Livro de Orígenes

Livro de Orígenes

I – Infância

  1. O imperador Severo suscitou uma perseguição contra as igrejas. Em todas as partes consumaram-se esplêndidos martírios dos defensores da religião, mas multiplicaram-se especialmente em Alexandria. [Eusébio 6.1.1]
  2. Os defensores de Deus foram enviados para lá, como ao maior estádio, desde o Egito e de toda a Tebaida.[Eusébio 6.1.1]
  3. E por sua firme paciência em diversos tormentos e gêneros de morte, cingiram-se com as coroas preparadas por Deus. [Eusébio 6.1.1]
  4. Entre eles achava-se também Leônidas, chamado o pai de Orígenes, que foi decapitado, e deixou seu filho ainda muito jovem. [Eusébio 6.1.1]
  5. Não seria demais descrever brevemente com que predileção pela palavra divina viveu o rapaz desde então, já que é muito abundante o que se conta sobre ele entre o povo. [Eusébio 6.1.1]
  6. Muitas coisas poderiam dizer, na verdade, quem tentasse colocar por escrito a seu gosto a vida deste homem. [Eusébio 6.2.1]
  7. Mas dispor ordenadamente o que a ele diz respeito exigiria inclusive uma obra especial. [Eusébio 6.2.1]
  8. Mesmo assim, nós resumiremos por enquanto com a brevidade possível a maior parte [Eusébio 6.2.1]
  9. E exporemos sobre ele somente algumas coisas tomando dos dados de algumas cartas e do relato dos discípulos que sobreviveram até nossos dias. [Eusébio 6.2.1]
  10. Sobre Orígenes, mesmo os fatos de quando usava fraldas, por assim dizer, parecem-me dignos de menção. [Eusébio 6.2.2]
  11. Seguia Severo pelo décimo ano de seu reinado, e Leto governava Alexandria e o resto do Egito. [Eusébio 6.2.2]
  12. O episcopado das igrejas dali acabara de passar a Demétrio, sucedendo a Juliano. [Eusébio 6.2.2]
  13. Ao acender-se pois, com a maior violência a fogueira da perseguição e sendo inumeráveis os que se cingiam com a coroa do martírio. [Eusébio 6.2.3]
  14. Tal foi a paixão do martírio que se apoderou da alma de Orígenes, ainda um menino, que ardia para lançar-se de encontro aos perigos e pular e jogar-se à luta. [Eusébio 6.2.3]
  15. Muito pouco faltou, na verdade, para que a morte se aproximasse; [Eusébio 6.2.4]
  16. Caso não fosse pela divina e celestial providência que, em proveito da grande maioria e por meio de sua mãe, se interpôs como obstáculo ao seu zelo. [Eusébio 6.2.4]
  17. Ela primeiramente rogou-lhe com palavras, exortando-o a ter consideração por suas disposições maternais para com ele; [Eusébio 6.2.5]
  18. Mas quando o viu terrivelmente excitado, todo ele preso pelo desejo do martírio ao saber que seu pai tinha sido preso e encarcerado, escondeu todas suas roupas; e assim obrigou-o a permanecer em casa. [Eusébio 6.2.5]
  19. Mas ele não podia fazer outra coisa e sendo-lhe impossível dar sossego a um zelo que excedia sua idade. [Eusébio 6.2.6]
  20. Ele enviou a seu pai uma carta muito estimulante sobre o martírio, na qual o animava. [Eusébio 6.2.6]
  21. Dizia textualmente: “Cuida-te, que não aconteça que por nossa causa tu mudes de decisão.” [Eusébio 6.2.6]
  22. Fique isto consignado por escrito como primeiro indício da agudeza de pensamento do menino Orígenes e de sua nobilíssima disposição para a religião. [Eusébio 6.2.6]
  23. E efetivamente, tendo-se exercitado já desde pequeno nas divinas Escrituras, tinha já lançados não pequenos fundamentos para as doutrinas da fé. [Eusébio 6.2.7]
  24. Também nestas tinha se ocupado sem medida, pois seu pai, antes do ciclo de estudos comum a todos, fez com que sua preocupação por elas não fosse secundária. [Eusébio 6.2.7]
  25. Em consequência, antes de ocupar-se das disciplinas helênicas, em toda ocasião o introduzia a exercitar-se nos estudos sagrados. [Eusébio 6.2.8]
  26. Exigia-lhe cada dia passagens de memória e relações escritas. [Eusébio 6.2.8]
  27. Estes exercícios não desagradavam o menino, antes até, empenhava-se neles com ardor excessivo; [Eusébio 6.2.9]
  28. Ao ponto de que, não se contentando com os sentidos simples e óbvios das Escrituras Sagradas, já desde então buscava algo mais e investigava visões mais profundas. [Eusébio 6.2.9]
  29. Desta forma, chegava a pôr em apuros seu pai perguntando-lhe o que queria significar o sentido da Escritura divinamente inspirada. [Eusébio 6.2.9]
  30. Este aparentava repreendê-lo abertamente, exortando-o a não indagar nada que excedesse sua
    idade nem mais adiante do sentido evidente. [Eusébio 6.2.10]
  31. Mas no seu íntimo regozijava-se enormemente e proclamava perante Deus, autor de todo bem, seu maior agradecimento por tê-lo feito digno de ser pai de tal filho. [Eusébio 6.2.10]
  32. E conta-se que muitas vezes, pondo-se junto ao menino que dormia, desnudava-lhe o peito
    como se dentro dele habitasse um espírito divino. [Eusébio 6.2.11]
  33. Beijava-o com referência e se considerava feliz por seu nobre rebento. [Eusébio 6.2.11]
  34. Estas coisas e outras do mesmo estilo recordam-se sobre a infância de Orígenes. [Eusébio 6.2.11]
  35. Quando seu pai morreu mártir, ele ficou só com sua mãe e seis irmãos menores, quando ainda não contava mais de dezessete anos. [Eusébio 6.2.12]

II – Estudos

  1. A herança paterna de Orígenes foi confiscada pelo tesouro imperial. [Eusébio 6.2.13]
  2. E ele com os seus encontrou-se em carência das coisas necessárias para a vida. [Eusébio 6.2.13]
  3. Mas foi considerado digno da providência divina e encontrou proteção além de tranquilidade em uma senhora riquíssima em meados da vida e muito distinta. [Eusébio 6.2.13]
  4. Ela rodeava de atenções um homem muito conhecido, um dos hereges que então havia em Alexandria, que era da Antioquia por origem. [Eusébio 6.2.13]
  5. A mencionada senhora tinha-o consigo como filho adotivo e rodeava-o das maiores honras. [Eusébio 6.2.14]
  6. Mas Orígenes, que por necessidade estava habitualmente com este homem, já desde aquela idade dava provas claras de sua ortodoxia na fé. [Eusébio 6.2.14]
  7. Pois ainda que uma multidão incontável, não apenas de hereges, mas também dos nossos, se reunia junto a ao homem que se chamava Paulo, porque lhes parecia eloquente. [Eusébio 6.2.14]
  8. Ele jamais se conseguiu que Orígenes o acompanhasse na oração aos seus deuses, guardando desde menino a regra de Igreja e abominando os ensinamentos das heresias. [Eusébio 6.2.14]
  9. Previamente iniciado por seu pai nas disciplinas dos gregos, depois da morte deste entregou-se por inteiro com maior zelo ao estudo das letras. [Eusébio 6.2.15]
  10. Desta forma que, não muito depois da morte do pai, tinha já uma preparação suficiente em
    conhecimentos gramaticais. [Eusébio 6.2.15]
  11. Com sua entrega a estes estudos procurava em abundância para sua idade o que era necessário. [Eusébio 6.2.14]
  12. Ele estava entregue ao ensino, segundo ele mesmo nos informa em algum de seus escritos, e não havia em Alexandria ninguém dedicado à instrução catequética. [Eusébio 6.3.1]
  13. Pois todos tinham sido expulsos pela ameaça de perseguição. [Eusébio 6.3.1]
  14. E assim alguns gentios acudiram a ele para escutar a palavra de Deus. [Eusébio 6.3.1]
  15. Dá a entender que o primeiro deles foi Plutarco, o qual, depois de uma vida honesta, foi adornado
    com o martírio divino. [Eusébio 6.3.2]
  16. O segundo foi Héraclas, irmão de Plutarco, que depois de dar ele mesmo numerosos exemplos de vida filosófica e disciplina, foi considerado digno do episcopado de Alexandria, depois de Demétrio. [Eusébio 6.3.2]
  17. Orígenes ia completar dezoito anos quando foi posto à frente da escola catequética. [Eusébio 6.3.3]
  18. Era o momento em que, sob a perseguição do governador de Alexandria Aquila, realizava grandes progressos. [Eusébio 6.3.3]
  19. Foi então também que seu nome se fez famoso entre todos a quem movia a fé, pela acolhida e
    solicitude que mostrava para com todos os santos mártires conhecidos e desconhecidos. [Eusébio 6.3.3]
  20. Com efeito, não somente os assistia quando estavam no cárcere e quando eram julgados, até a
    sentença final, [Eusébio 6.3.4]
  21. Mas também depois desta, quando os santos mártires eram conduzidos à morte, com extrema ousadia e expondo-se aos mesmos perigos. [Eusébio 6.3.4]
  22. Tanto é que muitas vezes aproximou-se resolutamente e atreveu-se a saudar os mártires com um beijo. [Eusébio 6.3.4]
  23. Faltou pouco para que a plebe de pagãos que estava em redor, enfurecida, o apedrejasse. [Eusébio 6.3.4]
  24. Mas a cada vez, com a ajuda da destra divina, escapou milagrosamente. [Eusébio 6.3.4]
  25. E esta mesma ajuda e celestial graça o guardou em outras ocasiões uma vez e sempre – impossível dizer
    quantas. [Eusébio 6.3.5]
  26. Mesmo quando se conspirava contra ele devido ao seu excesso de zelo e de ousadia em favor da doutrina de Cristo. [Eusébio 6.3.5]

III – Vida Acadêmica

  1. A guerra que os infiéis faziam contra Orígenes era tal que se formaram esquadrões [Eusébio 6.3.5]
  2. E postavam soldados em torno da casa em que se achava, devido à multidão dos que dele recebiam a instrução da fé sagrada. [Eusébio 6.3.5]
  3. Dia a dia, a perseguição contra ele se acirrava tanto que em toda a cidade já não havia lugar para ele. [Eusébio 6.3.6]
  4. Mudou de casa em casa, de todos os lugares o expulsavam por causa do grande número dos que por ele se aproximavam do ensinamento divino. [Eusébio 6.3.6]
  5. E a sua própria conduta prática tinha traços admiráveis de virtude da mais genuína filosofia. [Eusébio 6.3.6]
  6. Demonstrava pois o ditado, “tal como sua palavra, assim seu caráter, e tal como seu caráter, assim sua palavra”. [Eusébio 6.3.7]
  7. Esta era sobretudo a causa de que, com a ajuda do poder divino, arrastasse milhares de pessoas a imitá-lo. [Eusébio 6.3.7]
  8. Viram que os discípulos acorriam ainda mais numerosos e que ele era o único encarregado pelo chefe da igreja, Demétrio, da escola catequética. [Eusébio 6.3.8]
  9. Considerando que o ensino da gramática era incompatível com o exercício das disciplinas divinas, rompeu sem vacilar com o estudo da gramática como inútil e contrário às ciências divinas. [Eusébio 6.3.8]
  10. Depois, com bom cálculo, para não precisar da ajuda de outros, desfez-se de todas as obras que até então tinha de literatura antiga, trabalhadas com muito gosto. [Eusébio 6.3.9]
  11. E se contentava com os quatro óbolos que diariamente lhe levava aquele que as comprou. [Eusébio 6.3.9]
  12. Durante muitos anos continuou levando este tipo de vida de filósofo, arrancando de si mesmo tudo que pudesse dar estímulo a suas paixões juvenis. [Eusébio 6.3.9]
  13. Suportou durante todo o dia consideráveis fadigas ascéticas e à noite consagrou a maior parte do tempo ao estudo das divinas Escrituras. [Eusébio 6.3.9]
  14. Assim perseverava numa vida a mais filosófica possível, seja em exercícios de jejum, seja reduzindo o tempo de sono, que de qualquer forma, nunca tomava sobre o leito, mas a toda custa sobre o chão. [Eusébio 6.3.9]
  15. Acima de tudo achava que era necessário guardar aquelas sentenças evangélicas do Salvador que exortava a não usar duas túnicas, nem sandálias, e a não consumir-se com as preocupações do amanhã. [Eusébio 6.3.10]
  16. E mais, com um ardor superior aos seus anos, manteve-se firme no frio e na nudez [Eusébio 6.3.11]
  17. E avançando em direção a uma pobreza extrema, enchia de admiração os que o rodeavam. [Eusébio 6.3.11]
  18. Também causava pena a muitos, que lhe suplicavam que compartilhasse de seus bens; [Eusébio 6.3.11]
  19. Pois viam as dificuldades que passava pelo ensinamento divino; mas ele em nada cedia a sua insistência. [Eusébio 6.3.11]
  20. Conta-se por exemplo que durante muitos anos pisou a terra sem usar calçado algum; [Eusébio 6.3.12]
  21. E mais, absteve-se por muitos anos do uso do vinho e de todo outro alimento não necessário, ao ponto de arriscar-se a arruinar e estropear seu peito. [Eusébio 6.3.12]
  22. Oferecendo tais exemplos de vida filosófica a quantos o contemplavam, era natural que incitasse a maioria de seus discípulos a um zelo semelhante ao seu; [Eusébio 6.3.13]
  23. Tanto que pessoas destacadas, inclusive entre os gentios infiéis e dos que procediam da ilustração e da filosofia, pouco a pouco se submetiam ao ensinamento que ele dava. [Eusébio 6.3.13]
  24. E tão sinceramente receberam dele no fundo de suas almas a fé na palavra divina, que também eles sobressaíram no momento de perseguição de então; [Eusébio 6.3.13]
  25. De forma que alguns inclusive foram detidos e acabaram no martírio. [Eusébio 6.3.13]

