Homero, Ilíada

A mais famosa obra da antiguidade

Carl Friedrich Deckler (1838–1918)

Ilíada é considerada a obra fundadora da literatura ocidental, sendo provável que seu suposto autor o aedo Homero não a escreveu, mas cantava seus famosos versos por volta do ano 800 a.C. Ela narra um importante episódio ocorrido no décimo ano da famosa Guerra de Troia sobre o desentendimento entre Aquiles e Agamenon, cujo desenrolar culmina na morte do maior herói troiano, Heitor. Apesar da dificuldade inicial em se situar no contexto e personagens da história, uma vez passada essa barreira esta obra se torna uma leitura fluida e cativante.

A obra oferecida a seguir foi traduzida de forma brilhante por Carlos Alberto Nunes.

 

Ilíada

ÍNDICE

Canto I: Aquiles e Agamenon se desentendem pela jovem cativa, Briseida.
Canto II: Odisseu impede uma revolta, permitindo que gregos se preparem para batalha.
Canto III: Páris desafia Menelau para um duelo, propondo decidir o destino da guerra..
Canto IV: O pacto é quebrado pelos troianos e a batalha recomeça.
Canto V: Diomedes, ajudado por Palas Atena, derrota os deuses Afrodite e Ares.
Canto VI: Heitor tenta apaziguar Palas Atena antes de voltar a batalha.
Canto VII: Heitor duela com Ájax, mas  a luta empata é interrompida pela noite.
Canto VIII: Os deuses retiram-se da batalha.
Canto IX: Agamenon tenta se reconciliar com Aquiles, mas este recusa.
Canto X: Diomedes e Odisseu atacam um acampamento troiano.
Canto XI: Páris fere Diomedes e Pátroclo fica sabendo da desastrosa situação grega.
Canto XII: Retirada grega até às naus.
Canto XIII: Poseidon se apieda-se gregos e os motiva.
Canto XIV: Hera adormece Zeus, permitindo a reação grega.
Canto XV: Quando Zeus proíbe interferências divinas, os troianos retomam a vantagem.
Canto XVI: Pátroclo confronta Heitor com a armadura de Aquiles .
Canto XVII: Disputa pelo corpo e pela armadura do finado Pátroclo.
Canto XVIII: Aquiles fica sabendo da morte de Pátroclo.
Canto XIX: Aquiles, de armadura nova, reconcilia com Agamenon e volta à guerra.
Canto XX: Batalha furiosa, da qual participam livremente os deuses.
Canto XXI: Aquiles chega aos portões de Troia.
Canto XXII: Duelo ente Aquiles e Heitor .
Canto XXIII: Funeral de Pátroclo.
Canto XXIV: Príamo suplica a Aquiles pelo corpo do filho.


 

CANÇÃO I

Canta-me a cólera –ó deusa– funesta de Aquiles Pelida causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos e esclarecidos ficando eles próprios aos cães atirados e como pasto das aves.

Cumpriu-se de Zeus o desígnio desde o princípio em que os dois em discórdia ficaram cindidos: o de Atreu filho senhor de guerreiros e o de Aquiles divino.

Qual dentre os deuses eternos foi causa de que eles brigassem? O que de Zeus e do nascido de Leto que com o rei agastado peste lançou destruidora no exército.

O povo morria por ter o Atrida Agamémnon a Crises primeiro ultrajado o sacerdote.

Este viera até às céleres naus dos Aquivos súplice a filha reaver.

Infinito resgate trazia tendo nas mãos as insígnias de Apolo frecheiro infalível no cetro de ouro enroladas.

Implora aos Aquivos presentes sem excepção mas mormente aos Atridas que povos conduzem: “Filhos de Atreu e vós outros Aquivos de grevas bem feitas dêem-vos os deuses do Olimpo poderdes destruir as muralhas da alta cidade de Príamo e após retornardes a casa.

A minha filha cedei-me aceitando resgate condigno e a Febo Apolo nascido de Zeus reverentes mostrai-vos.”

Os heróis todos Aquivos então logo ali concordaram em que se o velho acatasse aceitando os presentes magníficos; somente ao peito do Atrida Agamémnon o alvitre desprouve que o repeliu com dureza assacando-lhe insultos pesados: “Velho que nunca te venha a encontrar junto às céleres naves quer te detenhas agora quer voltes aqui novamente pois as insígnias do deus e esse ceptro de nada te valem.

Não na liberto está dito.

Que em Argos mui longe da terra do nascimento há-de velha ficar no nosso palácio a compartir o meu leito e a tecer-me trabalhos de preço.

Não me provoques; retira-te caso desejes salvar-te.”

Isso disse ele; medroso o ancião se curvou às ameaças e taciturno se foi pela praia do mar ressoante onde dum ponto afastado dirige oração fervorosa a Febo Apolo nascido de Leto de belos cabelos: “Ouve-me ó deus do arco argênteo que Crisa cuidoso proteges e a santa Cila e que tens o comando supremo de Ténedos! Ajudador! Já te tenho construído magníficos templos  bem como coxas queimado de pingues ovelhas e touros.

Ouve-me agora e realiza este voto ardoroso que faço: possas vingar dos Aqueus com teus dardos o pranto que verto.”

Isso disse ele na súplica; ouvido por Febo foi logo.

O coração indignado se atira dos cumes do Olimpo; atravessado nos ombros leva o arco e o carcás bem lavrado.

A cada passo que dá cheio de ira ressoam-lhe as flechas nos ombros largos; à Noite semelha que baixa terrível.

Longe das naves se foi assentar donde as flechas dispara.

Do arco de prata começa a irradiar-se um clangor pavoroso.

Primeiramente investiu contra os mulos e os cães velocíssimos; mas logo após contra os homens dirige seus dardos pontudos exterminando-os.

Sem pausa as fogueiras os corpos destruíam.

Por nove dias as setas do deus dizimaram o exército; mas no seguinte chamou todo o povo para a ágora Aquileu.

Hera de braços brilhantes lhe havia inspirado esse alvitre pois tinha pena dos Dánaos ao vê-los morrer desse modo.

Quando ao chamado acudiram e todos se achavam reunidos alça-se Aquileu de rápidos pés concionando desta arte: “Filho de Atreu quero crer que nos cumpre voltar para casa  sem termos nada alcançado no caso de à Morte escaparmos pois os Aquivos além das batalhas consome-os a peste.

Sus! Consultemos sem mora qualquer sacerdote ou profeta ou quem de sonhos entenda –que os sonhos de Zeus se originam– para dizer-nos a causa de estar Febo Apolo indignado: se por não termos cumprido algum voto ou talvez hecatombes ou se lhe apraz porventura de nós receber o perfume de pingues cabras e ovelhas a fim de livrar-nos da peste.”

Tendo isso dito assentou-se.

Levanta-se então do seu posto logo Calcas nascido de Téstor de sonhos intérprete que conhecia o passado bem como o presente e o futuro e que os navios guiara dos nobres Acaios para Ílion graças aos dons de profeta com que Febo Apolo o brindara.

Cheio de bons pensamentos lhe diz arengando o seguinte: “Mandas-me Aquileu querido de Zeus que te diga o motivo de estar colérico Apolo o senhor que dispara certeiro.

Vou revelar-to; atenção presta e escuta.

Mas quero que jures que me darás protecção com teu braço ou sequer com palavras pois estou certo de que há-de irritar-se o guerreiro que manda nos Aqueus todos e a quem os Argivos de grado obedecem.

Contra os pequenos se acaso se agasta é o rei sempre excessivo.

Pois muito embora refreie os impulsos da cólera um dia continuamente revolve no peito o rancor incontido até que o consiga saciar.

Vê portanto se auxílio me prestas.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés o seguinte em resposta: “Podes dizer sem receio o que na alma vidente souberes.

Por Febo Apolo querido de Zeus a quem preces diriges nobre Calcas que possas contar aos Aqueus teus augúrios enquanto eu vivo estiver e na terra gozar da existência nunca nenhum dos Argivos ao lado das céleres naves há-de violência fazer-te ainda mesmo que penses no Atrida que no momento se orgulha de ser o melhor de nós todos.”

Com mais coragem então disse o vate preclaro o seguinte: “Não se irritou por não termos cumprido algum voto ou hecatombe mas por haver Agamémnon ao seu sacerdote ofendido visto não ter recebido o resgate da filha entregando-lha.

Por essa causa nos deu e há-de dar sofrimentos Apolo sem que dos Dánaos pretenda afastar o terrível flagelo antes de haverdes ao pai a donzela de olhar refulgente restituído sem prémio nenhum outrossim conduzindo  a Crises uma hecatombe.

Talvez desse modo o aplaquemos.”

Tendo isso dito assentou-se.

Levanta-se então do seu posto o nobre filho de Atreu Agamémnon rei poderoso com torvo aspecto.

De trevas a cólera o peito lhe enchia a transbordar.

Pareciam-lhe os olhos dois fogos brilhantes.

Ameaçador para o vate Calcas se vira increpando-o: “És só profeta de males; jamais me agradou tua fala; sempre encontraste prazer em prever-nos apenas desgraças; nunca disseste ou cumpriste qualquer vaticínio benéfico bem como agora que aos Dánaos revelas sob forma de oráculos que os sofrimentos do exército são por Apolo causados pelo motivo de eu ter recusado o resgate magnífico da bela filha de Crises em vista de ser do meu gosto junto mantê-la de mim que a antepunha sem dúvida alguma a Clitemnestra legítima esposa que em nada lhe cede no porte altivo em beleza e nas prendas variadas do sexo.

Restituí-la no entanto me apraz por ser mais vantajoso pois salvação só desejo ao meu povo não vê-lo destruído.

Mas sem demora aprestai-me outro prémio que fora injustiça entre os Argivos só eu não ter parte no espólio de guerra.

Todos podeis confirmar que meu prémio desta arte me tomam.”

O divo Aquileu de rápidos pés em resposta lhe disse: “Filho notável de Atreu mais que todos os homens avaro por que maneira os Aqueus poderão novo prémio ofertar-te? Conhecimento não temos de espólio abundante ainda intacto pois das cidades saqueadas já estão distribuídas as presas nem há-de o povo querer novamente reunir isso tudo.

Ao deus entrega a donzela que três e mais vezes sem dúvida te pagaremos os nobres Aqueus quando for da vontade de Zeus potente que os muros dos Troas alfim conquistemos.”

O poderoso Agamémnon disse o seguinte em resposta: “Conquanto sejas astuto divino Pelida não penses que poderás enganar-me com teus subterfúgios e manhas.

Queres guardar o teu prémio mas pensas que eu deva a donzela ao sacerdote mandar desse modo ficando sem nada? Seja! Contanto que um novo presente os Aquivos magnânimos de igual valia me cedam conforme o desejo que expendo.

Caso a mo dar se recusem pretendo em pessoa ir buscá-lo quer seja o prémio de Ájax ou o do grande Odisseu ou até mesmo o que tiveste por sorte.

A visita há-de ser-lhe amargosa.

A esse respeito porém voltaremos depois mais de espaço.

Ora convém nau ligeira nas ondas divinas lançarmos.

Os remadores sem perda de tempo reunamos e as vítimas logo ponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crises de belas faces.

Comande o navio um dos chefes do exército Idomeneu o fortíssimo Ájax Odisseu porventura ou mesmo tu nobre Aquileu o herói mais que todos terrível para aplacar o frecheiro por meio da sacra oferenda.”

Com torvos olhos Aquileu de rápidos pés lhe responde: “Alma despida de pejo que só de interesse se ocupa! Como é possível que algum dos Aqueus ao teu mando obedeça quer em caminho se pondo quer seja enfrentando outros homens? Não foi por causa dos fortes Troianos que vim para Tróia para guerreá-los pois nunca motivo para isso me deram.

Deles nenhum das manadas um boi me roubou nem cavalos nem no terreno de Ftia nutriz de guerreiros tampouco minhas colheitas destruíram pois grandes montanhas escuras e o vasto mar sonoroso entre nós de permeio se estendem.

Para teu gáudio grandíssimo despudorado seguimos-te cão sem nenhum descortino a vingar-te do ultraje dos Troas  e a Menelau.

Mas sequer te perturbas nem cuidas de nada.

E para cúmulo ameaças de vires a escrava arrancar-me que dos Acaios obtive por prémio de grandes trabalhos.

Nunca meu prémio se iguala ao que obténs quando os nobres Argivos uma cidade povoada dos Troas acaso conquistam.

É bem verdade que a parte mais dura dos prélios sangrentos a estes meus braços compete; mas quando se passa à partilha sempre o quinhão mais valioso te cabe enquanto eu me contento com recolher-me ao navio alquebrado com paga mesquinha.

Mas para Ftia resolvo voltar que é bem mais vantajoso ir para casa nas naves recurvas.

Não julgo decente permanecer ultrajado e de bens e riquezas prover-te.”

Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso: “Foge se o teu coração te compele que não te suplico por minha causa ficares.

Muita honra me vem em verdade de outros guerreiros mas principalmente de Zeus prudentíssimo.

És dos monarcas alunos de Zeus a quem mais ódio tenho.

Sempre encontraste prazer em contendas combates e lutas.

Se de robusto te orgulhas tua força dum deus é presente.

Volta nas naves recurvas com todos os teus; nos Mirmídones  o mando exerce em tua casa que disso me importo bem pouco.

Mossa também não me faz teu rancor; mas observo o seguinte: Visto me haver Febo Apolo da filha de Crises privado acompanhada pretendo enviá-la em navio ligeiro mas em pessoa hei-de o prémio ir buscar à tua tenda a Briseide de belas faces que alfim possas ver por esse acto de força quanto te sou superior e também para que outros se corram de se igualarem comigo e quererem de frente ameaçar-me.”

Enfurecido com essas palavras ficou o Pelida o coração a flutuar indeciso no peito veloso sobre se a espada cortante ali mesmo do flanco arrancasse e dispersando os presentes o Atrida desta arte punisse ou se o furor procurasse conter dominando a alma nobre.

Enquanto no coração e no espírito assim reflectia e a grande espada de bronze arrancava do Céu baixou prestes Palas Atena mandada por Hera de braços muito alvos que a ambos prezava e cuidava dos dois por maneira indistinta.

Por trás de Aquileu postando-se os louros cabelos lhe agarra a ele visível somente; nenhum dos presentes a via.

Cheio de espanto o Pelida virou-se; porém pelo brilho  que se lhe expande dos olhos conhece que é Palas Atena.

Volta-se então para a deusa e lhe diz as palavras aladas: “Filha de Zeus tempestuoso que causa te trouxe até Tróia? Ver os ultrajes que o Atrida Agamémnon me faz neste instante? Ora te digo com toda a clareza o que vai realizar-se: vai a existência custar-lhe essa grande arrogância de agora.”

A de olhos glaucos Atena lhe disse o seguinte em resposta: “Para acalmar-te o furor tão-somente ora vim do alto Olimpo; caso me atendas enviada por Hera de braços muito alvos que por igual a ambos preza e dos dois cuidadosa se ocupa.

Vamos refreia tua cólera deixa em repouso essa espada.

Mas quanto o queiras com termos violentos o cobre de injúrias.

Ora te digo com toda a clareza o que vai realizar-se: Prémios três vezes mais belos virás a alcançar muito em breve por esse insulto de agora.

Contém-te portanto e obedece.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés o seguinte em resposta: “Deusa é razoável que às ordens das duas me mostre obediente ainda que muito irritado me sinto.

É de facto mais útil.

Os deuses folgam de ouvir aos que sempre submissos se mostram.”

A mão robusta então logo baixou sobre o punho da espada  e a grande espada encaixou na bainha sem que se esquecesse do que lhe Atena dissera que foi para o Olimpo a ajuntar-se aos outros deuses celestes na casa de Zeus tempestuoso.

Mais uma vez o Pelida se vira com termos violentos para Agamémnon a quem ainda a cólera o peito enfunava: “Bêbedo que tens a vista do cão e a coragem do veado nunca a armadura envergaste para ir combater como os outros nunca às ciladas te atreves ao lado dos nobres Aquivos que no imo peito tens medo pois sabes que a Morte te espera.

Mais lucrativo de facto é correr todo o exército aquivo para esbulhar dos seus prémios a quem se atrever a objectar-te.

Devorador do teu povo! Não fosse imprestável Atrida toda esta gente e ficara como último ultraje esse de hoje.

Mas uma coisa assevero e com jura solene o confirmo: por este ceptro que ramos nem folhas jamais em verdade reproduziu desde que foi na montanha do tronco arrancado e que jamais brotará pois o bronze de vez arrancou-lhe a casca e as folhas –a vida– e que os filhos dos nobres Aquivos quando em função de juízes empunham fazendo que valham as leis de Zeus e os preceitos –solene é repito esta jura!–  há-de chegar o momento em que todos os nobres Aquivos hão-de gritar por Aquileu sem vires então nenhum modo de protegê-los no tempo em que às mãos desse Héctor homicida uns sobre os outros caírem.

Por dentro hás-de então remoer-te de desespero por teres o Aqueu mais ilustre injuriado.”

O ceptro Aquileu depois de falar adornado com cravos de ouro atirou contra o solo indo após novamente assentar-se.

O nobre filho de Acreu continuava colérico.

Entanto alça-se o velho Nestor o orador delicioso dos Pílios de cuja boca fluíam mais doces que o mel as palavras.

Gerações duas de seres de cúria existência já vira desaparecer que com ele nasceram no solo arenoso da sacra Pilos; qual rei na terceira ora o mando exercia.

Cheio de bons pensamentos lhes disse arengando o seguinte: “Deuses! Que dor indizível se abate nos povos da Acaia! Príamo grande alegria por certo há-de ter e seus filhos todos os outros Troianos também ficarão muito alegres quando notícia tiverem de que ambos desta arte contendem os mais distintos heróis nos conselhos de guerra e nas pugnas.

Ora atendei-me que muito mais moços do que eu sois sem dúvida.

Já convivi noutros tempos com mais vigorosos guerreiros do que vós ambos; no entanto nenhum inferior me julgava.

Não nunca vi nem presumo que possa ainda ver algum dia homens do porte de Driante pastor de guerreiros Pirítoo o grande Exádio Ceneu e o que aos deuses é igual Polifemo e ainda Teseu que de Egeu descendia de formas divinas.

Esses realmente os mais fortes heróis que na terra viveram não foram fortes somente: lutaram com fortes guerreiros monstros alpestres a todos matando por modo terrível.

Fui companheiro de todos nas lutas de então pois chamado por eles próprios me vira de Pilos longínqua arenosa.

Sim quanto me era possível lutei pois dos homens que a terra ora alimenta nenhum suportara confronto com eles.

Obedeciam-me entanto; meu voto era sempre acatado.

Obedecei-me também que é melhor aceitar bons conselhos.

Mas forte embora não queiras Atrida tomar ao Pelida a bela escrava alto prémio que os fortes Aqueus lhe entregaram.

Nem tu Pelida presumas que podes assim antepor-te ao soberano porque sempre toca por sorte mais honras ao rei que o ceptro detém a quem Zeus conferiu glória imensa.

Se és em verdade robusto e uma deusa por mãe te enaltece este é bem mais poderoso porque sobre muitos domina.

Faz cessar teu furor nobre Atrida te peço; não deixes ir para adiante tua cólera contra o Pelida pois ele tem sido o amparo dos povos aqueus contra os males da guerra.”

O poderoso Agamémnon disse o seguinte em resposta: “Todas as tuas palavras ancião foram ditas com senso.

Este indivíduo porém sempre quer sobrepor-se a nós todos nos outros todos mandar arrogar-se a gerência de tudo e leis ditar inconteste o que muitos suponho lhe negam.

Se as divindades eternas guerreiro de prol o fizeram por isso só permitiram que os mais insultar possa impune?” Interrompendo-o lhe disse em resposta o divino Pelida: “Sim merecera me visse apodado de fraco e imprestável se me deixasse dobrar ao capricho de tudo o que dizes.

Leis continua a ditar para quem te aprouver; mas teu mando em mim cessou pois estou decidido a negar-te obediência.

Ora outra coisa te vou revelar fixa-a bem no imo peito: Por causa certo da escrava não hei-de lutar nem contigo nem com ninguém; que ma vens retomar após ma haveres cedido.

Mas das riquezas que tenho no barco veloz de cor negra não levarás parte alguma jamais contra minha vontade.

Experimenta se o queres fazer que os presentes o vejam: na minha lança há-de logo correr o teu sangue anegrado.”

Após ambos terem desta arte impropérios trocado levantam-se pondo remate à assembleia que junto das naus se reunira.

Foi o Pelida a seguir para as tendas e naves simétricas em companhia do filho do grande Menécio e dos sócios.

Lança entrementes o Atrida nas ondas um barco ligeiro para o qual vinte remeiros já havia escolhido.

A hecatombe de Febo Apolo mandou para bordo assim como a Criseide de faces belas.

O mando ao sagaz Odisseu ele entrega.

Esses depois de embarcados as húmidas vias cortaram enquanto o Atrida dava ordens a todos que banhos tomassem.

Purificaram-se todos jogando no mar as escórias e a Febo Apolo ofertaram de cabras e touros selectos uma hecatombe completa na praia do mar incansável.

Nas espirais da fumaça até ao Céu o perfume subia.

Em todo o exército os Dánaos assim se esforçavam.

No entanto não se esquecia da ameaça que a Aquileu fizera Agamémnon.

Vira-se para Taltíbio e também para Euríbates ambos mui diligentes ministros e arautos e diz o seguinte: “Ide sem perda de tempo até à tenda de Aquileu Peleio e me trazei pela mão sem violência a graciosa Briseide.

Há-de entregar-ma que em caso contrário hei-de eu próprio ir buscá-la com muitos outros guerreiros o que será pior para Aquileu.”

Dessa maneira os enviou por que as ordens terríveis cumprissem.

A seu mau grado eles foram ao longo da praia sonora até que alcançaram as tendas e naus dos heróicos Mirmídones.

Foram achá-lo sentado do lado de fora bem perto da negra nau.

Não gostou certamente de os ver o Pelida.

Ambos receosos ficaram mostrando respeito ao monarca sem se atreverem sequer a o motivo alegar da visita.

Mas entendeu-o logo Aquileu que aos dois se dirige dizendo: “Sede bem-vindos arautos de Zeus poderoso e dos homens! Aproximai-vos que culpa não tendes; sim tem-na Agamémnon que vos mandou até aqui porque a filha de Brises levásseis.

Pátroclo aluno de Zeus traz a jovem sem perda de tempo e aos dois arautos a entrega.

Sereis testemunhas sem dúvida junto dos deuses eternos dos homens de curta existência  e desse odiento monarca se for necessário algum dia que eu próprio venha a intervir para aos outros poupar a vergonha duma derrota; que o rei por completo se encontra enfunado e inteiramente incapaz de julgar o passado e o futuro para que junto das naves a salvo os Aquivos combatam.”

Obedeceu logo Pátroclo às ordens do amigo dilecto e conduziu para fora da tenda a formosa Briseide indo entregá-la aos arautos que para os navios voltaram com a escrava; bem contra a vontade os seguia.

Entrementes dos companheiros Aquileu se afasta a chorar assentando-se perto da praia do mar espumoso.

A fixar o infinito pélago à mãe dilectíssima implora estendendo-lhe os braços: “Mãe já que vida de tão curto prazo me deste seria justo que ao menos tivesse honras muitas de Zeus poderoso que no alto troa! Ele entanto de todo de mim não se importa pois consentiu que o potente senhor de Atreu filho Agamémnon me desonrasse; meu prémio tomou de que ufano se goza.”

O que ele assim reclamava a chorar pela mãe foi ouvido que se encontrava no fundo do mar junto ao pai venerando.

Rapidamente emergiu dentre as ondas espúmeas qual névoa;  ao lado dele assentou-se que em pranto se achava desfeito e acariciando-o com a mão pôs-se logo a falar e lhe disse: “Qual a razão de teu choro meu filho? Que dor te acabrunha? Ora me conta sem nada ocultar-me; desejo sabê-lo.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés a gemer fundamente: “Já tens de tudo ciência; por que repetir o que sabes? Tebas cidade sagrada de Eécion foi por nós assaltada completamente destruída e espoliada das muitas riquezas.

Com equidade foi tudo entre os homens aqueus dividido tendo tocado a Agamémnon a jovem donosa Criseide.

Crises então sacerdote de Apolo frecheiro infalível veio até às céleres naus dos Acaios de bronze vestidos súplice a filha reaver.

Infinito resgate trazia tendo nas mãos as insígnias de Apolo frecheiro infalível no ceptro do ouro enroladas.

Implora aos Acaios presentes sem excepção mas mormente aos Atridas pastores de povos.

Os heróis todos Aquivos então logo ali concordaram em que se o velho acatasse aceitando os presentes magníficos.

Somente ao peito do Atrida Agamémnon o alvitre desprouve que o repeliu com dureza assacando-lhe insultos pesados.

Crises o ancião indignado dali se retira; mas Febo as preces logo lhe ouviu que especial afeição lhe dicava.

Epidemia funesta lançou nos Argivos; morriam muitos do povo pois nunca cessavam os raios de Apolo de dizimar as extensas fileiras do exército acato.

Mas eis que um sábio adivinho os oráculos do deus nos revela.

Aconselhei logo logo que o nume aplacar procurássemos.

Mas Agamémnon fica irritado; de pé levantando-se fez-me terrível ameaça que acaba de ser realizada: Em nau veloz os Aqueus de olhos claros a jovem já foram ao velho pai restituir com presentes que ao deus oferecem.

De minha tenda porém neste instante arrancaram-me arautos a bela filha de Brises que a mim como prémio coubera.

Ora te cumpre amparar a teu filho que o podes sem dúvida.

Sobe até ao Olimpo e a Zeus grande suplica fazendo-o lembrado de quanto grata lhe foste por meio de acções e palavras pois muitas vezes te ouvi no palácio paterno gloriar-te de que entre os deuses eternos tu só preservaras o grande filho de Cronos que as nuvens cumula de fim desditoso quando outros deuses do Olimpo em liames quiseram prendê-lo  Hera e Posídon de escuros cabelos e Palas Atena.

Tu porém deusa acorreste e o livraste das fortes cadeias e para o Olimpo muito amplo fizeste que viesse o Centímano que pelos deuses é dito Briareu mas Egeu pelos homens e que mais força apresenta que o próprio Posídon pai dele.

Ele orgulhoso do cargo assentou-se ali a par de Zeus Crónida medo inspirando aos eternos que logo dos elos desistem.

Fá-lo de tudo lembrado abraçando-lhe os joelhos; procura-o por que se mostre inclinado a prestar todo o apoio aos Troianos para que possam premir os Acaios até às popas e às ondas; e eles assim destroçados do chefe que têm se gloriem.

Veja com isso Agamémnon o filho de Atreu poderoso quão cego estava ao querer desprezar o maior dos Aquivos.”

Tétis então a chorar lhe responde as seguintes palavras: “Ai caro filho por que te criei se te dei vida infausta? Já que nasceste fadado a tão curta existência prouvera que junto às naves vivesses sem dor conheceres nem lágrimas.

Mas em vez disso tua vida fugaz é a mais rica de dores.

Para um destino infeliz te dei vida no nosso palácio.

Hei-de subir até ao Olimpo cercado de neve e a Zeus grande  tudo sem falha contar para ver se consigo dobrá-lo.

Perto das naves velozes entanto conserva-te e a cólera contra os Aqueus alimenta; de vez dos combates te afasta pois Zeus de facto foi ontem seguido de todos os deuses para o banquete dos puros Etíopes que moram no oceano.

Somente após doze dias de novo estará no alto Olimpo.

Dirigir-me-ei nesse tempo à morada de Zeus esplendente para os joelhos cingir-lhe esperando poder comovê-lo.”

Logo depois de falar retirou-se deixando-o sozinho cheio de dor a pensar na Briseide de porte gracioso que a seu mau grado lhe haviam tirado.

Odisseu entretanto tinha chegado até Crises levando a sagrada hecatombe.

Logo depois de alcançada a porção mais profunda do porto a vela amainam depressa deitando-a na nau de cor negra e com soltar as adriças o mastro ao comprido deitaram rapidamente levando com remos a nau para o porto.

A âncora logo soltaram firmando as amarras traseiras.

Desembarcaram na praia sonora do mar depois disso com a hecatombe sagrada que a Apolo frecheiro traziam.

Desce também do navio veloz a donzela de Crises  a qual o astuto Odisseu conduziu para junto das aras e ao pai querido a entregou dirigindo-lhe afável discurso: “Crises a ti me mandou Agamémnon rei poderoso para que a filha te viesse trazer e ofertasse hecatombe a Febo Apolo da parte dos Dánaos que o deixe benigno que ele os Argivos agora por modo tão grave castiga.”

Tendo assim dito nas mãos lha entregou.

Crises grato recebe a filha amada.

Entretanto a sagrada hecatombe em ordem punham ao lado do altar de formosa feitura.

Água lustral receberam nas mãos e a cevada espalharam.

Ambos os braços alçando o ancião implorou em voz alta: “Ouve-me ó deus do arco argênteo que Crisa cuidoso proteges e a santa Cila e que tens o comando supremo de Ténedos! Do mesmo modo que ouviste o pedido que fiz no outro dia e me deste honra infligindo castigo ao exército acaio mais uma vez te suplico atenderes-me ao que ora te peço: livra os Argivos da peste terrível que as hostes dizima.”

Isso disse ele na súplica; ouvido por Febo foi logo.

Dessa maneira concluída a oração e espalhada a farinha as reses postas a jeito degolam o couro lhes tiram  as coxas cortam peritos e em dupla camada da própria graxa as envolvem jogando por cima pedaços de músculos.

Assa-as na lenha o ancião tendo vinho por cima aspergido; com garfos de cinco pontas ao lado os rapazes o ajudam.

Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas logo o restante retalham espetos enfiam nas postas e cuidadosos as tostam tirando-as depois dos espetos.

Quando concluído o trabalho e o convívio desta arte aprontado se banquetearam ficando cada um com a porção respectiva.

Tendo assim pois a vontade da fome e da sede saciado até pelas bordas escravos as taças encheram de vinho distribuindo por todos os copos as sacras primícias.

Por todo o resto do dia depois para o deus aplacarem o canto em honra de Apolo entoaram os moços argivos a celebrar o frecheiro; escutando-os o deus se alegrava.

Logo que o Sol se acolheu e baixou sobre a terra o crepúsculo foram-se todos deitar junto à popa da célere nave.

Logo que a Aurora de dedos de rosa surgiu matutina eis que de novo zarparam rumando ao exército argivo.

Vento ponteiro lhes deu Febo Apolo frecheiro infalível.

O mastro então levantaram prendendo-lhe a cândida vela.

Logo se enfuna no meio com o vento e ao redor da querena da nau que avança ressoam ruidosas as ondas inquietas.

Corre veloz sobre as ondas fazendo o caminho do estilo.

Quando afinal alcançaram o forte arraial dos Acaios a nau veloz de cor negra no seco puseram puxando-a muito para o alto na areia firmando-a com paus apropriados.

Todos então se espalharam por entre os navios e as tendas.

Junto da nave ligeira entretanto se achava agastado o divo Aquileu de céleres pés de Peleu descendente sem frequentar a assembleia onde os homens de glória se cobrem nem tomar parte nas lutas.

Ralado de fundo despeito só pelos gritos de guerra e sangrentos combates ansiava.

Quando a dozena manhã prometida raiou matutina para o alto Olimpo voltaram os deuses de vida perene todos com Zeus grande à frente.

Não pôde do filho esquecer-se Tétis do que lhe pedira; emergindo das ondas marinhas em névoa envolta ao céu alto subiu e ao Olimpo altanado onde foi dar com o filho de Cronos que ao longe discerne dos demais deuses à parte no pico mais alto do monte.

Ao lado dele assentando-se passa-lhe em torno dos joelhos o braço esquerdo e tornando-lhe o queixo na destra afagando-o desta maneira a Zeus grande nascido de Cronos suplica: “Se já algum dia Zeus pai te fui grata entre os deuses eternos seja por meio de acções ou palavras atende-me agora: honra concede a meu filho fadado a tão curta existência a quem o Atrida Agamémnon rei poderoso de ultraje inominável cobriu: de seu prémio ora ufano se goza.

Compensação lhe concede por isso Zeus sábio e potente; presta aos Troianos o máximo apoio até quando os Acaios a distingui-lo retornem e de honras condignas o cerquem.”

Nada lhe disse em resposta Zeus grande que as nuvens cumula.

Quedo e silente ficou.

Tétis logo lhe os joelhos abraça mais firmemente insistindo outra vez no primeiro pedido: “Abertamente concede ou recusa o que venho pedir-te pois desconheces o medo.

Que obtenha desta arte a certeza de que em verdade entre os deuses sou a que menos distingues.”

Muito abalado lhe diz Zeus potente que as nuvens cumula: “Coisa mui grave me pedes que vai contra mim chamar o ódio de Hera que tem por costume irritar-me com ditos molestos.

Até em motivo lhe apraz ante os numes eternos lançar-me acusações com dizer-me parcial nesta guerra aos Troianos.

Trata de ir logo daqui; não suceda que sejas por ela reconhecida que tomo ao meu cargo fazer o que pedes.

Para que tenhas confiança far-te-ei o sinal com a cabeça que é o mais seguro penhor com que aos deuses eternos me obrigo.

Pois fatalmente se cumpre jamais pode ser duvidoso nem revogável quanto eu prometer sacudindo a cabeça.”

As sobrancelhas escuras franziu o nascido de Cronos a cabeleira divina ondulou sobre a fronte altanada o potentíssimo deus abalando os pilares do Olimpo.

Após este acordo apartaram-se.

Tétis então sem demora das luminosas cumeadas do Olimpo saltou para as ondas.

Para o palácio foi Zeus.

Os mais deuses entanto dos tronos se levantaram saindo ao encontro do pai.

Nenhum deles indiferença mostrou e a saudá-lo em conjunto avançaram No trono entanto assentou-se.

Mas de Hera à visão desconfiada não escapara a conversa que Zeus mantivera com Tétis de pés de prata nascida do velho das águas marinhas.

Para Zeus Crónida vira-se e ditos pungentes lhe assaca:  “Qual dentre as deusas doloso contigo tramou novos planos? Sempre do agrado te foi entreter clandestinas conversas quando acontece achar-me distante.

Jamais te resolves a revelar-me uma parte sequer do que na alma ponderas.”

O pai dos homens e deuses lhe disse o seguinte em resposta: “Hera não penses que podes saber quanto na alma concebo pois apesar de me seres esposa ser-te-ia difícil.

Antes de ti ninguém vem a saber o que é lícito ouvir-se nem entre os deuses eternos do Olimpo nem mesmo entre os homens.

Mas do que à parte resolvo ocultar sem que os deuses o saibam averiguar não presumas nem faças perguntas inúteis.”

Hera a magnífica de olhos bovinos lhe disse em resposta: “Crónida terribilíssimo como me falas desta arte? Creio que até este momento jamais tenho sido importuna.

Sem molestar-te te deixo fazer o que na alma concebes.

Mas tenho muito receio que te haja vencido alfim Tétis de pés de prata a donzela donosa do velho marinho.

Em névoa envolta sentou-se ao teu lado e tocou-te os joelhos.

Ora suspeito de que hajas anuído a que Aquileu se torne cheio de glória e que muitos Acaios nas naves pereçam.”

Disse-lhe então em resposta Zeus grande que as nuvens cumula: “Alma danada hás-de sempre sondar-me com tuas suspeitas! Mas coisa alguma consegues com isso senão afastar-te cada vez mais do meu peito o que muito mais grave há-de ser-te.

Se como dizes tudo isso se der é que quis assim mesmo.

Senta-te agora; sossega e reflecte bem nisso que digo.

Nem mesmo todos os deuses do Olimpo valer-te puderam se minhas mãos invencíveis em ti suceder que se abatam.”

Hera a magnífica de olhos bovinos ficou temerosa e foi sentar-se calada refreando o rancor do imo peito.

Na sala grande de Zeus perturbaram-se os deuses do Olimpo.

O fabro célebre Hefestos começa a dizer então logo para sua mãe consolar Hera nobre de braços luzentes: “Desagradável realmente e de forma nenhuma aceitável é que por causa dos homens fiqueis a tal ponto em discórdia e que os mais deuses também se aborreçam.

Dos gratos banquetes há-de cessar a alegria se as coisas ruins prevalecem.

Por isso à mãe aconselho por mais que se mostre sensata que a Zeus procure agradar porque não aconteça que venha de novo o pai a irritar-se e conturbe o prazer dos banquetes.

Pois facilmente Zeus grande que os raios maneja a nós todos destes assentos jogara se tanto fazer decidisse.

Vamos procura aplacá-lo com gestos e vozes afáveis para que o Olímpico a todos se torne de novo propício.”

Disse e se ergueu.

E tomando uma taça com alças ornada à mãe querida a ofertou prosseguindo no afável discurso: “Mãe tem paciência e acomoda-te embora ofendida te encontres.

Não seja dado aos meus olhos pois muito te estimo de novo verem-te assim castigada que então não me fora possível em teu auxílio sair pois com Zeus contender é muito árduo.

Já da outra vez quando quis defender-te e acorri pressuroso por um dos pés me agarrou dos celestes umbrais atirando-me.

O dia todo rolei; mas no tempo em que o sol cai no ocaso fui ter a Lemnos sem dar quase mostras de ainda estar vivo onde ao cair agasalho me deram os Síntios bondosos.”

Hera de braços luzentes sorriu ao lhe ouvir tais palavras; e sorridente aceitou logo a taça que o filho lhe dava.

Pela direita começa a deitar para os deuses presentes o doce néctar que a ponto retira de grande cratera.

Em gargalhada infinita rebentam os deuses beatos  ao perceberem Hefestos solícito assim pela sala.

Por todo o resto do dia até o sol acolher-se no poente se banquetearam ficando cada um com a porção respectiva.

Todos prazer encontravam na lira de Apolo belíssima quando com as Musas com voz deliciosa alternados cantavam.

Mas quando a luz radiante do sol já se havia escondido foram dormir procurando cada um sua própria morada onde para eles palácios construíra com senso elevado o ínclito Hefestos famoso ferreiro de braços robustos.

Foi para o leito também Zeus potente que os raios dispara onde soía deitar-se ao lhe vir agradável o sono.

Para ali sobe; ao seu lado a de trono dourado Hera estava.


 

CANÇÃO II

Os outros deuses e os homens que em carros combatem dormiam a noite toda.

Somente Zeus pai não gozava do sono a revolver no imo peito a maneira de honrar o Pelida e de morrerem à volta das naves Acaios inúmeros.

Dos vários planos pensados alfim o melhor pareceu-lhe ao poderoso Agamémnon um Sonho mandar mentiroso.

Vira-se então para o Sonho e lhe diz as palavras aladas: “Vai Sonho falso até às naves velozes dos homens acaios e quando a tenda alcançares do filho de Atreu Agamémnon exactamente o recado lhe dá que ora passo a dizer-te: Manda que apreste os guerreiros aquivos de soltos cabelos sem perder tempo; é o momento talvez de expugnar a cidade ampla dos homens troianos que os deuses do Olimpo cindidos não mais se encontram pois Hera afinal conseguiu convencê-los com suas súplicas.

Sobre os Troianos as dores impendem.”

O Sonho logo dali se partiu após ouvir o recado.

Rapidamente aos navios velozes chegou dos Acaios e para o Atrida Agamémnon foi que se achava deitado dentro da tenda a dormir pelo sono divino cercado.

Sob a figura do velho Neleio Nestor lhe aparece dos conselheiros aquele que o Atrida entre todos prezava.

Disse-lhe o Sonho divino depois de tomar essa forma: “Dormes Atrida prudente e viril domador de cavalos? Não fica bem para um príncipe em quem todo o povo confia e de quem tudo depende dormir sem parar toda a noite.

Presta atenção ao que digo; da parte de Zeus sou mandado que se interessa por ti muito embora distante e se apiada.

Manda que aprestes os homens aquivos de soltos cabelos sem perder tempo; é o momento talvez de expugnar a cidade ampla dos homens troianos que os deuses do Olimpo cindidos não mais se encontram pois Hera afinal conseguiu convencê-los com suas súplicas.

Sobre os Troianos as dores impendem que Zeus lhes manda.

Retém na memória todo este recado; não aconteça o esqueceres no instante de o sono deixar-te.”

Tendo isso dito voltou logo o Sonho deixando Agamémnon a reflectir no imo peito o que nunca viria a cumprir-se.

Imaginava o insensato tomar a cidade dos Troas no mesmo dia ignorante dos planos que Zeus concebera.

Este realmente aprestara iminentes trabalhos e dores  para os Aqueus e os Troianos que os duros combates trariam.

Do sono pois despertou o recado de Zeus ainda ouvindo; salta do leito com pressa e vestiu logo a túnica fina nova e brilhante por cima da qual pôs um manto bem cómodo; calça a seguir as formosas sandálias nos pés delicados nos ombros largos a espada lançou cravejada de prata e o ceptro alfim empunhando que herdara do pai incorrupto foi para as naves dos homens aqueus revestidos de bronze.

A diva Aurora entrementes já estava a caminho do Olimpo para que a Zeus e às demais divindades o dia anunciasse quando Agamémnon ordena aos divinos arautos que chamem para a assembleia os Acaios de soltos cabelos nos ombros.

Gritam sem mora o pregão; apressados aqueles concorrem.

Primeiramente o conselho reuniu dos magnânimos velhos junto da nave do sábio Nestor que reinava nos Pílios.

Vendo-os ali reunidos por modo discreto lhes disse: “Caros ouvi-me! No sono me veio uma imagem divina na noite suave que o ilustre Nestor por demais parecia não só na altura e no aspecto também na imponência do gesto.

Junto bem junto à cabeça me disse as seguintes palavras:  “Dormes Atrida prudente e viril domador de cavalos? Não fica bem para um príncipe em quem todo o povo confia e de quem tudo depende dormir sem parar toda a noite.

Presta atenção ao que digo; da parte de Zeus sou mandado que se interessa por ti muito embora distante e se apiada.

Manda que aprestes os homens aquivos de soltos cabelos sem perder tempo; é o momento talvez de expugnar a cidade ampla dos homens troianos que os deuses do Olimpo cindidos já não se encontram pois Hera afinal conseguiu convencê-los com suas súplicas.

Sobre os Troianos as dores impendem que Zeus lhes manda.

Retém na memória todo esse recado.”

Disse e voou no momento em que o sono se foi justamente.

Eia! Vejamos se armar conseguimos os homens aquivos.

Procurarei com palavras primeiro como é mais factível aconselhar a que fujam nas naves providas de remos.

Por outro lado vós todos tentai da intenção demovê-los.”

Tendo isso dito voltou novamente a assentar-se.

Levanta-se logo Nestor o monarca de Pilos de solo arenoso.

Cheio de bons pensamentos lhes diz arengando o seguinte: “Vós conselheiros e guias dos povos acaios ouvi-me!  Se outro qualquer dos Argivos houvesse contado esse sonho de mentiroso eu o tachara sem dar-lhe importância nenhuma.

Mas quem afirma que o viu é o mais nobre dos chefes acaios.

Eia! Vejamos se armar conseguimos os homens aquivos.”

Tendo isso dito foi ele o primeiro a sair do conselho.

Obedientes ao filho de Atreu os demais reis ceptrados se levantaram também.

Acudiu logo o povo em balbúrdia.

Do mesmo modo que enxames copiosos de abelhas prorrompem do oco da pedra zumbindo a que bandos sem pausa se seguem e umas pendentes em cachos à volta se ficam das flores primaveris enquanto outras variados caminhos percorrem: dessa maneira afluíram das tendas e naves simétricas povos sem conta ao comprido da praia do mar mui profunda para a assembleia.

Inflamara-se entre eles a Fama ligeira a mensageira de Zeus concitando-os de novo a reunirem-se.

A ágora tumultuava; ribomba o chão duro ao sentarem-se tantos guerreiros; por tudo é algazarra; esforçavam-se arautos nove a um só tempo por ver se o tumulto aplacar conseguiam para que ouvidos os reis descendentes de Zeus fossem logo.

A multidão afinal se conteve; sentaram-se todos;  cessa de vez o barulho.

Levanta-se o forte Agamémnon nas mãos o ceptro que Hefestos com muito artifício forjara para presente fazer a Zeus pai que de Cronos nascera.

O mensageiro veloz por sua vez foi por Zeus presenteado Hermes que a Pélops o entrega o senhor domador de cavalos; Pélops então o passou para Atreu o pastor de guerreiros que para Tiestes o deixa ao morrer opulento em rebanhos; para Agamémnon Tiestes o deu porque firme o empunhasse e em muitas ilhas o mando tivesse bem como em toda a Argos.

Nele apoiando-se vira-se para os Argivos e fala: “Caros amigos heróicos Aqueus de Ares forte sequazes! O grande Crónida Zeus em terrível desgraça me enleia ele o maldoso que havia asselado antes disso a promessa de retornar para a pátria depois de destruir Ílion forte.

Ora resolve enganar-me ordenando que volte de novo sem nenhum brilho para Argos depois de perder tanta gente.

Isso por certo há-de ser agradável a Zeus poderoso que já destruiu muitos muros e grandes e fortes cidades e há-de arrasar outras mais pois imenso é o poder de seu braço.

Até mesmo aos pósteros há-de chegar o labéu vergonhoso  de que um exército acaio de tantos e fortes guerreiros haja sem êxito feito essa guerra conquanto lutando contra tão poucos imigos sem nunca lhe vermos o cabo.

Pois em verdade se os Troas e Aquivos quiséssemos todos tréguas jurar para assim facilmente contar nossos homens caso os Troianos o número exacto dos seus nos dissessem e dividíssemos logo os Acaios em várias dezenas e cada grupo elegesse escanção um dos homens de Tróia a muitas décadas certo faltara quem vinho mexesse.

Por tal maneira presumo ultrapassam os homens aquivos aos moradores dos muros de Tróia.

Porém numerosos auxiliares lanceiros lhes vieram de muitas cidades que por maneira sensível me impedem de ao plano dar corpo de Ílion sagrada expugnar o baluarte de muros fortíssimos.

Já são corridos nove anos mandados por Zeus poderoso; os lenhos todos já podres se encontram delidos os cabos; nossas esposas queridas e os filhos infantes ainda em nossas casas se encontram saudosos enquanto nós outros vemos frustrada esta empresa que a todos em Tróia reúne.

Ora façamos conforme o aconselho; obedeçam-me todos:  para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves pois é impossível tomar a cidade espaçosa dos Teucros.”

O coração no imo peito ficou sobremodo abalado de toda a turba que ausente se achara ao conselho dos velhos.

A ágora então se agitou como o fazem as ondas furiosas no ponto Icário que são percutidas por Euro e por Noto quando das nuvens irrompem mandados por Zeus poderoso.

Do mesmo modo que Zéfiro agita uma grande lavoura impetuoso a soprar e as espigas forçadas se curvam: a multidão correu logo revolta com grande alarido em direcção dos navios velozes.

Bastante poeira os pés faziam subir; afanosos exortam-se todos para lançar mãos às naves e às ondas sagradas deitá-las.

Todos os regos alimpam e as naus dos espeques libertam.

Sobe ao Céu alto o alarido dos que para casa voltavam.

E para a pátria talvez retornassem pesar do Destino se para Atena divina Hera alfim não tivesse falado: “Palas Atena indomável donzela de Zeus poderoso é então possível que fujam desta arte os guerreiros argivos no dorso extenso do mar para a terra dos pais extremosa?  E deixarão quem Troianos e Príamo tanto enaltecem a argiva Helena por quem tantos homens aquivos morreram longe da pátria jogados nas vastas planícies de Tróia! Vamos! Dirige-te aos homens acaios vestidos de bronze e com palavras afáveis procura detê-los a todos não consentindo que lancem ao mar os navios simétricos.”

A de olhos glaucos Atena ao conselho sem mais lhe obedece.

Célere baixa passando por cima dos cumes do Olimpo.

Rapidamente chegou aos navios acaios velozes; quedo encontrou a Odisseu que de Zeus tinha o senso elevado.

Nem levemente ele havia tocado em sua nave coberta de cor escura que dor excruciante lhe o peito angustiava.

A de olhos glaucos Atena lhe foi deste modo dizendo: “Filho de Laertes de origem divina Odisseu engenhoso! É então possível que todos fujais para a pátria querida precipitando-vos cegos nas naves providas de remos? E deixareis quem Troianos e Príamo tanto enaltecem a argiva Helena por quem tantos homens aquivos morreram longe da pátria jogados nas vastas planícies de Tróia? Vamos! Dirige-te aos homens acaios sem perda de tempo  e com palavras afáveis procura detê-los a todos não consentindo que lancem ao mar os navios simétricos.

Isso disse ela; Odisseu compreendeu que era a voz duma deusa.

Corre atirando de si longe o manto que foi por Euríbates o fiel arauto apanhado Itacense que a ponto o acompanha.

Chega-se para Agamémnon o filho de Atreu poderoso e o incorruptível bastão lhe tomou que de Atreu recebera.

Com ele foi para as naves dos fortes guerreiros aquivos.

Se porventura encontrava um dos reis ou pessoa graduada com termos brandos tentava detê-lo embargando-lhe os passos: “Não fica bem caro amigo mostrar o temor do homem baixo cuida isso sim de acalmar-te; concita essa gente a assentar-se pois desconheces em todo o seu âmbito os planos do Atrida.

Ora procura tentar-nos mas breve há-de a pena infligir-nos.

Nem todos nós percebemos o que ele externou no conselho.

Não aconteça colérico males causar aos Argivos.

Sempre é violento o rancor do monarca de Zeus descendente.

A majestade e o poder ele os herda de Zeus poderoso.”

Mas se encontrava a gritar um qualquer dentre os homens do povo o percutia com o ceptro increpando-o desta arte em voz alta:  “Pára essa bulha covarde e atenção presta aos ditos dos outros que são melhores que tu pois te mostras imbele e sem préstimo.

Não vales nada na guerra ou sequer nas reuniões dos Argivos.

Reis não queiramos ser todos que aqui nos achamos reunidos.

É mau que muitos comandem; um só tenha o posto supremo; um seja o rei justamente a quem Zeus descendente de Cronos deu ceptro e leis para o mando no povo exercer inconteste.

Como senhor percorria ele as filas.

Reflui novamente a multidão que concorre das tendas e naves simétricas tumultuando tal como onda grande do mar ressoante vem sobre a praia quebrar-se fazendo que o mar todo ecoe.

Todos então se sentaram calados cada um no seu posto.

Unicamente Tersites sem pausa a falar continuava pois tinha sempre o bestunto repleto de frases ineptas que contra os reis costumava atirar sem propósito ou regra contanto que provocasse dos nobres Argivos o riso.

Era o mais feio de quantos no cerco de Tróia se achavam.

Pernas em arco arrastava um dos pés; as espáduas recurvas se lhe caíam no peito e por cima dos ombros em ponta o crânio informe se erguia onde raros cabelos flutuavam.

Tanto Odisseu como o divo Pelida ódio grande lhe tinham pois de contínuo os pungia.

Mas ora insultava Agamémnon com voz de timbre estridente com quem os guerreiros acaios aborrecidos estavam e muito agastados no espírito.

Em altos berros portanto a Agamémnon increpa insultuoso: “Por que resmungas Atrida e que mais ainda julgas faltar-te? As tuas tendas transbordam de bronze e de lindas escravas todas a dedo escolhidas que os homens aqueus te ofertamos sempre em primeiro lugar ao tomarmos alguma cidade.

Ou porventura desejas mais ouro que acaso um Troiano da alta cidade te traga em resgate do filho querido que porventura eu prendesse ou qualquer dos guerreiros aquivos? Ou nova escrava ambicionas que à parte sozinho retenhas para saciar teus amores? Não fica decente a um monarca que o mando exerce lançar os Acaios em tantas desgraças.

Bando covarde e imprestável de Aquivas não digo de Aquivos! Sim para casa voguemos deixando-o nos plainos de Tróia a digerir quantos dons lhe couberam por sorte.

Que sinta se de vantagem lhe somos ou não nos perigos da guerra já que o divino Polida que tão superior lhe é em tudo  muito ofendeu: sua escrava tomou e dela ora se goza.

Mas esse Aquileu mostrou ser pessoa sem fel; é indolente.

Caso contrário Agamémnon o último ultraje fora esse.”

Por esse modo Tersites o Atrida possante insultava.

Mas sem demora o divino Odisseu veio pôr-se-lhe ao lado e com terrível olhar encarando-o increpou-o desta arte: “Néscio Tersites conquanto orador de palavra fluente cala essa boca não queiras sozinho com reis abarbar-te.

És o mais vil e insolente de quantos guerreiros vieram para lutar sob os muros de Tróia seguindo os Atridas.

Não queiras vir concionar tendo o nome de rei nessa boca nem cumulá-lo de insultos cuidando somente da fuga.

Ainda ignoramos ao certo que fim há-de ter isso tudo se para os homens acaios a volta será vantajosa.

Cessa portanto de insultos lançar no pastor de guerreiros o grande filho de Atreu a quem muitos Argivos distinguem com copiosos presentes.

Somente a ti coube insultá-lo.

Vou revelar-te com toda a clareza o que vai realizar-se.

Ao te encontrar novamente dizendo impropérios como esses não mais nos ombros do herói Odisseu continue a cabeça  nem mais me orgulhe de ser designado por pai de Telémaco se sobre ti não puser logo as mãos arrancando-te as vestes o manto e a própria camisa e o que mais as vergonhas encobre para enviar-te depois a chorar para as rápidas naves das reuniões expulsando-te com boa dose de açoites.”

Ao dizer isso golpeou-o com o ceptro nas costas e espáduas o que o obrigou a encurvar-se nadando-lhe os olhos em lágrimas.

Incha-lhe logo nas costas sanguíneo vergão da pancada do ceptro de ouro.

Sentar-se foi ele a tremer temeroso apatetado a enxugar dolorido dos olhos as lágrimas.

Riram-se todos do mísero embora enfadados se achassem.

Muitos dentre eles falavam virando-se para o mais próximo: “Que maravilha! Odisseu já se orgulha de inúmeros feitos quer como bom conselheiro quer quando os combates dirige.

Mas esta acção por sem dúvida a todas as outras supera pois obrigou a calar-se de vez esse vil maldizente.

O coração temerário não mais quererá com certeza sobre a pessoa do rei atirar insultuosas palavras.”

A chusma assim se expressava.

Odisseu eversor de cidades o ceptro empunha de pé.

Sob a forma do arauto ao seu lado  a de olhos glaucos Atena ordenava silêncio às fileiras para que todos os homens acaios de perto e de longe suas palavras ouvissem e após orientar-se soubessem.

Cheio de bons pensamentos lhes diz arengando o seguinte: “Filho de Atreu soberano os guerreiros aquivos desejam que ante o universo dos homens mortais infamado tu fiques.

Não querem dar cumprimento às promessas com que se empenharam ao virem de Argos nutriz de corcéis sob o teu regimento: que voltariam somente depois de destruir Ílion forte.

Como se fossem mulheres a quem falta o esposo ou crianças uns para os outros se queixam chorando o almejado retorno.

Grande é realmente a fadiga e o desejo da volta explicável.

Quem fica apenas um mês afastado da esposa querida muito se queixa na nave provida de remos se acaso as tempestades do Inverno no mar o detêm agitado.

Nós entretanto já vimos nove anos completos passarem sempre detidos aqui.

Não censuro por isso os Acaios por se angustiarem nas naves recurvas.

Mas é vergonhoso com mãos vazias voltarmos depois de demora tão longa.

Caros amigos paciência! Esperai mais um pouco até vermos  se de Calcas os augúrios nos saem verazes ou falsos.

Sim todos vós que da Morte escapastes ainda no espírito tendes presente a ocorrência do que podeis dar testemunho.

Ontem parece ou anteontem se achavam reunidos em Áulide as naves todas que a Príamo e a Tróia a desgraça trouxeram.

Junto das aras sagradas ao pé duma fonte nós todos às divindades do Olimpo hecatombes perfeitas fazíamos sob a frescura dum plátano donde fluía água límpida.

Nisso um prodígio nos veio: uma serpe com dorso sanguíneo monstro terrível que à luz fora enviado por Zeus poderoso.

Do supedâneo surgindo do altar subiu logo pela árvore onde a ninhada se achava dum pássaro míseros seres sob as folhinhas ocultos no ramo mais alto do plátano; oito eram eles incluindo-se a mãe que os gerou nove ao todo.

Por entre pios sentidos ali devorou todos eles e à própria mãe que gemente esvoaçava ao redor dos filhinhos: o bote atira-lhe o monstro apanhando-a por uma das asas.

Mas após haver o dragão os filhotes e a mãe devorado foi pelo deus que o enviaram mudado num grande prodígio; petrificou-o ali mesmo o nascido de Cronos tortuoso.

Quantos ao facto assistíamos cheios de espanto ficámos.

Mas vaticínios Calcas começa ali mesmo a tecer-nos sobre o terrível prodígio que no meio do ofício nos viera: “Por que calados ficastes Aquivos de soltos cabelos? Esse prodígio por Zeus grande e sábio nos foi enviado.

Vai demorar; veio tarde; mas fama vai ter sempiterna.

Do mesmo modo que o drago os filhotes matou e a mãe deles –oito eram eles; incluindo-se a mãe que os gerou nove ao todo– o mesmo número de anos devemos passar nesta guerra mas no dezeno haveremos de entrar a cidade espaçosa.”

Foi esse o seu vaticínio que se há-de cumprir sem demora.

Por isso tudo esforçados Acaios ficai mais um pouco até que possamos tomar a espaçosa cidade de Príamo.”

Dessa maneira concluiu provocando estrondosos aplausos dos Aqueus todos grevados que as naves recurvas atroam; tão agradável lhes fora o discurso do divo Laertíada.

O domador de cavalos Nestor de Gerena lhes disse: “Caso inaudito que todos faleis como crianças ingénuas que não possuem nenhuma experiência das coisas da guerra.

Para onde as juras se foram e os votos que todos fizemos?  Sejam lançados ao fogo os desígnios e planos de todos as libações impolutas e apertos de mão que trocámos.

Só com palavras sabemos brigar sem que achemos caminho para as acções eficientes apesar de aqui estarmos há muito.

Como o costumas Atrida mantém teu propósito firme e para os prélios terríveis conduz os guerreiros argivos.

Que este e outros poucos se percam que têm por costume aos Acaios dar maus conselhos.

Porém jamais hão-de alcançar seus intentos de retornarmos para Argos sem termos obtido primeiro de Zeus potente a certeza se falso ou veraz prometeu-nos.

Sou de opinião entretanto que o filho potente de Cronos nos falou certo no dia em que as naves entrámos velozes para trazer a estas gentes de Tróia o extermínio e a desgraça: fez-nos surgir um relâmpago à destra sinal infalível.

Por isso tudo ninguém mais insista em voltar para a pátria sem que primeiro haja ao leito subido de esposa troiana e ressarcido os trabalhos e o choro por causa de Helena.

Mas se houver quem ainda insista em voltar para a pátria querida e ouse tocar no navio anegrado de boa coberta seja o primeiro a ser presa do Fado inditoso e da Morte.

Eia senhor aconselha-te bem mas aceita outros planos que não será de somenos valor o que passo a dizer-te: Teus homens todos Atrida por tribos divide e famílias que cada tribo se ajude e uns aos outros os membros dum grupo.

Caso me aceites o alvitre e os Acaios também te obedeçam fácil será de saber qual dos chefes qual dentre os do povo fraco ou de prol se revela; que à parte eles todos combatem.

Hás-de então ver se a cidade resiste por causa dos deuses ou por fraqueza dos homens nas coisas da guerra inexpertos.”

Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso: “Tornas ó ancião a vencer os Acaios com tua eloquência.

Fosse do gosto de Zeus e de Palas Atena e de Apolo dez conselheiros assim nas fileiras acaias mostrarem-me! Em pouco tempo cairia a cidade potente de Príamo por nossos braços vencida e por nós arrasada e saqueada.

Mas sofrimentos me deu Zeus potente nascido de Cronos com me lançar em litígios inúteis e vão falatório.

Por causa sim duma escrava eu e Aquileu Peleio brigámos com termos ásperos tendo partido de mim as ofensas.

Mas se algum dia concordes ficarmos de novo não há-de  demorar muito a ruína de Tróia um momento que seja.

Ide no entanto comer por que logo encetemos a luta.

Todos as lanças agucem; a ponto os escudos preparem; dêem ração abundante aos cavalos de patas velozes e aos carros passem revista pensando no próximo embate pois todo o dia teremos de a luta manter espantosa.

Pausa nenhuma há-de haver um momento sequer de repouso enquanto a Noite não vier aplacar o furor dos guerreiros.

Há-de correr muito suor pelo bálteo dos altos escudos e do manejo da lança hão-de os braços tombar de cansados; muito hão-de suar os cavalos do esforço de os carros puxarem.

Mas se alguém vir do prélio sangrento afastado querendo nas curvas naus ocultar-se remédio nenhum com certeza há-de livrá-lo de pasto tomar-se de cães e de abutres.”

Disse; os Argivos romperam em grande alarido tal como quando vem onda quebrar-se por Noto impelida de encontro a promontório elevado; outras muitas constantes o cercam que pelos ventos de todos os lados ali são jogadas: em direcção dos navios desta arte eles todos se espalham fogo nas tendas acendem e logo ao repasto se entregam.

Quem sacrifícios a um deus; quem a um outro perfeitos fazia a suplicarem que de Ares sangrento e da Morte o salvassem.

O próprio Atrida Agamémnon chefe prestante uma vítima sacrificou de cinco anos ao filho de Cronos tortuoso.

Para o conselho dos velhos fez vir os mais nobres Acaios: o velho Pílio Nestor em primeiro lugar; depois dele Idomeneu os Ájaxes e o filho do grande Tideu; sexto fez vir Odisseu que de Zeus tinha o senso elevado.

Vem Menelau sem convite o guerreiro de voz retumbante pois bem sabia os cuidados que na alma do irmão se agitavam Com bolos sacros nas mãos ao redor do animal se postaram.

Súplice a voz levantou Agamémnon rei poderoso: “Máximo Zeus poderoso que no éter as nuvens cumulas dá que não desça o Sol fúlgido nem sobre nós venha a Noite sem que eu atire por terra a cumeeira de Príamo escura pela fuligem e às chamas ardentes as portas entregue; sem que do peito de Héctor rasgue a túnica brônzea com minha lança e em redor dele os sócios também veja todos de bruços uns sobre os outros na areia amontoados mordendo o chão duro.”

Por esse modo implorava; mas Zeus não lhe atende o pedido:  o sacrifício aceitou mas trabalhos sem conta lhe apresta.

Tendo concluída a oração e espalhada a farinha do rito as reses postas a jeito degolam os couros lhes tiram as coxas cortam peritos e em dupla camada da própria graxa as envolvem jogando por cima pedaços de músculos que depois disso na lenha de folhas privada queimaram.

Nas labaredas enfim espetadas as vísceras tostam.

Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas logo o restante retalham espetos enfiam nas postas e cuidadosos as queimam tirando-as depois dos espetos.

Findo todo esse trabalho e o convívio desta arte aprontado se banquetearam ficando cada um com a porção respectiva.

Tendo assim pois a vontade da fome e da sede saciado pôs-se a falar o Gerénio Nestor domador de cavalos: “Filho de Atreu gloriosíssimo chefe de heróis Agamémnon não prossigamos com ocas palavras nem fique mais tempo sem ser levada a bom termo esta empresa que um deus nos destina.

Faz que logo os arautos convoquem por todas as naves em altos brados as gentes aquivas de túnicas brônzeas.

Nós entretanto corramos ao longo das filas do exército  para que logo espertemos em todos o ardor dos combates.”

Obedeceu-lhe ao conselho Agamémnon rei poderoso.

Manda sem mora aos arautos de voz penetrante que chamem para os combates os homens aquivos de soltos cabelos.

Gritam de facto o pregão; apressados aqueles concorrem.

Os reis alunos de Zeus reunidos à volta do Atrida os ordenavam prestantes com Palas Atena a ajudá-los; a égide sacra e imortal empunhava de preço infinito da qual pendiam cem franjas trabalho de fino traçado de ouro sem mescla valendo cada uma o que valem cem bois.

A sobraçá-la irradiante atravessa as fileiras acaias a estimular os guerreiros fazendo acordar-lhes no peito o irresistível ardor de aos combates sem pausa entregarem-se.

Para eles todos realmente mais doce era entrar nos combates do que voltar para a pátria querida nas côncavas naves.

Tal como o fogo voraz que se ateia em floresta densíssima pelas cumeadas dum monte espalhando o fulgor a distância: do mesmo modo pelo éter o brilho até o Céu alcançava das armaduras infindas que à marcha ainda mais esplendiam.

Bem como bando infinito de seres alados revoantes  gansos ou gralhas ou cisnes dotados de longos pescoços que no Ásio plaino se abate ao redor do Caístro sinuoso alegremente estadeando a plumagem dum lado para outro até se assentarem com grande alarido que o prado estremece: número infindo de heróis desse modo das naus e das tendas para a planície concorre do Xanto de forma que o solo terrivelmente retumba ao passar dos heróis e cavalos.

Nas veigas pois do Escamandro florido eles se acham quais folhas primaveris infinitas e flores que nascem vivazes.

Do mesmo modo que enxames de moscas de número infindo pelos currais dos pastores volteiam sem pausa nenhuma na Primavera no tempo em que os tarros de leite transbordam: cantos guerreiros aquivos de coma flutuante se viam pela planície dos Teucros sedentos de a todos vencerem.

Tal como um hábil pastor facilmente põe ordem nos fatos esparramados de cabras quando estas no prado se mesclam: os comandantes assim os guerreiros cuidosos dispunham para a batalha.

No meio se achava Agamémnon ao grande fulminador semelhante no olhar e feitio do rosto a Ares no talho do cinto e a Posídon no peito fortíssimo.

Bem como o touro de grande manada que a todos os outros bois sobreexcede e após si vai levando reunidas as vacas: tal aparência emprestou nesse dia Zeus grande a Agamémnon para que fosse o primeiro entre tantos heróis excelentes.

Musas que o Olimpo habitais vinde agora sem falhas contar-me pois sois divinas e tudo sabeis; sois a tudo presentes; nós nada vimos; somente da fama tivemos notícia –os nomes sim revelai-me dos chefes supremos dos Dánaos.

Da multidão não direi coisa alguma nem mesmo os seus nomes nem que tivesse dez bocas e dez também línguas tivesse voz incansável e forte e de bronze infrangível o peito se vós ó Musas nascidas de Zeus portador da grande égide não me quisésseis nomear os que os campos de Tróia pisaram.

Dos chefes pois dos navios direi do conjunto das naves.

Vieram trazidos os homens da Beócia por Lito valente Arcesilau Pendeu Protoénor e Clónio fortíssimo de Áulide pétrea habitantes dos campos da Hiria e de Esqueno os de Eteono de montes e selvas de Escono e de Escolo Téspio também Micalesso de vastas campinas e Graia; mais: os que à volta habitavam de Iléssio de Eritras e de Harma;  os moradores ainda de Eleona Peteona Ocaleia de Hila e Medeona cidade de muros de forte estrutura Copas Eutrésis e Tisbe onde pombas adejam ruidosas; de Coroneia os que moram na ervosa Haliarto vieram os de Plateia habitantes bem como os campónios de Glissa; os de Hipotebas ainda cidade de aspecto imponente da sacra Onquesto onde o bosque se encontra do divo Posídon; de Arne também pampinosa chegaram da extensa Mideia Nisa divina e de Antedo postrema lugar fronteiriço: todos armaram cinquenta navios e cada um dos cascos com cento e vinte guerreiros da Beócia se achava pejado.

Os moradores de Orcómenos Mínia e da fértil Asplédone vieram trazidos por Iálmeno e Ascálato filhos de Astíoque na casa de Áctor o filho de Azeu e do deus Ares forte que ao aposento do andar superior conseguiu esgueirar-se onde às ocultas do leito partilha da virgem pudica: esses em trinta navios dispostos em fila embarcaram.

Aos moradores da Fócida Epístroto e Esquédio trouxeram de Ífito filhos magnânimo e netos de Náubolo grande; de Ciparisso também de Pitão região pedregosa  Crisa divina e de Dáulide assim como de Panopeia; vieram também de Anemória os que vivem à volta do Hiâmpole e os que nas margens do divo Cefisso as moradas construíram bem como os que pelas fontes dele ainda em Lilaia habitavam: todos quarenta navios perfazem de casco anegrado.

Os comandantes os homens Focenses cuidosos dispunham ao lado esquerdo dos Beócios que juntos nos prélios entrassem.

O lesto Ájax descendente de Oileu trouxe os Lócrios pugnazes.

De bem menor estatura que o Ájax Telamónio era esse outro; sim bem menor; cobre o corpo franzino com roupa de linho mas os Acaios vencia e os Helenos no jogo da lança.

Os Lócrios pois de Opoenta e Caliaro vieram de Cino de Bessa e Escarfe bem como de Augeia de amena paisagem de Trónio e Tarfe que se acham construídas nas margens do Boágrio: esses quarenta navios de casco anegrado perfazem; vieram das terras que se acham além da ilha sacra de Eubeia.

Os corajosos Abantes chegaram guerreiros de Eubeia Cálcide Erétria e Istieia onde as uvas são sempre abundantes Dio rochosa e Cerinto que à beira do mar foi construída; vieram também de Caristo os guerreiros os homens de Estira  por Elefénor mandados guerreiro que de Ares descende o Calcodóncio valente que rege os guerreiros Abantes sim os Abantes que deixam crescer os cabelos na nuca todos armados de lanças de freixos vibrando sedentos de atravessar a couraça que o corpo do imigo protege: esses quarenta navios de casco anegrado perfazem.

Vieram também os guerreiros de Atenas cidade bem feita gente do herói Erecteu de alma grande nascido da terra e por Atena educado a donzela do pai poderoso no próprio templo magnífico dentro dos muros de Atenas onde anualmente nas festas os moços nativos procuram com sacrifícios de bois e de ovelhas torná-lo propício.

Por Menesteu de Peteu descendente eram todos mandados.

Homem nenhum sobre a terra arrumar tal como ele sabia os combatentes de carro e os que lutam armados de escudo com excepção de Nestor por ser muito mais velho do que ele: esses cinquenta navios de casco anegrado perfazem.

De Salamina Ájax trouxe também doze naves simétricas indo postá-las a par com as falanges dos homens de Atenas.

De Argos os homens heróis de Tirinto por muros cingida  os moradores de Hermíone e Asina no golfo profundo os de Trezena os de Eione e Epidauro abundosa em vinhedos bem como os moços acaios guerreiros de Egina e Maseta por Diomedes vieram trazidos de voz poderosa e por Esténelo o filho do herói Capaneu valoroso.

Como terceiro guiava-os Euríalo qual um dos deuses que descendia do rei Mecisteu o viril Talaiónida.

Era porém de Diomedes o forte o comando supremo: esses oitenta navios de casco anegrado perfazem.

Os moradores também de Micenas de bela feitura os da opulenta Corinto os de Cleona de casas bem feitas os que lavravam de Ornias a terra os da bela Aretira e os de Sicíone amena onde Adrasto reinou a princípio os de Hiperésia bem como os heróis de Gonoessa altanada os de Pelene habitantes os de Egio também moradores e finalmente os de Egíalo e os da zona extensíssima de Hélice em cem navios chegaram trazidos pelo alto Agamémnon.

O contingente melhor esses formam em número e brio.

Cheio de orgulho no meio das tropas o bronze ardoroso ele envergava entre os fortes guerreiros o mais distinguido  por nobilíssimo ser e haver gente infinita trazido.

Os que moravam no vale escavado de Lacedemónia dentro de Esparta de Fáride e Messa cidade de pombas; os habitantes também de Brisias e Augias amena e os que em Amicla demoram e em Helo cidade marítima bem como os homens de Etilo e os que os muros de Laia habitavam trá-los o irmão de Agamémnon o herói Menelau de voz forte dentro de naves sessenta; a departe eles todos se armavam.

No próprio ardor confiado as fileiras o chefe percorre a estimulá-los.

Pedia-lhe o peito ardoroso vingar-se dos sofrimentos passados por causa do rapto de Helena.

Vieram de Pilos os guerreiros bem como os de Arena agradável os de Épi bem construída e os de Trio onde o Alfeu dá passagem os de Anfigénia habitantes e os homens de Ciparessenta os de Pteleu de Elo forte e os de Dório onde vieram as Musas o Trácio vate Tamíris buscar e o privaram do canto quando da casa voltava do alto Êurito nado na Ecália.

Vangloriava-se sim de vencer em compita até mesmo as próprias Musas as filhas de Zeus se com ele cantassem.

Elas por isso indignadas da vista o privaram fazendo  que das canções se esquecesse e também de pulsar o instrumento: pelo Gerénio Nestor domador de cavalos trazidos esses ao todo perfazem noventa navios bojudos.

Os que na Arcádia moravam nas faldas do Monte Cilena perto da campa de Epítio guerreiros de prol todos eles; os de Feneu e de Orcómenos zona em rebanhos mui rica os de Estratia e de Ripa bem como os de Enispa ventosa de Mantineia formosa os guerreiros da fértil Tegeia os moradores de Estíntalo e quantos Parrásio habitavam sob o comando do filho de Anceu Agapénor chegaram em naus sessenta.

Pejadas se achavam de ousados guerreiros homens da Arcádia eles todos famosos no ofício da guerra.

O poderoso Agamémnon chefe de heróis lhes cedera naus resistentes que por sobre o mar cor de vinho trouxessem pois ignoravam de todo os problemas das lidas marinhas.

Os de Buprásio os guerreiros que na Élide sacra habitavam desde a cidade de Hirmine até à sede postrema de Mírsino que a pétrea Olénia limita bem como a cidade de Alísio com quatro chefes chegaram.

Cada um conduzia dez naves de veloz curso equipadas com muitos Epeios famosos.

Uns o comando recebem de Anfímaco e Tálpio; este filho de Êurito o grande; de Ctéato aquele; ambos de Áctor nasceram.

Diores o filho do forte Amarinco outro grupo comanda.

O quarto alfim traz Políxeno o herói de presença divina filho de Agástenes rei que de Augeias possante descende.

Os de Dulíquio habitantes e os homens das sacras Equínades ilhas que se acham mui longe no mar defrontando com a Élide vêm por Megete mandados no porte semelho a Ares forte que de Fileu picador descendia querido dos deuses o qual brigado com o pai em Dulíquio assentou o palácio: esses perfazem quarenta navios de casco anegrado.

Os Cefalénios magnânimos traz Odisseu astucioso de Ítaca os homens também e os de Nérito monte frondoso de Crocileia os guerreiros bem como os da pétrea Egilipe os de Zacinto habitantes de Samos e de seus arredores do continente e os que pastos possuem na terra fronteira: trá-los o divo Odisseu no saber só a Zeus comparável: doze navios de casco vermelho ao seu mando obedecem.

Toante de Andrémon filho os guerreiros da Etólia comanda que nas cidades moravam de Oleno Pilene e Pleurona  em Calidona fragosa e onde Cálcide as ondas reflectem.

Visto já terem morrido os dois filhos de Eneu de alma grande e o próprio Eneu como o louro Meleagro no Hades se acharem fora-lhe dado o comando de todos os homens da Etólia: esses perfazem quarenta navios de casco anegrado.

Idomeneu de hasta invicta nos homens de Creta imperava que demoravam em Cnossos e em Gortina cingida por muros Licto Mileto e Licasto de solo calcário brilhante em Rítio e Festo também ambas elas de aspecto magnífico e outras das cem provocações que pela Ilha de Creta se encontram.

Idomeneu de hasta invicta o comando sobre estes exerce como Meríones forte igual a Ares Eniálio homicida: esses oitenta navios de negro costado esquipavam.

O valoroso e membrudo Tlepólemo de Héracles filho nove navios comanda pejados de Ródios pugnazes.

Rodes era a ilha de origem em três povoações dividida: Lindo uma delas; Ialiso e a terceira Camiro fulgente.

Nestes o mando exercia Tlepólemo de hasta invencível filho da bela Astioqueia que de Héracles forte o gerara que a trouxe de Étira sita na margem do Rio Seleente  quando destruiu numerosas cidades de heróis distinguidos.

Após ter crescido Tlepólemo dentro da casa bem feita a morte ao tio materno do pai a Licímnio deu ele que já alcançara a velhice e era de Ares aluno preclaro.

