Livro de Orígenes

Livro de Orígenes

I – Prólogo

  1. O imperador Severo suscitou uma perseguição contra as igrejas. [Eusébio 6.1.1]
  2. Em todas as partes consumaram-se esplêndidos martírios dos atletas da religião, mas multiplicaram-se especialmente em Alexandria. [Eusébio 6.1.1]
  3. Os atletas de Deus foram enviados para lá, como ao maior estádio, desde o Egito e de toda a Tebaida.[Eusébio 6.1.1]
  4. E por sua firme paciência em diversos tormentos e gêneros de morte, cingiram-se com as coroas preparadas por Deus. [Eusébio 6.1.1]
  5. Entre eles achava-se também Leônidas, chamado o pai de Orígenes, que foi decapitado, e deixou seu filho ainda muito jovem. [Eusébio 6.1.1]
  6. Não seria demais descrever brevemente com que predileção pela palavra divina viveu o rapaz desde então, já que é muito abundante o que se conta sobre ele entre o povo. [Eusébio 6.1.1]
  7. Muitas coisas poderia dizer, na verdade, quem tentasse colocar por escrito a seu gosto a vida deste homem. [Eusébio 6.2.1]
  8. Mas dispor ordenadamente o que a ele diz respeito exigiria inclusive uma obra especial. [Eusébio 6.2.1]
  9. Mesmo assim, nós resumiremos por enquanto com a brevidade possível a maior parte [Eusébio 6.2.1]
  10. E exporemos sobre ele somente algumas coisas tomando dos dados de algumas cartas e do relato dos discípulos que sobreviveram até nossos dias. [Eusébio 6.2.1]
  11. Sobre Orígenes, mesmo os fatos de quando usava fraldas, por assim dizer, parecem-me dignos de menção. [Eusébio 6.2.2]
  12. Seguia Severo pelo décimo ano de seu reinado, e Leto governava Alexandria e o resto do Egito. [Eusébio 6.2.2]
  13. O episcopado das igrejas dali acabara de passar a Demétrio, sucedendo a Juliano. [Eusébio 6.2.2]
  14. Ao acender-se pois, com a maior violência a fogueira da perseguição e sendo inumeráveis os que se cingiam com a coroa do martírio. [Eusébio 6.2.3]
  15. Tal foi a paixão do martírio que se apoderou da alma de Orígenes, ainda um menino, que ardia para lançar-se de encontro aos perigos e pular e jogar-se à luta. [Eusébio 6.2.3]
  16. Muito pouco faltou, na verdade, para que a morte se aproximasse; [Eusébio 6.2.4]
  17. não fosse pela divina e celestial providência que, em proveito da grande maioria e por meio de sua mãe, se interpôs como obstáculo ao seu zelo. [Eusébio 6.2.4]
  18. Ela primeiramente rogou-lhe com palavras, exortando-o a ter consideração por suas disposições maternais para com ele; [Eusébio 6.2.5]
  19. Mas quando o viu terrivelmente excitado, todo ele preso pelo desejo do martírio ao saber que seu pai tinha sido preso e encarcerado, escondeu todas suas roupas [Eusébio 6.2.5]
  20. E assim obrigou-o a permanecer em casa. [Eusébio 6.2.5]
  21. Mas ele não podia fazer outra coisa e sendo-lhe impossível dar sossego a um zelo que excedia sua idade. [Eusébio 6.2.6]
  22. Ele enviou a seu pai uma carta muito estimulante sobre o martírio, na qual o animava. [Eusébio 6.2.6]
  23. Dizia textualmente: “Cuida-te, não aconteça que por nossa causa mudes de parecer.” [Eusébio 6.2.6]
  24. Fique isto consignado por escrito como primeiro indício da agudeza de pensamento do menino Orígenes e de sua nobilíssima disposição para a religião. [Eusébio 6.2.6]
  25. E efetivamente, tendo-se exercitado já desde pequeno nas divinas Escrituras, tinha já lançados não pequenos fundamentos para as doutrinas da fé. [Eusébio 6.2.7]