IV- Discípulos

  1. O primeiro destes, pois, foi Plutarco, mencionado pouco acima. [Eusébio 6.4.1]
  2. Quando este era conduzido à morte, novamente faltou pouco para que aquele de quem estamos falando e que o assistia até o último instante de sua vida fosse linchado ali mesmo pelos cidadãos, como culpado evidente daquela morte. [Eusébio 6.4.1]
  3. Mas também então a vontade de Deus continuava guardando-o. [Eusébio 6.4.1]
  4. Depois de Plutarco, o segundo dos discípulos de Orígenes a assinalar-se como mártir foi Sereno, que por meio do fogo deu prova da fé que havia recebido. [Eusébio 6.4.2]
  5. O terceiro mártir da mesma escola foi Heráclides, e depois dele, o quarto, Heron; aquele ainda era catecúmeno, este neófito; ambos foram decapitados. [Eusébio 6.4.3]
  6. Todavia, além destes, da mesma escola houve outro Sereno, distinto do primeiro, quinto a proclamar-se defensor da religião. [Eusébio 6.4.3]
  7. A tradição diz que, depois de suportar muitos tormentos, foi decapitado. [Eusébio 6.4.3]
  8. E entre as mulheres também Herais, ainda catecúmena, terminou a vida “após receber o batismo de fogo”. [Eusébio 6.4.3]
  9. Entre eles conta-se como sétimo Basílides, o que conduziu a famosíssima Potamiena a sua execução. [Eusébio 6.5.1]
  10. Muita coisa se conta ainda hoje sobre ela entre seus compatriotas. [Eusébio 6.5.1]
  11. Ela sustentou mil combates contra homens dissolutos em defesa da pureza de seu corpo e de sua virgindade que a distinguiam; [Eusébio 6.5.1]
  12. Pois assim como a força de sua alma, também a beleza de seu corpo estava em plena floração.
  13. E depois de suportar inúmeros tormentos, por fim, depois de torturas terríveis e que fazem estremecer só em nomeá-las, morreu ardendo viva juntamente com sua mãe, Marcela. [Eusébio 6.5.1]
  14. Conta-se que o juiz, cujo nome era Aquila, depois de fazê-la atormentar cruelmente por todo o corpo, finalmente ameaçou entregá-la aos gladiadores para ultraje de seu corpo. [Eusébio 6.5.2]
  15. Mas ela, depois de refletir pensativamente por breves instantes, ao ser questionada sobre o que decidia, deu tal resposta, que aos ouvidos daqueles parecia soar como algo ímpio. [Eusébio 6.5.2]
  16. Ela ainda falava quando recebeu os termos de sua sentença. [Eusébio 6.5.3]
  17. Basílides, um dos funcionários militares, tomou-a e a conduziu para sua execução. [Eusébio 6.5.3]
  18. Como a turba tentava molestá-la com palavras indecentes, ele rechaçava e afugentava os insolentes e mostrava para com ela a maior compaixão e humanidade. [Eusébio 6.5.3]
  19. Ela, por sua parte, aceitando a simpatia de que era alvo, exortava aquele homem a ter valor, pois ela pediria a seu próprio Senhor nada mais que partir [Eusébio 6.5.3]
  20. E em breve poderia corresponder ao que ele havia feito por ela. [Eusébio 6.5.3]
  21. Dito isto, enfrentou com nobreza seu fim enquanto derramavam o piche fervente sobre ela lenta e paulatinamente pelos diversos membros de seu corpo, desde a planta dos pés até o topo da cabeça. [Eusébio 6.5.4]
  22. E assim foi o combate travado por esta jovem digna de louvor. [Eusébio 6.5.4]
  23. Não muito depois, Basílides, tendo seus companheiros de milícia exigido juramento por algum motivo, afirmou que de modo algum poderia jurar, porque era cristão e o proclamava publicamente. [Eusébio 6.5.5]
  24. A princípio, durante algum tempo, pensavam que gracejava, mas como ele insistiu obstinadamente, conduziram-no ao juiz. [Eusébio 6.5.5]
  25. Ele, também perante este juiz, proclamou sua resistência e foi lançado à prisão. [Eusébio 6.5.5]
  26. Quando seus irmãos em Deus chegaram a ele, trataram de informá-lo sobre a causa desta repentina e maravilhosa decisão. [Eusébio 6.5.5]
  27. Conta-se que disse que Potamiena tinha lhe aparecido durante a noite, três dias depois de seu martírio. [Eusébio 6.5.6]
  28. Ela cingira-lhe a cabeça com uma coroa e lhe havia dito que pedira ao Senhor graça por ele, que havia obtido o pedido e que não tardando muito o tomaria consigo. [Eusébio 6.5.6]
  29. Ante isto os irmãos aplicaram-lhe o selo do Senhor, e no dia seguinte, depois de brilhar no testemunho do Senhor, foi decapitado. [Eusébio 6.5.5]
  30. Conta-se mesmo que, pelas datas mencionadas, muitos outros cidadãos de Alexandria se acercavam em massa à doutrina de Cristo, [Eusébio 6.5.7]
  31. porque em sonhos lhes aparecera Potamiena, segundo diziam, e os convidara a isto. [Eusébio 6.5.7]

V- Castração

  1. Tendo sucedido a Panteno, Clemente vinha regendo a catequese de Alexandria até aquele mesmo tempo, de maneira que também Orígenes foi um de seus discípulos. [Eusébio 6.6.1]
  2. Pelo menos Clemente, ao apresentar o material de seus Stromateis, no livro primeiro, expõe um quadro cronológico assinalando como limite a morte de Cômodo.  [Eusébio 6.6.1]
  3. com o que fica claro que compôs esta obra em tempos de Severo, cuja época se descreve na presente história. [Eusébio 6.6.1]
  4. Neste mesmo tempo, outro escritor, Judas, comentando por escrito as setenta semanas de Daniel, detêm também sua cronologia no décimo ano do Severo. [Eusébio 6.7.1]
  5. Também cria que a tão decantada aparição do anticristo estava já então se aproximando. [Eusébio 6.7.1]
  6. A tal ponto a violência daquela perseguição contra nós transtornava as mentes da maioria. [Eusébio 6.7.1]
  7. Neste tempo, estando ocupado no trabalho da catequese em Alexandria, Orígenes leva a cabo uma façanha que se demonstra um ânimo imaturo e juvenil, mas, ao mesmo tempo, oferece uma prova plena de fé e de continência. [Eusébio 6.8.1]
    2. Efetivamente, ele tomou muito ao pé da letra com ânimo bastante juvenil a frase: Há eunucos que se castraram a si mesmos pelo reino dos céus. [Eusébio 6.8.2]
  8. Ele pensou, por um lado, cumprir assim a palavra do Salvador, e por outro, evitar entre os infiéis toda suspeita e calúnia vergonhosa. [Eusébio 6.8.2]
  9. Pois, sendo tão jovem, tratava das coisas de Deus não apenas com homens, mas também com mulheres, decidiu-se a concretizar a palavra do Salvador, cuidando para que passasse despercebido para a maioria de seus discípulos. [Eusébio 6.8.2]
  10. Mas não lhe era possível, mesmo querendo-o, ocultar semelhante façanha, e assim mais tarde soube-o Demétrio, como presidente daquela igreja. [Eusébio 6.8.3]
  11. Muito se admirou por aquela façanha, e aceitando o zelo e a sinceridade de sua fé, exortava-o a ter ânimo e o estimulava a empenhar-se agora com mais força na obra da catequese; essa foi então a atitude de Demétrio. [Eusébio 6.8.3]
  12. Mas não muito tempo depois, vendo o êxito de Orígenes, sua grandeza, seu brilho e sua fama universal, foi vítima de paixão humana. [Eusébio 6.8.4]
  13. Demétrio tratou de descrever aos bispos de todo o mundo aquela façanha como sendo totalmente absurda. [Eusébio 6.8.4]
  14. No entanto, os bispos mais experientes e mais ilustres da Palestina, a saber, os de Cesareia e Jerusalém, consideraram Orígenes digno de privilégio e da mais alta honra e impuseram-lhe as mãos para ordená-lo presbítero. [Eusébio 6.8.4]
  15. Orígenes alcançou uma grande glória e conquistou em todas as partes e entre todos os homens considerável renome assim como fama de virtude e sabedoria. [Eusébio 6.8.5]
  16. Mas Demétrio, não tendo nenhum outro motivo de acusação, armou um escândalo tremendo por aquela ação que Orígenes havia cometido sendo um menino. [Eusébio 6.8.5]
  17. Ele se atreveu a envolver em suas acusações os que o haviam promovido aos presbiterato. Isto ocorreu, em realidade, pouco tempo depois. [Eusébio 6.8.5]
  18. Por este tempo, no entanto, Orígenes estava entregue em Alexandria ao ensino divino para todos os que acudiam a ele, sem reservas, à noite e inclusive de dia. [Eusébio 6.8.6]
  19. Ele dedicou sem vacilação todo seu tempo às ciências divinas e aos discípulos que o frequentavam. [Eusébio 6.8.6]

VI – Imperador Antonino

  1. Depois de exercer o império durante dezoito anos, Severo é sucedido por seu filho Antonino. [Eusébio 6.8.7]
  2. Neste tempo, um dos que se portaram virilmente na perseguição e, depois dos combates de sua confissão, foram preservados pela providência divina, foi um tal Alexandre[Eusébio 6.8.7]
  3. Ele foi mencionado a pouco como bispo da igreja de Jerusalém por ter-se distinguido em sua confissão por Cristo. [Eusébio 6.8.7]
  4. Ele foi considerado digno do mencionado episcopado, ainda que Narciso, seu predecessor, ainda estivesse vivo. [Eusébio 6.8.7]
  5. Muitos, pois, e diversos são os milagres que os cidadãos daquela igreja recordam de Narciso, transmitidos por tradição dos irmãos que se sucederam. [Eusébio 6.9.1]
  6. Dizem que uma vez, durante a grande vigília de Páscoa, faltou o azeite aos diáconos, devido a isso apoderou-se da multidão um grande desânimo. [Eusébio 6.9.2]
  7. Narciso mandou então aos que preparavam as luzes que pegassem água e a levassem a ele. [Eusébio 6.9.2]
  8. Feito isto, orou sobre a água e com toda a sinceridade de sua fé no Senhor ordenou que a derramassem nas lâmpadas. [Eusébio 6.9.3]
  9. Feito também isto, por um poder maravilhoso e divino e contra toda razão, a natureza da água mudou sua qualidade para a do azeite. [Eusébio 6.9.3]
  10. Muitos dos irmãos que ali estavam conservaram por longo tempo, desde então até nossos dias, um pouco daquele azeite como prova do milagre de então. [Eusébio 6.9.3]
  11. Muitas outras coisas dignas de menção contam-se sobre a vida deste homem, entre elas também a seguinte. [Eusébio 6.9.4]
  12. Havia uns pobres homens incapazes de suportar o vigor daquele e a constância de sua vida, temerosos de serem presos e submetidos a castigo. [Eusébio 6.9.4]
  13. Eram conscientes de seus inúmeros delitos, tomaram a dianteira e tramaram e espalharam uma calúnia terrível contra ele. [Eusébio 6.9.4]
  14. Assim, com o fim de assegurar-se da confiança dos ouvintes, confirmaram com juramento suas acusações: [Eusébio 6.9.5]
  15. Um jurava para que o fogo o destruísse; outro para que uma enfermidade funesta consumisse seu corpo, e um terceiro, para que seus olhos cegassem. [Eusébio 6.9.5]
  16. Mas nem assim, nem mesmo jurando, um só fiel prestou-lhes atenção, pela temperança de Narciso, que sempre brilhou ante todos e por sua conduta virtuosa em tudo. [Eusébio 6.9.5] 
  17. Ele, no entanto, não conseguiu relevar de forma alguma a maldade destas calúnias. [Eusébio 6.9.6]
  18. E por outro lado, estando há muito tempo em busca de uma vida filosófica, fugiu da multidão inteira da igreja e passou muitos anos oculto em regiões desertas e recônditas. [Eusébio 6.9.6]
  19. Mas o grande olho da justiça tampouco permaneceu quieto ante tais abusos. [Eusébio 6.9.7]
  20. Mas a toda pressa começou a perseguição daqueles ímpios com as mesmas desgraças com que se haviam ligado perjurando contra si mesmos. [Eusébio 6.9.7]
  21. O primeiro, sem nenhum motivo, simplesmente assim, tendo caído uma fagulha na casa em que morava, incendiando-a completamente à noite, morreu abrasado com toda a família. [Eusébio 6.9.8]
  22. O outro se viu de repente com o corpo, desde a planta dos pés até a cabeça, cheio daquela enfermidade com que ele mesmo se castigou de antemão. [Eusébio 6.9.8]
  23. O terceiro, assim que viu o fim dos primeiros, tremendo ante a inelutável justiça de Deus que tudo vê, fez confissão pública do que os três haviam tramado em comum. [Eusébio 6.9.8]
  24. Em seu arrependimento, consumia-se de tanto gemer e não cessava de chorar, tanto que chegou a perder os dois olhos. [Eusébio 6.9.8]
  25. Tais foram os castigos que sofreram estes por suas mentiras. [Eusébio 6.9.8]
  26. Tendo-se retirado Narciso e não sabendo ninguém onde poderia achar-se, os bispos que presidiam as igrejas limítrofes resolveram impor as mãos a um novo bispo. [Eusébio 6.10.1]
  27. Este se chamava Díos. Depois de presidir não muito tempo, sucedeu-o Germanion, e a este, Górdio, sob o qual reapareceu Narciso, de alguma parte, como um ressuscitado. [Eusébio 6.10.1]
  28. Os irmãos chamaram-no novamente para ocupar a presidência. [Eusébio 6.10.1]
  29. Todos se admiraram ainda mais, por causa de seu retiro, de sua filosofia, e sobretudo pela vingança que Deus tinha operado em seu favor. [Eusébio 6.10.1]
  30. Enfim, quando Narciso já não estava em condições de exercer o ministério por causa de sua extrema velhice. [Eusébio 6.11.1]