Sem perder tempo esquipou várias naus reuniu muita gente para desta arte escapar que o ameaçavam os filhos e netos de Héracles forte de peito leonino se acaso o encontrassem.

Após trabalhosa viagem consegue chegar até Rodes.

Três povoações fundou logo segundo as famílias benquistas todas de Zeus que dos deuses o império detém e dos homens.

Fez-lhes chover abundantes riquezas o filho de Cronos.

Trouxe Nireu da cidade de Sime três naves simétricas.

De ser nascido de Aglaia Nireu se orgulhava e de Cáropo.

Era Nireu o mais belo debaixo dos muros de Tróia entre os do exército Acaio se excluirmos o grande Pelida; mas era imbele; bem poucos heróis perfaziam-lhe o séquito.

Os de Nisiro habitantes de Crápato e Caso bem como os da cidade de Eurípilo Cós da ilha bela Calidna vieram trazidos por Ântifo e Fídipo filhos de Téssalo rei poderoso e valente que de Héracles forte nascera:  esses em trinta navios dispostos em fila embarcaram.

Ora menção seja feita dos de Argos Pelasga habitantes dos do Alo e Alope de Ftia e de quantos Trequina cultivam bem como os da Hélade célebre pelas mulheres formosas como Mirmídones todos nomeados Helenos e Aquivos: desses cinquenta navios Aquileu herói conduzira.

Mas deslembrados agora se achavam dos prélios horríssonos pois careciam de chefe que a todos guiasse às batalhas.

O divo Aquileu de céleres pés junto às naves estava a suspirar pela filha de Brises de belas madeixas que de Lirnesso com grande trabalho trouxera cativa quando a cidade destruiu e as muralhas altivas de Tebas e de Minete e de Epístrofo a doce existência tirara filhos de Evénor o rei por Selépio famoso gerado.

Ela o tomara inactivo mas breve haveria de alçar-se.

Os moradores de Fílace e Píraso terra de flores sacra a Deméter de Itone que nutre rebanhos de ovelhas os da marítima Antrona e os de Ptéleo de prados vistosos Protesilau quando vivo o notável herói comandava.

A terra negra porém já acolhera em seu seio o guerreiro.

Ambas as faces em Fílace a esposa a arranhar deixou ele e inacabado o palácio; matou-o um guerreiro dardânio quando saltou do navio muito antes dos outros Acaios.

Ainda que o chefe chorassem sem guia os heróis não se achavam pois instrução de Podarces lhes vinha discípulo de Ares de Íficlo filho nascido de Fílaco chefe opulento que era legítimo irmão do magnânimo Protesilau mas bem mais moço; nascido primeiro e mais forte era aquele Protesilau grande herói! Entretanto sem chefe os seus homens não se encontravam; sua grande virtude contudo choravam.

Esses perfazem quarenta navios de casco anegrado.

Os moradores de Feras ao lado do lago de Bébide os da cidade bem feita de Iaolco de Glafira e Beba em onze naus com Eumelo nascido de Admeto chegaram.

Fora sua mãe a divina entre todas as jovens Alceste a mais formosa de quantas nasceram de Polias guerreiro.

Os que lavravam Metone bem como os heróis de Taumácia de Melibeia também e Olizona de chão pedregoso por Filoctetes trazidos chegaram archeiro famoso em sete naves contendo cada uma cinquenta remeiros  todos dotados de força e habituados ao tiro com o arco.

Ele entretanto ficara a sofrer indizíveis tormentos na Ilha de Lemnos divina onde o haviam deixado os Acaios vítima de úlcera feita por dente de serpe nociva.

Lá se encontrava a gemer; mas em breve ao redor de seus barcos de Filoctetes haviam lembrar-se os Aquivos guerreiros.

Ainda que o chefe chorassem sem guia os heróis não se achavam pois de Medonte bastardo de Oileu instrução recebiam devastador de cidades que o teve de Rena formosa.

Os moradores de Trica e de Itome de vários andares e os da cidade de Ecália onde o mando exercia o grande Êurito sob o comando dos filhos de Asclépio vieram Macáon e Podalírio ambos médicos e ambos também já famosos: esses em trinta navios dispostos em fila embarcaram.

Os da cidade de Orménia bem como os da fonte Hipereia e os moradores de Astéria e os do cimo do branco Titânio trá-los Eurípilo o filho preclaro de Evémone excelso: esses perfazem quarenta navios de casco anegrado.

Os moradores de Argissa e os guerreiros também de Girtone bem como os de Orta e de Elone e os da branca cidade Oloossona  sob o comando do herói Polipetes intrépido vieram filho do grande Pirítoo de Zeus imortal descendente.

Fora nascido realmente da bela e gentil Hipodamia no mesmo dia em que o pai castigara os hirsutos Centauros.

Longe do Pélio os tocou para o meio dos povos Etícios.

Compartilhava do mando Leonteu o discípulo de Ares neto de Cene magnânimo e filho do grande Corono: esses perfazem quarenta navios de casco anegrado.

Em vinte e dois barcos veio Guneu da cidade de Cito com os Eniénios guerreiros e heróis destemidos Perebos; junto a Dodona moravam região de muito áspero Inverno; os que morada assentaram nos campos amenos do rio de Titareso que ao claro Peneu vai levar suas águas sem que no entanto se mesclem no curso argentino desse último; sim sobrenadam naquele tal como se de óleo elas fossem pois são do Estige um dos braços o rio da jura terrível.

Prótoo conduz os Magnetas o filho do forte Tentrédone que ao derredor do Peneio e do Pélio frondoso moravam.

Esses ao mando de Prótoo obedecem o herói velocíssimo: todos quarenta navios de casco anegrado perfazem.

Os condutores dos Dánaos os chefes supremos são esses.

Musa revela-me agora qual era o melhor dos guerreiros que com o Atrida vieram bem como os mais fortes cavalos.

Entre os corcéis distinguiam-se as éguas de Eumelo de Feras filho de Admeto velozes tal como se pássaros fossem.

Eram de igual pêlo as duas bem como do mesmo tamanho.

Por Febo Apolo o frecheiro que vibra o arco argênteo elas ambas foram criadas; consigo o terror das batalhas levavam.

Entre os guerreiros Ájax Telamónio era o mais distinguido enquanto Aquileu esteve afastado o mais forte de todos e possuidor dos melhores cavalos; em tudo primava.

Mas esse agora se achava nas naves recurvas e céleres estomagado com o chefe de heróis o possante Agamémnon filho de Atreu.

Junto à praia do mar sonoroso seus homens se divertiam no jogo dos discos de frechas e lanças.

Junto dos carros de guerra se achavam também os cavalos que aipo palustre inactivos pastavam e o loto gostoso.

Dentro das tendas cobertos se achavam os carros enquanto  os heróis todos sentidos com a ausência do chefe aguerrido desorientados vagavam mas sem combater pelo campo.

Os outros Dánaos avançam qual fogo que o solo abrasasse.

Tal como a Terra que geme ao mostrar-se agastado Zeus grande que com os raios se apraz quando em torno a Tifeu a vergasta entre os Arimos local onde se acha Tifeu é o que dizem: do mesmo modo estrondava com o peso dos pés o chão todo quando os heróis avançavam cortando ligeiros o campo.

Íris de pés mais velozes que o vento de Zeus por mandado que a égide vibra aos Troianos baixou com uma triste notícia.

Esses em frente ao palácio de Príamo estavam reunidos em assembleia eles todos os moços e os velhos da terra.

Íris de rápidos pés aproxima-se deles e fala tendo imitado as feições de Polites nascido de Príamo que era o atalaia dos Teucros.

Confiado nos pés ligeiríssimos no alto do túmulo vinha postar-se do velho Esietes sempre a espreitar o momento em que os Dánaos das naus se moviam.

Íris de rápidos pés sob a forma aludida lhes fala: “Como se em paz estivéssemos velho te agradam discursos intermináveis; a guerra no entanto nos calca impiedosa.

Certo em muitíssimas pugnas achado me tenho presente mas tais e tantos guerreiros como esses jamais tenho visto.

Mais semelhantes à areia do mar ou às folhas das matas movem-se todos no plaino visando atacar nossos muros.

Por isso Héctor recomendo-te agora que faças desta arte: Muitos aliados se encontram na grande cidade de Príamo de diferentes países e línguas de vária estrutura.

Que cada grupo receba instruções de seus guias nativos que hão-de saber coordená-los e à guerra depois conduzi-los.”

Reconheceu logo Héctor que provinha dum deus o conselho; fez dissolver a assembleia; os guerreiros às armas correram; abrem-se todas as portas por que se franqueasse a saída aos combatentes de pé e aos de carro; era imenso o estrupido.

Há na planície uma excelsa coluna fronteira à cidade completamente isolada e visível de todos os lados denominada Batieia por todos os homens terrenos mas pelos deuses eternos o túmulo da ágil Mirina.

Lá se puseram em ordem os Teucros e seus aliados.

Sobre os Troianos Héctor comandava o herói de elmo ondulante filho de Príamo.

Muitos guerreiros dos mais distinguidos com ele as armas empunham de a pugna encetar desejosos.

Sobre os Dardânios o mando exercia o nascido de Anquises  e da divina Afrodite o guerreiro notável Eneias após haver no Ida selvoso a um mortal uma deusa se unido.

Mas de Antenor os dois filhos do mando também compartiam ambos prudentes varões Acamante e o notável Arquéloco.

Os de Zeleia habitantes da falda contérmina do Ida gente opulenta que as águas escuras do Esepo bebiam sob o comando se achavam de Pândaro o filho notável do alto Licáon o mesmo a quem Febo o arco dera em lembrança.

Os habitantes dos muros de Adresta os do povo de Apeso os de Pitieia e os que moram no monte escarpado de Teria ordens cumpriam de Adrasto e de Antião de couraça de linho ambos de Mérope filhos o herói de Percote o mais sábio dos adivinhos.

Opôs-se em verdade a que os filhos partissem para a campanha sangrenta; contudo nenhum quis ouvir-lhe os bons conselhos que à lívida Morte o Destino os levava.

Os de Percote e os que as margens do Práctio cuidosos lavravam os moradores de Sesto e de Abido os da Arisba divina vieram por Ásio trazidos o Hirtácida chefe eminente de Hírtaco o filho notável que veio de Arisba em carruagem desde o Seleente revolto puxado por fulvos ginetes.

Os valorosos lanceiros pelasgos Hipótoo comanda esses que as casas construíram nos campos da fértil Larissa.

Compartilhava do mando Pileu de Ares forte discípulo filho também do Teutâmida Leto Pelasgo valente.

Píroo e Acamante valentes conduzem os homens da Trácia quantos guerreiros demoram nas margens do estuoso Helesponto.

Os heróis Cíconos fortes Eufemo galhardo chefia que de Trezeno provinha a Zeus caro nascido de Ceas.

Trouxe de longe de Amídone Piracme os Peónios belazes de arcos recurvo que no Áxio demoram de curso imponente o Áxio o mais belo dos rios que ufanos se alargam na terra.

Os Paflagónios Pilémenes trouxe de peito veloso Énetos sim da região onde mulas selvagens se criam.

Esses moravam em Cítoro os campos lavravam de Sésamo e do Parténio nas várzeas magníficas casas construíram em Crómnia e Egilo e na celsa Eritina de solo vermelho.

Os Halizónios Epístrofo e Odio de longe conduzem lá da cidade de Alibe onde prata em jazidas se encontra.

Os Mísios vieram trazidos por Crómis e o arúspice Enomo cujo saber não o livrou de ser presa da lívida Morte;  vítima foi do Pelida de pés velocíssimos quando no próprio rio privou da existência a outros muitos Troianos.

Fórcis e Ascânio divino trouxeram da Ascânia longínqua Frígios guerreiros que só desejavam entrar em combate.

Ântifo e Mestle guerreiros o mando dos Meónios dividem.

De Talamenes provinham bem como da ninfa Gigeia.

Esses os chefes dos Meónios oriundos da falda do Tmolo.

Nastes os Canos comanda guerreiros de bárbara língua homens de Ftiro e Mileto região montanhosa e de matas; os da corrente do Meandro e os dos picos do Monte Micale  sob o comando chegaram de Anfímaco e Nastes guerreiros Nastes e Antímaco os filhos preclaros do grande Nomíone.

Veio o primeiro com ouro bastante qual moça enfeitada.

Tolo! De nada serviu para à Morte o livrar dolorosa o ouro que vítima foi finalmente do Eácida quando no próprio rio o alcançou.

Toma as jóias Aquileu prudente.

Os Lícios Glauco sem par e Sarpédon exímio conduzem da terra Lícia longínqua das margens do Xanto revolto.


 

CANÇÃO III

Logo que todos os homens e os chefes em ordem ficaram põem-se em marcha os Troianos com grita atroante quais pássaros do mesmo modo que a bulha dos grous ao Céu alto se eleva no tempo em que por fugirem do Inverno e da chuva incessante voam com grita estridente por cima do curso do oceano à geração dos Pigmeus conduzindo o extermínio e a desgraça para mal surja a manhã a batalha funesta iniciarem.

Silenciosos furor respirando os Aquivos avançam no coração desejosos de auxílio uns aos outros prestarem.

Tal como névoa que Noto nos cumes dos montes ajunta pouco ao pastor agradável sim grata ao ladrão mais que a noite por não poder nada ver-se à distância dum tiro de pedra: sob as passadas desta arte a poeira do solo se erguia quando os heróis avançavam cortando ligeiros o campo.

Quando os dois corpos do exército perto se acharam um do outro adiantou-se das forças troianas o divo Aléxandros com arco e espada nos ombros a pele dum grande leopardo e duas lanças na mão revestidas de ponta de bronze desafiando desta arte os melhores guerreiros acaios  a que com ele se viessem medir em duelo terrível.

Logo que o viu Menelau o guerreiro discípulo de Ares como avançava com passo arrogante na frente do exército muito exultante ficou como leão esfaimado que encontra um cervo morto de pontas em galho ou uma cabra selvagem; avidamente o devora ainda mesmo que cães mui ligeiros lhe venham vindo no encalço e pastores de aspecto robusto: dessa maneira exultou Menelau quando Páris o belo teve ante os olhos pensando que iria por fim castigá-lo.

Rapidamente do carro pulou sem que as armas soltasse.

Quando o formoso Aléxandros que um deus imortal parecia o viu à frente dos outros sentiu conturbar-se-lhe o peito e para o meio dos seus recuou escapando da Morte.

Como se dá quando alguém nos convales dos montes estaca em frente duma serpente a tremerem-lhe as pernas e os joelhos e retrocede dum salto com o rosto sem cor todo medo: por esse modo afundou para o meio dos Teucros valentes Páris o divo Aléxandros do filho de Atreu temeroso.

Foi por Héctor percebido porém que de insultos o cobre: “Páris funesto de belas feições sedutor de mulheres!  Bem melhor fora se nunca tivesses nascido ou se a Morte antes das núpcias te houvesse levado.

Mais lucro tivéramos  do que nos seres opróbrio e de escárnio servires aos outros.

Riem-se à grande os Aquivos de soltos cabelos nos ombros.

Um dos primeiros julgavam que fosses por seres de físico tão primoroso; no entanto careces de força e coragem.

Como é possível que sendo qual és em navios velozes o mar houvesses cruzado reunido prestantes consócios e a gente estranha chegado da qual a raptar te atreveste uma formosa mulher peregrina cunhada de príncipes para desgraça de teu próprio pai da cidade e do povo mofa tornando-te assim dos imigos que exultam com isso? Não te atreveste a enfrentar Menelau de Ares forte discípulo? Fora a ocasião de saberes de quem a mulher seduziste.

Esses cabelos a cítara os dons de Afrodite a beleza não te valeram de nada ao te vires lançado na poeira.

Se tão medrosos não fossem os Teucros há muito vestiras uma camisa de pedras por quantas desgraças causaste.”

Páris de formas divinas lhe disse em resposta o seguinte: “É justo Héctor o que dizes; contrário à razão não discorres.

Teu coração é tão duro quanto o aço; semelha ao machado que manejado pelo homem lhe aumenta o poder e no tronco mui facilmente penetra talhando-o para o uso das naves.

Resolução tão intrépida encerras assim no imo peito.

Não me censures por causa dos mimos da loura Afrodite pois desprezíveis não são os presentes valiosos que os deuses de seu bom grado concedem; que à força ninguém os alcança.

Mas uma vez que desejas que vá combater novamente faz que todos os homens de Tróia e os Acaios se sentem para que possa no meio do campo lutar com o aluno de Ares o herói Menelau por Helena e suas muitas riquezas.

O que provar que é o mais forte vencendo o adversário na luta leve consigo os tesouros e a casa conduza a consorte.

Vós entretanto jurada a amizade na Tróade fértil continuareis; os demais para a Acaia de belas mulheres retornarão ou para Argos de solo de pingues pastagens.”

Grande alegria ao ouvir tais palavras Héctor manifesta; e começando a correr com a lança segura no meio manda que os Teucros parassem os quais prontamente obedecem.

Mas os Aquivos de soltos cabelos nos ombros sem pausa  pedras contra ele atiravam e setas dos arcos recurvos até que o potente Agamémnon a todos desta arte gritasse: “Homens da Acaia parai! Resistentes Argivos detende-vos! Que se dispõe a falar-nos Héctor de penacho ondulante.”

Isso disse ele; os guerreiros sustaram a acção belicosa e se aquietaram; Héctor avançando para eles falou-lhes: “Ora guerreiros troianos grevados acaios vos digo o que vos manda propor Aléxandros fautor desta guerra:  Pede que todos os homens aqueus e troianos deponham as belas armas na terra nutriz de infinitos guerreiros para que possa no meio do campo lutar com o discípulo de Ares o herói Menelau por Helena e suas muitas riquezas.

O que provar que é o mais forte vencendo o adversário na luta leve consigo os tesouros e a casa conduza a consorte.

Com juramento firmemos nós outros a paz duradoura.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram.

Vira-se então Menelau de voz forte e lhes diz o seguinte: “A mim também atenção concedei porque a dor mais que a todos o coração me angustia.

Concordo que Teucros e Aquivos devem pôr fim à discórdia que muito já tendes sofrido  por minha causa e da ofensa provinda do divo Aléxandros.

Que morra logo o que está pelo negro Destino fadado a perecer; conciliem-se os outros sem mais perder tempo.

Presto um cordeiro trazei para o Sol de cor branca e uma ovelha preta também para a Terra; que a Zeus um terceiro daremos.

A majestade de Príamo desça também para as juras solenizar; que os seus filhos soberbos não são de confiança.

Não venha alguém com perjúrios destruir o que Zeus prometer-nos.

O coração dos mancebos costuma ser sempre volúvel; mas quando um velho intervém o passado e o futuro perscruta para que tudo decorra do modo melhor para todos.”

Isso disse ele; os Aqueus e os Troianos alegres ficaram pela certeza de verem concluída a campanha funesta.

Os carros todos em fila puseram; depois apeando-se e as armaduras despindo de encontro ao chão duro as deixaram umas bem perto das outras que exíguo era o espaço entre todas.

Dois mensageiros Héctor mandou logo à cidade de Tróia para que a Príamo fossem chamar e os cordeiros trouxessem.

Por sua vez o potente Agamémnon incumbe a Taltíbio de outro cordeiro trazer do navio de casco anegrado.

Executado foi logo o mandado do Atrida Agamémnon.

Íris a Helena de braços bonitos foi dar a notícia tendo assumido as feições da cunhada Laódice esposa do grande chefe Helicáone filho do justo Antenor a mais formosa e elegante entre todas as filhas de Príamo.

Foi encontrá-la na sala sentada no tear quando um duplo manto tecia de púrpura.

Nele bordava os combates que os picadores troianos e aqueus de couraça de bronze por sua causa travavam sob o ímpeto de Ares violento.

Aproximando-se-lhe Íris de pés mui velozes lhe fala: “Vem cara filha também contemplar as proezas magníficas dos picadores troianos e aqueus de couraça de bronze.

Eles que até este momento na vasta planície pelo ímpeto de Ares lutuoso cuidavam somente de pugnas lutuosas  ora se encontram calados firmados nos grandes escudos; as lanças se acham no solo espetadas; a guerra está finda.

Somente Páris e o herói Menelau de Ares forte discípulo vão por tua causa lutar de hastas firmes e longas munidos.

Hás-de chamar-te consorte do herói que sair vitorioso.”

Na alma as palavras da deusa infundiram-lhe doce saudade  do seu primeiro marido dos pais e da pátria grandiosa.

Ei-la que o rosto recobre com o nítido véu apressada e a derramar ternas lágrimas sai do aposento luxuoso mas não sozinha que duas criadas ao lado a acompanham: Clímene de olhos de boi e Etra filha do grande Piteu.

Das portas Ceias assim dentro em pouco o local alcançaram.

Junto de Príamo estavam os velhos Timetes e Panto Lampo e assim Clício e Hicetáone de Ares aluno dilecto.

Ucalegonte e Antenor ambos sábios também se encontravam das portas Ceias sentados na torre.

Eles todos por velhos já se encontravam isentos das lutas; contudo primavam pela eloquência eles todos tal como cigarras que o canto claro e agradável pousadas nos ramos das árvores soltam.

Os chefes pois dos Troianos na torre se achavam reunidos.

Ao perceberem Helena que vinha apressada para eles uns para os outros baixinho palavras aladas disseram: “É compreensível que os Teucros e Aquivos de grevas bem feitas por tal mulher tanto tempo suportem tão grandes canseiras! Tem-se realmente a impressão de a uma deusa imortal estar vendo.

Mas ainda assim por mais bela que seja de novo reembarque;  não venha a ser em futuro motivo da ruína dos nossos.”

Isso diziam; mas Príamo a Helena chamou em voz alta: “Vem minha filha; aqui mesmo bem perto de mim vem sentar-te porque o primeiro marido os parentes e amigos revejas.

Não és culpada de nada; os eternos somente têm culpa que nos mandaram a guerra dos fortes Aqueus lacrimosa.

Vem revelar-me quem seja aquele homem de aspecto imponente; como se chama esse Acaio tão belo e de tal corpulência? Outros heróis é evidente mais altos do que ele percebo; mas os meus olhos jamais admiraram tão belo conspecto nem majestade tão grande; assemelha-se é facto a um monarca.”

Disse-lhe Helena a divina mulher em resposta o seguinte: “Sinto por ti caro sogro respeito e vergonha a um só tempo.

Bem melhor fora se a Morte terrível me houvesse levado antes de haver consentido em seguir o teu filho deixando o lar e o esposo minha única filha e as gentis companheiras.

Mas não devia assim ser; essa a causa de todo o meu choro.

Ora te vou responder a respeito do que perguntaste.

Esse é Agamémnon rei poderoso de Atreu descendente tão grande rei chefe de homens quão forte e notável guerreiro.

Foi meu cunhado se o foi algum dia com minha cegueira!” A essas palavras o velho admirado lhe disse em resposta: “Ó venturoso Agamémnon filho dilecto dos deuses que sobre tantos guerreiros acaios o mando exercitas! Já estive certo na Frígia região de vinhedos famosos onde um sem-número vi de nativos heróis cavaleiros homens de Otreu e de Mígdone herói semelhante a um dos deuses que nesse tempo acampavam nas margens do Rio Sangário.

Como aliado tomei também parte com eles na guerra contra as viris Amazonas no dia em que aqui elas vieram.

Mas muito mais numerosos são esses Aqueus de olhos vivos.”

Logo depois a Odisseu divisando pergunta de novo: “Filha querida revela-me agora quem seja aquele outro cuja estatura é menor que a do filho de Atreu Agamémnon; mas é de espaldas mais largas de ver e de peito mais amplo.

As armaduras deitou sobre a terra nutriz de guerreiros.

Como um carneiro percorre as fileiras em vários sentidos.

Eu pelo menos só sei compará-lo a um guieiro veloso quando no meio dum grande rebanho de ovelhas vistosas.”

Disse-lhe Helena nascida de Zeus em resposta o seguinte:  “Esse é Odisseu de Laertes nascido astucioso guerreiro de Ítaca oriundo apesar de ser ilha de chão pedregoso em toda sorte de ardis entendido e varão prudentíssimo.”

O experiente Antenor em resposta lhe disse o seguinte: “Tuas palavras mulher correspondem à estrita verdade.

Embaixador por tua causa uma vez Odisseu já aqui esteve em companhia do herói Menelau de Ares forte discípulo.

Por isso mesmo que os dois hospedei no meu próprio palácio de ambos fiquei conhecendo a figura exterior e o intelecto.

Quando nos nossos conselhos de pé eles dois se mantinham os ombros largos do herói Menelau sobranceiros ficavam; ambos sentados porém Odisseu era mais imponente.

Mas se a falar se dispunham tecendo apropriados discursos com certa pressa exprimia-se o herói Menelau é verdade e por maneira concisa porém num tom claro; conquanto muito mais moço sabia falar sem do intento desviar-se.

Quando porém Odisseu o astucioso assumia a postura para falar vista baixa e olhos fixos no chão pedregoso como indivíduo bisonho que o ceptro na mão mantivesse sempre no mesmo lugar sem movê-lo dum lado para o outro  imaginaras talvez ser pessoa inexperta ou insensata.

Mas se do peito fazia soar a voz forte e agradável e um turbilhão de palavras qual neve no tempo do Inverno com Odisseu ninguém mais suportara qualquer paralelo.

Todos então esquecíamos sua anterior aparência.”

Príamo a Ájax divisando terceira pergunta formula:  “Como se chama esse Acaio tão belo e de tal corpulência de bem maior estatura e de espaldas mais largas que os outros?” Disse-lhe Helena de peplo elegante a divina criatura: “Esse é o baluarte dos homens aquivos Ájax o gigante.

Idomeneu do outro lado diviso qual um dos eternos entre os Cretenses cercado por todos os chefes de Creta.

Mais duma vez Menelau de Ares forte discípulo o teve em nossa casa hospedado ao chegar de viagem de Creta.

Posso também distinguir muitos outros Aqueus de olhos vivos.

Reconhecê-los ser-me-ia mui fácil nomear a eles todos.

Só perceber não consigo os dois chefes insignes de povos o domador de cavalos Castor e o belaz Polideuces o pugilista os meus caros irmãos duma só mãe nascidos.

Ou não vieram da terra saudosa de Lacedemónia  ou para aqui os trouxeram as naves de rápido curso mas resolveram de todo evitar as batalhas dos homens envergonhados da grande desonra que a todos fui causa.”

Eles porém pela Terra que a vida produz incessante já se encontravam cobertos na pátria querida a Lacónia.

Pela cidade os arautos no entanto as ovelhas levavam bem como o vinho jucundo produto da Terra frutífera num odre feito de pele de cabra; Ideu traz a cratera o nobre arauto de Príamo e os cálices de ouro maciço.

Apresentando-se ao velho o apressou com dizer-lhe o seguinte: “Sus Laomedóncio! Levanta-te que os mais notáveis guerreiros dos picadeiros troianos e aqueus de couraça de bronze pedem que desças a fim de firmares os pactos solenes.

Somente Páris e o herói Menelau de Ares forte discípulo vão por Helena lutar de hastas firmes e longas munidos.

O que sair vencedor ficará com a mulher e as riquezas; nós entretanto jurada a amizade na Tróade fértil continuaremos; os mais para a Acaia de belas mulheres retornarão ou para Argos de solo de pingues pastagens.”

Estremeceu ante a nova o bom velho; mas logo deu ordem  aos companheiros que o carro aprontassem no que lhe obedecem.

Príamo sobe primeiro tomando nas mãos logo as rédeas; ao lado dele Antenor assentou-se no carro belíssimo.

Os corredores velozes a vasta planície atravessam.

Quando porém aos guerreiros troianos e aqueus alcançaram da carruagem desceram pisando a alma Terra fecunda sempre a avançar pelo espaço deixado entre Aquivos e Teucros.

Põe-se de pé sem detença Agamémnon rei poderoso e o mui solerte guerreiro Odisseu; os arautos magníficos trazem as vítimas sacras a um ponto; na grande cratera mesclam o vinho deitando depois água às mãos dos monarcas.

O nobre filho de Atreu Agamémnon tira o cutelo  que sempre ao lado da bainha da espada cortante trazia e das ovelhas o pêlo da testa cortou que os arautos distribuíram por todos os nobres Aquinos e Teucros.

No meio deles o Atrida alça as mãos implorando em voz alta: “Zeus pai que no Ida demoras senhor poderoso e supremo; Hélio que tudo divisas e todas as coisas escutas; Rios e Terra também e vós outros ó deuses de baixo que castigais nas moradas subtérreas os homens perjuros;  vós testemunhas nos sede e fiadores dos votos sagrados: Se a Menelau conseguir Aléxandros matar na contenda dono de Helena há-de ser e de todas as suas riquezas enquanto nós cruzaremos de novo nas naves as ondas.

Se o louro Atrida porém da existência privar a Aléxandros presto nos dêem os Troianos Helena assim como as riquezas sobre se verem forçados a multa pagar aos Argivos porque a memória do feito entre as gentes vindouras se estenda.

Se se escusarem porém uma vez Páris morto ou vencido Príamo e os filhos porque não me paguem a multa devida hei-de seguir combatendo visando cobrar essa multa sem nos movermos daqui até vermos o fim da contenda.”

Tendo assim dito com bronze cruel degolou as ovelhas que sobre a Terra feraz colocou nos arrancos agónicos todas da vida privadas que o bronze o vigor dissolvera.

O vinho logo depois da cratera nos copos deitaram e suplicaram aos deuses eternos e beatos do Olimpo.

Os Teucros todos e os homens acaios desta arte imploraram: “Zeus gloriosíssimo e forte e vós outros ó deuses eternos! que se derramem tal como este vinho no chão os miolos  de quantos quebrem as juras solenes firmadas nesta hora e os de seus filhos ficando as mulheres escravas de estranhos.”

Isso diziam; mas Zeus não lhes quis atender o pedido.

Príamo o neto de Dárdano aos outros então se dirige: “Ora guerreiros troianos grevados acaios ouvi-me! Vou retornar para Tróia a cidade varrida por ventos por me faltar a coragem de ver com meus olhos a luta que com o herói Menelau vai travar meu querido Aléxandros.

Zeus porventura já sabe e os mais deuses eternos e beatos a qual dos dois o Destino reserva ser presa da Morte.”

Com majestade divina no carro as ovelhas coloca Príamo e sobe primeiro tomando nas mãos logo as rédeas; ao lado dele Antenor assentou-se no carro belíssimo.

Rapidamente voltaram para Ílion batida por ventos.

O nobre filho de Príamo Héctor e Odisseu astucioso primeiramente o terreno mediram; depois agitaram o elmo de bronze no qual duas marcas haviam deposto para que a sorte apontasse o primeiro a atirar a aénea lança.

Súplices todos imploram aos deuses as mãos elevando.

Os Aqueus todos e os homens troianos desta arte imploravam:  “Zeus pai que no Ida demoras senhor poderoso e supremo! faz que venha a encontrar o fim triste e para o Hades afunde o causador desta guerra que veio por sobre nós todos.

Mas alcançada a concórdia os demais amizade juremos.”

Isso diziam; Héctor entrementes as sortes agita no elmo com o rosto virado; saltou a marcada por Páris.

Todos então sem quebrar as fileiras no chão se assentaram onde os cavalos briosos se achavam e as armas lavradas.

O divo Páris marido de Helena de belos cabelos em torno aos membros ajusta a armadura de fino trabalho: as caneleiras primeiro lavradas nas pernas ataca belas de ver por fivelas de prata maciça ajustadas; em torno ao peito coloca depois a couraça magnífica que a seu irmão pertencia Licáone e bem se lhe ajusta; lança nos ombros a espada de bronze com cravos de prata e um grande escudo sobraça maciço e de largos contornos: o elmo de fino lavor na cabeça admirável coloca no qual por modo terrível penacho de crina ondulava; toma por fim duma lança bem forte de fácil manejo.

Do mesmo modo se armou Menelau de Ares forte discípulo.

Quando os aprestos concluíram cada um no seu campo avançaram pelo terreno deixado entre os homens aqueus e os troianos ambos com aspecto terrível; o espanto se apossa de todos dos picadores troianos e aquivos de grevas bem feitas.

Precisamente no meio da liça eles dois se encontraram as lanças ambos brandindo sem que o ódio ocultar conseguissem.

Páris primeiro jogou sua lança de sombra comprida a qual no escudo redondo do filho de Atreu foi dobrar-se sem que o metal o rompesse contudo que a ponta se amolga na resistência do escudo.

Atirou Menelau em seguida a sua lança também dirigindo a Zeus grande uma súplica: “Dá-me Zeus pai que consiga castigo infligir a Aléxandros causa de minha desonra! Que sob meus golpes sucumba para de exemplo servir aos vindouros que horror manifestem de retribuir com vilezas a lhana e amistosa hospedagem.”

Joga ao dizer esta súplica a lança de sombra comprida que foi bater bem no escudo redondo do filho de Príamo.

A arma terrível o escudo de aspecto brilhante atravessa indo encravar-se na cota de bela e variada textura e atravessando também junto ao flanco a preciosa camisa.

Páris entanto encurvou-se escapando da lívida Morte.

O nobre filho de Atreu sacou logo da espada e elevando-se na crista do elmo tremenda pancada atirou; mas a espada veio ali mesmo fazer-se pedaços das mãos lhe escapando.

O louro herói Menelau para o céu volta os olhos e exclama: “Zeus pai nenhum dos eternos te pode vencer em crueldade pois esperava realmente vingar-me da injúria de Páris! Mas em vez disso quebrou-se-me a espada nas mãos e frustrânea foi minha lança atirada sem ter o alvo certo atingido.”

Tendo isso dito dum salto o elmo ornado de crina segura e para os homens aquivos procura arrastar Aléxandros.

O delicado pescoço apertado ficou pela tira que por debaixo da barba servia de freio para o elmo.

E porventura o arrastara colhendo com isso alta glória se o não tivesse Afrodite a donzela de Zeus percebido que fez romper-se a correia tirada dum boi morto à força.

O elmo vazio as mãos fortes do herói tão-somente acompanha que o fez rolar para o meio dos homens aquivos ornados de belas grevas; os fidos consórcios depressa o acolheram.

Dá Menelau novo salto disposto a matar o inimigo  com a lança brônzea; porém Afrodite dali –era deusa– mui facilmente o afastou.

Em espessa neblina envolvendo-o foi colocá-lo no tálamo odoro e de enfeites ornado.

Passa a chamar logo a Helena.

Encontrou-a realmente num quarto da torre excelsa rodeada por muitas mulheres troianas.

Toca-lhe então levemente nas vestes de essência divina tendo assumido a feição exterior duma velha encurvada que lã sabia cardar e que muitos trabalhos para ela quando em Esparta fizera entre todas as mais distinguida.

Tendo essa forma assumido Afrodite lhe disse o seguinte: “Vem cara filha comigo que Páris chamar-te mandou-me.

Ele te espera no quarto onde se acha no leito torneado belo de ver irradiante e vestido a primor; não disseras que dum combate saiu senão que ora cuidoso se apresta para ir dançar ou que lasso do baile ao repouso se entrega.”

Essas palavras revolta no peito de Helena espertaram.

Reconheceu logo a deusa com ver-lhe o pescoço belíssimo os seios ricos de encantos e os olhos inquietos e vivos.

Fica tomada de espanto; depois a increpou deste modo: “Falsa por que procurar iludir-me com tantos embustes?  Naturalmente com o fim de poderes mais longe levar-me a bem construída cidade da Frígia ou da Meónia formosa onde dilecto mortal destituído de senso escolheste.

Por isso mesmo que o herói Menelau derrotou em combate ao divo Páris e quer para a casa fatal conduzir-me vieste até aqui meditando iludir-me com novas insídias? Vai tu sozinha e a seu lado te assenta; dos deuses te afasta; não voltes mais a pisar o caminho altanado do Olimpo mas permanece ao seu lado sofrendo e cuidando só dele até que por fim como esposa te aceite ou talvez como escrava.

Não voltarei para o tálamo pois vergonhoso seria participar-lhe do leito; as Troianas sem dúvida haviam de murmurar; já sobejam as dores que na alma suporto.”

Cheia de cólera a deusa Afrodite lhe disse em resposta: “Não me provoques criatura infeliz porque não aconteça que te abandone e te venha a odiar quanto agora te prezo.

Se entre os Acaios e Teucros fizesse surgir ódio infausto contra tu própria haverias de ter um destino bem triste.”

Cheia de medo ficou a nascida de Zeus poderoso e sem dizer mais palavra se foi no véu branco envolvida  sem que as Troianas a vissem; servia de guia o demónio.

Logo que o belo palácio do divo Aléxandros alcançaram para os trabalhos usuais retomaram depressa as criadas enquanto Helena a divina ingressava no esplêndido tálamo.

Uma cadeira Afrodite dos risos amante lhe trouxe indo depô-la defronte de Páris o divo Aléxandros.

Senta-se Helena a nascida de Zeus sem olhar para o lado onde o marido se achava.

Começa exprobrando-o desta arte: “Como voltaste da guerra? Prouvera que a Morte encontrasses sob as mãos fortes do herói valoroso que foi meu marido.

Antes da guerra gabavas-te sim de que tinhas mais força que Menelau mais arrojo e destreza no jogo da lança.

Vai provocar então logo o discípulo de Ares potente para outra vez vos medirdes em duelo.

Aliás aconselho-te a que não faças tamanha tolice pensando que podes com o louro herói Menelau contender numa luta corpórea que em pouco tempo sua lança potente há-de ao solo prostrar-te.”

O divo Páris então lhe retruca as seguintes palavras: “Não me acabrunhes o peito mulher com teus ditos sarcásticos.

Por esta vez Menelau me venceu com o auxílio de Atena  mas amanhã serei eu o vencedor que outros deuses nos prezam.

Ora concordes gozemos do amor as carícias no leito pois nunca tive os sentidos tomados por tanta ebriedade nem mesmo quando em navios velozes te trouxe da pátria Lacedemónia querida no tempo em que foste raptada e de numa ilha rochosa o primeiro conúbio gozarmos.

Hoje mais doce paixão por tua causa de mim se apodera.”

Tendo isso dito subiu para o leito; seguiu-o a consorte.

Enquanto os dois no belíssimo leito do sono fruíam o louro filho de Atreu Menelau percorria as fileiras como uma fera à procura de Páris de formas divinas.

Mas nem os Teucros nem mesmo seus fidos aliados podiam ao grande herói Menelau indicar onde estava Aléxandros que se o tivesse enxergado nenhum por amor o ocultara pois como a lívida Morte era odiado realmente por todos.

O nobre Atrida Agamémnon então se expressou deste modo:  “Teucros Dardânios e aliados agora atenção concedei-me! É incontestável que coube ao herói Menelau a vitória.

Cumpre-vos Teucros por isso entregar-nos Helena e os tesouros acrescentados de multa vultosa que ao caso convenha  porque a memória do feito entre as gentes vindouras se estenda.”

Isso disse ele; os guerreiros acaios em peso o aplaudiram.


 

CANÇÃO IV

Junto de Zeus entretanto se achavam reunidos os deuses no soalho de ouro sentados.

De néctar enchia Hebe augusta os copos de ouro maciço que todos recebem trocando brindes corteses enquanto a cidade de Tróia admiravam.

A Hera de súbito o filho potente de Cronos provoca com frase irónica que pronunciou sem para ela virar-se: “Ao louro filho de Atreu Menelau duas deusas amparam: Hera que em Argos cultuam e Atena a auxiliar poderosa.

Ambas no entanto a departe ficaram prazer encontrando só no espectáculo da luta.

A Aléxandros a risonha Afrodite não abandona jamais protegendo-o da lívida Morte tal como o fez nesse instante ao julgar-se ele próprio perdido.

Mas é evidente que o herói Menelau alcançou a vitória.

Ora é mister reflectir de que modo fazer precisamos: se novamente devemos a guerra e as contendas funestas encarniçar ou se é bem que a amizade entre os povos impere.

Caso aceitemos esse último alvitre por justo e exequível bem continue povoada a cidade elevada de Príamo e volte Helena ao poder do discípulo de Ares potente.”

A essas palavras as deusas morderam os lábios com força.

Juntas se achavam planeando a extinção dos guerreiros troianos! Palas Atena calada ficou sem dizer coisa alguma ainda que contra Zeus pai transbordasse de raiva selvagem.

Hera porém explodiu sem conter o rancor no imo peito: “Zeus prepotente nascido de Cronos que coisa disseste? Vãs por acaso desejas que fiquem sem fruto de todo minhas fadigas e o suor derramado? Estafei meus cavalos para reunir muitos povos que a Príamo e os filhos punissem.

Seja se o queres; conquanto nós outras jamais te aprovemos.”

Disse-lhe Zeus indignado que as nuvens no Olimpo cumula: “Deusa implacável que ofensa tão grave de Príamo e os filhos te compungiu para assim te afanares com tanta insistência em destruir a cidade de Tróia de bela feitura? Se conseguisses entrar a cidade potente e suas portas e vivo Príamo e os filhos e os outros Troianos comesses provavelmente acalmaras a fúria que o peito te abrasa.

Faz conforme o desejas; não seja esta rixa motivo de originar-se entre nós em futuro discórdia insanável.

Ora outra coisa te quero dizer; guarda-a bem no imo peito:  Caso me ocorra o desejo em qualquer ocasião de algum burgo vir a destruir habitado por homens que a ti sejam caros  deixa-me agir livremente; não quero que venhas obstar-me que esta consinto destruas bem contra o que eu próprio quisera.

Entre as cidades que os homens nascidos da terra construíram sob a luz viva do Sol e as estrelas do Céu refulgentes nenhuma tanto prezava como Ílion de muros sagrados bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.

Em meus altares jamais sacrifícios condignos faltaram nem libações nem perfumes as honras em suma devidas.”

Hera a magnífica de olhos bovinos lhe disse em resposta: “Três predilectas cidades meu peito realmente distingue: Argos Esparta e Micenas construída com ruas muito amplas.

Todas destrói quando odiosas enfim para ti se tornarem que não pretendo a isso opor-me ou pedir-te sequer que o não faças.

Pois se realmente tentasse evitar que destruídas ficassem nada obteria pois muito mais que eu és dotado de força.

Os meus trabalhos contudo não devem ficar infrutuosos.

Sou também deusa imortal e a ascendência que tens também tenho filha mais velha de Cronos deidade de mente tortuosa.

Sim não somente por esse motivo; também por chamar-me tua consorte e imperares em todos os deuses eternos.

Reciprocar concessões é por isso dever de nós ambos: cedo-te um pouco; outro pouco me cede que o exemplo sem dúvida hão-de os demais imitar.

Ora cumpre que Atena despaches para a terrível batalha dos homens aqueus e troianos porque os Troianos primeiro aos Aqueus exultantes ofendam com se tomarem perjuros quebrando a aliança firmada.”

O pai dos homens e deuses de pronto aceitou esse alvitre e para Atena voltado lhe disse as palavras aladas: “Baixa sem perda de tempo às fileiras dos Teucros e Aquivos porque os Troianos primeiro aos Aqueus exultantes ofendam com se tornarem perjuros quebrando a aliança firmada.”

Essas palavras a Atena ainda mais excitada deixaram; célere baixa passando por cima dos cumes do Olimpo.

Tal como estrela cadente que o filho de Cronos astucioso manda em sinal para os nautas e os homens no campo da luta cheia de vivo esplendor desferindo faúlhas inúmeras: Palas Atena da mesma maneira baixou para a terra no meio do campo caindo.

Tomados de espanto ficaram  os picadeiros troianos e aquivos de grevas bem feitas.

Uns para os outros palavras aladas então pronunciaram: “Ou vai haver novamente contendas funestas e guerra ou vai fazer Zeus potente que a paz entre todos impere ele que é o árbitro sumo das lutas sangrentas dos homens.”

Os Aqueus todos e os homens troianos desta arte falavam.

Palas Atena entretanto nas filas dos Teucros penetra sob a figura do forte lanceiro Antenórida Laódoco  com a intenção de achar Pândaro o Lício de formas divinas.

Foi encontrar em verdade de pé o notável guerreiro filho do forte Licáone junto das filas dos Lícios que com escudos possantes das margens do Esepo o seguiram.

Chega-se bem para perto e lhe diz as palavras aladas: “Pândaro herói prudentíssimo queres ouvir-me um conselho? Atrever-te-ás porventura a atirar uma seta ligeira a Menelau? Glória excelsa obterás e o favor dos Troianos mas sobretudo do Príncipe Páris o divo Aléxandros.

Dele em primeiro lugar obtiveras magníficos brindes se visse o filho de Atreu Menelau de Ares forte discípulo por tua seta domado subir para a triste fogueira.

Vamos! dispara uma seta no herói Menelau valoroso e a Febo Apolo o notável archeiro nascido na Lícia uma hecatombe promete de ovelhas de menos dum ano quando estiveres de novo nos muros sagrados de Zélia.”

Essas palavras de Atena suadiram o néscio guerreiro.

Sem mais demora o arco forte tomou preparado dos chifres dum cervo agreste e impetuoso por ele apanhado em tocaia quando o ferira no esterno ao pular dum rochedo para outro.

O coração trespassado da pedra caiu ressupino.

Dezasseis palmos haviam os chifres na fronte crescido os quais um no outro com muita perícia ajustou o torneiro para depois o lavrar e lhe apor o anel de ouro num lado.

O arco com muito cuidado no solo depôs o guerreiro para entesá-lo; os consócios na frente os escudos puseram com a intenção de evitar que os valentes Aqueus o assaltassem antes de ser Menelau atingido o discípulo de Ares.

Tira depois do carcás após o haver destapado uma seta nova e provida de pena fautora de dores atrozes.

Sem mais demora esse dardo amargoso na corda ele adapta e a Febo Apolo o notável archeiro nascido na Lícia  uma hecatombe promete de ovelhas de menos dum ano quando de novo se achasse nos muros sagrados de Zélia.

Puxa a um só tempo da corda e da parte chanfrada da seta; no peito a corda encostou no arco a ponta aguçada do ferro.

Quando o grande arco adquiriu o feitio dum círculo grande forte vibrou; zune a corda possante a silvar disparando a frecha aguda sedenta de voar para a turba inimiga.

Não se esqueceram de ti Menelau os eternos e beatos deuses mormente a donzela de Zeus a imortal predadora que pressurosa de ti pôde a seta desviar aguçada.

Frustra-lhe a mira de facto tal como procede afectuosa mãe afastando uma mosca do filho que dorme tranquilo e para o ponto a dirige em que as áureas fivelas do cinto se superpõem formando desta arte uma dupla couraça.

No cinto bem ajustado encravou-se-lhe o dardo amargoso atravessando no impulso em que vinha sua bela textura bem como a forte couraça trabalho de fino remate.

A própria malha que o rei costumava trazer sobre o corpo como anteparo por certo eficaz foi também trespassada; mas a epiderme somente esflorada ficou pelo dardo  ainda que o sangue corresse anegrado do corte então feito.

Como se dá quando serva da Meónia ou da Caria de púrpura tinge o marfim que vai pôr como enfeite nas cambas dum freio que deixa exposto na sala a acender a cobiça de muitos equitadores –a um rei entretanto é que está destinado para adornar-lhe o cavalo e acender o entusiasmo do auriga: dessa maneira as tuas coxas ó herói Menelau se tingiram de vivo sangue que às pernas desceu e depois aos maléolos.

Treme de susto Agamémnon rei de infinitos guerreiros ao ver o sangue de cor anegrada escorrer da ferida; treme também Menelau o discípulo de Ares potente.

Ao perceber entretanto que as farpas e o nervo que liga o ferro à vara visíveis estavam cobrou novo alento.

Entre sentido clamor dos presentes o herói Agamémnon a Menelau pela mão segurou suspirando e lhe disse: “À Morte assim caro irmão minhas juras te haviam sagrado ao aceitares a luta por nós contra os homens de Tróia? Foste por eles ferido que assim as alianças violaram.

Vãs entretanto essas juras não foram o sangue das vítimas as libações e os apertos de mão que confiados trocámos.

Ainda que o filho de Cronos se abstenha de agora puni-los há-de lhes dar o castigo adequado mais tarde acrescido pois vai custar-lhes a vida e a das próprias esposas e filhos.

O coração claramente mo diz e a razão mo confirma: há-de sim o dia chegar de caírem os muros de Tróia bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.

Zeus poderoso que no éter demora nascido de Cronos a égide tosca há-de certo agitar lá de cima contra eles vendo a traição cometida; cumprido há-de ser isso tudo.

Mas grande dor Menelau por tua causa meu peito angustiara caso o Destino fatal te atingisse entregando-te à Morte.

A Argos sequiosa voltara coberto de eterna vergonha pois aos Aqueus ocorrera de pronto tornar para a pátria abandonando aos Troianos e a Príamo Helena motivo certo de toda esta guerra; teus ossos nos campos de Tróia hão-de desfazer-se sem teres levado até ao fim essa empresa.

Há-de dizer porventura algum Teucro de mente soberba a espezinhar insultuoso do herói Menelau o sepulcro: ‘Possa Agamémnon em todos sempre a ira saciar deste modo como ao trazer para aqui seu inútil exército aquivo   para depois ser forçado a voltar para a terra da pátria com suas naves vazias privado do irmão valoroso!’ Que a terra vasta me suma bem antes de assim se jactarem.”

O louro herói Menelau tranquiliza-o falando desta arte: “Ânimo irmão! Não consternes sem causa os guerreiros aquivos.

A seta agora não deu em lugar perigoso porque antes foi pela malha detida a couraça de aspecto brilhante e o cinturão que o bronzista forjou com bastante perícia.”

Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso: “Ó Menelau caro irmão oxalá seja tudo assim mesmo! Que venha um médico logo explorar a ferida e cobri-la com salutíferas drogas que possam da dor libertar-te.”

Vira-se então para o arauto divino Taltíbio e lhe fala: “Corre Taltíbio e nos traz sem perda de tempo Macáon médico irrepreensível o filho notável de Asclépio para que o filho de Atreu Menelau valoroso examine que um dos archeiros de Tróia ou da Lícia feriu com perícia –glória para ele sem dúvida mas para nós mágoa imensa.”

Obedeceu-lhe Taltíbio sem perda de tempo ao mandado pondo-se logo à procura do forte Macáon no meio  dos esquadrões dos guerreiros aquivos.

De pé finalmente entre as fileiras o vê dos heróis que o haviam seguido com seus escudos possantes de Tróia nutriz de cavalos.

Chega-se bem para perto e lhe diz as palavras aladas: “Corre Asclepíade! Chama-te o grande guerreiro Agamémnon para que vejas o herói Menelau chefe insigne de povos que um dos archeiros de Tróia ou da Lícia feriu com perícia –glória para ele sem dúvida mas para nós mágoa imensa.”

Essas palavras o peito abalaram do forte Macáon; sem perder tempo atravessa as fileiras dos homens aquivos.

Quando afinal alcançou o lugar onde estava o guerreiro filho de Atreu vulnerado cercado por todos os chefes com divinal compostura avançou para o meio do círculo.

A seta então sem demora do cinto apertado retira ainda que as farpas agudas quando ele puxou se virassem.

A malha após retirou a couraça de aspecto brilhante e o cinturão que o bronzista com muita perícia forjara.

Pondo patente a ferida que o dardo amargoso fizera chupa-lhe o sangue cobrindo-a depois habilmente com bálsamo cujo segredo Quíron por afecto a seu pai ensinara.

Enquanto todos cuidavam do herói Menelau de voz forte rompem a marcha os guerreiros troianos munidos de escudos.

Os Aqueus todos às armas correram lembrados da pugna.

Nessa ocasião não puderas tachar o divino Agamémnon de sonolento ou covarde ou propenso a evitar os combates; sim pressuroso de entrar na batalha que aos homens dá glória.

O carro cheio de enfeites de bronze deixou a departe com seus fogosos corcéis aos cuidados do auriga prudente Eurimedonte do herói Ptolomeu Piraída nascido.

Dera-lhe o Atrida instruções de o seguir e o tomar quando os membros pelo cansaço de tanto girar invadidos se vissem.

A pé entretanto partiu revistando as fileiras aquivas.

Quando encontrava guerreiros dispostos a entrar em combate estimulava-lhes mais ainda o brio desta arte falando: “Não afrouxeis homens de Argos jamais do valor impetuoso que nunca Zeus poderoso se pôs dos perjuros ao lado! Sempre tem sido repasto de cães e de abutres as carnes tenras de quantos primeiro violaram os pactos firmados.

Quando tivermos os muros entrado haveremos levar-lhes em nossas naves as caras esposas e os tenros filhinhos.”

Se descuidados os via evitando a batalha funesta os censurava com termos violentos falando desta arte: “Envergonhai-vos Aqueus que somente alardeais valentia! Qual a razão por que venho encontrar-vos atónitos como tímidas corças que param cansadas depois de correrem pela planície sem terem no peito coragem de nada? Atarantados assim vos mostrais sem entrar nos combates.

Ou porventura aguardais que os Troianos as naves alcancem largas de boas cobertas na praia do mar cor de cinza para saberdes se Zeus se compraz em a mão estender-vos?” Desse feitio corria as fileiras dos homens acaios.

Por entre a turba de heróis foi bater nos Cretenses que à volta de Idomeneu se aprestavam guerreiro de méritos grandes.

Este se achava nas filas da frente qual forte javardo; a estimular as fileiras de trás se encontrava Meríones.

Vendo-os o chefe de heróis Agamémnon fica exultante e a Idomeneu com palavras afáveis contente saúda: “Idomeneu mais que aos outros Aqueus picadores te prezo não só na guerra também nos negócios à paz pertinentes e nos banquetes magníficos quando os Aquivos mais nobres  o vinho rútilo bebem mesclado nas grandes crateras.

Todos os outros Aqueus de ondulantes cabelos recebem a sua parte somente; teu copo porém sempre se acha a transbordar como o meu porque possas beber à vontade.

Vamos confirma na luta o valor que de ter te orgulhavas.”

Idomeneu chefe insigne dos homens de Creta lhe disse: “Filho de Atreu Agamémnon fiel companheiro hei-de ser-te tal como sempre me viste e de acordo com meu juramento.

Trata porém de espertar os demais combatentes aquivos para que logo comece a batalha uma vez que as sagradas juras os Teucros violaram.

A Morte a eles todos espera por terem sido os primeiros a os pactos violar sacrossantos.”

O coração satisfeito prossegue a revista Agamémnon tendo alcançado os Ájaxes depois de cortar pela turba.

Ambos se armavam seguidos por nuvem de peões belicosos.

Tal como quando o pastor num penedo postado divisa nuvem que avança do mar pelo sopro tocada de Zéfiro que se lhe antolha daquela distância que o pez mais escura quando se adianta no mar conduzindo violenta procela e apavorado recolhe a uma gruta o dilecto rebanho:  do mesmo modo os dois fortes Ájaxes de Zeus descendentes densas e escuras colunas de heróis para a guerra levavam todos num grupo eriçado de lanças e fortes escudos.

Vendo-os o chefe de heróis Agamémnon fica exultante; e aproximando-se de ambos palavras aladas lhes fala: “Vós ó notáveis Ájaxes mentores dos fortes Aquivos necessidade não vejo de vos excitar ou dar ordens pois bem sabeis ser exemplo e inflamar vossos fiéis companheiros.

Fosse do gosto de Zeus e de Palas Atena e de Apolo que pensamentos como esses em todos os peitos se achassem! Em pouco tempo cairia a cidade potente de Príamo por nossos braços vencida e por nós abrasada e saqueada.”

Deixa-os depois de os saudar e para outras fileiras prossegue onde o eloquente Nestor encontrou da cidade de Pilos que seus guerreiros em ordem dispunha e a lutar incitava.

Hémone Crómio o viril Pelagonte e o fortíssimo Bias nessa tarefa o ajudavam bem como o admirável Alastor.

Os cavaleiros dispunha e os cavalos e os carros na frente e a infantaria na parte de trás numerosa e escolhida para servir de baluarte; os mais fracos no meio coloca  que a seu mau grado se vissem forçados a entrar na batalha.

Aos que combatem de carro primeiro instruções transmitia para os cavalos susterem não fossem correr as fileiras: “Não queira alguém por confiar na perícia e na própria coragem só das fileiras distante lutar contra os homens de Tróia; que não recue ninguém; facilmente seríeis vencidos.

Uso só faça da lança o guerreiro que o carro do imigo perto do seu observar que há-de ser muito mais vantajoso.

Nossos maiores puderam entrar em cidades e muros por terem sempre adoptado essa norma ardorosos na luta.”

Tira da antiga experiência o saber com que inflama os seus homens.

Vendo-o exultante se mostra Agamémnon rei poderoso e aproximando-se dele lhe diz as palavras aladas: “Se conservasses ó velho nos membros a antiga energia e a agilidade dos joelhos tal como a coragem conservas! Mas a velhice que a todos oprime em ti pesa.

Quem dera que se passasse para outro deixando-te moço de novo!” Disse-lhe então o gerénio Nestor condutor de cavalos:  “Eu próprio ó filho de Atreu desejara de novo encontrar-me com o vigor daquela época quando privei da existência  a Ereutalião.

Mas os deuses nem tudo aos humanos concedem.

Era então moço; mas ora a velhice nos ombros me pesa.

Apesar disso estarei sempre junto dos meus cavaleiros com minhas ordens e alvitres que é sempre esse o ofício dos velhos.

Como lanceiros disponho os mais moços do que eu bem mais ágeis e que nos prélios revelam confiança na própria coragem.”

O coração satisfeito prossegue a revista Agamémnon.

O picador Menesteu foi achar de Peteu descendente sempre de pé tendo à volta os guerreiros famosos de Atenas.

Perto se achava também Odisseu o guerreiro solene pelas fileiras cercado dos fortes heróis Cetalénios.

Todos estavam parados; nenhum o sinal percebera pois as falanges dos Teucros e Aquivos somente de pouco tinham o avanço iniciado que à pugna encetasse.

Esperavam por consequência que uma outra coluna dos seus avançasse contra os guerreiros de Tróia porque se iniciasse a peleja.

Vendo-os com termos violentos censura-os o Atrida Agamémnon e aproximando-se deles palavras aladas profere: “Ó filho insigne do forte Peteu por Zeus grande nutrido e tu também caviloso e entendido em toda arte de embustes  por que ficais a departe esperando que o exemplo vos dêem? O lugar que a ambos compete é na frente das filas acaias no mais aceso da pugna; ali sim é que estar deveríeis.

Quando há banquete sois vós os primeiros a ouvir meu convite sempre que festa os Aqueus para os nossos anciões preparamos.

Tendes prazer em comer nessas festas opimos assados e de esvaziar vossos copos repletos de vinho gostoso e ora ficais esperando que dez esquadrões dos Aquivos vos antecedam com o bronze cruel para a luta encetarem?” Com torvo aspecto lhe disse em resposta Odisseu o seguinte: “Filho de Atreu que palavras do encerro da boca soltaste? Por que disseste que somos remissos? Por quê? Poderias sempre que os homens aqueus a Ares forte nos Troas espertam ver caso o queiras é claro e se algum interesse achas nisso como ante as hostes troianas o pai de Telémaco avança entre os primeiros.

Carecem de senso teus ditos sarcásticos.”

Logo que o Atrida notou que se tinha com ele agastado rindo-se a ofensa desfez com dizer-lhe em resposta o seguinte: “Filho de Laertes de origem divina Odisseu engenhoso não pretendia ofender-te ou sequer ministrar-te conselhos  pois reconheço que abrigas no peito por tudo que é nosso só sentimentos benévolos; temos iguais pensamentos.

Vamos! Se alguma palavra mais áspera acaso te disse resolveremos depois; que os eternos aos ventos a entreguem.”

Deixa-o depois de falar e para outras fileiras prossegue.

O valoroso Diomedes achou de Tideu descendente de pé no sólido carro puxado por lindos ginetes os quais Esténelo o filho do herói Capaneu refreava.

Vendo-o com termos violentos censura-o o Atrida Agamémnon e aproximando-se dele palavras aladas profere: “Filho do grande Tideu domador de cavalos que espias? Por que motivo examinas desta arte os caminhos franqueáveis? Não costumava Tideu trepidar por maneira nenhuma; sim muito adiante de seus companheiros o imigo enfrentava.

É o que me dizem os homens que o viram lutar; que eu de facto nunca ante os olhos o tive; era sempre entre os seus o primeiro.

De certa vez –como amigo porém– em Micenas esteve com Polinices divino com o fim de reunir companheiros pois nesse tempo cercavam os muros sagrados de Tebas.

Muito insistiram porque lhe arranjassem prestantes aliados.

Os de Micenas queriam o auxílio impetrado ceder-lhe; mas com funestos presságios faz Zeus que mudassem de intento.

Ao retornarem porém perfazendo o caminho da volta quando alcançaram o Asopo de juncos e prados ervosos de embaixador foi mandado Tideu pelos homens da Acaia.

Obedeceu-lhes Tideu tendo achado Cadmeios inúmeros dentro da casa de Etéocles forte num lauto banquete.

Ainda que fosse estrangeiro no meio de tantos Cadmeios o domador de cavalos Tideu não ficou perturbado sim desafiando-os a todos venceu em diversos torneios mui facilmente que Atena o amparava por modo eficiente.

Os picadeiros cadmeios ficaram com isso indignados e cinquenta homens quando ele voltava em cilada puseram num grupo só comandados por dois distinguidos guerreiros Méone de Hémone filho no porte semelho a um dos deuses e Polifonte Autofónio de nome entre os seus excelente.

Ignominioso destino contudo Tideu soube dar-lhes; a todos eles matou consentindo que Méone apenas vivo pudesse voltar acatando sinais dos eternos.

Tal foi o Etólio Tideu; mas a um filho gerou bem somenos  nas conjunturas da guerra se bem que orador excelente.”

Nada lhe disse em resposta Diomedes o forte guerreiro mas suportou com respeito a censura do rei venerando.

O filho entanto do herói Capaneu lhe retruca o seguinte: “Conscientemente Agamémnon torces os factos verídicos.

Temos orgulho de ser mais prestantes que os nossos maiores.

De sete portas foi Tebas por nós facilmente expugnada com pouca gente lançada de encontro às possantes muralhas pois nos sinais dos eternos confiámos e em Zeus poderoso ao passo que eles morreram por ímpios se terem mostrado.

Não queiras pois comparar à dos nossos avós nossa glória.”

Com os olhos fixos no chão o adverte o possante Diomedes: “Cala-te Esténelo; fica quieto e obedece ao que digo.

De forma alguma censuro Agamémnon rei poderoso por exortar para a luta os Aquivos de grevas bem feitas.

Dele será toda a glória se os fortes Acaios entrarem nos muros de Ílion sagrada vencendo os guerreiros troianos; mas dele o opróbrio também se os Aquivos vencidos ficarmos.

Vamos pensemos agora no ardor impetuoso da guerra.”

Ao dizer isso do carro pulou sem que as armas soltasse.

Tão rijamente soava no peito do herói a armadura quando marchava que até nos mais fortes pavor causaria.

Tal como quando na praia do mar ressoante se elevam ondas frequentes movidas da força impetuosa de Zéfiro: primeiramente a distância elas se alçam; depois impetuosas com grande estrondo se quebram na praia encurvando-se à volta dos promontórios e espuma salgada nas margens atiram: por esse modo esquadrões sucessivos os Dánaos moviam para os combates sem pausa guiados cada um por um chefe que ordens transmite; os guerreiros calados os seguem; difícil fora saberdes se aquilo era exército de homens em marcha de voz dotado.

Nenhum som se ouvia que aos chefes temiam.

Com o movimento da marcha refulge a armadura variada.

Os picadeiros troianos da mesma maneira que ovelhas balam sem pausa no estábulo de homens de muitos haveres quando ordenhadas vão ser ao ouvirem a voz dos cordeiros: por todo o exército de Ílion a chamada os guerreiros repetem.

Não era idêntico o acento; a palavra também diferia; línguas diversas falavam pois vinham de troncos variados.

Estimulava a uns Atena; a outros Ares o deus poderoso  pelo Terror secundados e a Fuga e a Discórdia insaciável a companheira e irmã de Ares que dele jamais se despega e que ao passar pela terra mal se ergue a princípio do solo indo porém logo após entestar com o Céu estrelado.

O Ódio semeava exicial pelo meio da turba guerreira multiplicando por onde passava os gemidos dos homens.

Quando os imigos exércitos vieram num ponto a encontrar-se lanças e escudos se chocam bem como a coragem dos homens com armaduras de bronze; broquéis abaulados se chocam uns contra os outros; estrépito enorme se eleva da pugna.

Dos vencedores os gritos de júbilo se ouvem e as queixas dos que tombavam vencidos; de sangue se encharca o chão duro.

Como dois rios oriundos dum grande degelo dos montes numa bacia somente o volume das águas despejam para reuni-las depois nas entranhas do côncavo abismo donde o barulho vai longe ao pastor que num monte se encontra:  tal era a grita e o trabalho dos dois combatentes exércitos.

Foi o primeiro a prostrar a um dos Troas guerreiros Antíloco que na vanguarda a Equepolo matou de Talísio nascido.

Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta  que fez o crânio partir-se-lhe entrando até ao cérebro a ponta aénea da lança potente; cobriram-lhe as trevas os olhos.

Como se efunde uma torre tombou na batalha terrível.

No mesmo instante o puxou pelos pés Elefénor gerado por Calcodonte magnânimo chefe dos fortes Abantes para tirá-lo do alcance dos dardos e mais facilmente o despojar da armadura; contudo a intenção foi fugaz pois Agenor de alma nobre notou que ao querer debruçar-se sobre o cadáver o escudo um dos flancos deixara visível: fere-o com a ponta de bronze solvendo-lhe a força dos joelhos.

A alma o deixou; em redor ainda mais se incrementa a batalha entre os guerreiros Troianos e os fortes Aqueus; como lobos uns contra os outros se atiram travando-se luta corpórea.

O grande Ájax Telamónio feriu a Simoésio florente o Antemiónio garboso que a mãe deu à luz junto à margem do Simoente num dia em que fora com os pais ao Monte Ida para ajudá-los no afã de vigiar os vistosos rebanhos.

Daí lhe chamaram Simoésio; aos pais não lhe foi pois possível retribuir os cuidados na curta existência que teve pois deveria cair sob a lança de Ájax de alma grande.

Quando avançava na frente o feriu junto ao seio direito o Telamónio na espádua sair indo a lança de bronze.

Ei-lo que tomba na poeira tal como se abate um grande álamo que se criara e crescera na beira dum lago espaçoso de tronco liso que em ramos inúmeros no alto se alarga.

O carpinteiro depois a estes corta com ferro brilhante para dobrá-los em rodas dum carro de bela feitura; o tronco entanto na margem do lago a secar é deixado: por esse modo despoja das armas ao filho de Antémio o Telamónio.

Entrementes um Teucro de bela armadura Ântifo filho de Príamo a lança ligeiro lhe atira sem que o atingisse no entanto que a Leuco acertou na virilha Leuco do herói Odisseu companheiro que a um morto arrastava: das mãos o solta sobre ele caindo de braços abertos.

Vendo sem vida tombar assim Leuco Odisseu indignado corta através das primeiras fileiras em bronze envolvido; pára defronte do imigo examina em redor e desfere a lança aénea pontuda; abaixaram-se os homens troianos ante o disparo do herói; mas frustrâneo não foi esse golpe pois atingiu um bastardo de Príamo o herói Democoonte  que recém-vindo de Abido deixara seus belos cavalos.

Enraivecido Odisseu por motivo da morte do amigo  na fronte a lança lhe acerta saindo-lhe a ponta de bronze no lado oposto da testa.

Cobriram-lhe as trevas os olhos.

Com grande estrondo caiu ressoando-lhe em torno a armadura.

Os combatentes da frente recuaram e Héctor esplendente.

Grita os Argivos elevam; os mortos do campo retiram e denodados avançam.

Indigna-se Apolo frecheiro que das alturas do Pérgamo olhava e gritou aos Troianos: “Ânimo Teucros valentes; deveis enfrentar os Aquivos pois nenhum deles tem corpo de ferro ou de pedra que nada possa ceder ao tocar-lhes a fúria do bronze cortante.

Não mais o filho de Tétis Aquileu com eles se encontra sim ruminando nas tendas a bílis que o peito lhe amarga.”

Do alto dos muros Apolo terrível procura inflamá-los; a Tritogénia no entanto as fileiras corria incitando para o combate os Acaios que via indecisos ou fracos.

Diores o filho do herói Amaríncio foi presa do Fado.

No tornozelo da perna direita se viu atingido por uma pedra pontuda que o Imbrásida Píroo atirou-lhe  chefe dos homens da Trácia que de Eno chegara de pouco.

Os tendões ambos e os ossos a pedra angulosa de todo esmigalhou; cai de costas na areia e a vida ali deixa quando ainda súplice os braços tentava soerguer para os sócios fiéis companheiros.

Mas Píroo que o tinha ferido saltando junto do umbigo lhe a lança enterrou; pelo solo derramam-se os intestinos; cobriram-lhe as trevas os olhos brilhantes.

Mas ao recuar Píroo foi atacado por Toante da Etólia junto do seio com fúria indo o bronze o pulmão alcançar-lhe.

Aproximando-se dele o guerreiro da Etólia arrancou-lhe do peito a lança; em seguida sacando da espada cortante fere-lhe o ventre com o que mais depressa o privou da existência.

Mas espoliá-lo não pôde que os sócios da Trácia de tufos no alto do crânio o cercaram armados de lanças compridas os quais conquanto soberbo e de grande estatura ele fosse o repeliram dali.

Cede à força do número Toante.

Dessa maneira ficaram deitados na poeira os dois chefes um dos guerreiros epeios de vestes de bronze; outro Trácio.

À volta de ambos inúmeros outros heróis pereceram.

De forma alguma dissera tratar-se de feitos somenos  quem sem se ver atingido por golpes do bronze cortante atravessasse a batalha levado por Palas Atena que pela mão segurando-o o livrasse da fúria dos dardos pois numerosos guerreiros troianos e acaios naquele dia se achavam sem vida na poeira uns ao lado dos outros.


 

CANÇÃO V

Palas Atena a donzela de Zeus em Diomedes infunde força e coragem sem par para que entre os Argivos pudesse sobressair mais que todos e glória imortal conquistasse.

Inextinguível luzeiro faz do elmo surgir e do escudo de brilho igual ao da estrela que mais do que as outras no Outono incontrastável esplende depois de banhar-se no oceano: com tal fulgor ao redor da cabeça e das largas espáduas faz ela o herói avançar para o ponto mais denso da pugna.

Certo Darete vivia entre os Teucros em muita abastança ínclito antiste de Hefestos: dois filhos distintos possuía que eram Ideu e Fegeu mestres ambos nas artes da guerra.

Estes que estavam de carro adiantaram-se dos companheiros na direcção de Diomedes que a pé sobre o solo avançava.

Quando desta arte um para o outro avançando mais perto ficaram joga primeiro Fegeu a sua lança de sombra comprida.

Pelo ombro esquerdo do grande Tidida a hasta longa e pontuda sem o tocar perpassou.

Por sua vez joga o bronze Diomedes com força ingente sem que lhe partisse da mão frustra a lança pois bem no peito o inimigo atingiu derrubando-o do carro.

Rapidamente Ideu salta largando o belíssimo carro sem ter coragem de junto do corpo do irmão vir postar-se.

Ele também deveria ser presa da lívida Morte; mas por Hefestos foi salvo que logo o envolveu num nevoeiro para que o velho abatido não fosse por dor excessiva.

Apoderou-se Diomedes dos belos cavalos passando-os aos companheiros que os fossem levar para as côncavas naves.

Ao perceberem os Teucros a um filho do claro Darete junto do carro sem vida enquanto o outro escapara fugindo cheios de medo ficaram.

Tomando da mão de Ares forte a de olhos glaucos Atena lhe disse as palavras aladas: “Ares guerreiro dos homens flagelo eversor de cidades não nos seria possível deixar que os Troianos e Aquivos digladiassem até vermos a quem Zeus concede a vitória? Nós a departe fiquemos; a Zeus não façamos ofensa.”

A Ares terrível então retirou da batalha sangrenta e o fez sentar-se num alto da margem do Rio Escamandro.

Cedem os Troas aos homens aqueus; cada herói põe por terra um inimigo.

Primeiro de todos o atrida Agamémnon dos Halizónios o príncipe Odio derruba do carro;  quando tentava fugir atirou-lhe nas costas a lança entre as espáduas no peito saindo-lhe a ponta aguçada.

Com grande estrondo caiu ressoando-lhe em torno a armadura.

Idomeneu mata a Festo Meónio nascido de Boro que havia pouco chegara de Tarne de solo ubertoso.

Quando tentava subir para o carro o famoso lanceiro Idomeneu o feriu no ombro esquerdo com a lança comprida: precipitou-se do carro; envolveu-o caligem sinistra.

Pelos criados do herói da armadura foi logo despido.

Ao caçador mui famoso Escamândrio nascido de Estrófio com a sua lança fraxínea também Menelau pôs por terra.

Era excelente mateiro que fora instruído por Ártemis na arte de as feras caçar que nas abas dos montes vagueiam.

Mas desta vez nem a deusa frecheira lhe foi de vantagem nem a perícia de exímio frecheiro que tanto o exaltava pois o nascido de Atreu Menelau mui famoso lanceiro quando tentava fugir o atingiu com a lança nas costas entre as espáduas no peito saindo-lhe a ponta aguçada.

Tomba no solo de bruços ressoando-lhe em torno a armadura.

Foi por Meríones morto o nascido de Téctone Harmónida  Féreclo em todas as artes manuais mui notável artífice.

A de olhos glaucos Atena especial afeição lhe dedicava.

O fabricante ele fora das naves de Páris simétricas que tinham sido o princípio da grande desgraça dos Teucros e dele próprio por ter desprezado os oráculos divinos.

Tendo Meríones saído no encalço de Féreclo exímio fere-o do lado direito na nádega; a ponta da lança veio sair sob a pube depois de passar a bexiga.

Cheio de dor ajoelhou-se envolvendo-o a caligem da Morte.

Mata Megete ao guerreiro Pedeu de Antenor descendente.

Em que bastardo ele fosse a divina Teano o criara sem distinção de seus filhos a fim de agradar ao marido.

O valoroso Filida no encalço lhe foi enterrando-lhe a lança aénea bem no alto da nuca de forma que a ponta veio sair pelo meio dos dentes cortando-lhe a língua.

O frio bronze entre os dentes aperta ao tombar na poeira.

O nobre Eurípilo filho de Evémone prostra sem vida ao forte Ipsénor antiste do Rio Escamandro; acatava-o como a um dos deuses o povo; do estulto Dolópio era filho.

A esse o notável Eurípilo filho de Evémone claro  quando tentava fugir alcançou para um golpe atirar-lhe no ombro com a espada cortante cerceando-lhe o braço pesado que pelo chão foi rolando vermelho de sangue.

Apodera-se-lhe a Morte rubra dos olhos cedendo-o ao Destino implacável.

Por esse modo eles todos no prélio terrível lutavam.

Não poderíeis dizer se o Tidida se achava do lado dos picadores de Tróia ou dos nobres Aquivos guerreiros.

Corta furioso através da planície tal como corrente  pelo degelo engrossada que pontes arrasta precípite; os próprios diques construídos em fila não podem retê-la nem mesmo os valos à volta dos campos cobertos de flores quando impetuosa extravasa no tempo em que Zeus manda as chuvas a destruir as lavouras formosas dos homens industres: as densas turmas troianas assim pelo forte Diomedes eram desfeitas; ainda que muitas cediam-lhe ao ímpeto.

Logo que o viu o rebento notável do herói Licaónio enfurecido no campo e dispersas as teucras falanges o arco recurvo depressa ajeitou contra o bravo Tidida no ombro direito atingindo-o ao saltar para a frente impetuoso.

A seta amarga passou pelo cavo da coura indo a ponta  do lado oposto sair; a couraça tingiu-se de sangue.

Grita exultante o belíssimo filho do heróico Licáone: “Ora avançai impertérritos Troas valentes ginetes pois já se encontra ferido o melhor dos Aqueus; muito tempo não poderá resistir ao poder do meu dardo se é facto que foi o filho de Zeus quem me fez vir da Lícia querida.”

Por esse modo exultava.

Diomedes porém não caíra; sim recuando para onde os cavalos e o carro se achavam diz para Esténelo o filho do herói Capaneu preclaríssimo: “Filho do herói Capaneu caro Esténelo desce do carro para que a seta amargosa consigas tirar-me da espádua.”