  26. Também nestas tinha se ocupado sem medida, pois seu pai, antes do ciclo de estudos comum a todos, fez com que sua preocupação por elas não fosse secundária. [Eusébio 6.2.7]
  27. Em consequência, antes de ocupar-se das disciplinas helênicas, em toda ocasião o introduzia a exercitar-se nos estudos sagrados. [Eusébio 6.2.8]
  28. Exigia-lhe cada dia passagens de memória e relações escritas. [Eusébio 6.2.8]
  29. Estes exercícios não desagradavam o menino, antes até, empenhava-se neles com ardor excessivo; [Eusébio 6.2.9]
  30. Ao ponto de que, não se contentando com os sentidos simples e óbvios das Escrituras Sagradas, já desde então buscava algo mais e investigava visões mais profundas. [Eusébio 6.2.9]
  31. Desta forma, chegava a pôr em apuros seu pai perguntando-lhe o que queria significar o sentido da Escritura divinamente inspirada. [Eusébio 6.2.9]
  32. Este aparentava repreendê-lo abertamente, exortando-o a não indagar nada que excedesse sua
    idade nem mais adiante do sentido evidente. [Eusébio 6.2.10]
  33. Mas no seu íntimo regozijava-se enormemente e proclamava perante Deus, autor de todo bem, seu maior agradecimento por tê-lo feito digno de ser pai de tal filho. [Eusébio 6.2.10]
    11. E conta-se que muitas vezes, pondo-se junto ao menino que dormia, desnudava-lhe o peito
    como se dentro dele habitasse um espírito divino. [Eusébio 6.2.11]
  34. Beijava-o com referência e se considerava feliz por seu nobre rebento. [Eusébio 6.2.11]
  35. Estas coisas e outras do mesmo estilo recordam-se sobre a infância de Orígenes. [Eusébio 6.2.11]
  36. Quando seu pai morreu mártir, ele ficou só com sua mãe e seis irmãos menores, quando ainda não contava mais de dezessete anos. [Eusébio 6.2.12]
  37. A fazenda paterna foi confiscada pelo tesouro imperial. [Eusébio 6.2.13]
  38. E ele com os seus encontrou-se em indigência das coisas necessárias para a vida. [Eusébio 6.2.13]
  39. Mas foi considerado digno da providência divina e encontrou proteção além de tranquilidade em uma senhora riquíssima em meados da vida e muito distinta. [Eusébio 6.2.13]
  40. Mas que rodeava de atenções um homem muito conhecido, um dos hereges que então havia em Alexandria. [Eusébio 6.2.13]
  41. Este era antioquenho de origem, e a mencionada senhora tinha-o consigo como filho adotivo e rodeava-o das maiores honras. [Eusébio 6.2.13]
  42. Mas Orígenes, que por necessidade estava habitualmente com ele, já desde aquela idade dava
    provas claras de sua ortodoxia na fé. [Eusébio 6.2.14]
  43. Pois ainda que uma multidão incontável, não apenas de hereges, mas também dos nossos, se reunia junto a Paulo (assim se chamava o homem), [Eusébio 6.2.14]
  44. Porque lhes parecia eloqüente, jamais se conseguiu que o acompanhasse na oração, guardando desde menino a regra de Igreja [Eusébio 6.2.14]
  45. E abominando – como diz textualmente sobre si mesmo em alguma parte – os ensinamentos das heresias. [Eusébio 6.2.14]
  46. Previamente iniciado por seu pai nas disciplinas dos gregos, depois da morte deste entregou-se por inteiro com maior zelo ao estudo das letras. [Eusébio 6.2.15]
  47. Desta forma que, não muito depois da morte do pai, tinha já uma preparação suficiente em
    conhecimentos gramaticais. [Eusébio 6.2.15]
  48. Com sua entrega a estes estudos procurava em abundância – para sua idade – o que era necessário. [Eusébio 6.2.14]