VII – Escritores da Fé

  1. A providência de Deus chamou o mencionado Alexandre, que era bispo de outra igreja, para exercer as funções episcopais. [Eusébio 6.11.1]
  2. Ambos Narciso e Alexandre exerceriam juntos conforme uma revelação que este teve em sonhos à noite. [Eusébio 6.11.1]
  3. Ocorreu pois que Alexandre, como obedecendo a um oráculo, empreendeu uma viagem. [Eusébio 6.11.2]
  4. Ele viajou desde a Capadócia, onde pela primeira vez foi investido do episcopado, a Jerusalém, por motivos de oração e de estudo dos lugares. [Eusébio 6.11.2]
  5. O povo dali o recebeu com os melhores sentimentos e já não lhe permitiram regressar a seu país. [Eusébio 6.11.2]
  6. Agiam conforme outra revelação que também eles haviam tido durante a noite e segundo uma voz que se fez ouvir claríssima aos mais zelosos dentre eles.
  7. A revelação lhes indicava que saíssem para fora das portas da cidade e recebessem o bispo que Deus lhes havia predestinado. [Eusébio 6.11.2]
  8. Depois de assim fazer, com o parecer comum dos bispos que regiam as igrejas circundantes, obrigaram Alexandre a permanecer ali forçosamente. [Eusébio 6.11.2]
  9. O próprio Alexandre, em carta privada aos antinoítas, que ainda se conserva entre nós, menciona o episcopado de Narciso, compartilhado com ele, quando escreve textualmente ao final da carta: [Eusébio 6.11.3]
  10. “Saúda-vos Narciso, o que regeu antes de mim a sede episcopal daqui, e agora, aos cento e dezesseis anos completos, ocupa seu lugar junto a mim nas orações e exorta-vos, assim como eu, a ter um mesmo sentimento.” [Eusébio 6.11.3]
  11. Assim ocorreram estas coisas. Na igreja de Antioquia, ao morrer Serapion, o episcopado passou em sucessão a Asclepíades, que também fora destacado por sua confissão no tempo da perseguição. [Eusébio 6.11.4]
  12. Alexandre menciona também a instituição deste quando escreve assim aos antioquenhos: “Alexandre, servo e prisioneiro de Jesus Cristo, à bem-aventurada igreja de Antioquia: saúde no Senhor”. [Eusébio 6.11.5]
  13. “O Senhor me fez suportáveis e leves as correntes quando no tempo de meu encarceramento soube que, por providência divina, se havia confiado o episcopado de vossa santa igreja de Antioquia a Asclepíades, o mais indicado por seu merecimento”. [Eusébio 6.11.3]
  14. Alexandre faz saber que esta carta foi enviada por meio de Clemente; ao final escreve como segue: [Eusébio 6.11.3]
  15. “Esta carta, queridos irmãos meus, envio-a pelo bem-aventurado presbítero Clemente, varão virtuoso e probo, a quem vós já conheceis e a quem também aprovareis. [Eusébio 6.11.3]
  16. Em sua estada aqui, conforme a providência e supervisão do Dono, consolidou e fortaleceu a Igreja do Senhor.” [Eusébio 6.11.3]
  17. Quanto ao fruto do afã literário de Serapion, é natural que se hajam conservado também outras obras entre outras pessoas, mas a nós não chegaram mais do que estas. [Eusébio 6.12.1]
  18. Eram as do seu discípulo Domno, um que no tempo da perseguição havia caído da fé de Cristo para dar na superstição judia; e ambos Poncio e Carico, varões eclesiásticos ambos; além de outras cartas a outras pessoas; [Eusébio 6.12.2]
  19. Serapion também escreveu como também outro tratado que compôs acerca do chamado Evangelho de Pedro; escreveu-o refutando as falsidades que neste se dizem, por causa de alguns da igreja de Rosos que, com o pretexto da dita Escritura, haviam-se desviado para ensinamentos heterodoxos. [Eusébio 6.12.2]
  20. Será bom oferecer deste livro algumas sentenças nas quais Serapion apresenta sua opinião: “Porque também nós, irmãos, aceitamos Pedro e os demais apóstolos como a Cristo, mas como homens de experiência que somos, rechaçamos os falsos escritos que levam seus nomes.” [Eusébio 6.12.3]
  21. Das obras de Clemente, por outro lado, conservaram-se entre nós os “Miscelâneas”, os oito livros inteiros, aos quais se dignou intitular: De Tito Flávio Clemente, “Miscelâneas das Memórias Gnósticas” segundo a verdadeira filosofia. [Eusébio 6.13.1]
  22. De igual número que estes são seus livros intitulados “Rascunhos”, nos quais menciona expressamente Panteno como seu mestre e expõe suas interpretações das Escrituras e suas tradições. [Eusébio 6.13.2]
  23. Há também de Clemente um Discurso aos gregos, O Protréptico, e três livros da obra intitulada O Pedagogo; outro tratado seu, o assim chamado Quem é o rico que se salva? [Eusébio 6.13.1]
  24. Também o tratado Sobre a Páscoa; e tratados Sobre o jejum e Sobre a maledicência, assim como a Exortação à paciência ou Aos recém-batizados, [Eusébio 6.13.2]
  25. Também o intitulado Cânon eclesiástico ou Contra os judaizantes, que ele dedicou ao mencionado bispo Alexandre. [Eusébio 6.13.3]
  26. Agora bem, nos “Miscelâneas” fabricou-se uma tapeçaria de citações não somente da divina Escritura, mas também das obras dos gregos, sempre que lhe parecia que também eles haviam dito algo aproveitável; menciona as opiniões do povo, enquanto explica as dos gregos e as dos bárbaros; [Eusébio 6.13.4]
  27. Além disso emenda as falsas opiniões dos heresiarcas, desdobra uma grande informação e nos proporciona a base de uma sábia e variada instrução. Com tudo isto mistura também as opiniões dos filósofos, de onde provavelmente se originou que inclusive o título dos Miscelânias se ajustasse ao tema. [Eusébio 6.13.5]
  28. Nos mesmos livros faz também uso de testemunhos tomados das Escrituras discutidas: das chamadas Sabedoria de Salomão e Sabedoria de Jesus (filho) de Sirac; da Carta aos Hebreus, das Cartas de Barnabé, de Clemente e de Judas. [Eusébio 6.13.6]
  29. Ele menciona o discurso de Taciano Contra os gregos e também a Cassiano por haver composto uma Cronografia, e também os escritores judeus Fílon, Aristóbulo, Josefo, Demétrio e Eupolemo que haviam demonstrado em seus escritos que Moisés e o povo judeu eram mais antigos do que as origens dos gregos. [Eusébio 6.13.7]
  30. De muitos outros ensinamentos úteis estão cheias as mencionadas obras deste homem. Na primeira delas declara sobre si mesmo que está muito próximo da sucessão dos apóstolos, e nela promete escrever também um comentário do Gênesis. [Eusébio 6.13.8]
  31. E em seu tratado Sobre a Páscoa confessa que foi compelido por seus companheiros a colocar por escrito, em proveito dos que viessem depois, as tradições que ele teve a sorte de ouvir da boca dos antigos presbíteros, e menciona Meliton, Irineu e alguns outros, dos quais inclusive cita passagens. [Eusébio 6.13.9]

VIII – Filosofia de Orígenes

  1. Orígenes viu que ele sozinho não se bastava para um estudo mais profundo dos mistérios divinos, para a investigação e interpretação das Sagradas Escrituras, e para a instrução catequética dos que dele se acercavam [Eusébio 6.15.1]
  2. Nem estes deixavam respirar, acorrendo à escola uns após outros desde a aurora até o anoitecer dividindo as multidões. [Eusébio 6.15.1]
  3. Por isso, escolheu entre seus discípulos Heraclas, varão zeloso nas coisas de Deus, também muito erudito e não desprovido de filosofia. [Eusébio 6.15.1]
  4. Ele o constituiu seu sócio na instrução catequética e o encarregou da primeira iniciação dos recém-admitidos, reservando para si a instrução dos já experientes. [Eusébio 6.15.1]
  5. E tão cuidadosa era a investigação que Orígenes fazia das palavras divinas, que até aprendeu a língua hebraica, comprou as Escrituras originais, conservadas entre os judeus com os próprios caracteres hebreus, e seguiu a pista das edições de outros tradutores das Sagradas Escrituras, além dos Setenta (Septuaginta). [Eusébio 6.16.1]
  6. Além das traduções trilhadas e alternantes421 de Aquila, de Simaco e de Teodocio, descobriu outras que, após seguir-lhes o rastro, tirou à luz, não sei de que esconderijos, onde se ocultavam desde antigamente. [Eusébio 6.16.1]
  7. A respeito destas, por sua obscuridade e por não saber de quem eram, indicou somente o seguinte: a saber, que uma foi encontrada em Nicópolis, perto de Accio, e a outra em outro lugar parecido. [Eusébio 6.16.2]
  8. Nas Hexaplas dos Salmos, ao menos, depois das quatro edições conhecidas, não somente pôs uma quinta tradução, mas também uma sexta e uma sétima; sobre uma delas está indicado que foi encontrada em Jericó, dentro de um jarro, em tempos de Antonino, o filho de Severo. [Eusébio 6.16.3]
  9. Todas estas traduções ele reuniu em um só corpo, dividiu-as em membros de frase e as colocou umas frente às outras, junto com o próprio texto hebreu, deixando assim a cópia das chamadas Hexaplas [Eusébio 6.16.4]
  10. Aparte, preparou a edição de Aquila, Simaco e Teodocio, junto com a dos Setenta, nas Tetraplas. [Eusébio 6.16.4]
  11. Pelo que toca a estes mesmos tradutores, deve-se saber que Simaco foi ebionita. [Eusébio 6.17.1]
  12. A heresia, assim chamada dos ebionitas, é a dos que afirmam que Cristo nasceu de José e de Maria, creem que foi puramente homem. [Eusébio 6.17.1]
  13. Eles insistem em que é necessário guardar a lei mais ao modo judeu, segundo o que já sabemos pelo referido anteriormente. [Eusébio 6.17.1] E ainda hoje se conservam Comentários de Simaco, nos quais parece querer confirmar a mencionada heresia, explicando-se longamente à custa do Evangelho de Mateus. [Eusébio 6.17.1]
  14. Orígenes declara que estes escritos, junto com outras interpretações de Simaco sobre as Escrituras, recebeu-os de uma tal Juliana, que por sua vez diz ter herdado os livros do próprio Simaco. [Eusébio 6.17.1]
  15. Por esta época também Ambrósio, que tinha as opiniões da heresia de Valentim, convencido pela verdade apresentada por Orígenes e como se uma luz tivesse iluminado sua mente, deu seu assentimento à doutrina da ortodoxia eclesiástica. [Eusébio 6.18.1]
  16. E muitas outras pessoas instruídas, quando se estendeu a fama de Orígenes por todas as partes, acudiam também a ele para experimentar a perícia deste homem nas doutrinas sagradas. [Eusébio 6.18.2]
  17. E milhares de hereges e não poucos filósofos dos mais ilustres aderiam a ele com afã, e ele os instruía não somente nas coisas divinas, mas inclusive na filosofia de fora. [Eusébio 6.18.2]
  18. De fato, àqueles que via naturalmente bem dotados iniciava nos conhecimentos filosóficos, dando-lhes geometria, aritmética e as outras disciplinas preliminares. [Eusébio 6.18.3]
  19. Guiava-os pelas seitas existentes entre os filósofos, explicando minuciosamente as obras destes e comentando e examinando cada uma. [Eusébio 6.18.3]
  20. Deste modo, inclusive entre os gregos, Orígenes era proclamado como grande filósofo. [Eusébio 6.18.3]
  21. E a muitos, inclusive entre os menos preparados, Orígenes iniciava nas disciplinas cíclicas, declarando que através delas conseguiriam capacitação para o exame e preparação das divinas Escrituras. [Eusébio 6.18.4]
  22. Por esse motivo, ele considerava necessário, sobretudo para si mesmo, o exercício nas disciplinas mundanas e nas filosóficas. [Eusébio 6.18.4]

