante tanto tempo suspenso em seu pescoço, ó flecha vigorosa, e tu, pesada aljava, [1117] lançai cruéis açoites no dorso feroz. [1117bis] Carvalhos abatam os fortes ombros e um tronco potente oprima seu peito com duros nós. [1120] Que as armas lamentem tão grandes dores!

Vós, que não fostes companheiros da glória paterna, que a reis cruéis vingastes com a desgraça, que não fostes ensinados a exercitar os membros [1125] no ginásio argivo — fortes na luta, fortes na mão [1125bis] — agora, porém, ousastes brandir o leve dardo da aljava cita, lançado com mão certeira, e transpassar todos os cervos em sua fuga, mas não o dorso da fera cabeluda. [1130]

Ide aos portos estígios, ó sombras, ide, ó inocentes, a quem — no primeiro limiar da vida — o crime e o delírio do pai destruiu: ide, ó meninos, infausta descendência, [1135] pelo triste caminho do notório trabalho. Ide, visitai os reis irados. _______________________________________

QUINTO ATO

Hércules
 Anfitrião
 Teseu

Hércules
 Que lugar é este? Que região, que território do mundo? Onde estou? Sob o nascer do Sol ou sob o ponto da Ursa glacial? Porventura a terra mais remota do mar da Hespéria [1140] confere este limite ao Oceano? Que ares respiro? Que solo jaz sob este homem cansado? Certamente regressei. Donde vejo corpos ensanguentados, deitados numa casa? Acaso minha mente ainda não se livrou das imagens infernais? Também depois de retornado [1145] uma turba funesta vaga em torno de meu olhos? Envergonha-me confessá-lo: tenho medo; ignoro, ignoro que grande mal pressagia meu espírito. Onde estás, meu pai? Onde está aquela esposa orgulhosa de sua prole? Por que meu lado esquerdo está livre [1150] do espólio do Leão? Para onde foi meu escudo e também o suave leito para o sono hercúleo? Onde estão os dardos? Onde está o arco? Estando eu vivo, quem pôde me tirar as armas? Quem me tomou tantos despojos e quem não se atemorizou com o próprio sono de Hércules? [1155] Agradariame ver o meu vencedor, agradaria-me. — Levanta-te, virtude! A quem, novo, abandonado o céu, o pai gerou, em cujo parto a noite foi mais longa que a minha?

— Que crime contemplo? Meus filhos jazem mortos por cruento massacre, [1160] jaz perecida minha esposa. Que Lico ocupa meu reino? Retornado Hércules, quem ousou tramar tamanhos crimes em Tebas? Sejas quem for que habitas as regiões do Ismeno, que cultivas os campos da Ática, que habitas os reinos do Pélops dardânio, tocadas por um duplo mar: [1165] socorre-me, indica o autor desta cruel calamidade. Desabe minha ira sobre todos: o inimigo e quem não me mostra o inimigo. Vencedor do alcida, te escondes? Aparece, quer tu reivindiques os ferozes corcéis do sanguinário trácio, quer reivindiques o gado de Gerião [1170] ou os senhores da Líbia; não deve haver demora para lutar. Eis me aqui, desnudo; ou se o queres, é licito que com minhas armas me ataques inerme.

Por que Teseu e meu pai evitam meus olhares? Por que escondem seus rostos?

Dispersai o choro; quem a todos os meus, simultaneamente, entregou à morte? [1175]

Dize. Por que te calas, meu pai? Ao menos tu, ó Teseu, revela! Por tua fidelidade, Teseu. Ambos cobrem, tácitos, os rostos pudicos e furtivamente derramam lágrimas. Em meio a tamanhas desgraças, o que deve causar vergonha? Por acaso o tirânico soberano [1180] da cidade argiva, por acaso o encarniçado exército do perecido Lico nos aniquilou com tão grande flagelo? Pelo mérito de minhas façanhas, rogo-te, meu pai, e pelo poder do teu nome, sempre favorável a mim: fala! Quem abateu minha casa? [1185] Caí como presa de quem?

Anfitrião
 Silenciosos, assim vão-se os males.

Hércules
 Para que eu fique sem vingança?

Anfitrião
 A vendeta amiúde prejudica.

Hércules
 Algum covarde tolerou tamanhos males?

Anfitrião
 Aquele que temeu males maiores.

Hércules
 Pode-se temer algo ainda maior e mais pesado que isto, meu pai?

[1190]

Anfitrião
 Quão pequena é essa parte da tua desgraça de que tomaste conhecimento!