Isso disse ele; do carro pulou para terra o guerreiro e logo o dardo arrancou que se achava encravado na espádua.

Sangue jorrou da ferida banhando-lhe as malhas da túnica.

Súplice então o Tidida de voz retumbante suplica: “Ouve-me Atena donzela indomável de Zeus poderoso! Se hás em verdade ajudado a meu pai nas batalhas cruentas mostra-te –ó deusa– também generosa no transe em que me acho.

Faz que com minha lança consiga atingir o indivíduo que me asseteou em primeiro lugar e ora ufano assevera  que a luz fulgente do sol não hei-de gozar muito tempo.”

A fervorosa oração foi ouvida por Palas Atena; leves lhe torna ela os membros os braços e as pernas robustas e ao lado dele se pondo lhe disse as palavras aladas: “Podes com todo o teu brio lutar com os Troianos Diomedes pois no imo peito te faço nascer a indomável coragem própria do grande Tideu picador quando o escudo vibrava.

Vou desfazer a caligem que os olhos brilhantes te cobre que distinguir facilmente consigas os deuses e os homens.

Não te aventures jamais a lutar contra os deuses eternos caso te venha tentar algum nume do Olimpo elevado; contra nenhum; mas se a filha de Zeus poderoso Afrodite se aventurar a lutar então fere-a com o bronze afiado.”

A de olhos glaucos Atena afastou-se ao dizer tais palavras.

Mais uma vez o Tidida voltou para as linhas da frente.

Se antes já ardia em desejos de aos Teucros vencer nos combates três vezes mais ardoroso se achava.

Um leão parecia a que o pastor que se encontra de guarda às lanzudas ovelhas fere ao querer escalar o curral sem contudo prostrá-lo só conseguindo espertar-lhe a coragem.

Sem ter mais defesa  corre o pastor a esconder-se no estábulo largando o rebanho; apavoradas comprimem-se a um canto as balantes ovelhas.

A fera entanto furiosa o redil abandona dum salto: com igual fúria o Tidida as fileiras troianas penetra.

Logo de início ali prostra os caudilhos Hipírone e Astínoo a hasta de bronze potente encravando no peito deste último e no ombro do outro assestando bem junto à clavícula um golpe com a espada que a um tempo o apartou do pescoço e das costas.

Deixa-os saindo depois à procura de Abante e Políido de Euridamante nascidos intérprete exímio de sonhos que não lhes fez vaticínio nenhum quando foi da partida.

A ambos Diomedes o forte despiu da bonita armadura.

Contra os irmãos Xanto e Tóone após arremete de Fénopo ambos nascidos na extrema velhice; acabrunha-se o velho por não ter tido outro filho a quem possa deixar seus haveres.

A ambos Diomedes privou da armadura e da vida preciosa ao pai deixando tristezas somente e suspiros magoados por não os ter acolhido com vida de volta da guerra.

Pelos parentes remotos seus bens divididos ficaram.

Dá logo após com dois filhos de Príamo o neto de Dárdano  que num só carro se achavam Equéfrone e Crómio galhardos.

Tal como um leão que se atira no meio do gado que pasta no prado ervoso e despedaça a cerviz dum bezerro ou dum touro a ambos assim o Tidida do carro arrancou com violência por vergonhosa maneira espoliando-os das armas preciosas.

Aos companheiros deu ordens que às naus os cavalos levassem.

Foi por Eneias notado como ele as fileiras destruía; corta o guerreiro a batalha onde as lanças mais densas se agitam com a intenção de achar Pândaro o Lício de formas divinas.

Ao belo filho do heróico Licáone achou finalmente; pára defronte do herói e lhe diz as seguintes palavras: “Pândaro acaso perdeste teu arco tuas setas aladas e tua fama sem par que nenhum dos Troianos contesta? Nem mesmo os Lícios guerreiros presumem que possam vencer-te.

Vamos eleva teus braços a Zeus e dispara uma seta contra o varão destemido que tanta desgraça nos causa com dissolver o vigor de tão nobres e fortes Troianos.

Temo que seja um dos deuses que se ache zangado por termos com sacrifícios faltado; é terrível dum deus sempre a cólera.

Disse-lhe o filho do heróico Licáone então o seguinte:   “Príncipe Eneias mentor dos Troianos de vestes de bronze os sinais todos me dizem tratar-se do grande Tidida; sim pelo escudo o conheço pelo elmo de quatro saliências e pelos próprios cavalos.

Ao certo não sei se é um dos deuses.

Se se tratar dum varão como penso o prudente Diomedes não sem o auxílio dum deus tantas coisas comece que se acha perto do herói escondido sem dúvida em névoa densíssima e que de pouco o livrou duma seta que o havia tocado.

Já lhe mandei uma seta amargosa que foi atingi-lo no ombro direito furando a couraça na chapa escavada.

Já me gloriava de o haver enviado para o Hades sombrio mas foi baldada esperança; é-me hostil um dos deuses sem dúvida.

Não tenho aqui nem cavalos nem carros que possam servir-me; onze no entanto se encontram na casa do heróico Licáone todos construídos de pouco sem uso nenhum protegidos por belas mantas com uma parelha cada um de cavalos que de centeio e de espelta com muito regalo se nutrem.

Bem que Licáone o velho guerreiro comigo instou muito recomendando insistente ao me vir do palácio bem feito para que carros trouxesse e cavalos possantes se o mando  dos picadores troianos houvesse de ter nas batalhas.

Mas não lhe quis aceitar o conselho –quão útil me fora!– porque poupasse os cavalos com bom tratamento habituados pelo receio de vir a faltar-lhes forragem no assédio.

Por isso tudo os deixei tendo vindo de pé para Tróia no arco somente confiando que inútil aliás me seria.

Já disparei duas vezes visando excelentes guerreiros o louro Atrida e Diomedes e de ambas com toda certeza vi correr sangue; no entanto só pude ainda mais excitá-los.

Foi em má hora que o arco do gancho tirei por sem dúvida quando pensei em trazer para Tróia os meus Lícios valentes a fim de a Héctor o guerreiro divino agradável mostrar-me.

Mas se algum dia eu voltar para a terra dos meus ascendentes e contemplar novamente a querida consorte e o palácio pode qualquer estrangeiro a cabeça dos ombros cortar-me se não jogar ali mesmo nas chamas este arco após tê-lo feito em pedaços.

Bem má companhia me fez até agora.”

Disse-lhe Eneias o chefe dos Teucros então em resposta: “Não continues assim que tudo isto alterar não se pode sem que nós dois para o carro subamos e contra aquele homem  nos decidamos a ir para as armas com as dele medirmos.

Vem para cá por que vejas alfim como são excelentes estes cavalos de Trós que tão rápidos correm no plaino quer quando cumpre fugir quer no encalço do imigo ligeiro.

Ainda que Zeus a Diomedes de glória cobrir determine mais uma vez hão-de aos muros de Tróia levar-nos incólumes.

Faz uso tu do chicote e das rédeas de bela feitura que eu descerei para a pé facilmente oferecer-lhe combate; ou se o preferes enfrenta-o ficando a meu cargo os cavalos.”

Disse-lhe o filho do heróico Licáone então o seguinte: “É preferível Eneias que as rédeas dirijas e os brutos que sob o auriga habitual puxarão mais velozes o carro curvo no caso de ser necessário fugir de Diomedes.

Temo que possam a voz estranhar e sentindo tua falta não nos retirem com tempo da luta tomados de espanto.

Fora então fácil saltar contra nós o Tidida magnânimo e nos privar da existência ficando com os dois corredores.

Guia tu próprio os cavalos e o carro recurvo; pertencem-te.

Com minha lança aguçada hei-de o embate iminente amparar-lhe.”

Sobem depois de falar para o carro variado e os cavalos  guiam sequiosos de a pugna encetar contra o grande Tidida.

Viu-os Estendo o filho do herói Capaneu preclaríssimo; para Diomedes virando-se diz-lhe as palavras aladas: “Ó claro filho do grande Tideu dilectíssimo amigo dois inimigos percebo que vêm contra ti denodados ambos de força infinita; um frecheiro de fama inconcussa Pândaro que se gloria de filho do heróico Licáone; o outro é o notável Eneias que tem grande orgulho em chamar-se filho de Anquises guerreiro e da deusa imortal Afrodite.

Sobe também para o carro; fujamos; se a pé continuas a na vanguarda te expor é certeza perderes a vida.”

Com torvo olhar lhe responde Diomedes o forte guerreiro: “Fuga? Presumes que possa deixar-me persuadir porventura? Não se coaduna com minha coragem fugir do inimigo ou trepidar; o consueto vigor ainda tenho no peito.

Peja-me ter de subir para o carro; tão-só como me acho hei-de enfrentá-los que Palas Atena tremer não me deixa.

Dificilmente a eles dois poderão conduzir para longe os corredores velozes embora escapar um consiga Ora uma coisa te vou revelar; guarda-a bem no imo peito:  caso a imortal de prudentes conselhos Atena essa glória me conceder de tirar-lhes a vida detém aqui mesmo os corredores e prende puxando-as as rédeas no carro.

Que não te esqueça depois aos cavalos de Eneias lançar-te e para o campo dos fortes Acaios grevados tocá-los que eles provêm dos cavalos que Zeus deu a Trós como paga de Ganimedes seu filho os melhores sem dúvida alguma de quantos já contemplaram os raios do Sol ou da Aurora.

Sem Laomedonte saber pôde Anquises senhor de guerreiros a raça deles roubar conseguindo que os mesmos cobrissem seis éguas suas que número igual lhe pariram de potros.

Desses nos próprios estábulos quatro criou com carinho;  os outros dois deu a Eneias; semeiam terror nas batalhas.

Grande será nossa glória se acaso pudermos tomá-los.”

Dessa maneira em colóquio eles dois tais conceitos trocavam.

Eis que os velozes corcéis para perto os imigos trouxeram.

Foi o primeiro a falar o nascido do heróico Licáone: “Filho prudente do forte Tideu corajoso guerreiro já que meu dardo amargoso não pôde de facto prostrar-te experimentemos a lança; vejamos se posso atingir-te.”

Tendo isso dito atirou-lhe a sua lança de sombra comprida.

Esta no escudo bateu do Tidida de forma que a ponta brônzea passou-lhe a defesa e na coura afinal encravou-se.

O claro filho do heróico Licáone exclama com júbilo: “Foste ferido na ilharga! Não hás-de oferecer resistência por muito tempo; este feito vai dar glória imensa ao meu nome.”

Sem mostrar medo lhe disse em resposta o robusto Diomedes: “Não me feriste; ainda erraste.

Mas não cessareis vejo-o agora de importunar antes dum pelo menos cair no chão duro para com o sangue a Ares forte saciar o guerreiro potente.”

A lança atira-lhe então que por Palas Atena guiada foi atingir-lhe o nariz junto aos olhos quebrando-lhe os dentes A língua o duro farpão na raiz também corta indo a ponta aparecer novamente na parte interior da mandíbula.

Tomba do carro de bruços ressoando-lhe em torno a armadura cheia de brilho e vistosa; assustados os dois corredores saltam de lado; a alma e a força abandonam-lhe o corpo ali mesmo.

Para evitar que os Aquivos as armas do morto pilhassem com lança e escudo saltou logo Eneias do carro bem feito e como leão que na força confia ao redor do cadáver  pôs-se a girar protegendo-o com a lança e o broquel bem redondo com grandes gritos de morte ameaçando os imigos que ousavam aproximar-se do corpo.

O Tidida no entanto uma pedra nas mãos tomou –grande empresa– que dois dos guerreiros de agora mal abalar poderiam; sozinho a atirou facilmente indo atingir o guerreiro nascido de Anquises no ponto justo –de nome acetábulo– em que o fémur se encaixa na pelve que estraçalhado ficou juntamente com os dois tendões fortes.

A áspera pedra a epiderme rasgou; cai o herói de joelhos mas ainda assim contra o solo apoiou-se com ambas as mãos.

Cobre-lhe os olhos brilhantes depressa a caligem da Noite.

E o chefe de homens Eneias talvez perecesse ali mesmo se o não tivesse notado Afrodite de Zeus a donzela mãe carinhosa que o havia de Anquises pastor concebido.

Os braços níveos lançou logo à volta do filho querido numa das dobras do manto luzente envolvendo-lhe o corpo que lhe servisse de amparo se acaso um dos Dánaos tentasse a arma aguçada no peito enterrar-lhe arrancando-lhe a vida.

Enquanto o filho desta arte Afrodite da pugna afastava lembram a Esténelo o filho do herói Capaneu as precisas  indicações que lhe dera Diomedes de voz retumbante.

Os corredores detém apartados do prélio terrível; no parapeito do carro puxando-as as rédeas amarra; salta aos cavalos de Eneias de crina vistosa e tratada e para o campo os tocou dos guerreiros aquivos grevados onde a Deípilo os deu o fiel companheiro que tanto entre os equevos prezava por serem de iguais pensamentos para que às côncavas naus os levasse.

Depois pressuroso torna a subir para o carro das rédeas nitentes retoma e os corredores fustiga de cascos robustos que partem na direcção de Diomedes.

A Cípria com bronze impiedoso era seguida por este que vira ser deusa indefesa bem diferente das outras que os prélios dos homens frequentam tal como Palas Atena ou Enió eversora de muros.

Quando afinal a alcançou pelo meio dos fortes guerreiros pula o magnânimo filho do grande Tideu para a frente e a extremidade da mão delicada com a lança pontuda fere de leve.

Foi fácil ao bronze riscar a epiderme após ter o manto divino que as Graças teceram rasgado junto do punho.

Escorreu logo o icor imortal da deidade  sangue que corre nas veias de todos os deuses eternos.

Não se alimentam de pão; roxo vinho não bebem; por isso sangue não têm como os homens que deuses eternos lhes chamam.

Um grito solta Afrodite deixando cair logo o filho.

No mesmo instante as mãos ambas Apolo estendeu envolvendo-o em nuvem negra com o fim de evitar que algum Dánao tentasse a arma aguçada no peito enterrar-lhe arrancando-lhe a vida.

Em altos brados lhe disse Diomedes de voz retumbante: “Filha de Zeus poderoso conserva-te longe da luta.

Ou seduzir não te basta mulheres privadas de força? Se ainda sentires desejo de ver um combate de perto creio que só o nome ‘guerra’ há-de grande pavor inspirar-te.”

Atormentada Afrodite enquanto ele falava afastou-se.

Íris veloz como o vento a envolveu retirando-a do prélio mesta e gemente murchadas as cores da cute formosa.

No lado esquerdo do campo da luta encontrou Ares forte que numa nuvem a lança e os velozes corcéis apoiara.

A bela deusa enlaçando-se aos joelhos do irmão dilectíssimo pede com súplica instante os corcéis de frontal de ouro fino: “Mano querido protege-me; empresta-me teus corredores  para que o Olimpo consiga alcançar sede augusta dos deuses.

Dói-me a ferida que um homem mortal me causou há momentos o filho sim de Tideu que até ao próprio Zeus pai se atrevera.”

Ares sem mora lhe entrega os corcéis de frontal de ouro fino.

O coração angustiado subiu para o carro Afrodite; Íris sentou-se-lhe ao lado tomando nas mãos logo as rédeas; com chicotada os cavalos esperta que partem velozes.

Em pouco tempo ao Olimpo chegaram sede alta dos deuses.

Íris veloz como o vento refreia os fogosos ginetes tira-os do carro esplendente e lhes deita alimento ambrosíaco.

Corre a acolher-se a divina Afrodite ao regaço de Dione.

Toda desvelos a mãe carinhosa nos braços a ampara e acariciando-a lhe diz as seguintes palavras aladas: “Qual das deidades urânias te fez esse dano querida como se à vista de todos houvesses um mal praticado?” Disse-lhe a deusa dos risos amante Afrodite em resposta: “Foi o arrogante Diomedes do grande Tideu descendente por ter querido livrar a meu filho do prélio funesto meu caro Eneias a quem especial afeição dediquei sempre Não se restringe aos Troianos e Aquivos a guerra somente;  até contra os deuses eternos os Dánaos agora se atrevem.”

Disse-lhe Dione a imortal admirável então em resposta: “Ainda que muito te aflija querida suporta paciente.

Que de aflições indizíveis os deuses por causa dos homens já suportámos causando uns aos outros trabalhos sem conta! Ares também já sofreu quando foi em possantes cadeias acorrentado por Oto e Efialtes de Aloeu descendentes; Por treze meses esteve metido num cárcere brônzeo.

E porventura perdera a existência o insaciável guerreiro se Peribeia a formosa madrasta dos dois a ocorrência a Hermes houvesse ocultado.

Este a furto livrar ainda pôde a Ares exânime quase que assaz as prisões o abatiam.

Hera também já sofreu quando o herói Anfitriónio no seio destro a feriu com uma seta dotada de três farpas ásperas.

Dor insofrível teve ela de então padecer em verdade.

Hades o monstro também sofreu muito em virtude dum dardo por esse mesmo homem forte atirado de Zeus descendente no próprio sólio dos mortos causando-lhe dor infinita.

O coração angustiado com dor indizível foi ele para o palácio de Zeus no vastíssimo Olimpo.

Encravara-se-lhe  no ombro possante o fautor do sofrer que lhe o peito excruciava; Péone logo deitou eficaz lenitivo na chaga que o fez sarar pois de facto não era de estirpe terrena.

Ímpio e malvado que não se corria de feitos tão graves indo até ao ponto de flechas lançar nos que moram no Olimpo.

A este acirrou contra ti por sem dúvida Palas Atena.

Néscio mostrou ser o filho do grande Tideu em verdade por ignorar que não têm vida longa os que lutam com os deuses.

Nunca os filhinhos ‘papá’ lhes dirão nos joelhos sentados quando dos prélios terríveis alfim para casa tornarem.

Ora reflicta o Tidida conquanto mui forte ele seja não aconteça antepor-se-lhe um deus do que tu bem mais forte pois nesse caso a prudente Egialeia nascida de Adrasto com seus lamentos o sono turvara de toda a família quando chorar a condigna consorte do grande Diomedes a triste sorte do herói mais galhardo do exército aquivo.”

Tendo isso dito com ambas as mãos enxugou o icor logo.

Sara a ferida de pronto; acalmaram-se as dores pungentes.

Hera a magnífica e Atena que o facto observavam se voltam para Zeus grande com termos mordazes tentando irritá-lo.

A de olhos glaucos Atena primeiro desta arte lhe fala: “Não ficarás agastado Zeus pai com o que vou revelar-te? Creio que a Cípria tentou novamente persuadir uma Acaia para passar-se aos Troianos aos quais tanto afecto dedica.

Quando amimava uma dessas Aquivas de manto bem feito a delicada mãozinha espetou na dourada fivela.”

O pai dos homens e deuses sorriu ao ouvir tais palavras e para perto chamando Afrodite lhe disse o seguinte: “Cara não são para ti todas essas acções belicosas; volve a atenção isso sim para os doces trabalhos das núpcias.

Ares o rápido e Atena se incumbem da guerra a contento.”

Enquanto os deuses do Olimpo conceitos desta arte trocavam insta Diomedes o herói gritador contra o Príncipe Eneias.

Ainda que houvesse notado que Apolo o amparava cuidoso a um deus tão grande não tinha receio de opor-se ambiciando somente a Eneias matar e das armas fulgentes privá-lo.

Por vezes três arremete sequioso de a vida tirar-lhe; mas por três vezes no escudo brilhante de Apolo ele bate.

Quando porém pela quarta avançou qual se fosse um demónio com voz terrível lhe diz Febo Apolo o frecheiro infalível:  “Entra em ti mesmo Diomedes; afasta-te; é absurdo pensares que és como os deuses; em caso nenhum podem ser comparados os moradores do Olimpo com os homens que rojam na terra.”

A essas palavras o forte Diomedes recuou poucos passos para evitar o rancor do frecheiro infalível Apolo.

Febo tirou logo a Eneias da luta depondo-o na sacra Pérgamo dentro do templo que fora para ele construído no ádito grande do qual dele cuidam deixando-o mais belo Ártemis deusa frecheira infalível e Leto amorável.

Nesse entrementes Apolo o deus do arco de prata um fantasma mui semelhante no gesto e nas armas a Eneias formara.

Em torno dele os Troianos e os divos Acaios a luta de novo acendem talhando os arneses de couro bovino os manejáveis broquéis e os escudos redondos e fortes.

Vira-se Febo para Ares terrível e diz o seguinte: “Ares guerreiro dos homens flagelo eversor de cidades  não te seria possível tirar dos combates esse homem digo o Tidida que ao próprio Zeus pai porventura enfrentara? Primeiramente achegando-se à Cípria feriu-a no carpo; logo depois contra mim se atirou qual se fosse um demónio.”

No alto de Pérgamo após ter falado foi ele assentar-se.

Ares as filas troianas penetra visando excitá-las sob a figura do chefe dos Trácios o forte Acamante.

Os nobres filhos de Príamo alunos de Zeus ele incita: “Filhos de Príamo alunos de Zeus até quando dizei-me consentireis que os Aqueus a matar nossa gente prossigam? Esperareis que a batalha até às sólidas portas se estenda? Já vulnerado se encontra o guerreiro que a Héctor em apreço equiparávamos filho de Anquises magnânimo Eneias.

Vamos salvemos do prélio terrível o fiel companheiro.”

Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos.

Vira-se então para Héctor censurando-o acremente Sarpédon: “Para onde foi divo Héctor a coragem que sempre mostraste? Não afirmavas que até sem aliados sem povo podias só com os cunhados e irmãos defender a cidade altanada? Ora em que muito me esforce nenhum deles vejo ou percebo.

Trémulos todos estão como em frente do leão cachorrinhos.

Nós combatemos conquanto sejamos apenas aliados.

Enquanto a mim como aliado de terra distante sou vindo sim das longínquas paragens da Lícia no Xanto revolto  onde deixei a dilecta consorte o filhinho inocente e bens inúmeros causa de inveja de quem não tem nada.

Mas ainda assim estimulo os meus Lícios ardendo em desejos de me enfrentar com o inimigo apesar de não ter coisa alguma que pelos homens Aqueus possa ser conduzido ou levado.

Ficas no entanto inactivo; sequer estimulas os outros a resistência oferecer defendendo as esposas e os filhos.

Tende cuidado! Bem cedo nas malhas de rede finíssima presa vireis a ficar e rapina de vossos imigos.

Hão-de tomar dentro em pouco a cidade altanada que é vossa.

A ti compete pensar em tudo isso de noite e de dia e concitar os guerreiros aliados de fama excelente para que firmes resistam deixando de lado as censuras.”

Essas palavras do Lício a alma nobre de Héctor mordiscaram.

Rapidamente do carro pulou sem que as armas soltasse e duas lanças brandindo correu as fileiras do exército a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura.

Mais uma vez os Troianos aos homens aquivos enfrentam; estes compactos resistem sem dar mostra alguma de medo.

Como pela eira sagrada em remoinhos a palha se eleva  quando os campónios padejam no tempo em que a loura Deméter ao sopro forte do vento separa do grão toda a palha  que se amontoa alvejando o terreiro: desta arte os Aquivos brancos ficaram por causa do pó que de sob as fileiras se levantava até à abóbada brônzea ao pisar dos cavalos pois os aurigas de novo os faziam voltar para a pugna.

Travam-se todos os homens; a fim de ajudar aos Troianos Ares o forte envolveu a batalha nas trevas da Noite a toda parte acudindo cuidoso de dar cumprimento à ordem de Febo da espada dourada que o tinha incitado a estimular os Troianos depois que dali se afastara Palas Atena que auxílio levara aos guerreiros acaios.

Febo entrementes a Eneias do templo sumptuoso impelia força espertando no peito do herói e incontida coragem.

Aos companheiros Eneias correu a reunir-se que mostras deram de muita alegria ao revê-lo com vida e refeito sobre esforçado; contudo ninguém lhe dirige perguntas pois o impedia o trabalho espertado pelo alto frecheiro Ares o grande homicida e a Discórdia que nunca se aplaca.

Os dois Ájaxes Diomedes e o forte Odisseu os Aquivos  estimulavam conquanto nenhum se mostrasse receoso do ímpeto grande dos Teucros nem mesmo dos gritos que davam.

Firmes quedaram-se à espera qual nuvem que Zeus deixa imóvel por ocasião de bonança nos picos mais altos dos montes sem se mexer quando Bóreas ao sono se entrega e os restantes ventos de força impetuosa que soem fazer dissiparem-se quando sibilam violentos as nuvens de aspecto sombrio: firmes os Dánaos desta arte sem medo aos Troianos aguardam.

Por entre as filas o Atrida corria dando ordens diversas: “Sede homens caros amigos e ardor demonstrai combativo! Possa o respeito recíproco a todos na pugna dar ânimo.

São mais poupados na guerra os que sabem morrer briosamente ao passo que os fugitivos nem glória obterão nem defesa.”

Disse e atirou logo a lança que foi atingir na vanguarda a Deicoonte o consócio de Eneias de espírito grande filho de Pérgaso a quem como aos filhos de Príamo os Teucros honras prestavam por ser impetuoso e pugnar na dianteira.

A esse no escudo acertou a haste forte do Atrida Agamémnon.

Não resistiu nada o escudo que a lança de bronze o atravessa indo cravar-se no ventre depois de o talim ter quebrado.

Com grande estrondo caiu ressoando-lhe em torno a armadura.

Por sua vez mata Eneias dois fortes guerreiros argivos os caros filhos de Diocles Orsíloco e Cretone.

Casa na bem construída cidade de Feras o pai tinha pronta opulentíssima.

Era ele da estirpe do Alfeio divino o grande rio que corre através do terreno dos Pílios.

Rei poderoso era Orsíloco oriundo do Alfeio divino; por sua vez gera Orsíloco a Diocles de espírito grande:  Diocles por último foi genitor de dois gémeos galhardos Crétone e Orsíloco em todas as artes da guerra sabidos.

Ambos no viço da idade aos Argivos seguiram quando estes em naus escuras vieram para Ílion nutriz de ginetes a fim de a injúria vingar feita aos filhos de Atreu Agamémnon e Menelau.

A ambos eles a Morte impiedosa recobre.

Como dois fortes leões pela mãe com desvelos criados no mais espesso das matas que os picos dos montes revestem que bois costumam depois assaltar e vistosas ovelhas e as propriedades dos homens devastam até virem a Morte por sua vez a encontrar pela mão de robustos pastores: do mesmo modo eles dois pelo braço de Eneias feridos  sobre o chão duro caíram tal como dois grandes abetos.

Vendo-os tombar teve dó Menelau de Ares forte discípulo.

Corta através das primeiras fileiras em bronze envolvido a lança forte a brandir.

Incitava-o por esse caminho Ares a fim de que fosse cair aos ataques de Eneias.

Mas por Antíloco foi percebido o Nestorida ilustre; corre para ele receando que viesse a sofrer qualquer coisa frustres deixando a eles todos os prémios dos grandes trabalhos.

Já frente a frente os dois cabos de guerra se achavam com as lanças alevantadas querendo dar ambos início ao combate.

Chega-se Antíloco para onde estava o pastor de homens fortes; retrocedeu logo Eneias conquanto guerreiro animoso quando viu juntos dispostos contra ele os dois fortes guerreiros.

Estes então para os homens aquivos os corpos levaram desventurados deixando-os a cargo de seus companheiros e retornaram sem mora a lutar nas fileiras da frente.

Matam Pilémenes logo notável discípulo de Ares cabo viril dos heróis Paflagónios armados de escudos.

A esse que estava de pé com a lança bem junto à clavícula fere o nascido de Atreu Menelau mui famoso lanceiro.

Por sua vez fere Antíloco ao claro cocheiro Midonte filho de Antímnio valente quando ele desviava os cavalos.

Do cotovelo no meio o alcançou grande pedra escapando-se-lhe das mãos as rédeas de enfeites ebúrneos que tombam na poeira.

Salta ferindo-o na fonte com a espada o notável Nestorida.

Estertorando o guerreiro do carro de bela feitura cai de cabeça na poeira onde o crânio até aos ombros enterra.

Por algum tempo ficou desse jeito –que a areia era muita– até que os cavalos ao solo o fizeram rolar quando Antíloco os chicoteou para ao campo levá-los dos homens acaios.

Viu-os Héctor entre as filas dos seus e sobre eles lançou-se com grandes gritos seguido por muitas falanges troianas irresistíveis; Enió e Ares forte serviam de guia.

Leva a primeira consigo o Tormento feroz da batalha;  Ares avança também manejando uma lança monstruosa ora passando na frente de Héctor ora vindo após ele.

Vendo-o Diomedes de voz retumbante ficou receoso.

Como o viandante de meios privado em planície extensíssima pára ante o curso impetuoso dum rio que ao mar se despenha vendo-o espumoso a ressoar e desanda sem mais o caminho:  por esse modo o Tidida recuou dirigindo-se aos sócios: “Caros amigos realmente espantado me sinto ante o modo de o grande Héctor manejar a hasta longa e avançar impetuoso.

Sempre ao seu lado se encontra algum deus que dos golpes o livra.

Ares agora que o vulto assumiu dum mortal o defende.

Por isso tudo recuemos sem dar aos Troianos as costas; não é prudente querer contra os deuses usar de violência.”

Os picadores Troianos já próximos deles se achavam.

Nesse momento Héctor mata a dois fortes e excelsos guerreiros que num só carro se achavam Menestes e Anquíalo bravos.

O grande Ájax Telamónio da sorte dos dois apiedou-se; junto dos corpos se pôs e atirou contra os Troas a lança que em Anfião foi cravar-se de Sélago o filho que tinha casa e terrenos em Peso; porém induzido ele fora pelo Destino a socorro trazer para Príamo e os filhos.

O grande Ájax Telamónio o atingiu bem na altura do cinto indo encravar-se no ventre a hasta longa de sombra comprida.

Com grande estrondo caiu; salta Ájax o guerreiro notável para privá-lo das armas; os Teucros porém lhe atiraram dardos em número grande que em parte no escudo se encravam.

A lança o herói conseguiu arrancar do cadáver firmando-o com o calcanhar; mas não pôde dos ombros tirar-lhe a armadura de alto lavor que se via alvejado por tiros sem conta.

Teve de facto receio do ataque dos Teucros valentes que numerosos e fortes armados de lança o cercaram e a recuar o obrigaram conquanto galhardo ele fosse e de grandíssimo vulto; fremindo de raiva recua.

Por esse modo eles todos no prélio terrível lutavam.

Leva o Destino potente a lutar contra o divo Sarpédon o destemido Tlepólemo de Héracles forte nascido.

Logo que os dois combatentes em frente se acharam um do outro o filho e o neto de Zeus poderoso que as nuvens cumula pôs-se Tlepólemo logo a falar tendo dito o seguinte: “Chefe dos Lícios guerreiros Sarpédon quem te concita a vir mostrar-te medroso se nada de guerra conheces? Não falam certo os que dizem que és filho de Zeus poderoso pois não revelas virtudes que tua pessoa equiparem aos varões fortes nascidos de Zeus nas idades passadas.

Bem diferente por certo é o que de Héracles forte se conta meu audacíssimo pai de coragem leonina dotado   que já aqui esteve uma vez por motivo dos fortes cavalos de Laomedonte em seis naves somente e com bem pouca gente quando destruiu a cidade deixando as estradas desertas.

Alma covarde te anima; teu povo tem sido destruído.

Tenho certeza de que pouco auxílio trouxeste da Lícia para os guerreiros troianos embora valor estadeies.

Ora por mim jugulado o limiar do Hades negro atravessas.”

O comandante dos Lícios Sarpédon disse em resposta: “Ílion sagrada Tlepólemo foi destruída por Héracles em consequência da própria estultícia do herói Laomedonte que benefícios daquele pagou com palavras violentas com recusar-lhe os cavalos que viera buscar de tão longe.

Digo-te entanto que a lívida Morte hás-de agora de minha mão receber; minha espada prostrando-te vai dar-me excelsa fama mandando tua alma para Hades de claros ginetes.”

Ainda falava Sarpédon e a lança de freixo Tlepólemo já levantara; a um só tempo eles ambos as lanças jogaram.

A de Sarpédon o imigo atingiu bem no meio do colo de forma tal que a hasta acerba foi logo sair do outro lado.

Noite escuríssima então sobre os olhos lhe desce envolvendo-os.

Na coxa esquerda no entanto também foi ferido Sarpédon pela hasta longa que as carnes sequiosa do herói atravessa até raspar o osso.

Seu pai dessa vez o salvou do perigo.

Os companheiros galhardos do divo Sarpédon entanto o retiraram da pugna.

Afligia-o demais a hasta longa que era forçado a arrastar pois ninguém se lembrou de lá mesmo da coxa o freixo arrancar-lhe que fácil lhe fosse mover-se tanta era a azáfama e a pressa ao redor do esforçado guerreiro.

Por outro lado os Aquivos do campo o cadáver tiraram do companheiro; esse foi pelo divo Odisseu conhecido o sofredor que sentiu na alma grande incontida revolta.

No coração e no espírito pôs-se a pensar o guerreiro sobre se fora melhor ir no encalço do filho de Zeus de voz tonante ou se a muitos dos Lícios prostrasse sem vida.

Mas o Destino assentara que o filho de Zeus poderoso não pelo bronze do grande Odisseu perecer deveria.

Palas Atena por isso o desviou para a chusma dos Lícios onde sem vida a Cerano deixou ressupino no campo Crómio Hálio Alcandro Noémone Alásior e Pritanis forte.

E porventura a outros Lícios o divo Odisseu prostraria  se por Héctor de penacho ondulante notado não fosse.

Corta através das primeiras fileiras em bronze envolvido; aos Dánaos leva o terror; alegrou-se no entanto Sarpédon filho de Zeus à sua vista e lhe fala com voz lamentosa: “Filho de Príamo faz que eu presa não seja dos Dánaos abandonado; socorre-me.

Possa colher-me após isso  em vossos muros a Morte uma vez que o Destino me nega ver novamente na pátria querida meu rico palácio e à cara esposa e aos filhinhos levar novamente alegria.”

Sem se deter nada disse em resposta a essas suas palavras o grande filho de Príamo Héctor desejoso somente de repelir os Argivos e a muitos privar da existência.

Os companheiros galhardos do divo Sarpédon entanto para debaixo da faia de Zeus poderoso o levaram onde o fiel Pelagonte dos sócios o mais acatado a hasta comprida fraxínea sem mais arrancou-lhe da coxa.

Perde os sentidos o herói; densas trevas aos olhos lhe baixam mas logo volta a viver que de Bóreas o sopro agradável pôde insuflar novo alento no espírito pronto a evolar-se.

Ainda que sob a pressão de Ares forte e de Héctor os Argivos  nem procuravam fugir para o lado das naves escuras nem conseguiam forçar o inimigo; mas cedem recuando por terem visto que ao lado dos Teucros lutava Ares forte.

Qual o primeiro qual o último ali da existência privaram Ares de bronze e o alto Héctor o guerreiro nascido de Príamo? O domador de cavalos Orestes o divo Teutrante Treco lanceiro da Etólia o magnânimo Enómao Heleno filho de Enópio e por último Orésbio do cinto brilhante que em Hile tinha o palácio pejado de grandes tesouros junto do lago Cetísio onde muitos vizinhos contava homens da Beócia que pingues campinas ali cultivavam.

Hera a magnânima deusa dos cândidos braços notando como os Argivos na pugna terrível tombavam sem vida súbito a Palas Atena dirige as palavras aladas: “Palas Atena indomável donzela de Zeus poderoso não passará de promessa o que ao Rei Menelau predissemos de que faria o retorno depois de destruir Ílion forte se consentirmos que assim Ares fero prossiga furioso.

Vamos depressa também tomar parte na pugna terrível.”

A de olhos glaucos Atena aceitou-lhe o conselho de pronto.

Os corredores ornados com belo frontal de ouro puro foi Hera logo atrelar que de Cronos potente nascera.

Hebe sem perda de tempo adaptou no eixo térreo do carro as rodas curvas de bronze nas quais oito raios se viam.

As pinas de ouro maciço eram feitas e o círculo extremo era composto de bronze infrangível espanto dos olhos; de prata pura os dois cubos que giram para ambos os lados; de tiras de ouro e de prata enlaçadas a caixa é formada que protegida se achava por dois parapeitos; do carro sai o timão feito todo de prata; na ponta do mesmo os jugos de ouro afirmou adaptando por último neles os peitorais também de ouro.

Os velozes cavalos por último  Hera conduz para o jugo sequiosa de entrar em combate.

A de olhos glaucos Atena donzela de Zeus poderoso deixa cair logo o peplo no soalho brilhante do Olimpo obra de fino lavor que ela própria tecera e enfeitara.

Veste a loriga de Zeus troante que as nuvens cumula e as demais armas empunha adequadas às guerras lutuosas.

A égide ornada de franjas então sobre os ombros coloca  coisa espantosa de ver pelo frio Terror circundada pela Discórdia a Violência e também pelo Assalto horroroso bem como pela cabeça da Górgona monstro terrível horripilante espectáculo do Crónida Zeus maravilha.

O elmo de dupla cimeira e de quatro saliências coloca de ouro que os homens de cem fortalezas cobrir poderia.

Logo subiu para o carro brilhante tomando da lança grande pesada e robusta com que derrotar costumava turmas de heróis ao zangar-se a nascida do pai poderoso.

Hera os cavalos velozes com o látego logo estimula.

Por próprio impulso rangeram as portas do Céu que se encontrara sob a custódia das Horas que têm a incumbência no Olimpo e no Céu vasto de abrir ou fechar a cortina das nuvens.

Estimulando os cavalos depressa por elas passaram indo a Zeus Crónida achar que sentado sozinho se via dos demais deuses à parte no pico mais alto do Olimpo.

Hera de cândidos braços detém nesse ponto os ginetes e para o Crónida sumo se vira dizendo o seguinte: “Indignação não te causa Zeus pai ver como Ares se excede? Já destruiu muitos homens acaios dos mais afamados sem conveniência nenhuma ao acaso o que muito me aflige.

A Cípria entanto se alegra e assim Febo o deus do arco de prata que a esse demente das leis ignorante a tal ponto excitaram.

Provocarei porventura tua cólera Zeus retirando a Ares do meio da pugna e infligindo-lhe duro castigo?” Disse-lhe então em resposta Zeus grande que as nuvens cumula: “Seja; mas é preferível que Palas atires contra ele a predadora que está acostumada a lhe dar tais castigos.”

Hera de cândidos braços de pronto aceitou-lhe o conselho; com chicotada os cavalos esperta que partem velozes pelo caminho que fica entre a terra e o Céu vasto estrelado.

Quanto consegue com a vista alcançar no horizonte indivíduo que de alta penha procure esguardar o amplo mar cor de vinho tanto dum salto os cavalos das deusas nitrindo avançaram.

Mas quando o plaino de Tróia alcançaram e o ponto em que as águas o Simoente e o Escamandro divino confluentes misturam Hera de cândidos braços deteve os fogosos ginetes desatrelou-os e espessa neblina em redor lhes atira.

Pasto divino fez logo para eles brotar do Simoente.

As duas deusas então como trépidas pombas se foram impacientes de auxílio levar aos guerreiros argivos.

Mas ao chegarem ao ponto em que turmas de heróis se apinhavam em torno à força do grande Diomedes que doma cavalos densos num grupo quais leões voradores de carne cruenta ou javalis cuja força não é para ser desprezada Hera de cândidos braços parou dando um grito terrível sob a figura de Esténtor o herói de voz brônzea tão forte como o clamor que cinquenta mortais em conjunto elevassem: “Ó geração de covardes de bela presença que opróbrio! Enquanto Aquileu divino nos prélios convosco se achava nunca os Troianos ousaram sair pelas portas Dardânias pois medo tinham da lança terrível do herói valoroso Ora se luta bem longe dos muros ao lado das naves.”

Por esse modo excitava o furor e a coragem de todos.

A de olhos glaucos Atena correu para o grande Diomedes.

Junto do carro e dos belos cavalos achou o guerreiro que procurava acalmar a ferida causada por Pândaro.

Muito o afligia o suor sob o peso do escudo redondo de bálteo largo; cansado o deixava e com o braço impotente.

O bálteo afasta da chaga abstergendo-a dos cruores escuros.

Toca nos freios a deusa e dirige a palavra ao guerreiro:  “Em nada o filho do grande Tideu se parece com ele.

Era Tideu em verdade pequeno mas forte e impetuoso.

Lembra-me sim que o proibi certa vez de lutar e até mesmo de procurar distinguir-se quando ele sem outros Aquivos a Tebas fora qual núncio onde achou numerosos Cadmeios.

Quieto insisti que ficasse na sala dos lautos banquetes; ele porém que no peito abrigava o valor consueto nos mais variados torneios venceu os nascidos de Cadmo sem grande esforço que sempre o amparava por modo eficiente.

Ora me encontro ao teu lado e procuro zelosa ajudar-te expressamente ordenando que contra os Troianos combatas.

Mas o cansaço opressivo teus membros domina de todo ou pelo frio temor inibido te encontras.

Por isso vejo que o filho não és do guerreiro de Eneu descendente.”

Disse-lhe o forte Diomedes então em resposta o seguinte: “Eu te conheço sem dúvida filha de Zeus que sustenta a égide.

Quero por isso falar-te sem mais subterfúgios.

Nem indeciso me sinto nem fraco por causa do medo; mas ainda tenho presente o que há pouco tu própria ordenaste ao me proibires lutar contra os deuses eternos do Olimpo  sem distinção; mas se a filha de Zeus poderoso Afrodite na pugna entrasse podia feri-la com bronze afiado.

Por essa causa recuei tendo a todos os outros Argivos aconselhado a que viessem reunir-se-me onde ora me encontro  pois vejo que Ares também toma parte na luta terrível.”

A de olhos glaucos Atena lhe disse o seguinte em resposta: “Ó claro filho do grande Tideu dilectíssimo amigo não tenhas medo nem de Ares nem de outro qualquer dos eternos deuses do Olimpo que sempre te assisto por modo eficiente.

Vamos dirige contra Ares os teus ardorosos ginetes e bem de perto o acomete sem ter complacência nenhuma com esse louco furioso inconstante a maldade em pessoa que prometeu a Hera augusta e a mim própria não faz muito tempo contra os Troianos lutar protegendo os guerreiros aquivos e ora do lado daqueles se encontra esquecido dos outros.”

Mal acabou de falar para trás com a mão puxa a Esténelo para tirá-lo do carro; este lestes saltou para o solo.

A deusa entanto ardorosa subiu para o carro postando-se a par do divo Diomedes.

Com o peso da deusa terrível e de tão grande guerreiro estalou o eixo forte de faia.

Toma das rédeas e empunha o chicote sem perda de tempo Palas e os brutos de cascos possantes contra Ares dirige que a Perifante membrudo das armas nessa hora espoliava o belo filho de Oquésio e o mais forte dos homens da Etólia.

Ares sanguíneo o espoliava.

Com o fim de tornar-se invisível ao deus terrível Atena depressa cingiu o elmo de Hades.

Quando o flagelo dos homens notou que o divino Diomedes vinha para ele no mesmo lugar logo o corpo abandona de Perifante membrudo que tinha de pouco matado indo direito ao encontro do grande cavaleiro Diomedes.

Logo que os dois combatentes em frente se acharam um do outro Ares primeiro inclinado por cima do jugo e das rédeas a lança brônzea jogou desejando da vida privá-lo.

Palas Atena porém de olhos glaucos com a mão a desvia de forma que ela frustrânea passou por debaixo do carro.

Foi o segundo a atirar a sua lança de bronze o guerreiro de voz possante Diomedes a qual por Atena guiada no baixo-ventre foi dar de Ares forte onde o cinto o apertava.

Nesse lugar o feriu tendo a pele macia rasgado.

Palas de novo a arma extrai; Ares brônzeo soltou tão grande urro  como o alarido que soem fazer nove ou dez mil guerreiros duma só vez quando se acham travados em dura batalha.

Amedrontados tremeram os homens aquivos e teucros tão formidável o grito do deus insaciável da guerra.

Tal como fica todo o ar recoberto por nuvens escuras quando o excessivo calor faz soprar algum vento impetuoso: tal ao Tidida Diomedes o vulto do deus Ares brônzeo apareceu ao subir para o céu pelas nuvens envolto.

Rapidamente à morada dos deuses chegou no alto Olimpo indo sentar-se de par com Zeus grande agastado no espírito  a quem o sangue imortal que manava da chaga revela.

Rompe depois em queixumes dizendo as palavras aladas: “Indignação não te causa Zeus pai assistir a tanto abuso? Por comprazer os mortais os eternos estamos sujeitos a indescritíveis tormentos que a mútua discórdia nos causa.

De tudo a culpa tens tu pois geraste uma filha funesta e destituída de senso a quem ímpias acções só comprazem.

Todos os deuses eternos que moram no Olimpo vastíssimo te obedecemos de grado e acatamos submissos tuas ordens.

A ela somente nenhuma censura ou castigo incomoda  se é que não serves de estímulo à peste por ti concebida.

Neste momento acabou de excitar contra os deuses eternos a esse insensato Diomedes que vem de Tideu valoroso.

Primeiramente achegando-se à Cípria feriu-a no carpo; logo depois contra mim se atirou qual se fosse um demónio.

Se não me houvessem livrado meus rápidos pés certamente por muito tempo ficara a sofrer entre as rimas de mortos ou vivo embora sem ânimo aos golpes da lança de bronze.”

Com torvo aspecto lhe disse Zeus grande que as nuvens cumula: “Cessa leviano; não venhas de novo com tuas lamúrias.

És entre todos os deuses aquele a quem mais ódio tenho.

Sempre encontraste prazer em combates contendas e lutas.

De tua mãe por sem dúvida o génio indomável herdaste e insuportável que a minhas palavras a custo obedece.

De seus conselhos presumo teus males origem tiveram.

Mas ainda assim não desejo que sofras por tempo mais longo; és de meu sangue também; tua mãe te gerou de mim próprio.

Se tal como és tão nefasto tivesses por pais outros deuses há muito sim te encontraras mais baixo que os filhos de Urano.”

Manda que Péone então sem demora ali mesmo o curasse.

Péone logo deitou sobre a chaga eficaz lenitivo que o fez sarar pois de facto não era de estirpe terrena.

Como o queijeiro que o leite antes líquido faz que coagule em pouco tempo agitando-o depois de lançar nele o coágulo: Ares violento desta arte depressa curado encontrou-se.

Hebe depois lhe deu banho envolvendo-o em magníficas vestes.

Junto do Crónida Zeus foi sentar-se radiante de glória.

Para a morada de Zeus poderoso também retornaram Hera que em Argos cultuam e Atena a auxiliar poderosa após terem feito que a sanha homicida do deus se acalmasse.


 

CANÇÃO VI

Ficam sozinhos na luta os Troianos e os Dánaos grevados recrudescendo na vasta planície a terrível batalha.

Uns contra os outros as lanças de bronze os guerreiros atiram entre a corrente do Xanto divino e do belo Simoente.

Primeiramente o baluarte dos Gregos Ájax Telamónio rompe a falange dos Troas abrindo uma luz para os sócios com derrubar o melhor dos guerreiros chegados da Trácia o destemido e membrudo Acamante nascido de Eussoro.

Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta indo encravar-se na testa do herói a hasta longa de bronze atravessando-lhe os ossos; as trevas os olhos lhe envolvem.

Mata Diomedes de voz retumbante o admirável Axilo filho do forte Teutrante que tinha em Arisbe a morada bem construída e opulenta; por todos era ele estimado pois para todos sua casa na beira da estrada era franca.

Mas nenhum desses amigos lhe veio servir de anteparo para livrá-lo da Morte; Diomedes a vida tirou-lhe e ao próprio pajem Calésio que então dirigia os cavalos na qualidade de auriga; ambos eles à terra baixaram.

Priva das armas brilhantes Euríalo a dois Dreso e Oféltio indo depois contra Pédaso e Esepo que outrora uma náiade Abarbareia gerou do formoso pastor Bucolionte de Laomedonte divino o mais velho dos filhos embora de nascimento sem brilho provindo de amores furtivos.

Quando cuidava das belas ovelhas à náiade uniu-se de quem ali concebidos dois gémeos formosos nasceram.

Mas o vigor lhes dissolve dos joelhos e membros o filho de Mecisteu que dos ombros as armas também lhes retira.

A morte a Astíalo deu Polipetes guerreiro ardoroso; com sua lança de bronze Odisseu tira a vida a Pidites nado em Percote; Aretáone divo por Teucro foi morto; foi pela lança brilhante de Antíloco o moço Nestorida Áblero morto; Agamémnon a Elato também prostra exânime o qual em Pédaso excelsa morava nas margens do rio Sátnio de bela corrente; ao fugir foi por Lito alcançado Fílaco; as armas Eurípilo toma do escuro Melântio.

Por Menelau gritador foi Adrasto com vida apanhado; desobedientes ao freio corriam no plaino os cavalos os quais levaram o carro recurvo a chocar contra um galho  de tamargueira o que fez que o timão se partisse; assustados para a cidade os cavalos retornam no rasto dos outros.

Cai o guerreiro de bruços bem junto da roda do carro indo de boca no chão; logo perto se achou dele o louro filho de Atreu Menelau com sua lança de sombra comprida.

Passa-lhe os braços à volta dos joelhos Adrasto e suplica: “Ó Menelau não me mates; aceita resgate condigno.

Em seu palácio meu pai acumula preciosos tesouros bem trabalhados objectos de ferro e ouro e bronze abundantes.

Meu genitor te dará de boamente um resgate elevado quando souber que me encontro com vida nas naus dos Aquivos.”

Isso disse ele abalando sem dúvida o peito do Atrida que já inclinado se achava a entregá-lo a um dos servos que o fosse para os navios velozes levar quando o Atrida Agamémnon chega apressado e o impediu com dizer-lhe em voz alta o seguinte: “Ó Menelau compassivo por que para os homens te mostras tão sem vigor? Belas coisas de facto em tua casa fizeram esses Troianos! Por isso da Morte escapar não deixemos quantos às mãos nos caírem sendo homens embora ainda se achem no próprio ventre materno.

Que todos pereçam bem longe  de Ílion destruída sem túmulo algum nem memória deixarem.”

Essas palavras do herói de fatais e prudentes conceitos fazem que o peito mudasse do irmão que com o braço repele o suplicante.

Este foi pelo forte guerreiro Agamémnon no baixo-ventre ferido caindo de costas; o Atrida sobe-lhe em cima do peito arrancando a haste longa de freixo.

Em altas vozes Nestor os guerreiros argivos exorta: “Dánaos guerreiros amigos dilectos discípulos de Ares! Nenhum se deixe ficar para trás tendo em vista somente presas valiosas levar para as naves de casco anegrado.

Ora inimigos matemos; depois com vagar na planície procurareis os cadáveres para das armas despi-los.”

Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos.

E porventura os Troianos teriam para Ílion fugido sob a pressão dos Acaios valentes em franco desânimo se para Eneias e Héctor não tivesse falado nessa hora o nobre filho de Príamo Heleno excelente adivinho: “Em vós Eneias e Héctor os Troianos e os Lícios confiam os mais pesados trabalhos da guerra por terdes em tudo a iniciativa não só nos combates também nos conselhos.

Ora detende-vos para correr as fileiras e os nossos homens conter ante as portas senão todos eles aos braços se atirarão das mulheres objecto de mota do imigo.

Mas uma vez as falanges em ordem de novo e inflamadas procuraremos também contra os Dánaos lutar aqui mesmo ainda que muito cansados que o aperto é de facto imperioso.

Para a cidade depois Héctor corre e instruções leva logo a nossa mãe que sem perda de tempo as matronas reúna  no alto da rocha onde o templo se encontra de Palas Atena.

Após ter franqueado com a chave o recesso sagrado do templo tome do manto maior que na régia bem feita se encontra o de mais fino lavor e que ao peito mais caro lhe seja e sobre os joelhos de Atena de belos cabelos deponha.

Mais: doze vacas prometa imolar no interior do santuário ainda indomadas apenas dum ano sendo ela benigna para a cidade as esposas dos Teucros e nossos filhinhos longe mantendo dos muros sagrados de Tróia o Tidida suscitador poderoso do Medo selvagem guerreiro O qual afirmo-o é o mais forte de todos os homens acaios.

Tanto pavor nem de Aquileu sentimos senhor de guerreiros  filho segundo se diz duma deusa.

Porém tanta é a fúria deste que fora estultícia a um dos nossos querer enfrentá-lo.”

Obedeceu logo Héctor ao conselho que Heleno lhe dera.

Rapidamente do carro pulou sem que as armas soltasse e duas lanças brandindo correu as fileiras do exército a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura.

Voltam agora os Troianos de novo a enfrentar aos Aquivos que por sua vez retrocedem; cessou desse modo a matança.

Imaginaram que algum dos eternos do Céu se atirara para ajudar os Troianos que insólito ardor manifestam.

Em altos brados Héctor se dirige aos guerreiros troianos: “Vós corajosos Troianos e aliados de fama excelente! Sede homens caros amigos e força mostrai impetuosa enquanto vou à cidade falar aos anciões do conselho e a nossas caras esposas que preces aos deuses elevem a todos eles perfeita hecatombe ofertar prometendo.”

Tendo assim dito afastou-se a agitar o penacho do casco.

Nos calcanhares e no alto da nuca o debrum lhe batia de couro preto que à volta se achava do escudo de umbigo.

Glauco nascido de Hipóloco e o grande e valente Tidida  cheios de ardor se avistaram no meio do teatro da luta e caminhando um para o outro afinal frente a frente ficaram.

Disse Diomedes de voz retumbante falando primeiro: “Homem de grande valor de que estirpe mortal te originas? Ainda não tive ocasião de te ver nas batalhas que aos homens glória concedem; no entanto os demais em coragem superas pois vens agora enfrentar minha lança de sombra comprida.

Os que se medem comigo são filhos de pais sem ventura.

Mas se um dos deuses tu fores que moram no Olimpo vastíssimo sabe que contra os eternos não quero em combate medir-me.

Nem mesmo o filho de Driante Licurgo valente mui longa vida alcançou por haver contra os deuses celestes lutado.

Ébrio uma vez de Diónisos ele as amas violento repele do sacro monte de Nisa.

Tomadas de medo indizível  quando o homicida Licurgo contra elas brandiu a aguilhada os tirsos jogam no chão.

Aterrado nas ondas marinhas corre Diónisos a lançar-se onde trémulo Tétis ao seio o recolheu que assaz medo sentia do herói com seus gritos.

Mas depois disso contra ele irritaram-se os deuses felizes tendo-o cegado Zeus Crónida.

A vida bem curta ele teve  por se ter feito odioso aos eternos que moram no Olimpo.

Por isso tudo não quero lutar contra os deuses beatos.

Mas se ao contrário és humano e te nutres dos frutos da terra chega-te e logo hás-de ver-te por certo no extremo funesto.”

Disse-lhe então em resposta o preclaro rebento de Hipóloco: “Grande Tidida por que saber queres a minha ascendência? As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores que umas os ventos atiram no solo sem vida; outras brotam na Primavera de novo por toda a floresta viçosa.

Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.

Já que desejas porém conhecer meus avós vou dizer-te qual seja a minha progénie por muitos decerto sabida.

No centro de Argos nutriz de cavalos os muros se elevam de Éfira sob o comando do mais astucioso dos homens Sísifo de Éolo filho; de Sísifo Glauco proveio.

Belerofonte o admirável de Glauco a existência recebe.

Deram-lhe os deuses beleza e vigor varonil aliado a génio afável.

Mas Preto insidioso da pátria o repele pois tinha mais influência do que ele entre os homens argivos por os haver submetido ao seu ceptro o nascido de Cronos.

A diva Ameia consorte de Preto em desejos ardia de às escondidas unir-se-lhe sem ter contudo abalado Belerofonte prudente de castos e leais pensamentos.

Vira-se então para o esposo e falseando a verdade lhe disse: “Ou tira a vida de Belerofonte ou consente em morreres Preto por ter querido ele obrigar-me a um ilícito amplexo.”

A essas palavras o rei foi tomado de cólera ingente.

Não quis da vida privá-lo por ter em verdade receio; mas para a Lícia o enviou tendo escrito uns sinais mui funestos em duas tábuas fechadas que ao sogro mandou que entregasse para que viesse a morrer visto morte os sinais inculcarem.

Em companhia dos deuses se pôs a caminho o guerreiro.

Quando porém alcançou a corrente do Xanto na Lícia foi pelo rei do amplo reino por modo benigno acolhido.

Em nove dias matou nove bois que aos celestes oferta: mas quando ao décimo a Aurora de dedos de rosa surgiu fez-lhe perguntas de ver os sinais desejoso mostrando-se que de seu genro da parte de Preto lhe tinha trazido.

Logo porém que o sentido aventou dos fatais caracteres primeiramente a incumbência lhe deu de extinguir a Quimera   originária não de homens mortais mas de estirpe divina: era na frente leão drago atrás e no meio quimera que borbotões horrorosos de fogo lançava das fauces.

Certo do amparo dos deuses sozinho ele o monstro aniquila.

Teve depois de lutar contra os Sólimos fortes sozinho seu mais terrível encontro segundo ele próprio o dizia.

Como terceira incumbência destruiu as viris Amazonas.

Outra perfídia contra ele ao voltar o hospedeiro excogita: tendo escolhido os melhores guerreiros da Lícia vastíssima numa emboscada os postou; não reviu nenhum deles a pátria; Belerofonte o impecável a todos privou da existência.

Reconhecendo afinal que um dos deuses o tinha gerado soube retê-lo no reino fazendo-o casar com a filha e dividindo com ele a honraria e o poder da realeza.

Deram-lhe os Lícios também um pedaço excelente de terra própria igualmente para uso do arado e cultivo de frutas.

Três filhos teve da esposa o magnânimo Belerofonte; foram Hipóloco Isandro e Laodamia gentil e formosa.

A esta se uniu em conúbio amoroso Zeus grande e prudente tendo gerado ao guerreiro esforçado o divino Sarpédon.

Mas quando alfim se tornara também pelos deuses odiado e pelos campos Aleios famosos vagava sozinho a alma por dentro a roer e a fugir do convívio dos homens Ares o deus insaciável a Isandro privou da existência num combate com os Sólimos fortes de fama excelente.

Ártemis das rédeas de ouro zangada matou Laodamia.

Enquanto a mim tenho orgulho de filho chamar-me de Hipóloco que me mandou para Tróia sagrada insistindo comigo para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me sem desonrar a linhagem dos nossos que sempre entre os fortes de Éfira foram contados bem como na Lícia vastíssima.

Esse o meu sangue essa a estirpe que só de nomear me envaideço.”

Isso disse ele; alegrou-se Diomedes de voz retumbante; finca a hasta brônzea na terra de heróis a nutriz generosa e com palavras afáveis saudou o pastor de guerreiros: “Hóspede és meu desde o tempo de nossos avós vejo-o agora.

Por vinte dias seguidos Eneu o divino agasalho deu em seu belo palácio ao magnânimo Belerofonte tendo ambos dons hospedais de subido valor permutado.

Foi o penhor da amizade de Eneu cinturão purpurino;  Belerofonte lhe deu uma copa adornada com alça de ouro que em casa deixei quando tive de vir para Tróia.

Quanto a Tideu não me lembra pois era criança quando ele foi para Tebas e o exército acaio ficou destruído.

Por essa antiga amizade és meu hóspede em Argos ao passo que me farás grato hospício se um dia eu chegar até à Lícia.

Cumpre portanto que no meio da pugna um ao outro poupemos.

Para matar não me faltam Troianos excelsos e aliados quem quer que um deus me conceda ou quem chegue a alcançar na carreira; sobram-te Aqueus outrossim para a muitos privares da vida.

Ora troquemos as armas porque possam todos os outros reconhecer que nós dois nos gloriamos da avita amizade.”

Ambos dos carros desceram depois de assim terem falado e logo apertos de mão como prova de afecto trocaram.

Foi quando o Crónida Zeus o juízo de Glauco conturba por ter querido trocar com Diomedes as armas que tinha: ouro por bronze o valor de cem bois pelo preço de nove.

Às portas Ceias Héctor entrementes e à faia chegando pelas esposas e filhas dos Teucros se viu circundado que pelos seus perguntavam ansiosas por filhos e manos  primos e esposos.

Héctor recomenda que aos deuses orassem em procissão; mas a muitos já havia a desgraça atingido.

Logo depois alcançou o palácio mui belo de Príamo todo ladeado de pórticos feitos de pedras lavradas.

Nele cinquenta aposentos se viam de mármore polido todos contíguos nos quais numerosos os filhos de Príamo do grato sono fruíam ao lado de suas esposas.

Do lado oposto do pálio de frente para estes havia doze aposentos também para as filhas de mármore polido todos contíguos.

Os genros de Príamo ali do repouso grato fruíam ao lado de suas esposas legítimas.

Foi nessa altura que a mãe amorosa ao encontro lhe veio que acompanhava até casa a mais bela das filhas Laódice.

Toma-lhe a mão e falando lhe diz as seguintes palavras: “Filho a que vens até aqui? Por que causa deixaste o combate? Sim certamente é mui grande a pressão dos malditos Acaios contra a cidade sagrada.

Por isso teu peito te trouxe para que do alto da acrópole a Zeus as mãos ambas alçasses.

Pára aqui um pouco que vinho mais doce que o mel vou buscar-te para que libes a Zeus e às demais divindades eternas  e tuas forças restaures também após haveres bebido.

Tónico é o vinho excelente para o homem no extremo das forças tal como te achas de tanto lutar em defesa da pátria.”

Disse-lhe Héctor em resposta o guerreiro do casco ondulante: “Mãe veneranda não tragas a doce bebida; receio que os fortes braços me enerve vindo eu a perder toda a força.

A reverência me impede de vinho ofertar a Zeus grande com mãos impuras.

É impróprio assim sujo de poeira e de sangue preces alçar ao que nuvens cumula no Olimpo vastíssimo.

Com muito incenso no entanto dirige-te ao templo de Palas a predadora depois de as matronas haveres reunido.

Toma do manto maior que na régia bem feita encontrares  o de mais fino lavor e que ao peito mais caro te seja e sobre os joelhos de Atena o coloca de belos cabelos.

Mais: doze vacas promete imolar no interior do santuário ainda indomadas apenas dum ano sendo ela benigna para a cidade as esposas dos Teucros e nossos filhinhos longe mantendo dos muros sagrados de Tróia o Tidida suscitador poderoso do Medo guerreiro selvagem.

Ao templo pois te dirige de Palas Atena indomável  enquanto vou à procura de Páris a fim de incitá-lo para o combate se ouvidos me der.

Ah se a terra se abrisse subitamente! Um fautor de desgraças nascer fez o Olímpio para o magnânimo Príamo os filhos e o povo troiano.

Se concedido me fosse assistir-lhe à descida para o Hades esquecer-se-ia minha alma por certo dos males presentes.”

Disse; ela então para casa voltou tendo às servas dado ordens que as venerandas matronas por toda a cidade chamassem.

Ao aposento fragrante baixou logo após onde peplos inumeráveis se achavam de grande brancura tecidos pelas mulheres sidónias.

O divo Aléxandros os trouxera da populosa Sídon justamente no tempo em que a Helena de nobilíssimo pai por caminhos extensos raptara.

Hécabe um desses tomou para a Palas Atena ofertá-lo o mais bonito e maior que se achava por baixo de todos de brilho igual ao dos astros e enfeites de fino trabalho.

Pelas matronas seguida a caminho se pôs sem demora.

Logo que o templo de Atena alcançaram no burgo elevado Teano formosa nascida do claro Cisseu lhe abre as portas filha e consorte do forte Antenor domador de cavalos.

Sacerdotisa a elegeram de Palas Atena os Troianos.

Todas a Palas elevam as mãos e bradando suplicam.

Tendo tomado do peplo Teano de faces formosas foi colocá-lo nos joelhos de Atena de belos cabelos e em prece ardente implorou à nascida de Zeus poderoso: “Ó venerável Atena defesa de nossa cidade quebra do forte Diomedes a lança ou o derruba tu própria das portas Ceias em frente de bruços no solo fecundo que doze vacas ao templo sem mora viremos trazer-te ainda indomadas apenas dum ano se fores benigna para a cidade as esposas dos Teucros e nossos filhinhos!” Não foi a súplica entanto por Pala Atena acolhida.

Enquanto à filha de Zeus poderoso elas todas oravam encaminhava-se Héctor ao palácio do divo Aléxandros belo de ver que ele próprio construíra com a ajuda de artífices de fama excelsa os melhores da terra abençoada de Tróia.

Estes o tálamo e a sala elevaram e o pátio espaçoso perto dos paços de Príamo e Héctor no ponto alto da Acrópole.

Entra o guerreiro a Zeus caro no belo palácio levando a forte lança na mão de onze cúbitos com reluzente  extremidade de bronze firmada por círculo de ouro.

Acha a Aléxandros no tálamo atento no exame das armas de primorosa feitura a apalpar o arco forte e brunido.

A argiva Helena se achava a seu lado no meio das servas a dirigir os trabalhos que todas cuidosas faziam.

Vendo-o com termos violentos Héctor o censura dizendo: “Recomendáveis não são ó infeliz esses teus sentimentos.

Fora dos muros o povo perece na crua peleja.

Por tua causa acendeu-se esta guerra que em volta de Tróia arde sem pausa nenhuma.

Tu próprio quiçá te indignaras caso encontrasses alguém que fugisse à defesa da pátria.

Vamos; se não logo logo há-de a chama inimiga atingir-nos.”

Páris de formas divinas lhe disse em resposta o seguinte: “É justo Héctor o que dizes; contrário à razão não me falas.

Por isso vou contestar-te pedindo que ouvido me prestes.

Certo não foi por achar-me agastado com os Troas que ao tálamo me recolhi mas por causa da dor que me o peito angustia.

Neste momento com doces palavras a cara consorte me aconselhava a voltar para a luta.

Eu também já pensara que é bem melhor desse modo.

A vitória tem suas mudanças.

Por uns instantes espera que as armas de guerra eu envergue; ou melhor vai: que em teus passos já sigo esperando alcançar-te.”

Nada lhe disse em resposta o guerreiro do casco ondulante.

Vira-se Helena para este com termos afáveis e fala: “Caro cunhado da pobre que apenas desgraças espalha! Fora melhor bem melhor que no dia em que a luz vi do mundo arrebatado me houvesse de casa terrível procela para nos montes lançar-me ou nas ondas do mar ressoante que me teriam tragado evitando esta grande catástrofe.

Mas já que os deuses quiseram que tudo desta arte se desse fosse-me então destinado marido melhor que as censuras dos companheiros sentisse e a desonra daí decorrente.

Este porém nunca teve firmeza nem nunca há-de tê-la.

Por isso mesmo estou certa há-de os frutos colher dentro em breve.

Mas entra um instante sequer e repousa sobre esta cadeira caro cunhado que mais do que todos suportas o peso das consequências de minha cegueira e da culpa de Páris.

Triste destino Zeus grande nos deu para que nos celebrem nas gerações porvindouras os cantos excelsos dos vates.”

Disse-lhe Héctor em resposta o guerreiro do casco ondulante:  “Não é possível Helena aceitar-te o convite amigável pois o meu peito me incita a correr em ajuda dos nossos que já se encontram por certo impacientes com a minha demora.

A este porém manda-o logo ou se apresse espontâneo a vestir-se  para que possa alcançar-me ainda dentro dos muros de Tróia enquanto a casa de bela feitura dirijo-me para mais uma vez ver os criados a esposa dilecta e o filhinho.

É por sem dúvida incerto se possa voltar a revê-los ou se por mão dos Aquivos os deuses à Morte me entregam.”

Tendo assim dito afastou-se a agitar o penacho do casco.

Pouco depois alcançava o palácio de bela feitura; mas não achou no interior do aposento a formosa consorte que juntamente com o filho e uma serva de manto vistoso no alto da torre se fora postar a chorar aflitíssima.

Não tendo Héctor no palácio encontrado a impecável Andrómaca para a saída retorna apressado e às escravas pergunta: “Toda a verdade donzelas dizei-me sem nada ocultar-me: para onde foi a senhora se dentro de casa não se acha? Foi porventura em visita às cunhadas de peplos formosos ou com as outras Troianas ao templo de Palas Atena  onde procuram a deusa tremenda aplacar com pedidos?” A despenseira solícita disse-lhe então em resposta: “Já que me mandas Héctor informar-te de toda a verdade nem em visita se encontra às cunhadas de peplos formosos nem com as outras Troianas no templo de Palas Atena onde procurem a deusa tremenda aplacar com pedidos.

Foi sim à torre altanada depois de saber que os Troianos cedem terreno ante a força maior dos guerreiros acaios.

Fora de si para os muros correu onde agora se encontra como uma louca; o menino pela ama também foi levado.”

A essas palavras da serva Héctor sai novamente de casa a desandar o caminho de bela feitura apressado.

Quando depois de correr pela grande cidade alcançara as portas Ceias por onde devia passar para o campo sai-lhe ao encontro a correr a consorte de dote copioso a nobre filha de Eécion o guerreiro magnânimo Andrómaca o grande Eécion que o palácio construíra no Placo selvoso e comandava os Cilícios em Tebas chamada a Hipoplácia.

A filha a Héctor como esposa entregara o guerreiro arnesado.

Esta ao encontro lhe veio seguida duma ama solícita  a qual nos braços trazia o filhinho de Héctor ainda infante só comparável à vista inefável dum astro fulgente.

O nome Héctor de Escamândrio lhe pôs; mas as outras pessoas o de Astianacte que o pai era o amparo dos muros de Tróia.

Ao ver o filho o guerreiro sorriu sem dizer coisa alguma.

Pôs-se-lhe ao lado a impecável Andrómaca em pranto desfeita; toma-lhe a mão e falando lhe diz as seguintes palavras: “Tua coragem te perde cruel! Não te apiadas ao menos de teu filhinho inocente ou de minha desdita ficando cedo viúva de ti quando os feros Aqueus te matarem?  A ti somente eles visam.

Bem mais vantajoso me fora que antes de vir a perder-te se abrisse o chão duro.

Nenhuma outra esperança me resta colhendo-te o negro Destino.

Dores somente; nem pai ora tenho nem mãe veneranda.

Foi por Aquileu divino meu pai da existência privado quando a cidade imponente dos homens cilícios destruiu Tebas de portas muito altas.

Aquileu a Eécion tira a vida sem despojá-lo das armas contudo; a consciência o impediu.

Tendo-o queimado na pira com as armas de fino trabalho um monumento lhe fez erigir que as oréades logo  de olmos vistosos cercaram as filhas de Zeus poderoso.

Meus sete irmãos que comigo viviam em nosso palácio num só dia baixaram para o Hades de aspecto sombrio.

O divo Aquileu de rápidos pés a eles todos deu morte quando guardavam bois tardos e ovelhas de velo argentino.

A minha mãe tão-somente senhora do Placo selvoso que para aqui ele trouxe com seus opulentos haveres deu liberdade depois de exigir um vultoso resgate; ela no entanto por Ártemis foi no palácio frechada.

És para mim caro Héctor assim pai como mãe veneranda és meu irmão de igual modo e marido na idade florente.

Tem pois piedade de mim; fica um pouco na torre; não queiras órfão o filho deixar nem viúva a consorte querida.

Junto da grande figueira coloca mais gente onde há acesso para a cidade mais fácil que o muro permite escalada.

Já por três vezes tentaram subi-lo os heróis mais valentes da companhia dos fortes Ájaxes dos claros Atridas de Idomeneu valoroso e do forte e preclaro Tidida ou por conselho de algum sabedor do fatal vaticínio ou pela própria coragem a assim proceder impelidos.”

Disse-lhe Héctor em resposta o guerreiro do casco ondulante: “Tudo isso esposa também me preocupa; mas quanta vergonha dos outros homens e assim das Troianas de peplos compridos eu sentiria se infame fugisse às pelejas cruentas! Isso meu peito proíbe ensinando-me a ser valoroso e a combater sempre à frente dos fortes guerreiros de Tróia para mor lustre da glória paterna e de meu próprio nome.

O coração claramente mo diz e a razão mo confirma: dia virá em que Tróia sagrada será destruída bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.

Menos porém me acabrunha o destino que aos Teucros espera ou mesmo o de Hécabe ou a sorte que a Príamo está reservada e a meus irmãos numerosos que embora valentes na poeira hão-de jogados ficar sob os golpes de imigos ferozes que imaginar-te arrastada por um desses duros Aquivos de vestes brônzeas em prantos sem nada dos dias felizes.

Às ordens de outra mulher hás-de em Argos tecer belos panos ou te verás obrigada a trazer de Hipereia ou Messeida água bem contra a vontade agravada por doestos pesados.

E porventura dirá quem te vir humilhada chorando:  ‘Eis aí a esposa de Héctor o guerreiro mais forte e galhardo quando ao redor das muralhas de Tróia incessante era a luta.

’ Isso dirão aumentando-te a dor de não teres esposo o homem capaz de livrar-te dos dias do vil cativeiro.

É preferível que a terra fecunda meu corpo recubra a ter de ouvir-te os lamentos ao seres levada de rastos.”

Disse e estendeu para o filho as mãos ambas visando abraçá-lo.

Mas teve medo a criança do aspecto do pai; e gritando ao seio da ama acolheu-se de bela cintura.

Estranhara o inusitado fulgor do elmo aéneo de grande cimeira pelo galhardo e oscilante penacho de crina encimado.

O pai e a mãe veneranda a um só tempo sorriram de gozo.

O refulgente elmo então da cabeça tirou o guerreiro pondo-o cuidoso depois ao seu lado na terra fecunda.

E logo o filho nos braços tomando depois de beijá-lo a Zeus e a todos os deuses eternos suplica fervente: “Zeus poderoso e vós outros ó deuses eternos do Olimpo que venha a ser o meu filho como eu distinguido entre os Teucros de igual vigor e que em Ílion depois venha a ter o comando.

E que ao voltar dos combates alguém diga ao vê-lo: ‘É mais  ainda que o pai!’ Possa a mãe veneranda à sua vista alegrar-se após ter matado o inimigo pesado de espólios cruentos!” Disse e nos braços da esposa dilecta depõe o filhinho.

Ela afectuosa o acolheu e o afagou no fragrante regaço rindo entre lágrimas.

Mui comovido ante o quadro o guerreiro acariciando-a com a mão lhe dirige as seguintes palavras: “Minha tolinha por que desse modo afligires tua alma? Homem nenhum poderá contra o Fado mandar-me para o Hades pois quero crer que a ninguém é possível fugir ao destino desde que nasça seja ele um guerreiro de prol ou sem préstimo.

Para tua casa recolhe-te e cuida dos próprios lavores roca e tear assim como às criadas transmite tuas ordens para que tudo executem que aos homens que em Tróia nasceram mormente a mim está afecto pensar quanto à guerra concerne.”

O elmo de equino penacho depois retomou o guerreiro.

Para o palácio retorna entrementes a esposa virando-se a cada passo a verter pela estrada amaríssimo pranto.

Quando chegou ao palácio de bela feitura do insigne e incontrastável guerreiro cercada se viu pelas servas que prorromperam também a chorar quando aflita a enxergaram.

Na própria casa de Héctor ainda vivo por morto o choravam pois esperança não tinham de que ele voltar conseguisse  salvo das mãos dos Aquivos à fúria da guerra escapando.

Páris também não ficou muito tempo na estância elevada mas tendo as armas de bronze vestido de fino trabalho corta apressado a cidade nos rápidos pés confiado.

Como galopa um cavalo habituado no estábulo quando pode do laço escapar e fogoso a planície atravessa para ir banhar-se impaciente na bela corrente do rio; cheio de orgulho soleva a cabeça; por sobre as espáduas bate-lhe a crina agitada; consciente da própria beleza levam-no os pés para o prado onde os outros cavalos se reúnem: Páris o filho de Príamo assim desce do alto da Acrópole da sacra Pérgamo envolto em couraça que a vista ofuscava.

Vem exultante; seus rápidos pés o conduzem em pouco tempo aonde Héctor se encontrava o divino guerreiro que tinha precisamente deixado o local em que à esposa falara.

Foi o primeiro a falar Aléxandros de formas divinas: “Mano bem vejo que muito te fiz esperar quando tinhas tão grande pressa; não fui diligente conforme o ordenaste.”

“Disse-lhe Héctor em resposta o guerreiro do casco ondulante: “Páris nenhuma pessoa de espírito justo pudera desconhecer teu valor nos combates porque és corajoso.

Mas voluntário te escusas; não queres lutar.