II – Ensino

  1. Ele estava entregue ao ensino – segundo ele mesmo nos informa em algum de seus escritos e não havia em Alexandria ninguém dedicado à instrução catequética. [Eusébio 6.3.1]
  2. Pois todos tinham sido expulsos pela ameaça de perseguição. [Eusébio 6.3.1]
  3. E assim alguns gentios acudiram a ele para escutar a palavra de Deus. [Eusébio 6.3.1]
  4. Dá a entender que o primeiro deles foi Plutarco, o qual, depois de uma vida honesta, foi adornado
    com o martírio divino. [Eusébio 6.3.2]
  5. O segundo foi Heraclas, irmão de Plutarco, que depois de dar ele mesmo numerosos exemplos de vida filosófica e disciplina, foi considerado digno do episcopado de Alexandria, depois de Demétrio. [Eusébio 6.3.2]
  6. Orígenes ia completar dezoito anos quando foi posto à frente da escola catequética. [Eusébio 6.3.3]
  7. Era o momento em que, sob a perseguição do governador de Alexandria Aquila, realizava grandes progressos. [Eusébio 6.3.3]
  8. Foi então também que seu nome se fez famoso entre todos a quem movia a fé, pela acolhida e
    solicitude que mostrava para com todos os santos mártires conhecidos e desconhecidos. [Eusébio 6.3.3]
  9. Com efeito, não somente os assistia quando estavam no cárcere e quando eram julgados, até a
    sentença final, [Eusébio 6.3.4]
  10. Mas também depois desta, quando os santos mártires eram conduzidos à morte, com extrema ousadia e expondo-se aos mesmos perigos. [Eusébio 6.3.4]
  11. Tanto é que muitas vezes aproximou-se resolutamente e atreveu-se a saudar os mártires com um beijo. [Eusébio 6.3.4]
  12. Faltou pouco para que a plebe de pagãos que estava em redor, enfurecida, o apedrejasse. [Eusébio 6.3.4]
  13. Mas a cada vez, com a ajuda da destra divina, escapou milagrosamente. [Eusébio 6.3.4]
  14. E esta mesma ajuda e celestial graça o guardou em outras ocasiões uma e outra vez – impossível dizer
    quantas. [Eusébio 6.3.5]
  15. Mesmo quando se conspirava contra ele devido ao seu excesso de zelo e de ousadia em favor da doutrina de Cristo. [Eusébio 6.3.5]
  16. A guerra que os infiéis faziam contra ele era tal que se formaram esquadrões [Eusébio 6.3.5]
  17. E postavam soldados em torno da casa em que se achava, devido à multidão dos que dele recebiam a instrução da fé sagrada. [Eusébio 6.3.5]
  18. Dia a dia, a perseguição contra ele se acirrava tanto que em toda a cidade já não havia lugar para ele. [Eusébio 6.3.6]
  19. Mudou de casa em casa, de todos os lugares o expulsavam por causa do grande número dos que por ele se aproximavam do ensinamento divino. [Eusébio 6.3.6]
  20. E a sua própria conduta prática tinha traços admiráveis de virtude da mais genuína filosofia. [Eusébio 6.3.6]
  21. Demonstrava pois o ditado, “tal como sua palavra, assim seu caráter, e tal como seu caráter, assim sua palavra”. [Eusébio 6.3.7]