Hércules
 Compadece-te de mim, meu pai, estendo-te minhas mãos súplices. Que é isto? Minha mão recua. Aqui erra o crime. Donde este sangue? Por que aquela flecha embebida com a morte de um menino. Está tingida pela morte de Lerna. [1195] Agora vejo os meus dardos. Não procuro conhecer a mão. Quem pôde flexionar meu arco ou que destra pôde curvar a corda que cede apenas a mim? Volto-me a ti, meu pai:

este crime é meu? Calaram-se. O crime é meu.

Anfitrião
 Este luto é teu, [1200] o crime é de tua madrasta; esta desgraça carece de culpa.

Hércules
 Agora, desde toda parte, meu pai, troveja irado: esquecido de mim, vinga pelo menos os teus netos, com mão tardia. Ressoe o firmamento estrelado e que lancem chamas este e aquele polo. [1205] Rochas do Cáspio e ávido pássaro arrastem meu corpo amarrado. Por que estão vazios os rochedos de Prometeu? Por que esta vazio, com seu vértice imenso, o escarpado flanco do Cáucaso, alimentando feras e aves, desnudo de bosques? Aquelas Simplégadas, [1210] que reduzem o mar da Cítia, distendam minhas mãos no alto mar, de um lado e de outro; e quando, chegada a vez, as pedras se juntarem, elevem ao céu o mar que está no meio delas, agitados os rochedos de uma parte a outra, que eu fique como turbulento obstáculo desses montes. [1215] Amontoados os lenhos, empilhado o material acumulado, por que não queimo o meu corpo, espargido com ímpio sangue? Assim, assim deve ser feito: devolverei Hércules aos ínferos.

Anfitrião
 Ainda não privado de assombrosa perturbação, seu peito deslocou as iras, e, o que é próprio da loucura, [1220] enraiveceu-se contra si próprio.

Hércules
 Sinistras regiões das Fúrias, cárcere dos ínferos e plaga destinada à turba nociva! Se algum exílio se esconde além do Érebo, desconhecido para Cérbero e para mim, oculta-me nesse lugar, ó Terra; ao extremo confim do Tártaro [1225] irei para ficar.

Ó peito excessivamente cruel! Espalhados por toda a casa, ó filhos, quem vos poderá prantear dignamente? Este rosto, embrutecido pelos males, não sabe chorar. Daime cá o arco, dai-me cá as setas, para cá dai-me a grande clava. [1230] A ti quebrarei meus dardos, a ti, meu filho, arrebentarei meu arco; minha pesada clave, porém, queimarei para as tuas sombras; a própria aljava, repleta com os dardos de Lerna, irá às tuas piras — sejam punidas as minhas armas. Também vos queimarei, [1235] ó mãos de madrasta, desgraçadas por meus dardos

Anfitrião
 Quem, em algum lugar, acrescentou o nome de crime a um erro?

Hércules
 Muitas vezes um imenso erro ocupou o lugar de um crime.

ANTITRIÃO. Agora é necessário um Hércules: suporta esta imensidão de males.

Hércules. Assim não cedeu meu pudor, extinto pela loucura, [1240] de modo que eu afugente todos os povos com meu ímpio aspecto. Minhas armas, minhas armas, Teseu, exijo que me sejam restituídas depressa as coisas que haviam sido retiradas. Se minha mente está sã, devolvei os dardos às minhas mãos; se permanece a loucura, meu pai, afasta-te: que eu encontre o caminha da morte. [1245]

Anfitrião
 Pelos sagrados ritos de minha família, pelo direito de ambos os meus nomes, quer me chames de tutor, quer de pai; pelos meu cabelos brancos honrados pelos piedosos, respeita a minha velhice desamparada e os meus fatigados anos, eu te suplico. Único sustentáculo de uma casa arruinada, [1250] única luz a um afligido por calamidades, preserva-te a ti mesmo. Fruto algum dos teus trabalhos me alcançou; sempre temi o dúbio mar ou os monstros; qualquer rei cruel que enlouqueça, em todo o mundo, fazendo o mal com suas mãos ou altares, [1255] é temido por mim; pai de alguém sempre ausente, reclamo a fruição de ti, o teu toque, a visão de ti.

Hércules
 Não há razão alguma para que eu detenha minha alma nesta luz e me demore por mais tempo. Já perdi todos os meus bens: mente, armas, fama, esposa, filhos, mãos [1260] e até mesmo a loucura. Ninguém poderia tratar um espírito corrompido; meu crime deve ser sanado com a morte.

Anfitrião
 Estás a destruir teu pai.

Hércules
 Para que não possa fazê-lo, pereço.

Anfitrião
 Perante teu genitor?

Hércules
 Ensinei-lhe a contemplar um crime nefando.

Anfitrião
 De preferência considerando os feitos que serão rememorados por todos, [1265] pede perdão por teu único crime.