Isso o peito muito me punge quando ouço as censuras que soem fazer-te os picadores troianos que tanto por ti têm sofrido.

Mas por agora sigamos; que disso depois cuidaremos quando Zeus pai consentir que ofertemos a grande cratera da liberdade aos eternos nos nossos palácios bem feitos quando dos muros de Tróia expulsarmos os fortes Aquivos.”


 

CANÇÃO VII

As portas Ceias Héctor atravessa o guerreiro esplendente acompanhado do irmão Aléxandros. Impacientes estavam na alma os dois cabos troianos de entrar em combates e lutas.

Do mesmo modo que nautas ansiosos recebem propício vento que um deus lhes envia ao se acharem no mar espumoso completamente esgotados no rude trabalho dos remos: aos dois guerreiros assim os Troianos ansiosos recebem.

Páris ali matou logo a Menéstio nascido de Areítoo o porta-clava que em Arne palácio sumptuoso possuía.

Filomedusa a formosa consorte esse filho lhe dera.

Por sua vez Héctor fere a Eioneu com a lança pontuda sob a celada de bronze no colo tirando-lhe a vida.

Glauco nascido de Hipóloco chefe dos Lícios guerreiros no ombro de Ifínoo Dexíada a lança de bronze arremessa quando na crua peleja tentava subir para o carro.

Tomba o guerreiro no chão; dissolveu-se-lhe a vida dos membros.

A de olhos glaucos Atena donzela de Zeus percebendo como os Argivos na pugna terrível caíam sem vida célere baixa passando por cima dos picos do Olimpo  para Ílion santa.

Mas do alto de Pérgamo veio encontrá-la Febo que estava a pensar na vitória dos homens de Tróia.

Aproximando-se um do outro encontraram-se junto à figueira.

Foi o primeiro a falar o nascido de Zeus Febo Apolo: “Filha de Zeus poderoso por que novamente baixaste com tanta pressa do Olimpo? Que nova paixão te comove? Queres fazer que a indecisa batalha se mude em vitória para os Aqueus? Não tens pena bem sei dos Troianos que morrem Fora bem mais proveitoso que agora um conselho me ouvisses: tréguas façamos por hoje somente aos combates e lutas; mas amanhã reinicie-se a fera peleja até que Ílion ponham por terra os Aqueus visto que ambas –ó deusas eternas!– determinastes que seja destruída esta bela cidade.”

A de olhos glaucos Atena lhe disse em resposta o seguinte: “Seja assim mesmo frecheiro infalível; baixei do alto Olimpo para os Troianos e Aqueus justamente a pensar nesse plano.

Mas de que jeito pergunto imaginas pôr fim a esta pugna?” Disse-lhe então em resposta o nascido de Zeus Febo Apolo: “A alma ardorosa de Héctor o ginete esforçado incitemos a provocar para duelo a qualquer dos Aquivos guerreiros  que porventura se atreva a lutar corpo a corpo com ele.

Penso que cheios de espanto os Acaios de grevas bem feitas  incitarão um dos seus a enfrentar o divino guerreiro.”

A de olhos glaucos Atena ao conselho de pronto obedece Na alma sentiu logo.

Heleno nascido de Príamo quanto era agradável aos deuses a ideia que então lhe ocorrera.

Junto de Héctor se deteve e lhe disse as seguintes palavras: “Filho de Príamo Héctor semelhante a Zeus grande no engenho na qualidade de irmão poderei ministrar-te um conselho? Faz que cesse a peleja entre os homens aqueus e os Troianos e para duelo provoca inimigo mais forte e valente que porventura se atreva a lutar corpo a corpo contigo.

Ainda o momento não veio de a Morte funesta encontrares que isso me foi revelado na voz das eternas deidades.”

Grande alegria ao ouvir tais palavras Héctor manifesta e começando a correr com a lança segura no meio manda que os Teucros parassem os quais prontamente obedecem.

Fez Agamémnon então que os Acaios grevados parassem.

Palas Atena a donzela de Zeus e o deus do arco de prata a forma de aves tomaram de abutres de voo altanado  e se assentaram na faia dedicada a Zeus que a égide vibra donde os guerreiros admiram que em densas fileiras pararam completamente eriçadas de escudos e lanças pontudas.

Como se dá quando Zéfiro se alça e provoca arrepios na superfície do mar que se torna de pronto anegrado: da mesma forma ondulavam Troianos e Acaios valentes pela planície.

Avançando para eles Héctor assim fala: “Ora guerreiros troianos grevados Acaios prestai-me toda a atenção que no peito me ordena falar-vos o espírito! Os juramentos não quis Zeus potente que fossem mantidos pois nos reserva sem dúvida muitos e graves trabalhos até que possais submeter a cidade de torres altivas ou que vencidos fiqueis junto às naves de rápido curso.

Em vosso meio se encontram os homens mais fortes da Acaia.

Desses o que se atrever a medir-se em duelo comigo saia das filas e como adversário de Héctor se enalteça.

Seja Zeus grande o fiador do que a todos agora proponho: caso com bronze afiado me venha a matar que me tire esse guerreiro a armadura e a deponha em seu barco ligeiro; mas restitua meu corpo que possam depois os Troianos  e as venerandas consortes à pira sagrada entregá-lo.

Se Febo Apolo porém me fizer vencedor do adversário despojá-lo-ei da armadura e levando-a para Ílion sagrada no templo irei pendurá-la de Apolo frecheiro infalível mas o cadáver será restituído aos navios simétricos para que os fortes Aquivos cacheados lhe dêem sepultura e um monumento lhe elevem na margem do largo Helesponto para que possam dizer as pessoas dos tempos vindouros  quando em seus barcos de remos cruzarem o mar cor de vinho: ‘Eis o sepulcro dum homem que a vida perdeu há bem tempo; pelo admirável Héctor em combate esforçado foi morto.

’ Isso dirão certamente; imortal há-de ser minha glória.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram.

De recusar tinham pejo; porém de anuir muito medo.

Até que por fim Menelau se levanta e com termos violentos os companheiros censura pois sua aflição era grande: “Bando covarde de Acaias não digo de Aqueus bons de língua! Para nós todos será grande opróbrio o mais grave e humilhante que nenhum Dánao revele coragem de a Héctor contrapor-se.

Em água e terra virar se pudésseis em vez de ficarem  todos sentados assim onde se acham com medo e sem honra! Pois cingirei minhas armas para ir combatê-lo que é certo só dos eternos do Olimpo depende alcançar a vitória.”

Tendo isso dito envergou logo ali a armadura brilhante.

E por sem dúvida o fim Menelau da existência encontraras nas mãos de Héctor por ser ele dotado de muito mais força se não tivessem corrido a sustá-lo os mais nobres Aquivos conjuntamente com o Rei Agamémnon rei poderoso que pela destra o tomando lhe diz as seguintes palavras: “Enlouqueceste discípulo de Zeus? Não estamos em tempo de praticar desatinos.

Embora não possas contém-te.

Não te aventures por coisa de nada a lutar com o preclaro filho de Príamo Héctor de quem outros também se receiam.

O próprio Aquileu que muito te excede em virtude guerreira mostra receio de vir a encontrá-lo no prélio homicida.

Volta por isso a sentar-te no meio de teus companheiros pois contra Héctor um adversário faremos sem dúvida alçar-se.

Ainda que impávido seja e se mostre sequioso de lutas tenho certeza de que há-de dobrar os joelhos embora possa com vida escapar do recontro e da ardente peleja.”

Essas palavras do herói de fatais e prudentes conceitos fazem que o irmão se arrefeça.

Obedece.

Mostrando-se alegres os escudeiros as armas brilhantes dos ombros lhe tiram.

Vira-se entanto Nestor para os outros Argivos e fala: “Deuses que dor indizível se abate nos povos acaios! Como há-de o velho Peleu picador suspirar de contínuo o conselheiro e fecundo orador dos valentes Mirmídones ele que tanta alegria mostrou certa vez em sua casa ao me inquirir sobre a raça e a prosápia dos homens aquivos! Mas se ele viesse a saber que ora todos de Héctor mostram medo elevaria sem dúvida as mãos para os deuses pedindo que da existência privado o mandassem para o Hades sombrio.

Fosse do gosto de Zeus e de Palas Atena e de Apolo que remoçasse de novo qual era no tempo em que os Árcades  e os fortes Pílios lutaram ao pé do veloz Celadonte junto dos muros de Feias nas ribas florentes do Járdano! Ereutalião vinha à frente daqueles semelho a um dos deuses nos ombros largos trazendo a armadura de Areítoo potente o divo Areítoo também conhecido entre os seus pela alcunha de ‘Porta-clava’ que os homens e as belas mulheres lhe deram  por não usar nos combates nem lança temível nem arco sim grande clava de ferro com a qual as falanges rompia.

Foi por Licurgo da vida privado à traição não por força num local muito estreito onde a clava de ferro da Morte não o podia livrar.

Adiantou-se Licurgo primeiro atravessando-lhe o corpo com a lança.

Ao cadáver supino tira-lhe a bela armadura presente do próprio Ares brônzeo a qual depois tão-somente na guerra vestir costumava.

Quando a velhice porém no palácio alcançou a Licurgo a Ereutalião seu fiel sócio o despojo entregou como dádiva.

Este com tal armadura os mais fortes heróis provocava.

Todos porém tinham medo e tremiam; ninguém se arriscava.

Eu tão-somente o mais moço de todos me leva a enfrentá-lo o coração ardoroso confiado na audácia nativa.

Sim defrontámo-nos; Palas Atena me deu a vitória.

Grande e fortíssimo era ele; no entanto o privei da existência: ei-lo a ocupar área enorme com sua invulgar estatura.

Se remoçar conseguisse e o vigor aos meus membros tornasse não vacilara em sair contra Héctor de elmo altivo e ondulante.

Vós entretanto que sois os mais fortes guerreiros da Acaia  não demonstrais ardimento de Héctor enfrentar valoroso!” Essas censuras do velho fizeram que nove guerreiros se levantassem: primeiro de todos o Atrida Agamémnon; logo depois o Tidida Diomedes de forte estatura; os dois Ájaxes depois revestidos de força guerreira; Idomeneu a seguir o seu fiel companheiro Meríones que tinha de Ares funesto a figura exterior e a imponência; segue-se Eurípilo o filho preclaro de Evémone ilustre; Toante por fim de Andrémon descendente e Odisseu valoroso.

Todos a o ínclito Héctor enfrentar se mostraram dispostos.

Volta a falar-lhes o velho guerreiro Nestor de Gerena: “Ora vejamos por meio da sorte quem há-de bater-se.

Agradecidos ser-lhe-ão os Acaios de grevas bem feitas sobre ser útil também para si caso ao campo retorne salvo escapando com vida do encontro e da fera peleja.”

Obedeceram-lhe prestes marcando cada um uma pedra que depois no elmo vistoso lançaram do Atrida Agamémnon.

Súplices todos imploram aos deuses as mãos elevando.

Muitos olhando para o alto diziam seus votos ferventes: “Que seja Ájax Telamónio Zeus pai o sorteado ou Diomedes   ou faz a escolha cair no monarca da rica Micenas!” Por esse modo imploravam; o Pílio Nestor sacode o elmo; do elmo saltou logo a sorte de Ájax a que todos pediam.

Pela direita começa então logo um dos fortes arautos a percorrer as fileiras mostrando-a aos preclaros Aquivos.

Todos porém recusavam pegá-la que sua não era.

Mas quando o arauto depois de por todos passar chegou perto do próprio autor do sinal posto no elmo de Ájax impecável este a mão logo estendeu sua sorte tomando do arauto pois conhecera que a senha era sua com isso alegrando-se.

Lança-a depois para o chão junto aos pés prorrompendo desta arte: “É minha amigos a marca o que imensa alegria me causa pois desse encontro com Héctor ainda espero sair vitorioso.

Vamos! Enquanto me ocupo em vestir a armadura brilhante endereçai fervorosa oração a Zeus filho de Cronos mas em silêncio que nada o percebam os homens troianos ou se o quiserdes às claras que nada nos causa receio.

Certo uma vez decidido ninguém poderá nem por arte nem pela força obrigar-me a recuar pois nascido e educado em Salamina não fui para ser indivíduo sem préstimo.”

Isso disse ele; os demais obedientes a Zeus imploraram.

Muitos olhando para o alto diziam seus votos ferventes: “Zeus pai que no Ida demoras senhor poderoso e superno! Que saia Ájax vencedor! Dá que fama gloriosa ele alcance! Mas se tiveres cuidado de Héctor se afeição lhe dedicas que ambos então se equilibrem no esforço e na fúlgida glória.”

Isso diziam.

Ájax entrementes o bronze vestira.

Logo que o corpo ficou recoberto por toda a armadura ei-lo que avança como Ares terrível fazer tem por hábito ao penetrar nas batalhas dos homens que o filho de Cronos uns contra os outros atira em conflito de atroz extermínio.

Por esse modo avançava o baluarte dos fortes Acaios com um terrível sorriso no rosto alternando passadas largas e firmes e a lança de sombra comprida brandindo.

Encorajados e alegres os homens aqueus o contemplam; mas os Troianos sentiram nos membros correr-lhes o Medo.

Ao próprio Héctor palpitou-lhe o viril coração no imo peito; mas impossível lhe fora recuar ou acolher-se às fileiras dos companheiros por ter sido o duelo proposto por ele.

Como uma torre era o escudo que Ájax sobraçava todo ele  de couro e bronze composto que fora por Tíquio o mais hábil dos correeiros que em Hila morada opulenta possuía.

De sete couros de bois bem nutridos o escudo fizera e como oitava camada o cobrira com bronze batido.

O grande Ájax Telamónio mantendo este escudo ante o peito pára defronte de Héctor e lhe diz em tom firme de ameaça:  “Dentro de pouco hás-de ver grande Héctor claramente o que em luta de homem contra homem conseguem fazer os guerreiros acaios ainda na ausência de Aquileu o herói de coragem leonina.

Mas esse agora se encontra nas naves recurvas e céleres estomagado com o chefe de heróis o preclaro Agamémnon.

Muitos e muitos dos nossos te podem fazer por sem dúvida frente em qualquer circunstância.

Ora sus! Iniciemos o duelo.”

Disse-lhe Héctor em resposta o guerreiro do casco ondulante: “Ó grande Ájax Telamónio pastor muito ilustre de gentes não me intimides assim qual se eu fosse criança indefesa ou mulher fraca que nada entendesse de coisas da guerra.

Tenho bastante experiência de como prostrar o inimigo.

Sei sustentar meu escudo de pele de boi tanto à destra como à sinistra que é o modo de sempre lutar com bravura.

Precipitar-me sei bem no tumulto dos céleres carros e no combate a pé firme dançar pela música de Ares.

Por isso mesmo não quero atacar com nenhuma artimanha um inimigo como és mas lealmente tentar alcançar-te.”

Tendo isso dito atirou-lhe a haste longa de sombra comprida que foi no escudo terrível de Ájax encravar-se de sete couros de boi trespassando a camada de fora de bronze.

Mais seis camadas de couro o metal terebrante atravessa indo deter-se só na última.

Atira também por seu lado o Telamónio divino a hasta longa de sombra comprida que foi bater bem no escudo redondo do filho de Príamo.

A arma terrível o escudo de aspecto brilhante atravessa indo encravar-se na cota de bela e variada textura e interessando também junto ao flanco a preciosa camisa.

Ele porém se encurvou escapando da lívida Morte.

Ambos então novamente arrancando a hasta longa de bronze vão um para o outro no jeito de leões devoradores de carne ou javalis que dotados não são de vigor despiciendo.

Um golpe Héctor logo atira no meio do escudo redondo sem que o furasse porém porque a ponta no bronze encurvou-se.

O Telamónio dum salto a haste longa fincou-lhe no escudo atravessando-o; obrigado se viu a recuar o Troiano com o pescoço estrelado de forma que o sangue escorria.

Mas nem assim deixa Héctor de lutar o guerreiro preclaro.

Retrocedendo com as mãos vigorosas agarra uma pedra áspera e escura que estava no campo de enorme tamanho e bem no meio do umbigo do escudo de Ájax atirou-a feito de sete camadas; o bronze ressoou fortemente.

O Telamónio porém um penedo maior do chão pega e remoinhando lançou-o com força infinita contra o outro: fica amolgado o pavês qual se pedra de moinho o apertasse.

Dobra os joelhos Héctor que no solo caiu ressupino  sem que do escudo largasse.

Endireita-o porém Febo Apolo.

Ambos então das espadas sacando se aprestam de novo; mas os arautos que são mensageiros de Zeus e dos homens se interpuseram: Ideu pelos Troas valentes Taltíbio pelos Acaios vestidos de bronze ambos eles sensatos.

Põem os ceptros no meio dos dois contendores dizendo o mensageiro troiano sabido em prudentes conselhos: “Filhos dilectos parai; ponde um fim a essa luta homicida.

A ambos Zeus grande que as nuvens cumula afeição tem mostrado.

Sois igualmente esforçados; nós todos assaz o admiramos.

Já veio a Noite; será conveniente mostrar-lhe obediência.”

Disse-lhe Ájax Telamónio o guerreiro preclaro o seguinte: “Essas palavras a Héctor dirigi; parta dele a proposta por ter sido ele o primeiro a os Aqueus provocar para duelo.

Que ele decida portanto; farei como for de seu gosto.”

Disse-lhe Héctor em resposta o guerreiro do casco ondulante: “Deram-te os deuses Ájax estatura magnífica força e valentia sem par.

Dos Aqueus és o mais destemido.

Interrompamos por hoje somente os combates e lutas; mas amanhã reinicie-se a luta até vir a ser ela por um dos deuses julgada e a vitória a um de nós concedida.

Já veio a Noite; será conveniente mostrar-lhe obediência.

Para os navios simétricos volta levando a alegria aos Aqueus todos mormente aos parentes e aos fiéis companheiros.

Por minha vez voltarei para o burgo altanado de Príamo para alegrar os Troianos e suas formosas esposas que porventura por mim a rezar ora estão pelos templos.

Mas antes disso façamos permuta de belos presentes  para que possam dizer os Troianos e os fortes Aquivos: “Como inimigos de morte lutaram com sanha terrível; mas após haverem trocado presentes em paz se apartaram.”

Tendo isso dito uma espada ofertou-lhe com cravos de prata o talabarte de bela feitura e a bainha vistosa.

Cinto esplendente de púrpura Ájax em retorno lhe oferta.

Um dos guerreiros depois de apartados procura os Aquivos; o outro voltou para o meio dos Troas que cheios de júbilo o receberam ao vê-lo chegar sem nenhum ferimento da ira e das mãos invencíveis de Ájax afinal libertado.

Para a cidade o levaram sem crerem que salvo estivesse.

Ao Telamónio exultante com sua vitória os Acaios por sua vez conduziram para onde se achava Agamémnon.

Quando eles todos chegaram à tenda do filho de Atreu fez este um touro matar que cinco anos contava ofertando-o a Zeus potente nascido de Cronos que as nuvens cumula.

Prestes mui prestes o esfolam e logo em seguida o esquartejam; todo o restante retalham espetos enfiam nas postas  e cuidadosos as tostam tirando-as depois dos espetos.

Quando concluído o trabalho e o convívio desta arte aprontado  se banquetearam ficando cada um com a porção respectiva.

A melhor parte cortou para Ájax a saber todo o lombo o grande filho de Atreu Agamémnon rei poderoso.

Tendo assim pois a vontade da fome e da sede saciado foi o primeiro a tecer argumentos Nestor de Gerena cuja opinião desde muito julgada a melhor era sempre.

Cheio de bons pensamentos lhes diz arengando o seguinte: “Filho de Atreu e vós outros distintos e fortes Argivos! Muitos Acaios de soltos cabelos já a vida perderam; Ares o deus impetuoso espargiu-lhes o sangue anegrado no amplo Escamandro baixando suas almas para o Hades sombrio.

Faz portanto mal surja a manhã suspender os combates.

Com bois e mulos depois os cadáveres todos nos carros transportaremos a fim de queimá-los na pira sagrada um pouco longe das naves que os ossos possamos a cada filho entregar quando à pátria querida por fim regressarmos.

Um monumento comum na planície depois construamos perto da pira e a partir desse ponto erijamos depressa torres excelsas amparo eficaz para nós e os navios.

Que sejam elas providas também de mui sólidas portas  porque passagem tenhamos assim para os carros de guerra.

A par do lado de fora cavemos um fosso profundo que todo o muro circunde capaz de refrear os cavalos para não sermos levados pelo ímpeto grande dos Teucros.”

Isso disse ele; aplaudiram-no todos os chefes presentes.

Junto das portas de Príamo no alto da Acrópole de Ílion em tumultuosa assembleia os Troianos também se reuniam.

Foi o primeiro a falar Antenor de prudentes conselhos: “Teucros Dardânios e aliados agora atenção prestai todos ao que vos digo e no peito me ordena a falar-vos o espírito.

É conveniente aos dois nobres Atridas Helena e os tesouros restituir pois forçoso será combater dora avante como perjuros que somos.

Nenhuma esperança alimento de qualquer bem se negardes anuência a esta minha proposta.”

Tendo isso dito voltou novamente a assentar-se.

Levanta-se Páris o divo Aléxandros marido de Helena cacheada e lhe dirige em resposta as seguintes palavras aladas: “Quanto disseste Antenor está longe de ser-me agradável.

Penso que fora possível fazeres proposta mais digna.

Mas se tudo isso de há pouco foi dito realmente em tom sério  é que os eternos do Olimpo fizeram que o juízo perdesses.

Ora desejo também dirigir-me aos guerreiros troianos: Nunca hei-de a esposa entregar; isso digo com toda a clareza; mas os objectos que de Argos então carreguei para Tróia  em restituir não me oponho acrescidos de jóias inúmeras.”

Tendo isso dito voltou novamente a sentar-se.

Levanta-se Príamo filho de Dárdano igual no intelecto a um dos deuses.

Cheio de bons pensamentos lhes diz arengando o seguinte: “Teucros Dardânios e aliados agora atenção prestai todos ao que vos digo e no peito me ordena falar-vos o espírito.

Ora ide cear na cidade sagrada conforme é do estilo; todos se ocupem da guarda; um por um se conserve acordado.

Mas amanhã logo cedo enviemos Ideu aos navios para dizer aos dois chefes insignes os claros Atridas o que lhes manda propor Aléxandros fautor desta guerra e ainda mais perguntar-lhes se querem –e é justo– dar trégua ao fragoroso combate até termos queimado os cadáveres reiniciando-se a fera peleja no dia seguinte até que um dos deuses decida a quem venha a caber a vitória.”

Obedeceram-lhe todos depois de em silêncio o escutarem.

Sem desfazer as fileiras nos ranchos da ceia cuidaram.

Mal a manhã despontou para as naves Ideu se dirige em assembleia encontrando os Argivos discípulos de Ares junto da popa da nave do Atrida.

Depois de encontrar-se no meio deles falou-lhes o arauto canoro desta arte: “Filhos de Atreu e vós outros distintos e fortes Acaios Príamo e os outros Troianos ilustres aqui me enviaram para dizer-vos no caso de grata vos ser a notícia o que vos manda propor Aléxandros fautor desta guerra.

Tudo quanto ele –prouvera que a Morte antes disso o alcançasse!– trouxe nas naves simétricas para a cidade de Príamo acha-se pronto a entregar acrescido de inúmeras jóias.

Mas quanto àquela que virgem o herói Menelau desposara em restituir não consente apesar de que os Teucros o pedem.

Trago também perguntar-vos se acaso aos combates horríssonos tréguas quereis conceder até termos queimado os cadáveres reiniciando-se a fera peleja no dia seguinte até que um dos deuses decida a quem venha a caber a vitória.”

Isso disse ele; calados e quedos os outros ficaram até que por fim fala o grande Diomedes de voz poderosa:  “Não se receba nenhum dos presentes propostos por Páris nem mesmo Helena por ser mais que claro até às próprias crianças que sobre os homens de Tróia a ruína fatal já desaba.”

Isso disse ele; os Aqueus prorromperam em grita estrondosa de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.

Vira-se então para Ideu o potente senhor Agamémnon: “Ouves Ideu com teus próprios ouvidos o que te respondem nossos guerreiros.

É grata a resposta também ao meu peito.

No que concerne aos cadáveres não lhes recuso a fogueira; impedimento nenhum costumamos fazer aos defuntos;  mas extinguido o vigor procuramos placá-los com o fogo.

Zeus de Hera esposo de voz atroante confirme esta jura.”

O ceptro então levantando invocou logo os deuses eternos.

Para a cidade sagrada de Tróia Ideu logo retorna.

Na ágora todos se achavam sentados Dardânios e Teucros em reunião cheios de ânsia a esperar pela volta do arauto.

Este avançando até ao meio da praça lhes faz um relato do que lhe fora incumbido.

Aprontaram-se todos depressa: uns para lenha acervar para os corpos trazer outros tantos.

Parte também dos Argivos deixando os navios cuidava  de recolher os cadáveres parte com a lenha se ocupa.

Logo que o Sol começou de ferir com seus raios o campo após ter deixado a corrente profunda e tranquila do oceano para galgar o alto céu encontraram-se Aquivos e Teucros.

Era tarefa difícil identificar os cadáveres sem que primeiro com água os coalhos de sangue tirassem.

Por entre choro sentido os colocam depois nas carretas.

O grande Príamo entanto proibiu gritaria; em silêncio o coração angustiado às fogueiras os corpos entregam.

Logo depois de queimados voltaram para Ílion sagrada.

Do mesmo modo os Acaios de grevas bem feitas procedem: o coração angustiado às fogueiras os corpos entregam; logo depois de queimados às côncavas naus retornaram.

Antes que a Aurora tivesse surgido ainda em pleno crepúsculo grupo escolhido de Aqueus ao redor da fogueira se reúne.

Um monumento comum na planície depois construíram perto da pira e a partir desse ponto erigiram depressa torres excelsas amparo eficaz para os homens e as naves.

Portas depois de feitura mui sólida em todas puseram que para os carros de guerra desta arte o caminho franqueassem.

A par do lado de fora cavaram um fosso profundo grande bem largo provido todo ele de fortes estacas.

Azafamavam-se assim os Acaios de soltos cabelos.

Todos os deuses ao lado de Zeus se encontravam sentados fulminador a admirar a grande obra dos fortes Argivos.

Foi o primeiro a falar o que a terra sacode Posídon: “Conceber-se-á Zeus potente que exista algum homem na terra que previamente revele a um de nós seus intuitos e planos? Vês como agora de novo os Acaios de soltos cabelos muro ao redor dos navios construíram cingido por fosso sem que aos eternos houvessem solene hecatombe ofertado? Tal como a Aurora há-de a fama sem par desse muro estender-se e em esquecimento cairão as muralhas que Apolo e eu construímos com tanto esforço e canseira no burgo do herói Laomedonte.”

Disse-lhe Zeus indignado que as nuvens no Olimpo cumula: “Abalador poderoso da terra que ditos são esses!  Tal pensamento pudera ocorrer a um qualquer dos eternos destituído de força e de braços que os teus menos fortes.

Até onde a Aurora se estenda também chegará tua glória.

Sê comedido que quando os Aquivos de soltos cabelos  para o torrão de nascença voltarem nas naves simétricas tens o poder de arrasar a muralha levando os escombros para o amplo mar e cobrindo a área grande de areia infinita de todo destruindo a grande obra Posídon dos fortes Aquivos.”

Dessa maneira em colóquio eles dois tais conceitos diziam.

E quando o Sol se deitou os Aqueus o trabalho concluíram.

Bois junto às tendas imolam; depois cuidam todos da ceia.

Nisso chegaram de Lemnos navios inúmeros cheios de vinho rútilo todos de Euneu e por ele enviados filho do chefe de povos Jasão e de Hipsípile bela.

Determinara o pastor de guerreiros Euneu para os nobres filhos de Atreu mil medidas de vinho presente valioso.

Vinho soíam comprar-lhe os Aquivos de soltos cabelos; uns davam bronze de volta outros barras de ferro brilhante peles de bois alguns poucos e reses ainda outros com vida ou mesmo escravos.

Banquetes opimos depois aprontavam.

Por toda a noite em festins os Acaios de soltos cabelos se banqueteavam e assim na cidade os Troianos e aliados.

Graves incómodos Zeus toda a noite para eles pensava a trovejar por maneira terrível.

De todos o pálido  Medo se apossa; derramam no solo a bebida; não ousa vinho beber ninguém mais sem que a Zeus poderoso libasse.

Foram deitar-se depois e os presentes do Sono lograram.


 

CANÇÃO VIII

O cróceo manto já abrira na terra a solícita Aurora quando Zeus grande que os raios dispara os eternos convoca para a assembleia no pico mais alto do Olimpo cumeoso.

Zeus se pôs logo a falar; toda a corte celeste o escutava: “Deuses eternos e deusas agora atenção prestai todos ao que vos digo e no peito me ordena dizer-vos o espírito.

Nenhum dos deuses nem mesmo nenhuma das deusas se atreva a contestar meu discurso mas todos concordes se mostrem para que possa sem perda de tempo acabar esta empresa.

Quem quer que seja disposto a departe dos outros eternos a socorrer os Troianos ou ainda os grevados Aquivos há-de se ver fustigado aqui mesmo por modo irrisório se o não lançar sem nenhuma cautela no Tártaro escuro essa voragem profunda que debaixo da terra se encontra de érea soleira munida e de portas de ferro tão longe do Hades sombrio quanto há-de permeio entre a terra e o Céu vasto.

Por esse modo há-de ver quanto sou mais que todos potente.

Caso queirais pôr à prova o que digo será proveitoso: por uma ponta amarrai no Céu vasto áurea e grande cadeia  e da outra ponta reunidos ó deuses e deusas forçai-a.

Por mais esforço que nisso apliqueis impossível a todos vos há-de ser arrastar a Zeus grande o senhor inconteste.

Mas se ao contrário quiser seriamente puxar para cima a própria terra e o mar vasto convosco trarei desde baixo.

Mais: ser-me-á fácil no pico mais alto do Olimpo amarrar-vos nessa corrente deixando pendente tudo isso no espaço; tanto supero os mortais tanto os deuses eternos supero.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram estupefactos perante a violência de suas palavras.

A de olhos glaucos Atena por fim a falar se resolve: “Crónida pai de nós todos senhor poderoso e supremo sobejamente sabemos que força invencível possuis o que não priva nos causem piedade os lanceiros argivos por vermos como perecem cumprindo o Destino funesto.

Se determinas porém que afastadas fiquemos das lutas simples conselhos permite aos Argivos então ministrarmos para evitar que tua ira afinal a eles todos dizime.”

Disse-lhe a rir em resposta Zeus grande que as nuvens cumula: “Ó Tritogénia acomoda-te; quanto falei foi produto  certo da cólera; mas para ti quero ser mais sereno.”

Disse e no carro atrelou os cavalos de rápido curso  de crina de ouro ondulante e de cascos de bronze infrangível.

Veste a armadura também de ouro puro empunhando depressa áureo chicote de fino lavor e subiu para o carro.

Com chicotada os cavalos esperta que partem velozes pelo caminho que fica entre a terra e o Céu vasto estrelado.

O Ida afinal alcançou rico em fontes de feras abrigo onde no Gárgaro altar possuía num bosque virente.

O genitor dos mortais e dos deuses refreia os cavalos tira-os do carro ali mesmo envolvendo-os em densa neblina e foi sentar-se radiante de glória no pico mais alto a contemplar a cidade dos Teucros e as naus dos Argivos.

As refeições os Acaios de soltos cabelos tomaram rapidamente nas tendas armando-se logo em seguida.

Por sua vez na cidade os Troianos também se aprontaram em menor número é certo mas todos sequiosos de lutas a que a defesa dos filhos e esposas decerto os forçava.

A multidão pelas portas franqueadas então se apinhava os que lutavam de carro e os peões; era grande o alarido.

Quando os imigos exércitos vieram num ponto a encontrar-se lanças e escudos se chocam bem como a coragem dos homens com armaduras de bronze; broquéis abaulados embatem-se uns contra os outros; estrépito enorme se eleva da pugna.

Dos vencedores os gritos de júbilo se ouvem e as queixas dos que tombavam vencidos; de sangue se encharca o chão duro.

Enquanto o dia sagrado crescia e a manhã não cessara cruzam-se dardos de todas as partes e a turba perece.

Mas quando o Sol a porção mediana alcançou do Céu alto toma Zeus grande uma áurea balança: nos pratos coloca as duas sortes da Morte funesta de dor infindável dos picadores troianos e aquivos de vestes de bronze e pelo meio librou: baixa o dia fatal dos Aquivos.

A sorte sim dos Acaios bater foi na terra fecunda; a dos Troianos porém para o céu foi depressa levada.

Nesse momento um ribombo se ouviu; do Ida Zeus poderoso um raio atira no meio dos homens aqueus; espantaram-se com o prodígio eles todos ficando tomados do medo.

Idomeneu não ousou continuar nem o próprio Agamémnon nem os Ájaxes valentes discípulos de Ares guerreiro.

Permaneceu tão-somente Nestor o baluarte dos Gregos não por vontade mas sim por haver-lhe ferido um cavalo Páris o divo Aléxandros marido de Helena cacheada precisamente na altura onde a crina a crescer principia no alto da testa o lugar por sem dúvida mais perigoso.

Um salto deu o animal pois a flecha lhe entrara até ao cérebro e estrebuchando produz confusão entre os outros cavalos.

Enquanto os loros o velho tentava talhar com a espada  os corredores velozes de Héctor pela turba cortando se aproximaram trazendo do herói o animoso cocheiro e o próprio Héctor.

E sem dúvida o velho ali mesmo ficara se não houvesse notado o perigo Diomedes o forte que em altas vozes exclama incitando Odisseu para a luta: “Filho de Laertes de origem divina Odisseu engenhoso voltas as costas e foges tal como os cobardes o fazem? Toma cuidado não vá acontecer que te firam nas costas.

Vem ajudar-me a livrar de adversário terrível o velho.”

Mas o paciente e sofrido Odisseu atenção não prestando a essas palavras cortou para as naus dos Acaios grevados.

Ainda que só vem Diomedes meter-se entre as turmas da frente  e junto ao carro parando do velho Nestor de Gerena põe-se a falar-lhe dizendo as seguintes palavras aladas: “Muito te apremam Nestor inimigos no viço da idade.

Emurcheceu teu vigor pois infausta velhice te oprime.

Tens um auriga de pouco expediente e corcéis muito lerdos.

Vem para cá porque vejas alfim como são excelentes estes cavalos de Trós que tão rápidos correm no plaino quer quando cumpre fugir quer no encalço do imigo ligeiro.

Arrebatei-os de Eneias há tempo; o terror eles levam.

Deixa aos cuidados dos servos os teus corredores porque estes nos levarão para os fortes Troianos a fim de que veja Héctor que a lança que vibro dispara em verdade com fúria.”

De boamente o Gerénio Nestor aceitou-lhe os conselhos.

Eurimedonte e o impecável Esténelo fiéis escudeiros dos corredores velozes do velho Nestor se ocuparam.

Os dois heróis para o carro do nobre Diomedes subiram.

Toma das rédeas brilhantes o velho Nestor espertando com chicotada os cavalos; em pouco de Héctor se aproximam que para os dois avançava; atirou-lhe Diomedes a lança sem que o atingisse.

No auriga escudeiro acertou entretanto  junto do seio de frente quando ele os corcéis dirigia filho do grande e animoso Tebaio Eniopeu preclaríssimo.

Estrepitoso do carro caiu espantando os cavalos de pés velozes; a vida e o vigor ali mesmo lhe fogem.

Grande pesar sente Héctor com a morte do auriga preclaro; mas muito embora sentisse sua perda no solo o abandona para outro auriga animoso ir buscar.

Muito tempo não ficam os corredores sem guia pois logo a Arqueptólemo encontra de Ífito o filho extremado que fez para o carro flexível sem mais demora subir entregando-lhe as rédeas brilhantes.

Irreparável catástrofe então sucedera aos Troianos que encurralados seriam quais fracas ovelhas em Ílion se pelo pai dos mortais e dos deuses não fosse notado o que passava.

Zeus troando terrível um raio dispara  do alto que veio cair junto os fortes corcéis do Tidida: chama horrorosa elevou-se do enxofre que então crepitava.

Cheios de susto os corcéis sob o carro em desordem se metem; caem as rédeas brilhantes das mãos de Nestor que sentindo o coração palpitar-lhe a Diomedes se volta e lhe fala: “Toma Diomedes as rédeas e faz virar os cavalos  pois não estás vendo que Zeus nos denega alcançar a vitória? O grande Crónida a Héctor hoje glória concede perene; mas amanhã se o quiser far-nos-á vencedores de novo.

Nunca os desígnios de Zeus alterar jamais pôde algum homem por mais valente e galhardo pois ele é o poder infinito.”

Disse-lhe então em resposta Diomedes de voz atroante: “Todas as tuas palavras ancião foram ditas com senso; mas sofrimento indizível o peito nesta hora me oprime por ver que no meio dos Troianos Héctor possa um dia jactar-se: ‘Vêem? O Tidida de mim já fugiu acolhendo-se às naves!’ Sorva-me a terra primeiro que assim venha ufano a gloriar-se.”

Disse-lhe então o Gerénio Nestor condutor de cavalos: “Como é possível que o filho do grande Tideu assim fale? Ainda que Héctor te acoimasse de imbele e covarde impossível fora-lhe a alguém convencer não somente Dardânios e Teucros mas as mulheres de tantos guerreiros de peito animoso cujos maridos no viço da idade prostraste na poeira.”

Após ter falado a voltar obrigou os velozes cavalos por onde os outros fugiam.

Héctor e os Troianos nessa hora com sobre-humano alarido atiraram-lhe setas pungentes.

Em grandes brados Héctor do penacho ondulante lhe grita: “Os Dánaos todos Diomedes te honravam nas festas cedendo-te a cabeceira e ofertando-te assados e vinho abundante.

Ora dar-te-ão só desprezo pois como mulher te portaste.

Foge donzela pudica! Jamais hei-de o passo ceder-te; nunca hás-de os muros sagrados subir-nos nem nossas mulheres para os navios levar que antes disso dar-te-ei morte infausta.”

Isso disse ele; indeciso se mostra o valente Diomedes quanto a virar o cavalo e enfrentar o inimigo impetuoso.

Na mente e no ânimo o herói indeciso reflecte três vezes; três vezes do Ida aprazível ribomba Zeus filho de Cronos para anunciar aos Troianos que deles seria a vitória.

Em altos brados Héctor se dirige aos guerreiros troianos: “Lícios Dardânios e Teucros viris combatentes de perto sede homens caros amigos e força mostrai impetuosa.

Vi claramente que Zeus é por nós tendo anuído em ceder-nos fama preexcelsa e a vitória e aos Argivos apenas trabalhos esses ingénuos que a ideia tiveram dum muro altanado sem resistência construir irrisório empecilho ao meu braço pois meus corcéis hão-de o fosso profundo transpor facilmente.

E quando as naus alcançarmos de rápido curso na praia fique ao cuidado de todos prover que haja fachos a jeito para que nelas o fogo lancemos e aos próprios Aquivos pela fumaça estonteados matemos ao pé dos navios.

Tendo isso dito aos corcéis se pôs logo a falar animando-os: “Étone e Lampo divinos Podargo veloz Xanto altivo ambos deveis retribuir-me nesta hora os cuidados por parte da nobre filha de Eécion o guerreiro magnânimo Andrómaca que muitas vezes primeiro que a mim vos deu pão saboroso em doce vinho embebido ao sentirdes a sede abrasar-vos em que marido me orgulhe de ser-lhe no viço da idade.

Eia arrancai contra o imigo porque consigamos agora o áureo broquel de Nestor conquistar que tem de ouro maciço as braçadeiras; há muito o alto Céu alcançou sua fama.

Dos largos ombros também de Diomedes o forte arranquemos a primorosa couraça que Hefestos forjou com paciência.

Se conseguirmos tomar essas armas estou que os Acaios ainda esta noite hão-de entrar para as naves de rápido curso.”

A indignação de Hera explode ante o voto do herói jactancioso; no trono de ouro agitou-se fazendo tremer todo o Olimpo.

Vira-se então para o grande Posídon e lhe diz o seguinte: “Abalador poderoso da terra confessa-me: acaso não te apiadas dos Dánaos ao vê-los morrer desse modo? Eles entanto copiosos e gratos presentes te levam a Hélice e a Egas; justiça é pensar em lhes dar a vitória.

Se todos nós protectores dos Dánaos acordes ficássemos em expulsar os Troianos embora Zeus grande os proteja em pouco tempo ele no Ida sozinho amargar haveria.”

O abalador poderoso indignado lhe disse em resposta: “Não tens medida insensata? Que nova ousadia proferes? Não jamais hei-de lutar contra o filho de Cronos ainda mesmo que todos contra estivessem pois é muito mais poderoso.”

Enquanto os deuses do Olimpo conceitos desta arte trocavam em todo o espaço que vai dos navios às torres e ao fosso em confusão se amontoavam guerreiros de carro e pedestres.

Atropelava-os o filho de Príamo Héctor semelhante a Ares potente a quem Zeus concedia alcançar a vitória.

E certamente incendiara os navios de rápido curso se não tivesse no peito do Atrida esforçado Agamémnon Hera lançado o desejo de aos outros Aqueus dar coragem.

O manto escuro e vistoso lançando no braço robusto pôs-se a correr os navios e tendas dos homens aquivos.

Junto do monstro da proa da nau de Odisseu se deteve que era no centro de todas porque sua voz fosse ouvida nos dois extremos opostos na tenda de Ájax Telamónio e na de Aquileu os quais no valor e ousadia confiados  tinham postado seus barcos nos pontos extremos do campo.

Desse lugar para os Dánaos com voz retumbante assim brada: “Ó geração de covardes de bela presença que opróbrio! Onde as jactâncias se encontram de que éreis os mais valorosos quando sem fim nem propósito em Lemnos discurso fazíeis comodamente a comer muita carne de bois de aspas longas e a esvaziar sucessivas crateras de vinho gostoso? Todos juráveis poder nos combates um cento de Teucros ou mesmo dois enfrentar.

Mas agora um homem só nos faz frente: o forte Héctor que há-de em breve sem dúvida às naus lançar fogo.

Entre os ceptrados monarcas Zeus pai houve algum porventura que como a mim castigasses privando-o de glória perene? Por teus altares no entanto jamais transitei descuidado quando por minha desgraça aqui vim nos meus barcos de remos.

Sim neles todos queimei muitas coxas de bois e gordura pelo desejo de os muros destruir resistentes de Tróia.

Ó Zeus! Ao menos por mim dá-me ouvidos à súplica de hoje: que permitido nos seja escapar deste instante perigo sem consentires que os homens de Tróia aos Acaios dizimem.”

Isso disse ele a chorar; Zeus potente abalado se mostra e consentiu com um sinal que seu povo não fosse destruído.

Uma águia logo mandou dentre as aves a mais auspiciosa que um gamozinho de corça veloz carregava nas garras o qual soltou ao passar pelo altar onde ofertas opimas ao deus que a tudo responde soíam trazer os Aquivos.

Estes então compreendendo o sinal que Zeus grande mandara com novo ardor belicoso atiraram-se contra os Troianos.

Nenhum dos Dánaos –tentaram-no muitos– então ufanou-se de ter vencido o Tidida no afã de incitar os cavalos para transporem os fossos e assim frente a frente lutarem.

Pelo contrário: de início o Troiano Agelau ele fere filho de Frádmon quando os cavalos já havia virado precisamente ao voltar-se enterrando-lhe a lança de bronze entre as espáduas de forma que a ponta no peito saiu:  tomba do carro de bruços ressoando-lhe em torno a armadura.

Vão-lhe no encalço os dois filhos de Atreu Menelau e Agamémnon; os dois Ájaxes depois revestidos de força guerreira; Idomeneu a seguir e seu fiel companheiro Meríones que tinha de Ares funesto a figura exterior e a aparência; segue-se Eurípilo o filho preclaro de Evémone ilustre.

Vai Teucro em nono lugar manejando o arco forte e flexível mas sob o escudo gigante de Ájax Telamónio abrigado.

Um pouco Ájax levantava o pavês; logo o herói cauteloso em torno espiava; e se algum dos imigos no meio da chusma era atingido ali mesmo sem vida era ao solo jogado.

Como criança que corre a esconder-se no seio materno  Teucro voltava a abrigar-se no escudo de Ájax lampejante.

Qual o primeiro Troiano por Teucro infalível foi morto? Foi o maior entre todos Orsíloco Détor e Crómio Órmeno após e Ofelestes e mais Licofonte divino e Melanipo e Amopáon filho do grande Poliémon; uns sobre os outros no solo fecundo privou da existência.

Muito exultante se mostra Agamémnon rei poderoso por ver como ele com o arco as falanges troianas destruía.

Vai para junto do herói e lhe diz as seguintes palavras: “Teucro dilecto viril Telamónio senhor de guerreiros dessa maneira prossegue; sê luz para os homens acaios e o genitor Télamon que te criou desde muito pequeno em que bastardo tu fosses com os filhos no próprio palácio.

Ainda que longe te encontres aumenta-lhe a glória perene.

Ora te digo com toda a clareza o que vai realizar-se: se Zeus o filho de Cronos e mais Palas Atena me derem que Ílion consiga destruir escalando seus muros soberbos o prémio de honra hás-de ter logo após o que a mim for cedido ou bela trípode ou carro bem feito com seus corredores ou mesmo escrava donosa que possa subir ao teu leito.”

Teucro o frecheiro notável lhe disse em resposta o seguinte: “Por que me incitas Atrida glorioso se eu próprio me esforço quanto possível? Não deixo um momento que o ardor se arrefeça; mas desde o instante em que o imigo de novo para Ílion empurrámos com este meu arco não cesso de ao solo atirar inimigos.

Já disparei oito flechas munidas de pontas agudas que foram todas cravar-se nos corpos de heróis destemidos.

No cão raivoso somente não posso acertar nenhum tiro.”

Disse; e de novo uma seta da corda dispara visando o nobre Héctor muita vez alvejado; ansiava matá-lo sem que o pudesse ainda agora; foi dar no viril Gorgitíono o grande filho de Príamo a seta que o peito lhe fere.

De Castianira venusta a uma deusa imortal semelhante que para as núpcias de Esima viera nascera esse filho.

Dum lado inclina a cabeça o ferido tal como a papoula na Primavera ao ventar sob o peso das novas sementes: por esse modo a cabeça inclinou agravada pelo elmo.

Teucro de novo uma seta da corda dispara visando o nobre Héctor muita vez alvejado; ansiava matá-lo sem que o pudesse ainda agora pois que por Apolo desviada a seta fere a Arqueptólemo o auriga de Héctor extremado junto do seio de frente quando ele na pugna ingressava.

Tomba ruidoso do carro o ferido espantando os cavalos de pés velozes; a vida e o vigor ali mesmo lhe fogem.

Grande pesar teve Héctor com a morte do auriga preclaro; mas muito embora lhe a perda sentisse no solo o abandona  dando a Cebríones ordens o irmão que ali perto se achava para que as rédeas tomasse; este ao mando de pronto obedece.

Salta Héctor logo do carro na bela armadura gritando terrivelmente e apanhando uma pedra do chão para Teucro se dirigiu que o viril coração o incitava a atacá-lo.

Este já havia tirado da aljava uma seta amargosa e sobre a corda ajeitado; porém logo que ia atirá-la a pedra Héctor lhe lançou perto do ombro lugar perigoso onde do colo a clavícula o peito limita e separa.

A áspera pedra aí foi dar quando Teucro o disparo aprontava.

Rompe-se a corda; sem força dormente sentiu logo o punho e o arco deixando da mão escapar cai o herói de joelhos.

O forte Ájax não descuida do irmão que no solo tombara; corre para ele e o protege antepondo-lhe o escudo gigante.

Dois companheiros dilectos então logo a Teucro ampararam o divo Alástor e o filho de Equio o viril Mecisteu que para as côncavas naves o levam gemente e ofegante.

Mais uma vez Zeus Olímpico anima os guerreiros troianos que para o fosso profundo os Aqueus a recuar obrigaram.

Um dos primeiros Héctor avançava orgulhoso da força.

Tal como fero mastim que nos rápidos pés confiado corre no encalço dum leão ou dum porco selvagem mordendo-lhe  o flanco e as coxas atento em qualquer movimento de volta: por igual modo no encalço se achava dos Dánaos Héctor a derrubar sempre os últimos; fogem com medo os restantes.

Quando a correr conseguiram passar as estacas e o fosso ainda que muitos guerreiros às mãos dos Troianos caíssem perto das côncavas naves alfim se reuniram chamando uns pelos outros.

A todos os deuses as mãos levantando súplices cada um dos Dánaos fazia promessa em voz alta.

Por toda a parte os cavalos crinados Héctor revolvia com olhar igual ao da Górgona ou de Ares o deus homicida.

Hera de cândidos braços piedade sentiu dos Aquivos; súbito a Palas Atena dirige as palavras aladas: “Palas Atena indomável donzela de Zeus seguiremos sem demonstrar compaixão aos Aquivos em tal apertura? Vemos como eles perecem cumprindo o Destino funesto pela maldade somente de Héctor esse filho de Príamo.

É intolerável a fúria que tantas crueldades comete.”

A de olhos glaucos Atena lhe disse o seguinte em resposta: “Há muito sim já devera o vigor ter perdido e a existência no próprio solo da pátria prostrado por um dos Aquivos.

Mas para os Dánaos meu pai não se mostra benigno o insensato! Sempre teimoso e cruel tem prazer em se opor aos meus planos.

Não se recorda das vezes que o filho salvei quando estava sob o rigor de Euristeu a sofrer indizíveis trabalhos.

Quando ele as mãos para o Céu levantava e implorava chorando para que viesse ajudá-lo mandava-me Zeus do alto Olimpo.

Se quanto agora se passa tivesse previsto em minha alma quando incumbido ele foi de baixar até às portas escuras para que do Érebo à luz arrancasse o cão de Hades funesto dificilmente escapara das águas revoltas do Estige.

Hoje demonstra ter-me ódio anuindo ao pedido de Tétis que soube os joelhos beijar-lhe com a mão afagando-lhe o mento a suplicar que lhe o filho exaltasse eversor de cidades.

Há-de volver deixa estar a chamar-me de sua ‘olhos verdes’! Vamos apresta-nos logo os cavalos de cascos robustos enquanto vou ao palácio altanado de Zeus que traz a égide para envergar minhas armas potentes.

Desejo realmente ver se esse Héctor de penacho ondulante nascido de Príamo mostra alegria ao nos ver ingressar nos caminhos da guerra ou se ainda as carnes e as pingues entranhas de muitos Dardânios  junto das naus dos Aquivos abutres e cães não sustentam.”

Hera de cândidos braços de pronto aceitou o conselho.

Os corredores ornados com belo frontal de ouro puro foi logo ao carro atrelar a nascida de Zeus poderoso.

A de olhos glaucos Atena donzela de Zeus poderoso deixa cair logo o peplo no soalho brilhante do Olimpo obra de fino lavor que ela própria tecera e enfeitara; veste a loriga de Zeus atroante que as nuvens cumula e as demais armas empunha adequadas às guerras lutuosas.

Pronta subiu para o carro fulgente tomando da lança grande pesada e robusta com que derrubar costumava turmas de heróis ao zangar-se a nascida de Zeus poderoso.

Hera os cavalos velozes com o látego logo estimula.

Por próprio impulso rangeram as portas do Céu que se encontram sob a custódia das Horas que têm a incumbência no Olimpo e no céu vasto de abrir ou fechar as densíssimas nuvens.

Estimulando os cavalos depressa por elas passaram.

O pai dos homens e deuses as viu do Ida augusto.

Indignado manda-lhes presto mensagem por Íris veloz de asas de ouro: “Íris depressa! Consegue que voltem; não deixes que cheguem  mais perto pois grave será que entre nós haja luta.

Ora te vou revelar outra coisa que vai realizar-se: paralisados debaixo do carro verás os cavalos e dos assentos jogando-as o carro farei em pedaços.

Mesmo depois que seu curso dez anos deixarem completos não poderão guarecer das feridas que o raio causar-lhes.

Que a de olhos glaucos o saiba se ousar com seu pai defrontar-se.

Menos sentido com Hera e com menos rancor ora me acho por ser vezeira em se opor ao que no imo do peito excogito.”

Disse; Íris logo voou para dar cumprimento ao mandado  e do Ida augusto atirando-se foi para o Olimpo vastíssimo.

Junto da porta do Olimpo de muitas gargantas achando-as fê-las parar e de Zeus poderoso e recado transmite: “Para onde assim vos lançais? Que furor vos agita o imo peito? Não é do gosto de Zeus que leveis aos Acaios auxílio.

Fez ele a ameaça seguinte a que certo há-de dar cumprimento: Paralisados debaixo do carro vereis os cavalos e dos assentos jogadas o carro fará em pedaços.

Mesmo depois que seu curso dez anos deixarem completo não podereis guarecer das feridas causadas do raio  para que tu de olhos claros o saibas se ao pai te opuseres.

Menos zangado contra Hera e com menos rancor ele se acha por ser vezeira em se opor ao que no imo do peito excogita.

Mas tu cadela sem pejo atrevida serás em verdade se a enorme lança quiseres alçar contra o filho de Cronos.”

Íris daí retornou após haver a mensagem cumprido.

Hera magnífica então para Atena se vira e lhe fala: “Palas Atena indomável donzela de Zeus poderoso não vale a pena lutar com Zeus grande por causa dos homens.

Como o Destino o quiser assim seja; uns a Morte arrebate outros prossigam com vida.

Entre Aquivos e Teucros somente Zeus distribua a justiça conforme lhe o peito comande.”

Vira depois de falar os cavalos de sólidos cascos.

Os corredores comados as Horas do jugo retiram e para o divo presepe depois cuidadosas os levam.

Na refulgente parede apoiaram o carro flexível.

O coração angustiado elas duas então se assentaram em tronos de ouro no meio das outras deidades eternas Zeus do Ida augusto os cavalos e o carro de rodas velozes para o alto Olimpo guiou alcançando a assembleia dos deuses.

Tira Posídon que a terra sacode os cavalos do jugo.

Junto do altar põe o carro e o cobriu com um pano de linho.

No trono de ouro Zeus grande de voz atroante assentou-se.

Treme-lhe debaixo dos pés toda a mole do Olimpo altanado.

Palas Atenas somente e Hera augusta a departe ficaram do sumo Zeus silenciosas; nenhuma pergunta lhe fazem.

Ele que tudo advertira se volta para elas e fala: “Hera por que te consomes? Atena que na alma te punge? Não mais vos vejo esforçadas nas lutas que aos homens exaltam a dizimar os Troianos que tanto rancor vos provocam.

Vós todos deuses do Olimpo jamais podereis demover-me tal o vigor de meus braços invictos e tal minha força.

Ambas teríeis primeiro sentido tremer-vos os membros antes de haverdes a guerra enxergado e seus duros trabalhos.

Ora vos quero dizer o que certo cumprir haveria: pelo meu raio atingidas jamais voltaríeis de carro  para o alto Olimpo onde a sede se encontra dos deuses eternos.”

A essas palavras as deusas morderam os lábios com força; juntas se achavam planeando a extinção dos guerreiros troianos.

Palas Atena calada ficou sem dizer coisa alguma  ainda que contra Zeus pai transbordasse de raiva selvagem.

Hera porém explodiu sem conter o rancor no imo peito: “Zeus prepotente nascido de Cronos que coisa disseste? Sobejamente sabemos que força possuis invencível.

Apesar disso os lanceiros argivos nos causam piedade por vermos como perecem cumprindo o Destino funesto.

Se determinas porém que afastadas fiquemos das lutas simples conselho permite aos Argivos então ministrarmos para evitar que a tua ira afinal a eles todos dizime.”

Disse-lhe a rir em resposta Zeus grande que as nuvens cumula: “Hera magnífica de olhos bovinos verás logo cedo caso o desejes o filho de Cronos de força invencível a destroçar as fileiras dos fortes lanceiros argivos.

Nem há-de Héctor o terrível deixar de acossá-los enquanto junto das naves Aquileu de rápidos pés não tivermos no dia em que for levado o conflito até às popas recurvas e em pouco espaço houver luta ao redor do cadáver de Pátroclo.

Esse o decreto divino.

Aliás pouca mossa me causa a tua cólera embora te fosses para o último extremo do mar imenso e da terra onde Jápeto e Cronos demoram  sem que os alente o fulgor inefável do Sol Hiperiónio nem frescas auras que o abismo sem fundo do Tártaro os cinge.

Ainda que errante até lá fosses ter pouca conta faria de teus latidos por seres despida de toda a vergonha.”

Hera de cândidos braços então nada disse em resposta.

Baixa entrementes a luz fulgurante do sol para o oceano e a escuridão após si sobre os campos ferazes estende.

Vêem com pesar os Troianos a luz se afundar; mas os Dánaos a Noite fosca aliviados acolhem que tanto invocavam.

Fez convocar a assembleia dos Teucros Héctor valoroso longe das naves ao pé da ribeira do rio revolto num lugar limpo onde livre de mortos se achava o terreno.

Todos então dos cavalos apeando-se a ouvir se puseram avidamente as palavras de Héctor caro a Zeus que sustinha a forte lança na mão de onze cúbitos com reluzente extremidade de bronze firmada por círculo de ouro.

Nela apoiando-se pôs-se a falar para os Troas guerreiros: “Teucros Dardânios e aliados agora atenção concedei-me.

Já imaginara que fosse possível voltarmos para Ílion após o extermínio completo dos homens aqueus e seus barcos.

A escuridão porém veio antes disso salvando os Argivos e as naus de boas cobertas que se acham na praia marinha.

À negra Noite entretanto convém demonstrar obediência.

A refeição preparemos; tirai os cavalos de belas crinas dos carros e a todos depois aprestai alimento.

Ide buscar na cidade bois tardos e ovelhas vistosas sem mais delongas; farinha abundante trazei e bom vinho de vossas casas.

Depois empilhai muita lenha aqui perto para podermos queimar toda a noite até à volta da Aurora pilhas sem conta e se eleve até ao céu o esplendor das fogueiras para que os Dánaos de belos cabelos não possam durante a noite escura fugir pelo dorso do mar extensíssimo.

Sem muitas dores ao menos não devem subir para as naves.

Vejam-se alguns obrigados depois de em suas casas se acharem a digerir as feridas das flechas e lanças pontudas que nos navios ganharam.

E que isso a outros sirva de exemplo quando quiserem trazer para os Teucros o choro da guerra.

Ora à cidade mandai mensageiros a Zeus sempre caros para dizer que os rapazes florentes e os cândidos velhos velem nos muros e torres que deuses eternos construíram  enquanto as fracas mulheres cada uma em seu próprio palácio fogo bem vivo mantenha pois urge ter guardas alerta para que o imigo não entre na cidade na ausência do exército.

Faça-se tudo magnânimos Teucros conforme vos disse pois estas minhas palavras só visam o bem de vós todos.

Quando romper a manhã voltarei novamente a falar-vos.

Hei de implorar a Zeus grande e às demais sempiternas deidades que enxotem todos os cães portadores do Fado inditoso que nos navios escuros a Morte e a Desgraça trouxeram.

Enquanto a Noite durar de vigília fiquemos nós todos; mas amanhã logo cedo enverguemos as armas luzentes para fazer espertar junto às naves o deus Ares forte.

Hei-de então ver se me força a recuar o robusto Diomedes para as muralhas deixando os navios ou se eu com meu bronze não o deixo morto levando comigo suas armas cruentas.

Sim amanhã há-de ter ocasião de mostrar sua força quando com a lança me vir.

Mas espero que logo na frente caia ferido cercado por muitos dos fiéis companheiros mal surja o Sol no Oriente.

Pudesse eu ter vida perene e para sempre ficar libertado da triste velhice  com honrarias divinas iguais às de Atena e de Apolo como é certeza trazer a manhã para os Dánaos o luto.”

Esse o discurso de Héctor; os Troianos em peso o aplaudiram Os corredores banhados de suor libertaram do jugo mas junto aos carros de guerra os ataram com fortes correias.

Foram buscar na cidade bois tardos e ovelhas vistosas sem mais delongas; farinha abundante e bom vinho trouxeram de suas casas.

Depois muita lenha empilharam no campo.

Logo hecatombes perfeitas aos deuses do Olimpo oferecem.

Nas espirais da fumaça é levado até ao Céu pelos ventos o suave odor da gordura.

Os eternos porém recusaram o sacrifício que a todos odiosa era Tróia sagrada Príamo e assim todo o povo do velho monarca lanceiro.

Estes porém toda a noite animados de grande esperança permaneceram no campo onde muitas fogueiras ardiam.

Como na calma dos ventos se toma o éter límpido e puro e em torno à Lua as estrelas refulgem com brilho indizível descortinando-se todos os cabos e grutas e as matas pela baixada ao se abrir de repente o Céu claro e infinito e os astros todos rebrilham deixando o pastor enlevado:  do mesmo modo entre o curso revolto do Xanto e os navios em frente de Ílion as fogueiras dos Troas guerreiros brilhavam.

Mil fogos ardem na extensa planície e de cada um à volta à luz da chama agradável cinquenta guerreiros se agrupam.

Junto dos carros os fortes cavalos espelta e cevada comem tranquilos à espera da Aurora de trono dourado.


 

CANÇÃO IX

Por esse modo os Troianos velavam. No entanto os Aquivos pensam na Fuga somente comparsa do Medo gelado.  Até mesmo os mais destemidos guerreiros a dor os abate.

Como o oceano piscoso batido por ventos furiosos Zéfiro e Bóreas no tempo em que sopram do lado da Trácia subitamente fazendo que as ondas escuras se empolem acavaladas e de algas a areia da praia revestem: o coração dos Acaios assim se encontrava agitado.

O grande filho de Atreu cujo peito a aflição consumia foi procurar os arautos de voz harmoniosa e lhes disse que pelos nomes chamassem para a ágora os fortes guerreiros mas sem gritar.

Dava exemplo ele próprio também esforçando-se.

Cheios de mágoa assentaram-se.

O Atrida levanta-se logo a derramar muitas lágrimas como de fonte profunda se precipita água escura de cima de penha altanada.

Vira-se para os Aqueus a gemer fundamente e lhes fala: “Vós conselheiros e guias dos homens argivos ouvi-me! O grande Crónida Zeus em desgraça terrível me enleia ele o maldoso que havia asselado antes disto a promessa  de eu retornar para a pátria depois de destruir Ílion forte.

Presentemente resolve enganar-me ordenando que volte sem glória alguma para Argos depois de perder tanta gente.

Isso por certo há-de ser agradável a Zeus poderoso que já destruiu muitos muros e grandes e fortes cidades e há-de arrasar muitas mais pois imenso é o poder de seu braço.

Ora façamos conforme o aconselho; obedeçam-me todos: para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves pois é impossível tomar a cidade espaçosa dos Teucros.”

Isso disse ele; calados e quedos os outros ficaram.

Por muito tempo em silêncio mantêm-se os turvados Aquivos até que por fim fala o grande Diomedes de voz poderosa: “Do meu direito valendo-me Atrida começo insurgindo-me contra tua ideia insensata sem que isso provoque tua cólera.

Foste o primeiro a acoimar-me de fraco na frente dos Dánaos de ser imbele e de pouco valor.

Mas sobre isso os Argivos tanto os anciões como os moços já têm uma ideia formada.

Zeus poderoso nascido de Cronos negou-te uma dádiva: deu-te sem dúvida um ceptro o mais alto penhor do comando mas não te deu a coragem sem dúvida a força mais nobre.

Pensas então infeliz que os Aqueus sejam tão destituídos de varonil decisão para vires propor tal medida?  Se o coração te concita realmente a viajar de tornada parte: o caminho está franco; na beira da praia os navios que de Micenas trouxeste incontáveis a jeito se encontram.

Outros Acaios aqui ficarão de cabelos cacheados para que os muros de Tróia arrasemos; mas mesmo que todos queiram voltar para a pátria querida nas céleres naves nós a saber eu e Esténelo a luta levar haveremos até que Ílion santa destruamos que um deus favorável nos trouxe.”

Isso disse ele; os Aqueus prorromperam em grita estrondosa de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.

No meio deles então se levanta Nestor e assim fala: “Nobre Tidida na guerra és sem dúvida alguma o mais forte e nos conselhos excedes a quantos equevos te sejam.

Não poderá dos Acaios presentes nenhum censurar-te por teu discurso nem mesmo objectar-te; mas foste incompleto.

É que ainda tens pouca idade; podias até ser meu filho sim o mais moço de todos.

Contudo falaste com senso.

Quanto disseste aos guerreiros argivos foi muito oportuno.

Cabe-me pois tenho orgulho de ser o mais velho de todos ora expor tudo com mais suficiência.

Ninguém menospreze minhas palavras nem ainda Agamémnon o rei poderoso.

Sem ligações de família ou de tribo sem lei sobretudo vive quem folga com as lutas terríveis que o povo atormenta.

À negra Noite no entanto convém demonstrar obediência.

A refeição preparemos; depois sentinelas se postem junto dos fossos abertos do lado de fora dos muros.

Isso aos mais moços inculco; o restante Agamémnon arranja como te for mais do agrado por seres o chefe supremo.

Ceia aos anciões oferece; isso te orna; não te é vergonhoso.

Cheias as tendas te vejo de vinho que as naus dos Acaios dia por dia através do mar vasto da Trácia transportam.

Sobram-te dons hospedais porque em muitos o mando exercitas.

Segue depois de reunires um número grande de chefes o parecer mais prudente que assaz os Aqueus necessitam de quem lhes dê bons conselhos pois junto das naus os imigos muitas fogueiras mantêm.

A quem pode alegrar esse quadro? Ou salvação ou extermínio esta noite trará para o exército.”

Isso disse ele; os presentes de pronto ao conselho obedecem.

Saem depressa depois de se armarem os homens da guarda sob o comando do grande Nestorida o herói Trasimedes de Iálmeno o forte também e de Ascálafo de Ares discípulos de Licomedes divino nascido do forte Creonte e dos guerreiros Deípiro o nobre Afareu e Meríones.

Cada um dos sete guerreiros da guarda cem homens comanda todos em fila munidos de lanças de sombra comprida.

Postam-se todos no espaço que fica entre os muros e o fosso  e tendo fogo acendido cada um o repasto prepara.

Em sua tenda Agamémnon reúne os anciões do conselho aos quais se esmera em servir copioso e variado banquete.

Todos as mãos estendiam visando alcançar as viandas.

Tendo assim pois a vontade da fome e da sede saciado foi o primeiro a tecer argumentos Nestor de Gerena cuja opinião desde muito era sempre julgada a mais certa.

Cheio de bons pensamentos lhes diz arengando o seguinte: “Filho glorioso de Atreu Agamémnon rei poderoso em ti termino; visando-te vou dar princípio ao discurso por comandares a tantos Aquivos e teres do Crónida o ceptro e as leis recebido e o dever de aplicá-las com senso.

Cumpre-te pois não somente falar mas saber dar ouvidos sim conceder atenção quando alguém for levado a propor-te algo razoável.

Depende de ti pôr em prática a ideia.

Ora pretendo falar como julgo ser mais proveitoso.

Mais salutar opinião não presumo que alguém apresente que a defendida por mim não de agora somente de muito desde o momento em que tu nobre garfo de Zeus foste à tenda do estomagado Pelida e lhe a jovem de Brisa tiraste contra a opinião de nós todos.

Ao menos no que me respeita dissuadir-te tentei; mas levado por teu alto espírito o prestantíssimo herói que até os deuses honrar têm por hábito menosprezaste tomando-lhe o prémio que ainda conservas.

Excogitemos agora no modo de o herói aplacarmos: ou com palavras afáveis ou com valiosos presentes.”

Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso: “Nessa censura aos meus erros ó velho não vejo exagero.

A minha falta foi grande não posso negá-lo.

Por muitos vale o guerreiro a quem Zeus poderoso dedica alto afecto tal como agora o distingue destruindo as fileiras aquivas.

Mas se errei tanto levado por meu pensamento funesto  quero aplacar o guerreiro com ricos e infindos presentes.

Diante de todos farei relação dessas dádivas grandes: trípodes sete sem uso de fogo dez áureos talentos vinte caldeiras brilhantes e doze cavalos robustos acostumados a prémio ganhar campeões de corrida.

Fora impossível dizer que de campos aráveis carece ou do ouro muito apreciado o indivíduo que vier a possuí-los tal a importância dos prémios que os fortes corcéis me ganharam.

Dou-lhe outrossim sete escravas prendadas trazidas de Lesbos quando ele próprio aquela ilha arrasou e que a mim reservara por serem todas formosas acima das outras mulheres.

Dou-lhas; mas a essas a filha de Brises ainda acrescento que lhe tirara fazendo aqui mesmo uma jura solene de nunca ter ao seu leito subido nem com ela deitado  como é costume entre os homens varões a mulheres se unindo.

Isso darei desde já; mas se os deuses eternos um dia me permitirem tomar a cidade altanada de Príamo entre ele os muros também quando a presa os Aqueus dividirmos e de ouro e bronze a mancheias seu barco bojudo carregue.

Vinte mulheres troianas pode ele apartar além disso  as mais formosas depois da mais bela de todas Helena.

Se para os campos ubérrimos de Argos da Acaia voltarmos seja meu genro; honrá-lo-ei sem fazer distinção como a Orestes meu filho amado que vive cercado de grande opulência.

Três filhas tenho em meu bem construído palácio: Crisótemis Ifianassa e Laódice.

Aquela que for do seu gosto sem que se veja obrigado a pagar dote algum para casa leve do velho Peleu.

Preciosíssimos dons lhe acrescento em tanta cópia tal como jamais alcançou filha alguma.

Sete cidades também lhe darei populosas e belas: Hira de prados ervosos Enope e também Cardamila Feras divina a dos prados famosos e pingues; Anteia Pédaso célebre por suas vinhas e Epeia risonha todas marinhas não longe de Pilos de solo arenoso.

Muitos senhores de gado infinito e de armentos vistosos nelas demoram que certo o honrarão qual a um deus do alto Olimpo e que ao seu ceptro submissos tributos dar-lhe-ão copiosíssimos.

Tudo isso dele será se quiser dominar sua cólera.

Deixe-se pois convencer que por ser implacável e duro Hades é o deus mais odiado por todos os homens terrenos.

Ceda: submeta-se a mim pois que sou mais potente do que ele sobre orgulhar-me também da vantagem de ser mais idoso.”

Disse-lhe então o Gerénio Nestor condutor de cavalos: “Filho glorioso de Atreu Agamémnon rei poderoso o que ofereces a Aquileu de facto não é despiciendo.

Ora sem perda de tempo emissários a jeito escolhamos para os enviar com recados à tenda de Aquileu Peleio.

Deixa que eu próprio os nomeie; ninguém objecções anteponha.

A direcção tome o herói predilecto dos deuses Fénix; o grande Ájax depois venha e Odisseu o divino guerreiro.

Sigam também como arautos Odio e o impecável Euríbates.

As mãos lavemos; observe-se em tudo completo silêncio quando imploramos a Zeus que há-de ter de nós todos piedade.”

Foi o discurso do velho Nestor agradável a todos.

Fazem vir água e os arautos por cima das mãos a despejam.

Até pelas bordas escravos as taças encheram de vinho distribuindo por todos os copos as sacras primícias.

Logo que todos haviam comido e bebido à vontade os emissários deixaram a tenda do Atrida Agamémnon.

Observações a eles todos o velho Nestor faz ainda   acompanhadas de olhar expressivo a Odisseu com mais ênfase sobre a maneira melhor de persuadir o divino Pelida.

Ambos então pela praia do mar ressoante se foram preces alçando a Posídon que os muros da terra sacode para que fosse possível dobrar o Pelida altanado.

Quando chegaram às tendas e naves dos fortes Mirmídones aí enlevado o encontraram tangendo uma lira sonora de cavalete de prata toda ela de bela feitura que ele do espólio do burgo de Eécion para si separara.

O coração deleitava façanhas de heróis decantando.

Em frente dele somente calado encontrava-se Pátroclo pacientemente a esperar que o Pelida concluísse o seu canto.

Ambos então avançaram; servia Odisseu como guia.

Param defronte do herói.

Espantado de vê-los Aquileu sem que o instrumento soltasse a cadeira dum salto abandona.

O mesmo Pátroclo fez ao notar a presença de estranhos.

A ambos Aquileu veloz cumprimenta dizendo o seguinte: “Salve! Bem grave é sem dúvida a causa de aqui terdes vindo.

Ainda que muito agastado sois ambos os que eu mais distingo.”

Tendo isso dito o divino Pelida os convida a assentar-se  em escabelos forrados com belos tapetes de púrpura.

E para o herói que se achava ao seu lado virando-se fala: “Pátroclo põe sobre a mesa uma grande cratera e prepara vinho bem forte; depois uma taça a cada um oferece.

Sob meu tecto ora se acham varões a quem muito distingo.”

Obedeceu logo Pátroclo às ordens do amigo dilecto.

E junto ao lar colocando uma grande e vistosa travessa lombos põe nela de cabra e de ovelha de velo nitente e o dorso inteiro dum porco selvagem com muita gordura.

Automedonte o auxiliava; ele próprio as porções determina logo os pedaços retalha e nas postas espetos enfia.

Pátroclo igual a um dos deuses prepara uma grande fogueira; e quando a lenha ficou toda gasta e o braseiro apagado a cinza quente espalhando assadores sobre ela coloca.

O nobre Aquileu depois espalhou sal divino na carne.

Quando toda ela ficou bem assada nos pratos a deita.

Pão alvo então trouxe Pátroclo em cestas de bela feitura que sobre a mesa coloca; o Pelida reparte os assados indo sentar-se a seguir encostado no muro do fundo em frente ao divo Odisseu.

As primícias então manda Pátroclo  seu companheiro que aos deuses oferte; este ao fogo as atira.

Todos as mãos estendiam visando alcançar as viandas.

Tendo assim pois a vontade da fome e da sede saciado ao forte Ájax fez Fénix um sinal; Odisseu compreendeu-o; cheio de vinho um dos copos a Aquileu desta arte saúda: “Salve Pelida! De lautos banquetes de facto não temos  tido carência.

Tal como os do filho de Atreu Agamémnon este que agora nos dás é notável à vista da grande variedade de assados.

Contudo em festins não pensamos.

Na expectativa de enormes desgraças ó aluno de Zeus temos receio; é fatal o dilema: ou salvamos as naves ou as perderemos se não te vestires de toda a tua força.

Junto das naves bem junto e dos muros o campo assentaram os orgulhosos Troianos e aliados de fama excelente.

Por todo o exército queimam fogueiras sem conta.

Mais ainda: dizem que nada os impede de ir ter aos navios escuros.

Zeus poderoso lhes manda sinais favoráveis fazendo que lhes troveje à direita.

Ensoberba-se Héctor sem medida por sua grande bravura; confiando em Zeus forte não teme deuses nem homens; terrível furor dele agora se apossa.

Pede e deseja que a Aurora divina depressa apareça e ameaçador já promete cortar os aplustres das naves a estas destruir pelo fogo voraz e os guerreiros aquivos pela fumaça estonteados matar junto às naves simétricas.

Grande receio de mim se apodera que os deuses permitam que essas ameaças se cumpram se acaso assentou o Destino que longe de Argos fecunda morramos nos campos de Tróia.

Vamos levanta-te caso tenciones salvar os Aquivos ainda que tarde da grande pressão dos guerreiros troianos.

Grande aflição tu também hás-de ter que é impossível remédio para a desgraça passada encontrar.

Antes pensa no modo como se possam livrar os Acaios do dia funesto.

Lembra-te caro de quanto te disse Peleu no momento em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu Agamémnon: ‘Filho querido Hera e Atena te dêem força ingente no caso de o desejarem; mas seja teu firme propósito o orgulho na alma refrear.

É melhor que te mostres em tudo mais brando.

A ira fautora de males de ti sempre afasta que possam moços e velhos aqueus conceder-te atenção respeitosa.

’ Esse o conselho do velho de que te esqueceste.

Refreia a ira que tua alma consome.

Agamémnon manda ofertar-te dons preciosíssimos caso aplacares a cólera grande.

Se te encontrares disposto a escutar-me dir-te-ei tudo quanto ele hoje mesmo na tenda nos disse que havia de dar-te: trípodes sete sem uso de fogo dez áureos talentos vinte caldeiras brilhantes e doze cavalos robustos acostumados a prémios ganhar campeões de corrida.