IX – Filosofia de Orígenes

  1. Outras testemunhas do êxito de Orígenes nestes estudos são, dentre os próprios gregos, aqueles filósofos
    que floresceram em seu tempo [Eusébio 6.19.1]
  2. As obras deste filósofos contém mencionado o nome deste homem muitas vezes. [Eusébio 6.19.1]
  3. Umas, porque lhe dedicaram suas próprias obras. Outras, porque submetem-lhe o fruto de seus próprios trabalhos, como a um mestre, para que os julgasse. [Eusébio 6.19.1]
    2. Mas, que necessidade há de dizer isto quando o próprio Porfírio, nosso contemporâneo, estabelecido na Sicília, compôs umas obras contra os Cristãos, tentando com elas caluniar as Sagradas Escrituras [Eusébio 6.19.2]
  4. Ele não pode de forma alguma levantar a menor acusação por conta de nossas doutrinas e à falta de razões, volta-se contra os próprios intérpretes para injuriá-los e caluniá-los, e mais especialmente a Orígenes. [Eusébio 6.19.2]
    3. Sobre Orígenes, Porfírio diz que o conheceu na primeira juventude e logo trata de caluniá-lo. [Eusébio 6.19.3]
  5. No entanto, o que realmente faz é recomendá-lo sem saber, seja dizendo a verdade ali onde não lhe era possível dizer outra coisa, seja mentindo no que pensava que passaria despercebido. [Eusébio 6.19.2]
  6. Por isso, algumas vezes o acusa de cristão, e outras descreve sua entrega às ciências filosóficas. [Eusébio 6.19.3]
  7. Ele disse textualmente: “Alguns, em seu afã de encontrar, não o abandono, mas uma explicação da perversidade das Escrituras judaicas, entregaram-se a umas interpretações que são incompatíveis” [Eusébio 6.19.4]
  8. “Elas estão em desacordo com o escrito, pelo que oferecem, mais do que uma apologia em favor do estranho, a aceitação e louvor do mesmo.” [Eusébio 6.19.4]
  9. Efetivamente, as coisas que em Moisés estão ditas com claridade, eles alardeiam que são enigmas e lhes dão um ar divino, como de oráculos cheios de ocultos mistérios, [Eusébio 6.19.4]
  10. “E depois de enfeitiçar com o fumo de seu orgulho a faculdade crítica da alma, levam a cabo suas
    interpretações.” [Eusébio 6.19.4]
  11. Depois de mais algumas coisas, diz: “Mas este gênero de absurdo eles receberam daquele varão com quem eu também tratei sendo ainda muito jovem, que teve enorme reputação e que ainda a tem pelos escritos que deixou. [Eusébio 6.19.5]
  12. “Sobre Orígenes, digo, cuja glória se espalhou amplamente entre os mestres daquelas doutrinas.” [Eusébio 6.19.6]
  13. “Efetivamente, tendo sido ouvinte de Ammonio, que em nosso tempo foi o que mais progrediu em
    filosofia” [Eusébio 6.19.6]
  14. “Ele chegou a adquirir de seu mestre um grande aproveitamento para o domínio das ciência, mas no que tange à reta orientação da vida empreendeu um caminho contrário ao de Ammonio. [Eusébio 6.19.6]
  15. “De fato, Ammonio era cristão e seus pais o educaram nas doutrinas cristãs, mas quando entrou em
    contato com o pensar e a filosofia, imediatamente converteu-se a um gênero de vida conforme
    as leis.” [Eusébio 6.19.7]
  16. “Orígenes, por outro lado, grego e educado nas doutrinas gregas, veio a dar na temeridade própria dos bárbaros.” [Eusébio 6.19.7]
  17. “Entregando-se a ela corrompeu-se e corrompeu seu domínio das ciências.” [Eusébio 6.19.7]
  18. “Quanto a sua vida, vivia como cristão e contra as leis. Quanto a suas opiniões sobre as coisas e sobre a divindade, pensava como grego e introduzia o grego nas fábulas estrangeiras.” [Eusébio 6.19.8]
  19. “Porque ele vivia em trato contínuo com Platão e freqüentava as obras de Numenio, de Cronio, de
    Apolofanes, de Longino, de Moderato, de Nicomaco e dos outros autores mais conspícuos dos pitagóricos.” [Eusébio 6.19.8]
  20. “Também usava os livros do estóico Queremon e de Comuto. Por eles conheceu a interpretação alegórica dos mistérios dos gregos e a acomodou às Escrituras judias.” [Eusébio 6.19.8]
  21. Isto diz Porfírio no livro terceiro dos que escreveu Contra os cristãos. [Eusébio 6.19.9]
  22. Diz a verdade no que tange à educação e à múltipla sabedoria de Orígenes, mas mente claramente, por ser adversário dos cristãos, ao afirmar que este se converteu das doutrinas gregas, enquanto que Ammonio caiu num gênero de vida gentio a partir de uma vida conforme a religião. [Eusébio 6.19.9]
  23. Efetivamente, Orígenes conservou vivos os ensinamentos cristãos que vinham de seus pais, como é demonstrado pelas passagens precedentes desta história. [Eusébio 6.19.10]
  24. Ammonio manteve com firmeza puros e inatacáveis, inclusive até o fim de sua vida, os princípios da filosofia inspirada. [Eusébio 6.19.10]
  25. Isto é atestado de certa forma até hoje pelos trabalhos deste homem, famoso entre a maioria pelos escritos que deixou, como por exemplo o intitulado Da harmonia entre Moisés e Jesus, e todos os outros que se encontram em poder dos amantes do saber. [Eusébio 6.19.10]
  26. O que vimos dizendo fica pois como prova da calúnia deste mentiroso, e ao mesmo tempo dovmúltiplo saber de Orígenes nas ciências dos gregos. [Eusébio 6.19.11]
  27. Sabemos do que o próprio Orígenes escreve numa carta defendendo-se contra alguns que o acusavam de seu zelo por aquelas ciências: [Eusébio 6.19.11]
  28. “Como eu me entregava à doutrina e a fama de nossa capacidade ia-se espalhando, aproximavam de mim ora hereges, ora os que provinham das ciências gregas, sobretudo os filósofos.” [Eusébio 6.19.12]
  29. “Assim, eu determinei-me a examinar as opiniões dos hereges e o que proclamam os filósofos acerca da verdade.” [Eusébio 6.19.12]
  30. “Isto fizemos imitando Panteno, aquele varão que antes de nós ajudou a tantos e que possuía não pequena preparação naquelas ciências.” [Eusébio 6.19.13]
  31. Também a Heraclas, que agora ocupa um posto no presbitério de Alexandria e a quem encontrei junto ao mestre das disciplinas filosóficas, com o qual ele já tinha permanecido cinco anos, antes que eu começasse a ouvir suas lições. [Eusébio 6.19.13]
  32. “Por causa do mestre, despojou-se da roupa corrente que antes usava e adotou o uniforme dos filósofos, que ainda conserva até hoje, e não cessa de estudar nos livros dos gregos tudo o que pode.” [Eusébio 6.19.14]
  33. Isto é o que diz Orígenes em defesa de seu exercício na literatura grega. [Eusébio 6.19.14]

X – Comentários

  1. Neste tempo, vivendo ele em Alexandria, se apresentou a ele um soldado que entregou umas cartas a Demétrio, o bispo da comunidade, e ao governador do Egito de então. [Eusébio 6.19.15]
  2. Eram cartas da parte do governador da Arábia, com o fim de que a toda pressa enviassem Orígenes para que se entrevistasse com ele. E Orígenes chegou à Arábia. [Eusébio 6.19.15]
  3. Mas não muito depois, cumprido o objetivo de sua ida, regressou outra vez a Alexandria. [Eusébio 6.19.15]
  4. Entretanto deu-se novamente na cidade uma não pequena guerra, e Orígenes, saindo ocultamente de Alexandria, foi à Palestina e residiu em Cesaréia. [Eusébio 6.19.16]
  5. Aqui os bispos lhe pediram que desse conferências e interpretasse as divinas Escrituras publicamente na igreja, apesar de que ainda não havia recebido a ordenação de presbítero. [Eusébio 6.19.16]
  6. Assim declaram as palavras de Alexandre, o bispo de Jerusalém, e Teoctisto, o de Cesaréia, os quais, escrevendo sobre Demétrio, defendem-se como segue: [Eusébio 6.19.17]
  7. “Acrescenta em sua carta que isto jamais se ouviu, nem agora se faz, que preguem leigos estando presentes os bispos.” [Eusébio 6.19.17]
  8. Eu não sei como diz o que evidentemente não é verdade, porque onde quer que se encontrem homens com capacidade para trazer proveito aos irmãos, os santos bispos os convidam a pregar ao povo. [Eusébio 6.19.18]
  9. Como convidaram nossos bem-aventurados irmãos: Néon e Evelpis em Laranda, Celso e Paulino em Iconio e Ático e Teodoro em Sinade. [Eusébio 6.19.18]
  10. É provável que também em outros lugares ocorra o mesmo, sem que nós o saibamos.” [Eusébio 6.19.18]
  11. Assim é que o mencionado varão, ainda que jovem, era honrado não somente pelos compatriotas, mas também pelos bispos do estrangeiro. [Eusébio 6.19.18]
  12. Pois bem, quando Demétrio o chamou novamente por carta e exigiu por meio de diáconos de sua igreja que regressasse a Alexandria, depois de chegar, continuou cumprindo as tarefas costumeiras. [Eusébio 6.19.19]
  13. Floresciam nesta época muitos varões eloqüentes e eclesiásticos, cujas cartas, que mutuamente se
    escreviam, ainda hoje se conservam e são fáceis de encontrar. [Eusébio 6.20.1]
  14. Também foram preservadas até nossos dias na biblioteca de Elia, formada por Alexandre, que então regia a igreja dali, e na qual nós também pudemos reunir pessoalmente o material para a presente obra. [Eusébio 6.20.1]
  15. Entre eles, Berilo deixou também, junto com as cartas, diversos e belos escritos; era bispo dos árabes em Bostra. E o mesmo de Hipólito, que provavelmente presidia também outra igreja. [Eusébio 6.20.2]
  16. Também chegou até nós de Caio, varão sapientíssimo, um Diálogo composto em Roma, em tempos de Zeferino, contra Proclo, defensor da heresia catafriga. [Eusébio 6.20.3]
  17. Neste Diálogo, ao pôr freio aos contrários em sua propensão e atrevimento a compor novas escrituras, somente faz menção às treze Cartas do santo Apóstolo e não enumera com as demais a Carta aos Hebreus, pois até hoje alguns romanos pensam que não é do Apóstolo. [Eusébio 6.20.3]
  18. Mas tendo Antonino reinado sete anos e seis meses, sucedeu-o Macrino, este manteve-se por um ano, e novamente recebeu o principado dos romanos outro Antonino. [Eusébio 6.21.1]
  19. Em seu primeiro ano morreu Zeferino, bispo dos romanos, depois de ter exercido o ministério pelo espaço de dezoito anos completos. [Eusébio 6.21.1]
  20. Depois dele se confiou o episcopado a Calixto, que viveu ainda cinco anos e deixou o ministério a Urbano. [Eusébio 6.21.1]
  21. Depois disto, não tendo Antonino se mantido mais do que quatro anos, sucedeu-o como imperador Alexandre no principado dos romanos. [Eusébio 6.21.2]
  22. Também neste tempo Fileto sucede a Asclepíades na igreja de Antioquia. [Eusébio 6.21.2]
  23. Pois bem, a mãe do imperador, chamada Mamea, mulher piedosa como nenhuma outra, ressoou por todas as partes a fama de Orígenes ao ponto de chegar a seus ouvidos. [Eusébio 6.21.3]
  24. Ela pôs todo seu empenho em ser considerada digna de contemplar este homem e experimentar sua inteligência nas coisas de Deus, por todos admirada. [Eusébio 6.21.3]
  25. Assim pois, estando ela em Antioquia, mandou-o comparecer escoltado por soldados. [Eusébio 6.21.4]
  26. Passou junto a ela algum tempo e, depois de expor o maior número de coisas possível, para glória do Senhor e da virtude do ensinamento divino, apressou-se a retomar suas tarefas habituais. [Eusébio 6.21.4]
  27. Foi precisamente então que Hipólito compôs também, junto com muitos outros comentários, a obra Sobre a Páscoa, na qual expõe uma relação dos tempos. [Eusébio 6.22.1]
  28. Ele propõe certa regra de um ciclo de dezesseis anos para a Páscoa e fixa como limite dos tempos o primeiro ano do imperador Alexandre. [Eusébio 6.22.1]
  29. Das suas outras obras, as que chegaram até nós são as seguintes: Sobre o Hexameron, Sobre o que segue ao Hexameron, Contra Márcion, Sobre o Cantar, Sobre partes de Ezequiel, Sobre a Páscoa, Contra todas as heresias e muitíssimas outras que poderias encontrar conservadas em muitos lugares. [Eusébio 6.22.1]