Hércules
 Concederá o perdão a si próprio, aquele que a ninguém o concedeu? Os feitos que serão louvados, executei-os ordenado: este único é meu. Socorre-me, meu genitor; quer te mova a piedade, quer o triste fado ou o violado decoro de minha virtude, [1270] traze-me as armas. Por minha destra seja vencida a Fortuna.

Teseu
 Por certo as preces paternas são bastante eficazes, mas comove-te também com o meu pranto. Levanta-te e aniquila as adversidades com o teu ímpeto costumeiro. Agora, recobra o teu ânimo sem igual [1275] perante nenhum mal; agora, a grande virtude deve ser desempenhada por ti; impede Hércules de irar-se.

Hércules
 Se vivo, cometi crimes; se morro, suportei-os. Apresso-me a purificar as terras. Há muito tempo me ronda um monstro ímpio e cruel, acerbo e feroz: [1280] vai, minha destra, tenta empreender uma obra ingente, maior que teus doze trabalhos. Covarde, protelas? Ainda há pouco eras forte contra meninos e pávidas mães? Se não me forem entregues as armas, derrubarei todo a elevada floresta do Pindo trácio [1285] e comigo queimarei os bosques sagrados de Baco e os cimos de Citéron ou todos os abrigos, com seus domésticos e senhores; os templos tebanos com todos os deuses suportarei sobre o meu corpo e ficarei sepultado na cidade destruída; [1290] e se as muralhas caírem sobre os meus fortes ombros, arrojadas como leve peso, e se, enterrado pelas sete portas, eu não for esmagado o bastante, o peso no qual meia parte do mundo se assenta e o qual divide os súperos, isso entornarei sobre minha cabeça.

Anfitrião
 Devolvo-te as armas.

Hércules
 É uma fala digna do genitor de Hércules. [1295] Eis que neste lugar o menino caiu morto por um dardo.

Anfitrião
 Juno atirou este dardo por meio de tuas mãos.

Hércules
 Que agora eu o utilize.

Anfitrião
 Eis o quão mísero meu coração palpita pelo medo e, ansioso, fere meu peito.

Hércules
 A flecha está preparada.

Anfitrião
 Eis que agora cometerás um crime, [1300] voluntariamente e estando consciente.

Hércules
 Dize, o que ordenas que seja feito?

Anfitrião. Nada peço; minha dor está em segurança: só tu podes preservar o meu filho; nem tu podes arrebatá-lo de mim. Livrei-me do medo máximo: deveras não podes me tornar miserável; podes me fazer feliz. [1305] Assim, decide; o que quer que decidas, saibas que a tua causa e a tua fama estão em apuros e em perigo: ou vives ou me matas. Esta alma leve e cansada pela velhice e não menos cansada pelos males, tenho-a no começo de minha boca. Tão lentamente [1310] alguém dá a vida a seu pai? Não suportarei mais demora, cravarei o ferro letal em meu peito marcado; aqui, aqui jazerá o crime de um Hércules são.

Hércules
 Retém agora, meu pai, retém, recua agora a tua mão. Sucumbe, ó virtude, cumpre a ordem de meu pai. [1315] Acrescente-se aos trabalhos hercúleos também este: vivamos! Teseu, ergue do solo os membros abatidos de meu pai; minha destra criminosa evita os contatos piedosos.

Anfitrião
 Com prazer eu acolho esta mão, nela irei apoiado: aproximando-a de meu peito angustiado, [1320] expulsarei minhas dores.

Hércules
 A que lugar recorreria como prófugo? Onde me esconderia ou em que terra sepultar-me-ia? Que Tânais ou que Nilo, que Tigre violento de onda pérsica, que Reno feroz ou que Tago turbulento, a fluir com sua riqueza ibérica, [1325] poderá lavar minha destra? Ainda que a gélida Meótida em mim derrame o ártico mar e Tétis inteira corra por minhas mãos, o crime permanecerá ligado profundamente às minhas mãos.

A que terras, ímpio, tu te recolherás? Procurarás o orto ou o ocaso? [1330] Conhecido por toda parte, perdi o lugar para meu exílio. O orbe me evita; oblíquos, os astros percorrem cursos transversos; o próprio Titã viu Cérbero com melhor expressão.

Ó Teseu, leal cabeça, busca para mim um esconderijo longínquo, secreto; [1335] visto que, juiz do crime alheio, sempre amas os culpados, retribui a gratidão e a recompensa por meus méritos: devolve-me aos infernos, eu te suplico, reconduzido às sombras; entrega-me, sujeito aos teus grilhões; aquele lugar me ocultará [1340] — mas ele também me conheceu.

Teseu
 A minha terra te aguarda. Lá, Gradivo restituiu às armas suas mãos, purificadas de um massacre. Ela te chama, Alcides, a terra que costuma tornar inocentes os súperos.

 

FIM