Fora impossível dizer que de campos aráveis carece ou do ouro muito apreciado o indivíduo que vier a possuí-los tal a importância dos prémios que os fortes corcéis lhe ganharam.

Dá-te outrossim sete escravas prendadas trazidas de Lesbos quando tu próprio aquela ilha arrasaste; ficaram para ele  por serem todas formosas acima das outras mulheres.

Tuas serão; mais ainda: acrescenta Briseide formosa que te tirara fazendo de grado uma jura solene de nunca ter ao seu leito subido nem com ela deitado como é de costume ó Pelida varões a mulheres se unirem.

Isso dar-te-á desde já; mas se os deuses eternos um dia nos permitirem tomar a cidade altanada de Príamo hás-de presente ficar quando a presa os Aqueus dividirmos  e de ouro e bronze a mancheias prover teu navio bojudo.

Vinte mulheres troianas também ficarão à tua escolha as mais formosas depois da mais bela de todas Helena.

Se para os campos ubérrimos de Argos da Acaia voltarmos genro hás-de ser-lhe; honrar-te-á sem fazer distinção como a Orestes seu filho amado que vive cercado de grande opulência.

Três filhas tem em seu bem construído palácio: Crisótemis Ifianassa e Laódice.

Aquela que for de teu gosto sem que te vejas forçado a pagar dote algum para casa podes levar de Peleu.

Preciosíssimos dons te oferece e em tanta cópia tal como jamais alcançou filha alguma.

Sete cidades também te dará populosas e belas: Hira de prados ervosos Enope e também Cardamila Feras divina a dos prados famosos e pingues; Anteia Pédaso célebre por suas vinhas e Epeia risonha todas marinhas não longe de Pilos de solo arenoso.

Muitos senhores de gado infinito e de armentos vistosos nelas demoram que certo honrar-te-ão qual um deus do alto Olimpo e que ao teu ceptro submissos tributos dar-te-ão copiosíssimos.

Tudo isso disse dar-te-á se acalmares tua cólera grande  Mas se no peito só abrigas rancor contra o Atrida Agamémnon e seus presentes apiada-te ao menos da grande apertura de todo o exército.

Qual um dos deuses serás venerado pelos Aqueus e hás-de glória infinita alcançar entre todos.

Ora te fora possível prender esse Héctor que funesta raiva conduz para perto de ti e se diz jactancioso muito mais forte que quantos Aqueus nossas naus conduziram.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés em resposta o seguinte: “Filho de Laertes de origem divina Odisseu engenhoso é necessário dizer-vos agora com toda a clareza meu pensamento e a intenção em que me acho de em prática pô-lo para evitar que aturdir não me venham de todos os lados.

Tal como do Hades as portas repulsa me causa a pessoa que na alma esconde o que pensa e outra coisa na voz manifesta.

Ora pretendo falar como julgo ser mais proveitoso.

Nem Agamémnon certo nem outro qualquer dos Aquivos conseguirá convencer-me pois graça nenhuma me veio de meu esforço incessante ao lutar contra os nossos imigos.

Tanto ao ocioso que ao mais esforçado iguais prémios são dados; as mesmas honras se outorgam ao fraco e ao herói mais galhardo.

Morre da mesma maneira o inactivo e o esforçado guerreiro.

Vede! Nenhuma vantagem me veio de tantos trabalhos a pôr em risco a existência nos mais temerosos combates.

Tal como aos filhos implumes costuma levar a avezinha grato alimento depois de o encontrar sem que em si mesma pense: de igual maneira tenho muitas noites insones passado e dias cheios de sangue no horror dos combates lutando contra inimigos somente por causa de suas mulheres.

Com minhas naus destruí doze grandes e fortes cidades e onze por terra asseguro-o nos plainos fecundos de Tróia.

De todas elas voltei carregado de espólio magnífico que sempre ao filho de Atreu Agamémnon era uso levava o qual soía ficar para trás junto às céleres naves.

Disso bem pouco entre nós dividia; ficava com tudo do que depois presenteava os heróis mais distintos e os chefes.

Estes ainda conservam seus prémios; eu só dos Aquivos fui despojado; tirou-me a querida consorte.

Pois goze-a! Durma com ela! Qual foi o motivo de Aqueus e Troianos digladiarem? Por que tanta gente reuniu Agamémnon e para cá transportou? Não por causa de Helena formosa?  Ou porventura entre os homens somente os Atridas demonstram ter às esposas afecto? Qualquer indivíduo de senso e bem-nascido à consorte demonstra afeição como o faço que a minha muito adorava apesar de ser presa de guerra.

Ora que veio enganar-me tirando-me o prémio devido não julgue nunca poder convencer-me pois bem o conheço; mas juntamente contigo Odisseu e os demais comandantes pense no modo de as naves livrar da voragem do fogo.

Sem meu auxílio já pôde fazer muitas coisas grandiosas; sim conseguiu construir esse muro e ainda mais protegido por fosso largo e profundo provido de fortes estacas.

Mas nem assim pode a força deter desse Héctor homicida.

Enquanto parte eu tomava nas lutas ao lado dos outros nunca ele quis combater muito longe dos muros de Tróia.

Até às portas Ceias chegava e à figueira que perto lhe fica onde uma vez me esperou; por bem pouco escapou de meu ímpeto.

Ora que nada me induz a lutar contra Héctor o divino cedo amanhã sacrifícios farei a Zeus grande e aos eternos e deitarei meus navios nas ondas depois de providos.

Tu próprio certo hás-de ver se o quiseres e se isso te importa  pelo Helesponto piscoso bem cedo eles todos partirem e neles homens alegres à força de remo impelindo-os.

E se Posídon que a terra sacode nos der ventos prósperos no solo fértil de Ftia estaremos no dia terceiro.

Quando por minha desgraça parti lá deixei bens inúmeros que aumentarei com o que levo: muito ouro e também bronze rubro ferro brilhante e formosas escravas de bela cintura quanto ganhei nas partilhas.

O que ele o possante Agamémnon me tinha dado valendo-se agora da força tomou-me.

Publicamente lhe faz um relato completo de tudo quanto te disse porque outros Acaios também se revoltem caso ele tenha intenção de enganar mais alguém entre os Dánaos com sua usual impudência.

Contudo não teve coragem esse cachorro de olhar-me apesar de despido de brio.

Cooperação é impossível haver por palavras ou obras pois me enganou e ofendeu.

Não me venha enganar novamente com seus discursos inúteis.

Já basta.

Sozinho acompanhe o seu destino funesto; do senso o privou Zeus potente.

São-me seus brindes odiosos e abaixo do mínimo preço.

Ainda que o décuplo viesse ofertar-me e até mesmo outro tanto  quanto possui no presente e o que possa ganhar em futuro as coisas todas que afluem para Orcómenos ou para a famosa Tebas Egípcia onde as casas pejadas de bens sempre se acham e que cem portas ostenta cada uma das quais dá passagem a combatentes duzentos seus carros de guerra e cavalos; ainda que mais me ofertasse que a poeira ou que a areia das praias nem mesmo assim poderia a vontade dobrar-me Agamémnon sem que primeiro até ao fim tal ofensa pesada me pague.

Com a donzela do Atrida jamais firmarei sacras núpcias mesmo que fosse dotada de encantos como a áurea Afrodite e à de olhos glaucos Atena igualasse em trabalhos de preço não na quisera esposar.

Entre os moços acaios deve ele genro escolher que lhe seja condigno e de igual importância.

Se eu conseguir com a ajuda dos deuses voltar para a pátria há-de Peleu por sem dúvida esposa saber escolher-me.

Muitas donzelas acaias em Ftia se encontram e na Hélade filhas de grandes heróis defensores de nossas cidades.

Da que me for mais do agrado farei minha fiel companheira.

O coração generoso já mostra desejos há muito de que legítima esposa afinal a escolher me resolva  para gozar das riquezas que o velho Peleu tem em casa.

A minha vida sem dúvida vale bem mais do que quanto dizem que Tróia possuía a cidade de belo traçado antes em tempo de paz sem que houvessem chegado os Aquivos e dos tesouros que dentro se encontram da pétrea soleira de Febo Apolo o frecheiro esplendente na rocha de Pito.

Arrebanhar bois tardonhos e ovelhas vistosas é fácil trípodes belas comprar ou cabeças de louros ginetes; mas a alma humana uma vez escapada do encerro dos dentes não mais se deixa prender sem podermos de novo ganhá-la.

Tétis a deusa dos pés argentinos de quem fui nascido já me falou sobre o dúplice Fado que à Morte há-de dar-me: se continuar a lutar ao redor da cidade de Tróia não voltarei mais à pátria mas glória hei-de ter sempiterna; se para casa voltar para o grato torrão de nascença da fama excelsa hei-de ver-me privado mas vida mui longa conseguirei sem que o termo da Morte mui cedo me alcance.

A todos vós quero dar o conselho também de embarcardes e para a pátria seguirdes; jamais podereis ver o termo de Ílion escarpada que a mão protectora sobre ela Zeus grande  de voz potente estendeu reforçando a coragem do povo.

Ide entretanto anunciar aos mais nobres guerreiros aquivos minha resposta –que é esse o dever dos anciões do conselho– para que possam pensar noutro plano de mais eficiência que lhes permita salvar os navios e os homens que se acham junto das naves recurvas que o que eles agora tentaram é impraticável; não tenho intenção de afrouxar do propósito.

Deixe-se entanto Fénix ficar entre nós esta noite para que possa amanhã retornar para a pátria se acaso for do seu gosto; a ninguém levarei contra a própria vontade.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram estupefactos perante a violência de sua resposta até que chorando a falar começou o ginete Fénix pois tinha muito receio que às naus algum mal sucedesse: “Se nobre Aquileu de facto pretendes voltar para a pátria e te recusas de todo a livrar os navios acaios do voraz fogo uma vez que ainda a cólera o peito te inflama como é possível meu filho pensares que possa ter vida longe de ti? Por Peleu fui mandado seguir-te no dia em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu Agamémnon  ainda na infância igualmente inexperto nas guerras penosas e nos discursos das ágoras onde os heróis se enaltecem.

Sua intenção foi que viesse contigo porque te ensinasse como dizer bons discursos e grandes acções pôr em prática.

Por isso tudo meu filho sem ti continuar não desejo ainda que um deus em pessoa me viesse fazer a promessa de me tirar a velhice e de novo o vigor restituir-me da mocidade que na Hélade tinha de belas mulheres quando fugi por brigar com meu pai filho de Órmeno Amíntor que ódio me tinha por causa da amante de belos cabelos.

A essa afeição dedicava esquecendo a consorte legítima que me era mãe e vivia a pedir-me abraçando-me os joelhos que à bela escrava me unisse porque esta votasse ódio ao velho.

Obedeci-lhe alcançando o almejado.

Meu pai quando o soube amaldiçoou-me e chamou contra mim as odiosas Erínias para que nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe  de mim nascido; atenderam-lhe a súplica os deuses eternos Hades o Zeus subterrâneo e Perséfone deusa terrível.

Tive o desígnio de a vida tirar-lhe com bronze afiado; mas a ira um deus me acalmou dando-me azo a que então reflectisse  na triste fama com que passaria a viver entre o povo se ‘parricida’ ao meu nome juntasse entre os homens da Acaia.

O coração no imo peito não quis que por tempo mais longo me demorasse na casa em que odioso ao meu pai me tornara ainda que muitos parentes e primos assaz se esforçassem à minha volta com o fim de evitar que deixasse o palácio.

Muitas ovelhas vistosas e bois que se arrastam tardonhos sacrificaram e infindos cevados de flórido lardo que para assarem passavam por cima da chama de Hefestos.

Quantos pichéis de bom vinho do velho infeliz não beberam? Por nove noites seguidas dormiram alguns ao meu lado a se alternarem na guarda e mantendo dois fogos constantes um junto ao pórtico dentro do pátio de cerca bem feita e no vestíbulo o segundo defronte da porta do quarto.

Mas quando a décima noite afinal tenebrosa nos chega uma das sólidas portas do quarto arrombar enfim pude e do aposento esgueirar-me saltando o cercado do pátio sem que o advertissem os guardas nem mesmo as serventes da casa.

Daí fugitivo percorro toda a Hélade de amplas estradas até dar no solo fecundo de Ftia nutriz de rebanhos  onde me acolhe o potente Peleu com benévolo espírito.

Teve-me grande afeição como pai poderoso a filho único único herdeiro de infinda riqueza para ele acervada e cumulou-me de bens sobre dar-me o comando de gentes pois sobre os Dólopes tive o governo no extremo de Ftia.

Qual és Aquileu divino nesta hora por mim foste feito por mim com terna afeição.

Ninguém mais ao teu lado querias tanto como hóspede fora ou na mesa nos nossos banquetes até que em meus joelhos alfim te pusesse e cortasse os assados em pedacinhos com o que te saciasses e vinho te desse.

Não poucas vezes de vinho no peito molhaste-me a túnica que borrifavas por cima de mim com capricho de criança.

Por tua causa vê só que trabalhos sofri que de incómodos! Considerando que os deuses um filho me haviam negado como se filho me fosses Aquileu divino criei-te para que um dia amparar-me pudesses da ruína e do opróbrio.

Vamos Aquileu o orgulho domina; aspereza tão grande não fica bem para ti pois se deixam dobrar até os deuses com terem mais dignidade poder superior e virtude.

Apesar disso conseguem os homens obter-lhes as graças  com libações e gordura queimada com preces e vítimas se porventura cometem qualquer infracção ou pecado.

Pois são as Preces nascidas do Crónida Zeus poderoso coxas de pele enrugada e de olhar indeciso e desviado as quais se afanam no encalço da Culpa tentando alcançá-la.

Esta é porém vigorosa e de pés mui velozes; por isso a todas elas se adianta causando onde quer que se encontre dano aos mortais ao que as Preces procuram depois dar remédio.

Quem a essas filhas de Zeus ao chegarem demonstra respeito delas obtém só vantagens por serem seus votos ouvidos.

Mas se obstinados os homens ouvidos acaso lhes negam as Preces logo a Zeus Crónida sobem e instantes suplicam que sempre a Culpa os torture e que tenham com o dano o castigo.

Por isso Aquileu concede a essas filhas de Zeus o devido acatamento que heróis valorosos já têm conquistado.

Se não te houvesse Agamémnon dons ofertado além de outros que te promete mas ainda insistisse em mostrar-se zangado não te viria exortar certamente a suster a tua cólera para ajudar os Acaios embora careçam de auxílio.

Dá-te porém muitas coisas e dons mais valiosos promete  e te mandou com pedido em seu nome os varões mais conspícuos do acampamento escolhendo os Argivos que mais estimavas.

Não menosprezes portanto seus passos e quanto disseram que antes a tua atitude nós todos assaz a exculpávamos.

As próprias gestas de heróis das idades corridas nos dizem que quando acaso ficavam possuídos de cólera grande eram sensíveis a brindes dobrando-se à força suasória.

Ora meus caros amigos me ocorre contar-vos um caso nada recente bem velho tal como se deu em verdade.

De certa vez os Curetes e os fortes Etólios à volta de Calidona lutavam causando recíproco estrago.

Estes lutando em defesa da bela cidade; os Curetes só desejosos de que Ares entrar nas muralhas lhes desse.

Foi provocada a contenda por Ártemis do trono de ouro que se indignara por não ter de Eneu recebido as primícias dos agros pingues quando este ofertou hecatombes aos deuses todos do Olimpo exceptuando-se a filha de Zeus tão-somente ou por descuido ou de caso pensado o que a fez irritar-se.

Por isso pois agastada a donzela que flechas dispara um javali de alvos dentes selvagem envia contra ele  que destruidor habitual as culturas de Eneu danifica.

Árvores grandes fazia tombar pelo solo e com elas suas raízes no tempo em que a flor prometia sementes.

Foi por Meleagro filho de Eneu o animal então morto após haver feito reunir caçadores de muitas cidades e seus mastins; impossível a poucos seria vencê-lo tão grande ele era pois muitos já à pira funesta mandara.

Entre os Etólios galhardos e os homens curetes valentes  a deusa então suscitou clamorosa contenda por causa da pele hirsuta do grande javardo e da enorme cabeça.

Enquanto o forte Meleagro esteve a lutar o Destino para os Curetes foi sempre contrário pois fora dos muros ainda que em número grande lhes era impossível manter-se.

Mas quando o peito do herói foi tomado pela ira que a muitos outros também já turvara dotados embora de siso e contra Alteia sua mãe irritado ficou o guerreiro foi para junto da esposa legítima a bela Cleópatra filha da filha de Eveno Marpessa dos belos artelhos e do grande Idas o herói mais robusto de quantos outrora na terra extensa viveram que até contra Febo tomara  do arco por causa da noiva estimada de artelhos venustos.

A esta por isso no belo palácio o apelido de Alcíone os próprios pais lhe puseram porque o sofrimento dessa ave à mãe coubera também que profundos lamentos soltava quando se vira raptada por Febo o frecheiro infalível.

Junto da esposa agastado deixou-se ficar por motivo das maldições de sua mãe que do irmão tendo a morte sentido aos deuses todos do Olimpo sem pausa orações dirigia.

Vezes sem conta à alma Terra com a mão percutiu invocando o nome de Hades escuro e Perséfone a deusa tremenda posta de joelhos e o seio banhado de lágrimas quentes para que o filho fizessem morrer.

Pelas duras Erínias que andam nas trevas desde o Érebo foi logo a súplica ouvida.

Em torno às portas entanto o barulho e o clamor recrudescem; as torres foram forçadas.

Os velhos Etólios nessa hora e os sacerdotes sagrados de mais reverência lhe pedem que a defendê-los se ponha ofertando-lhe muitos presentes.

Em Calidona aprazível lhe dizem um campo escolhesse onde terreno mais fértil achasse podendo cinquenta jeiras ao todo marcar; para vinha do chão a metade;  a outra metade sem árvores só de terreno lavrável.

O velho Eneu picador também fez insistentes pedidos.

De pé no umbral do aposento de tecto elevado sacode as folhas firmes da porta a chamar pelo nome do filho.

Muito também as irmãs lhe pediram e a mãe veneranda.

Mais firmemente porém se negava Meleagro.

Pedem-lhe os companheiros com muita insistência e os mais caros amigos.

O coração no imo do peito porém ninguém pôde abalar-lhe antes de o fogo lhe haver atingido o aposento e os Curetes às altas torres subido e iniciado a conquista dos muros.

Foi nesse instante que a esposa do herói de cintura bem feita por entre choro lhe exora fazendo relato completo dos sofrimentos dos homens se viesse a cair a cidade: da morte vil e cruel que teriam do incêndio das casas  da servidão em que iriam ficar as mulheres e as crianças.

À relação desses males alfim comovido se mostra.

Sem mais detença correu a envergar a armadura brilhante.

Dessa maneira afastou dos Etólios o dia funesto por próprio impulso levado.

Sem paga os livrou do perigo pois dos presentes de grande valia nenhum lhe foi dado.

Essa maneira de ver caro amigo não deve ser tua.

Nenhum demónio te instigue.

Seria sem dúvida inglório ir em defesa das naus incendiadas.

Aceita os presentes que te ofertaram.

Os Gregos ter-te-ão como um deus do alto Olimpo.

Pois se enfrentasses a guerra homicida sem dádivas grandes honra menor te coubera ainda mesmo que o imigo afastasses.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés em resposta o seguinte: “Velho Fénix nutrido por Zeus de tais honras não curo: são dispensáveis.

Confio isso sim nos favores do Crónida que me farão demorar junto às naves recurvas enquanto sopro no peito tiver e os joelhos puderem mover-se.

Ora outra coisa te quero dizer; guarda-a bem no imo peito: O coração não me venhas turvar com lamentos e queixas para ao Atrida agradares.

Não deves amá-lo desta arte se não quiseres em ódio mudar a afeição que te voto.

Fica-te bem retribuir com ofensa a quem vier a ofender-me.

Vem partilhar do comando comigo; iguais honras te caibam.

Estes dirão a resposta.

Aqui pois permanece e ao macio leito recolhe-te.

Logo que a Aurora surgir pensaremos no que convém escolher: se ficar se voltar para a pátria.”

Com o sobrecenho depois sem falar fez a Pátroclo aceno para que o leito mandasse aprontar de Fénix que logo os outros dois no retorno pensassem.

Ájax Telamónio de forma igual à dum deus proferiu as seguintes palavras: “Filho de Laertes de origem divina Odisseu engenhoso vamos! Não creio que nosso propósito alcance algum êxito por esta via.

Ora cumpre sem perda de tempo a resposta comunicar aos Argivos embora bem ruim ela seja que eles por certo ainda estão reunidos à espera.

O Pelida de ira selvagem somente inundou o magnânimo peito.

Homem cruel que não preza a amizade dos fidos consócios essa com que o distinguíamos junto de nossos navios! Sem compaixão! É comum aceitar-se o resgate até mesmo pelo assassínio do irmão pela morte do filho querido.

Fica o ofensor no país quando multa adequada se acorda pois o ofendido refreia no peito a paixão excruciante com receber os presentes.

Rancor implacável e duro no coração te puseram os deuses por causa tão-somente duma cativa.

No entanto te damos sete outras belíssimas e muitas dádivas mais.

Sossega portanto o teu peito   e tua casa respeita; encontramo-nos sob este tecto por comissão dos Acaios.

Julgávamos todos te fôssemos os mais prezados amigos no grande arraial dos Argivos.”

Disse-lhe Aquileu dos rápidos pés em resposta o seguinte: “Dominador poderoso de povos Ájax Telamónio! Com quase todas as tuas palavras meu peito concorda.

O coração porém sinto indignar-se ao lembrar-me do insulto que me atirou Agamémnon em face do exército aquivo como se eu fosse adventício de todo o valor destituído.

Ora fazei-vos de volta e a resposta que dei transmiti-lhe.

Não tomarei decisão de tomar para a guerra cruenta antes que Héctor o divino de Príamo sábio nascido chegue até perto das tendas e naus dos heróicos Mirmídones e a dizimar os guerreiros aquivos as naus incendeie.

Mas quero crer que aqui perto da tenda em que me acho e da nave de cor escura há-de Héctor valoroso refrear seus propósitos.”

Isso disse ele.

Então todos tomando dos copos libaram junto das naus regressando; servia Odisseu como guia.

Pátroclo então disse às servas e a seus companheiros que fossem o leito cómodo logo aprontar para o velho Fénix.

Obedientes às ordens o leito aprontaram forrando-o com velo e colcha macia e coberta de linho finíssimo.

O velho ilustre deitou-se aguardando a chegada da Aurora.

Deita-se Aquileu também no recesso da tenda bem feita com uma jovem ao lado que havia trazido de Lesbos filha do grande Forbante Diomeda de faces rosadas.

Pátroclo no lado oposto também se deitou tendo ao lado Ífis de bela cintura que Aquileu divino lhe dera quando a cidade de Enieu valoroso a alta Esciro saqueara.

Logo que os dois emissários chegaram à tenda do Atrida viram-se pelos Argivos cercados que alçando-se prestes com taças de ouro os saudavam ansiosos por tudo saberem.

Foi o primeiro a falar Agamémnon rei poderoso: “Diz-me logo Odisseu meritíssimo glória da Acaia se ele consente em livrar os navios do fogo inimigo ou se se nega por ter ainda o peito tomado pela ira?” Disse-lhe então em resposta Odisseu sofredor de trabalhos: “Filho glorioso de Atreu Agamémnon rei poderoso não só persiste na cólera como se mostra tomado pelo furor recusando os presentes e tuas propostas.

Acha que deves com os outros Argivos pensar na maneira de as naus e o exército acaio salvar do perigo iminente.

Sim chegou mesmo a ameaçar de que logo que a Aurora se eleve há-de puxar para as ondas as naves de boa coberta.

Acrescentou que aconselha aos demais que se façam de volta para o torrão de nascença que o termo jamais acharemos  de Ílion escarpada que a mão protectora sobre ela Zeus grande de voz potente estendeu reforçando a coragem do povo.

Meus companheiros aqui poderão confirmar o que digo o Telamónio e os arautos dotados de grande prudência.

O venerando Fénix ficou a conselho de Aquileu para partir juntamente com ele amanhã muito cedo caso o deseje que contra a vontade não há-de levá-lo.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram estupefactos perante a violência de suas palavras.

Por muito tempo em silêncio mantêm-se os turvados Aquivos até que por fim fala o grande Diomedes de voz poderosa: “Filho glorioso de Atreu Agamémnon rei poderoso! Antes nenhuma proposta tivesses ao grande Pelida  apresentado nem feito tão grandes promessas.

Se já era insuportável tornou-se ainda mais insolente com isso.

Não mais devemos com ele ocupar-nos quer volte realmente quer se decida a ficar.

Há-de alfim reingressar nos combates quando lhe o peito ordenar ou algum deus o incitar a fazê-lo.

Ora convém proceder como o digo; obedeçam-me todos.

Satisfaçamos primeiro o desejo com vinho e alimentos para irmos logo dormir que isso as forças restaura e a coragem.

E quando a Aurora de dedos de rosa surgir no horizonte a postos põe junto às naves os homens e os carros de guerra e para a luta os incita; tu próprio lhes sê alto exemplo.”

Todos os chefes presentes romperam em francos aplausos de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.

As libações completadas às tendas depois se acolheram onde gozaram deitados dos gratos presentes do sono.


 

CANÇÃO X

A noite toda dormiam os chefes do exército aquivo junto das naus dominados alfim pelo plácido sono.

Somente o filho de Atreu Agamémnon rei poderoso não repousava que muitos cuidados lhe o peito agitavam.

Tal como quando Zeus grande marido da deusa cacheada crebro lampeja aprontando infinito aguaceiro granizo ou neve em flocos que os campos extensos e arados branquejam ou quanto alhures as fauces monstruosas da guerra escancara: com tal frequência escapavam suspiros do peito do Atrida dos penetrais da alma grande tremendo-lhe no imo as entranhas.

Sempre que o olhar para o campo dos Teucros volvia admirava-se da quantidade de fogos que em frente de Tróia brilhavam dos sons das flautas e gaitas do grande tumulto dos homens.

Mas quando olhava depois para as naves e as gentes da Acaia muitos cabelos em mechas da própria cabeça arrancava o nobre peito a gemer para Zeus no alto Olimpo voltando-se.

Dos vários planos pensados alfim pareceu-lhe o mais certo ir procurar o Neleio Nestor o primeiro dos homens para com ele quiçá combinar algum plano eficiente  que conseguisse livrar do infortúnio os guerreiros argivos.

Pondo-se logo de pé veste a túnica fina e macia; calça a seguir as formosas sandálias nos pés delicados e a pele escura dum fulvo leão que até aos pés lhe chegava sobre as espáduas coloca tomando da lança potente.

Cheio de medo também Menelau se encontrava – nas pálpebras não vinha o sono pousar-lhe –pensando que alguma desgraça acontecesse aos Argivos que mar tão extenso cortaram por sua causa com o fim de valor patentear nessa guerra Nos ombros largos a pele manchada primeiro ele atira duma pantera; a seguir na cabeça depõe a viseira brônzea e com a mão poderosa da lança potente segura.

Foi logo o irmão despertar que imperava com grande prestígio sobre os guerreiros aquivos os quais como a um deus o acatavam.

Junto da popa o encontrou do navio em vestir ocupado as belas armas.

Alegra-se o rei à chegada do mano.

Foi o primeiro a falar Menelau de voz forte na guerra: “Qual o motivo de as armas vestires? Mandar ora intentas um dos guerreiros a espiar o arraial dos Troianos? Receio que ninguém queira aceitar essa empresa e fazer-te a promessa  de sem nenhum companheiro na Noite divina esgueirar-se por entre gente inimiga.

Isso tudo requer muita audácia”;  O poderoso Agamémnon disse o seguinte em resposta: “Para ambos nós Menelau de Zeus grande discípulo faz falta um bom conselho que venha amparar e salvar os navios e todo o exército desde que os desígnios de Zeus se alteraram.

Os sacrifícios de Héctor lhe são muito mais caros agora.

Não jamais vi ou sequer me contaram que um homem sozinho e num só dia chegasse a fazer tais e tantas proezas como as que Héctor caro a Zeus realizou contra os homens aquivos e isso sem ter ele sido por deus ou por deusa gerado.

Hão-de os Argivos guardar estou certo a lembrança de todas estas façanhas tal foi o prejuízo que aos Dánaos causaram.

Mas ainda assim corre às naus para Ájax convocar sem demora e Idomeneu que hei-de eu próprio ir chamar o divino Nestor e estimular a que se alce no caso de ser-lhe do gosto ir até ao corpo sagrado dos guardas a dar bons conselhos.

Mais do que aos outros lhe mostram respeito.

Seu filho é quem se acha com o comando da guarda e Meríones fiel companheiro de Idomeneu.

A ambos eles confiámos a empresa difícil.”

Disse-lhe então Menelau de voz forte em resposta o seguinte: “Por que maneira pretendes que dê cumprimento a essas ordens? Ao lado deles me deixo ficar aguardando-te ou devo vir procurar-te de novo depois de haver dado o recado?” Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso: “Fica lá mesmo; não vá suceder que não mais nos achemos pois todo o campo é cortado por número infindo de ruas.

Quando passares por fora em voz alta a eles todos esperta; chama a cada um pelo nome dos pais demonstrando com isso que a todos sabes honrar; não reveles soberba em teus actos.

Demos exemplo de esforço aceitando canseira de grado pois desde o berço nos tem reservado trabalhos Zeus grande.”

Dessa maneira ao irmão despediu após o haver instruído indo ele em busca do velho Nestor chefe insigne de povos o qual achou junto à nave de casco anegrado deitado no brando leito.

Ao seu lado se achavam as armas vistosas as duas lanças o escudo redondo e a luzente cimeira.

Próximo o bálteo se achava brilhante com que se cingia o velho ilustre ao tomar parte activa na guerra homicida pois sem ceder à velhice inamável guiava seus homens.

Alça a cabeça o Neleio Nestor apoiando-a no cúbito e para o Atrida virado lhe diz as seguintes palavras: “Quem é que percorre no escuro da noite sozinho os navios e o acampamento no tempo em que os outros mortais ainda dormem? Andas atrás de algum mulo ou quiçá dum dos teus camaradas? Fala; calado não dês mais um passo.

De que necessitas?” Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso: “Máxima glória dos povos aquivos Nestor de Gerena  em mim conhece Agamémnon a quem Zeus legou sofrimentos mais do que a todos os homens e que hão-de durar até quando no peito alento sentir e puderem os joelhos mover-se-lhe.

Vago errabundo desta arte que os olhos o sono agradável não me visita; preocupa-me a guerra e o penar dos Aquivos.

Por causa deles realmente o receio de mim se apodera.

Fico indeciso; parece que sinto do peito saltar-me o coração; tenho os membros robustos agora impotentes.

Já que não dormes também se tiveres em mente algum plano às sentinelas baixemos então pois convém que vejamos se elas não foram vencidas do mole cansaço entregando-se ao sono assim deslembradas de todo dos próprios deveres.

O acampamento inimigo está perto e ninguém saber pode se dele ataque jamais nos virá no período da noite.”

Disse-lhe então o Gerénio Nestor condutor de cavalos: “Filho glorioso de Atreu Agamémnon rei poderoso Zeus prudentíssimo certo não pensa em dar corpo aos desígnios todos de Héctor tal como este o deseja.

Maiores trabalhos que os de antes certo virão e em quantia maior quando Aquileu o coração generoso aliviar dessa cólera ingente.

Sim já te sigo; mas antes convém que outros mais despertemos não só o Tidida de lança famosa Odisseu valoroso o velocíssimo Ájax e o do grande Fileu descendente.

Ora mandemos algum mensageiro chamar sem demora a Idomeneu chefe insigne de povos e Ájax Telamónio cujos navios mui longe se encontram não perto do centro.

Mas Menelau muito embora lhe tenha afeição e o respeite censurá-lo-ei –não te agastes que fora impossível conter-me– por ter ficado a dormir entregando-te todo o trabalho.

Neste momento ficava-lhe bem insistir com pedidos junto dos chefes aqueus por ser grande em verdade o perigo.”

Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso:  “Velho por vezes eu próprio a que o vás censurar te concito pois é amiúde indolente e procura fugir às canseiras não por incúria decerto ou por ser de inferior intelecto mas por olhar-me frequente e esperar que de mim parta o exemplo.

Antecipou-se porém desta vez e chamou-me ele próprio tendo ido agora à procura dos chefes que há pouco nomeaste.

Vamos que a todos por certo devemos de achar junto às portas com as sentinelas.

Foi lá que assentámos deviam reunir-se.”

Disse-lhe então o Gerénio Nestor condutor de cavalos: “Ora hão-de sempre os guerreiros acordes prestar-lhe obediência quando lhes vier ordem dele ou por ele exortados se virem.”

O peito após ter falado na túnica fina protege; calça a seguir as formosas sandálias nos pés delicados e com o colchete afirmou sobre os ombros o manto de púrpura  amplo e bastante comprido adornado com felpa lanosa.

Pega na lança potente munida de ponta de bronze e para as naves se foi dos Acaios vestidos em bronze.

O velho Pílio Nestor domador de cavalos primeiro em altas vozes desperta a Odisseu semelhante a Zeus grande no entendimento; depressa atingiu-lhe a consciência o chamado.

Da tenda o herói saiu logo e as seguintes palavras profere: “Quem é que corre na Noite divina sozinho os navios e o acampamento? Que causa tão grave a esse passo o compele?” Disse-lhe então o guerreiro Nestor domador de cavalos: “Filho de Laertes de origem divina Odisseu engenhoso não te molestes que é grande o pesar que os Acaios oprime.

Segue-nos; vamos chamar mais alguns os que têm por ofício deliberar sobre o grave dilema: ou combates ou fuga.”

A essas palavras na tenda reentrou Odisseu astucioso; põe sobre os ombros o escudo voltando a juntar-se aos guerreiros.

Daí o Tidida Diomedes procuram o qual encontraram fora da tenda com as armas ao lado; dormiam-lhe à volta os companheiros fiéis que apoiavam no escudo a cabeça.

Fixas no chão pelos contos as lanças estavam que ao longe tal como raios de Zeus reluziam.

Deitado no couro de boi selvagem no solo estendido dormia Diomedes tendo a cabeça pousada num belo e brilhante tapete.

Aproximou-se-lhe o velho Nestor domador de cavalos e sacudindo-o com o pé despertou-o e lhe disse em censura: “Vamos Tidida levanta-te! Como dormir toda a noite?  Pois não ouviste que os Teucros dominam dum alto a planície perto das naus e que espaço pequeno de nós os separa?” Isso disse ele; de pronto Diomedes do sono desperta e para ele virando-se diz-lhe as palavras aladas: “Velho és de facto admirável! Não dás aos teus membros repouso.

Não haveria entre os filhos da Acaia guerreiros mais moços que se incumbissem da ronda e também de fazer que despertem todos os príncipes? És em verdade incansável ó velho!” Disse-lhe então o Gerénio Nestor domador de cavalos: “Quanto disseste meu filho concorda com a estrita verdade.

Filhos por certo admiráveis possuo e auxiliares bastantes que poderiam fazer esta ronda e chamar a vós todos.

Mas é excessivo o perigo que os nobres Acaios oprime.

Ou para todos a Morte lutuosa ou com vida seguirmos: eis o dilema que pende nesta hora do fio da espada.

Vamos então.

Vai chamar o veloz Telamónio e o Filida já que és mais moço do que eu e te mostras assim compassivo.”

A pele escura dum leão que lhe vinha até aos pés ele a atira logo às espáduas e sôfrego toma da lança potente.

Pôs-se a caminho aos heróis despertou e os guiou de tomada.

Quando afinal o local alcançaram do corpo da guarda nenhum sequer dos guerreiros entregues ao sono encontraram sim todos eles despertos estavam com as armas a jeito.

Tal como cães que de manso redil em penosa vigia ao perceberem que fera voraz há dos montes baixado e pelas matas avança despertos enorme algazarra de vozes de homens provocam sem mais se lembrarem do sono: do mesmo modo desfizera-se o sono agradável nas pálpebras dos que velavam na noite funesta; voltados se achavam para a planície a atentarem nos ruídos do campo troiano.

Vendo-os o velho alegrou-se e com o fim de lhes dar mais estímulo para eles todos voltando-se disse as palavras aladas: “Bravos meus filhos! Vigiai sempre assim; que ninguém ceda ao sono para não virmos a ser objecto de escárnio do imigo.”

Eis salta o fosso ao falar sendo logo seguido por todos os soberanos argivos que para o conselho chamara.

A eles depois se agregaram Meríones e o alto Nestorida que tinham sido invitados também para aquele conselho.

O fosso tendo transposto eles todos então se sentaram num lugar limpo onde livre o terreno se achava dos mortos  que ali tombaram no ponto preciso em que Héctor desistira de dizimar os Argivos ao ser pela noite envolvido.

Nesse lugar assentados trocaram prudentes conselhos.

Foi o primeiro a falar o senhor de Gerena Nestor: “Caros amigos não há por acaso entre vós quem se atreva só na coragem confiado a ir ao campo dos Teucros altivos? Fora possível talvez apanhar qualquer guarda avançada ou surpreender os Troianos reunidos quiçá em conselho para ficarmos sabendo quais sejam seus planos: se intentam perto dos nossos navios o campo fixar ou se ao burgo já de tornada se encontram contentes por terem vencido.

Caso obtivesse os informes e incólume após retornasse atingiria sua glória sem dúvida o céu espalhando-se entre os mortais sobre vir a alcançar um presente magnífico: cada um dos chefes preclaros de quantos as naves comandam sem excepção lhe daria uma ovelha com seu cordeirinho negra sem mancha presente difícil de ser comparado e nos banquetes e festas teria lugar de relevo.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram até que por fim fala o grande Diomedes de voz poderosa:  “Meu coração e meu ânimo altivo Nestor me compelem a ir até ao campo de nossos imigos troianos tão próximo.

Mas se tivesse ao meu lado um qualquer dos guerreiros aquivos bem mais seguro ficara e com mais decisiva coragem.

Quando são dois se um não vê o outro logo percebe o caminho mais vantajoso; sozinho qualquer indivíduo prudente  de inteligência mais tarda se torna e de acção menos pronta.”

Muitos então se mostraram dispostos a ir com o Tidida: os dois Ájaxes avançam dilectos do deus Ares forte; quis secundá-lo Meríones mais o Nestorida ilustre bem como o forte lanceiro nascido de Atreu Menelau.

Quis finalmente o paciente Odisseu penetrar nas fileiras dos inimigos pois era inclinado às acções arriscadas.

Pôs-se Agamémnon rei poderoso a falar deste modo: “Ó claro filho do grande Tideu dilectíssimo amigo! Ora de acordo com teu parecer faz a escolha do sócio para a arriscada entrepresa; são muitos os que se apresentam.

Nenhum motivo te leve a deixar de escolher o mais digno e um menos apto apontar por vergonha talvez ou respeito só pela estirpe levado ou quiçá por tratar-se dum príncipe.”

Isso dizia receando que a escolha no irmão recaísse.

Pôs-se a falar novamente Diomedes de voz atroante: “Se decidis que seja eu que hei-de a escolha fazer do meu sócio como é possível que venha do divo Odisseu a esquecer-me cuja coragem nos grandes perigos e o espírito ardente sempre se afirmam o herói distinguido por Palas Atena? Tendo-o por meu companheiro até mesmo das chamas ardentes retornaremos ilesos por ser mais que todos astuto.”

Disse-lhe o divo e solene Odisseu o seguinte em resposta: “Não me elogies Tidida demais nem de mim faças pouco pois te diriges aos chefes argivos que assaz me conhecem.

Vamos! A Noite já vai adiantada; aproxima-se a Aurora; os astros acham-se muito avançados e mais de dois terços já transcorreram da Noite; somente nos resta uma parte.”

Ambos depois de falar envergaram as armas terríveis.

Deu Trasimedes o herói belicoso ao Tidida uma espada de duplo fio –que a deste ficara na nave simétrica– e um belo escudo.

Depois a cabeça cingiu-lhe com um elmo simples de couro sem crista achatado de nome “catétix” apropriado a servir de anteparo à cabeça dos moços.

O arco e o carcás e uma espada ao divino Odisseu deu Meríones; um capacete de pele depois lhe adaptou na cabeça que pela parte de dentro era todo torrado com loros bem distendidos; por fora se viam colmilhos sem conto de javalis de alvos dentes dispostos em filas cerradas muito habilmente; no meio o enchimento era todo de feltro.

Um dia Autólico pôde roubar esse casco de Amíntor de Órmeno filho em Eleona arrombando-lhe o forte palácio.

A Anfidamante depois o entregou de Citera em Escândia o qual a Molo a seguir como grato presente oferece; ao filho amado este o entrega Meríones para que o usasse que por sua vez na cabeça do divo Odisseu o coloca.

Após terem ambos os chefes as armas terríveis vestido iniciaram o caminho deixando os Acaios ilustres.

Palas Atena uma garça enviou-lhes ao longo da estrada pela direita.

Impossível lhes era em verdade enxergá-la na noite escura; mas mui claramente o gazeio lhe ouviram.

Ledo Odisseu com o presságio dirige-se a Palas Atena: “Ouve-me filha de Zeus poderoso que em todas as minhas dificuldades me assistes a quem não se ocultam meus passos  Palas Atena! Ora mais do que nunca propícia me ajuda.

Dá que possamos cobertos de glória voltar para as naves após grande feito acabarmos que há-de lembrar sempre os Teucros.”

Por sua parte Diomedes de voz poderosa suplica: “Ouve-me Atena também nobre filha de Zeus poderoso! Segue-me como seguiste meu pai o divino Tideu quando ele em Tebas esteve em missão dos guerreiros aquivos.

No Rio Asopo deixara os Argivos de vestes de bronze e razoáveis propostas levou para os filhos de Cadmo.

Feito terrível porém conseguiu realizar ao retorno graças a ti grande deusa que sempre o amparaste benévola.

Sê-me propícia igualmente e cuidosa ao meu lado te ponhas.

Hei-de imolar-te vitela dum ano de fronte espaçosa e não domada jamais por ninguém nem vergada no jugo; hei-de ofertar-te uma assim após ter-lhe dourado os dois chifres!” Isso disseram na súplica; Palas Atena os ouviu.

Após terem ambos orado à donzela de Zeus poderoso como dois leões se puseram a andar pelo escuro da noite atravessando os estragos cadáveres armas e sangue.

Os valorosos Troianos Héctor não deixou por seu lado  que repousassem.

Convoca depressa os mais célebres chefes os conselheiros do povo e os que tinham na guerra o comando.

Tendo-os ali reunidos propôs-lhes sensato conselho: “Qual dentre vós quererá pôr em prática o plano que tenho para ganhar alto prémio? Obterá recompensa condigna.

Um belo carro de guerra com dois ardorosos cavalos os do mor preço das naves velozes acaias prometo a quem ousar –alta glória com isso há-de obter por sem dúvida– aproximar-se das naves de curso veloz porque vejam se ainda os Aqueus continuam guardando os navios velozes ou se alquebrados por causa das perdas que a todos levamos e pelo extremo cansaço vencidos combinam a fuga sem se importarem de a guarda nocturna fazer neste instante.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram.

Um tal Dólon entre os Teucros se achava nascido de Eumedes o divo arauto; muito ouro de facto possuía e assim bronze.

Exteriormente era pouco agradável porém velocíssimo.

Com cinco irmãs era ele o único filho varão no palácio.

Vira-se então para Héctor e os Troianos e diz o seguinte: “Meu coração e meu ânimo Héctor destemido me levam  a aproximar-me das naves de curso veloz para espiá-las.

Quero porém que primeiro me jures alçando o teu ceptro que me darás os cavalos e o carro de adornos de bronze que nos combates Aquileu conduz o guerreiro admirável.

Tua confiança verás confirmada; não sou mau esculca pois pretendo ir pelo campo inimigo até perto da nave do grande Atrida Agamémnon onde quiçá se reuniram para pensar no dilema: ou fugir ou aceitar o combate.”

Isso disse ele; tomando do ceptro jurou Héctor logo: “O testemunho ora invoco de Zeus atroador de Hera esposo de que jamais outro bravo Troiano será transportado por tais corcéis; tu somente hás-de ter para sempre essa glória!” Foi vã sem dúvida a jura que aliás a Dólon deu coragem O arco recurvo sem perda de tempo nos ombros atira a pele enverga dum lobo cinzento que os membros lhe cobre gorro de fuinha coloca e tomando um dardo pontudo o acampamento deixou dirigindo-se às naves simétricas donde jamais haveria voltar para a Héctor dar notícias.

Quando distante da bulha se viu dos corcéis e dos homens cheio de ardor pôs-se a andar.

O divino Odisseu notou logo  que vinha alguém e virando-se para Diomedes lhe fala: “Esse homem caro Tidida vem vindo do campo troiano provavelmente com o fim de ir direito espiar os navios ou para o corpo espoliar dos que a vida no campo perderam.

Vamos deixar que de nós ele um pouco se adiante no campo para depois atrás dele corrermos e logo prendê-lo.

Ainda que pés mais velozes possua e rios leve vantagem cada vez mais afastado dos seus para as naus vou forçá-lo com minha lança impedindo que volte a abrigar-se nos muros.”

Ambos depois de falar se desviaram da estrada agachando-se entre os cadáveres; lestes o incauto por eles perpassa.

Mas quando o espaço alcançou que lavrar duas mulas costumam sem se deterem –são tais alimárias que os bois bem melhores para com sólido arado na terra abrir sulco profundo– ambos no encalço lhe foram.

Ouvindo barulho deteve-se por presumir que do campo troiano um dos fiéis companheiros vinha chamá-lo da parte de Héctor para aos seus ir de volta.

Mas quando os teve à distância de tiro de lança ou mais perto reconheceu que era gente inimiga.

Depressa puseram-no em fuga os joelhos.

Os dois também logo a correr começaram.

Como dois cães de colmilhos agudos mui destros na caça pela floresta perseguem sem dar-lhes descanso uma corça ou veloz lebre que à frente lhes corre a guinchar rapidíssima: da mesma forma Diomedes e o grande eversor de cidades  o perseguiam sem trégua fazendo-o alongar-se do campo.

Quando porém a correr para as naves estava a chocar-se com as sentinelas Atena insuflou decisão no Tidida porque nenhum dos guerreiros aquivos de vestes de bronze o antecipasse na glória de ser o primeiro a feri-lo.

Sempre a correr manejando alto a lança lhe grita Diomedes: “Pára ou há-de aí mesmo alcançar-te esta lança.

Não creio que possas por muito tempo evitar que meu braço te dê morte horrível.”

A arma ao falar lhe atirou sem contudo querer atingi-lo.

Após haver o ombro direito passado encravou-se na terra a ponta fina.

A tremer ali mesmo Dólon se deteve; dobram-lhe as pernas; os dentes lhe batem com força uns nos outros pálido o rosto de medo.

Ofegantes os dois o alcançaram pondo-lhe as mãos logo em cima.

Dólon entre lágrimas disse: “Não me mateis; aceitai meu resgate que em casa possuo bem trabalhados objectos de ferro e ouro e bronze abundantes.

Meu genitor vos dará de boamente um resgate elevado quando souber que me encontro com vida nas naus dos Aquivos.”

Disse-lhe o muito solene Odisseu o seguinte em resposta: “Cria coragem; a ideia da Morte não deve afligir-te.

Vamos! Agora me fala e responde conforme a verdade: Qual o motivo de o campo deixares no escuro da noite em direcção dos navios no tempo em que todos repousam? É para o corpo espoliar dos que a vida no campo perderam ou por Héctor porventura mandado com o fim de os navios curvos espiar? Ou moveu-te a essa empresa teu ânimo próprio?” Disse a tremer o Troiano de rápidos pés o seguinte: “O entendimento turvou-me com muitas promessas Héctor quando me disse que havia de dar-me os robustos cavalos do grande Aquileu além de seu carro de enfeites de bronze.

Deu-me instruções para vir pelo escuro da noite até perto dos inimigos infestos a fim de saber com certeza se ainda os Aqueus continuam guardando os navios velozes ou se alquebrados por causa das perdas que a todos levamos e pelo extremo cansaço vencidos combinam a fuga sem se importarem de a guarda nocturna fazer neste instante.”

Disse-lhe então a sorrir Odisseu o guerreiro solene: “Grande é em verdade o presente que no coração anelavas: os corredores do Eácida ilustre! Difícil empresa para qualquer dos mortais a não ser para Aquileu que teve por genitora uma deusa é no carro contê-los e guiá-los.

Vamos! Agora me fala e responde conforme a verdade: Quando saíste do campo onde Héctor chefe de homens deixaste? Onde suas armas de guerra onde o carro e os cavalos ficaram? E de que modo os Troianos vigiam ou como acamparam? Diz-nos para que o plano fiquemos sabendo se intentam  perto dos nossos navios no campo ficar ou se ao burgo vão retornar satisfeitos por terem vencido os Aquivos.”

Disse Dólon que de Eumedes nascera em resposta o seguinte: “Sem o menor subterfúgio pretendo contar-te a verdade.

Neste momento Héctor se acha reunido com os chefes do povo junto do túmulo de Ilo onde tratam de assuntos de guerra longe do ruído dos homens.

As guardas herói que perguntas não as puseram de modo especial para o campo vigiarem: sim ao redor das fogueiras que vês –é fatal que se encontrem homens alguns que despertos procuram manter uns aos outros.

Os auxiliares porém de paragens inúmeras vindo dormem deixando o trabalho aos Troianos de o campo vigiarem pois junto deles não têm nem mulheres nem filhos pequenos.”

Toma a fazer-lhe pergunta Odisseu o solerte guerreiro: “De que maneira eles dormem: no meio dos homens de Tróia ou separados? De tudo me informa com pura verdade.”

Disse Dólon que de Eumedes nascera em resposta o seguinte: “Toda a verdade pretendo dizer-te tal como me pedes.

Os Peónios de arco recurvo se encontram do lado da praia mais os Caucónios os Cários os divos Pelasgos e os Léleges.

Os Lícios perto de Timbre ficaram e os Mísios guerreiros os picadores de Frígia e os Meónios que em carro combatem.

Mas por que causa inquirir-me com tanta minúcia de tudo? Se penetrar resolvestes de facto no campo troiano tendes na ponta de cá recém-vindos os Trácios e entre eles Reso potente senhor de Eioneu descendente.

Cavalos como os que trouxe jamais contemplei tão bonitos e grandes: mais do que a neve são alvos; tão rápidos são como o vento.

Carro de guerra admirável possui de ouro e prata adornado; de ouro também a armadura gigante dos olhos espanto  que trouxe ao vir; para os homens mortais por sem dúvida imprópria só para os deuses eternos que moram no Olimpo adequadas.

Para os navios agora de rápido curso levai-me ou se o quiserdes em laços cruéis aqui mesmo prendei-me; até que sejais de retorno depois de tirardes a prova se nalgum ponto menti ou se tudo sincero vos disse.”

Com torvo olhar lhe retruca Diomedes o forte guerreiro: “Tira Dólon de tua alma a ilusão de que podes ainda de nossas mãos escapar em que dados preciosos nos deste.

Se te soltarmos agora ou se belo resgate aceitarmos hás-de voltar contra as naves velozes dos homens aquivos ou como espia de novo ou com o fim de atacar-nos de frente.

Mas se vencido por mim vieres logo a perder a existência não mais terás ocasião de causar nenhum dano aos Aquivos.”

Disse; ao querer ele a barba com a mão vigorosa tocar-lhe num gesto súplice a espada arrancando Diomedes o fere  violentamente no colo cortando-lhe os dois tendões fortes: ainda a falar a cabeça do Teucro rolou na poeira.

As armas todas então lhe tiraram: o gorro de fuinha o arco recurvo a hasta longa e por último a pele de lobo.

Tudo isso a Palas Atena o divino Odisseu oferece a predadora; as mãos ambas levanta e desta arte suplica: “Mostra-te alegre com isto! Entre os deuses do Olimpo hás-de sempre ser a primeira a invocarmos.

Agora nos guia até dentro do acampamento dos Trácios seus leitos e belos ginetes.”

Isso disse ele e afastando os despojos de si num galho de tamargueira os prendeu junto à qual pôs sinal bem visível canas e ramos viçosos cortados ali porque à volta não sucedesse enganar-se no escuro da rápida noite.

Ambos então avançando através da sangueira e das armas logo alcançaram o ponto onde as coortes dos Trácios se achavam.

Pelo cansaço vencidos dormiam; as armas ao lado em três fileiras dispostas se achavam no solo arrumadas com muito gosto.

Cada um tinha a par dois formosos cavalos.

Reso dormia no meio; ao seu lado os velozes ginetes no parapeito do carro com loros atados se achavam.

Foi o primeiro a enxergá-lo Odisseu que falou ao Tidida: “Este ó Diomedes é o homem; por certo os cavalos são estes de que Dólon nos falou cuja vida tirámos há pouco.

Vamos agora dá provas de tua coragem; não fica  bem continuares armado e inactivo.

Desata os cavalos ou se o quiseres dos homens te incumbe deixando-me os brutos.”

A de olhos glaucos Atena infundiu em Diomedes coragem.

Golpes vibra ele ao redor; os que a espada atingia soltavam fundos lamentos; o sangue a escorrer o chão duro corava.

Do mesmo modo que o leão quando um fato de cabras ou ovelhas a que o pastor não vigia com ânimo hostil acomete salta o Tidida no meio dos Trácios e os vai arrasando até que a uma dúzia privou da existência.

Odisseu entretanto o mui solerte o seguia e à medida que o forte Diomedes os estoqueava afastava-os por ambos os pés arrastando-os para que os belos cavalos de crina ondulante pudessem mais facilmente passar sem ficarem tomados de susto pois a pisar cadáveres eles afeitos não estavam.

Quando o Tidida chegou junto ao rei –era agora o trezeno a que da vida agradável privava– deu ele um suspiro pois por influxo de Atena pairava-lhe junto à cabeça um sonho ruim nessa noite a figura do próprio Diomedes.

Por esse tempo Odisseu desprendia os robustos cavalos.

Com a própria rédea ligando-os tirou-os do meio da chusma  do arco valendo-se para bater-lhes pois tinha esquecido o primoroso chicote no carro de bela feitura.

Assobiando fez ele um sinal ao divino Diomedes.

Este se achava indeciso a pensar em maiores empresas: se o belo carro onde as armas formosas se achavam puxasse pelo timão ou se no ar levantando-o dali o tirasse ou se da vida privasse ainda a muitos guerreiros da Trácia.

Enquanto o divo Diomedes assim reflectia indeciso apresentou-se-lhe Palas Atena e lhe disse o seguinte: “Filho do grande Tideu pensa agora em voltar para as naves de bojo côncavo; certo é melhor que fugires se acaso um dos eternos fizer que os guerreiros troianos despertem.”

Compreendeu logo Diomedes que deusa imortal lhe falara.

Nos corredores montaram depressa.

Odisseu fazendo uso do arco os tocou para as naves velozes dos homens aquivos.

Mas não vigiava debalde a deidade que traz rédeas de ouro: ao perceber Febo Apolo que Atena auxiliava Diomedes aborrecido contra ela ficou.

Baixa às filas troianas e a Hipocoonte desperta sensato caudilho dos Trácios primo de Reso.

Quando ele do sono saído vazio  viu o lugar em que estavam primeiro os velozes ginetes e palpitantes os Trácios no meio de horrível sangueira o companheiro querido chamou pelo nome gemendo.

Gritos e grande tumulto se eleva da parte dos Teucros que em contusão acorreram ao verem o feito audacíssimo pelos varões realizado que após para as naus retornaram.

Quando alcançaram o ponto em que o espia de Héctor fora morto os corredores velozes o divo Odisseu faz que parem.

Salta Diomedes e as armas cruentas do chão levantando ao companheiro as entrega voltando a montar novamente.

Com chicotada os cavalos esperta que partem velozes na direcção dos navios para onde a vontade os levava.

O velho Pílio o trotar dos cavalos ouvindo assim fala: “Vós conselheiros e guias dos homens acaios ouvi-me! Minto ou verdade enuncio? A falar me compele a vontade.

Ouço as batidas dos cascos velozes de bons corredores.

Quem nos dissesse que o divo Odisseu e o valente Diomedes do acampamento troiano nos trazem robustos cavalos! Mas sinto na alma indizível receio de que sucedesse algo aos dois grandes Argivos no meio da chusma dos Teucros.”

Ainda não tinha Nestor acabado e eis que os dois se aproximam.

Rapidamente saltaram.

Alegres os chefes argivos trocam apertos de mão e os saúdam com termos afáveis.

Foi o primeiro a falar-lhes o velho de Pilos Nestor: “Diz-me logo ó paciente Odisseu glória excelsa da Acaia como estes belos cavalos pudestes obter? Penetrando no acampamento troiano? É presente quiçá dum dos deuses? Que brilho têm! Só aos raios do sol podem ser comparados.

Tenho lutado de perto com os homens de Tróia pois penso que não me deixo ficar no meu barco apesar da velhice; mas de cavalos como esses notícias nenhumas ainda tive.

Dádiva julgo dum deus que vos haja ao encontro saído pois não somente Zeus Crónida como sua filha indomável a de olhos glaucos Atena a ambos têm afeição demonstrado.”

Disse-lhe o muito solene Odisseu o seguinte em resposta: “Máxima glória dos povos aquivos Neleio Nestor! Fácil seria a um dos deuses se fosse de sua vontade dar-nos mais belos cavalos do que estes pois são poderosos.

Mas estes velho a respeito dos quais me perguntas são trácios e recém-vindos.

O forte Diomedes matou-lhes o dono  e mais doze homens dos seus todos eles de nome preclaro.

Um desses Teucros Dólon que tentou penetrar às ocultas no acampamento dos nossos por ordem de Héctor e dos outros chefes troianos matámos a pouca distância das naves.”

Tendo isso dito os cavalos forçou a que o fosso passassem cheio de júbilo; os outros Aquivos contentes o seguem.

Logo que à tenda bem feita do grande Diomedes chegaram os corredores velozes ataram com tiras de couro à manjedoura onde estavam também os corcéis mui velozes do alto guerreiro Diomedes que trigo mui doce comiam enquanto o espólio sangrento do Teucro na popa da nave foi colocar Odisseu para a Atena depois dedicá-lo.

Ambos se metem no mar a seguir para o suor alimparem que da cerviz lhes corria das pernas robustas e coxas.

Logo que as ondas do mar as escórias mais crassas tiraram dos membros todos sentiram-se os dois refrescados e leves.

Em bem polidas banheiras entraram depois e lavaram-se.

O banho assim terminado e depois de se ungirem com óleo à mesa foram sentar-se e empunhando uma grande cratera cheia de vinho agradável a Palas Atena libaram.


 

CANÇÃO XI

Alça-se a Aurora do leito onde dorme o preclaro Titono para levar luz aos deuses e aos homens de curta existência.

Zeus a Discórdia cruel para as naves mandou dos Aquivos a qual nas mãos sustentava o terrível sinal das batalhas.

Junto do monstro da proa da nau de Odisseu se deteve que era no centro de todas porque sua voz fosse ouvida nos dois extremos opostos na tenda de Ájax Telamónio e na de Aquileu os quais no valor e ousadia confiados tinham postado seus barcos nos pontos extremos do campo.

Aí pára a deusa afinal emitindo som alto e estridente; brado horroroso que foi despertar nos guerreiros aquivos o irresistível desejo de à luta sem pausa entregarem-se; para eles todos realmente mais doce era então dar combates do que voltar para a pátria querida nas côncavas naves.

A voz o Atrida elevou ordenando aos Aqueus que se armassem.

Ele entrementes vestia a armadura de bronze brilhante: as caneleiras primeiro lavradas nas pernas ataca belas de ver por fivelas de prata maciça ajustadas; em torno ao peito coloca depois a couraça magnífica  que hospitaleiro lhe havia Ciniras outrora ofertado Tinha chegado até Chipre a notícia inaudita da viagem que em seus navios os homens aqueus atacar iam Tróia; para exprimir gratidão ao monarca lhe dera essa dádiva.

Era adornada com dez riscos finos de esmalte lustroso; doze eram de ouro as estrias e vinte em conjunto as de estanho; junta ao pescoço as cabeças erguiam três serpes cerúleas de cada lado dispostas como o arco que o filho de Cronos nas nuvens sói colocar para os homens sinal portentoso.

Em torno aos ombros a espada lançou na qual tachas se viam de ouro brilhante: de prata maciça era feita a bainha; como a bainha eram de ouro as cadeias que ao ombro a prendiam.

Toma do escudo depois bem lavrado que o corpo lhe cobre forte e mui belo de ver por dez orlas de bronze cercado e vinte umbigos de estanho muito alvo dispostos à volta da superfície; era de aço cinzento a porção mais do meio.

Como coroa se via a cabeça espantosa da Górgona de olhar terrível; a Fuga e o Terror ao seu lado se achavam.

Era argentada a correia ao comprido da qual se estendia drago de cor azulada; com três horrorosas cabeças  entrelaçadas nascidas dum grande pescoço somente.

O elmo coloca de quatro saliências e dupla cimeira  no qual por modo terrível penacho de crina ondulava.

Toma por fim duas lanças munidas de ponta de bronze de brilho tal que o fulgor até o céu estrelado atingia.

Do alto do Olimpo Hera e Palas fizeram que então trovejasse só para honrarem ao rei poderoso da rica Micenas.

Aos seus aurigas os chefes instruem que junto do fosso em boa ordem os carros mantenham e os fortes cavalos.

Eles entanto de pé na armadura de bronze envolvidos se precipitam; imenso alarido antes da alva se eleva.

Muito mais cedo que os carros em frente do fosso já estavam; de perto os carros os seguem.

Sinistro rumor fez alçar-se o grande filho de Cronos fazendo que orvalho de sangue do alto caísse por ter a intenção de enviar muitas almas de combatentes ilustres para o Hades de portas escuras.

Numa eminência de grande planície reuniram os Teucros Polidamante e o alto filho de Príamo Héctor juntamente com o grande Eneias a quem como a um deus os do povo acatavam e mais os três Antenóridas: Pólibo o divo Agenor  e o moço e forte Acamante semelhes aos deuses eternos.

À frente Héctor avançava munido de escudo redondo.

Tal como estrela exicial que aparece entre as nuvens por vezes com muito brilho e outras vezes se oculta entre nuvens escuras: via-se Héctor desse modo ora à frente surgir dos Troianos ora a dar ordens atrás.

Todo o corpo com bronze coberto resplandecia qual raio vibrado por Zeus poderoso.

Como caminhos opostos no campo dum homem de posses os segadores percorrem ceifando fileiras de trigo ou de cevada e abundantes espigas no chão se acumulam: uns contra os outros assim digladiavam Troianos e Acaios sem que nenhuma das partes pensasse na fuga funesta.

Equilibrava-se a pugna; investiam-se os homens tal como lobos furiosos; exulta a Discórdia lutuosa ante o quadro a única dentre os eternos que parte tomava na luta.

Não se encontravam presentes as outras deidades; mas calmas permaneciam nos belos salões dos palácios bem feitos que todos eles possuíam nos vales amenos do Olimpo.

Todos culpavam o filho de Cronos que nuvens escuras sói cumular por estar resolvido a dar glória aos Troianos.

O pai dos deuses porém não lhes dava atenção; a departe dos demais deuses se achava orgulhoso de sua alta glória a contemplar a cidade os Troianos as naus dos Aquivos os que atacavam os mortos e o brilho das armas de bronze.

Enquanto o dia sagrado crescia e a manhã não cessara cruzam-se dardos de todas as partes e a turba perece.

Mas ao chegar o momento em que sói no mais denso dos montes o lenhador aprontar o alimento com o braço cansado  de árvores grandes cortar de fadiga ofegante já o peito e a alma tomada do anelo de ao grato repasto entregar-se: na própria força confiados os Dánaos o imigo repelem pelas fileiras chamando os consócios.

O atrida Agamémnon rompe na frente de todos matando Bianor chefe de homens e o condutor de cavalos Oileu seu fiel companheiro.

Este dum pulo saltara do carro querendo enfrentá-lo; mas no momento em que vinha para ele com a lança ferido fica na fronte; não pôde a celada deter a aénea lança; atravessada foi logo e assim o osso e por último o cérebro que se desfez por completo; caiu na arrancada audaciosa.

Deixa-os o Atrida de povos pastor ali mesmo com os peitos  resplandecentes depois de os haver despojado das túnicas para a armadura tirar de Ântifo e Iso dois filhos de Príamo um do consórcio nascido outro filho bastardo.

Encontravam-se ambos num carro somente; o bastardo regia os cavalos; Ântifo cheio de glória lutava.

Com juncos flexíveis num bosque do Ida os havia amarrado o Pelida ao achá-los a apascentar seus rebanhos; soltou-os mediante resgate.

Nesse momento o possante senhor Agamémnon o Atrida a Iso com a lança feriu bem no peito por cima do seio e a Ântifo junto da orelha com a espada tirando-o do carro.

Das belas armas depois apressado os despoja; sabia quem eles eram que junto das naves escuras os tinha visto no dia em que do Ida os trouxera o Pelida ligeiro.

Do mesmo modo que o leão corçozinhos velozes assalta mui facilmente ao entrar no redil e com dentes agudos os colhe e faz em pedaços privando-os da tenra existência –a mãe conquanto bem perto se encontre de nada lhes vale que ela também sente os membros tomados por trémulo medo e velozmente através de cipoais e das matas se atira a transpirar ofegante escapando da fera terrível:  a ambos assim nenhum Teucro consegue livrar do extermínio pois todos eles fugiam com medo dos fortes Acaios.

Prostra a Pisandro depois e o nas pugnas intrépido Hipóloco filhos de Antímaco o sábio que mais do que todos fazia oposição para Helena não ser restituída ao marido –fruto de belos presentes por parte de Páris muito ouro.

Seus dois rebentos no entanto o possante Agamémnon prostra.

Ambos num carro somente tentavam sustar os cavalos amedrontados que as rédeas brilhantes das mãos lhes fugiram.

Contra eles tal como um leão vem o filho de Atreu Agamémnon.

No próprio carro ajoelhados os dois lhe suplicam desta arte: “Filho de Atreu não nos mates; aceita resgate condigno.

Muitos tesouros Antímaco acerva em seu belo palácio bem trabalhados objectos de ferro e ouro e bronze abundantes.

De boamente dar-te-á nosso pai um resgate elevado quando souber que com vida nas naus dos Aquivos estamos.”

Ao soberano desta arte a chorar eles dois se dirigem com termos brandos; amarga resposta porém obtiveram: “Se filhos sois em verdade de Antímaco o herói experiente que duma feita opinou em reunião dos Troianos que a vida  a Menelau se tirasse quando ele e Odisseu a Ílion foram como legados que vivo jamais aos Aqueus retornasse: ora ides ambos o preço pagar dessa injúria paterna.”

Isso disse ele e a Pisandro tirando do carro com a espada junto do seio o feriu; cai no chão ressupino o guerreiro.

Lança-se Hipóloco ao solo onde o Atrida o privou da existência; com duros golpes de espada o pescoço e os dois braços lhe corta e para o meio da turba a rolar longe o tronco repele.

Deixa-os saltando para onde as falanges imigas mais densas se lhe antepunham seguido por muitos Acaios grevados.

Matam infantes a infantes que à fuga obrigados se viam os de cavalo aos troianos ginetes –envolve-os poeira inumerável que os cascos sonoros do chão levantavam– o bronze estragos fazia.

Não cessa Agamémnon forte de dizimar o inimigo exortando os guerreiros argivos.

Tal como quando em floresta fechada edaz fogo se ateia que para todos os lados o vento propaga e no solo desarraigados os galhos atira que as chamas colheram: dos fugitivos troianos assim as cabeças caíam ante Agamémnon; muitos cavalos de colos esbeltos  carros vazios puxavam cortando ruidosos o campo sem seus aurigas valentes os quais sobre o solo jaziam –vista mais grata aos abutres por certo que às tristes esposas.

Zeus entrementes a Héctor protegia dos tiros da poeira da gritaria terrível do sangue e da luta funesta.

Segue-o no entanto Agamémnon aos seus instruções transmitindo.

Pela planície os Troianos corriam já tendo passado a baforeira e o sepulcro antiquíssimo de Ilo Dardânida só desejosos de aos muros chegar.

Perseguia-os o Atrida vociferando com as mãos invencíveis manchadas de sangue; às portas Ceias porém ao chegarem e à faia ali posta param por fim os guerreiros troianos à espera uns dos outros.

Mas pelo plaino ainda muitos corriam quais tímidas vacas amedrontadas por leão que do fundo da noite surgisse todas embora só uma a precípite Morte quisesse uma a que a fera a cerviz retalhasse com os dentes agudos para depois todo o sangue chupar e saciar-se de vísceras: do mesmo modo aos Troianos persegue o potente Agamémnon a derrubar sempre os últimos; fogem com medo os restantes.

Quem ressupino caía; quem prono de cima do carro   sob seus golpes; a lança vibrava por modo terrível.

Mas quando estava no ponto de os muros tocar da cidade sacra de Príamo o pai dos mortais e dos deuses eternos Zeus poderoso baixou do alto Olimpo indo no Ida sentar-se de muitas fontes; o raio brilhante na mão sustentava prestes enviando mensagem por Íris veloz de asas de ouro: “Íris veloz diz a Héctor sem mais perda de tempo o seguinte: enquanto vir ao Atrida pastor muito ilustre de povos a combater na dianteira destruindo fileiras de bravos deve das lutas abster-se cuidando somente de aos Teucros estimular para o imigo enfrentarem na pugna terrível.

Mas quando for atingido por lança ou por seta Agamémnon e para o carro subir hei-de grande vigor insuflar-lhe para poder nos Acaios matar até chegar aos navios e o Sol deitar-se estendendo-se a Noite sagrada por tudo.”

Íris de pés mais velozes que o vento ao recado obedece e do Monte Ida depressa baixou para Tróia sagrada.

E tendo a Héctor encontrado o divino rebento de Príamo junto dos fortes cavalos no carro de bela feitura pôs-se-lhe ao lado a veloz mensageira e lhe disse o seguinte:  “Filho de Príamo Héctor semelhante a Zeus grande no engenho o pai dos homens e deuses te manda o seguinte recado: enquanto vires o Atrida pastor muito ilustre de povos a combater na dianteira destruindo fileiras de bravos deves das lutas abster-te cuidando somente de aos Teucros estimular para o imigo enfrentarem na pugna terrível.

Mas quando for atingido por lança ou por seta Agamémnon e para o carro subir há-de grande vigor insuflar-te para poderes Acaios matar até chegares às naves e o Sol deitar-se estendendo-se a Noite sagrada por tudo.”

Íris dali retornou após haver a mensagem cumprido.

Desce do carro Héctor logo porém com as armas em punho e duas lanças brandindo cortou as fileiras do exército a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura.

Mais uma vez os Troianos aos homens acaios enfrentam.

Por sua vez os Argivos as suas falanges reforçam.

Trava-se nova batalha; equilibram-se as forças; o Atrida lança-se à frente sequioso de a todos passar nos combates.

Musas que o Olimpo habitais revelai-me sem falhas agora quem se antepôs em primeiro lugar ao divino Agamémnon  quer dos Troianos ilustres quer mesmo dos nobres aliados: Ifidamante membrudo do claro Antenor descendente que fora criado na Trácia fecunda nutriz de rebanhos.

Desde pequeno o educara Ciseu em seu próprio palácio pai de Teano de faces formosas que o havia gerado.

Mas quando o viu atingir a medida da idade gloriosa  a filha cara lhe entrega com o fim de o reter ao seu lado.

Ele porém deixa o tálamo logo depois à notícia de que os Acaios chegaram.

Com doze navios partiu doze navios escuros que tinha em Percote deixado para por terra seguir até aos muros sagrados de Tróia.

Ora vinha ele antepor-se a Agamémnon filho de Atreu.

Quando um para o outro a avançar afinal frente a frente se viram o golpe o Atrida perdeu pois frustrânea desviou-se-lhe a lança; Ifidamante no entanto por baixo da coira o atingiu e a arma premindo com a mão poderosa secunda a investida sem conseguir perfurar o talim pois que a ponta da lança como se fosse de chumbo na chapa de prata se verga.

Com decisão Agamémnon rei poderoso segura da hasta; puxando-a com força leonina arrancou-lha das mãos  e no pescoço ferindo-o dos membros a vida lhe tira.

Dessa maneira ficou a dormir o infeliz éreo sono onde auxiliara os Troianos distante da esposa legítima de quem nenhuma alegria obtivera apesar dos presentes: dera primeiro cem bois prometendo depois de crescença mais mil ovelhas e cabras das muitas que tinha no pasto.

A esse Agamémnon forte privou da querida existência.

Leva-lhe a bela armadura através das fileiras aquivas.

Tudo isso foi por Cóon percebido preclaro guerreiro filho mais velho do herói Antenor.

Enturvou-se-lhe a vista com dor imensa por causa da sorte do irmão que tombara.

Sem que o notasse Agamémnon pôs-se-lhe ao lado e com a lança próximo do cotovelo o antebraço no meio feriu-lhe atravessando-o com a ponta aguçada do hastil reluzente.

Estremeceu Agamémnon nobre pastor de guerreiros mas não obstante não quis desistir dos combates e lutas.

Sim com a lança que os ventos nutriram a Cóon se atira que pelos pés nesse instante o cadáver do irmão agarrara e procurava arrastá-lo a gritar pelos mais valorosos.

Mas sob o escudo Agamémnon o fere com a lança quando ele  ia a puxar o cadáver e o mata por cima do próprio Ifidamante cortando-lhe após a donosa cabeça.

Os filhos pois de Antenor pelas mãos de Agamémnon a sorte tendo cumprido baixaram para o Hades de portas escuras.

Pelas fileiras dos outros guerreiros prossegue Agamémnon ora a vibrar lança e espada ora pedras enormes jogando enquanto o sangue manava ainda quente da grande ferida.

Mas logo que esta secou quando o sangue não mais escorria dores pungentes então sobrevieram ao filho de Atreu.

Tal como sofre mulher em trabalho de parto ao lhe enviarem as filhas de Hera as cruéis Ilitiias seus dardos acerbos essas deidades que têm provisão de trabalhos pungentes:  dores assim pungentíssimas cortam o peito do Atrida o qual dum salto subiu para o carro ordenando ao cocheiro que para as naus retornasse; indignado em excesso se achava.

Um brado então atroante soltou dirigindo-se aos Dánaos: “Vós conselheiros e guias dos homens argivos ouvi-me! Ora vos cumpre afastar dos navios de curso ligeiro a cruel peleja que a mim não concede Zeus grande e prudente que contra os Teucros combata até o Sol no ocidente deitar-se.”

A essas palavras o auriga espertou com o chicote os cavalos que para as naves escuras de grado velozes partiram.

O peito cheio de espuma envolvidos por nuvem de poeira para bem longe do prélio o sofrido monarca levaram.

Logo que Héctor percebeu que do campo Agamémnon saíra em altos brados gritou para os Lícios guerreiros e os Troas: “Lícios Dardânios e Teucros viris combatentes de perto sede homens caros amigos e força mostrai impetuosa! Foi-se o melhor dos guerreiros; Zeus Crónida glória magnífica me concedeu.

Dirigi contra os Dánaos galhardos agora vossos cavalos a fim de vitória ganhardes esplêndida.”

Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos.

Tal como açula o monteiro seus cães de alvos dentes recurvos contra javardo possante e selvagem ou leão das montanhas: desta arte os Teucros magnânimos contra os Acaios incita o grande filho de Príamo Héctor semelhante a Ares forte.

Cheio de alentos avança ele próprio entre os homens da frente e na batalha se atira tal como procela que do alto se precipita das nuvens e o mar ferrugíneo revolve.

Qual o primeiro qual o último foi por Héctor imolado  o grande filho de Príamo a quem Zeus cedeu essa glória? Antes de todos Aseu os dois cabos Opites e Autónoo Dólope filho de Clício Agelau depois deles Oféltio o forte Esimno e Oronte e por último Hipónoo guerreiro.

Estes os chefes; mas logo em seguida o guerreiro se atira à multidão.

Como Zéfiro as nuvens agita e dispersa que Noto claro reunira causando violento remoinho e ondas enormes atira a rolar que em espuma se desfazem no alto jogada com a força do vento dum lado para outro: muitas cabeças assim ante Héctor dos do povo caíam.