XI – Vida na Cesareia

  1. A partir de então Orígenes começou também seus Comentários às divinas Escrituras. [Eusébio 6.23.1]
  2. Foi Ambrósio quem o instigou, e não somente com quanto ânimo e exortações podia pela palavra, mas também com abundantes subvenções para todo o necessário. [Eusébio 6.23.1]
  3. Efetivamente, quando ditava tinha à mão mais de sete taquígrafos, que se revezavam a certos tempos fixos, um número não menor de copistas e também algumas jovens treinadas na caligrafia. [Eusébio 6.23.2]
  4. O necessário para todos eles era proporcionado por Ambrósio em grande abundância. [Eusébio 6.23.2]
  5. Mais ainda, contribuiu com indizível zelo no estudo detalhado dos divinos oráculos e com isto impulsionava Orígenes a compor os Comentários. [Eusébio 6.23.2]
  6. Enquanto isto ocorria assim, Ponciano sucedia a Urbano, que havia sido bispo da igreja de Roma durante oito anos, e Zebeno a Fileto, na de Antioquia. [Eusébio 6.23.3]
  7. Por este tempo, Orígenes, indo para a Grécia pela Palestina, devido a alguns assuntos eclesiásticos de urgente necessidade, recebe em Cesaréia dos bispos da região a ordenação do presbiterato. [Eusébio 6.23.4]
  8. A agitação que sobre ele se levantou por este motivo e as decisões tomadas pelos prelados das igrejas sobre estas agitações. [Eusébio 6.23.4]
  9. Assim como também tudo o mais com que Orígenes em sua plena maturidade contribuiu no que toca à doutrina divina, como necessita de uma obra especial, [Eusébio 6.23.4]
  10. nós o descrevemos em sua justa medida no livro segundo da Apologia que compusemos em sua defesa. [Eusébio 6.23.4]
  11. Orígenes escreveu vários comentários em Alexandria sobre aos livros sagrados como mencionou as escrituras sagradas [Eusébio 6.24.1-3] [Eusébio 6.25.1-14]
  12. Corria o décimo ano do mencionado reinado de Alexandre Severo quando Orígenes emigrou de Alexandria a Cesaréia, deixando a Heraclas a escola catequética dali. [Eusébio 6.26.1]
  13. Mas pouco tempo depois morreu também Demétrio, o bispo da igreja de Alexandria, depois de manter-se no ministério pelo espaço de quarenta e três anos completos. Sucedeu-o Heraclas. [Eusébio 6.26.1]
  14. Por este tempo destacava-se Firmiliano, bispo de Cesaréia da Capadócia. [Eusébio 6.27.1]
  15. Tão grande era seu interesse por Orígenes, que uma vez o chamou a sua própria região para proveito das igrejas, e outra vez ele foi à Judéia, à casa de Orígenes. [Eusébio 6.27.1]
  16. Lá conviveu algum tempo com ele para seu melhoramento nas coisas divinas. [Eusébio 6.27.1]
  17. Não só ele, mas também Alexandre, o bispo de Jerusalém, e Teoctisto, o de Cesaréia, estavam ligados a ele a todo tempo como ao único mestre. [Eusébio 6.27.1]
  18. Eles recomendaram-lhe que se ocupasse da interpretação da Sagrada Escritura e do resto do ensinamento eclesiástico. [Eusébio 6.27.1]
  19. Quando o imperador dos romanos Alexandre deu fim a seus treze anos de império, sucedeu-o Maximino César. [Eusébio 6.28.1]
  20. Este, por ressentimento contra a família de Alexandre, que era composta de muitos fiéis, suscitou uma perseguição ordenando que somente fossem eliminados os chefes das igrejas, como culpados pelo ensino do Evangelho. [Eusébio 6.28.1]
  21. Foi então que Orígenes compôs sua obra Sobre o martírio, que dedicou a Ambrósio e a Protocteto, presbítero este da comunidade de Cesaréia, porque na perseguição ambos tinham sido presas de dificuldades nada comuns. [Eusébio 6.28.1]
  22. Nelas estes dois varões distinguiram-se por sua confissão, segundo é tradição, e Maximino não durou mais do que três anos. [Eusébio 6.28.1]
  23. Orígenes explicou este tempo da perseguição no livro XXII de seus Comentários ao Evangelho de João e em diversas cartas. [Eusébio 6.28.1]
  24. Depois de Maximino, Gordiano recebeu em sucessão o principado dos romanos. [Eusébio 6.29.1]
  25. E a Ponciano, que havia exercido o episcopado da igreja de Roma por seis anos, sucedeu Antero, que depois de servir no cargo durante um mês, teve como sucessor Fabiano. [Eusébio 6.29.1]
  26. Conta-se que Fabiano, junto com outros, depois da morte de Antero, veio do campo e se estabeleceu em Roma. [Eusébio 6.29.2]
  27. Ali, por graça divina e celestial chegou ao cargo episcopal da maneira mais extraordinária. [Eusébio 6.29.2]
  28. Efetivamente, estando todos os irmãos reunidos para eleger o que haveria de receber em sucessão o episcopado e sendo numerosíssimos os varões ilustres e célebres que estavam na mente de muitos, a ninguém ocorreu pensar em Fabiano, ali presente. [Eusébio 6.29.3]
  29. Ainda assim, prontamente, segundo contam, uma pomba vinda do alto pousou sobre sua cabeça, imitando manifestamente a descida do Espírito Santo em forma de pomba sobre o Salvador. [Eusébio 6.29.3]
  30. Ante este fato, todo o povo, como que movido por um único espírito divino, pôs-se a gritar com todo entusiasmo e unanimemente que este era digno [Eusébio 6.29.4]
  31. E sem mais tardar tomaram-no e o colocaram sobre o trono do episcopado. [Eusébio 6.29.4]
  32. Por este tempo também, morto Zebeno, bispo de Antioquia, sucedeu-o no cargo Babilas. [Eusébio 6.29.4]
  33. E em Alexandria, assim como depois de Demétrio Heraclas havia recebido o ministério episcopal, a este sucedeu na escola de catequese Dionísio, outro discípulo de Orígenes. [Eusébio 6.29.4]

XII – Discípulos

  1. Muitos eram os que acudiam a Orígenes, enquanto este se entregava em Cesaréia a suas tarefas
    habituais, e não somente nativos, mas também inúmeros discípulos do estrangeiro que haviam
    deixado sua pátria. [Eusébio 6.30.1]
  2. Destes os mais ilustres de que sabemos foram Teodoro – que é a mesma pessoa que o famoso bispo contemporâneo nosso Gregório – e seu irmão Atenodoro. [Eusébio 6.30.1]
  3. Ainda que os dois estivessem como embebidos pelos estudos gregos e romanos, Orígenes foi-lhes inoculando o amor da filosofia e os impeliu a trocar pela ascese divina aquele seu primeiro ardor. [Eusébio 6.30.1]
  4. Cinco anos inteiros conviveram com ele e tão grande foi seu melhoramento nas coisas divinas que, sendo ambos ainda jovens, foram considerados dignos do episcopado das igrejas do ponto. [Eusébio 6.30.1]
  5. Também neste tempo era conhecido Africanus, o autor dos escritos intitulados Kestoi, que dele se conserva- uma Carta escrita a Orígenes. [Eusébio 6.31.1]
  6. A carta se mostra em dúvida sobre se a história de Susana no livro de Daniel é espúria e inventada. Orígenes deu-lhe uma resposta completíssima. [Eusébio 6.31.1]
  7. Do mesmo Africanus chegaram a nós outros trabalhos, cinco livros de Cronografias executados com exatidão, onde diz que pôs-se a caminho de Alexandria devido à grande fama de Heraclas. [Eusébio 6.31.2]
  8. Pois Heraclas, depois de ter-se distinguido muitíssimo em filosofia e outras ciências dos gregos, havia sido confiado o episcopado daquela igreja. [Eusébio 6.31.2]
  9. Conserva-se também uma segunda Carta do mesmo Africanus dirigida a Aristides, acerca da grande discordância das genealogias de Cristo em Mateus e Lucas. [Eusébio 6.31.3] 
  10. Nela estabelece clarissimamente a concordância de ambos evangelistas. [Eusébio 6.31.3]
  11. Orígenes, por este tempo, compunha os Comentários a Isaías, como também, pelas mesmas datas, os Comentários a Ezequiel. [Eusébio 6.32.1]
  12. Deles chegaram a nós trinta tomos do comentário à terceira parte de Isaías e dos Comentários a Ezequiel, vinte e cinco tomos, que são os únicos que já foram feitos sobre o profeta inteiro. [Eusébio 6.32.1]
  13. Estando por esta época em Atenas, dá o arremate aos Comentários a Ezequiel e começa os do Cantar dos Cantares, continuando-os ali mesmo até o livro quinto. [Eusébio 6.32.2]
  14. Regressou logo a Cesaréia e os terminou; dez no total. [Eusébio 6.32.2]
  15. E para que fazer aqui um catálogo das obras deste homem, que necessitaria um estudo especial? [Eusébio 6.32.3]
  16. Nós já o incluímos na relação da vida do santo mártir de nossos dias Panfilo; ao demonstrar nela como era grande o zelo de Panfilo pelas coisas divinas. [Eusébio 6.32.3]
  17. Foram citadas as listas da biblioteca por ele reunida com base nas obras de Orígenes que chegaram até nós. Mas agora devemos seguir com o fio de nossa história. [Eusébio 6.32.3]
  18. Nessa época, Berilo, o bispo de Bostra, mencionado pouco acima, pervertia a regra eclesiástica e tratava de introduzir ensinamentos estranhos à fé; [Eusébio 6.33.1]
  19. Ele se atreveu a dizer que nosso Salvador e Senhor não preexistia com individualidade própria antes de residir entre os homens. [Eusébio 6.33.1]
  20. Dizia que tampouco possuía divindade própria, mas unicamente a do Pai, que habita nele. [Eusébio 6.33.1]
  21. Ante isto, muitos bispos foram interrogar Berilo e dialogar com ele; Orígenes foi chamado e lá foi. [Eusébio 6.33.2]
  22. Começou conversando com Berilo para saber o quê pensava, e quando também soube o que dizia, comprovou que não opinava corretamente. [Eusébio 6.33.2]
  23. Persuadindo-o com a razão, colocou-o na verdade acerca da doutrina e o restabeleceu em sua primeira e sã opinião. [Eusébio 6.33.2]
  24. E até hoje subsistem escritos de Berilo e do sínodo que houve por sua causa, escritos que contêm, junto com as perguntas que Orígenes lhe fez e os diálogos havidos em sua própria comunidade,  tudo de que se tratou naquela ocasião. [Eusébio 6.33.3]
  25. Sobre Orígenes, por fim, os mais velhos de nossa geração transmitiram a memória de outros inumeráveis casos que haveremos de omitir, parece-me, por não caber à presente obra. [Eusébio 6.33.4]
  26. Mas tudo o que era necessário conhecer do que a ele se refere pode-se consultar na Apologia que elaboramos em sua defesa o santo mártir de nosso tempo Panfilo e nós. [Eusébio 6.33.4]
  27. Era uma obra que após penoso esforço realizamos juntos com grande diligencia, por causa dos insistentes. [Eusébio 6.33.4]