  22. Esta era sobretudo a causa de que, com a ajuda do poder divino, arrastasse milhares de pessoas a imitá-lo. [Eusébio 6.3.7]
  23. Viram que os discípulos acorriam ainda mais numerosos e que ele era o único encarregado pelo chefe da igreja, Demétrio, da escola catequética. [Eusébio 6.3.8]
  24. Considerando que o ensino da gramática era incompatível com o exercício das disciplinas divinas, rompeu sem vacilar com o estudo da gramática como inútil e contrário às ciências divinas. [Eusébio 6.3.8]
  25. Depois, com bom cálculo, para não precisar da ajuda de outros, desfez-se de todas as obras que até então tinha de literatura antiga, trabalhadas com muito gosto. [Eusébio 6.3.9]
  26. E se contentava com os quatro óbolos que diariamente lhe levava aquele que as comprou. [Eusébio 6.3.9]
  27. Durante muitos anos continuou levando este tipo de vida de filósofo, arrancando de si mesmo tudo que pudesse dar estímulo a suas paixões juvenis. [Eusébio 6.3.9]
  28. Suportou durante todo o dia consideráveis fadigas ascéticas e à noite consagrou a maior parte do tempo ao estudo das divinas Escrituras. [Eusébio 6.3.9]
  29. Assim perseverava numa vida a mais filosófica possível, seja em exercícios de jejum, seja reduzindo o tempo de sono, que de qualquer forma, nunca tomava sobre o leito, mas a toda custa sobre o chão. [Eusébio 6.3.9]
  30. Acima de tudo achava que era necessário guardar aquelas sentenças evangélicas do Salvador que exortava a não usar duas túnicas, nem sandálias, e a não consumir-se com as preocupações do amanhã. [Eusébio 6.3.10]
  31. E mais, com um ardor superior aos seus anos, manteve-se firme no frio e na nudez [Eusébio 6.3.11]
  32. E avançando em direção a uma pobreza extrema, enchia de admiração os que o rodeavam. [Eusébio 6.3.11]
  33. Também causava pena a muitos, que lhe suplicavam que compartisse de seus bens; [Eusébio 6.3.11]
  34. Pois viam as dificuldades que passava pelo ensinamento divino; mas ele em nada cedia a sua insistência. [Eusébio 6.3.11]
  35. Conta-se por exemplo que durante muitos anos pisou a terra sem usar calçado algum; [Eusébio 6.3.12]
  36. E mais, absteve-se por muitos anos do uso do vinho e de todo outro alimento não necessário, ao ponto de arriscar-se a arruinar e estropear seu peito. [Eusébio 6.3.12]
  37. Oferecendo tais exemplos de vida filosófica a quantos o contemplavam, era natural que incitasse a maioria de seus discípulos a um zelo semelhante ao seu; [Eusébio 6.3.13]
  38. Tanto que pessoas destacadas, inclusive entre os gentios infiéis e dos que procediam da ilustração e da filosofia, pouco a pouco se submetiam ao ensinamento que ele dava. [Eusébio 6.3.13]
  39. E tão sinceramente receberam dele no fundo de suas almas a fé na palavra divina, que também eles sobressaíram no momento de perseguição de então; [Eusébio 6.3.13]
  40. De forma que alguns inclusive foram detidos e acabaram no martírio. [Eusébio 6.3.13]