Irreparável catástrofe então sucedera aos Acaios que chegariam por certo na fuga até às naves escuras se não houvesse Odisseu ao Tidida Diomedes falado: “Qual o motivo Diomedes de estarmos do brio esquecidos? Vem caro amigo e aqui ao lado te põe.

Há-de ser grande opróbrio para nós todos que Héctor se apodere dos nossos navios.”

Disse-lhe o forte Diomedes então em resposta o seguinte: “Fico e hei-de tudo arriscar muito embora pequena vantagem  ora possamos obter pois Zeus grande que as nuvens cumula quer conceder a vitória aos Troianos privando-nos dela.”

Ao dizer isso do carro derruba Timbreu valoroso no seio esquerdo enterrando-lhe a lança pontuda.

Ao auriga dele Mólion Odisseu por sua vez joga ao solo sem vida.

Fora da pugna assim postos os corpos lá mesmo deixaram.

Voltam depois a investir contra a chusma terror espalhando como dois feros javardos que enfrentam cães fortes de caça.

Em novo assalto desta arte aos Troianos matavam.

Respiram mais aliviados os Dánaos fugindo do filho de Príamo.

Tomam um carro depois com dois fortes e insignes guerreiros filhos de Méropo rei de Percote adivinho de dotes extraordinários que certo se opôs a que os filhos tomassem parte na guerra homicida; mas vãos foram todos os votos pois pelas Queres da lívida Morte eram ambos levados.

A ambos Diomedes lanceiro do grande Tideu descendente a alma do corpo arrancou despojando-os das armas brilhantes.

Mata Odisseu mais dois Teucros insignes: Hipíroco e Hipódamo.

O grande filho de Cronos que do Ida a batalha admirava equilibrada a deixou; uns aos outros estragos causavam.

Vibra Diomedes um golpe com a lança na coxa de Agástrofo filho de Péone o qual imprudente não tinha deixado  perto os cavalos velozes com que conseguisse livrar-se; longe afastados o auriga os retinha enquanto ele sozinho na dianteira lutava até vir a perder a existência.

Para as fileiras Héctor lança o olhar percebendo os dois Dánaos: grita e para eles se atira seguido por muitas falanges.

Ao vê-lo treme Diomedes guerreiro de voz retumbante.

Vira-se para Odisseu que bem perto lhe estava e lhe fala: “Eis uma alude a rolar sobre nós o terrível Héctor! Vamos façamos pé firme e tentemos sustar-lhe a investida.”

Tendo isso dito atirou-lhe a sua lança de sombra comprida que foi bater na cabeça do herói onde a mira pusera bem no alto do elmo poupando contudo a epiderme macia que o bronze o bronze desviou; protegeu-a sem dúvida a tríplice crista com tufos presente de Apolo frecheiro infalível.

Retrocedeu logo Héctor para o meio da turba dos Teucros indo de joelhos cair; mas no solo com as mãos apoiou-se.

Cobrem-lhe os olhos brilhantes as trevas espessas da noite.

Enquanto o forte Diomedes corria até às filas da frente na direcção de seu dardo que fora cravar-se na terra restabelece-se Héctor que dum pulo saltou para o carro  e para a chusma tocando da Morte sinistra livrou-se.

De lança em riste Diomedes o forte lhe diz o seguinte: “Mais uma vez cão danado escapaste da Morte! Passou-te perto a desgraça.

Livrou-te sem dúvida Febo de novo  de quem obténs real amparo ao entrares no ardor dos combates.

Hei-de dar cabo de ti onde quer que de novo te encontre se porventura um dos deuses quiser igualmente auxiliar-me.

A outros Dardânios agora pretendo arrancar-lhes a vida.”

Disse e do corpo do filho de Péone as armas retira.

Páris o divo Aléxandros marido de Helena cacheada numa coluna apoiado por homens no túmulo posta de Ilo Dardânida ancião do conselho de tempos passados o arco armou contra o Tidida Diomedes pastor de guerreiros.

A retirar justamente a armadura vistosa este estava do largo peito de Agástrofo exímio dos ombros o escudo e o sólido elmo da fronte.

Puxando pelo arco Aléxandros fez o disparo; das mãos não lhe sai frustro o dardo ligeiro: no pé direito no tarso foi dar trespassando-lhe os ossos e indo cravar-se na terra.

Soltando risada de júbilo do esconderijo Aléxandros saiu e a jactar-se gritou-lhe:  “Foste ferido! Frustrâneo não foi meu disparo.

Quem dera que na virilha te houvesse acertado tirando-te a vida! Respirariam sem dúvida os Teucros em tanta apertura a quem inspiras o medo que o leão causa a fracas ovelhas.”

Sem revelar nenhum susto lhe disse Diomedes o forte: “Fútil frecheiro de cachos frisados espião de mulheres se te atrevesses armado a lutar frente a frente comigo nenhum amparo acharias nesse arco e nas setas inúmeras.

Só por me haveres riscado no pé fazes tanto barulho ao que dou tanto valor como a tiro de criança ou de moça.

Vã sempre é a flecha que um ser desprezível e imbele dispara.

Bem diferente se dá com meus tiros que embora de leve o dardo atinja o inimigo sem mais da existência o despoja: as róseas faces não cessa na dor de arranhar a consorte; órfãos os filhos lhe ficam e o solo tingindo de sangue a apodrecer tão-só abutres atrai não mais belas mulheres.”

Isso disse ele; Odisseu o galhardo lanceiro antepôs-se-lhe a protegê-lo: assentando-se o herói por trás dele extraiu-lhe o dardo agudo do pé; dor pungente trespassa-lhe as carnes.

Logo dum salto subiu para o carro ordenando ao cocheiro  que para as naus retornasse; indignado em excesso se achava.

Fica sozinho o lanceiro galhardo Odisseu; nenhum Dánao perto se achava que o Medo de todos se havia apossado.

Cheio de angústia desta arte falou ao magnânimo peito: “Pobre de mim que farei? Se fugir com receio da turba é grande mal; mas vergonha maior é vir eu a ser preso sem mais ninguém que nos Dánaos o Crónida medo ora infunde.

Mas para que coração entregares-te a tais pensamentos? Sei que somente as pessoas covardes a pugna abandonam.

Quem valoroso se mostra só tem de conduta uma norma  que é resistir decidido quer fira quer seja ferido.”

Enquanto no coração e no espírito assim reflectia turmas de Troas guerreiros armados de escudos chegaram e vieram pôr-se-lhe à volta entregando-se à Morte a si mesmos.

Tal como quando rapazes e cães ardorosos açulam um javali que há surdido do mais intrincado da mata a bater forte nas curvas queixadas os alvos colmilhos –todos à volta o espicaçam ouvindo-se os dentes rangerem e porque o medo os domina o acometem por várias maneiras: do mesmo modo os Troianos à volta do divo Odisseu  fazem pressão; mas dum salto primeiro ele fere na espádua a Deiopites preclaro enterrando-lhe a lança pontuda.

Tira depois a armadura brilhante de Tóone e de Énomo; Quersidamante também por debaixo do escudo ele atinge quando saltava do carro ferindo-o a lança no umbigo: tomba o guerreiro na poeira apertando nas mãos o chão duro.

Deixa-os ali para a lança enterrar no belaz filho de Hipaso Cáropo o irmão justamente de Soco de nobre progénie.

Este qual deus imortal em socorro do irmão correu logo; chega até perto do herói e as seguintes palavras lhe fala: “Muito famoso Odisseu insaciável de ardis e de lutas ora um dilema te aguarda: ou matares num dia somente os filhos de Hipaso e assim espoliá-los das armas brilhantes ou por meu dardo ferido perderes a cara existência.”

A essas palavras a lança lhe atira no escudo redondo; a arma terrível o escudo de aspecto brilhante atravessa indo encravar-se na cota de bela e variada textura toda a epiderme do flanco esflorando.

Mas Palas Atena não permitiu que as entranhas do herói alcançar fosse o bronze.

Logo Odisseu compreendeu que a ferida não era de morte;  dá para trás alguns passos e a Soco falou deste modo: “Mísero a Morte precípite vieste encontrar neste instante.

Sim conseguiste fazer que saísse do campo de luta.

Digo-te entanto que a lívida Morte hás-de agora de minha mão receber; minha espada prostrando-te vai dar-me excelsa fama mandando tua alma para Hades de claros ginetes.”

Isso disse ele; voltando-se pôs-se a fugir o ágil Soco.

Joga-lhe a lança Odisseu quando assim já se achava de costas entre as espáduas de forma que a ponta no peito aparece.

Com grande estrondo caiu; exclamou Odisseu exultante: “Ó viril Soco que vens do grande Hípaso o forte ginete a destruição te alcançou; não pudeste da Morte esquivar-te.

Infortunado! Ao morreres o pai nem a mãe veneranda vieram fechar os teus olhos mas corvos virão lacerar-te as tenras carnes aos bandos batendo ruidosos as asas.

Morra eu porém e os Aquivos dar-me-ão sepultura condigna.”

Logo depois de falar da ferida e do escudo abaulado a grande lança de Soco o preclaro guerreiro retira.

Jorra-lhe sangue ao puxá-la; de dor sente o peito afligir-se.

Logo que os Teucros magnânimos sangue no herói enxergaram  a se exortarem de todos os lados vieram contra ele.

Retrocedendo Odisseu pede o auxílio dos nobres Acaios.

Quanto a cabeça comporta três vezes o brado ele solta; por vezes três Menelau percebeu-lhe o aflitivo chamado.

E para Ájax que se achava ao seu lado virando-se disse: “Ó Telamónio preclaro Ájax forte pastor de guerreiros vem-me aos ouvidos o grito do forte e constante Odisseu como se em grande aflição se encontrasse e os guerreiros troianos encurralado o tivessem num ponto qualquer da batalha.

Vamos cortemos a turba; o melhor é levar-lhe socorro.

Temo que achando-se só venha a ser pelos Teucros vencido ainda que forte é decerto.

Dor grande isso aos Dánaos causara.”

Disse e partiu por Ájax secundado o guerreiro divino.

Logo a Odisseu encontraram por Zeus distinguido cercado por muitos Teucros que como vermelhos chacais nas montanhas em torno ficam dum veado galheiro ferido por flecha de caçador.

É verdade que deste escapar conseguira enquanto tépido o sangue corria e o sustinham os joelhos.

Mas quando alfim dominado se viu pelo dardo pontudo os carniceiros chacais dele pasto fizeram na mata  fresca dos montes até que um dos deuses um leão lhes mandasse que dispersando-os ficasse com a presa e ali mesmo a comesse: do mesmo modo o valente e astucioso Odisseu numerosos e destemidos Troianos cercavam.

Contudo o guerreiro o dia escuro afastar conseguia a vibrar a hasta longa.

Aproximou-se-lhe Ájax com o pavês semelhante a uma torre e veio pôr-se-lhe ao lado; dispersam-se logo os Troianos.

Toma a Odisseu Menelau pela mão e da pugna o retira até que seu fiel escudeiro trouxesse os corcéis para perto.

O grande Ájax acomete os Troianos: a Dóriclo mata filho bastardo de Príamo para depois ferir Pândoco Píraso o forte Lisandro e Pilartes guerreiros de nome.

Tal como baixa dos montes ao vale torrente impetuosa e irresistível que a chuva de Zeus faz crescer mais ainda e árvores secas arrasta carvalhos e pinhos inúmeros que de mistura com lodo no mar com grande ímpeto atira: o Telamónio desta arte corria a planície assolando-a a matar homens e belos corcéis.

Disso Héctor não tivera ainda notícia que à esquerda em verdade da pugna se achava na margem sim do Escamandro onde mais numerosas cabeças  de combatentes calam e a grita mais alto estrondeava de Idomeneu ao redor e do velho Nestor de Gerena.

No meio deles Héctor realizava trabalhos difíceis ora com a lança ora a carro destruindo falanges dos moços.

Mas ainda assim não teriam recuado os divinos Aquivos se não houvesse Aléxandros marido de Helena cacheada o afastamento causado do forte caudilho Macáon ao qual com dardo trissulco na espádua direita feriu.

Medo sentiram por certo os Aqueus que respiram coragem não fosse o herói perecer caso a sorte da luta virasse.

Idomeneu logo logo ao divino Nestor se dirige: “Máxima glória dos povos aquivos Nestor de Gerena toma o teu carro depressa; ao teu lado coloca Macáon e para as naves escuras dirige os velozes cavalos pois é sabido que um médico vale por muitos guerreiros que sabe dardos extrair e calmantes deitar nas feridas.”

Disse; o Gerénio Nestor lhe obedece sem mais ao conselho; rapidamente subiu para o carro ao seu lado assentando-se o grande chefe Macáon filho do médico Asclépio.

Com chicotada os cavalos esperta que partem velozes  em direcção dos navios para onde a vontade ora os leva.

Tendo Cebríones visto do carro de Héctor como os Teucros em debandada corriam para este virando-se disse: “Enquanto nós caro Héctor neste extremo da horríssona pugna contra os Argivos lutamos os outros Troianos se vêem confusamente arrastados de envolta com os próprios cavalos.

Cedem a Ájax Telamónio que bem daqui mesmo o conheço pelo pavês gigantesco que traz sobre os ombros.

Depressa nossos cavalos também dirijamos para onde se trava com mais ardor a batalha e os guerreiros de pé e os de carro dano produzem recíproco no meio de grande alarido.”

Tendo assim dito os cavalos de crina tratada estimula com o sibilante chicote; sensíveis ao golpe arrastaram o veloz carro por entre fileiras dos Teucros e Aquivos sobre cadáveres e armas pisando.

O eixo logo se mostra completamente coberto de sangue e assim à volta do assento o parapeito dos pingos que os cascos dos brutos e as rodas em movimento jogavam.

Achava-se o herói ansioso de pela turba romper e quebrar as falanges.

Tumulto inenarrável aos Dánaos levou sem poupar a hasta longa.

Corre as fileiras dos outros guerreiros o filho de Príamo ora a vibrar lança e espada ora pedras enormes jogando.

Somente o encontro procura evitar com Ájax Telamónio que Zeus ficava irritado quando ele a um mais forte atacava.

Zeus que domina as alturas temor em Ájax incutiu.

Primeiramente indeciso parou; logo o escudo de sete couros de boi para as costas atira e a fixar sempre a turba como uma fera a recuar começou cauteloso e sem pressa.

Do mesmo modo que fulvo leão para longe do estábulo por camponeses e cães é enxotado que em ronda nocturna não lhe dão azo a que possa saciar-se nas pingues vitelas; ávida a fera de carne contudo acomete bem vezes sem conseguir coisa alguma que mãos vigorosas contra ela abrasadores tições arremessam e dardos pontudos o que lhe infunde algum medo apesar da coragem nativa; na alba afinal se retira sentindo angustiar-se-lhe o peito: o Telamónio desta arte cedia terreno aos Troianos a seu mau grado; afligia-o a sorte das naus dos Argivos.

Do mesmo modo que um asno teimoso num campo de trigo caso nenhum faz de crianças que varas lhe quebram no dorso  e se sacia devagar na messe abundante conquanto chovam sobre ele pauladas que mossa nenhuma lhe fazem sendo que farto afinal se dispõe a ceder aos que o enxotam: o grande Ájax Telamónio da mesma maneira acossavam os corajosos Troianos e aliados de fama excelente dardos sem pausa jogando que no meio do escudo batiam.

O Telamónio porém dava provas do ardor belicoso: volta por vezes e as densas falanges dos Teucros enfrenta para detê-los no avanço; por vezes prossegue na fuga.

A todos eles o passo aos navios sozinho impedia por se interpor a lutar entre os fortes Aquivos e os Teucros furiosamente.

Das lanças jogadas por mãos vigorosas umas com força atiradas no escudo gigante se encravam; muitas bem antes de a branca epiderme atingir-lhe caíam no chão frustrâneas sedentas debalde de sangue inimigo.

Logo que Eurípilo o filho preclaro de Evémone ilustre viu como Ájax pela cópia de dardos se achava oprimido veio ao seu lado postar-se a esgrimir a hasta longa e brilhante que jogou contra o caudilho Apisáon ilustre Fausíada sob o diafragma no fígado as forças solvendo-lhe aos joelhos.

Um salto Eurípilo deu para as armas dos ombros tirar-lhe.

Mas quando Páris o divo Aléxandros notou que ele estava a despojar da armadura Apisáon logo contra ele o arco aprestou indo a seta feri-lo na coxa direita.

Parte-se a cana da seta; pesada tornou-se-lhe a perna.

Volta a abrigar-se entre os seus companheiros da morte escapando e um brado então atroante soltou dirigindo-se aos Dánaos: “Vós conselheiros e guias dos homens acaios ouvi-me! Retrocedei para o dia funesto de Ájax afastarmos que ora oprimido se vê por inúmeros tiros.

Não creio que vivo possa escapar da batalha estrondosa.

Vós todos vinde postar-vos em torno de Ájax Telamónio o magnânimo.”

Isso disse ele ao sentir-se ferido.

Os demais vieram logo pôr-se-lhe à volta apoiando os escudos no peito e mantendo  altas as lanças.

Para eles Ájax veio logo tornando a fazer face ao inimigo depois de entre os seus encontrar-se.

Como edaz fogo prosseguem na luta os preclaros guerreiros.

As fortes éguas neleias cobertas de suor entrementes tiram do prélio ao Neleio Nestor e a Macáon ilustre.

O divo Aquileu de pés mui velozes dos dois se apercebe  pois se encontrava de pé sobre a popa da nave bojuda a contemplar o combate terrível e o triste recuo.

A voz então levantou do navio em que estava chamando Pátroclo seu companheiro o qual veio da tenda depressa com o porte de Ares.

O início foi esse de sua desgraça.

Quando ao seu lado chegou disse o filho viril de Menécio: “Por que motivo me chamas Aquileu? De que necessitas?” Disse-lhe Aquileu de rápidos pés em resposta o seguinte: “Filho divino do grande Menécio que ao peito me és caro creio ser a hora chegada de ver a meus pés os Acaios a suplicar-me que imensa opressão a eles todos aflige.

Corre querido de Zeus vai ao Pílio Nestor e pergunta qual dos Acaios retira ele agora ferido da pugna.

Vendo-o por trás assemelha-se em tudo ao guerreiro Macáon filho de Asclépio; contudo não pude as feições distinguir-lhe pois em carreira excessiva por mim os cavalos passaram.”

Obedeceu logo Pátroclo às ordens do amigo dilecto indo a correr para as naves e tendas dos nobres Aquivos.

À tenda entanto do Pílio Nestor os guerreiros chegaram; saltam depressa do carro pisando o terreno fecundo.

Eurimedonte criado do velho os corcéis desatrela.

Ambos entanto de pé frente à brisa da praia ficaram para que o suor enxugassem das túnicas finas.

Na tenda entram de novo a seguir assentando-se em belas cadeiras.

Doce bebida lhes trouxe Hecamede de belos cabelos filha de Arsínoo magnânimo a qual os Aquivos ao velho ofereceram por ser nos conselhos o mais distinguido quando a cidade de Ténedos foi por Aquileu saqueada.

Primeiramente na frente lhes pôs uma mesa bonita toda lavrada com pés de aço azul; uma cesta de bronze em cima desta coloca e cebolas que ao vinho convidam; mel também pálido e flor ali pôs de sagrada farinha e uma belíssima copa que o velho de casa trouxera com cravos de ouro adornada munida outrossim de quatro alças com duas pombas ao lado de cada uma delas perfeitas de ouro a bicar; dois suportes por baixo da copa se viam.

Cheia ninguém sem trabalho podia da mesa movê-la; mas levantava-a sem custo Nestor o ancião de Gerena.

Nela mistura a mulher semelhante na forma a uma deusa vinho de Prâmnio no qual raspou queijo de leite de cabra   num ralo aéneo ajuntando farinha por fim muito branca.

Pronta a mistura agradável convida-os a dela provarem.

Logo que a sede ardentíssima os dois com a bebida acalmaram em agradável colóquio puseram-se então discreteando.

Pátroclo à porta nessa hora surgiu semelhante a um dos deuses.

Vendo-o dum salto Nestor abandona a brilhante cadeira e pelo braço tomando-o o convida a assentar-se com eles.

Pátroclo entanto o convite declina falando desta arte: “Não poderás convencer-me discípulo de Zeus a assentar-me; temo e respeito ao que aqui me enviou porque informes colhesse sobre quem seja o ferido que há pouco trouxeste; mas posso reconhecer com os olhos o grande caudilho Macáon.

Ora me cumpre voltar para dar a notícia ao Pelida pois tu bem sabes ó aluno de Zeus como ele é de temer-se homem violento que ao próprio inocente culpar poderia.”

Disse-lhe o velho Nestor de Gerena o seguinte em resposta: “Qual o motivo de agora o Pelida ter dó dos Aquivos que vulnerados se encontram? No entanto não faz uma ideia de todo o luto do exército.

Os mais distinguidos guerreiros ou por espada ou por seta feridos às naus se acolheram.

Asseteado se encontra o Tidida valente Diomedes; jaz Odisseu vulnerado por lança assim como Agamémnon; na coxa Eurípilo foi por um dardo também vulnerado.

Este que eu próprio acabei de tirar da batalha se encontra por uma seta ferido.

O Pelida no entanto guerreiro de incontrastável valor compaixão nem piedade demonstra.

Vai porventura esperar que os navios velozes na praia contra o querer dos Acaios incêndio voraz os destrua? Ou que nós todos a Morte encontremos? Não sinto alentar-me os membros ágeis agora o vigor com que outrora os movia.

Se remoçado me visse e com toda a firmeza que tinha quando se deu a contenda entre nós e os Eleios por causa dum grande furto de bois e da vida privei o Hiperóquida Itimoneu grande cabo que em Élide tinha morada! Em represália eu trazia o seu gado; corre ele em defesa mas logo à frente dos seus por meu dardo atingido no solo tomba sem vida.

Os campónios transidos de medo fugiram.

Presa incontável então reunimos na vasta planície: varas de porcos cinquenta; outras tantas manadas de gado; número igual de rebanhos de ovelhas e fatos de cabras.

Cento e cinquenta éguas baias ao todo também reunimos muitas das quais ainda estavam com seus potrozinhos de mama.

Toda essa presa então logo fizemos tocar para Pilos aonde chegámos de noite.

Alegrou-se Neleu sobremodo por ver o espólio que em tão verdes anos da guerra eu trouxera.

Logo que a Aurora aparece os arautos canoros convocam  os cidadãos a quem Élide tem de pagar certa dívida.

Os dirigentes do povo de Pilos então logo se reúnem e dividiram o espólio; os Epeios a muitos deviam.

Éramos poucos em Pilos e levávamos vida muito áspera pois entre nós alguns anos atrás a potência surgira de Héracles forte que a muitos dos nobres da terra matara.

Sim doze filhos perfeitos Neleu nesse tempo contava.

Eu tão-somente com vida fiquei; os demais pereceram.

Aproveitando-se disso os Epeios de vestes de bronze nos insultavam e iníquas acções contra nós praticavam.

O velho então reservou para si muitas vacas vistosas e três centenas de cabras que vieram com seus condutores tudo em lugar do que os divos Eleios lhe escavam devendo: quatro cavalos afeitos a prémios ganhar com seu carro  que para os jogos mandara com o fim de correr uma trípode.

Os corredores Augeias reteve senhor de guerreiros mas o cocheiro deixou que partisse a chorar seus cavalos.

Por isso tudo irritado palavras e factos o velho parte excelente escolheu; tudo o mais entre o povo divide que não ficasse ninguém defraudado do que lhe tocara.

Feita a partilha da presa por toda a cidade pusemo-nos a oferecer sacrifícios aos deuses.

Porém ao terceiro dia reunidos chegaram guerreiros de pé e de carro com muito ardor.

Os Molíones arnesados com eles vieram ambos mui jovens com pouca experiência das lidas da guerra.

Há uma cidade chamada Trioessa no cimo dum monte longe do Alfeu porém perto de Pilos de solo arenoso a que eles cerco puseram com o fim de tomá-la e destruí-la.

Mas quando toda a planície já tinha vastado chegou-nos Palas Atena de noite que vinha do Olimpo a dizer-nos que nos armássemos.

Nada remissos os Pílios encontra sim desejosos de entrar em combate.

Neleu não queria que armas eu fosse vestir tendo feito esconder meus cavalos.

Inexperiente nas coisas da guerra julgava que eu fosse.

Mas distingui-me entre os nossos guerreiros de carro conquanto sem meus cavalos me achasse que Palas servia de guia.

Perto de Arena onde o Rio Minieio no mar desagua os combatentes de carro ficámos à espera da Aurora.

Aos poucos veio ajuntar-se-nos gente de pé infinita.

Sem mais delongas dali nos partimos armados chegando já meio dia passado à sagrada corrente do Alfeu e sacrifícios magníficos logo ao supremo Zeus Crónida oferecemos: um touro ao Alfeu outro ao divo Posídon e à de olhos glaucos Atena vitela escolhida e ainda intacta.

As refeições pelo campo tomámos dispostos em filas e nos deitámos depois a dormir junto à margem do rio  sem nos despirmos das armas.

Entanto os Epeios magnânimos o cerco mais estreitavam querendo destruir a cidade.

Mas eis que à frente lhes surge um dos grandes obstáculos de Ares pois mal o Sol resplandecente por cima da terra assomara a Zeus e a Atena implorando ao combate então demos começo.

Logo no início da luta entre os Pílios e os fortes Epeios um inimigo prostrei na vanguarda e os corcéis tomei dele Múlio guerreiro famoso.

Era genro de Augias casado  com sua filha mais velha Agamede de louros cabelos que conhecia a virtude de todas as plantas da terra.

Aproximando-me dele atirei-lhe a hasta longa de bronze.

Ei-lo que tomba na poeira; dum salto subi para o carro e na dianteira me pus a lutar.

Os Epeios magnânimos desorientados fugiram ao verem cair justamente o nobre chefe dos homens de carro guerreiro fortíssimo.

Qual furacão contra o imigo atirei-me na frente de todos carros tomando cinquenta.

Domados por minha hasta longa de cada carro os dois homens a poeira do solo morderam.

E porventura também de Molíon os filhos e de Áctor exterminara não fosse tirá-los da pugna envolvidos em densa névoa Posídon seu pai imortal poderoso.

Zeus nesse instante inspirou força ingente nos homens de Pilos pois perseguimos o imigo por toda a extensão da planície a dizimá-los sem tréguas e espólio abundante reunindo até que lançámos os nossos cavalos à fértil Buprásio à pétrea Olénia e onde se acha a colina chamada de Alésio.

Foi desse ponto que Palas Atena voltar fez o povo onde sem vida prostrei o último homem.

Então os Aquivos  os corredores tocaram da fértil Buprásio até Pilos glorificando entre os deuses Zeus grande e entre os homens Nestor.

Esse fui eu –custa crer!– entre os homens.

Aquileu no entanto só para si guarda o prémio do seu heroísmo o que lhe há-de amargamente pesar quando o exército vier a perder-se.

Lembras-te caro de quanto te disse Menécio no dia em que de Ftia te enviou para as tropas do Atrida Agamémnon? Eu e o divino Odisseu nos achávamos dentro da sala do alto palácio razão por que ouvimos o que ele então disse.

Tínhamos ido até ao belo palácio do velho Peleu quando aliciávamos gente na Acaia de solo fecundo.

Dentro da casa encontrámos o grande guerreiro Menécio contigo Pátroclo e Aquileu.

O velho Peleu aí se achava dentro do pátio a queimar coxas pingues dum touro a Zeus grande fulminador.

Áurea copa na destra ele então empunhava a derramar roxo vinho nas chamas da pira sagrada.

Vós sustentáveis a carne.

Mas vendo que nós no vestíbulo sem avançar nos achávamos alça-se Aquileu surpreso:  pela mão veio buscar-nos mandou-nos sentar sem demora e como de uso com os hóspedes deu-nos repasto excelente.

Quando já tínhamos todos comido e bebido à vontade a que viésseis connosco exortei dando início ao discurso.

Ambos ficastes contentes; conselhos vos deram os velhos.

Que se esforçasse insistiu muitas vezes Peleu com Aquileu para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-se.

O filho de Áctor Menécio também te falou deste modo: “Em relação às estirpes meu filho supera-te Aquileu; mas és mais velho do que ele.

Em vigor ele muito te excede.

Dá-lhe portanto conselhos prudentes admoesta-o e o instrui que para o bem dele próprio por ti há-de ser conduzido.”

Esse o conselho do velho de que te esqueceste.

Experimenta mais uma vez convencê-lo; é possível que ouvidos te preste.

Quem nos dirá que um dos deuses não venha ajudar-te a movê-lo? A exortação dum amigo é de grande poder suasório.

Mas se se abstém porventura em virtude de algum vaticínio pela mãe nobre contado da parte de Zeus poderoso que pelo menos à frente te envie dos fortes Mirmídones.

Para os guerreiros aquivos serias a luz salvadora.

Deixe-te entrar em combate levando sua bela armadura  para que os Teucros te tomem por ele e das lutas se abstenham e os belicosos Aquivos que tão abatidos se encontram possam tomar algum fôlego; embora pequeno é o bastante.

Pois poderá gente fresca o inimigo que lasso se encontra para seus muros tocar afastando-o das naus e das tendas.”

Isso disse ele abalando sem dúvida o peito de Pátroclo que para o Eácida Aquileu ao longo das naves se apressa.

Mas quando em plena carreira alcançou de Odisseu o navio o divo Pátroclo da ágora em frente onde fora instituído o tribunal e erigidos altares dos deuses eternos viu como Eurípilo o filho preclaro de Evémone ilustre vinha a coxear em sentido contrário.

Deixara a batalha por encontrar-se ferido.

Da testa e dos ombros corria-lhe o suor em bagas brotando-lhe sangue anegrado e abundante da dolorosa ferida.

Contudo ainda firme era o espírito.

Ao vê-lo o filho do grande Menécio sentiu-se apiedado e a suspirar fundamente lhe disse as palavras aladas: “Vós conselheiros e guias dos Dánaos heróis infelizes ides morrer assim longe da pátria e dos entes queridos e alimentar os sabujos de Tróia com vossa gordura? Vamos Eurípilo herói a Zeus caro a verdade me narra:  se o formidável Héctor os Aquivos deter conseguiram ou se domados vão sendo e destruídos por sua hasta longa.”

Disse-lhe Eurípilo então em resposta ferido o seguinte: “Pátroclo aluno de Zeus já não há esperança; os Aquivos  todos terão de morrer junto às naves de casco anegrado.

Quantos primeiro na pugna bravura e valor demonstravam ora se encontram nas naves feridos por lanças e setas dos inimigos.

A fúria dos Teucros vai sempre aumentando.

Salva-me entanto conduz-me para o meu negro navio tira-me a lança da coxa absterge-me o sangue da chaga com água tépida e unguentos calmantes no talho coloca desses que Aquileu te fez sabedor –é o que todos proclamam– cujo segredo aprendeu com Quíron o Centauro mais justo.

Pois dos dois médicos hábeis que temos nas naves Macáon e Podalírio um se encontra assim penso na tenda ferido necessitando também dum bom médico enquanto o segundo se acha no campo da luta a sustar o furor dos Troianos.”

Disse-lhe o filho do grande Menécio em resposta o seguinte: “Como é possível Eurípilo? Como ajudar poderemos? Ia a correr para a Aquileu prudente levar um recado  de que Nestor me incumbiu de Gerena baluarte dos nossos; mas ainda assim não te hei-de ora deixar em aperto tão grande.”

Disse; e tomando-o por baixo do peito o levou para a lenda onde o escudeiro cuidoso estendeu grande pele bovina.

Sobre ela fê-lo deitar-se e com a espada tirou-lhe da coxa o dardo agudo e pungente.

Depois limpa o sangue anegrado com água morna depondo na chaga raiz amargosa que machucara nas mãos bom calmante que todas as dores logo tirou.

Pára o sangue secando de pronto a ferida.


 

CANÇÃO XII

Enquanto dentro da tenda cuidava de Eurípilo o ilustre filho do grande Menécio os guerreiros aqueus e os Troianos em confusão combatiam.

Por muito mais tempo a estes últimos não poderiam decerto a muralha contê-los e o fosso que como amparo das naves os Dánaos haviam construído sem que hecatombes perfeitas aos deuses eternos trouxessem para que todos a salvo ficassem bem como os navios e a presa opima.

Isso tudo porém não durou muito tempo que fora contra a vontade dos deuses eternos construído.

Enquanto Héctor vivo esteve o Pelida se achava agastado e inabalável de pé se manteve a cidade de Príamo permaneceu também firme a muralha dos homens aquivos.

Mas quando os Teucros mais fortes já haviam tombado sem vida –dos combatentes aqueus uns com vida outros mortos ficaram– e ao décimo ano depois de destruída a cidade de Príamo para o torrão de nascença os Argivos nas naus retornaram logo dois deuses Apolo e Posídon no modo pensaram de destruir esses muros reunindo a potência de quantos rios do vértice do Ida despejam no mar suas águas:  o Reso o Heptáporo o Ródio estuoso e o Careso tranquilo mais o divino Escamandro e além desses o Grânico o Esepo e o Simoente nas margens do qual muitos cascos caíram muitos escudos de couro e uma estirpe de heróis semideuses.

De todos eles Apolo reuniu as correntes jogando-as por nove dias de encontro à muralha.

Incessante chovia Zeus porque logo submersa no mar a estrutura ficasse enquanto o próprio Posídon tridente na mão ia à frente e os alicerces de troncos e pedras que tanto trabalho tinham custado aos Argivos às ondas do mar os jogava até que deixou tudo plano na margem do belo Helesponto.

Após haver a obra destruído cobriu com areia infinita toda a planície fazendo que os rios então retornassem para seus leitos e límpidas fluíssem de novo aí as águas.

Isso em futuro devia ser feito por Febo e Posídon; mas por enquanto ainda ardia ao redor das muralhas bem feitas o clamoroso combate e nas torres as traves ressoavam quando atingidas.

Por Zeus flagelados os nobres Aquivos se amontoavam nas côncavas naves fugindo de Héctor suscitador poderoso do Medo guerreiro selvagem  que um turbilhão parecia ao lançar-se ardoroso na luta.

Tal como um leão ou javardo que no meio de feros sabujos  e caçadores se volta orgulhoso da força nativa quando agrupados em torre eles todos se ajuntam fazendo-lhe frente e atirando-lhe setas em número grande com braço de comprovado vigor sem que a fera temor manifeste no coração valoroso –a morrer o levava a coragem– pois muitas vezes se volta tentando assaltar as fileiras dos inimigos que cedem no ponto em que avança contra eles: do mesmo modo entre a turba agitava-se Héctor exortando os companheiros a o passo transporem.

Contudo os cavalos que não podiam franqueá-lo paravam nitrindo indecisos junto da borda.

A largura do fosso pavor lhes infunde.

Fácil não era galgá-lo dum salto ou passar de corrida pois escarpados barrancos por todo o circuito se viam de ambos os lados munidos na parte de cima de filas de hirtos estrepes que os fortes Acaios haviam fincado em grande cópia alinhados defesa eficaz contra o imigo.

Dificilmente os cavalos na frente dos carros flexíveis o franqueariam; os próprios pedestres receavam transpô-lo.

Polidamante virando-se então para Héctor assim fala: “Filho de Príamo Héctor e vós chefes dos Teucros e aliados: é insensatez impelir os cavalos por dentro do fosso.

É intransponível pois se acha eriçado de estacas agudas por trás das quais se levanta a muralha dos fortes Aquivos.

Modo não vejo de luta travarmos e ao fundo chegarmos-lhe com nossos carros: naquela apertura seremos vencidos.

Se Zeus que no alto troveja de facto pretende arruiná-los completamente e aos Troianos deseja amparar neste passo certo eu também desejara que tudo nesta hora se desse que longe de Argos sem glória os Acaios aqui perecessem.

Caso porém se detenham voltando de novo a enfrentar-nos e nos repilam das naves lançando-nos todos no fosso penso que a forte pressão dos Aquivos tornara impossível sobreviver um sequer que à cidade levasse a notícia.

Que todos vós me obedeçam fazendo o que passo a dizer-vos: Junto do fosso os aurigas contenham os fortes cavalos; nós entretanto de pé na armadura de bronze envolvidos todos em ordem sigamos a Héctor.

Resistir os Acaios não poderão se entre as peias da Morte em verdade se encontram.”

Foi pelo intrépido Héctor o conselho do herói aprovado.

Rapidamente do carro saltou sem que as armas largasse.

Dentro dos carros também não ficaram os outros Dardânios: sim para terra saltaram no rasto de Héctor impecável.

Aos seus aurigas os chefes instruem que junto do fosso em boa ordem os carros e os fortes corcéis mantivessem.

Os combatentes então separando-se em cinco colunas se dividiram guiada cada uma por um dos caudilhos.

Uns por Héctor eram guiados e pelo guerreiro preclaro Polidamante sem dúvida os mais numerosos sedentos de passo abrir na muralha e lutar junto às côncavas naves; era o terceiro Cebríones que por Héctor fora posto em seu lugar um auriga de menos valia do que ele.

Outra coluna por Páris Alcátoo e Agenor é levada.

Vai por Heleno guiada a terceira e o divino Deífobo filhos de Príamo aos quais se juntou a seguir Ásio ilustre de Hírtaco o filho notável que veio de Arisba em carruagem desde o Seleente revolto puxada por fulvos ginetes.

O nobre filho de Anquises Eneias a quarta levava conjuntamente com dois descendentes do grande Antenor  hábeis nas artes da guerra Acamante e o admirável Arquéloco.

A última enfim dos gloriosos aliados Sarpédon guia; Asteropeu pugnacíssimo e Glauco o secundam no mando que os reputava os mais fortes depois dele próprio entre todos os companheiros.

A ele em verdade ninguém se igualava.

Todos unidos então sobraçando os escudos de couro: cheios de ardor avançaram pensando que os Dánaos nenhuma oposição lhes fariam correndo nas naus a abrigar-se.

Dessa maneira executam o plano de ataque do heróico Polidamante os Troianos valentes e os fortes aliados.

Ásio porém filho de Hírtaco chefe de fortes guerreiros não quis o carro deixar aos cuidados do auriga escudeiro –sim procurou como estava acercar-se das naves escuras.

Tolo! Que não deveria livrar-se das Parcas funestas nem retornar orgulhoso de junto das naves recurvas com seus cavalos e o carro para Ílion por ventos batida.

Não que antes disso o Destino odioso o envolveu pela lança de Idomeneu o preclaro Deucálida herói excelente.

Tenta forçar pela esquerda das naves por onde os Aquivos com seus cavalos e carros passavam de volta do campo.

Por essa parte os cavalos e o carro lançou sem que as portas viesse fechadas achar ou seguras com fortes ferrolhos.

Escancarado as haviam Argivos alguns para o caso de recolher os consócios que abrigo nas naus procurassem.

Por essa porta os cavalos lançou sendo logo seguido pelos Troianos em grita pensando que os Dánaos nenhuma oposição lhes fariam correndo nas naus a abrigar-se.

Tolo! Na porta encontrou dois guerreiros dos mais distinguidos filhos soberbos de Lápitas fortes lanceiros famosos: um Polipetes robusto do grande Pirítoo nascido outro Leonteu semelhante a Ares forte aos mortais pernicioso os quais estavam postados defronte da porta altanada como dois fortes carvalhos de copa elevada na serra que todo o dia por ventos e chuvas batidos se vêem  com suas longas e fortes raízes no solo firmadas: do mesmo modo eles dois confiados na força e no braço sem medo algum esperavam por Ásio guerreiro preclaro.

Contra a muralha bem feita com grande alarido avançavam os inimigos que no alto os paveses redondos sustinham em torno de Ásio agrupados potente senhor e de Orestes  de Iámeno Tóone Adamante que de Ásio nascera e de Enómao.

Até esse momento da parte de dentro exortavam os Lápitas aos bem grevados Acaios a virem das naus em defesa; mas ao notarem que os Teucros em número grande avançavam contra a muralha e que os Dánaos tomados de medo fugiam dum salto os dois para fora da porta a lutar se puseram como dois fortes javardos à espera nos montes do encontro de caçadores e cães que com bulha terrível avançam; obliquamente acometem; estragos produzem na selva e árvores grandes arrancam ouvindo-se longe o barulho dos alvos dentes até que atingidos a vida ali deixam: do mesmo modo ressoava a armadura brilhante dos cabos quando atacados de frente pois ambos lutavam com brio nos companheiros confiados e assim no valor costumeiro.

Pedras realmente os Aquivos de cima do muro atiravam em defensão da existência do campo e dos próprios navios de veloz curso.

Da mesma maneira que flocos de neve em grande número caem na terra ao soprar incessante vento de força impetuosa que as nuvens escuras espalha: dos fortes braços assim dos Aqueus e dos Troas choviam  tiros sem conta.

Atingido por pedras enormes som seco os abaulados escudos soltavam e os cascos brilhantes.

Ásio viril filho de Hírtaco solta um profundo suspiro e cheio de ira nas coxas batendo desta arte prorrompe: “Este és Zeus pai que também te revelas adepto extremado de falsidades! Jamais presumi que os heróicos Aquivos resistiriam ao ímpeto de nossas mãos invencíveis! Eles entanto quais vespas de corpo cintado e flexível ou como abelhas que o ninho construíram em rocha escarpada e que mais presas ao cavo refúgio ao se verem de fronte de tiradores de mel em defesa da prole os atacam: com serem dois simplesmente estes homens assim não nos deixam franca passagem a menos que mortos ou presos aí sejam.”

Essas palavras contudo os desígnios de Zeus não mudaram que a só o intrépido Héctor assentara ceder essa glória.

Em outras portas entanto outros fortes guerreiros lutavam.

Muito difícil me fora contar como um deus tantos feitos que em todo o muro de pedras o incêndio divino se alçara pois os Argivos conquanto oprimidos se viam forçados a defender os navios.

Aflitos estavam os deuses   que nos combates soíam tomar o partido dos Dánaos.

De todo jeito o inimigo enfrentavam os Lápitas fortes.

Pela viseira de bronze do casco de Dâmaso a lança mete o viril Polipetes do grande Pirítoo nascido.

O elmo de bronze contudo não pôde deter a aénea lança; atravessado ficou bem como o osso e por último o cérebro que se desfez por completo; no arranco audacioso o derruba.

A Órmeno e Pílon após da armadura brilhante os despoja.

Por sua parte Leonteu germe de Ares feriu com a lança ao forte filho de Antímaco Hipómaco junto do cinto.

Saca em seguida da espada cortante e atirando-se a Antífates por entre a turba primeiro o feriu numa luta de perto com tal violência que ao solo o jogou ressupino sem vida.

Vai contra Orestes depois contra Iámeno e o forte Ménon uns sobre os outros jogando sem vida na terra fecunda.

Enquanto aos mortos após espoliavam das armas esplêndidas Polidamante e o alto Héctor com seus homens estrénuos chegaram fortes guerreiros em número grande e também desejosos de brecha abrir na muralha e de fogo lançar aos navios.

Mas ao chegarem à beira do fosso indecisos pararam:  é que quando iam transpô-lo por eles uma ave perpassa: águia de altíssimo voo que à esquerda fechou todo o exército a qual nas garras a imano dragão cor de sangue restringia vivo a mexer-se que não se esquecera dos cruentos combates pois para trás encurvando-se junto do colo no peito a ave feriu.

Trespassada de dor excruciante esta logo violentamente o jogou para longe no meio do povo.

Grito estridente solta a águia partindo com o sopro do vento.

Estremeceram os Teucros ao verem no meio do campo como portento de Zeus a serpente de cores cambiantes.

Polidamante de Héctor se aproxima e lhe diz o seguinte: “Sempre me increpas Héctor nas reuniões dos Troianos embora úteis as minhas propostas pois aí em verdade é imprudência gente do povo exceder-se quer seja nos nossos conselhos quer se cogite da guerra; tua força aumentar só desejas.

Ora pretendo dizer-te o que julgo ser mais proveitoso: Não prossigamos a fim de lutar junto às naves com os Dánaos.

Posso prever o futuro se foi um sinal como penso a ave que aos Teucros baixou no momento de o fosso transpormos a águia de altíssimo voo que à esquerda fechou todo o exército  a qual nas garras a imano dragão cor de sangue restringia vivo soltando-o muito antes de alçar-se até ao ninho querido sem que lhe fosse possível aos filhos por cibo levá-lo.

Do mesmo modo há-de dar-se connosco: se as portas e o muro à viva força rompermos e os Dánaos dali repelirmos retornaremos depois pelo mesmo caminho sem ordem  e deixaremos inúmeros Teucros que os fortes Aquivos hão-de fazer perecer defendendo os navios escuros.

Era o que certo diria qualquer adivinho dos que andem mais inteirados de augúrios e gozem de grande conceito.”

Com torvo olhar lhe responde o guerreiro do casco ondulante: “Polidamante essas tuas palavras em nada me agradam.

Penso que fora possível fazeres proposta mais digna.

Mas se tudo isso de há pouco foi dito realmente em tom sério é que os eternos do Olimpo fizeram que o juízo perdesses.

Queres então que me venha a esquecer dos desígnios de Zeus que peremptória promessa me fez e a asselou com a cabeça? Ao invés disso desejas que fé demonstremos às aves de altos remígios com que não me ocupo! Bem pouco me importam quer para a destra se vão para o lado do Sol e da Aurora  quer para a esquerda do lado do Ocaso de sombras espessas.

Sim obedientes sejamos somente aos conselhos de Zeus que sobre todos os homens e os deuses eternos impera.

O mais propício sinal é lutar em defesa da pátria.

Por que te mostras medroso de lutas e prélios sangrentos? Ainda que todos a vida perdêssemos junto das naves por mão dos fortes Aquivos não deves ter medo da Morte visto não teres coragem de o imigo enfrentar nos combates.

Mas se deixares a luta ou se acaso tentares por meio de teus discursos influir sobre alguém nesse mesmo sentido por minha lança atingido hás-de logo perder a existência.”

Tendo assim dito partiu na dianteira; os demais o seguiram com bulha imensa.

Dos píncaros do Ida nessa hora Zeus grande que com os raios se apraz fez soprar um tufão borrascoso que contra as naus atirou muita poeira.

Os Argivos confusos deixa com isso e aos Troianos e a Héctor glória imensa concede os quais confiados no grande prodígio e na força consueta tentam fazer uma brecha na forte muralha dos Dánaos.

Os parapeitos destroem; por terra os merlões são jogados; com alavancas arrancam do solo os salientes pilares  que tinham sido fincados à guisa de amparo das torres.

As próprias torres abalam tentando romper desse modo o grande muro.

Os Acaios contudo não cedem caminho mas com os escudos de pele de boi protegidos feriam do alto do muro os imigos que em baixo a lutar se encontravam.

Os dois Ájaxes as torres percorrem dando ordens aos sócios e procurando elevar a coragem dos fortes Aquivos a uns com palavras afáveis mas a outros com termos violentos a outros que pouca vontade tivessem de entrar em combate: “Caros conquanto nem todos na guerra possamos ser grandes –uns preexcelentes heróis; outros médios; alguns de coragem mais reduzida– ora cumpre que todos se mostrem capazes  como sem dúvida vedes que a luta o requer.

Ninguém volte para os navios ninguém após haverdes ouvido o comando mas sempre avante a lutar exortai-vos que Zeus porventura fulminador há-de dar-nos podermos sustar este assalto e repelir o inimigo até aos muros de Tróia altanada.”

Por esse modo a gritar exortava os Aquivos à luta.

Tal como flocos de neve abundantes que caem no Inverno quando Zeus grande nascido de Cronos resolve que neve  para mostrar aos humanos os dardos de sua potência; calam-se os ventos a neve não cessa até serem cobertos os altos picos e as cristas das grandes montanhas bem como prados cobertos de loto e as lavouras florentes dos homens; só pelos portos da costa e nas praias do mar espumoso é pelo embate das ondas a neve quebrada; o mais tudo completamente coberto se vê quando Zeus faz que neve: os contendores assim jogam pedras em basto granizo; contra os Troianos os Dánaos; da parte também dos Troianos contra os Aquivos; em toda a muralha o barulho era imenso.

Mas ainda assim os Troianos e o intrépido Héctor não teriam arrebentado o alto muro e os possantes ferrolhos da porta se não tivesse mandado Zeus grande a seu filho Sarpédon contra os Aqueus como leão que surgisse entre nédios bovinos.

Diante de si logo o escudo redondo o guerreiro sustenta todo de bronze batido de bela feitura trabalho de hábil bronzista que peles de boi colocara por dentro por varas de ouro seguras em toda a extensão da orla grande.

Com duas hastas na mão sustentando esse escudo na frente lança-se o herói como leão montanhês que privado de carne  por longo tempo estivesse e levado pelo ânimo altivo fosse arriscar-se em rebanho fechado em redil protegido; ainda que estejam lá dentro pastores armados de lanças com seus rafeiros de guarda ao rebanho e dispostos à luta não se resigna a afastar-se sem ter dado o bote; por isso para o cercado saltando ou consegue apanhar uma presa ou cai sem vida ali mesmo atingido por dardo certeiro: o coração do divino Sarpédon assim o levava a contra o muro atirar-se animoso e romper-lhe a estrutura.

Vira-se então para Glauco nascido de Hipóloco e diz-lhe: “Ouve-me Glauco: por que somos ambos honrados na Lícia com os primeiros lugares nas testas assados e vinho sempre abundante e os do povo nos vêem como a deuses eternos? Deram-nos junto das margens do Xanto também um terreno próprio igualmente para uso do arado e cultivo de trutas.

Por isso tudo nos cumpre ocupar na vanguarda dos Lícios o posto de honra e estar sempre onde a luta exigir mais esforço para que possa dizer qualquer Lício de forte armadura:  ‘Sem grandes títulos de honra não é que na Lícia governam os nossos reis e consomem vitelas vistosas bebendo  vinho de melado paladar.

É bem grande o vigor que demonstram quando na frente dos nossos guerreiros o imigo acometem.

’ Ah caro amigo se acaso escapando da guerra terrível livres ficássemos sempre da triste velhice e da Morte não me verias por certo a lutar na dianteira dos nossos nem te faria ingressar nas batalhas que aos homens dão glória.

Mas ao invés disso cercados estamos por muitos perigos e pela Morte da qual escapar ninguém pode ou eximir-se.

Vamos portanto a dar glória a qualquer ou de alguém recebê-la.”

Não volta Glauco dali após ouvir-lhe o discurso; obedece; e ambos se põem a guiar as fileiras compactas dos Lícios.

Vendo-os o grande Petida o viril Menesteu assustou-se pois para a torre em que estava os dois cabos a ruína levavam.

A vista ao longo dos muros inquieto lançou à procura de qualquer chefe preclaro que amparo dos sócios servisse.

Os dois Ájaxes de facto enxergou insaciáveis de lutas de pé na pugna e assim Teucro que viera da tenda e se achava perto dos dois.

Mas por mais que gritasse nenhum o escutava.

Grande demais era o estrépito; os gritos o Céu atingiam.

Ruídos ouviam-se de elmos batidos de escudos das portas  que tinham sido fechadas em frente das quais o inimigo se colocara tentando arrombá-las e entrar com violência.

Logo aos Ájaxes envia Tootes o arauto preclaro: “Corre divino Tootes e faz que Ájax aqui venha; ambos aliás se possível; que muito melhor será tê-los perto de nós porque ameaça a este lado iminente ruína.

Os chefes Lícios de facto aqui fazem pressão conhecidos pela maneira impetuosa com que nos combates se portam.

Se ambos porém estiverem a braços também com trabalhos venha ajudar-nos ao menos Ájax Telamónio preclaro acompanhado de Teucro que o arco maneja perito.”

Obedeceu-lhe Tootes sem perda de tempo ao mandado; corre ao comprido do muro dos fortes Aqueus e parando junto dos nobres Ájaxes lhes diz as palavras aladas: “Nobres Ájaxes mentores dos brônzeos guerreiros argivos manda pedir o notável Petida nutrido por Zeus da parte de ambos ajuda ainda mesmo que seja por pouco.

Se for possível os dois; que é melhor por sem dúvida ter-vos perto de nós porque ameaça a esse lado iminente perigo.

Os chefes lícios de facto ali fazem pressão conhecidos  pela maneira impetuosa com que nos combates se portam.

Mas se ambos vós estiverdes a braços também com trabalhos venha ajudar-nos ao menos Ájax Telamónio preclaro acompanhado de Teucro que o arco maneja perito.”

O grande Ájax Telamónio de grado acedeu ao pedido e para o filho de Oileu disse logo as palavras aladas: “Tu forte Ájax e o viril Licomedes aqui vou deixar-vos para animardes os divos Aqueus a lutarem com brio enquanto vou para ajuda levar onde o embate é mais forte.

Logo estarei de tomada depois de passado o perigo.”

O grande Ájax ao dizer tais palavras se pôs em caminho com Teucro irmão que como ele nascera do herói Télamon.

O arco recurvo de Teucro Pándion valoroso o carrega.

Em pouco tempo chegaram à torre do herói Menesteu pelo interior progredindo; oprimidos de facto se achavam que os parapeitos já haviam galgado qual negra procela os conselheiros e guias notáveis dos Lícios guerreiros.

Chocam-se as hostes imigas; enorme alarido se eleva.

O grande Ájax Telamónio a um dos Troas primeiro derruba o companheiro do grande Sarpédon Epicles magnânimo.

Áspera pedra atirou-lhe que dentro do muro se via no parapeito bem no alto.

Não fora possível a um homem desses de agora conquanto no viço da idade soerguê-la com as duas mãos.

Ele entanto a elevou e de cima atirou-lha.

Rompe-se o casco de quatro saliências; racharam-se os ossos todos do crânio de Epicles que do alto da torre revira como em mergulho; abandona-lhe os ossos o espírito altivo.

Com flecha Teucro também fere a Glauco nascido de Hipóloco quando ele vinha impetuoso a querer escalar o alto muro: vendo-lhe o braço desnudo de novos encontros o afasta.

Do alto saltou ocultando-se Glauco –não fosse notado o ferimento por um dos Aquivos que certo o vaiara.

Aborreceu-se Sarpédon quando notou que da pugna Glauco saíra sem que isso o fizesse esquecido da luta.

A hasta de bronze enterrou em Alcmáon o forte Testorida e novamente a retira; seguindo-a no impulso o guerreiro tomba de bruços ressoando sobre ele a armadura brilhante.

O parapeito Sarpédon então com a mão forte apanhando puxa arrastando uma grande porção; fica o muro por cima desguarnecido de todo franqueando passagem muito ampla.

Contra ele Ájax se atirou secundado por Teucro que o fere com uma flecha no peito por cima da bela correia do grande escudo.

Mas Zeus da precípite Morte resguarda ao próprio filho não fosse cair junto às naves recurvas.

Dum pulo Ájax atirou-lhe no escudo a aénea lança que fica nele pregada obrigando o guerreiro a parar vacilante.

Do parapeito alguns passos recuou sem parar entretanto na arremetida que o peito o levava a esperar glória imensa.

Vira-se então para os Lícios divinos e a todos exorta: “Lícios por que nos esquece nesta Hora o valor impetuoso?  É-me bastante difícil por mais vigoroso que eu seja brecha sozinho no muro rasgar e franquear-vos o passo.

Vamos avante! Onde muitos ajudam a empresa é mais fácil.”

A essas palavras pungentes os Lícios tomados de pejo estimulados se agrupam em torno do insigne guerreiro.

Dentro do muro também reforçavam as suas falanges os combatentes aquivos; muito árduo trabalho os premia.

Nem conseguiam os Lícios preclaros o muro dos Dánaos desmantelar e franquear para as naves a todos o passo nem os lanceiros argivos podiam forçar aos da Lícia  a que largassem o muro uma vez o lugar conquistado.

Do mesmo modo que dois camponeses altercam sem pausa com a medida na mão quando em campo comum põem divisas e em faixa estreita discutem iguais pretensões defendendo: no parapeito desta arte em porfia se travam e a pugna de novo acendem talhando os arneses de couro bovino os manejáveis broquéis e os escudos redondos e fortes.

Muitos ficaram ali pelo bronze cruel trespassados quer quando acaso virando-se o dorso deixavam desnudo na acre peleja quer mesmo de frente através dos escudos.

Os parapeitos e as torres se achavam manchados de sangue de ambos os grupos dos nobres Aqueus e dos fortes Troianos.

Mas nem assim conseguiam em fuga lançar aos Aquivos.

Tal como honesta fiandeira que no alto segura a balança e num dos pratos a lã noutro o peso devido coloca para o mesquinho salário ganhar com que os filhos sustente: os contendores desta arte indecisa a batalha deixavam antes de haver Zeus ao filho de Príamo Héctor concedido a glória excelsa de ser o primeiro a saltar o alto muro.

Para os Troianos voltando-se grito estridente lhes manda:  “Acometei valorosos Troianos! Rompamos o muro e nos navios recurvos lancemos o fogo divino.”

Isso disse ele; na orelha de todos o brado ribomba.

Cheios de brio formados em corpo atiraram-se todos com as aéneas lanças na mão escalando os merlões altanados enquanto Héctor uma pedra tomou que se achava na frente da grande porta achatada na base e de ponta afilada.

Dificilmente dois homens do povo dos mais esforçados conseguiriam movê-la do chão e depô-la no carro –homens dos de hoje.

Ele entanto sozinho a maneja galhardo.

Leve a deixou Zeus potente nascido de Cronos tortuoso.

Tal como a pele dum grande carneiro o pastor facilmente pode na mão carregar sem que o peso lhe cause fadiga: a pedra Héctor desse modo levanta e nas tábuas atira das duas folhas da porta elevada que estavam fechadas solidamente.

Da parte de dentro encontravam-se duas  barras em cruz com um ferrolho somente a fixá-las no meio.

Junto da porta detém-se; alargando os dois pés e afirmando-se para maior eficiência do tiro a atingiu bem no meio.

Rompem-se os quícios de baixo e de cima; com todo o seu peso  cai dentro a pedra; alto a porta ribomba sem que resistissem as duas barras; com a força do golpe quebradas abriram-se ambas as folhas.

O fúlgido Héctor que no rosto trazia a veloz Noite saltou para dentro luzindo-lhe as armas brônzeas que os membros lhe cingem por modo terrível com duas lanças na mão.

A não ser um dos deuses ninguém poderia nesse momento antepor-se-lhe; os olhos em chama brilhavam-lhe.

Grita voltando-se então para a chusma dos Teucros mandando que transpusessem o muro.

Obedientes às ordens do chefe uns a parede galgaram depressa enquanto outros em massa pela abertura da porta afluíram.

Voltaram-se os Dánaos em fuga para os navios no meio de grande alarido.


 

CANÇÃO XIII

Logo que Zeus fez Héctor e os Troianos as naus alcançarem os combatentes deixou aos trabalhos e dores entregues.

Os olhos fúlgidos volve depois para longe passando a contemplar a região dos ginetes da Trácia dos Mísios que só combatem de perto dos belos heróis Hipomolgos que se alimentam de leite e a dos Ábios os homens mais justos.

Para a planície de Tróia não mais volve os olhos brilhantes pois no imo peito jamais esperou que qualquer dos eternos viesse auxiliar os Troianos ou os nobres guerreiros aquivos.

Mas não vigiava debalde o deus forte que a terra sacode que a contemplar se encontrava admirado os combates e lutas do pico mais elevado de Samos na Trácia coberta de muitas selvas donde ele esguardar o Ida todo podia a fortaleza de Príamo e as naus dos guerreiros acaios.

Ao sair da água assentara-se ali lastimando a derrota dos combatentes aqueus.

Contra Zeus indignado em excesso sem mais demora baixou do penedo escarpado em que estava com passos rápidos.

Tremem florestas espessas e montes ao pisar forte dos pés imortais do divino Posídon.

Dá três passadas assim para a meta atingir com mais uma Egas em cujos recessos no porto palácio possuía de áureos enfeites ornado luzente e de eterna estrutura.

Aí sob o jugo pôs logo os cavalos de cascos de bronze com crinas de ouro ondulantes de rápido curso; a armadura de ouro vestiu empunhando o chicote também de ouro fino de trabalhada feitura e subindo depois para o carro por sobre o mar o guiou.

Conhecendo o senhor surdem ledos dos mais profundos abismos cetáceos que aos saltos o cercam.

Com alegria apartaram-se as ondas correndo a parelha tão velozmente que o eixo do carro sequer se molhava.

Em pouco tempo os cavalos às naus dos Aqueus o levaram.

Uma espaçosa caverna de belo traçado se encontra perto de Ténedos e de Imbro rochosa no fundo das águas.

O abalador nesse ponto deteve os fogosos cavalos; tira-os do jugo alimento divino lhes deita passando-lhes em torno aos pés peias de ouro inquebráveis não só com certeza mas impossíveis de abrir.

Ficariam os brutos aí presos até que ele viesse de novo.

Depois para as naus foi depressa.

Tal como chama voraz ou procela os Troianos num grupo  ao filho seguem de Príamo Héctor com furor implacável.

Grande algazarra levantam julgando que fácil lhes fosse  as naus tomar dos Aqueus e matar os guerreiros mais fortes.

O deus Posídon no entanto que os térreos pilares sacode tendo do oceano emergido os Aqueus para a luta concita após ter a voz de Calcas indefessa e a figura assumido.

Aos dois Ájaxes estrénuos primeiro dirige a palavra: “Vós incansáveis Ájaxes salvar os Aqueus poderíeis se deslembrados do medo pensásseis na própria coragem.

As mãos galhardas dos Teucros nenhures temor me despertam ainda que tenham os muros galgado em fileiras compactas que os bem grevados Aquivos detêm a avançada de todos.

Mas sobremodo receio de que nos suceda algum dano onde a escalada dirige esse louco que incêndio parece o ínclito Héctor que alardeia ser filho de Zeus potentíssimo.

Possa um dos deuses no peito exaltar-vos a força fazendo que ofereçais resistência exortando os demais a imitar-vos.

Conseguireis deste modo afastá-lo das naus corredoras por mais furioso que esteja e ainda mesmo que Zeus o estimule.”

Isso dizendo Posídon que a terra sacode com o ceptro  em ambos logo tocou infundindo-lhes força invencível; leves lhes torna ele os membros os braços e as pernas robustas.

Como alça o voo gavião de asas lestes e no alto das penhas de talho abrupto se posta esguardando de lá todo o plaino para depois atirar-se no encalço de outra ave mais fraca: do mesmo modo Posídon que a terra sacode se afasta.

Reconheceu-o logo Ájax o veloz descendente de Oileu e para Ájax Telamónio virando-se disse o seguinte: “Ó Telamónio um dos deuses do Olimpo altanado nos manda sob as feições do adivinho lutar em defesa das naves.

Não foi Calcas sem dúvida o arúspice e sábio profeta.

Pelas pegadas o vi pelo jeito das pernas quando ele já se afastava de nós.

Fácil é conhecermos os deuses.

No coração e no peito ademais sinto ardente desejo tal como nunca o senti de atirar-me aos combates e lutas.

Fremem-me os pés; impacientes os braços já querem mover-se-me.”

Disse-lhe Ájax Telamónio preclaro em resposta o seguinte: “Noto também neste instante que junto da lança me treme a destra invicta; a coragem me exalta; percebo que querem os pés levar-me.

Enfrentar eu também já desejo sozinho  o forte filho de Príamo Héctor com furor implacável.”

Dessa maneira em colóquio eles dois tais conceitos trocavam ledos por causa do ardor combativo que um deus lhes trouxera.

O abalador prosseguia entretanto a animar os Aquivos que reparavam as forças nas filas de trás junto às naves.

Lassos os membros sentiam por causa do esforço excessivo sobre invadir-lhes o peito o desânimo ao verem que os Teucros o grande muro já haviam galgado em tropel numerosos.

Dos cílios descem-lhes lágrimas ante o avançar do inimigo sem que escapar esperassem da ruína iminente.

Mas logo o abalador interveio excitando de novo as falanges.

A Teucro exorta primeiro passando a animar em seguida Toante animoso o viril Peneleu Leito forte e Deípiro e finalmente Meríones forte e o notável Antíloco.

E concitando-os à luta lhes disse as palavras aladas: “Envergonhai-vos mancebos argivos! De facto esperava que só no vosso valor estivesse salvar os navios.

Se desse modo evitais atirar-vos à luta terrível já nos surgiu a manhã de nos vermos vencidos dos Teucros.

Deuses do Olimpo que enorme prodígio ora aos olhos me avulta!  Nunca jamais se previra sequer tão estranho sucesso: virem lutar junto às naus os Troianos que até este momento se assemelhavam a corças imbeles tomadas de susto que vagueando por entre os perigos de densas florestas presas vão ser de chacais e panteras e lobos vorazes.

Do mesmo modo os Dardânios até hoje por pouco que fosse não tinham tido coragem de o braço enfrentar dos Aquivos.

Ora se luta distante dos muros à volta das naves por culpa só do comando supremo e a abstenção de alguns homens que porque se acham brigados com o chefe os baixéis não defendem de veloz curso deixando-se todos matar junto deles.

Mas ainda mesmo que seja culpado de tudo o potente filho de Atreu Agamémnon senhor de domínios vastíssimos por ter a Aquileu de céleres pés ultrajado primeiro não fica bem para nós desertar desse modo da pugna.

O erro sanemos que é próprio dos bons procurar corrigir-se.

É censurável pois não? descuidardes assim dos combates que sois do exército os mais valorosos.

Eu próprio indignado nunca podia mostrar-me se visse da luta afastar-se um dos guerreiros somenos; mas vossa inacção me revolta.

Vamos covardes! Em pouco fareis com tamanha desídia que o mal se agrave.

Deixai que se aninhe no peito de todos o sentimento do pejo pois dura batalha se trava.

Junto das naus já se encontra a lutar esse Héctor com denodo de voz possante depois de quebrar a alta porta e os ferrolhos.”

O abalador desse modo exortava e admoestava os Aquivos.

Em torno aos fortes Ájaxes entanto falanges se agrupam com tal denodo que Atena e Ares certo se ali se encontrassem francos aplausos para elas teriam.

De Héctor a investida e dos Troianos os mais destemidos heróis aguardavam lanças firmadas em lanças pavês a pavês recobrindo elmos e escudos unidos guerreiros em filas compactas.

Tocam-se no alto os penachos de crina das cristas brilhantes quando agitados tão juntos se achavam os fortes guerreiros.

Círculos traçam as lanças por mãos valorosas vibradas.

Todos os peitos incende o desejo de à pugna se atirarem.

Densos os Teucros irrompem; Héctor os comanda sequioso de contra os Dánaos lançar-se tal como penedo que rola devastador de alto monte arrancado pelo ímpeto da água quando a torrente solapa o alicerce de imano penedo.

Aos tombos desce ruidoso atroando cá em baixo a floresta sempre a rolar sem nenhum empecilho até vir na planície desfalecer que lhe quebra a violência obrigando-o a deter-se: o ínclito Héctor desse modo ameaçava chegar até à praia mui facilmente através dos baixéis e das tendas aquivas a dizimá-los; mas quando alcançou as falanges compactas num grande choque deteve-se.

Enfrentam-no os homens argivos os quais brandindo as espadas e as lanças de dúplices pontas o repeliram forçando-o desta arte a recuar vacilando.

Vira-se então para os Troas e grita com voz penetrante: “Lícios Dardânios e Teucros viris combatentes de perto vamos que muito mais tempo os Acaios não podem deter-me! Ainda que todos se agrupem qual torre de forte estrutura à minha lança hão-de em breve ceder se é verdade que o esposo de Hera de voz poderosa o deus máximo é que me impulsiona.”

Por esse modo excitava o furor e a coragem de todos.

Vinha na frente dos Teucros impando de orgulho Deífobo filho de Príamo; o escudo redondo mantinha na frente e protegido por ele com passo ligeiro avançava.

Pondo-lhe a mira Meríones joga-lhe a lança brilhante  com pontaria certeira atingindo-lhe a grande rodela feita de couro de boi sem contudo a furar.

Ao tocá-la a hasta comprida partiu-se na ponta.

Afastado do corpo o táureo escudo o guerreiro manteve temendo em verdade a arma do forte Meríones que por sua vez para o meio dos companheiros recuou duplamente agastado no espírito pela vitória perdida e pela arma que ali se quebrara.

Foi a correr para as naves e tendas dos homens acaios para tomar outra lança das muitas que havia na tenda.

Na luta os outros prosseguem; enorme alarido se eleva.

Teucro primeiro que todos prostrou a um dos Troas guerreiros da geração de Mentor opulento em corcéis Ímbrio forte que antes do início da guerra em Pedeu residia e esposara a uma das filhas espúrias de Príamo Medesicasta.

Mas à chegada das naves recurvas dos homens da Acaia para Ílion sacra voltou distinguindo-se muito entre os Teucros e residia com Príamo o qual como a filho o estimava.

O Telamónio o feriu sob a orelha com a lança comprida que novamente puxou.

Como freixo que no alto crescera do pico excelso visível de todos os lados que as folhas   tenras ao solo projecta quando é pelo bronze cerceado: tomba o guerreiro desta arte ressoando a armadura de bronze.

Teucro acorreu desejando das armas formosas despi-lo.

Mas nesse instante a hasta brônzea o impecável Héctor atirou-lhe; ele porém que o notara desviou-se da lança brilhante que foi bater em Anfímaco filho de Ctéato ilustre e de Áctor neto ferindo-o no peito quando ele avançava.

Com grande estrondo caiu ressoando-lhe em torno a armadura.

Salta no mesmo momento o impecável Héctor para que o elmo bem adaptado à cabeça de Anfímaco ali lhe arrancasse.

Quando porém avançava a hasta lúcida Ájax Telamónio lhe desferiu sem que a pele atingisse que o bronze terrível a protegia por todos os lados.

Na copa do escudo a hasta com força bateu a recuar obrigando o guerreiro e a abandonar os dois corpos que os homens da Acaia levaram.

Cuidam de Anfímaco Estíquio divino e o viril Menesteu Atenienses que para os Aqueus os levaram zelosos.

O corpo de Ímbrio os Ájaxes carregam sequiosos de lutas.

Como dois leões que uma cabra arrancaram dos dentes agudos de feros cães e a transportam por dentro de espessa floresta  sempre do solo suspensa firmada nas fortes maxilas: os dois Ájaxes assim o cadáver carregam tirando-lhe as belas armas.

O filho de Oileu pela morte de Anfímaco ainda irritado do tenro pescoço a cabeça lhe corta.

Como uma bola depois a jogou pelo meio da turba até que na poeira a rolar junto aos pés do alto Héctor se deteve.

Imensamente enraivado Posídon nessa hora se mostra ao ver que o neto na pugna terrível a vida perdera.

Foi a correr pelas tendas e naus dos guerreiros acaios a estimular os Aqueus; para os Teucros o luto aprestava.

A Idomeneu de hasta invicta encontrou logo adiante de volta de acompanhar um dos sócios que havia tirado da pugna o qual em pleno jarrete ferido por lança se achava.

Após tê-lo aos fidos consócios entregue e instruções dado aos médicos à tenda corre que logo voltar para o prélio queria.

O abalador poderoso lhe fala nessa hora assumindo a voz e o gesto de Toante nascido de Andrémon ilustre que de Pleurona os Etólios trouxera bem como os guerreiros de Calidona e honras fruía entre o povo qual um dos eternos: “Idomeneu conselheiro de Creta onde estão as ameaças  que contra os Teucros soíam fazer os guerreiros da Acaia?” Idomeneu dos Cretenses o chefe lhe disse em resposta: “Toante até onde é possível julgar não presumo que caiba culpa a um dos nossos pois todos sabemos lutar com denodo.

O Medo vil não refreia a nenhum; ninguém só por desídia foge da guerra funesta; mas é da vontade de Zeus  provavelmente o senhor poderoso nascido de Cronos que longe de Argos sem nome nem glória os Aquivos pereçam.

Tu porém Toante que sempre o inimigo enfrentaste com brio e dás estímulo a quantos acaso remissos encontras como até agora prossegue indefesso a exortar os consócios.”

O abalador poderoso lhe disse em resposta o seguinte: “Idomeneu que de Tróia não possam jamais para a terra de nascimento voltar mas por pasto dos cães fiquem todos quantos nesta hora saírem da luta por próprio alvedrio.

Vai logo as armas buscar e retorna; em conjunto é forçoso que algo façamos de bom muito embora só dois nós sejamos.

Ainda que de homens imbeles reunida é vigor a fraqueza.

Ambos sabemos lutar contra imigos de força provada.”

Volta a ingressar nos trabalhos dos homens depois dessa fala.

Idomeneu quando alfim alcançou sua tenda bem feita as belas armas vestiu e dum par de bastas longas tomando torna a voltar parecendo um dos raios que o filho de Cronos Zeus poderoso nas mãos sói vibrar no alto e fúlgido Olimpo como sinal para os homens; ao longe o fulgor se irradia: do mesmo modo a correr a armadura no peito lhe resplende.

Perto da tenda encontrou o fiel escudeiro Meríones que para lá também ia com o fim de tomar uma lança.

Idomeneu quando o viu as seguintes palavras lhe disse: “Filho de Molo de rápidos pés caro amigo Meríones por que motivo aqui vens retirando-te assim da batalha? Achas-te acaso ferido pungindo-te ponta de dardo ou porventura recado me trazes? Ocioso não quero dentro da tenda ficar mas de novo voltar para a luta.”

Disse-lhe então em resposta o prudente escudeiro Meríones: “Idomeneu conselheiro dos fortes guerreiros de Creta venho por uma hasta brônzea se acaso nas tendas alguma sobressalente guardaste; a que tinha partiu-se-me há pouco quando a atirei contra o escudo do fero e arrogante Deífobo.”

Idomeneu dos Cretenses o chefe lhe disse em resposta:  “Lanças se tal desejares não uma somente mas vinte dentro da tenda acharás encostadas no muro esplendente.

Lanças troianas são todas tomadas dos nossos imigos pois nunca luto a não ser frente a frente com meu adversário.

Por isso tenho abundância de lanças de escudos copados elmos e belas couraças que vivo fulgor irradiam.”

Disse-lhe então em resposta o prudente escudeiro Meríones: “Tenho também belo espólio tomado dos Teucros na tenda e no navio anegrado; mas longe demais ambos ficam pois deslembrado não sou quero crer do valor que me é próprio sim nos combates que aos homens dão glória costumo postar-me sempre nas filas da frente ao travar-se a batalha terrível.

A muitos outros Aquivos de vestes de bronze isso pode ter escapado mas penso que sabes qual seja o meu brio.”

Idomeneu dos Cretenses o chefe lhe disse em resposta: “Sei muito bem quanto vales; por que pois falar de tal coisa? Se os mais valentes guerreiros ficássemos junto das naves numa emboscada onde mais se assinala a coragem dos homens e onde melhor se distingue um poltrão dum guerreiro valente a cor do rosto do vil de momento a momento se altera;  de ânimo inquieto no peito não pode tranquilo manter-se dobram-lhe os joelhos titubeia mudando de pé a toda hora; batem-lhe os dentes de medo saltando-lhe dentro do peito o coração com violência ante a ideia das Queres da Morte.

O corajoso ao contrário nem muda de cor nem se mostra desfalecido desde a hora em que o posto assumiu da emboscada só desejando o momento de entrar no combate funesto –certo ninguém te faria censura à coragem e ao braço.

Se porventura chegares a ser por um dardo atingido não há-de a nuca por trás alcançar-te sem dúvida alguma em pleno peito isso sim ou no ventre no instante em que à testa dos mais valentes guerreiros a ruína ao imigo levares.

Mas por que causa aqui estamos desta arte a falar como crianças e a perder tempo passíveis de alguma censura amargosa? Vai logo à tenda escolher uma lança de sombra comprida.”

Isso disse ele; como Ares veloz corre à tenda Meríones rapidamente onde escolhe uma lança voltando a ajuntar-se a Idomeneu desejoso somente de entrar em combate.

Tal como ingressa na guerra o deus Ares aos homens funesto acompanhado do filho o Terror audacioso e potente  que medo infunde até mesmo no herói de maior resistência e ambos armados da Trácia partindo aos Efiros se ajuntam ou aos magnânimos Flégias sem dar atenção aos instantes votos das classes em luta só à eleita ensejando a vitória: Idomeneu desse modo e Meríones bravos caudilhos em bronze fúlgido envoltos na luta terrível entraram.

Ao companheiro Meríones fala primeiro o seguinte: “Por onde caro Deucálida vais ingressar nos combates: pela direita do exército ao centro do imigo investindo ou pela esquerda? Receio que aqui mais que alhures a luta desvantajosa se mostre aos Aquivos de soltos cabelos.”