XIII –

  1. Ao terminar Gordiano seu reinado de seis anos completos sobre os romanos, sucedeu-o no principado Felipe, junto com seu filho Felipe. [Eusébio 6.34.1]
  2. Dele conta uma tradição que, como era cristão, quis tomar parte com a multidão nas orações que se faziam na Igreja no dia da última vigília da Páscoa, mas a pessoa que presidia naquela ocasião não permitiu que entrasse. [Eusébio 6.34.1]
  3. Antes, deveria fazer a confissão e inscrever-se com os que se classificava como pecadores e ocupavam o lugar da penitência, porque se não fizesse isto nunca o receberia de outra maneira, por causa das muitas tarefas que tinha. [Eusébio 6.34.1]
  4. E diz-se que ao menos obedeceu com bom ânimo e demonstrou com obras a
    sinceridade e piedade de sua disposição a respeito do temor a Deus. [Eusébio 6.34.1]
  5. Era o terceiro ano deste Felipe, quando morreu Heraclas, depois de presidir durante uns dezesseis
    anos as igrejas de Alexandria, recebeu o episcopado Dionísio. [Eusébio 6.35.1]
  6. Foi então, como também era natural, enquanto a fé se multiplicava e nossa doutrina se expressava
    com liberdade por todas as partes, quando Orígenes, segundo dizem, tendo passado dos sessenta
    anos de idade [Eusébio 6.36.1]
  7. Tendo já reunido uma grande experiência com sua longa preparação, permitiu aos taquígrafos transcrever as conferências tidas por ele em público, sendo que nunca antes tinha consentido que isto se fizesse. [Eusébio 6.36.1]
  8. Também compôs neste tempo os oito livros contra a obra do epicúreo Celso contra nós, intitulada Doutrina verdadeira. [Eusébio 6.36.2]
  9. Também compôs os vinte e cinco tomos Sobre o Evangelho de Mateus e os tomos Sobre os doze profetas, dos quais encontramos apenas vinte e cinco. [Eusébio 6.36.2]
  10. Conserva-se dele ainda uma carta ao próprio imperador Felipe e outra a sua mulher Severa, assim como muitas outras a diferentes pessoas. [Eusébio 6.36.3]
  11. Delas temos recolhido em volumes próprios, para que não andem mais espalhadas, todas que pudemos reunir, conservadas aqui e acolá entre diferentes pessoas. Ultrapassam o número de cem. [Eusébio 6.36.3]
  12. Escreveu também a Fabiano, o bispo de Roma, e a muitos outros chefes de igrejas, sobre sua
    própria ortodoxia. [Eusébio 6.36.4]
  13. Tens provas disso no livro sexto da Apologia que escrevemos sobre este homem. [Eusébio 6.36.4]
  14. Pela mesma época de que falamos surgiram novamente na Arábia outros introdutores de uma
    doutrina alheia à verdade. [Eusébio 6.37.1]
  15. Eles diziam que a alma humana, enquanto durar o tempo presente, morre no transe derradeiro juntamente com os corpos e com eles se corrompe. [Eusébio 6.37.1] Mas que um dia reviverá novamente com eles no momento da ressurreição. [Eusébio 6.37.1]
  16. Pois bem, também então reuniu-se um concilio de bom tamanho e novamente chamou-se a Orígenes, que teve alguns discursos em público sobre o assunto debatido, [Eusébio 6.37.1]
  17. De tal forma se conduziu que aqueles que primeiro haviam sido enganados mudaram suas opiniões. [Eusébio 6.37.1]
  18. Também então deu início a uma nova perversão a heresia chamada dos helcesaítas, que se
    extinguiu logo depois de nascida. [Eusébio 6.38.1]
  19. Ela foi mencionada por Orígenes em uma homilia sobre o salmo 82, que pronunciou em público, e diz assim: [Eusébio 6.38.1]
  20. “Veio recentemente um que se gloria de poder ser embaixador de uma doutrina atéia e ímpia por demais, chamada dos helcesaítas, que se levantou recentemente contra as igrejas.” [Eusébio 6.38.1]
  21. “Quais são as maldades que profere esta doutrina, vou expô-las, para que não vos capture.” [Eusébio 6.38.1]
  22. “Rechaça algumas coisas de toda a Escritura; utiliza no entanto passagens tomadas de todo o Antigo Testamento e dos Evangelhos; rechaça por inteiro o Apóstolo.” [Eusébio 6.38.1]
  23. “Diz que renegar a fé é coisa indiferente, e que o homem atento, em caso de necessidade, renegará com a boca, ainda que não com o coração.” [Eusébio 6.38.1]
  24. “E possuem um livro do qual dizem que caiu do céu e que quem o ouça e tenha fé receberá perdão de seus pecados, um perdão diferente do que Cristo Jesus deu.” [Eusébio 6.38.1]

XIV – Tortura por Décio

  1. Agora pois, a Felipe, que havia imperado por sete anos, sucede Décio, que por ódio a Felipe suscitou uma perseguição contra as igrejas. [Eusébio 6.39.1]
  2. Nela Fabiano consumou seu martírio em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado. [Eusébio 6.39.1]
  3. E na Palestina, Alexandre, bispo da igreja de Jerusalém, novamente comparece por Cristo ante os tribunais do governador em Cesaréia. [Eusébio 6.39.2]
  4. Depois de distinguir-se nesta segunda confissão de fé, experimenta o cárcere apesar de estar já coroado com os veneráveis cabelos brancos de sua esplêndida velhice. [Eusébio 6.39.2]
  5. Morto na prisão, depois de dar brilhante e claríssimo testemunho ante os tribunais do governador, proclama-se Mazabanes seu sucessor no episcopado de Jerusalém. [Eusébio 6.39.3]
  6. De modo semelhante a Alexandre morreu Babilas na prisão em Antioquia depois de sua confissão de fé, e Fábio pôs-se à frente daquela igreja. [Eusébio 6.39.4]
  7. Quanto a Orígenes, quantas e quais coisas lhe aconteceram na perseguição e o fim que tiveram. [Eusébio 6.39.5]
  8. O malvado demônio se pôs contra ele todo seu exército e lutava contra ele com todos seus meios e todo seu poder [Eusébio 6.39.5]
  9. Abatia-se sobre ele de modo distinto do que sobre os demais a quem fazia então a guerra. [Eusébio 6.39.5]
  10. Muitos e variados sofrimentos teve que suportar aquele homem pela doutrina de Cristo: correntes e torturas, os suplícios físicos, os suplícios pelo ferro e os suplícios na escuridão do cárcere. [Eusébio 6.39.5]
  11. Os seus pés durante muitos dias foram estendidos no cepo até o quarto furo e depois de ser ameaçado com o fogo, suportou ainda com integridade muitos outros tormentos que seus inimigos lhe infligiam. [Eusébio 6.39.5]
  12. Tudo suportou enquanto o juiz se esforçava com todas suas forças para que não se lhe tirassem a vida. [Eusébio 6.39.5]
  13. Depois de tudo isto, que classe de sentenças deixou atrás de si, cheias também elas de proveito para os que necessitam recuperar-se. [Eusébio 6.39.5]
  14. Tudo isto está contido nas numerosas cartas deste homem, com tanta verdade quanto exatidão.
  15. Igualmente, aconteceu com Dionísio como apresentado em sua Carta contra Germano, onde, falando de si mesmo. [Eusébio 6.40.1]
  16. Ele conta o que segue: “Eu, de minha parte, também estou falando diante de Deus e ele sabe se estou mentindo.” [Eusébio 6.40.1]
  17. “Não empreendi a fuga baseado em mim mesmo e sem ajuda de Deus, mas antes, declarada a perseguição de Décio, na mesma hora o prefeito do Egito chamado Sabino enviou um frumentário em busca de mim.” [Eusébio 6.40.2]
  18. “Eu permaneci quatro dias em minha casa esperando a chegada do frumentário, mas ele andou dando voltas esquadrinhando tudo, os caminhos, os rios, os campos, onde ele suspeitava que eu me ocultava ou andava.” [Eusébio 6.40.2]
  19. “Pois estava afetado por tal cegueira de não encontrar a casa, pois não acreditava que eu, sendo perseguido, permanecesse em casa.” [Eusébio 6.40.2]
  20. “E somente depois do quarto dia, porque Deus me ordenava trasladar-me e milagrosamente nos abria caminho, saímos juntos eu e meus filhos e muitos irmãos.” [Eusébio 6.40.3]
  21. E que isto foi obra da providência de Deus é provado pelos acontecimentos exteriores em que por acaso fomos de proveito para alguns”. [Eusébio 6.40.3]
  22. Logo, depois de interpor alguma outra coisa, manifesta o que lhe aconteceu depois de sua fuga, acrescentando o que segue:” [Eusébio 6.40.4]
  23. “Eu, de minha parte, até o pôr-do-sol, caí efetivamente nas mãos dos soldados, junto com meus
    acompanhante.” [Eusébio 6.40.4]
  24. “Eu fui conduzido a Taposiris, enquanto que Timóteo, pela providência de Deus, por acaso não se achava presente e não foi detido.” [Eusébio 6.40.4]
  25. “Quando regressou mais tarde, encontrou a casa deserta e alguns servidores guardando-a, e quanto a nós, soube que nos tinham capturado.” [Eusébio 6.40.5]
    5. “E qual foi a forma de sua admirável disposição providencial? Porque há que se dizer a verdade.” [Eusébio 6.40.5]
  26. “Um camponês saiu ao encontro de Timóteo, que fugia perturbado, e perguntou-lhe a causa daquela precipitação.” [Eusébio 6.40.5]
  27. “Este lhe disse a verdade, e aquele, quando o ouviu, não fez mais que entrar e contá-lo aos que estavam à mesa.” [Eusébio 6.40.6]
  28. “Todos eles, como a um sinal convencionado e por impulso unânime, puseram-se em pé e a toda pressa logo chegaram.” [Eusébio 6.40.6]
  29. “Caíram sobre nós com grande gritaria e, tendo fugido os soldados que nos guardavam, acercaram-se de nós como estávamos, largados sobre uns estrados sem cobertores.” [Eusébio 6.40.7]
  30. “Eu então – sabe Deus que na hora os tomei por salteadores vindos para roubar e pilhar – permaneci no leito, desnudo como estava, com a simples camisa de linho, e as demais roupas que estavam junto de mim eu lhe oferecia. [Eusébio 6.40.7]
  31. “Mas eles nos ordenaram levantar-nos e sair a toda pressa.” [Eusébio 6.40.7]
  32. “Então compreendi por que estavam ali e comecei a gritar pedindo-lhes e suplicando-lhes que fossem e nos deixassem. [Eusébio 6.40.8],
  33. “Se queriam fazer algo proveitoso, eu lhes rogava que se antecipassem aos que me conduziam e que eles mesmos me cortassem a cabeça. [Eusébio 6.40.8]
  34. “E enquanto eu dizia isto a gritos, como sabem meus companheiros e coparticipes de toda esta peripécia, levantaram-nos à força. [Eusébio 6.40.8]
  35. “Eu então me joguei de costas ao chão, mas eles, agarrando-me pelas mãos e pelos pés tiraram-me arrastado.” [Eusébio 6.40.8]
  36. “Seguiam-me as testemunhas de tudo isto: Caio, Fausto, Pedro, Paulo, os quais puxando-me às pressas, tiraram-me do povoado, e fazendo-me montar em pelo sobre um asno, levaram-me.” [Eusébio 6.40.9]
  37. Assim descreveu Dionísio sobre si mesmo. [Eusébio 6.40.9]

XV – Imperador Décio

  1.  Dionísio, em sua carta a Fábio, bispo de Antioquia, narra como segue os combates dos que
    sofreram martírio em Alexandria sob Décio: [Eusébio 6.41.1]
  2. “Entre nós a perseguição não começou pelo edito imperial, mas antecipou-se um ano inteiro.” [Eusébio 6.41.1]
  3. Tomando a dianteira nesta cidade o adivinho e autor de males, quem quer este fosse, agitou e excitou contra nós as turbas de pagãos reavivando seu zelo pela superstição do país. [Eusébio 6.41.1]
  4. Excitados por ele e tomando toda liberdade para sua ímpia obra, começaram a pensar que somente era religião este ato de culto demoníaco: assassinar-nos. [Eusébio 6.41.2]
  5. O primeiro a quem lançaram mão foi um velho chamado Metras; intimaram-no a dizer palavras ímpias, e como ele não obedecia, bateram-no por todo o corpo e espetaram seu rosto e seus olhos com varas pontiagudas; levaram-no ao arraial e ali o apedrejaram. [Eusébio 6.41.3]
  6. Depois foi uma mulher crente, chamada Quinta; conduziram-na ao templo dos ídolos e queriam
    forçá-la a adorar. [Eusébio 6.41.4]
  7. Mas como ela se virou horrorizada, ataram-lhe os pés e a arrastaram por toda a cidade sobre o áspero calçamento, batendo contra as lajes enquanto a açoitavam, e voltando ao mesmo lugar, apedrejaram-na. [Eusébio 6.41.4]
  8. Em seguida todos de uma vez lançaram-se contra as casas dos fiéis, e caindo sobre os que cada um conhecia, seus vizinhos, levavam-nos e se entregavam ao saque e à pilhagem. [Eusébio 6.41.5]
  9. Separando para si os objetos mais valiosos e jogando os mais vulgares e feitos de madeira para queimá-los nas ruas, ofereciam o espetáculo de uma cidade tomada por inimigos. [Eusébio 6.41.5]
  10. Quanto aos irmãos, deixavam-nos fazer, retiravam-se às escondidas e aceitavam com alegria o roubo de seus bens, assim como aqueles de quem Paulo deu testemunho. [Eusébio 6.41.6]
  11. E não sei de nenhum até agora que tenha renegado o Senhor, a não ser, talvez, um que caiu em suas mãos. [Eusébio 6.41.6]
  12. Mas ainda há mais; prenderam também então a anciã Apolonia, virgem admirável. [Eusébio 6.41.7]
  13. Ao golpeá-la nas faces fizeram saltar-lhe todos os dentes, e erguendo uma fogueira diante da cidade, ameaçaram queimá-la viva se não proferisse, junto com eles, os votos da impiedade. [Eusébio 6.41.7]
  14. Ela então pediu um pequeno espaço e, uma vez solta, lançou-se de um forte salto ao fogo e ficou completamente queimada. [Eusébio 6.41.7]
  15. Serapion foi preso em casa, e depois de maltratá-lo com duros tormentos e torcer-lhe todos os membros, lançaram-no de cabeça do andar superior. [Eusébio 6.41.8]
  16. Nem por caminhos, nem por trilhas, nem pelas ruas podíamos transitar, nem de noite nem de dia, sem que a toda hora e em toda parte gritassem que quem não cantasse as palavras blasfemas devia ser arrastado e queimado. [Eusébio 6.41.8]
  17. Este estado de coisa se manteve assim por muito tempo, mas depois a revolta se apoderou dos próprios ímpios. [Eusébio 6.41.9]
  18. Uma guerra civil entre Felipe e Décio voltou contra eles mesmos a crueldade que antes empregavam contra os Cristãos. [Eusébio 6.41.9]
  19. Estes puderam por fim respirar um pouco aproveitando sua falta de tempo para se irritarem contra nós. [Eusébio 6.41.9]
  20. Mas em seguida anunciou-se a troca daquele reinado, tão favorável para nós, e espalhou-se um grande temor pelo que nos ameaçava. [Eusébio 6.41.9]
  21. E assim é que ali estava o edito, quase idêntico ao previsto por nosso Senhor, o mais terrível ou pouco menos, tanto que, sendo possível, até os próprios eleitos tropeçariam. [Eusébio 6.41.10]
  22. Certo é que estavam todos aterrados, e muitos dos mais conspícuos, uns compareciam logo, mortos de medo. [Eusébio 6.41.11]
  23. Outros, com cargos públicos, viam-se levados por suas próprias funções, e outros eram arrastados pelos amigos. [Eusébio 6.41.11]
  24. Chamados pelo nome, aproximavam-se dos impuros e profanos sacrifícios, pálidos e trêmulos, como se não fossem sacrificar, mas serem eles mesmos sacrifícios e vítimas para os ídolos. [Eusébio 6.41.11]
  25. O numeroso público ao redor zombava deles, pois era evidente que para tudo eram uns covardes, para morrer e para sacrificar. [Eusébio 6.41.11]
  26. Alguns outros, por outro lado, corriam mais resolutos aos altares e levavam sua audácia ao ponto de sustentar que jamais anteriormente tinham sido cristãos. [Eusébio 6.41.12]
  27. A eles se refere a muito verdadeira pregação do Senhor: que dificilmente se salvarão. [Eusébio 6.41.12]
  28. Dos restantes, uns seguiam a um ou outro dos grupos mencionados, e os outros fugiam. [Eusébio 6.41.12]
  29. Quanto aos que foram presos, alguns, depois de terem chegado até as correntes e ao cárcere – alguns inclusive estiveram encerrados vários dias -, logo renegaram, ainda antes de chegar ao tribunal. [Eusébio 6.41.13]
  30. Outros, depois de se manterem firmes algum tempo nos tormentos, negaram-se a seguir adiante. [Eusébio 6.41.13]
  31. Mas os sólidos e abençoados pilares do Senhor, fortalecidos por ele com uma força e constância adequadas e dignas de sua fé robusta, converteram-se em testemunhos admiráveis de seu reino. [Eusébio 6.41.14]