III – Discípulos

  1. O primeiro destes, pois, foi Plutarco, mencionado pouco acima. [Eusébio 6.4.1]
  2. Quando este era conduzido à morte, novamente faltou pouco para que aquele de quem estamos falando e que o assistia até o último instante de sua vida fosse linchado ali mesmo pelos cidadãos, como culpado evidente daquela morte. [Eusébio 6.4.1]
  3. Mas também então a vontade de Deus continuava guardando-o. [Eusébio 6.4.1]
  4. Depois de Plutarco, o segundo dos discípulos de Orígenes a assinalar-se como mártir é Sereno, que por meio do fogo deu prova da fé que havia recebido. [Eusébio 6.4.2]
  5. O terceiro mártir da mesma escola foi Heráclides, e depois dele, o quarto, Heron; aquele ainda era catecúmeno, este neófito; ambos foram decapitados. [Eusébio 6.4.3]
  6. Todavia, além destes, da mesma escola houve outro Sereno, distinto do primeiro, quinto a proclamar-se atleta da religião. [Eusébio 6.4.3]
  7. A tradição que, depois de suportar muitos tormentos, foi decapitado. [Eusébio 6.4.3]
  8. E entre as mulheres também Herais, ainda catecúmena, terminou a vida “após receber – como diz ele mesmo em alguma parte – o batismo de fogo”. [Eusébio 6.4.3]
  9. Entre eles conta-se como sétimo Basílides, o que conduziu a famosíssima Potamiena a sua execução. [Eusébio 6.5.1]
  10. Muita coisa se conta ainda hoje sobre ela entre seus compatriotas. [Eusébio 6.5.1]
  11. Ele sustentou mil combates contra homens dissolutos em defesa da pureza de seu corpo e de sua virgindade que a distinguiam; [Eusébio 6.5.1]
  12. Pois assim como a força de sua alma, também a beleza de seu corpo estava em plena floração.
  13. E depois de suportar inúmeros tormentos, por fim, depois de torturas terríveis e que fazem estremecer só em nomeá-las, morreu ardendo viva juntamente com sua mãe, Marcela. [Eusébio 6.5.1]
  14. Conta-se que o juiz, cujo nome era Aquila, depois de fazê-la atormentar cruelmente por todo o corpo, finalmente ameaçou entregá-la aos gladiadores para ultraje de seu corpo. [Eusébio 6.5.2]
  15. Mas ela, depois de refletir ensimesmada por breves instantes, ao ser questionada sobre o que decidia, deu tal resposta, que aos ouvidos daqueles parecia soar como algo ímpio. [Eusébio 6.5.2]
  16. Ainda falava quando recebeu os termos de sua sentença. [Eusébio 6.5.3]
  17. Basílides, um dos funcionários militares, tomou-a e a conduziu para sua execução. [Eusébio 6.5.3]
  18. Como a turba tentava molestá-la com palavras indecentes, ele rechaçava e afugentava os insolentes e mostrava para com ela a maior compaixão e humanidade. [Eusébio 6.5.3]
  19. Ela, por sua parte, aceitando a simpatia de que era alvo, exortava aquele homem a ter valor, pois ela pediria a seu próprio Senhor nada mais que partir [Eusébio 6.5.3]
  20. E em breve poderia corresponder ao que ele havia feito por ela. [Eusébio 6.5.3]
  21. Dito isto, enfrentou com nobreza seu fim enquanto derramavam o piche fervente sobre ela lenta e paulatinamente pelos diversos membros de seu corpo, desde a planta dos pés até o topo da cabeça. [Eusébio 6.5.4]
  22. E assim foi o combate travado por esta jovem digna de louvor. [Eusébio 6.5.4]
  23. Não muito depois, Basílides, tendo seus companheiros de milícia exigido juramento por algum motivo, afirmou que de modo algum poderia jurar, porque era cristão e o proclamava publicamente. [Eusébio 6.5.5]
  24. A princípio, durante algum tempo, pensavam que gracejava, mas como ele insistiu obstinadamente, conduziram-no ao juiz; [Eusébio 6.5.5]
  25. E também perante este proclamou sua resistência e foi lançado à prisão. [Eusébio 6.5.5]
  26. Quando seus irmãos em Deus chegaram a ele, trataram de informá-lo sobre a causa desta repentina e maravilhosa decisão. [Eusébio 6.5.5]
  27. Conta-se que disse que Potamiena tinha lhe aparecido durante a noite, três dias depois de seu martírio. [Eusébio 6.5.6]
  28. Ela cingira-lhe a cabeça com uma coroa e lhe havia dito que pedira ao Senhor graça por ele, que havia obtido o pedido e que não tardando muito o tomaria consigo. [Eusébio 6.5.6]
  29. Ante isto os irmãos aplicaram-lhe o selo do Senhor, e no dia seguinte, depois de brilhar no testemunho do Senhor, foi decapitado. [Eusébio 6.5.5]
  30. Conta-se mesmo que, pelas datas mencionadas, muitos outros cidadãos de Alexandria se acercavam em massa à doutrina de Cristo, [Eusébio 6.5.7]
  31. porque em sonhos lhes aparecera Potamiena, segundo diziam, e os convidara a isto. [Eusébio 6.5.7]
  32. Tendo sucedido a Panteno, Clemente vinha regendo a catequese de Alexandria até aquele mesmo tempo, de maneira que também Orígenes foi um de seus discípulos. [Eusébio 6.6.1]
  33. Pelo menos Clemente, ao apresentar o material de seus Stromateis, no livro primeiro, expõe um quadro cronológico assinalando como limite a morte de Cômodo.  [Eusébio 6.6.1]
  34. com o que fica claro que compôs esta obra em tempos de Severo, cuja época se descreve na presente história. [Eusébio 6.6.1]
  35. Neste mesmo tempo, outro escritor, Judas, comentando por escrito as setenta semanas de Daniel, detêm também sua cronologia no décimo ano do Severo. [Eusébio 6.7.1]
  36. Também cria que a tão decantada aparição do anticristo estava já então se aproximando. [Eusébio 6.7.1]
  37. A tal ponto a violência daquela perseguição contra nós transtornava as mentes da maioria! [Eusébio 6.7.1]