Idomeneu dos Cretenses o chefe lhe disse em resposta: Junto dos barcos do centro notáveis guerreiros se encontram os dois Ájaxes e Teucro o melhor dos archeiros aquivos e lutador esforçado nos duros embates de frente.

Penso que bastam para o ímpeto grande deter da investida do nobre filho de Príamo Héctor valoroso guerreiro.

Há-de lhe ser mui difícil embora de lutas sequioso  sobrepujar-lhes a fúria e vencer-lhes as mãos poderosas para lançar fogo às naves; a menos que o próprio Zeus Crónida  um facho aceso resolva arrojar nos navios velozes.

O grande Ájax Telamónio ninguém poderá dominá-lo desde que seja mortal e se nutra dos grãos de Deméter e possa ser vulnerado por bronze ou por pedra violenta.

Não cederia terreno em combate de perto nem mesmo ao próprio Aquileu; medir-se com este no curso é impossível.

No lado esquerdo fiquemos portanto tal como ora estamos para podermos dar glória a qualquer ou de alguém recebê-la.”

Disse; Meríones célere como o deus Ares apressa-se até penetrar nas fileiras por onde lhe fora indicado.

Idomeneu quando o viram os Teucros qual fogo violento com o escudeiro esforçado vestidos em armas fulgentes; uns pelos outros chamando contra eles num grupo avançaram.

Junto das popas das naus alastrou-se terrível refrega.

Tal como quando as estradas se encontram cobertas de poeira e tempestade se eleva tocada por ventos sonoros que remoinhando uma nuvem de pó fazem logo elevar-se: os contendores assim se travaram ardendo em desejos de exterminar o adversário e com bronze aguçado prostrá-lo.

Oferecia a batalha homicida aparência espantosa  pelas inúmeras lanças que as carnes cortavam.

De todos embaralhava-se a vista com o brilho dos elmos de bronze as armaduras polidas de fresco os escudos luzentes quando em tropel avançavam.

Somente audaciosos guerreiros a esse espectáculo em vez de tristeza prazer mostrariam.

Mas com desígnios opostos os dois descendentes de Cronos para os guerreiros mortais maquinavam trabalhos e agruras.

Zeus para os Teucros e Héctor desejava de facto a vitória para exaltar o Pelida veloz sem querer no entretanto a destruição diante de Ílion de todos os homens da Acaia.

Tétis e o filho magnânimo apenas honrar desejava.

Por outro lado agregou-se aos Aqueus exortando-os Posídon após ter saído do mar às ocultas.

Doía-lhe vê-los pelos Troianos vencidos.

Assaz contra Zeus se irritava.

Eram de origem idêntica certo; um só pai ambos tinham; mas Zeus nascera primeiro e por isso sabia mais coisas.

Eis porque às claras auxílio aos Acaios levar não queria; em forma humana porém percorria as fileiras oculto.

Alternamente na pugna terrível e horrenda batalha tiram os dois pelas pontas extremas da corda inquebrável  e resistente que a muitos os joelhos solver haveria.

Aí apesar de grisalho a chamar pelos Dánaos avança Idomeneu contra os Teucros lançando o terror neles todos.

Prostra de início Otrioneu de Cabeso que viera de pouco  para Ílion sacra ao chegar-lhe a notícia da guerra famosa e ao velho Príamo a filha mais bela pedira Cassandra mas sem pagar dote algum prometendo fazer alto feito: violentamente expulsar os Aquivos dos plainos de Tróia.

O velho ilustre acedeu ao pedido; querendo à promessa dar cumprimento estava ele a lutar pela causa de Tróia.

Quando porém avançava Otrioneu com a lança potente Idomeneu o atingiu sem que amparo lhe fosse nessa hora a aénea armadura; ferido no meio do ventre pela arma com grande estrondo caiu; exultando exclamou o adversário: “És Otrioneu entre os homens sem dúvida o mais venturoso se conseguires manter a palavra que deste ao Dardânida Príamo quando este fez a promessa de a filha entregar-te.

Sim nós também não ficamos atrás e a palavra empenhamos de como noiva entregar-te a mais bela das filhas do Atrida após conduzirmo-la de Argos se acaso quiseres ao nosso  lado te pôr e expugnar as muralhas altivas de Tróia.

Segue-nos logo que dentro das naus firmaremos o trato; intermediários sovinas de noivos por certo não somos.”

Por um dos pés segurando-o depois de falar arrastou-o Idomeneu pelo campo.

Corre Ásio a vingá-lo sozinho.

Tão perto dele porém os cavalos o auriga mantinha que lhes sentia nos ombros o bafo.

Atingir desejava a Idomeneu; mas frustrando-lhe o intento por baixo da barba a lança o herói lhe enterrou indo o bronze nas costas sair-lhe.

Tomba o guerreiro qual choupo ou carvalho ou pinheiro frondoso que o carpinteiro no monte a machado derruba com o intento dum belo mastro do tronco fazer de navio ligeiro: frente aos cavalos e o carro desta arte caiu estendido.

Urra apertando entre os dedos crispados a poeira sangrenta.

Completamente aterrado mostrou-se o escudeiro prudente sem que lhe a ideia ocorresse sequer de desviar os cavalos para escapar ao inimigo.

Nessa hora o incansável Antíloco no corpo a lança lhe atira sem que a aénea armadura pudesse o ímpeto da arma deter que no ventre encravada lhe fica.

Estertorando do carro bem feito caiu o guerreiro.

Os corredores Antíloco filho do grande Nestor tira do meio dos Teucros e destro os levou para os Dánaos.

De Idomeneu se aproxima Deífobo ainda irritado com a morre de Ásio; a hasta longa e brilhante de perto lhe atira Ele porém que o notara desviou-se da lança de bronze com se acolher sob o escudo redondo por todos os lados feito de peles de boi recobertas com bronze lustroso de alto lavor com dois fortes braçais colocados por dentro.

Livra-se assim agachando-se; a lança de bronze desviou-se após ter no escudo batido que então desferiu um som seco.

Mas não debalde da mão vigorosa escapara a hasta longa; no filho de Hípaso Hipsénor guerreiro de prol encravou-se sob o diafragma no fígado; logo o vigor lhe dissolve.

Em altas vozes Deífobo pôs-se a jactar-se desta arte: “Ásio de facto caiu; mas encontra-se agora vingado.

Quando para o Hades descer estou certo de sólidas portas há-de alegrar-se por ver que lhe dei companheiro de viagem.”

A essas palavras de pura jactância os Aqueus se irritaram; mais do que todos Antíloco sente abalar-se-lhe o peito.

Mas apesar da aflição não descuida do caro consócio;  corre a ampará-lo antepondo-lhe próvido o fúlgido escudo.

Dois companheiros dilectos o corpo dali carregaram o divo Alástor e o filho de Equio o viril Mecisteu que para as côncavas naves o levam gemente e ofegante.

Idomeneu entretanto o consueto vigor não perdera só desejando envolver a um dos Teucros nas trevas eternas ou cair morto ali mesmo e livrar os Aquivos da ruína.

O forte aluno de Zeus caro filho de Esietes Alcátoo logo prostrou –genro era ele de Anquises que a filha mais velha como consorte lhe dera Hipodâmia de todas as filhas a mais querida não só pelo pai pela mãe veneranda por exceder em talentos beleza e prudência às donzelas da mesma idade.

Por esse motivo a escolhera o guerreiro mais valoroso de quantos em Tróia altanada moravam.

Tendo Posídon assentado que viesse a cair pela lança de Idomeneu paralisa-lhe os membros e a vista lhe ofusca sem que pudesse virar-se ou fugir nem do golpe desviar-se; e enquanto imóvel se achava como alta coluna ou frondosa árvore atira-lhe a lança no meio do peito o incansável Idomeneu lacerando-lhe a bela armadura de bronze  que tantas vezes o havia livrado da morte mas que ora um ruído seco soltou ao redor da hasta aénea quebrada.

Com grande estrondo caiu pois a lança se achava fixada no coração que a bater ainda um pouco oscilar a fazia até que Ares forte por fim fez que a força impetuosa perdesse.

Idomeneu solta um grito exultante e em voz alta prorrompe: “Não te parece Deífobo bela resposta matarmos três por um só que perdemos e que ansa te deu de vanglória? Vem desgraçado prostrar-te defronte de mim para veres qual filho Zeus enviou para as plagas troianas pois ele primeiramente ao senhor dos Cretenses gerou Minos forte; a Deucalião o impecável deu Minos depois a existência; deste nasci para o mando exercer sobre inúmeros povos na vasta Creta; ora as naves velozes aqui me trouxeram para teu mal de teus pais e dos outros guerreiros troianos.”

Isso disse ele; Deífobo então no imo do peito vacila  entre voltar para as filas a um Teucro valente chamando para auxiliá-lo e enfrentar como estava a arriscada entrepresa.

Como tais coisas pensasse afinal pareceu-lhe mais certo ir por Eneias que viu junto às últimas filas do exército  pois de contínuo se achava irritado com o velho monarca que lhe negava o devido valor a ele sempre tão forte.

Ao lado dele postando-se disse as palavras aladas: “Vem conselheiro dos Teucros Eneias é tempo de o corpo do teu cunhado livrares se acaso te dói vê-lo morto.

Segue-me para que possas a Alcátoo vingar que de criança em sua casa te criou por haver tua irmã desposado.

Idomeneu o lanceiro famoso o privou da existência.”

Isso disse ele abalando sem dúvida o peito de Eneias que foi o imigo buscar desejoso de entrar em combate.

Idomeneu não se pôs a correr como as crianças o fazem; põe-se a esperá-lo qual fero javardo consciente da força que os assaltantes aguarda em lugar solitário ouriçando as duras cerdas quando estes em grande tropel se aproximam.

Brilham-lhe os olhos de modo especial; os colmilhos aguça de rechaçar desejoso a matilha e os monteiros que o investem: Idomeneu desse modo o lanceiro notável o embate do grande Eneias espera.

Contudo em redor esguardando chama em auxílio os consócios Deípiro Ascálafo e Antíloco mais Afareu e Meríones todos campeões nos combates.

A estimulá-los lhes disse as seguintes palavras aladas: “Vinde em socorro meus caros que me acho sozinho; receio imensamente a investida de Eneias de pés muito rápidos de robustez inconcussa para homens matar nos combates sobre possuir mocidade sem dúvida a máxima força.

Se com este brio que tenho pudesse igualá-lo na idade presto haveria ganhar um de nós uma grande vitória.”

A essas palavras os sócios levados de igual sentimento vieram para onde ele estava apoiando os escudos nos ombros.

Os companheiros Eneias também em redor esguardando chama em voz alta os caudilhos dos Teucros: Deífobo Páris e o divinal Agenor.

Aos guerreiros as tropas seguiram tal como segue o rebanho depois de bem farto a um carneiro e vai à fonte beber alegrando o pastor que o contempla: grande cortejo de heróis caminhou após Eneias que tinha o coração exultante ao se ver desse modo atendido.

Logo com lanças compridas à volta do corpo de Alcátoo rude batalha travaram; nos peitos o bronze ressoava terrivelmente à violência dos golpes que então recebiam.

Os dois mais fortes guerreiros iguais ao deus Ares em tudo  Idomeneu e o nascido de Anquises Eneias ansiavam reciprocar duros golpes os membros cortando com bronze.

Idomeneu foi visado em primeiro lugar por Eneias; tendo-o notado porém desviou-se da lança de bronze.

A hasta de Eneias então foi cravar-se na terra oscilando após ter partido debalde da mão poderosa do Teucro.

Idomeneu crava a lança no meio do ventre de Enómao: rompe-se o cavo da coira enterrando-se o bronze nas vísceras.

Tomba na poeira o Troiano apertando nas mãos o chão duro.

Idomeneu do cadáver a lança de sombra comprida puxa sem ter ocasião de tirar-lhe a armadura brilhante dos ombros largos que o imigo em verdade o acossava com tiros.

Visto que as juntas dos pés já não tinha flexíveis e em busca da própria lança saltar nem desviar-se dos golpes podia a Morte cruel evitava galhardo nas lutas de perto; mas quando urgia fugir bem pesados os pés se tornavam.

Enquanto a passo recuava Deífobo a lança brilhante lhe desferiu por estar ainda e sempre irritado com ele.

Mas novamente falhou indo a lança bater em Ascálato filho do Eniálio; entre os ombros a ponta nas costas saiu-lhe.

Tomba na poeira apertando o chão duro nos dedos crispados.

Ares terrível de voz penetrante não tinha sabido ainda que o filho dilecto a existência na pugna perdera pois se encontrava no pico do Olimpo envolvido por nuvem de ouro detido por Zeus; outros deuses também lá se achavam sem que a nenhum fosse lícito parte tomar nos combates.

Rude batalha travaram à volta do corpo de Ascálato a quem Deífobo pôde arrancar da cabeça o elmo claro.

Mas nesse instante Meríones rápido como o próprio Ares dum salto o braço lhe fere com a lança a soltar obrigando-o o elmo de quatro saliências que cai ribombando por terra.

Salta de novo Meríones qual velocíssimo abutre: a hasta impetuosa do braço arrancou-lhe da parte mais alta e para o meio dos seus retornou.

Da peleja terrível tira Polites o irmão cuidadoso passando-lhe o braço pela cintura e levando-o para onde os cavalos se achavam de veloz curso que atrás da batalha e da pugna horrorosa o condutor os detinha com o carro de bela feitura.

Para a cidade gemente os cavalos depressa o levaram muito abatido; do golpe recente escorria-lhe sangue.

Na luta os outros prosseguem; enorme alarido se eleva.

Contra Afareu descendente do forte Calétor que o investe lança-se Eneias ferindo-o de rijo no tenro pescoço.

Cai para o lado a cabeça; escapou-se-lhe o escudo e com ele o elmo cercando-o por todos os lados a Morte funesta.

Tóon volta-se e tenta fugir; mas Antíloco ao vê-lo já pelas costas dum salto o feriu cerceando-lhe a veia que todo o dorso percorre chegando até ao alto da nuca.

Corta-a de todo; ao recuar o guerreiro perdendo o equilíbrio tomba de costas na poeira a estender para os sócios os braços.

Num salto Antíloco arranca-lhe a bela armadura dos ombros sempre a esguardar em redor.

Os Troianos de todos os lados lhe desferiam disparos no escudo brilhante conquanto não conseguisse o cruel bronze atingir-lhe a epiderme macia que junto ao filho do Pílio Nestor se encontrava Posídon o abalador poderoso a ampará-lo dos golpes do imigo.

Dos adversários jamais se encontrava afastado o guerreiro.

Sempre para eles voltado a hasta longa em repouso não deixa; vibra-a sem pausa na mente a volver decisões rapidíssimas sobre a quem tira com flecha ou a quem possa atirar-se de perto.

“Por Adamante foi visto como ele entre a turba atirava o filho de Ásio que o fere de perto no meio do escudo com o bronze afiado.

Contudo Posídon de escuros cabelos quebra-lhe a força do golpe negando-lhe a vida do imigo.

Fica uma parte da lança pregada no escudo de Antíloco tal como lenha queimada; a outra parte no chão foi jogada.

Para os consócios recua Adamante escapando da morte; mas nesse instante entre a pube e o umbigo seguindo-o Meríones a hasta pontuda atirou-lhe a região por sem dúvida em que Ares com dores mais excruciantes atinge os mortais infelizes.

Aí a hasta longa lhe enterra; seguindo-a o guerreiro estorceu-se.

Do mesmo modo que o boi quando os peões nas montanhas o laçam e ainda que muito resista nas cordas de rasto é levado: por pouco tempo não muito o guerreiro desta arte estrebucha até que Meríones mais para perto chegando-se a lança lhe despregou das entranhas; de trevas os olhos se cobrem.

Um talho Heleno em Deípiro imprime na fonte com o grande trácio espadão desfazendo-lhe o casco de quatro saliências que para longe atirado caiu a rolar pelo solo por entre os pés dos guerreiros até que o pegasse um dos Dánaos.

Sobre Deípiro a noite baixou envolvendo-lhe os olhos.

Muito irritado ficou Menelau de voz forte na guerra e ameaçador contra Heleno partiu o notável guerreiro a brandir a hasta pontuda; o adversário o arco logo prepara.

Os contendores se enfrentam; ferir um deseja o adversário com a lança aguda; outro a flecha cravar no inimigo deseja.

O Teucro logo no Atrida atirou desferindo-lhe um dardo; a seta amarga desviou-se depois de bater na couraça.

Tal como na eira espaçosa os ervanços e as favas escuras saltam do largo torção pelo impulso tocados do forte ventilador e da força constante dos ventos sonoros: do mesmo modo da coira do herói Menelau glorioso foi para longe atirada desviando-se a seta amargosa.

O grande filho de Atreu por sua parte feriu o adversário  na destra que o arco lavrado sustinha dum lado para o outro atravessando-o e indo nele empregar-se a hasta longa de bronze.

Para os consócios o Teucro recua escapando da Morte.

Cai-lhe sem força a mão da qual a haste de freixo pendia.

Tira-lhe a flecha depois Agenor o magnânimo e passa-lhe uma atadura de lã bem tecida na mão enfaixando-a  da funda que para o grande caudilho o escudeiro levava.

Nisso atacou Menelau rei glorioso ao troiano Pisandro pelo Destino funesto levado à soleira da Morte para por ti Menelau ser privado da cara existência.

Quando um para o outro a avançar os dois chefes bem perto ficaram frustra-se o golpe do filho de Atreu por desviar-se-lhe a lança.

Joga Pisandro no escudo do herói Menelau a hasta longa sem que pudesse entretanto furá-lo dum lado para o outro pois no pavês resistente quebrou-se o pontal da hasta aénea.

Na alma alegrou-se o guerreiro esperando alcançar a vitória.

Mas Menelau desnudou logo a espada de cravos de prata e arremeteu contra o imigo que sob o pavês segurava uma secure de bronze especial bem fixada num cabo feito de pau de oliveira mui longo; a um só tempo disparam.

Sob o penacho somente Pisandro atingiu o adversário na crista do elmo.

Entretanto o marido de Helena lhe alcança no alto o nariz cujos ossos partindo-se estalam; na poeira caem-lhe os olhos sangrando bem perto dos pés.

A estorcer-se tomba o guerreiro.

Calcando-lhe o peito com o pé Menelau as belas armas lhe tira e a exultar com a vitória prorrompe:  “Sequer assim deixareis os navios velozes dos Dánaos Teucros soberbos a quem não saciam jamais os combates! De vós ó cadelas me vieram as mais revoltantes ofensas como a que contra o meu lar praticastes sem terdes receio de Zeus de voz poderosa que ampara o direito dos hóspedes e que há-de um dia decerto destruir-vos o burgo altanado.

Sobre me haverdes roubado riqueza infinita trouxestes minha legitima esposa apesar de vos ter hospedado.

E ainda por cima quereis destruir-nos as naves ligeiras com edaz fogo e privar os Argivos da cara existência! Mas algum dia haveremos frear-vos o ardor belicoso.

Dizem Zeus pai que superas os homens e os deuses com tua sabedoria; no entanto provêm de ti só tais vilezas por tal maneira a estes homens de mente soberba demonstras parcialidade os Troianos de espírito sempre perverso e que jamais se saciam da guerra que a todos iguala.

De tudo os homens se fartam do amor do repouso agradável do belo canto e das danças graciosas de ritmo sereno –coisas que mais do que os feros combates a gente deseja.

Tudo sacia.

Esses Teucros somente não se cansam de lutas!”   Tendo isso dito tirou do cadáver a cruenta armadura e aos companheiros o filho impecável de Atreu a transmite para de novo lutar entre os seus nas fileiras da frente.

Salta contra ele Harpálion que nascera do forte Pilémenes e em companhia do qual para Tróia sagrada viera sem que devesse jamais retornar para a pátria querida.

Fere de perto com a lança no meio do escudo do Atrida sendo entretanto impossível furá-lo com a ponta de bronze.

Para os consócios o Teucro recua escapando da Morte sempre a esguardar em redor pelo medo de ser vulnerado.

Mas perseguindo-o Meríones joga-lhe a seta de bronze pela direita na nádega; a seta a bexiga perpassa indo sair do outro lado na frente por baixo da pube.

No mesmo instante sentou-se e nos braços dos sócios derreado a alma expirou como verme ficando estendido na terra.

Corre-lhe o sangue de cor anegrada banhando o chão duro.

Os Paflagónios magnânimos põem-se à volta do corpo que sobre um carro colocam levando-o para Ílion sagrada cheios de dor.

A chorar segue o pai o cadáver do filho sem que nenhuma vingança lhe fosse no entanto possível.

Páris sentiu grande dor com o trespasso do amigo porque entre os Paflagónios há tempos tinha ele seu hóspede sido.

Muito indignado uma seta de bronze atirou contra o imigo.

Um tal Euquénor Coríntio se achava entre os fortes Aquivos nobre e de muitos haveres nascido do vate Políido que para a nave subira consciente do negro Destino pois muitas vezes o velho Políido lhe havia contado que vitimado por doença haveria de morrer no palácio ou junto às naus dos Aquivos ferido por um dos Troianos.

Dessa maneira evitou a um só tempo o labéu de covarde e a triste doença porque não queria sofrer dores na alma.

Sob a mandíbula Páris o fere; dos membros o espírito rapidamente lhe foge envolvendo-o funesta caligem.

Os contendores assim prosseguiam qual fogo ardoroso.

Ainda ao invencível Héctor caro a Zeus a notícia não fora de que os seus homens à esquerda das naus se encontravam premidos pelos Argivos que dentro de pouco alta glória obteriam de tal maneira Posídon que a terra sacode animava os combatentes aqueus sobre ser-lhes de auxílio eficiente.

Do que passava ignorante onde a porta e a muralha quebrara  ele se achava no ponto em que as hostes imigas rompera junto da praia do mar espumoso onde as naves recurvas Protesilau e os Ájaxes haviam deixado de início.

Nesse lugar fora o muro construído mais baixo travando-se muito impetuosa contenda entre os homens de pé e os de carro.

Os combatentes beócios e os Jónios de vestes talares  bem como os Lócrios e os Ftios e os fortes e ilustres Epeios dificilmente continham o embate de Héctor sem poderem das naus o fogo impetuoso afastar do divino guerreiro.

Dos Atenienses os mais distinguidos aí se encontravam sob o comando do herói Menesteu de Peteu descendente.

Bias o acompanha e também o alto Estíquio e Fidante.

Os Epeios por Drácio e Anfião são levados e o forte Filida Megete.

Os destemidos Medonte e Podarces aos Ftiotas comandam.

Este Medonte era filho bastardo de Oileu caro aos deuses dum dos Ájaxes irmão.

Em bem feita morada vivia na fértil Fílace longe da pátria por ter dado a morte a um indivíduo parente de Eriópide esposa de Oileu.

De Íflico o outro era filho o notável guerreiro Filácida.

À frente pois dos Ftiotas armados os dois se encontravam  junto dos homens da Beócia em defesa das naves escuras.

O ágil Ájax descendente de Oileu não queria afastar-se por um momento que fosse do lado de Ájax Telamónio.

Como do arado em terreno maninho dois bois de cor negra tiram com força com ânimo igual o que faz porejar-lhes em torno à base dos chifres erectos o suor abundante e vão assim a abrir sulco profundo até ao fim do terreno sem separar-se poderem um do outro por causa do jugo: os dois Ájaxes assim se encontravam contínuo bem juntos.

O grande Ájax Telamónio por muitos e fiéis companheiros era auxiliado aos quais ele entregava o pavês gigantesco sempre que o suor e o cansaço até aos joelhos flexíveis chegavam.

Mas não seguiam os Lócrios ao filho indefesso de Oileu por carecerem do ardor para luta de perto enfrentarem; elmos de bronze de equinos penachos não tinham de facto nem mesmo escudos redondos e lanças compridas de freixo; tão simplesmente com arcos e fundas de lã bem tecidas tinham ido eles aos campos de Tróia.

Com tiros certeiros desbaratavam amiúde aguerridas falanges de Teucros.

Enquanto pois nas fileiras da frente os demais arnesados  contra os Dardânios e Héctor de couraça de bronze lutavam eles ocultos atrás disparavam seus dardos.

Aos Troas não mais a luta lembrava aturdidos com tantos disparos.

E porventura os Troianos as naves e as tendas teriam abandonado e corrido para Ílion ventosa se acaso Polidamante viril para Héctor não houvesse falado: “É bem difícil Héctor ministrar-te conselho prudente.

Porque dum deus recebeste o vigor que te exalta na guerra pensas que até nas reuniões em prudência aos demais te avantajas.

Mas é impossível que todos os dotes reunir conseguisses.

A divindade faz que este em acções belicosas se extreme; danças a este outro concede e ainda a cítara e o canto a terceiros;  bons pensamentos Zeus grande no peito dum outro coloca do que os demais tiram grande proveito que a vida de muitos salva com sua prudência apreciando ele o mérito próprio.

Ora falar-te pretendo como acho que seja mais útil.

Vê como o incêndio da guerra se alastra por todas as partes.

Mas após haverem transposto a muralha os Troianos valentes uns já recuaram com as armas dispersos no meio das naves; outros forçados se vêem a lutar contra muitos imigos.

Acho que deves recuar e reunir os heróis mais valentes.

Aí deveremos então ponderar toda a sorte de alvitres se é aconselhável cair sobre as naves providas de remos caso a vitória um dos deuses nos dê ou se é mais conveniente sem grandes perdas deixar os navios.

Receio de facto que os combatentes aquivos nos paguem a dívida de ontem pois junto às naus ainda se acha um guerreiro insaciável de lutas que por sem dúvida não ficará muito tempo inactivo.”

Foi agradável a Héctor o discurso de Polidamante.

Rapidamente do carro pulou sem que as armas soltasse e para o sócio virando-se diz-lhe as palavras aladas: “Polidamante reúne aqui mesmo os mais fortes guerreiros que para aquele outro lado vou logo a lançar-me na luta; mas voltarei após haver transmitido instruções adequadas.”

Disse e partiu semelhando montanha coberta de neve.

Com grandes gritos as filas dos Teucros e aliados perpassa.

Obedientes às ordens de Héctor os caudilhos circundam Polidamante o magnânimo herói que de Panto nascera enquanto Héctor a vanguarda dos seus inspecciona à procura do robustíssimo Heleno possante senhor de Deífobo  de Ásio que de Hírtaco é filho e Adamante que de Ásio nascera.

Mas nenhum deles ileso encontrou ou da Morte liberto; uns junto às últimas naves dos homens acaios jaziam mortos às mãos dos Argivos; por lanças de perto ou por setas outros feridos se achavam e aos muros de Tróia acolhidos.

No lado esquerdo porém da batalha lutuosa ele encontra Páris o divo Aléxandros marido de Helena cacheada o qual os fiéis companheiros procura animar para a luta.

Chega-se Héctor para perto e de insultos pesados o cobre: “Páris funesto de belas feições sedutor de mulheres onde se encontra Deífobo e Heleno senhor poderoso? onde Ásio de Hírtaco o filho? Adamante gerado por Ásio? Que é de Otrioneu? Do fastígio a altanada cidade dos Teucros hoje desaba envolvendo-te alfim a precípite Morte.”

Páris de formas divinas lhe disse em resposta o seguinte: “Teu coração impetuoso te leva a culpar um inocente.

Ainda que em outros momentos me houvesse esquivado da luta não me gerou minha mãe de coragem viril destituído.

Desde que à frente dos sócios a guerra aos navios trouxeste temos aqui resistido sem pausa nenhuma aos Argivos.

Os companheiros a que te referes a vida perderam.

Desses apenas Deífobo e a força prestante de Heleno se recolheram; feridos nos braços por lanças compridas ambos estão; mas da morte os livrou o nascido de Cronos.

Ora comanda de acordo com teu coração valoroso que de bom grado te iremos no encalço.

Não creio que o brio venha a faltar-nos enquanto o vigor animar-nos os membros.

Ainda que o queira ninguém luta mais do que a força o permite.”

Essas palavras de Páris o peito do irmão abrandaram.

Ei-los que vão para o ponto onde a luta era mais atroadora; Polidamante aí se achava o guerreiro ardoroso e Cebríones Falces Orteu Politetes igual a um dos deuses eternos Pálmis e Móris e Ascânio os três filhos do heróico Hipótion que tinham vindo de Ascânia feraz para que outros voltassem precisamente na véspera.

Zeus ora à luta os levava.

Iam da mesma maneira que ventos num grande remoinho sob o trovão de Zeus Crónida quando no plaino se abatem e com barulho terrível às águas se mesclam fazendo que ondas inúmeras surjam no dorso do mar atroante em sucessão infindável recurvas com cristas de escuma:  os combatentes Troianos assim em fileiras cerradas resplandecentes de bronze aos preclaros caudilhos seguiam.

Segue Héctor filho de Príamo à frente dos seus semelhante a Ares funesto aos mortais o pavês sustentando na frente com muitos couros forjado e uma espessa camada de bronze.

O elmo luzente de belo penacho adornava-lhe as fontes.

Sob o alvo escudo abrigado movia-se Héctor procurando por várias partes fazer que as falanges imigas cedessem.

Mas não logrou abalar a coragem nos peitos argivos.

A passos largos Ájax o procura primeiro reptando-o: “Vem para perto demónio! Por que procurar meter medo nos combatentes Aquivos? Não somos na guerra inexpertos.

O que sofremos agora é castigo de Zeus tão-somente.

Sei que alimentas há muito a esperança dum dia destruíres nossos navios; contudo ainda temos defesa nos braços.

Mas antes disso hás-de ver a altanada cidade dos Teucros por nossas mãos conquistada e seus bens pelos Dánaos levados.

Enquanto a ti julgo próximo o instante em que devas fugindo preces a Zeus levantar e às demais sempiternas deidades para que vençam aos próprios gaviões teus vistosos cavalos  quando no plaino fizerem que poeira infindável se eleve.”

Nesse entrementes uma águia de altíssimo voo passou-lhe pela direita.

Os Aqueus levantaram um grito de júbilo encorajados.

Héctor lhe responde o alto filho de Príamo:  “Que proferiste profeta infeliz charlatão sem medida? Se eternamente pudesse viver como filho de Zeus fulminador e me houvesse também Hera augusta gerado com honrarias divinas iguais às de Atena e de Apolo como é certeza este dia trazer para todos os Dánaos a destruição! Tu também cairás morto se acaso enfrentares a minha lança comprida que a pele macia em retalhos te deixará.

Junto às naus dos Acaios então darás pasto com tuas pingues entranhas aos cães e aos abutres de Tróia.”

Isso dizendo adiantou-se; seguiram-no os chefes preclaros com altos gritos: a tropa os imita com grande alarido.

Grande alvoroto também entre os Dánaos se eleva sem que a eles o garbo próprio esquecesse aguardando dos Teucros o embate.

Chega até ao éter e a Zeus esplendente o clamor dos exércitos.


 

CANÇÃO XIV

Não escapou a Nestor o tumulto conquanto estivesse ainda a beber. Para o filho de Asclépio virando-se fala: “Que desenlace presumes vão ter estas coisas Macáon? Mais alto a grita dos jovens ao pé dos navios se eleva.

Fica sentado aqui dentro bebendo do vinho espumoso até que água quente Hecamede de tranças bonitas apreste para banhar-te e dos grumos de sangue limpar-te as feridas.

Eu sem demora dum ponto apropriado vou ver o que passa.”

Tendo isso dito Nestor lança mão do broquel bem lavrado que o picador Trasimedes seu filho deixara na tenda por ter levado a do ancião; era todo de bronze esplendente.

Pega na lança possante munida de ponta de bronze e para fora correu contemplando o espectáculo triste: dum lado em fuga os Aquivos; impando de orgulho os do outro a acossá-los depois de passada a defesa do muro.

Do mesmo modo que o mar se escurece e os impulsos refreia quando pressente o violento caminho dos ventos sonoros quieto sem que onda nenhuma permita que túmida se alce até que um dos ventos furiosos não seja mandado por Zeus:  o coração de Nestor indeciso igualmente se mostra entre agregar-se aos consócios os fortes guerreiros da Acaia e ir à procura do Atrida Agamémnon rei poderoso.

Como tais coisas pensasse afinal pareceu-lhe mais certo em pós do Atrida sair.

Entrementes prosseguem na luta os contendores fazendo que o bronze das armas ressoasse nos fortes peitos aos golpes de espadas e lanças compridas.

Descem das naus nesse instante saindo ao encontro do velho Pílio Nestor os monarcas preclaros que estavam feridos: o nobre Atrida Agamémnon o divo Odisseu e o Tidida que antes de todos haviam as naus para o seco puxado longe do campo de luta na beira do mar espumoso.

O muro fora construído por trás da que estava mais no alto que não podia a ribeira ainda que ampla em verdade ela fosse todas as naus comportar em tamanha apertura de gentes.

Em diferentes fileiras estavam dispostas ao longo de toda a praia extensíssima que entre os dois cabos se encontra.

Os três preclaros guerreiros a par apoiados nas lanças iam com o fim de observar a batalha sentindo apertar-se-lhes o coração no imo peito.

A chegada do velho Nelida  deixa mais grave no peito dos chefes aquivos a angústia.

Pondo-se o Atrida a falar a Nestor a palavra dirige:  “Máxima glória dos povos acaios Nestor de Gerena por que motivo deixaste a batalha homicida e aqui vieste? Temo que Héctor desta vez em verdade consiga dar corpo plenariamente às ameaças que fez na reunião dos Troianos de não voltar para Tróia sem ter antes disso os navios todos queimado e extinguido aos Argivos a cara existência.

Isso disse ele; e em verdade ora a tudo vai dar cumprimento.

Pobre de mim pois bem vejo que assim como Aquileu magoados se acham agora comigo os Acaios de grevas bem feitas pois já não querem lutar junto às popas das naves escuras.”

Disse-lhe então o Gerénio Nestor condutor de cavalos: “Quanto disseste em verdade já está consumado; nem Zeus fulminador poderia já agora fazer de outro modo.

Jaz arruinado o alto muro em que tanto confiávamos certos de que seria defesa eficaz para as naus e os guerreiros.

Ao lado agora dos nossos navios a luta prossegue.

Ainda que muito esguardasses saber te seria impossível para que banda os Aqueus destroçados em fuga se foram  tão baralhada é a peleja atingindo o alarido o céu alto.

Deliberemos entanto o que importa fazer em futuro –se de algo valem conselhos pois julgo imprudência voltarmos para o combate; os feridos são pouco eficientes na luta.”

Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso: “Visto Nestor já lutarem os nossos nas popas das naves sem que de auxílio nenhum lhes servisse o alto muro e o profundo fosso que os Dánaos construíram com tanta fadiga confiantes de que seriam defesa eficaz para as naus e os guerreiros é que sem dúvida a Zeus potentíssimo deve ser grato que longe de Argos sem glória e sem nome os Acaios pereçam.

Antes bem via que aos Dánaos benigno ele sempre auxiliava; mas como deuses eternos agora ele exalta os Troianos nossos imigos e os braços e as forças com peias nos tolhe.

Ora façamos conforme eu o disser; obedeçam-me todos.

Sem mais demora arrastemos as naus que se encontram mais perto da praia extensa e as lancemos às ondas divinas bem longe onde o mar for mais profundo firmando-as com as pedras das âncoras para aguardarmos a Noite imortal.

Caso os Teucros se abstenham de combater poderemos talvez pôr a nado elas todas.

Não é vergonha fugir ainda mesmo que seja de noite.

É preferível da ruína escapar a ser presa do imigo.”

Com torvo olhar lhe responde Odisseu o guerreiro solene: “Filho de Atreu que palavras soltaste do encerro dos dentes? Fora mais certo infeliz exerceres teu mando em covardes do que mandares em nós a quem Zeus destinou desde os anos mais florescentes até à extrema velhice até vir a extinguir-se a luz da vida enfrentar os trabalhos terríveis da guerra.

Pensas então seriamente em deixar a cidade espaçosa desses Troianos por causa da qual tantas dores sofremos? Cala-te! Não aconteça que os outros Aquivos escutem essas palavras.

Jamais ciciá-las sequer poderia quem de prudência dotado soubesse dizer o que pensa maxime sendo monarca cerrado como és de quem tantos povos as ordens escutam senhor dos guerreiros aquivos.

Só me provoca à censura essa tua proposta imprudente.

Ora que a dura peleja ainda se acha indecisa aconselhas a que arrastemos as naus para o mar! Isso mesmo os Troianos desejariam nesta hora em que força tamanha demonstram.

Mas para nós será a ruína que os homens aquivos é certo  desistirão do combate se as naus para as ondas puxarmos –sim procurando recuar mostrar-se-ão descuidados e imbeles.

É por demais pernicioso esse plano pastor de guerreiros.”

Disse-lhe o chefe de heróis Agamémnon o seguinte em resposta: “Tua censura Odisseu rigorosa calou-me no espírito.

Não tencionava contudo obrigar os guerreiros aquivos seu mau grado a puxarem as naus para as ondas divinas.

Se ora encontrássemos quem aventasse mais grato conselho ou moço ou velho guerreiro dar-lhe-ia a atenção merecida.”

Disse-lhe então em resposta Diomedes de voz poderosa: “Não percais tempo que esse homem bem perto se encontra se ouvido ora quiserdes prestar-lhe sem sombra de zanga ou despeito só pelo facto de eu ser o mais moço dos chefes presentes que me envaideço também de progénie preclara pois filho sou do valente Tideu que ora jaz sob o solo de Tebas.

Três filhos teve Porteu todos eles de fama excelente que em Calidona e Pleurona seus belos palácios construíram: Ágrio Melante o alto Eneu o viril domador de cavalos pai de meu pai que os valentes irmãos em valor excedia.

Esse na pátria ficou; após vagar algum tempo para Argos  veio meu pai por desígnio de Zeus e das outras deidades onde casou com uma filha de Adrasto e morada construiu rica de todos os bens.

Possuía além disso agros férteis com alamedas dispostas à volta de plantas frutíferas e numerosos rebanhos; na lança excedia os Argivos.

Certo já ouvistes falar de tudo isso que acabo de expor-vos.

Não deveis pois presumir que de estirpe somenos provenho para negardes por isso atenção ao meu plano acertado.

Eia! Volvamos à liça conquanto feridos; é urgente; mas conservemo-nos sempre a departe ao abrigo dos tiros porque não venha ninguém a sofrer mais alguma ferida.

Estimulemos contudo os demais exortando os que cedem às indolentes propostas abstendo-se assim dos combates.”

Isso disse ele; os presentes de pronto ao conselho obedecem  pondo-se em marcha; guiava-os o chefe de heróis Agamémnon.

Mas não vigiava debalde o deus grande que a terra sacode.

Por sua vez assumindo a figura dum velho no meio deles entrou toma a destra do filho de Atreu Agamémnon e principiando a falar lhe dirige as palavras aladas: “Há-de exultar Agamémnon certo no peito de Aquileu  o coração pernicioso ao ver ele a derrota dos Dánaos pois se revela privado de todo o resquício de senso.

Ah! Se ele viesse a morrer e um dos deuses lhe a vista apagasse! Enquanto a ti os eternos não se acham de todo zangados.

Dentro de pouco hão-de príncipes teucros e seus conselheiros de poeira o plaino cobrir; hás-de ver com teus olhos como eles as naus e as tendas nos deixam correndo em demanda dos muros.”

Após ter falado se pôs a correr levantando alto grito.

Com alarido que soem fazer nove ou dez mil guerreiros duma só vez quando se acham travados em dura batalha o abalador poderoso desta arte soltou do imo peito a voz pujante insuflando vigor nos guerreiros aquivos para que firmes lutassem e a luta até ao fim conduzissem.

Do alto dum pico do Olimpo Hera augusta do trono dourado o que passava no plaino admirava.

De pronto a Posídon reconheceu na peleja que aos homens dá glória.

Cunhado e ao mesmo tempo irmão lhe era.

A essa vista alegrou-se-lhe o peito.

A Zeus percebe porém logo após no Ida augusto sentado de muitas fontes turvando-se-lhe a alma com fundo desgosto.

A deusa de olhos bovinos se pôs a pensar na maneira  como lhe fosse possível a Zeus iludir poderoso.

No imo do espírito alfim parece-lhe o melhor artificio ir até ao Ida depois de ataviar-se por modo impecável para ver se ele mostrava desejos de ao lado deitar-se-lhe e ela pudesse depois derramar-lhe profundo e agradável sono nas pálpebras firmes e assim no sagaz pensamento.

Foi logo para o aposento que Hefestos seu filho construíra nos fortes quícios a porta de bela feitura adaptando com fechadura secreta a nenhum outro deus revelada.

Após ter entrado no tálamo a porta brilhante ela fecha.

Primeiramente com ambrosia lavou todo o corpo excitante para deixá-lo sem mancha passando na cute em seguida óleo divino de tanta fragrância dotado inefável que só com ser agitado no sólio de bronze de Zeus o céu e a terra deixava de pronto por ela impregnado.

Logo que os membros venustos de ungir acabou Hera augusta e de pentear os cabelos as tranças brilhantes ajeita belas de ver e divinas que o rosto imortal lhe emoldavam.

Cinge depois as magníficas vestes que Atena lhe havia com diligência tecido adornando-a com muitos recamos   e com fivela dourada prendeu-a na frente do peito.

O cinto passa em seguida enfeitado com cem belas franjas e nas orelhas de furos bem feitos coloca pingentes cada um com tríplice gema ofuscante de graça indizível.

De brilho igual ao do Sol era o véu de feitura recente com que a magnífica deusa cobriu o semblante divino.

Calça a seguir as formosas sandálias nos pés delicados.

Após ter o corpo ataviado com todos os belos adornos do quarto a deusa saiu e chamando Afrodite a departe dos outros deuses eternos lhe disse as seguintes palavras: “Filha querida achar-te-ás inclinada a fazer-me um obséquio ou me dirás que é impossível zangada porque favoreço os combatentes aquivos e tu dás auxílio aos Troianos?” Disse-lhe a filha de Zeus Afrodite o seguinte em resposta: “Hera a quem muito venero nascida de Zeus poderoso fala o que queres que o peito me manda acatar-te o desejo se for de facto exequível e em mim estiver realizá-lo.”

Com solapada intenção Hera augusta lhe disse em resposta: “Dá-me o desejo e o feitiço do amor com que sempre domaste todos os deuses eternos e os homens de curta existência.

Tenho o propósito de ir visitar nos confins da alma Terra o pai de todos os deuses eternos o Oceano e a mãe Tétis que em seu palácio com muito carinho me criaram tomando-me das mãos de Reia no tempo em que Zeus que mui longe discerne pôs Cronos debaixo da terra fecunda e do mar incansável.

Vou visitá-los com o fim de compor-lhes antiga discórdia.

Há muito que ambos o leito apartaram desta arte se abstendo dos gratos elos do amor por se acharem inflados de cólera.

Se conseguisse acalmar-lhes o peito com minhas palavras e os demovesse a reatar os liames do amor inefável muito mais digna de apreço e estimada por ambos seria.”

Disse-lhe então em resposta Afrodite dos risos amante: “Não poderei recusar o que pedes; seria injustiça porque repousas nos braços do filho de Cronos tortuoso.”

O cinto então recamado depois de falar ela tira onde reunidos soía trazer toda sorte de encantos: nele os desejos o amor nele havia os colóquios suasórios dos namorados que aos mais circunspectos o senso conturba.

Ao lho entregar Afrodite lhe disse as seguintes palavras: “Toma-o; no seio tu própria ora deves guardá-lo cuidosa  que toda sorte de encantos encerra; não creio que voltes sem que consigas levar a bom termo o que na alma excogitas.”

Hera a magnífica de olhos bovinos sorriu escutando-a; e sempre um riso a esboçar ocultou logo o cinto no seio.

Enquanto a filha de Zeus Afrodite reentrava na régia Hera dum salto baixou das cumeadas do Olimpo altanado.

Passa por cima de Piéria da fértil paragem de Emátia e pelos campos nevosos dos Trácios que criam cavalos sempre a pairar sobre os picos sem nunca roçar no chão duro.

Do Atos enfim para o mar espumoso baixando ela alcança Lemnos a bela cidade de Toante o divino guerreiro.

Quando esse ponto alcançou viu o Sono que irmão é da Morte; toma-lhe a mão logo a deusa e lhe diz as seguintes palavras: “Sono que todos os deuses dominas e todos os homens: como de feita anterior ora deves também dar ouvidos ao que te passo a dizer; ficar-te-ei sempre grata por isso.

Faz que os olhos brilhantes de Zeus adormeçam nas pálpebras logo que o vires nos brincos do amor ao meu lado deitado.

Em recompensa hei-de dar-te um belíssimo trono perene de ouro maciço trabalho de Hefestos meu filho robusto  de primorosa feitura provido também de escabelo para que os pés delicados descanses nos lautos banquetes.”

Disse-lhe o Sono agradável então o seguinte em resposta: “Hera a quem muito venero nascida de Zeus poderoso a qualquer outro dos deuses dotados de eterna existência adormecera de grado ainda mesmo que fosse a corrente do Rio Oceano que é a origem primeira de todos os seres.

A aproximar-me porém não me atrevo do filho de Cronos para fazer que adormeça a não ser que ele próprio o ordenasse.

Tua incumbência anterior me ensinou a ser mais comedido quando depois de destruir a cidade dos Teucros o filho muito animoso de Zeus se afastou das paragens troianas.

O entendimento de Zeus embotei difundindo-lhe à volta suave torpor.

Para que Héracles forte então viesse a perder-se hórridos ventos fizeste baixar sobre o mar agitado que à populosa cidade do Cós afinal o atiraram longe dos seus.

Despertando furioso se mostra Zeus grande; os outros deuses maltrata buscando-me em todos os cantos; e destruir-me-ia talvez atirando-me do éter às ondas não fosse a Noite salvar-me que os deuses e os homens impera.

A ela me acolho refreando Zeus Crónida a cólera imensa pelo receio de à rápida Noite causar desagrado.

E ora desejas de novo atirar-me ainda à empresa arriscada?” Hera a magnífica de olhos bovinos lhe disse em resposta: “Sono por que tais conceitos agora na mente avivares? Pensas então que Zeus se acha disposto a amparar os Troianos tal como quando enraivou por amor de seu filho o grande Héracles? Vamos! Em paga prometo entregar-te a mais moça das Graças para que esposa te seja e lhe dês esse nome afectuoso sim Pasiteia por quem tens mostrado paixão desde muito.”

O Sono alegre acolhendo as palavras da deusa lhe disse: “Feito! Mas jura-me então pelas águas do Estige funesto  uma das mãos encostando na terra que nutre os viventes e a outra no mar cintilante porque testemunha nos sejam as subterrâneas deidades que à volta de Cronos demoram de que a promessa me fazes de dar-me a mais moça das Graças sim Pasiteia por quem desde muito me sinto inflamado.”

Hera de cândidos braços de pronto obediente se mostra e o juramento prestou como o Sono o pedira invocando todos os deuses de nome Titãs habitantes do Tártaro.

Tendo ela pois completado as palavras da fórmula sacra deixam os dois Imbro e Lemnos envolvidos em nuvem espessa que os ocultava; com rápido curso o caminho perfazem.

O Ida alcançaram por fim rico em fontes de feras abrigo e junto a Lecto saíram do mar prosseguindo por terra.

Tremem-lhe debaixo dos pés agitadas as copas das árvores.

Nesse lugar pára o Sono não fosse Zeus grande avistá-lo onde subiu para altíssimo abeto que mais do que as outras árvores no Ida crescera expandindo-se no ar até ao éter.

Entre a ramagem espessa do abeto vultoso ocultando-se a forma toma dum gárrulo pássaro próprio dos montes.

Cálcis é o nome que os deuses lhe dão mas os homens Cimíndis.

Hera aproxima-se entretanto apressada da ponta do Gárgaro no Ida altanado.

Enxergou-a Zeus grande que as nuvens cumula e logo o espírito sente envolvido por cálido anelo como se deu quando os dois num só leito enlaçados fruíram às escondidas dos pais as primícias do amor inefáveis.

Logo avançando para ela lhe disse as seguintes palavras: “Hera que causa te trouxe do Olimpo até aqui? Que desejas? Não vejo o carro os cavalos não vejo que possam levar-te.”

Com solapada intenção Hera augusta lhe disse em resposta: “Tenho o propósito de ir visitar nos confins da alma Terra o pai de todos os deuses eternos o Oceano e a mãe Tétis que em seu palácio bem feito com muito carinho me criaram.

Vou visitá-los com o fim de compor-lhes antiga discórdia.

Há muito que ambos o leito apartaram desta arte se abstendo dos gratos elos do amor por se acharem inflados de cólera.

Os corredores deixei-os no pé do Ida augusto de fontes inumeráveis que me hão-de levar pelo mar e por terra.

Ora do Olimpo desci simplesmente com o fim de avisar-te para evitar que ficasses zangado se acaso me fosse sem nada dizer ao palácio do Oceano de curso profundo.”

Disse-lhe então em resposta Zeus grande que as nuvens cumula: “Hera bem podes adiar algum tanto a visita que dizes.

Ora subamos ao leito e os prazeres do amor desfrutemos.

Nunca uma deusa ou mulher fez nascer-me paixão tão violenta como a que o peito me invade nesta hora e o subjuga inundando-o.

Nem a consorte de Íxion de quem tive já há tanto Piríloo  entre os mortais qual um deus de intelecto divino exornado; nem mesmo Dánae de belos artelhos a filha de Acrísio  de quem Teseu foi gerado varão de excelente virtude; nem ainda a filha do muito afamado Fénix que Minos e Radamante gerou semelhantes aos deuses eternos; nem a princesa de Tebas Alcmena nem Sémele ainda –Héracles forte de peito leonino proveio daquela; desta Diónisos chamado na terra delícia dos homens– nem a querida Deméter rainha de tranças venustas nem Leto amada a gloriosa nem mesmo tu própria antes de hoje gratos anelos em mim despertou como os que ora me inflamam.”

Com solapada intenção Hera augusta lhe disse em resposta: “Filho de Cronos terrível por que deste modo me falas? Queres realmente deitar-te ao meu lado em conúbio amoroso no cimo do Ida lugar devassável de todos os pontos? E se entrementes alguma deidade de eterna existência nos visse juntos no leito e em seguida saísse a contá-lo aos outros deuses? Não mais poderia voltar ao palácio após levantar-me que mui censurável seria tal coisa.

Mas se o quiseres realmente e se gozo te der isso ao peito ao teu dispor tens o quarto que Hefestos teu filho dilecto com muito zelo construiu de mui sólidas portas provido.

Para esse quarto nos vamos se tanto o conúbio te agrada.”

Disse-lhe então em resposta Zeus grande que as nuvens cumula: “Fica tranquila; não tenhas receio de que homens nem deuses te possam ver pois farei que te envolva uma nuvem dourada densa bastante de forma que invisos fiquemos até ainda ao próprio Sol cujos raios brilhantes por tudo penetram.”

Após ter falado nos braços Zeus grande apertou a consorte.

Fez logo que erva florida da terra divina crescesse loto rociado e virente açafrão prazenteiro e jacinto que numa alfombra adensados o par solevou do chão duro.

Ambos aí se deitaram cobertos por nuvem dourada bela de ver donde gotas de orvalho luzente caíam.

O pai desta arte dormia tranquilo no cimo do Gárgaro sob a potência do amor e do sono nos braços da esposa.

O Sono suave depressa correu até às naves aquivas para recado levar ao deus forte que a terra sacode.

Pôs-se-lhe ao lado e lhe disse as seguintes palavras aladas: “Ao teu alvitre Posídon socorre os Aquivos e dá-lhes glória ainda mesmo que seja por pouco que Zeus poderoso se acha emergido em profundo letargo por mim produzido.

Hera o induziu a deitar-se-lhe ao lado em conúbio amoroso.”

Tendo isso dito às nações se dirige dos homens famosos após ter ao divo Posídon incitado a ajudar os Acaios que para as filas avança da frente a exclamar imperioso:  “Mais uma vez cederemos Argivos a Héctor a vitória para que as naus nos destrua e alta glória a alcançar assim venha? É o que ele ameaça jactando-se até que o fará desde que Aquileu se recolheu aos navios bojudos tomado de cólera.

Falta sensível porém esse Aqueu não fará se estivermos todos alerta e dispostos a apoio prestar-nos recíproco.

Ora façamos conforme eu o disser; obedeçam-me todos.

Os mais prestantes escudos de mor amplitude embracemos e nas cabeças ponhamos os elmos de brilho mais forte.

Isso acabado empunhemos as lanças de sombra comprida e contra o imigo marchemos.

Serei vosso guia; não creio que possa Héctor resistir-nos conquanto guerreiro esforçado.

Os que estiverem providos de escudos pequenos por outros façam barganha com quem nos combates mais fracos se mostre.”

Isso disse ele; os presentes de pronto ao conselho obedecem.

Os três monarcas conquanto feridos também se aprestaram:  o nobre Atrida o divino Odisseu e o Tidida valente que percorrendo as fileiras cuidavam da troca das armas aos mais valentes as boas aos fracos as menos prestantes.

Logo que os membros cingiram com o lúcido bronze a caminho todos se lançam; guiava-os Posídon de escuros cabelos uma terrível espada vibrando de folha comprida relampagueante.

No prélio imiscuir-se em verdade com ela era defeso; contudo terror infundia no imigo.

Os picadores troianos Héctor por seu lado alinhava.

Por esse modo a batalha terrível em ordem dispunham o incomparável Héctor e Posídon de escuros cabelos em pró dos Teucros aquele; este ao lado dos homens da Acaia.

Túmido o mar sobe às tendas e naus dos guerreiros argivos; os contendores se chocam no meio de grande alarido.

Tão fortemente não bramam as ondas nas praias sonoras quando no pélago Bóreas começa a soprar impetuoso; nem tanto estrépido as chamas levantam de incêndio vorace que nos convales dos montes destroem florestas virentes; nem tal barulho produzem nas copas dos altos carvalhos quando os agitam os ventos que mais fortemente ressoam  como o fragor horroroso que as vozes dos homens aquivos e dos troianos causavam quando eles o assalto iniciaram.

Logo de entrada o impecável Héctor joga a lança comprida no Telamónio que vinha contra ele sem que o alvo perdesse pois acertou bem no ponto em que os bálteos no peito cruzavam o do pavês e o da espada adornada com cravos de prata que de defesa serviram à pele macia.

Indignado se mostra Héctor quando viu que frustrânea a hasta longa jogara.

Para as fileiras dos seus retrocede escapando da morte.

O grande Ájax enquanto ele recuava atirou-lhe uma pedra  das numerosas que havia no campo e serviam de calço para os navios.

Soerguendo-a de junto dos pés acertou-lhe sob o pescoço no peito por cima da borda do escudo o que o obrigou a rodar como um pião sem poder dominar-se.

Tal como sob a violência do raio de Zeus vem abaixo roble gigante espalhando ao redor cheiro forte de enxofre –dificilmente a coragem manter conseguira quem perto dele nessa hora se achasse que o raio de Zeus é terrível– o robustíssimo Héctor desse modo rolou na poeira.

Foge-lhe a lança da mão; o elmo e o escudo por cima lhe caem  e alto ressoa-lhe à volta a armadura de bronze lavrado.

Com grandes gritos os homens da Acaia para ele acorreram certos de o corpo arrastar; crebros dardos em torno choviam-lhe sem que ninguém conseguisse contudo de perto ou de longe o cabo insigne ferir pois cercaram-no logo os caudilhos mais valorosos: Eneias o divo Agenor Glauco forte Polidamante caudilho dos Lícios e o claro Sarpédon.

Os demais Teucros também não remissos o cercam cobrindo-o com os manejáveis broquéis.

Os consócios o braço lhe passam pela cintura e o levaram para onde os cavalos se achavam de veloz curso que atrás da batalha e da pugna horrorosa o condutor conservava com o carro de bela feitura.

Para a cidade gemente os cavalos depressa o levaram.

Mas quando o vau alcançaram do rio de bela corrente o divo Xanto revolto que Zeus sempiterno gerara logo do carro o tiraram e o rosto com água lhe aspergem.

Recuperou presto Héctor os espíritos; olha à sua volta e sobre os joelhos alçando-se vómito negro expeliu.

Volta a cair ressupino no solo cobrindo-lhe os olhos noite pesada porque a alma ainda o golpe violento a oprimia.

Quando os Argivos notaram que Héctor da peleja saíra com novo ardor belicoso atiraram-se contra os Dardânios.

Antes de todos Ájax o veloz descendente de Oileu dum pulo a Sátnio feriu com a lança aguçada guerreiro por uma ninfa mui bela com Énopo forte gerado quando este os próprios rebanhos pascia nas margens do Sátnio.

A ele achegando-se o claro lanceiro de Oileu descendente a hasta no flanco lhe enterra; desaba o guerreiro; terrível luta entre Aquivos e Teucros à volta do corpo se ateia.

Polidamante o lanceiro famoso acorreu em defesa filho de Panto que no ombro direito atirou a hasta longa de Protoénor de Areílico nado onde fica oscilando.

Ei-lo que tomba na poeira apertando nas mãos o chão duro.

Polidamante a gritar jubiloso desta arte prorrompe: “Penso que o braço robusto do filho valente de Panto não desferiu sem proveito a hasta longa de sombra comprida.

Um dos Argivos no corpo a acolheu; vai servir-lhe de báculo creio na viagem que empreende para o Hades de portas sombrias.”

Cheios de dor os Argivos ficaram com essa jactância.

Mais do que todos Ájax Telamónio sentiu conturbar-se-lhe  a alma ardorosa que o fiel Protoénor caíra ao seu lado.

Sem perder tempo dum salto a hasta longa e brilhante arremessa.

Salta de viés o caudilho dos Lícios fugindo da Parca; mas foi no corpo do filho do grande Antenor o alto Arquéloco a hasta encravar-se que à Morte já os deuses o haviam fadado.

O bronze o atinge no ponto em que se une o pescoço à cabeça na última vértebra os dois ligamentos ali seccionando de forma tal que primeiro que as coxas do herói e os joelhos a testa a boca e o nariz ao tombar no chão duro tocaram.

Por sua vez grita Ájax Telamónio ao caudilho dos Lícios: “Polidamante sê franco uma vez pelo menos e diz-me se a morte deste varão não compensa a do herói Protoénor.

Vil não parece ele ser nem de pais despiciendos oriundo mas por sem dúvida irmão de Antenor domador de cavalos ou talvez filho que um ar de família nos traços revela.”

Disse de caso pensado; aos Troianos a dor invade a alma.

Mas logo após Acamante a hasta longa enterrou no Beócio Prómaco quando este o corpo do irmão arrastar procurava.

Com voz estrídula exclama Acamante a exultar deste modo: “Dánaos heróis fanfarrões que somente alardeais valentia:  não simplesmente aos Dardânios trabalhos e dores afligem; heis-de ser presa também algum dia da Parca funesta.

O vosso Prómaco vede-o a dormir no chão duro vencido por minha lança que a paga da morte do irmão dilectíssimo não padecesse demora.

Por isso o homem forte deseja que no palácio lhe fique um parente capaz de vingá-lo.”

Cheios de dor os Argivos ficaram com essa jactância.

Mais do que todos o herói Peneleu sente o peito abalar-se-lhe.

Lança-se contra o Troiano que o impulso do herói valoroso não sustentou.

Joga o rei a hasta longa no Teucro Ilioneu filho do rico Forbante a quem mais do que aos outros Dardânios Hermes prezava –razão por que haveres sem conta lhe dera.

Dele como único génito a esposa a Ilioneu concebera.

Da sobrancelha por baixo o feriu Peneleu bem no cavo do olho que a lança trespassa vazando a pupila e indo a ponta no alto da nuca sair.

Ilioneu cai sentado estendendo ambas as mãos; mas o imigo arrancando da espada cortante golpe violento assestou-lhe no meio do colo cerceando-lhe junto com o elmo a cabeça que rola por terra com a lança no olho ainda presa.

Levanta-a o guerreiro como a uma papoula  e para os Teucros virado jactando-se disse o seguinte: “De minha parte Troianos aos pais de Ilioneu valoroso  a triste nova levai para que eles em casa o pranteiem.

Nem há-de alegre ficar a consorte de Prómaco filho do alto Alegénor no instante em que os homens da Acaia subirmos para os navios recurvos e as plagas troianas deixarmos.”

Isso disse ele; o temor se difunde nos membros dos Teucros.

Todos procuram um meio de à morte escapar perniciosa.

Musas que o Olimpo habitais vinde agora sem falha contar-me quais dos Acaios espólios cruentos ao imigo tomaram após ter a sorte desviado o deus grande que a terra sacode.

O grande Ájax Telamónio primeiro feriu a Írtio excelso filho de Gírtio o caudilho dos Mísios de peito leonino; Mérmero e Falces Antíloco priva das armas brilhantes; ao viril Móris e a Hipótio sem vida Meríones prostra; Teucro a Prótoon e ao viril Perifetes ao solo derruba; o grande Atrida na ilharga feriu ao pastor de guerreiros o alto Hiperénor cortando-lhe o bronze terrível as vísceras: pela abertura do golpe apressado escapou-se-lhe o espírito escuridão sempiterna envolvendo-lhe os olhos brilhantes;  a muitos o ágil Ájax descendente de Oileu tira a vida pois em compita com ele ninguém na carreira o vencia quando no encalço do imigo a quem Zeus incutira o desânimo.


 

CANÇÃO XV

Quando na fuga as estacas e o fosso já haviam transposto após terem muitos a vida deixado nas mãos dos Acaios junto dos carros alfim a carreira os Troianos pararam cheios de medo e ofegantes.

Nessa hora acordou Zeus potente nos picos do Ida onde estava a dormir junto de Hera de trono de ouro; dum salto elevando-se os Dánaos distingue e os Troianos: estes em fuga e dispersos; aqueles no encalço a segui-los e entre os Aqueus a ajudá-los Posídon que a terra sacode.

No plaino a Héctor distinguiu ressupino; cercavam-no amigos; a respirar com trabalho estonteado expelia no vómito sangue anegrado.

Não fora ferido por Dánao somenos.

A esse espectáculo apiedou-se o que os homens e os deuses gerara.

E para a esposa virando-se encara-a torvado e lhe fala: “Hera fautora de enganos por tua perfídia somente fora do campo Héctor se acha e seus homens dispersos e em fuga.

Não sei contudo se tu não serás a colher a primeira o fruto dessa perfídia com seres por mim vergastada.

Ou não te lembras do tempo em que no alto ficaste suspensa com duas grandes bigornas nos pés amarradas e algemas  de ouro infrangíveis nos punhos? Pendeste das nuvens desta arte indignação provocando nos deuses do Olimpo sem que eles aproximar-se pudessem com o fim de ajudar-te que fora certo jogado do sólio divino o que às mãos me caísse até vir na terra bater sem sentidos conquanto isso alívio quase nenhum me causasse por causa da sorte inditosa de Héracles forte que ao mar insemeável maligna atiraste conjuntamente com Bóreas depois dum tufão levantardes que para Cós bem construída o jogou mui desviado da rota.

Dessas paragens salvar ainda o pude apesar dos trabalhos reconduzindo-o para Argos nutriz de afamados ginetes.

Faço-te disso lembrada porque dos embustes desistas antes que venhas do prémio a gozar que te o leito e as carícias proporcionaram dolosa às ocultas dos deuses do Olimpo.”

Hera a magnífica de olhos bovinos de medo estremece; e principiando a falar lhe dirige as palavras aladas: “Que tome a Terra ciência bem como o Céu vasto de cima e a água do Estige que se precipita –esta é a máxima jura e a mais terrível de todos os deuses bem-aventurados– tua cabeça sagrada e também nosso leito de núpcias  que num perjúrio jamais poderia invocar falsamente: não por meus rogos e instâncias Posídon que a terra sacode  dana aos Troianos e a Héctor e aos Argivos na pugna auxilia.

Provavelmente incitado se viu por seu ânimo próprio a socorrer os Acaios que perto das naus padeciam.

Mas estou pronta a instruções transmitir-lhe a seguir induzindo-o somente a via por onde Zeus grande quiseres levá-lo.”

A essas palavras o pai dos mortais e dos deuses sorriu; e para a deusa voltando-se disse-lhe então em resposta: “Hera magnífica de olhos bovinos se acaso ao meu lado com pensamentos iguais no concílio dos deuses sentasses em pouco tempo Posídon conquanto o contrário deseje de orientação mudaria adaptando-se aos nossos desígnios.

Mas se falaste sincera e teu peito enunciou a verdade Bem: nesse caso dirige-te à tribo dos deuses e manda-me Íris aqui juntamente com Apolo o frecheiro infalível.

A ela a incumbência darei de baixar às fileiras acaias para dizer a Posídon senhor poderoso que o campo deixe da guerra e se acolha de novo ao seu belo palácio.

A Apolo incumbe o impecável Héctor excitar para a pugna  força outra vez lhe insuflando e deixando-o esquecido das dores que tanto lhe a alma excruciam.

Deve ele também nos Aquivos medo incutir obrigando-os assim a volverem as costas em fuga inerme até a nave alcançarem provida de remos do grande Aquileu Peleio que então mandará para a luta Pátroclo o amigo dilecto que a lança de Héctor valoroso vai junto de Ílion prostrar após ter ele a inimigos inúmeros a morte dado entre os quais o meu filho o divino Sarpédon.

O divo Aquileu a Héctor matará ante o feito indignado.

Nesse momento farei que das naves repulsos os Teucros sem mais descanso se vejam até que os Aquivos escalem os muros lisos de Tróia por graça de Palas Atena.

Mas antes disso repito-o não hei-de sofrear minha cólera nem deixarei que nenhum imortal os Argivos socorra até que não venha a cumprir-se o desejo ardoroso de Aquileu como o afirmei que o faria e o asselei com o sinal da cabeça quando abraçando-me Tétis os joelhos pediu insistente que ao filho Aquileu honrasse o famoso eversor de cidades.”

Hera de cândidos braços de pronto ao conselho obedece e do Ida augusto atirando-se foi para o Olimpo vastíssimo.

Tão velozmente como homem que tendo viajado por longe em pensamento repassa aprazíveis paragens dizendo: ‘bem desejara estar neste ou naquele lugar’ saudoso Hera a magnífica assim apressada perfaz o caminho.

Ao alcançar o alto Olimpo na casa de Zeus em concílio aos imortais encontrou.

Todos eles ao verem-na prestes os tronos de ouro abandonam e néctar gentis lhe oferecem.

Ela porém rejeitando as dos outros a taça de Témis  de belas faces aceita porque esta primeiro acorrera e para a deusa voltada lhe diz as palavras aladas: “Hera que causa te trouxe? Pareces-me um tanto agastada.

De teu marido nascido de Cronos te veio algum susto?” Hera de cândidos braços lhe disse o seguinte em resposta: “Témis nenhuma pergunta me faças; tu própria conheces qual o seu génio como ele arrogante e inclemente se mostra.

Faz que os deuses na sala prossigam no grato banquete pois vais ouvir juntamente com as outras deidades eternas as coisas graves que Zeus nos ameaça.

Presumo que a nova o coração de ninguém deixará prazenteiro seja homem seja imortal ainda mesmo que alegre em banquetes se encontre.”

Hera de cândidos braços depois de falar foi sentar-se.

Na grande régia de Zeus alteraram-se os deuses.

Sorria mas só com os lábios a deusa que à testa franzida encimava as sobrancelhas escuras.

Por fim explodiu irritada: “É grande inépcia supor ser possível a Zeus nos opormos e aproximando-nos dele com o fim de torcer-lhe a vontade ou por violência ou com rogos que à parte se fica sem dar-nos a mais pequena atenção nem de nós ocupar-se jactando-se de que em poder e vigor ultrapassa as demais divindades.

Mostre-se pois conformado quem vier a sofrer algum dano.

A Ares ao menos suponho já coube por sorte um desgosto pois no combate perdeu a existência seu filho dilecto o grande Ascálafo a quem tanto e tanto nomear exultava.”

Ares de pronto nas coxas bateu com as mãos espalmadas violentamente e de dor trespassado desta arte prorrompe: “Deuses que o Olimpo habitais não fiqueis indignados comigo se para a morte vingar de meu filho baixar aos navios mesmo que seja fatal pelo raio de Zeus ser prostrado e rolar morto na poeira e no sangue por entre cadáveres.”

Tendo isso dito ordenou logo à Fuga e ao Terror que aprestassem  os corredores enquanto tomava das rédeas brilhantes.

De consequências mais graves talvez para os deuses eternos a indignação de Zeus grande explodira sua cólera imensa se pela sorte de todos os deuses solícita Atena não se apressasse a correr para a porta deixando o áureo trono.

O elmo arrancou-lhe sem mais da cabeça dos ombros o escudo; das mãos a lança de bronze tomou colocando-a departe e para o deus iracundo voltada desta arte o repreende: “Louco de todo procuras a ruína! De nada te serve teres ouvidos e ouvir pois perdeste a prudência e o juízo.

Não escutaste o que a deusa de cândidos braços nos disse Hera que veio do lado do Olímpico Zeus neste instante? Tua medida de dores desejas então que transborde? Medo não tens de voltar para o Olimpo em tristezas imerso  males sem conta aprestando também para as outras deidades? Zeus na mesma hora deixara os Troianos soberbos e os Dánaos para vir contra nós todos causando alvoroço no Olimpo não se lhe dando de pena infligir a culpado ou inocente.

Tem-te suplico; modera o desgosto da morte do filho.

Outros melhores do que ele e de braço mais forte já caíram  e hão-de outros muitos cair nos combates.

Difícil empresa é preservar do declínio a linhagem e a prole dos homens.”

A Ares violento depois de falar conduziu para o trono.

Nesse entrementes chamou para fora da sala Hera a Apolo e à veloz Íris os dois mensageiros dos deuses eternos e a ambos então dirigindo-se disse as palavras aladas: “Ao Ida augusto Zeus grande vos chama o mais presto possível.

Logo que lá vos achardes e houverdes a Zeus contemplado obedecei sem detença a quanto ele disser e ordenar-vos.”

Hera de cândidos braços retorna depois dessa fala indo sentar-se no trono.

Os dois deuses depressa alcançaram os mananciais do Ida augusto que feras sem conta alimentam onde encontraram sentado no pico mais alto do Gárgaro Zeus retumbante coroado por nuvem de odor inefável.

Quando se viram na frente de Zeus que bulcões acumula ambos pararam.

Ao vê-los o deus serenado sentiu-se por ter notado que os dois ao recado da esposa acorreram.

A Íris primeiro dirige as seguintes palavras aladas: “Íris veloz vai depressa dizer a Posídon potente quanto te vou relatar; não me sejas falaz mensageira:  que da batalha se afaste depressa e procure a assembleia celestial ou recolha aos seus paços nas ondas divinas.

Se desprezar meu mandado negando-se a dar-me obediência no imo do espírito então considere e reflicta bastante se poderá contrastar-me por mais vigoroso que seja pois o supero de muito em vigor sobre ser mais idoso ainda que tenha o desplante de na alma dizer que em potência a mim se iguala a quem temem as outras deidades do Olimpo.”

Íris de pés mais velozes que o vento ao recado obedece e do monte Ida depressa baixou para Tróia sagrada.

Do mesmo modo que neve ou gelado granizo das nuvens cai sob o impulso do sopro de Bóreas que do éter proveio: Íris de rápidos pés desse modo o caminho percorre.

Chega-se ao deus que sacode os pilares da terra e lhe fala: “Abalador de cabelos escuros aqui me acho agora com um recado de Zeus poderoso que a égide vibra.

Manda que saias da pugna e procures a grata assembleia dos outros deuses ou o paço em que moras nas ondas divinas.

Se desprezares porém a mensagem em vez de a acatares faz-te saber que há-de vir em pessoa medir-se contigo.

Acha contudo que deves o braço potente evitar-lhe pois te supera de muito em vigor sobre ser mais idoso; teu coração generoso por certo não há-de levar-te a te igualar à deidade a quem temem as outras do Olimpo.”

O abalador poderoso indignado lhe disse em resposta: “Céus que arrogância! Conquanto potente ele seja é excessivo querer assim violentar-me pois temos igual dignidade que três irmãos somos nós filhos todos de Reia e de Cronos: Zeus depois eu e Hades forte o terceiro que os mortos comanda.

Foi dividido em três partes o mundo; cada um teve a sua.

Postas em sorte me coube morar para sempre no reino do mar espúmeo; a Hades foram as trevas sombrias entregues; o vasto Céu pelas nuvens cercado e pelo éter a Zeus.

A terra imensa e o alto Olimpo em comum para todos ficaram.

Não me sujeito por isso a fazer-lhe as vontades; contente-se com o que lhe coube por sorte por mais poderoso que seja.

Seu forte braço temor não me incute que medo não tenho.

Fora melhor que as ameaças e termos violentos deixasse para seus filhos e filhas; gerados por ele se vêem na obrigação de lhe as ordens cumprir muito embora o não queiram.”

Íris de pés mais velozes que o vento lhe disse em resposta: “Abalador poderoso desejas que a Zeus em verdade dê de tua parte um recado tão duro e insolente como esse? Não será bom reflectires? Os homens sensatos são dóceis.

Sabes que sempre as Erínias lutuosas estão com os mais velhos.”

Disse-lhe o grande Posídon que a terra sacode em resposta: “Íris divina realmente sensato foi quanto disseste.

É sempre bom quando o núncio compreende o que é mais conveniente.

A alma porém sinto e o peito por dor indizível opressos ao ver que Zeus se propõe a humilhar com palavras violentas quem recebeu do Destino igual sorte e direitos aos dele.

Por esta vez cederei muito embora irritado me sinto.

Mas uma coisa te digo afirmando que a ameaça é sincera: se ele pretende a despeito de mim e de Palas Atena bem como de Hera e de Hefestos potente e assim de Hermes veloz os muros íngremes de Ílion poupar não deixando portanto que sejam eles destruídos e os Dánaos com isso exaltados fique sabendo que cólera imensa há-de encher-nos o peito.”

O abalador deixa as hostes acaias depois dessa fala no mar extenso afundando com grande pesar dos Argivos.

Vira-se então para Apolo Zeus grande que as nuvens reúne: “Vai caro Febo à procura de Héctor revestido de bronze que o abalador poderoso já foi para as ondas sagradas onde acabou de imergir evitando antepor-se-me à cólera.

Caso contrário a notícia de nosso recontro chegara até mesmo aos deuses de baixo que vivem em torno de Cronos.

Muito melhor foi para ambos de facto que assim procedesse ainda que muito irritado se encontra evitando-me o braço irresistível que sem muito suor não findara esse choque.

A égide cheia de franjas porém toma logo e a sacode sobre os Aquivos de modo que infunda terror neles todos.

Deixo ao teu cargo frecheiro cuidares de Héctor valoroso.

Grande vigor lhe desperta até vires que os chefes aquivos às naus velozes e ao vasto Helesponto na fuga se acolhem.

Hei-de empregar as medidas que importam depois para que eles possam libertos da grande opressão respirar mais folgados.”

Febo mostrou-se obediente ao mandado de Zeus poderoso.

Do Ida depressa baixou semelhante ao gavião que persegue as fracas pombas e a que nenhuma ave no voo ultrapassa indo encontrar o divino rebento de Príamo Héctor  já reanimado de pouco não mais sobre o solo; sentado já conhecia os amigos que à volta lhe estavam liberto do suor profuso e das ânsias que Zeus novamente o espertara.

Febo que ao longe asseteia achegou-se-lhe e disse o seguinte: “Filho de Príamo Héctor por que causa afastado dos outros esmorecido te encontras? Oprime-te algum sofrimento?” Sem forças quase responde-lhe Héctor de penacho ondulante: “Deus de bondade quem és que a mim vens e me fazes perguntas? Pois já não sabes que Ájax valoroso quando eu lhe matava os companheiros ao lado das naves dos Dánaos enorme pedra atirou-me no peito de todo o vigor me privando? Sim cheguei mesmo a pensar que hoje iria parar entre os mortos no reino de Hades escuro que estive a exalar quase o espírito.”

Disse-lhe Febo em resposta o deus claro que ao longe asseteia: “Cobra coragem que um bom protector do Ida augusto te envia o grande filho de Cronos com o fim de assistir-te e ajudar-te: Febo de espada brilhante que sempre se pôs ao teu lado para guardar-te e a cidade de Tróia de lisas muralhas.

Os numerosos amigos concita depressa animando-os a dirigirem os brutos no rumo das naves escuras.