XVI – Martírios

  1. O primeiro deles, Juliano era um homem sofrendo de gota, incapaz de ficar em pé ou de caminhar,
    que foi conduzido junto com outros dois que o levavam. [Eusébio 6.41.15]
  2. Um destes renegou em seguida, enquanto que o outro, chamado Cronion e apelidado Eunus, assim como o próprio ancião Juliano, confessaram o Senhor. [Eusébio 6.41.15]
  3. Eles foram levados sobre camelos por toda a cidade, que eram enorme, como sabeis, enquanto os açoitavam lá em cima, por último, com todo o povo acotovelando-se em torno, queimaram-nos com cal viva. [Eusébio 6.41.15]
  4. E um soldado que os escoltava quando eram conduzidos ao suplício enfrentou-se com os que lançavam seus insultos, mas eles se puseram a gritar.  [Eusébio 6.41.16]
  5. O valentíssimo campeão de Deus, Besas, foi conduzido ao tribunal, de depois de sobressair no grande combate pela religião, foi decapitado. [Eusébio 6.41.16]
  6. E outro ainda, de nacionalidade líbia, e verdadeiro Mácar por seu nome e por bênção divina, como o juiz insistisse em exortá-lo a renegar, não se deixou seduzir, e o queimaram vivo. [Eusébio 6.41.17]
  7. Depois destes, Epímaco e Alexandre, que depois de ficarem presos longo tempo sofrendo incontáveis sofrimentos de ganchos e açoites, foram também metidos em cal viva. [Eusébio 6.41.17]
  8. E com estes, quatro mulheres. A Ammonaria, uma santa virgem, o juiz mandou torturá-la com toda sanha e força.
  9. Ela constatou de antemão que não diria uma só palavra que ele ordenasse e ela cumpriu a promessa quando a conduziram ao suplício. [Eusébio 6.41.18]
  10. Quanto às outras, a venerável anciã Mercuria, e Dionisia, mãe de muitos filhos, aos quais, no entanto, não amou mais do que ao Senhor. [Eusébio 6.41.18]
  11. O juiz sentiu-se envergonhado ante a ineficácia de suas torturas, e para não ser vencido por umas mulheres, fez com que morressem pela espada e não provassem mais tormentos. [Eusébio 6.41.18]
  12. De fato Ammonaria os tinha suportado por todas elas, como um paladino seu. [Eusébio 6.41.18]
  13. Foram entregues também os egípcios Heron, Ater e Isidoro, e com eles um rapaz de uns quinze
    anos chamado Dióscoro. [Eusébio 6.41.19]
  14. Primeiramente o juiz tentou seduzir o rapaz com palavras, pensando ser fácil de enganar, e forçá-lo com tormentos pensando ser fácil de ceder, mas Dióscoro nem se deixou persuadir nem cedeu. [Eusébio 6.41.19]
  15. Aos outros dilacerou ferozmente, e como seguiram firmes, também os entregou ao fogo. [Eusébio 6.41.20]
  16. A Dióscoro, por outro lado, deixou seguir livre, admirado de como havia-se coberto de glória ante o público e que sábias respostas dera em seu próprio interrogatório, [Eusébio 6.41.20]
  17. Ele disse que lhe dava aquela prorrogação para que se arrependesse. E agora, o divino Dióscoro está conosco, reservado para um combate mais longo e trabalhos mais duradouros. [Eusébio 6.41.20]
  18. E um tal Nemesion, também egípcio, foi injustamente acusado de viver com ladrões. [Eusébio 6.41.21]
  19. Quando conseguiu desfazer tão absurda calúnia ante o Centurião, foi denunciado como cristão e veio acorrentado ante o governador. [Eusébio 6.41.21]
  20. Este, muito injusto, maltratou-o com tormentos e açoites em quantidade dobrada da dos bandidos, e entre bandidos fez queimar o bem-aventurado, que assim via-se honrado com o exemplo de Cristo. [Eusébio 6.41.21]
  21. Todo um piquete de soldados: Ammon, Zenon, Ptolomeu e Ingenes, e com eles um ancião, Teófilo, achava-se de pé diante do tribunal. [Eusébio 6.41.22]
  22. Estava-se julgando um homem por ser cristão, e quando ele ia se inclinando para a apostasia, aqueles, que estavam presentes começaram a rilhar os dentes e faziam sinais com a cabeça, estendiam as mãos e gesticulavam com todo o corpo. [Eusébio 6.41.22]
  23. Todos se viraram para eles, e então, antes que os prendessem por outros motivos, eles mesmos se adiantaram correndo para o estrado dizendo que eram cristãos. [Eusébio 6.41.23]
  24. Com isto tanto o governador como seus assessores, encheram-se de medo e parecia que, enquanto os réus se mostravam animadíssimos com o que iam padecer, os juízes se acovardavam. [Eusébio 6.41.23]
  25. E assim aqueles soldados saíram em triunfo do tribunal transbordantes de alegria por seu testemunho: Deus os fazia triunfar gloriosamente. [Eusébio 6.41.23]

XVII – Mais Martírios

  1. E muitos outros foram despedaçados pelos pagãos nas cidades e aldeias, desses recordarei somente um para fim de exemplo. [Eusébio 6.42.1]
  2. Isquirion era intendente a soldo de um dos magistrados. [Eusébio 6.42.1]
  3. Seu amo o mandou sacrificar, e como ele não obedeceu, começou a injuriá-lo, persistiu em sua negativa, e o amo o maltratava. [Eusébio 6.42.1]
  4. Como suportava tudo, este agarrou uma enorme estaca e, atravessando-lhe intestinos e entranhas, matou-o. [Eusébio 6.42.1]
    2. E o que dizer da multidão dos que andaram errantes por desertos e montes e morreram de fome, de
    sede, de frio e de enfermidades, ou presa de ladrões e de feras? [Eusébio 6.42.2]
  5. De sua eleição e sua vitória são testemunhas os que dentre eles sobreviveram. Como prova de todos, citarei também um só caso. [Eusébio 6.42.2]
  6. Queremon era já muito velho e era bispo da cidade chamada Nilópolis. [Eusébio 6.42.3]
  7. Tendo fugido com sua mulher à montanha de Arábia, não regressou mais, e os irmãos, apesar de esquadrinhar bem por muitas partes, não puderam encontrá-los nem seus cadáveres. [Eusébio 6.42.3]
  8. Muitos são os que nessa mesma montanha de Arábia foram reduzidos à escravidão pelos bárbaros sarracenos. [Eusébio 6.42.4]
  9. Deles, alguns foram resgatados com grande dificuldade e em troca de muito dinheiro; e outros não, até hoje. [Eusébio 6.42.4]
  10. E se te expliquei isto, irmão, não é sem motivo, mas para que saibas quantas e que terríveis provas nos atingiram, e mais poderiam contar aqueles que mais experimentaram.” [Eusébio 6.42.4]
    5. “Portanto, os mesmos divinos mártires entre nós, que agora são assessores de Cristo e partícipes de seu reino e de seu juízo, e que junto a ele ditam sentenças, receberam alguns irmãos caídos que se tinham feito culpados de ter sacrificado. [Eusébio 6.42.5]
  11. Quando viram sua conversão e arrependimento e julgaram que podia ser aceitável para o que não quer em absoluto a morte do pecador. [Eusébio 6.42.5]
  12. Mas seu arrependimento, receberam-nos, congregaram com eles, reuniram-nos e lhes deram parte em suas orações e comidas. [Eusébio 6.42.5]
    6. O que nos aconselhais, pois, vós sobre isto, irmãos? Que devemos fazer? [Eusébio 6.42.6]
  13. Nos colocaremos ao lado da sua decisão e de seu sentimento e guardaremos seu juízo e sua graça. [Eusébio 6.42.6]
  14. Seremos bons para aqueles com quem compadeceram. [Eusébio 6.42.6]
  15. Ou teremos por injusta sua decisão e nos imporemos como juízes de sua opinião, deplorando sua bondade e questionando a ordem estabelecida?” [Eusébio 6.42.6]
  16. Isto é o que Dionísio, de bom acordo, nos expõe ao remover o tema dos que haviam desfalecido na temporada de perseguição. [Eusébio 6.42.6]
  17. Foi precisamente então que Novato, presbítero da igreja de Roma, ensoberbecido contra estes que negaram a fé perante os tribunais pagãs, pregou que para eles não havia a esperança de salvação. [Eusébio 6.43.1]
  18. Ele negou que voltassem a igreja arrependidos mesmo com uma conversão sincera e com uma confissão pura. [Eusébio 6.43.1]
  19. Ele constituiu-se assim em fundador de uma heresia particular, a daqueles que, por orgulho de sua razão, declaravam a si mesmos puros. [Eusébio 6.43.1]
  20. Por este motivo reuniu-se em Roma um numerosíssimo concilio, com sessenta bispos e um número ainda maior de presbíteros e diáconos. [Eusébio 6.43.2]
  21. Também nas demais províncias os pastores locais examinavam particularmente a fundo o que se haveria de fazer. [Eusébio 6.43.2]
  22. Todos tomaram uma decisão: que Novato, junto com os que se haviam levantado com ele, assim como os que haviam preferido aprovar o parecer antifraterno e sumamente desumano deste homem, seriam
    considerados como alheios à Igreja. [Eusébio 6.43.2]
  23. Ao contrário de Novato, ficou decidido que os irmãos caídos naquela calamidade deveriam ser curados e cuidados com os remédios da penitência. [Eusébio 6.43.2]