IV – Façanhas

VIII
[Da façanha de Orígenes]
1. Neste tempo, estando ocupado no trabalho da catequese em Alexandria, Orígenes leva a cabo uma façanha que, se demonstra um ânimo imaturo e juvenil, oferece ao mesmo tempo uma prova plena de fé e de continência.
2. Efetivamente, tomando muito ao pé da letra com ânimo bastante juvenil a frase: Há eunucos que se castraram a si mesmos pelo reino dos céus411 e pensando, por um lado, cumprir assim a palavra do Salvador, e por outro, com o fim de evitar entre os infiéis toda suspeita e calúnia vergonhosa, já que sendo tão jovem, tratava das coisas de Deus não apenas com homens, mas também com mulheres, decidiu-se a concretizar a palavra do Salvador, cuidando para que passasse despercebido para a maioria de seus discípulos.
3. Mas não lhe era possível, mesmo querendo-o, ocultar semelhante façanha, e assim mais tarde soube-o Demétrio, como presidente daquela igreja. Muito se admirou por aquela façanha, e aceitando o zelo e a sinceridade de sua fé, exortava-o a ter ânimo e o estimulava a empenhar-se agora com mais força na obra da catequese.
4. Tal era então a atitude de Demétrio. Mas não muito tempo depois, vendo o êxito de Orígenes, sua grandeza, seu brilho e sua fama universal, foi vítima de paixão humana e tratou de descrever aos bispos de todo o mundo aquela façanha como sendo totalmente absurda, quando os bispos mais experientes e mais ilustres da Palestina, a saber, os de Cesaréia e Jerusalém, considerando Orígenes digno de privilégio e da mais alta honra, impuseram-lhe as mãos para ordená-lo presbítero.
5. Assim pois, no mesmo momento em que Orígenes havia alcançado uma grande glória e havia conquistado em todas as partes e entre todos os homens considerável renome e fama de virtude e sabedoria, Demétrio, não tendo nenhum ouro motivo de acusação, armou um escândalo tremendo por aquela ação que Orígenes havia cometido sendo um menino e se atreveu a envolver em suas acusações os que o haviam promovido aos presbiterato.
6. Isto ocorreu, em realidade, pouco tempo depois. Por este tempo, no entanto, Orígenes estava entregue em Alexandria ao ensino divino para todos os que acudiam a ele, sem reservas, à noite e inclusive de dia, dedicando sem vacilação todo seu tempo às ciências divinas e aos discípulos que o freqüentavam.
7. Depois de exercer o império durante dezoito anos, Severo é sucedido por seu filho Antonino412. Neste tempo, um dos que se portaram virilmente na perseguição e, depois dos combates de sua confissão, foram preservados pela providência divina, foi um tal Alexandre, mencionado a pouco como bispo da igreja de Jerusalém; por ter-se distinguido em sua confissão por Cristo foi considerado digno do mencionado episcopado, ainda que Narciso, seu predecessor, ainda estivesse vivo.

IX
[Dos milagres de Narciso]
1. Muitos, pois, e diversos são os milagres que os cidadãos daquela igreja recordam de Narciso, transmitidos por tradição dos irmãos que se sucederam. Entre eles relatam também o seguinte prodígio realizado por ele.
2. Dizem que uma vez, durante a grande vigília de Páscoa, faltou o azeite aos diáconos, devido a isso apoderou-se da multidão um grande desânimo. Narciso mandou então aos que preparavam as luzes que pegassem água e a levassem a ele.
3. Feito isto, orou sobre a água e com toda a sinceridade de sua fé no Senhor ordenou que a derramassem nas lâmpadas. Feito também isto, por um poder maravilhoso e divino e contra toda razão, a natureza da água mudou sua qualidade para a do azeite, e muitos dos irmãos que ali estavam conservaram por longo tempo, desde então até nossos dias, um pouco daquele azeite como prova do milagre de então.
4. Muitas outras coisas dignas de menção contam-se sobre a vida deste homem, entre elas também a seguinte. Uns pobres homenzinhos, incapazes de suportar o vigor daquele e a constância de sua vida, temerosos de serem presos e submetidos a castigo, pois eram conscientes de seus inúmeros delitos, tomaram a dianteira e tramaram e espalharam uma calúnia terrível contra ele. 5. Assim, com o fim de assegurar-se da confiança dos ouvintes, confirmaram com juramento suas acusações: um jurava para que o fogo o destruísse; outro para que uma enfermidade funesta consumisse seu corpo, e um terceiro, para que seus olhos cegassem. Mas nem assim, nem mesmo jurando, um só fiel prestou-lhes atenção, pela temperança de Narciso, que sempre brilhou ante todos e por sua conduta virtuosa em tudo.
6. Ele, no entanto, não conseguindo relevar de forma alguma a maldade destas calúnias, e por outro lado, estando há muito tempo em busca de uma vida filosófica, fugiu da multidão inteira da igreja e passou muitos anos oculto em regiões desertas e recônditas.
7. Mas o grande olho da justiça tampouco permaneceu quieto ante tais abusos, mas a toda pressa começou a perseguição daqueles ímpios com as mesmas desgraças com que se haviam ligado perjurando contra si mesmos, pois o primeiro, sem nenhum motivo, simplesmente assim, tendo caído uma fagulha na casa em que morava, incendiando-a completamente à noite, morreu abrasado com toda a família; o outro se viu de repente com o corpo, desde a planta dos pés até a cabeça, cheio daquela enfermidade com que ele mesmo se castigou de antemão;
8. e o terceiro, assim que viu o fim dos primeiros, tremendo ante a inelutável justiça de Deus que tudo vê, fez confissão pública do que os três haviam tramado em comum. Em seu arrependimento, consumia-se de tanto gemer e não cessava de chorar, tanto que chegou a perder os dois olhos. Tais foram os castigos que sofreram estes por suas mentiras.

V