XVIII – Carta Papal

  1. Preservou-se  a carta do bispo de Roma Cornélio, escrita para a igreja de Antioquia, Fábio, que declara os fatos relativos ao concilio de Roma e às decisões dos da Itália, da África e das regiões daqueles lugares. [Eusébio 6.43.3]
  2. Também se preservou outras, compostas em língua latina, de Cipriano e de seus colegas da África, através das quais manifestavam que também eles achavam que era necessário socorrer os que haviam caído na prova. [Eusébio 6.43.3]
  3. Manifestavam também com boa razão era necessário declarar expulso da Igreja católica o fundador da heresia, assim como os que se haviam deixado extraviar por ele. [Eusébio 6.43.3]
  4. Junto com essas cartas vinha outra de Cornélio sobre as decisões do concilio, e ainda outra sobre os
    atos de Novato. Nada nos impede de citar um parágrafo desta para quem leia este livro saiba sobre
    ele. [Eusébio 6.43.4]
  5. Explicando a Fábio que tipo de homem era Novato, Cornélio escreve o seguinte “para que este saiba que estranho indivíduo vinha há muito tempo desejando o episcopado”. [Eusébio 6.43.5]
  6. “Ele ocultava em si mesmo esta sua violenta paixão utilizando como cobertura de sua loucura o fato de ter consigo no início os confessores”.
  7. Ele escreve: “Máximo, um dos nossos presbíteros, e Urbano, tinham ambos colhido por duas vezes a melhor
    das glórias por sua confissão.” [Eusébio 6.43.5]
  8. Logo Sidonio e também Celerino, varão que, pela misericórdia de Deus, havia suportado com a maior integridade todos os tormentos.”
  9. “Fortalecendo a fraqueza de sua carne com o vigor de sua fé, tinha vencido a viva força o adversário.” [Eusébio 6.43.6]
  10. “Estes homens conheceram Novato, e depois que descobriram a malícia que havia nele, sua falsidade, seus perjúrios, seus enganos, sua insociabilidade e sua amizade lupina, retornaram à santa Igreja” [Eusébio 6.43.6]
  11. “Eles revelaram todas suas maquinações e ações malvadas, que já possuía desde há muito tempo, mas
    que ocultava em si mesmo.” [Eusébio 6.43.6]
  12. “Achando-se presentes muitos bispos e grande número de presbíteros e laicos, eles se lamentavam e se arrependiam de ter abandonado por breve tempo a Igreja, persuadidos por aquela besta pérfida e malvada.” [Eusébio 6.43.6]
  13. “É extraordinário, querido irmão, a mudança e transformação que em pouco tempo contemplamos nele!” [Eusébio 6.43.7]
  14. “Porque sendo uma pessoa brilhantíssima e que fazia crer com tremendos juramentos que de modo algum desejava o episcopado, de repente aparece já como bispo, como que lançado ao meio por arte de encantamento. [Eusébio 6.43.7]
  15. “Efetivamente, este expositor de doutrinas, este campeão da ciência eclesiástica, quando se empenhou em tomar para si e arrebatar o episcopado, que não lhe fora dado do alto, escolheu dois partidários seus. [Eusébio 6.43.8]
  16. “Desesperados da própria salvação, eles foram enviados a certa parte da Itália, pequena e insignificante, para ali enganar com elaborada argumentação a três bispos, homens rústicos e muito simples. [Eusébio 6.43.8]
  17. “Eles afirmaram energicamente e sustentando com força que era preciso que se apresentassem rapidamente em Roma, para que com sua mediação e com a ajuda de outros bispos, se pusesse fim a toda dissensão que havia surgido. [Eusébio 6.43.8]
  18. “Assim que chegaram – pessoas, como já dissemos, demasiado simples para as maquinações e falta
    de escrúpulos destes malvados. [Eusébio 6.43.9]
  19. “Eles foram encerrados por alguns homens semelhantes a ele e por ele transtornados. [Eusébio 6.43.9]
  20. “Durante a hora décima, quando se encontravam ébrios e tomados pelo vinho, obrigou-os à força a que, mediante uma imposição de mãos simulada e vã, lhe conferissem o episcopado, o mesmo que agora reivindica com fraude e malícia, pois não lhe cabe. [Eusébio 6.43.9]
  21. “Não muito depois, um deles voltou à Igreja, lamentando-se e confessando seu pecado, e nós o
    admitimos à comunhão como laico, pois todo o povo ali presente intercedia por ele. [Eusébio 6.43.10]
  22. “Quanto aos outros bispos, ordenamos sucessores para eles e os enviamos aos lugares onde eles estavam. [Eusébio 6.43.10]
  23. “Assim pois, este vingador do Evangelho não sabia que deve haver um só bispo em uma igreja católica em que não ignora que há quarenta e seis presbíteros, sete diáconos, sete subdiáconos, quarenta e dois acólitos, cinqüenta e dois entre exorcistas, leitores e ostiários; [Eusébio 6.43.11]
  24. “Assim como mais de mil e quinhentas viúvas e necessitados, todos os quais são alimentados pela graça e o amor do Senhor para com os homens.” [Eusébio 6.43.12]
  25. “Uma multidão tão grande e tão necessária na Igreja, e um número tão rico e em contínuo aumento pela providência divina, com um povo imenso e inumerável, não conseguiu afastá-lo de tamanho desespero e desmoronamento para retorná-lo à Igreja. [Eusébio 6.43.12]
  26. “Pois bem, digamos na mesma carreira com que obras e com que gênero de vida atrevia-se a reivindicar o episcopado.” [Eusébio 6.43.13]
  27. “Seria por acaso, ao menos porque desde o princípio vivia habitualmente na igreja? Ou porque por ela travou numerosos combates e, por causa da religião, viu-se envolto em muitos e grandes perigos?” [Eusébio 6.43.13]
  28. “Nada disso houve. Ao menos para ele, o ponto de partida de sua crença foi Satanás, que tinha
    vindo a ele e nele havia morado bastante tempo.” [Eusébio 6.43.14]
  29. “Os exorcistas o ajudaram quando caiu numa grande enfermidade, e como pensava que morreria logo, no próprio leito em que jazia recebeu o batismo por aspersão, se é que se pode dizer este o recebeu.” [Eusébio 6.43.14]
  30. “Mas tendo escapado à enfermidade, não recebeu nenhuma das outras coisas que se deve receber depois, segundo a regra da Igreja, nem sequer o ser selado pelo bispo. [Eusébio 6.43.15]
  31. “E não tendo recebido isto, como poderia ter recebido o Espírito Santo?” [Eusébio 6.43.15]
  32. “Ele, que por covardia e apego à vida, em tempos de perseguição negou que fosse presbítero. [Eusébio 6.43.16]
  33. “Efetivamente, os diáconos lhe pediam e exortavam a que saísse do casebre em que havia se encerrado e socorresse aos irmãos em tudo o que fosse lei e segundo a possibilidade de um presbítero para socorrer a uns irmãos em perigo e necessitados de socorro.” [Eusébio 6.43.16]
  34. “Mas ele estava tão longe de obedecer às exortações dos diáconos que partiu enfurecido e se afastou, porque dizia que já não queria ser presbítero por estar enamorado de outra filosofia”. [Eusébio 6.43.16]
  35. “Este ilustre personagem abandonou efetivamente a igreja, na qual havia obtido a fé e na qual havia sido considerado digno do presbiteriado, pela graça do bispo que lhe impôs sua mão para a ordem do presbiteriado.” [Eusébio 6.43.17]
  36. “Este Novato, de fato, realizada a oferenda, ao distribuir a cada um sua parte na comunhão e entregá-la, obriga as pobres pessoas a jurar, em vez de bendizer.” [Eusébio 6.43.18]
  37. “Com ambas as mãos agarra as de quem vai receber a comunhão e não as solta até que tenha jurado proferindo as palavras: ‘Jura-me pelo sangue e o corpo de nosso Senhor Jesus Cristo não me abandonar jamais para voltar-te a Cornélio’. [Eusébio 6.43.19]
  38. “E o pobre desgraçado não toma a comunhão se antes não faz imprecações contra si mesmo. E em vez de pronunciar ‘Amém’, ao tomar aquele pão, diz: ‘Não voltarei a Cornélio’.” [Eusébio 6.43.19]
  39. “Mas deves saber que agora ele se encontra desnudado e ficou isolado, pois cada dia o abandonam os irmãos e voltam à Igreja. [Eusébio 6.43.20]
  40. “O próprio Moisés, o que recentemente deu entre nós um formoso e admirável testemunho, achando-se ainda no mundo, como vendo a ousadia e a loucura daquele, o excomungou junto com os cinco presbíteros que com ele haviam-se separado da Igreja.” [Eusébio 6.43.20]

 

XIX -Conclusão

  1. Fábio, Bispo de Antioquia, que se inclinava um pouco ao cisma, também manteve correspondência epistolar Dionísio, o bispo de Alexandria. [Eusébio 6.44.1]
  2. Ele explicou muitos e diferentes pontos, entre eles o da penitência, nas cartas que lhe dirigiu, ao referir detalhadamente os combates dos que então acabavam de padecer martírio em Antioquia. [Eusébio 6.44.1]
  3. No curso do relato narra também um fato, muito admirável, que será necessário transmitir nesta obra e que diz assim: “Vou porém expor-te este único exemplo, ocorrido entre nós.” [Eusébio 6.44.2]
  4. “Havia entre nós um tal Serapion, já ancião e crente. Durante muito tempo havia vivido de forma irrepreensível, mas logo, na prova, caiu. [Eusébio 6.44.2]
  5. “Ele pediu muitas vezes (o perdão), mas ninguém fez caso dele, porque inclusive havia
    sacrificado. Tendo adoecido, passou três dias seguidos sem poder falar e inconsciente.
  6. “Quando ao quarto dia se recuperou um pouco, chamou seu neto e disse: ‘Até quando, filho, reter-me-ão? Dá-te pressa, rogo-te, e soltai-me logo. Chama-me algum dos presbíteros’. E dito isto, ficou novamente sem voz. [Eusébio 6.44.3]
  7. “O rapaz correu à casa do presbítero, mas era de noite e este achava-se enfermo; não podia ir, mas como eu havia mandado que aos que iam partir desta vida, se pedissem perdão, e principalmente se antes já o tivessem suplicado, eu os concedia. [Eusébio 6.44.4]
  8. “Assim o fazia para que partissem com boa esperança, por isso ele deu ao rapaz uma porção da Eucaristia, e mandou que a colocasse em algum líquido e a fizesse cair em gotas na boca do ancião. [Eusébio 6.44.4]
  9. “O rapaz regressou com ela e, quando se aproximava, antes que entrasse, novamente Serapion voltou a si e disse: ‘Já chegaste, filho? O presbítero não pôde vir, mas tu faze rápido o que te foi ordenado e deixa-me partir’. [Eusébio 6.44.5]
  10. “O rapaz pôs em um líquido, que era a porção da Eucaristia, e no momento em que a vertia na boca do ancião, este tomou um pouquinho e imediatamente entregou seu espírito. [Eusébio 6.44.5]
  11. “Agora bem, não está claro que foi preservado e se manteve até que fosse absolvido e, apagado seu pecado, pudesse ser reconhecido pelas muitas obras boas que havia feito? Isto questionou Dionísio. [Eusébio 6.44.6]
  12. Mas vejamos como escreveu ele mesmo a Novato, que então andava perturbando a comunidade dos irmãos em Roma. [Eusébio 6.45.1]
  13. Ocorre pois que este andava fazendo de alguns irmãos pretexto para sua apostasia e seu cisma, como se de fato eles o tivessem forçado a chegar a esta situação, veja de que modo lhe escreve: [Eusébio 6.45.1]
  14. “Dionísio a Novaciano, seu irmão, saúde: Se, como dizes, fostes levado contra a vontade, terás que prová-lo regressando voluntariamente, porque há que sofrer o que fosse para não partir em duas a Igreja de Deus. [Eusébio 6.45.1]
  15. O testemunho dado para evitar o cisma não seria menos glorioso do que o que se dá por não adorar os ídolos. [Eusébio 6.45.1]
  16. Para mim inclusive seria maior, porque neste dá-se testemunho apenas pela própria alma, enquanto que no outro se dá por toda a Igreja. [Eusébio 6.45.1]
  17. Mas ainda agora, se consegues persuadir ou forçar teus irmãos a retornar à concórdia, tua recuperação será maior do que tua queda. [Eusébio 6.45.1]
  18. Esta não será posta em tua conta, enquanto que a outra te será louvada. [Eusébio 6.45.1]
  19. E se não podes, porque não te obedecem, salva pelo menos tua própria alma. Rogo que tenhas saúde, e também a paz no Senhor.” [Eusébio 6.45.1]
  20. Isto Dionísio escreveu a Novato, mas além disso escreveu aos irmãos do Egito uma carta Sobre a penitência, na qual expõe suas opiniões acerca dos caídos distinguindo graus de faltas. [Eusébio 6.46.1]
  21. Também se conserva uma carta privada sua Sobre a penitência, dirigida a Cólon, que era bispo da igreja de Hermópolis, e outra de repreensão dirigida a sua grei de Alexandria. [Eusébio 6.46.2]
  22. Entre estas encontra-se também a que escreveu a Orígenes Sobre o martírio. Também aos irmãos de Laodicéia, aos quais presidia o bispo Telimidro, e aos da Armênia, cujo bispo era Meruzanes. [Eusébio 6.46.3]
  23. E além de todos estes, escreve também a Cornélio, o de Roma, depois de receber sua carta contra Novato.
  24. Indica-lhe claramente que ele foi convidado por Heleno, bispo de Tarso de Cilicia, e pelos outros bispos que o acompanham: Firmiliano, o da Capadócia, e Teoctisto, o da Palestina, para assistir ao concilio de Antioquia, onde alguns tentavam consolidar o cisma de Novato. [Eusébio 6.46.3]
  25. Além disto escreve que lhe fora anunciado que Fábio tinha morrido e que haviam estabelecido Demetriano como seu sucessor no episcopado de Antioquia. [Eusébio 6.46.4]
  26. Escreve também sobre o bispo de Jerusalém, falando neste termos: “Porque Alexandre, aquele homem admirável, estando no cárcere, teve uma morte feliz. [Eusébio 6.46.4]
  27. Em continuação a esta conserva-se também de Dionísio outra Carta diaconal por meio de Hipólito, dirigida aos de Roma, aos quais escreve ainda outra Sobre a paz, e igualmente Sobre a penitência. [Eusébio 6.46.5]
  28. Assim como também outra Aos confessores dali que ainda estavam comprometidos com a opinião de Novato.
  29. A estes mesmo, depois que voltaram à Igreja, escreveu outras duas cartas. [Eusébio 6.46.5]
  30. Manteve igualmente correspondência epistolar com muitas outras pessoas e deixou à posteridade um rico proveito aos que ainda hoje se interessam por seus escritos. [Eusébio 6.46.5]

 

FIM