Eu próprio hei-de ir sempre à frente dos belos corcéis para a estrada livre deixar e induzir os heróicos Aquivos à fuga.”

Incontrastável poder no pastor de guerreiros insufla.

Como galopa um cavalo habituado no estábulo quando pode do laço escapar e fogoso a planície atravessa para ir banhar-se impaciente nas límpidas águas do rio: cheio de orgulho soleva a cabeça: por sobre as espáduas bate-lhe a crina agitada; consciente da própria beleza levam-no os pés para o prado onde os outros cavalos se reúnem: os pés e os joelhos Héctor desse modo movia dando ordens aos seus amigos depois de ele a voz ter ouvido de Febo.

Como se dá quando cães barulhentos e fortes pastores  cabra montesa perseguem ou veado galheiro que pode deles por fim escapar acolhendo-se ao pico de rocha íngreme ou a bosque sombrio por ser do Destino salvar-se pois os latidos atraem a leão guedelhudo que a todos rapidamente dispersa apesar de animosos se acharem: dessa maneira até então os Argivos em massa apertaram os inimigos a golpes de espadas e lanças pontudas; mas quando viram de súbito a Héctor avançar entre os Teucros  o ânimo aos pés lhes caiu com o pavor que então todos sentiram.

Toante nascido de Andrémon vira-se para os Aquivos.

Era ele o Etólio mais forte o mais hábil no jogo de lança e nos combates de perto; bem poucos Aqueus na assembleia o conseguiam vencer quando os moços porfiavam discursos.

Cheio de bons pensamentos pôs-se ele a falar-lhes desta arte: “Deuses que enorme prodígio ante os olhos agora me surge! Pôde livrar-se das Parcas Héctor e ei-lo agora que avança completamente refeito! Em verdade esperávamos todos que o braço forte de Ájax Telamónio o tivesse prostrado.

Mais uma vez um dos deuses salvou a esse filho de Príamo o grande Héctor que solveu já os joelhos de muitos Aquivos e ainda há-de a muitos matar pois não creio que sem a vontade de Zeus atroante ele avance animoso na frente dos Teucros.

Ora façamos conforme eu o disser; obedeçam-me todos.

Que para as naves recurvas o grosso das tropas retorne.

Mas todos nós que no exército somos decerto os melhores alto façamos aqui para o embate esperar conservando no reste as lanças.

Não creio que embora animoso se atreva a penetrar no mais denso das turmas dos nossos guerreiros.”

A todos eles foi grato o conselho a que pronto obedecem.

De Idomeneu poderoso puseram-se ao lado de Teucro de Ájax Megete de forma ao deus Ares semelho Meríones os quais chamando aos mais fortes em ordem os põem de batalha contra os Troianos e Héctor.

Como fora ordenado retira-se a multidão para as naves escuras dos fortes Aquivos.

Seguem os Teucros em turmas compactas a Héctor que avançava a grandes passos.

Apolo o antecede escondidos os ombros em nuvem densa a brandir circundada por franjas a horrível égide; Hefestos o habilíssimo fabro a Zeus grande a entregara para que medo incutisse nos homens de curta existência.

Numa das mãos segurando-a os guerreiros Apolo guiava.

Em formações também densas o ataque os Aquivos esperam.

Gritos elevam-se de ambas as partes; os arcos despedem setas velozes e braços robustos inúmeras lanças umas das quais se encravaram nos corpos dos ágeis guerreiros mas muitas outras bem antes de a cândida cute atingirem frustras no chão se fincaram conquanto de sangue sequiosas.

Enquanto Apolo nas mãos sustentava o terrível escudo dardos se cruzam recíprocos gente incontável perece;  logo porém que o mostrava aos Aqueus de cavalos velozes dando um fortíssimo grito a coragem no peito dos Dánaos amolecia esquecidos deixando-os da força extremada.

Tal como quando de súbito surgem no meio da noite quando está ausente o pastor duas feras que em fuga dispersam grande manada de bois ou rebanho de gordas ovelhas: desanimados desta arte os Acaios fugiam que Apolo lhes incutia terror concedendo vitória aos Troianos.

Quando espalhada a batalha combates pessoais se travaram.

A Arcesilau priva Héctor da existência e ao intrépido Estíquio; chefe era aquele dos fortes Beócios de vestes de bronze; de Menesteu de alma grande era fiel companheiro o segundo.

Iaso e Medonte perderam a vida nas mãos do alto Eneias.

Esse Medonte era filho bastardo de Oileu caro aos deuses: dum dos Ájaxes irmão.

Em bem feita morada vivia na fértil Fílace longe da pátria por ter dado a morte a um indivíduo parente de Eriópide esposa de Oileu.

Iaso dizia-se filho de Esfelo Bucólida e viera para a campanha no posto de chefe dos homens de Atenas.

Logo nas filas da frente Polites a Equio derruba;  Polidamante ao viril Mecisteu; Agenor mata a Clónio.

Páris por trás atingiu a Deíoco no ombro quando ele se retirava indo a ponta do bronze na frente sair-lhe.

Enquanto aos mortos as armas sacavam dispersos os outros Dánaos fugiam.

No fosso profundo por entre as estacas se comprimiam forçados a abrigo buscar no alto muro.

Em altos brados Héctor se dirige aos guerreiros troianos: “Para os navios! Deixai por enquanto os espólios cruentos.

Quem quer que alhures encontre afastado das naves escuras a morte logo hei-de dar-lhe.

Os amigos e amigas não hão-de os funerais aprestar-lhe entregando o cadáver às chamas –sim ficará para pasto de cães ante os muros de Tróia.”

Disse e por cima dos ombros açoita os velozes ginetes de fila em fila a chamar os Troianos que afluíam guiando os corredores velozes dos carros de guerra com gritos atroadores.

À frente de todos Apolo sem custo com os pés desfaz o barranco elevado do fosso que fica cheio de terra formando uma ponte espaçosa e comprida como a distância que vai dum guerreiro que a lança jogasse para provar seu vigor e o lugar onde o bronze caísse.

Em formações adensadas avançam; Apolo na frente a égide sempre a vibrar derrubava o alto muro dos Dánaos.

Como criança que estando a brincar pela praia arenosa e em pueril inocência construído tivesse um castelo  para depois derrubá-lo com as mãos ou com os pés por brinquedo: tão facilmente frecheiro infalível o muro destruíste dos esforçados Aquivos e em fuga inditosa os lançaste.

Perto das naves alfim a carreira detêm os Argivos a se exortarem reciprocamente.

Elevando para o alto as mãos em súplica votos ferventes aos deuses faziam.

Mais fervoroso que todos implora Nestor de Gerena; para o alto céu estrelado as mãos tende e desta arte prorrompe: “Zeus pai se algum dos Aquivos em Argos de trigo abundante coxas de ovelhas e bois em tuas aras queimou suplicando salvo poder retornar e seus votos benigno acolheste lembra-te Olímpio a promessa e nos livra do dia funesto –não sofras serem os Dánaos vencidos às mãos dos Troianos.”

Isso disse ele; um trovão a essa súplica Zeus previdente fez ressoar após ouvir o pedido do velho Nelida.

Quando os Troianos ouviram o estrondo de Zeus poderoso  contra os Acaios mais firmes insistem lembrados da luta.

Do mesmo modo que uma onda gigante no mar extensíssimo salta por cima da borda da nave ao se ver pela fúria do vento forte impelida que sói levantar alto as ondas: galgam o muro desta arte os Troianos; com grande algazarra estimulando os corcéis junto às popas das naves pelejam com suas lanças de dúplice ponta de cima dos carros enquanto do alto das naus os Aqueus se defendem com fustes longos munidos de ponta de bronze dos muitos que acharam pelos navios escuros e às lutas do mar adequados.

Pátroclo enquanto os Troianos e os Dánaos furentes lutavam em torno ao muro distante das naves de casco anegrado permanecia na tenda de Eurípilo herói prestantíssimo a distraí-lo em colóquio amistoso depondo na chaga um lenitivo apropriado a livrá-lo das dores acerbas.

Quando porém percebeu que os Troianos o muro tomavam e que os Acaios fugiam no meio de grande alarido solta um suspiro e com as mãos espalmadas nas coxas batendo violentamente de dor trespassado desta arte prorrompe: “Não é possível Eurípilo aqui demorar-me conquanto  muito precises de mim; irrompeu decisiva batalha.

Cuide de ti o escudeiro que corro até à tenda de Aquileu para tentar persuadi-lo a voltar para a luta cruenta.

Quem nos dirá que um dos deuses não venha ajudar-me a movê-lo? A exortação dum amigo é de grande poder suasório.”

Disse e levaram-no os rápidos pés.

Os Aquivos aguardam firmes o embate dos Teucros conquanto impossível lhes seja ainda que mais numerosos das côncavas naus repeli-los.

Por sua vez os Troianos as densas falanges dos Dánaos não conseguiam romper para as tendas e as naus alcançarem.

Tal como fica bem teso o cordel pela mão aplicado de carpinteiro sagaz que conhece os preceitos de Atena quando nivela uma prancha para uso de negro navio: tensa desta arte se achava a batalha entre Dánaos e Teucros.

À volta todos das naus uns com os outros em luta se travam.

Ao Telamónio terrível Héctor se antepôs decidido.

Ambos lutavam do barco em redor; nem Héctor conseguia o Telamónio expulsar e lançar fogo edaz ao navio nem rechaçar este àquele depois que o trouxera um demónio.

O ínclito Ájax joga a lança em Calétor nascido de Clítio  quando ele fogo trazia com o fim de incendiar o navio.

Com grande estrondo caiu e das mãos escapar deixa o facho.

Logo que Héctor percebeu ante os olhos na poeira estendido junto da nave anegrada o cadáver do primo dilecto para os Troianos e os Lícios com voz atroante virou-se: “Lícios Dardânios e Teucros viris combatentes de perto não desistais do combate em tamanha apertura mas vinde para que o filho de Clítio salvemos a fim de evitarmos que lhe despojem as armas após ter junto às naves tombado.”

Tendo isso dito atirou contra Ájax a hasta longa que errando o alvo em Licótron acerta Mastórida nado em Citera do grande Ájax escudeiro com quem desde pouco morava após ter deixado Citera bendita por crime de morte.

Junto de Ájax encontrava-se; a ponta de bronze da lança entra-lhe no crânio por cima da orelha; o guerreiro na poeira cai ressupino ante a popa da nave; traquearam-lhe os membros.

O grande Ájax estremece e desta arte ao irmão se dirige: “Teucro dilecto nesta hora perdemos um fiel companheiro o grande filho de Mástor que em nosso palácio acatávamos como se filho lhe fôssemos desde que deixara Citera.

A vida Héctor lhe tirou o impecável herói.

Onde se acha o arco e as mortíferas flechas que Febo te deu o frecheiro?” Teucro às palavras do irmão veio pôr-se-lhe ao lado depressa o arco flexível na mão e o carcás bem provido de flechas.

Contra os Troianos sem perda de tempo seus dardos dispara.

A Clito logo feriu claro filho do heróico Pisénor fiel companheiro do filho de Panto o alto Polidamante que para ser agradável a Héctor e aos Troianos guiava os corredores para onde em tropel as falanges mais densas se entrechocavam.

Contudo depressa o alcançou a desgraça da qual ninguém poderia livrá-lo por mais que o quisesse pois pela nuca enterrou-se-lhe a flecha fautora de lágrimas.

Tomba ruidoso o guerreiro espantando os cavalos que o carro logo vazio arrastaram.

Porém observou tudo o dono Polidamante que à frente saltando dos brutos ardegos ao Protiaónio notável Astínoo os entrega dizendo  que sempre perto os tivesse sem nunca perdê-los de vista.

Para as fileiras da frente depois de falar ele volta.

Teucro apanhou novamente uma flecha disposto a atirá-la contra o impecável Héctor; e remate ao combate daria  junto das naus dos Aquivos se acaso no herói acertasse.

Mas não deixou de o notar Zeus prudente que a Héctor amparava; tira a esperança de Teucro do herói Télamon oriundo com provocar a ruptura da corda bem feita no liso arco no instante em que o herói apontava.

Pesada de bronze vai longe a flecha cair escapando-se-lhe o arco recurvo.

O grande Teucro estremece e ao irmão se dirige desta arte: “Deuses! Por certo um demónio procura frustrar-nos os planos! O arco polido arrancou-me das mãos neste instante rompendo o forte nervo trançado que eu próprio tecera de pouco esta manhã para tê-lo eficiente em disparos sem conta.”

O grande Ájax Telamónio lhe disse o seguinte em resposta: “O arco meu caro a departe coloca e essas rápidas flechas já que um dos deuses por ser-nos contrário as tornou imprestáveis.

Toma uma lança comprida nos ombros o escudo coloca e sem deixar de lutar contra os Teucros os nossos anima.

Ainda que venham a ser vencedores sem muito trabalho não tomarão nossas naus.

Insistamos portanto na luta.”

Teucro obedece ao conselho na tenda o arco logo deixando; põe sobre os ombros o escudo de quatro camadas de peles  o elmo de fino lavor na cabeça admirável coloca no qual por modo terrível penacho de crina ondulava; toma da lança potente munida de ponta de bronze e regressou apressado bem junto de Ájax colocando-se.

Logo que Héctor viu as setas de Teucro no chão todas frustras para os Troianos e os Lícios com voz atroante virou-se: “Teucros Dardânios e Lícios viris combatentes de perto sede homens caros amigos e força mostrai impetuosa junto das naves recurvas que acabo de ver com meus olhos como o arco e as flechas de exímio guerreiro quebrou Zeus potente.

Desconhecer é mui fácil o influxo de Zeus poderoso quer quando exalta a um mortal concedendo-lhe glória infinita quer quando os homens abate negando-se a dar-lhes socorro tal como agora os Aqueus debilita e os Troianos reforça.

Vamos! À volta das naus combatei num só corpo.

E se deve ser alguém presa da morte ferido de longe ou de perto que morra então pois é glória morrer em defesa da pátria; mas ficarão protegidos a esposa dilecta e os filhinhos bem como intacto o palácio e os haveres copiosos se os Dánaos para o torrão de nascença em seus barcos velozes voltarem.”

Por esse modo excitava o furor e a coragem de todos.

Os companheiros Ájax por seu lado também concitava:  “Dánaos que imensa vergonha! Morramos agora ou salvemo-nos das naus velozes a ruína impendiosa afinal afastando.

Imaginais porventura se Héctor se apossar dos navios que poderemos a pé regressar para a terra nativa? Pois não ouvis como o herói em voz alta seus homens anima só desejando lançar voraz fogo nas naves recurvas? Não os invita por certo a dançar mas que à pugna se atirem.

O pensamento melhor para nós e o mais viável conselho é corpo a corpo lutar mão por mão com o inimigo travando-nos.

É preferível morrer logo logo ou vencer o inimigo a continuar tanto tempo em desgaste constante de forças junto das céleres naus contra imigo de pouca valia.”

Dessa maneira excitava a coragem e a fúria de todos.

O ínclito Héctor mata a Esquédio senhor dos Focenses e filho de Perimedes; Ájax tira a vida ao viril Laodamante chefe de peões destemidos e filho do grande Antenor.

Polidamante a Oto prostra sem vida guerreiro cilénio do alto Megete comparsa e caudilho dos fortes Epeios.

Polidamante ao se ver atacado pelo alto Filida obliquamente saltou ainda a tempo pois Febo se opunha a que morresse entre os homens dianteiros o filho de Panto indo enterrar-se a hasta longa no meio do peito de Cresmo que cai no chão ressupino arrancando-lhe o imigo a armadura.

Dólope entanto guerreiro experiente para ele se apressa filho de Lampo e o melhor dos mortais.

Esse Lampo era filho de Laomedonte.

Guerreiro extremado em verdade era Dólope que bem de perto atacando no meio do escudo a hasta enterra do alto Megete.

Salvou-o a couraça de bronze chapeada que sobre o corpo soía vestir nos combates.

Fileu tinha-a trazido de Efira cidade no Rio Seleente.

Como penhor de hospedagem Eufetes potente lha dera para na guerra servir-lhe de amparo ante os golpes imigos.

Ao próprio filho nessa hora da morte salvou por sem dúvida.

Fere Megete o adversário também com a lança comprida sobre a cimeira do casco munido de crina ondulante de forma tal que o penacho lhe arranca jogando-o por terra onde na poeira mistura o frescor de seu brilho purpúreo.

Enquanto o Teucro enfrentava o adversário esperando vencê-lo  veio em socorro do herói Menelau glorioso que ao lado se pôs de Dólope inviso enterrando-lhe no ombro a hasta longa.

Ávida a lança no impulso em que vinha atravessa-lhe o peito indo no esterno sair; cai de rosto o guerreiro no solo.

Precipitaram-se os dois arrancando-lhe as armas brilhantes dos ombros largos.

Héctor que o notara chamou os consócios todos mormente o que tinha por pai o preclaro Hicetáon o varonil Melanipo.

Este lúcidos bois em Percote  apascentava no tempo em que o imigo ainda estava distante.

Quando porém os Aquivos chegaram nas naves recurvas veio para Ílion tomando lugar principal entre os Teucros onde morava com Príamo que como a filho o estimava.

Para ele pois dirigindo-se Héctor interpela-o e exorta-o: “Tão indolentes seremos assim Melanipo? Não sentes o coração abalar-se-te à vista do primo expoliado? Não vês o afã do inimigo por causa das armas de Dólope? Segue-me pois; distanciados dos Dánaos não mais lutaremos; com destemor combatamos até que possamos vencê-los ou que eles Ílion destruam e a todos os homens imolem.”

Disse e marchou.

Melanipo o seguiu qual um deus na aparência.

O grande Ájax Telamónio também os Aqueus exortava: “Sede homens caros amigos e na alma o pudor tende sempre! Possa o respeito recíproco a todos dar brio na pugna.

São mais poupados na guerra os que sabem morrer bravamente; os fugitivos nem glória jamais obterão nem defesa.”

Disse; os consócios que já antes queriam mostrar resistência suas palavras acolhem.

Em torno das naves formaram muro de bronze; a escalá-lo Zeus grande os Troianos incita.

Vira-se o herói Menelau para Antíloco e diz concitando-o: “Dos Dánaos jovens Antíloco és tu o mais moço de todos; nenhum te vence nos rápidos pés ou na força do embate.

Se acometeres os Teucros hás-de algum derrubar com certeza.”

Tendo isso dito voltou para os outros.

Chispante de brio o valoroso mancebo saltou para a frente e orientando-se a hasta brilhante na turba atirou.

Os Troianos recuaram diante da lança que frustra por certo não foi atirada; em Melanipo foi dar claro filho do grande Hicetáon junto do seio de frente quando ele avançava galhardo.

Tomba atroante no solo ressoando-lhe em torno a armadura.

Salta-lhe Antíloco em cima tal como o rafeiro que pula  sobre um cervato ferido que ao vir em carreira da cova o caçador atingiu dissolvendo-lhe a força dos membros: dessa maneira também Melanipo atirou-se-te Antíloco para privar-te das armas.

Héctor o divino o percebe e pelo meio da pugna a correr veio pôr-se-lhe em frente.

Ágil embora o Nestorida não se atreveu a esperá-lo.

Musca-se como uma fera depois de causar sérios danos e o vigilante pastor trucidar com seus fortes rafeiros junto dos bois antes que outros pastores lhe saiam no encalço: do mesmo modo o Nestorida foge.

Héctor e os Troianos dardos acerbos lhe atiram no meio de enorme alarido.

Só quando aos sócios chegou volta a olhar o inimigo de frente.

Tal como leões voradores de carne os Troianos se atiram para os navios escuros de Zeus os desígnios cumprindo  que não cessava de o ardor aumentar-lhes enquanto os Aquivos debilitava negando-lhes todo o esplendor da vitória pois no imo peito assentara que Héctor o alto filho de Príamo glória haveria colher quando o fogo incansável lançasse nas naus simétricas para que o voto funesto de Tétis êxito pleno obtivesse.

Por isso Zeus grande esperava  somente ver o esplendor duma nau por incêndio destruída.

Quando isso houvesse alcançado era sua intenção dar início à retirada dos Teucros cedendo alta glória aos Aquivos.

Tendo isso assim resolvido incitava a atirar-se aos navios o ínclito filho de Príamo Héctor de incontida ousadia.

Enfurecia-se Héctor tal como Ares lanceiro ou daninha chama alastrada em floresta viçosa no cimo dum monte.

Cheios os lábios de espuma brilhavam-lhe os olhos debaixo das sobrancelhas escuras.

Em torno da fronte espaçosa o elmo ondulava por modo terrível quando ele os Acaios acometia.

Desde o éter Zeus grande era a sua defesa que somente a ele amparava entre tantos guerreiros estrénuos glória e honra dando-lhe excelsas que pouco ainda tinha de vida visto que Palas Atena apressava o momento fatídico em que devia cair pelo braço do grande Pelida.

Tenta o guerreiro romper as fileiras dos homens aquivos onde mais densas falanges achava e mais lúcidas armas sem que o pudesse fazer apesar de mostrar-se esforçado pois como torre bem juntos os Dánaos a tudo resistem.

Tal como enorme penedo na beira do mar espumoso  que firme apara a violência do curso dos ventos sonoros e das mareias gigantes que tombam sobre ele rugindo: sem repedarem os Dánaos aos Teucros assim resistiam.

Lança-se então o guerreiro a brilhar como fogo no centro da turba imiga tal como se abate em navio ligeiro onda impetuosa que ventos engrossam; a nave coberta fica de espuma soprando furioso nas velas rasgadas o furacão.

Trespassados de medo a tremer se põem todos os marinheiros que a custo conseguem da morte livrar-se: o coração dos Aquivos desta arte abalado se mostra.

Cai sobre os Dánaos Héctor como leão carniceiro que ataca bois que a pastar se encontrassem nas margens de extenso palude.

São incontáveis; o moço pastor que não tem muita prática de defender os cornígeros bois contra o ataque das feras ora procura atender os que ficam na frente ora corre para os que se acham atrás.

Mas o leão bem no centro atirando-se um boi devora aterrando os demais: os Aquivos desta arte por Zeus e Héctor atacados tomados de medo sagrado fogem sem tino.

A um somente Héctor mata o belaz Perifetes filho dilecto daquele Copreu que Euristeu muitas vezes   a Héracles forte soía mandar por ser bom mensageiro.

De pai somenos proveio um rebento de méritos grandes rico em virtudes; não só velocíssimo experto na luta e em perspicácia contado em Micenas como um dos primeiros.

Com sua morte ele deu glória excelsa ao guerreiro troiano pois ao voltar-se disposto a fugir na orla extrema tropeça do grande escudo que aos pés lhe chegava defesa eficiente.

Atrapalhando-se cai ressupino ressoando na queda por modo horrível o casco que a fronte do herói circundava.

Rápido Héctor o notou; correu logo para ele conquanto perto dos seus estivesse e no peito a hasta longa enterrou-lhe.

Ainda que mestos os sócios ajuda nenhuma lhe deram pois se sentiram tolhidos à vista do herói impecável.

Por entre as naves agora lutavam no meio das proas das que mais no alto se achavam; os Teucros no encalço os perseguem.

Dessa primeira carreira de naus vêem-se os Dánaos forçados a recuar; mas à volta das tendas se apinham num corpo sem que a vagar pelo campo dispersos corressem; vergonha e medo a um tempo os continha.

Animavam-se todos sem pausa.

Mormente o velho Nestor de Gerena baluarte dos Dánaos  dos próprios pais os fazia lembrados falando a eles todos: “Sede homens caros amigos e na alma acolhei a vergonha ante os demais companheiros.

Lembrai-vos também das esposas de vossos bastos haveres dos pais dos filhinhos queridos quer se achem vivos ainda quer mortos acaso já estejam.

Por todos esses ausentes conjuro-vos uma e mais vezes a resistirdes com brio evitando a vergonha da fuga.”

Por esse modo excitava o furor e a coragem de todos.

Palas Atena nessa hora dos olhos a nuvem divina lhes dissipou podendo eles então distinguir tudo à volta junto das naves não só mas também na indecisa batalha.

Viram a Héctor o guerreiro de voz atroante e seus cabos tanto os que atrás se encontravam sem parte tomar na peleja como os que ao pé dos navios em luta se achavam travados.

Ao coração do magnânimo Ájax não foi grato deixar-se por muito tempo no ponto a que os outros Aqueus se acolheram; mas um dos fustes compridos tomando de vinte e dois cúbitos para combate naval apropriado de anéis adornado sobre a coberta das naus alternava mui largas passadas.

Qual saltador habituado a montar em cavalos que quatro  dos mais vistosos corcéis dentre muitos houvesse escolhido e em disparada no plaino os conduz para grande cidade pelo caminho trilhado; a admirá-lo concorrem mulheres e homens em número grande enquanto ele certeiro se atira dum dos cavalos para outro que rápidos voam na estrada: o grande Ájax de convés em convés dos navios velozes  dessa maneira saltava.

Até ao éter chegavam seus gritos pois não parava de os fortes Aqueus incitar atroante a defender os navios e as tendas.

Héctor igualmente não se deixava ficar entre as turmas dos Teucros armados.

Como águia fulva que tomba precípite no meio doutras aves que descuidadas se encontram na margem relvosa dum rio bando de gansos ou grous ou de cisnes de longos pescoços: do mesmo modo Héctor cai sobre um barco de proa anegrada directamente.

A mão forte de Zeus por detrás o impelia que despertava no povo o desejo também de segui-lo.

Junto das naus novamente uma luta renhida se trava.

Imaginar poderias que todos de fresco e indefessos digladiavam tal era o furor que mostravam no embate.

Mui diferente certeza a cada um sustentava: os Aquivos  não esperavam com vida escapar mas morrer ali mesmo; no coração dos Troianos a grata esperança aninhava-se de porem fogo aos navios e os fortes Acaios matarem.

Eis a razão por que todos sem pausa a lutar se empenhavam.

Pôde Héctor o ínclito a popa tocar duma nau sulcadora bela e de rápido curso que tinha para Ílion trazido Protesilau sem dever de tornada contudo levá-lo.

Matam-se em luta corpórea os Troianos e os Dánaos à volta desse navio por que ora lutavam sem mais aguardarem tiros de flechas jogadas de longe ou de lanças pontudas; mas bem de perto lutando e animados dum só pensamento às machadinhas recorrem afiadas bipenes enormes e resistentes espadas e lanças de dúplice ponta.

Muitas espadas vistosas munidas de punhos escuros caem por terra saltando das mãos ou dos ombros robustos dos combatentes; no chão sangue negro abundante escorria.

O ínclito Héctor uma vez aferrada a alta popa não deixa de firme o aplustre agarrar.

Para os Teucros virando-se brada: “Fogo trazei e a um só tempo animai para a pugna uns aos outros.

Hoje nos dá Zeus um dia que todos os outros compensa;  vamos tomar os navios que contra a vontade dos deuses males a todos trouxeram por causa da frieza dos velhos que sempre que desejava lutar junto às naus me retinham não consentindo tampouco me dessem auxílio os do povo.

Se Zeus atroante porém nos turvou nesse tempo o intelecto hoje é ele próprio que o manda e nos faz avançar para a luta.”

Disse e com mais ardimento os Troianos aos Dánaos atacam.

O grande Ájax não resiste; forçado por tiros sem conta retrocedeu pouco espaço temendo morrer ali mesmo.

Abandonando o convés para um banco passou de remeiros de sete pés e abrigado ficou a arredar dos navios com o fuste longo os Troianos que o fogo incansável traziam.

Horrendamente sem pausa os Aqueus para a luta chamava: “Caros heróis destemidos consócios discípulos de Ares sede homens caros amigos e força mostrai impetuosa.

Imaginamos talvez que dispomos atrás de defesa ou de muralha capaz de evitar a ruína do exército? Perto não temos cidade munida de torres altivas que nos ampare e proveja com gente pugnaz de reserva.

É na planície dos Teucros que estamos de fortes couraças;  temos o mar pelas costas mui longe da terra nativa.

Somente o braço nos pode salvar; sem fraqueza lutemos.”

Isso disse ele vibrando furioso a hasta longa e pontuda.

Quantos Troianos ao mando de Héctor obedientes tentavam apropinquar-se das côncavas naves com fachos acesos vinha encontrá-los Ájax e os feria com a lança gigante.

A doze Teucros assim junto às naves de perto derruba.


 

CANÇÃO XVI

Por esse modo lutavam à volta das naves recurvas. Pátroclo entanto apresenta-se a Aquileu pastor de guerreiros a derramar muitas lágrimas como de fonte profunda se precipita água escura de cima de pedra altanada.

Vendo-o apiedou-se o divino Pelida de pés muito rápidos e começando a falar lhe dirige as seguintes palavras: “Pátroclo por que motivo a chorar deste modo te encontras como menina que insiste com a mãe para ser carregada pelo vestido detendo-a conquanto apressada ela esteja e lacrimosa a contempla até que ela nos braços a tome? Como ela Pátroclo lágrimas ternas derramas sem pausa.

Tens porventura aos Mirmídones algo a dizer ou a mim próprio? Novas soubeste de Ftia talvez que os demais desconheçam? Vivo se encontra Menécio assim dizem que de Áctor proveio bem como o Eácida o claro Peleu entre os fortes Mirmídones cujo trespasso sem dúvida grande aflição nos causara? Ou porventura lastimas a sorte dos nobres Aquivos que junto às naves perecem por causa da própria injustiça? Ora me conta sem nada ocultar-me que o saiba contigo.”

A suspirar respondeste-lhe Pátroclo excelso ginete: “Ó grande Aquileu Pelida o primeiro entre os fortes Acaios não me censures por ter aos Aqueus grande exício atingido.

Quantos primeiro na pugna bravura e valor demonstravam ou por espada ou por seta feridos às naus se acolheram.

Asseteado se encontra o Tidida valente Diomedes; jaz Odisseu vulnerado por lança assim como Agamémnon; na coxa Eurípilo foi por um dardo também vulnerado.

Conhecedores dos simples os médicos tentam curá-los a lhes pensar as feridas.

No entanto prossegues Aquileu inexorável.

Jamais se apodere de mim tão grande ira.

Metes-me medo.

A quem podes depois ser de alguma vantagem se não proteges os nobres Argivos na ruína iminente? Sem coração! Não provéns do ginete Peleu por sem dúvida nem do regaço de Tétis; geraram-te as ondas cerúleas e os escarpados rochedos que tens implacável espírito.

Se te retrais porventura em virtude de algum vaticínio pela mãe nobre contado da parte de Zeus poderoso ao menos deixa que leve as falanges dos fortes Mirmídones para lutar; hei-de ser para os Dánaos a luz salvadora.

Deixa que à volta dos membros cinja tua bela armadura para que os Teucros me tomem por ti e da luta se abstenham  e os belicosos Aquivos que tão abatidos se encontram possam aurir novo alento; conquanto pequeno é valioso.

Pois poderá gente fresca sem muito trabalho o inimigo que tão cansado se encontra das naus repelir para os muros.”

Que irreflexão era a sua! O insensato pedia insistente que se cumprisse o seu fado atraindo a precípite Morte.

Muito indignado responde-lhe Aquileu de pés muito rápidos: “Pátroclo herói da linhagem de Zeus que palavras disseste? Não me retraio por certo em virtude de algum vaticínio pela mãe nobre contado da parte de Zeus poderoso.

O que me indigna em verdade e a tal ponto me punge o imo peito é ver a alguém abusar do poder e privar a um dos pares da recompensa que obteve tornando-lhe o prémio devido.

Isso de facto me ofende excruciando-me o peito deveras.

A bela escrava que os fortes Aquivos por prémio me deram por minha lança adquirida ao destruir bem murada cidade o poderoso Agamémnon veio arrancar-me dos braços como se eu fosse adventício de todo o valor destituído.

Mas o passado esqueçamos; possível não é perpétuo ódio no imo abrigar.

Meu propósito disse e ainda agora o confirmo era que não cederia até ao instante em que viesse até junto de nossos próprios navios o estrondo e o furor dos combates.

Cobre teus membros portanto com minha armadura magnífica: e para o campo da luta conduz os valentes Mirmídones que nuvem negra de Teucros ataca os navios com grande ímpeto e os fortes Aquivos na praia do mar ressoante se acham premidos.

Somente lhes resta uma nesga de terra.

Toda a cidade dos Troas saiu para vir atacá-los confiadamente que há muito brilhar o frontal não têm visto do elmo que a testa me cinge.

Se o forte Agamémnon houvesse sido mais brando comigo os Troianos agora encheriam as depressões do terreno ao invés de o cercarem nos barcos.

Não mais a mão do Tidida Diomedes a lança comprida vibra furiosa livrando os Acaios da ruína iminente nem mais a voz irritante da odiosa cabeça do Atrida aos meus ouvidos ressoa.

De Héctor homicida somente a voz atroante percebo a animar os Troianos que ocupam toda a planície e os Aquivos derrotam nos duros recontros.

Mas ainda assim com todo o ímpeto Pátroclo atira-te a eles para livrarmos as naves.

Não deve lançar o inimigo fogo nos lenhos e o grato retorno com isso frustrar-nos.

Grava porém no imo peito o que passo insistente a dizer-te para que junto dos Dánaos possa alcançar alta glória e honras sem par e eles próprios me venham trazer a belíssima filha de Brises e infindos presentes de grande valia.

Logo que os Teucros das naus repelires retorna.

Ainda mesmo  que o de Hera esposo de voz retumbante alta glória te ceda sem mim não queiras levar mais avante o combate ardoroso contra os Dardânios valentes; ser-me-ia desdouro por certo; nem aconteça exaltado no ardor do combate levares o morticínio até aos muros de Tróia por ventos batida pois poderia descer do alto Olimpo um dos deuses eternos que Febo Apolo o frecheiro aos Troianos é muito afeiçoado.

Volta depois de levares a luz aos navios velozes e de salvá-los; que os outros no plaino o combate prossigam.

Fosse do gosto de Zeus e de Palas Atena e de Apolo que nenhum Teucro pudesse fugir da precípite Morte nem os Acaios tampouco escapando nós dois tão-somente  para que as torres de Tróia sagrada por terra jogássemos!” Dessa maneira em colóquio eles dois tais conceitos trocavam.

O grande Ájax não resiste forçado por tiros infindos; pela vontade de Zeus e a pressão incessante dos Teucros assoberbado se via.

Ao redor da ampla testa soava-lhe o elmo fulgente por modo terrível em cujas saliências golpes sem conta choviam.

Cansado já tinha o ombro esquerdo de sustentar com firmeza o pavês reluzente conquanto não conseguissem desviá-lo por mais que o cobrissem de tiros.

Já o sufocava a fadiga; abundante suor escorria-lhe dos membros todos sem azo sequer de tomar novo alento que ininterruptos males de todos os lados lhe chegam.

Musas que o Olimpo habitais vinde agora sem falhas contar-me de que maneira se ateou nos navios acaios o incêndio.

Perto de Ájax colocando-se Héctor deu-lhe um golpe de espada na hasta fraxínea quebrando-a no ponto preciso em que o bronze no caule se une de modo que o filho do herói Télamon fica a vibrar simplesmente uma vara estroncada que a cúspide aénea saltou para longe ruidosa por terra caindo.

Reconheceu logo Ájax na alma grande ser obra divina  quanto se dera assustando-se ao ver que Zeus grande lhe os planos todos frustrava empenhado em dar glória aos guerreiros de Tróia.

Fora do alcance dos tiros se pôs; os Troianos lançaram fogo no barco alastrando-se logo indomável incêndio.

Ao ver Aquileu a flama elevar-se na popa da nave bate nas coxas e diz para o neto ilustríssimo de Áctor: “Pátroclo herói da linhagem de Zeus impecável ginete sus! Já percebo que o fogo voraz irrompeu nos navios.

Não aconteça ficarmos privados dos meios de fuga.

Veste a armadura depressa que vou congregar logo os sócios.”

Pátroclo o bronze brilhante cingiu obediente ao Pelida.

As caneleiras primeiro lavradas nas pernas ataca belas de ver por fivelas de prata maciça ajustadas; em torno ao peito coloca depois a couraça magnífica  do veloz Eácida cheia de ornatos em forma de estrelas; lança nos ombros a espada de bronze com cravos de prata e um grande escudo sobraça maciço e de largos contornos; o elmo de fino lavor na cabeça admirável coloca no qual por modo terrível penacho de crina ondulava; toma por fim duma lança bem forte de fácil manejo.

Só não tomou a hasta longa do Eácida o herói impecável grande maciça e pesada; nenhum dos robustos Aquivos a manejava; o Pelida somente o fazia sem custo.

Dera-a Quíron a Peleu para exício de heróis por afecto; fora tirada do tronco dum freixo do cimo do Pélio.

A Automedonte ordenou que atrelasse os velozes cavalos; era-lhe amigo dilecto estimando-o depois do Pelida por ser de inteira confiança ao seu lado nos duros embates.

Automedonte depressa os fogosos cavalos atrela Xanto e Balio que os ventos velozes no curso igualavam.

Tinham a harpia Podarga por mãe concebidos de Zéfiro quando ela outrora pascia nas margens do Rio Oceano.

Pédaso atrela também em correias ao lado o cavalo que da cidade de Eécion ao destruí-la o Pelida trouxera e que mortal muito embora aos corcéis imortais se emparelha.

Corre entrementes Aquileu as tendas e o campo e aos Mirmídones manda insistente que se armem.

Tal como carnívoros lobos que têm perfeita consciência do grande vigor que os distingue quando alcançando um veado galheiro nos montes o prostram e o despedaçam; escorre-lhes sangue das fortes mandíbulas;  em alcateia depois se dirigem à fonte sombria e a superfície da escura corrente com as línguas delgadas lambem cruor estilando que as águas enturva; o intestino se lhes dilata mas grande coragem no peito conservam: os conselheiros e guias assim dos valentes Mirmídones se congregavam em torno do amigo prestante do neto de Éaco.

Aquileu o herói belicoso no meio das turmas estimulava os guerreiros de carro e os que a pé combatiam.

Eram cinquenta os navios que Aquileu veloz a Zeus caro tinha trazido para Ílion.

Cada uma das naves recurvas com cinquenta homens nos bancos dos remos se achava provida.

Cinco varões de confiança havia ele entre os seus elegido para o comando exercerem mas dele era o império supremo.

A uma das turmas comanda Menéstio de arnês reluzente filho do Rio Esperqueio que as chuvas celestes engrossam e da gentil Polidora nascida do forte Peleu.

Era ela humana; contudo deitou-se no leito do rio; tinha no entanto por pai toda a gente o Periérida Boro que ricamente a dotara esposando-a por modo solene.

Sob o comando de Eudoro outra turma se achava; este espúrio   de Polimela nascera a gentil dançarina nascida do alto Filante.

O Argicida potente tornara-se dela enamorado no dia em que a vira a dançar entre as jovens no coro de Ártemis de áureos remessos nas caças bulhentas.

Hermes o deus benfeitor às ocultas subiu para o quarto e se deitou com a jovem de quem teve o filho impecável de nome Eudoro excelente guerreiro e de pés mui velozes.

E quando as cruéis Ilitiias que aos partos presidem o filho à luz trouxeram ferindo-lhe os raios do Sol os olhinhos a grande força do Actórida Equecles levou Polimela para seu belo palácio pagando-lhe dote riquíssimo.

O alto Filante no entanto ficou com a criança e educou-a grande afeição dedicando-lhe como se filho lhe fosse.

Sobre o terceiro esquadrão comandava Pisandro Memálida hábil no jogo da lança; entre os fortes e estrénuos Mirmídones era o primeiro se o amigo do claro Pelida exceptuarmos.

O venerável Fénix o comando do quarto detinha e Alcimedonte o do quinto de Laertes o filho impecável.

Logo que Aquileu em ordem dispôs de batalha os guerreiros e os comandantes por modo severo começa a falar-lhes:  “Não aconteça esquecerem as grandes ameaças Mirmídones feitas aos Teucros por vós aqui mesmo nos barcos enquanto a ira de mim se apossou.

Inculpáveis-me todos dizendo: ‘Filho cruel de Peleu fel materno somente bebeste que a seu mau grado reténs junto às naves os teus companheiros.

Dá-nos ao menos voltar para casa nas naus sulcadoras já que a funesta paixão te invadiu desse modo a alma nobre.

’ Isso dizíeis amiúde falando de mim.

Eis chegada a hora da grande entrepresa que há tanto aneláveis.

Pelejem pois contra os Teucros os que coração valoroso possuírem.”

Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos.

Cerram fileiras depois de as palavras do rei escutarem.

Tal como o obreiro ao construir as paredes dum alto palácio pedras miúdas dispõe para a força do vento ampararem: elmos assim e abaulados paveses bem juntos se achavam cascos e escudos unidos guerreiros em filas compactas.

Tocam-se no alto os penachos de crina dos elmos brilhantes quando agitados tão juntos se achavam os fortes guerreiros.

Diante de todos armados dois cabos achavam-se Pátroclo e Automedonte; um desejo somente abrigavam: ao prélio  reconduzir os Mirmídones.

Logo depois o Pelida vai para a tenda onde a tampa levanta duma arca belíssima que fora posta para ele na nau corredora por Tétis de pés de prata provida de túnicas finas e mantas que o resguardassem dos ventos e belos tapetes felpudos.

Dela uma copa retira de fino lavor; nessa copa  vinho purpúreo a ninguém era dado beber fora Aquileu que em libações para Zeus tão-somente dela uso fazia.

Após tê-la da arca tirado passando-lhe enxofre primeiro a purifica lavando-a depois numa fonte bem clara onde as mãos lava também.

Cheia a copa de vinho brilhante pôs-se no meio do sacro recinto e libando suplica a Zeus que no alto troveja sem que este deixasse de ouvi-lo: “Zeus rei dodóneo Pelasgo que longe de todos demoras e tens o império em Dodona gelada onde os Selos que dormem no áspero chão e que os pés nunca lavam te servem de intérpretes! Do mesmo modo que ouviste o pedido que fiz há algum tempo e me deste honra infligindo castigo ao exército acaio mais uma vez te suplico atenderes-me ao que ora te peço.

Junto das naves de facto me deixo ficar mas envio  para a batalha sangrenta seguido dos fortes Mirmídones o companheiro dilecto.

Concede-lhe Zeus alta glória e o coração lhe reforça no peito; que Héctor julgar possa se sabe o fiel companheiro sozinho enfrentar o inimigo ou se suas mãos invencíveis só podem mover-se com fúria quando ao seu lado me encontro nos duros embates da guerra.

Mas logo que ele das naus afastar o tumulto e a peleja faz que ileso regresse afinal aos navios velozes com suas armas e os sócios viris combatentes de perto.”

Isso disse ele na súplica.

Zeus conselheiro no entanto do que pedira somente uma parte concede; outra nega: dá-lhe que Pátroclo afaste das naves a luta sangrenta mas não consente que o herói possa vivo tornar do combate.

Após ter libado e ter feito o pedido que a Zeus dirigira à tenda Aquileu retorna; repõe na arca a lúcida copa e para fora de novo tornou pois ardia em desejos de presenciar o combate entre os fortes Aquivos e os Teucros.

À testa Pátroclo e em ordem movidos de ardor belicoso lançam-se os fortes Mirmídones até nos Troianos baterem.

Logo se espalham no jeito de vespas que o ninho construíram  junto da estrada se crianças acaso assanhadas as deixam tal como têm por costume com quantos vespeiros enxergam a muitas outras pessoas incómodo grave aprestando pois se acontece passar um viandante que o ninho sacode sem o querer todas elas se lançam no rosto do mísero por grande ardor animadas da prole querida em defesa: o coração desse modo inflamado os Mirmídones saem das curvas naus levantando clamor que as alturas atroa.

Pátroclo então para os seus em voz alta desta arte lhes fala: “Bravos Mirmídones sócios de Aquileu o forte Pelida sede homens caros amigos e força mostrai impetuosa para de glória cobrirmos o mais valoroso dos Dánaos  que nos navios se encontram bem como de seus companheiros e possa ver Agamémnon o forte senhor de Atreu filho quão cego estava ao querer desprezar o maior dos Aquivos.”

Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos.

Em formações adensadas atiram-se aos Teucros; eleva-se grita dos fortes Acaios que as naves recurvas atroa.

Logo que os Teucros o filho enxergaram do grande Menetes com seu valente escudeiro vestidos em lúcidas armas  o coração lhes tremeu começando a ceder as falanges por presumirem que Aquileu veloz dos navios saíra por ter a cólera grande deposto e tornado ao bom senso.

Todos à volta esguardaram visando escapar da desgraça.

Pátroclo logo de início a hasta longa de bronze remessa contra as falanges do imigo onde mais adensadas se achavam junto do monstro da popa do barco em que viera o magnânimo Protesilau.

A arma alcança a Piracme que trouxe os famosos équites Peónios de Amídone ao pé do Áxio belo construída.

No ombro direito o atingiu; tomba o herói ressupino na poeira dando um gemido.

Assustados em fuga correram os Peónios pois neles todos terror incutira o viril Menecíada por ter-lhes morto o caudilho guerreiro de excelsa virtude.

Das naus o imigo repele apagando a voraz chama ardente.

Meio queimado o navio ficou.

Fogem logo os Troianos em confusão indizível; no encalço os perseguem os Dánaos que dos navios irrompem no meio de grande alarido.

Tal como quando faz Zeus fulgurante afastar-se do pico alto dum monte elevado os bulcões adensados que o cercam descortinando-se todos os cabos e grutas e as matas  pela baixada ao se abrir de repente o céu claro e infinito: do mesmo modo aliviados os fortes Aquivos respiram vendo já livres do fogo os navios.

Contudo a peleja ainda prossegue que os Teucros não fogem das naves escuras sob a pressão dos guerreiros aquivos mas sempre lutando aos poucos cedem terreno deixando forçados as naves.

Quando espalhada a batalha combates pessoais se travaram entre os caudilhos.

O filho admirável do grande Menetes logo na frente a hasta longa na coxa enterrou de Areílico que procurava fugir; atravessa-lhe as carnes o bronze e o osso fractura caindo o guerreiro de bruços por terra.

O louro filho de Atreu Menelau fere a Toante no peito onde o percebe desnudo tirando-lhe a força dos membros.

A Ânflico nota o Filida que vinha contra ele; habilmente antecipou-se-lhe e o fere bem no alto da perna onde o músculo é mais espesso; ante a ponta aguçada da lança partiram-se-lhe os nervos todos; os olhos do herói recobriu a caligem.

Com sua lança pontuda o Nestorida Antíloco a Antímnio  fere passando-lhe o flanco a hasta longa de bronze.

Tomba de frente o guerreiro; com a morte do irmão irritado  Máris postando-se diante do corpo saltou contra Antíloco para lanceá-lo.

Porém Trasimedes o divo Nestorida antes que a lança partisse o feriu sem que a mira falhasse no alto da espádua.

Os tendões separou a hasta longa e pontuda da extremidade do braço fazendo em pedaços os ossos.

Com grande estrondo caiu; densas trevas cobriram-lhe os olhos.

Por dois irmãos desse modo prostrados baixaram para o Érebo os companheiros notáveis do claro Sarpédon filhos de Amisodaro o famoso lanceiro que criara a Quimera monstro invencível que a muitos heróis da existência privara.

Dum salto Ájax de Oileu filho com vida a Cleobulo surpreende que pela turba se achava impedido; o vigor porém logo lhe dissolveu enterrando-lhe a espada brilhante no colo: quente de sangue ficou toda a lâmina; aos olhos lhe baixa com o violento Destino indomável a Morte purpúrea.

Após os hastis atirarem o herói Peneleu e o alto Lico sem que um no outro acertasse pois de ambos talhou o arremesso sacam dos gládios e investem-se.

Lico desfere um violento golpe no casco do imigo; mas junto do punho quebrou-se-lhe a forte lâmina.

O herói Peneleu sob a orelha no colo  tão fundamente o montante lhe enterra que a pele somente fica a suster a cabeça inclinada.

Amolecem-lhe os membros.

Com os pés velozes Meríones pôde alcançar a Acamante no ombro direito ferindo-o quando ele subia no carro.

Tomba o ferido na poeira cobertos de trevas os olhos.

O bronze cruel justamente na boca enterrou de Erimante Idomeneu trespassando-lhe a lança comprida a cabeça e indo por baixo do cérebro a ponta de bronze que os brancos ossos lhe quebra bem como ainda os dentes; os olhos se lhe enchem de negro sangue que jorra abundante das fauces abertas e das narinas.

A nuvem da morte envolveu o guerreiro.

Cada um dos chefes aquivos assim um imigo derruba.

Tal como lobos rapaces que atacam de súbito ovelhas ou cabritinhos se acaso o pastor imperito permite que pelo monte se espalhem; ao vê-los apanham-nos presto e os dilaceram de espaço que imbeles e fracos são todos: os fortes Dánaos assim sobre os Teucros carregam; do brio todos então olvidados só pensam na horríssona Fuga.

O grande Ájax desejava vibrar contra Héctor arnesado a hasta possante.

Mas este guerreiro experiente as espáduas  sempre trazia abrigadas no escudo de peles taurinas de ouças atentas no ruído das setas bem como dos dardos.

Via o Troiano que a sorte da guerra já estava mudada; mas ainda assim resistia tentando salvar os consócios.

Tal como no éter divino se estende uma nuvem do Olimpo para o alto céu quando Zeus tempestade violenta prepara: dessa maneira os Troianos em grita deixando os navios desordenados repassam o fosso; os cavalos e o carro em que lutava ali Héctor retiraram possantes; contudo deixa ele os sócios retidos então pelas forças imigas.

Muitos cavalos de rápido curso o temão já partido dentro do fosso deixavam os carros dos príncipes teucros.

Pátroclo entanto os seguia a exortar vivamente os Aquivos só desejando matar nos Troianos que em fuga e gritando em debandada as estradas enchiam.

Remoinhos de poeira as altas nuvens se elevam; deixando os navios e as tendas em direcção da cidade os cavalos velozes disparam.

Pátroclo o carro atirava para onde em maior barafunda via as falanges imigas.

Por baixo dos eixos caíam muitos guerreiros virados os carros de rodas para o alto.

O fosso vencem dum salto os cavalos eternos e rápidos que os imortais a Peleu tinham dado –presente magnífico– sempre a avançar.

A coragem do herói o levava à procura do ínclito Héctor que os corcéis para longe da pugna conduzem.

Como no tempo do Outono se abate terrível procela na terra escura ao mandar Zeus potente infinito aguaceiro quando irritado se encontra com os homens e quer castigá-los por ver que torcem no foro a justiça e sentenças proferem desrespeitando o direito sem medo dos deuses eternos; os largos rios então engrossados dos álveos transbordam e a correnteza impetuosa colinas envolve e as solapa precipitando-se do alto dos montes no mar cor de púrpura estrepitosa a rugir assolando a lavoura dos homens: do mesmo modo a correr relinchavam as éguas troianas.

Tendo cortado do corpo do exército os homens da frente Pátroclo os força a fugir para o lado das naus embargando-lhes a volta para a cidade.

Impetuoso os ataca no espaço entre a corrente os navios e o muro altanado privando da vida a muito Dardânio em vingança da morte dos Dánaos.

Primeiramente no peito de Prónoo enterrou a hasta longa  onde desnudo o percebe tirando-lhe a força dos membros.

Tomba ruidoso o guerreiro.

A seguir contra Téstor se atira de Énopo o filho que cheio de medo se havia agachado no belo carro de guerra e deixara escapar aturdido das mãos as rédeas.

De perto o feriu na maxila direita atravessando-lhe os dentes a lança brilhante.

Puxando-a traz nela presa o Troiano por cima da borda do carro.

Tal como um peixe sagrado de cima de rocha saliente o pescador sói fisgar com anzol reluzente e com linha: de boca aberta desta arte do carro com a lança arrancando-o  joga-o de rosto no chão.

Perde a vida o guerreiro no tombo.

Contra Erilau a seguir que para ele corria uma pedra no meio da testa jogou dividindo-lhe em dois a cabeça dentro do casco pesado.

Por terra de bruços o Teucro cai repentino envolvendo-o nessa hora a caligem da morte.

Passa daí a atacar Polimelo de Argeias nascido Píris e Ifeu; depois destes Anfótero Evipo e Tlepólemo o Damastórida Epaltes Equio e Erimante; a eles todos uns sobre os outros na terra fecunda sem vida ele prostra.

Ao ver Sarpédon que os companheiros de curtas couraças  eram ceifados por Pátroclo o filho do grande Menécio apostrofou os divinos guerreiros da Lícia exortando-os: “Lícios para onde fugis? Que vergonha! Lutar é forçoso.

Eu próprio irei ao encontro desse homem porque me convença quem é esse forte guerreiro que tanto os Troianos maltrata e aos nossos mais esforçados consócios privou da existência.”

Tendo isso dito do carro saltou sem que as armas largasse.

Pátroclo vendo-o também do seu carro desceu apressado.

Como dois corvos de bico recurvo e de garras aduncas que brigam no alto de rocha escarpada grasnando estridentes: atroadores assim um para o outro os guerreiros se atiram.

Vendo-os sentiu-se apiedado o nascido de Cronos astucioso e para a irmã e consorte virando-se diz-lhe o seguinte: “Pobre de mim o Destino asselou que o mais caro dos homens o meu Sarpédon tombe hoje aos golpes de Pátroclo exímio! O coração sinto agora indeciso entre dois pensamentos: levá-lo-ei para longe da pugna lugente e o coloco neste momento com vida entre o povo opulento dos Lícios ou deixarei que o vigor lhe despoje o viril Menecíada?” Hera a magnífica de olhos bovinos lhe disse em resposta:  “Zeus prepotente nascido de Cronos que coisa disseste? Tens a intenção de livrar novamente da morte funesta ao lutador que se encontra fadado a morrer há já muito? Seja se o queres conquanto nós outras jamais te aprovemos.

Ora outra coisa te quero dizer guarda-a bem no imo peito: se resolveres enviar para casa a Sarpédon vivo não aconteça quererem também retirar outros deuses seus caros filhos do meio dos duros combates e pugnas pois ao redor das muralhas de Príamo lutam muitíssimos filhos de deuses: entre estes farás vicejar a discórdia.

Se lhe dedicas ateio e seu fado em verdade te punge deixa que seja prostrado sem vida na pugna terrível pela potência de Pátroclo o filho do claro Menécio.

Logo porém que a alma e a vida lhe o corpo robusto deixarem manda que o Sono agradável e a Morte o retirem do campo e para a Lícia o conduzam de extensas e pingues campinas  onde os irmãos e os parentes exéquias condignas lhe façam com cipo e túmulo as honras devidas a quantos se extinguem.”

O pai dos homens e deuses de pronto aceitou esse alvitre.

Gotas de sangue fez logo cair sobre a terra fecunda  em honra ao filho dilecto que estava a morrer condenado às mãos de Pátroclo longe da pátria nos plainos de Tróia.

Logo que os dois combatentes em frente se acharam um do outro Pátroclo a lança atirou acertando em Trasímelo forte o valoroso escudeiro do grande monarca Sarpédon; a hasta no ventre lhe entrou dissolvendo-lhe a força dos membros.

Joga em segundo lugar a hasta longa e brilhante Sarpédon sem que no imigo acertasse indo a lança possante encravar-se na pá direita de Pédaso o qual relinchando jogou-se a estrebuchar no chão duro exalando nas vascas o espírito.

Encabritaram-se os outros cavalos ao verem por terra o balancim; baralharam-se as rédeas; o jugo alto estrala.

Automedonte porém logo encontra o remédio adequado: saca da espada cortante de junto da coxa robusta e decidido os tirantes cortou do cavalo do lado.

Os outros dois se endireitam e ao freio de novo obedecem.

Mais uma vez os heróis se defrontam na pugna homicida.

A lança aénea Sarpédon frustra de novo arremessa; pelo ombro esquerdo de Pátroclo a ponta de bronze desliza sem atingi-lo porém.

Com mão certa dispara o seu dardo  Pátroclo.

Vão por sem dúvida o bote não foi que o hastil longo no coração de Sarpédon entrou onde o envolve o diafragma.

Ei-lo que tomba por terra tal como carvalho ou pinheiro ou choupo altivo que ao truz de afiado e possante machado para uso náutico o obreiro numa alta montanha derruba: em frente ao carro desta arte caído ele se acha ringindo os alvos dentes e a terra sanguínea a apertar entre os dedos.

Do mesmo modo que um touro vermelho e animoso colhido por um leão que de súbito assalta manada flexípede muge ao se ver entre as fortes maxilas da fera terrível: já mortalmente ferido por Pátroclo assim irritado geme o caudilho dos Lícios chamando por seu companheiro: “Glauco querido guerreiro famoso entre os homens agora deves mostrar-te invencível vibrando galhardo a hasta longa.

Se és denodado somente prazer pode a guerra causar-te.

Os condutores dos Lícios primeiro de todos os lados chama e os exorta a que venham lutar ao redor de Sarpédon; com tua lança de bronze depois corre em minha defesa.

Causa de grande desonra e de opróbrio ser-te-ei para sempre constantemente se acaso ao cair junto às naus em combate  da reluzente armadura me vierem privar os Aquivos.

Firme portanto peleja e os demais como cumpre estimula.”

Disse no instante em que a Morte com o manto de trevas os olhos lhe recobriu e o nariz.

Pondo Pátroclo o pé sobre o tórax tira-lhe a lança do corpo à qual segue aderente o diafragma.

Ao mesmo tempo que a lança desta arte a alma arranca a Sarpédon.

Os ardorosos corcéis do guerreiro os Mirmídones prendem que por se verem sem dono a correr sem destino se achavam.

Glauco sentiu aflição indizível à voz de Sarpédon; o coração abalou-se-lhe ao ver-se incapaz de ajudá-lo.

Com a mão o braço ofendido apertava pois muito sofria com a ferida que Teucro em defesa de seus companheiros lhe produzira quando ele escalava o alto muro dos Dánaos.

A Febo Apolo que ao longe asseteia desta arte suplica: “Ouve Senhor meu pedido quer te aches na Lícia fecunda quer entre os homens de Tróia.

De todas as partes escutas aos que como eu te suplicam no meio de grande desdita.

Olha-me! Tenho esta grave ferida e padeço de dores insuportáveis no braço; não vejo maneira de o sangue negro deixar de correr; o ombro sinto pesado e sem força.

Já não consigo vibrar a hasta longa e enfrentar denodado os inimigos.

Um grande guerreiro sem vida se encontra germe de Zeus justamente Sarpédon e Zeus o abandona! Mas tu Senhor vem curar-me esta imana ferida alivia-me de tantas dores e força me infunde porque eu chamar possa os companheiros da Lícia os exorte a voltar para a luta e eu próprio ajude afinal a livrar o cadáver do amigo!” Isso disse ele na súplica; ouvido por Febo foi logo que lhe acalmou prontamente a tortura; da chaga dorida o negro sangue detém e no peito lhe infunde energia.

Glauco sentiu logo o efeito alegrando-se no íntimo da alma por ver que o deus se apressara a atender-lhe o pedido aflitivo.

Os condutores dos Lícios primeiro de todos os lados chama e os exorta a que venham lutar ao redor de Sarpédon e a grandes passos depois para o meio se foi dos Troianos: Polidamante nascido de Panto e Agenor procurava o grande Eneias e Héctor o guerreiro de vestes de bronze.

Ao lado deste postando-se disse as palavras aladas: “Muito esquecido sem dúvida Héctor dos aliados te encontras que por tua causa aqui morrem distantes da pátria querida  e dos amigos.

Não levas jamais a nenhum teu auxílio.

Morto se encontra Sarpédon o chefe dos Lícios guerreiros que com rigor e inteireza na Lícia fecunda imperava.

Ares o brônzeo o matou com a ajuda da lança de Pátroclo.

Vamos amigos para onde o cadáver se encontra; indignai-vos no coração de que as armas lhe dispam e o corpo os Mirmídones lhe encham de opróbrio irritados por causa de tantos Aquivos que junto às naus nossas lanças à Morte funesta levaram.”

Isso disse ele; tomados de dor os Troianos ficaram incomportável e imensa que embora estrangeiro Sarpédon era o baluarte de Tróia; por muitos guerreiros seguido nos duros prélios seu grande valor entre todos luzia.

Contra os Aquivos então animosos avançam; comanda-os o ínclito Héctor irritado com a morte do chefe dos Lícios.

Pátroclo os seus dirigia animando os guerreiros acaios.

Primeiramente aos Ájaxes de si tão valentes exorta: “Bravos Ájaxes o imigo enfrentar ora tendes a cargo com a virtude que sempre mostrastes ou mais se possível.

Jaz morto o herói que primeiro o alto muro escalou dos Aquivos o valoroso Sarpédon.

Fosse possível tirar-lhe  dos ombros largos as armas cobrir o cadáver de ultrajes e os companheiros que o cercam com bronze matar implacável!” Independente do apelo ambos eles ansiavam por lutas.

Após terem todos os chefes as suas falanges disposto Lícios e Teucros dum lado os Aquivos e os bravos Mirmídones do outro iniciaram terrível peleja ao redor do cadáver.

Era indizível o estrondo das armas e os gritos dos homens.

Noite funesta Zeus grande estendeu sobre a pugna terrível para que em torno do corpo do filho maior fosse a luta.

Cedem de início o terreno os Aqueus de olhos ágeis dotados quando caiu Epigeu claro filho de Agacles magnânimo que não seria por certo o somenos dos bravos Mirmídones.

Primeiramente em Budeia morava cidade belíssima; quando porém a um dos primos notáveis privou da existência súplice o paço procura do nobre Peleu e de Tétis que juntamente com Aquileu o herói valoroso o mandaram para lutar contra os Teucros nos campos ferazes de Tróia.

Ao pôr a mão no cadáver Héctor valoroso uma pedra no meio da testa lhe atira partindo-lhe em dois a cabeça dentro do casco pesado.

Por cima do corpo de bruços  cai repentino envolvendo-o nessa hora a caligem da Morte.

Pátroclo cheio de dor pela morte do amigo atirou-se por entre as filas dianteiras dos Troas gavião parecendo de rapidíssimo voo ao caçar estorninhos e gralhos: contra os Dardânios e os Lícios assim domador de cavalos Pátroclo heróico irrompeste irritado por causa do amigo.

Logo de início uma pedra pontuda atirou no pescoço de Estenelau de Itemenes nascido e os tendões lhe fractura.

Retrocederam os Teucros da frente e o impecável Héctor.

Quanto percorre um comprido venábulo que um homem robusto joga com o fim de provar seu vigor em compita amigável ou nos combates cruentos premido por tiros do imigo: tanto os Troianos perderam e os fortes Argivos ganharam.

Foi o primeiro a voltar-se o famoso caudilho dos Lícios  Glauco da vida privando a Baticles o herói magnânimo filho de Cálcon; na Hélade um belo palácio possuía e entre os Mirmídones era acatado por suas riquezas.

Glauco virando-se súbito a lança de bronze enterrou-lhe em pleno peito quando ele pensava que iria alcançá-lo.

Estrepitoso caiu; grande dor os Acaios sentiram  ante o destino do herói; rejubilam-se entanto os Troianos e para perto acorreram de Glauco.

Os Aquivos contudo não se esqueceram do próprio valor investindo impetuosos.

Mata Meríones logo a um dos mais distinguidos Troianos Laógono o filho valente de Onétor notável antiste de Zeus Ideu e acatado qual nume imortal pelo povo.

Fere-o por baixo do queixo e da orelha; depressa dos membros a alma lhe sai recobrindo-lhe os olhos as trevas horrendas.

Contra Meríones a hasta de bronze o alto Eneias atira certo de morto prostrá-lo quando ele avançava arnesado.

Este porém que o notara desviou-se da lança brilhante.

Em tempo inclina-se o herói para a frente indo a lança encravar-se no chão por trás do guerreiro ficando a oscilar algum tempo até que Ares forte afinal fez que a força impetuosa perdesse.

A hasta de Eneias assim a oscilar encravou-se na terra após ter partido debalde da mão poderosa do Teucro.

O coração irritado desta arte explodiu o alto Eneias: “Ainda que fosses Meríones hábil na dança meu dardo te deixaria parado se acaso te houvesse atingido.”

Disse-lhe então em resposta o lanceiro famoso Meríones:  “Ainda que sejas Eneias guerreiro de prol não presumas que sempre possas a força apagar dos varões que saírem ao teu encontro na pugna; és também de feitura terrena.

Se em pleno corpo pudesse atingir-te meu bronze afiado posto que sejas robusto e confies no braço tua alma fama dar-me-ia baixando para o Hades de claros ginetes.”

Mas censurando-o lhe diz o alto filho do forte Menécio: “Por que Meríones forte como és perdes tantas palavras? Só com insultos meu caro jamais obteremos que os Teucros soltem o corpo.

Primeiro cobrir há-de a muitos a terra.

Nas reuniões os discursos decidem; nas guerras o braço.

Não fica bem perder tempo em falar –sim lutar com denodo.”

Disse e partiu pelo divo Meríones logo seguido.

Do mesmo modo que ao longe ressoa o barulho dos golpes dos lenhadores nos vales quando árvores grandes abatem: na terra assim de amplas vias soava o clangor da peleja das armas brônzeas dos largos paveses de couro bovino e o ruído seco dos gládios das lanças de dúplices pontas.

Fora impossível embora a indivíduo avisado a Sarpédon reconhecer porque o corpo se achava dos pés até à fronte   completamente coberto de pó de sangueira e de tiros.

Movimentavam-se todos à volta do corpo do mesmo modo que moscas volteiam no estábulo ao redor das vasilhas na Primavera no tempo em que o leite transborda dos tarros.

Dessa maneira apinhavam-se em torno do morto.

Zeus grande não afastava da pugna terrível o olhar penetrante.

E enquanto as fases da luta seguia ocupava-se no íntimo em revolver vários planos acerca da morte de Pátroclo: se deveria ali mesmo na pugna terrível Héctor junto do corpo do divo Sarpédon morto prostrá-lo com sua lança e dos ombros tirar-lhe a armadura brilhante se deixaria que a muitos ainda aprestasse canseiras.

Tendo assim pois reflectido afinal pareceu-lhe mais certo que para os muros de Tróia de novo o escudeiro de Aquileu irresistível levasse as falanges troianas e Héctor de armas de bronze e que a muitos guerreiros da vida privasse.

Frio desânimo logo no peito de Héctor ele insufla que para o carro subindo depressa concita os Troianos a que o imitassem pois vira alterar-se de Zeus a balança.

Nem mesmo os Lícios ousaram ficar muito embora valentes;  todos em fuga se põem ao verem ferido o monarca no coração numa rima de mortos pois muitos sobre ele tinham caído ao tornar Zeus potente mais rija a batalha.

Logo os Argivos tiraram dos ombros do claro Sarpédon a reluzente armadura que o filho viril de Menécio aos companheiros entrega mandando que às naus a levassem.

A Febo Apolo então fala Zeus grande que as nuvens cumula: “Febo dilecto retira Sarpédon logo do alcance dos crebros dardos e o corpo lhe limpa do sangue anegrado na água corrente dum rio em lugar bem distante da pugna; unge-o com óleo divino de roupa imortal o reveste e aos condutores velozes depois encarrega que o levem o Sono e a Morte irmãos gémeos.

Sem perda de tempo estes devem depositá-lo no solo fecundo e sagrado da Lícia onde os irmãos e os parentes exéquias condignas lhe façam com cipo e túmulo as honras devidas a quantos se extinguem.”

Febo mostrou-se obediente ao mandado de Zeus poderoso: do cimo do Ida depressa baixou para a fera batalha; tira do alcance dos dardos o corpo do divo Sarpédon; limpa-o na clara corrente dum rio distante da clade;  unge-o com óleo divino; com roupa imortal o reveste; e aos condutores velozes depois incumbiu que o levassem o Sono e a Morte irmãos gémeos que logo da pugna o tiraram e o depuseram no solo fecundo da Lícia sagrada.

A Automedonte dava ordens entanto e aos fogosos ginetes Pátroclo para que em pós dos Troianos e Lícios seguissem.

Cego! Se houvesse prestado atenção ao conselho de Aquileu provavelmente teria escapado da Morte sinistra.

Mas a vontade de Zeus é mais forte que o arbítrio dos homens pois fácil lhe é pôr em fuga o mais bravo e negar-lhe a vitória ainda que fosse ele próprio que o houvesse a lutar instigado.

Brio desta arte ele agora no peito de Pátroclo inflama.

Qual o primeiro qual o último herói foi por ti despojado Pátroclo quando a morrer te chamaram os deuses eternos? O forte Adrasto primeiro os robustos Autónoo e Equeclo Périmo filho de Megas Epístor o herói Melanipo; Élaso logo depois e Pilartes e Múlio valentes.

A estes matou; os demais se lembraram da rápida Fuga.

E pelo pulso de Pátroclo os Dánaos teriam tomado as altas portas de Tróia tão grandes estragos causava  se Febo Apolo na torre elevada não viesse postar-se na ruína dele a pensar e no amparo aos guerreiros troianos.

Três vezes Pátroclo tenta escalar um dos ângulos da torre alta e bem feita; três vezes Apolo a recuar o compele dando com a mão imortal vários golpes no escudo luzente.

Quando porém pela quarta avançava semelho a um demónio com voz terrível o deus lhe profere as palavras aladas: “Pátroclo germe de Zeus para trás! Não consente o Destino que por teu braço se renda a cidade gloriosa dos Teucros nem por Aquileu herói do que tu muito mais valoroso.”

Pátroclo ouvindo-o recuou muitos passos então donde estava para evitar o rancor do frecheiro infalível Apolo.

Nas portas Ceias Héctor os cavalos robustos deteve a reflectir se devia voltar para a luta de novo ou se aos Troianos dissesse que abrigo nos muros buscassem.

Enquanto assim se encontrava indeciso aparece-lhe Febo sob a feição dum mancebo robusto e no viço da idade –Ásio um dos tios maternos de Héctor domador de cavalos; junto do Rio Sangário na Frígia o palácio construíra de Hécuba irmão e ambos filhos do claro guerreiro Dimante.

Tendo essa forma assumido falou-lhe então Febo o seguinte: “Por que te absténs dos combates Héctor? Não convém que assim faças.

Se te excedesse em vigor quanto em forças realmente me excedes bem ruim te fora nesta hora o deixares o campo da luta.

Vamos! Dirige sem medo os robustos corcéis contra Pátroclo; vê se consegues vencê-lo; é possível que Febo te exalte.”

Para as canseiras dos homens o deus novamente retorna.

O ínclito Héctor a Cebríones disse o cocheiro prudente que chicoteasse os corcéis para a pugna.

Entrementes Apolo se misturara entre a chusma de heróis suscitando nos Dánaos o frio Medo; aos Troianos e a Héctor aprestava alta glória.

Este deixava os Aqueus desprezando tirar-lhes as armas;  só contra Pátroclo os fortes corcéis dirigia ardoroso.

Pátroclo ao vê-lo do carro saltou para o chão; na sinistra a hasta brilhante vibrava; e colhendo com a destra uma pedra branca e pontuda que mal lhe cabia na mão vigorosa após afirmar-se a jogou.

Muito tempo sem alvo não fica nem foi baldado o seu tiro: o projéctil bateu no cocheiro do ínclito Héctor que os corcéis dirigia e que filho bastardo era de Príamo.

Na testa o atingiu o anguloso projéctil.

A sobrancelha arrancou-lhe sem que nem os ossos ao menos o detivessem; na poeira caíram-lhe os olhos sangrentos junto dos pés.

Vem abaixo do carro elegante o guerreiro qual nadador em mergulho; abandona-lhe o espírito os ossos.

Pátroclo o forte ginete a zombar o seguinte lhe disse: “Vejam como ágil é este homem! E como tão fácil mergulha! Certo se acaso estivesse no mar abundoso de peixes e se atirasse da nave para ostras pescar ainda no meio de ondas bravias pudera de facto saciar muita gente: tal a presteza com que ele do carro saltou para o campo!  Mergulhadores de fama por certo entre os Teucros se encontram.”

Após ter falado atirou-se a correr para o claro Cebríones como leão cheio de ira que à Morte conduz a coragem em pleno peito ferido depois de arrasar um rebanho: sobre Cebríones Pátroclo assim te atiraste impetuoso.

Nesse entrementes Héctor do seu carro também já saltara.

Ambos em torno do morto iniciaram terrível peleja como dois leões esfaimados e cheios de ardor que no cimo dum alto monte disputam o corpo da corça abatida: sobre Cebríones lutam desta arte dois fortes guerreiros Pátroclo o filho do claro Menécio e o impecável Héctor ambos querendo ferir o adversário com o bronze funesto.

Pela cabeça o cadáver Héctor segurou sem largá-lo enquanto Pátroclo o aferra do pé.

Os demais combatentes Teucros e Argivos em torno do corpo a lutar continuam.

Como Euro e Noto por vezes em grotas profundas contendem porfiadamente fazendo abalar nas sombrias florestas os cortiçosos cornisos as faias altivas e os freixos e uns contra os outros os galhos compridos se chocam ouvindo-se longe o estralar continuado de quantos no embate se quebram: dessa maneira os Troianos e os Dánaos em fúria acometem sem que nenhum se lembrasse nessa hora da Fuga nociva.

Lanças inúmeras vêm encravar-se ao redor de Cebríones setas aladas sem conta que partem dos arcos recurvos; pedras enormes abolam os fortes escudos de quantos lutam em torno do corpo que jaz num remoinho de poeira em área enorme de todo esquecido de guiar os cavalos.

Enquanto o Sol até ao meio do céu percorria o caminho  cruzam-se dardos de todas as partes e a turba perece; mas quando o Sol se inclinou já no tempo em que os bois vão ser soltos  contra o querer do Destino os Aqueus obtiveram vantagem.

Do mais renhido da luta e do alcance dos dardos o corpo do generoso Cebríones tiram despindo-lhe as armas enquanto Pátroclo cheio de ardor contra os Teucros investe.

Por vezes três acomete como Ares veloz na aparência com grandes urros; nove homens três vezes sem vida ele prostra.

Quando porém pela quarta avançava semelho a um demónio nessa hora Pátroclo aos olhos o termo luziu-te da vida.

No mais aceso da luta saiu contra ti Febo Apolo torvo sem ser pelo herói percebido no meio da chusma pois avançava para ele envolvido em caligem espessa.

Por trás se pondo do herói com a mão espalmada nos ombros e nas espáduas lhe bate causando-lhe aos olhos vertigem; o capacete também Febo Apolo lhe tira; alto ribomba ao rolar pelo chão entre os pés dos cavalos o elmo de quatro saliências manchando-se a crina ondulante de sangue e poeira.

Até então não se havia sujado de terra esse elmo ornado de crina vistosa que o Fado o vedava por proteger a cabeça venusta de Aquileu divino.

Ora deixou Zeus potente que Héctor na cabeça o pusesse  por já estar perto o momento em que o herói perecer deveria.

Na mão de Pátroclo a lança de sombra comprida se quebra grande pesada e robusta com ponta de bronze.

Rompeu-se-lhe o boldrié; cai-lhe o escudo comprido dos ombros robustos e o próprio filho de Zeus Febo Apolo a couraça lhe tira.

O entendimento enturvou-se-lhe; os membros sem força ficaram.

Pára aturdido o guerreiro.

Por trás entre os ombros na espádua de perto a lança lhe enterra um dos cabos dardânios Euforbo filho de Panto que a todos os Teucros equevos vencia na arte de os carros guiar na carreira e no jogo da lança.

Como aprendiz nesse dia ingressara na pugna e já vinte homens sem vida fizera baixar de seus carros de guerra.

Foi esse Pátroclo insigne ginete o primeiro a ferir-te sem que te houvesse prostrado.

Corre ele a ocultar-se entre a chusma após ter a lança de freixo arrancado da chaga; receio tinha de a Pátroclo opor-se apesar de ele estar indefeso.

Enfraquecido com o golpe e a pancada que o deus lhe assestara para as fileiras dos seus recuou procurando salvar-se.

Logo que Héctor percebeu que o magnânimo Pátroclo fora por bronze agudo atingido e que a salvo tratava de pôr-se  por entre as filas cortando achegou-se-lhe e a lança lhe enterra no baixo ventre indo a ponta aguçada nas costas sair-lhe.

Tomba ruidoso causando aflição aos guerreiros acaios.

Do mesmo modo que um leão vence em luta a incansável javardo  quando ardorosos pelejam no cimo dum monte por causa de fonte exígua onde a sede abrasante aplacar ambos querem até que o javardo a ofegar ante a força do leão cai vencido: o ínclito Héctor desse modo de perto com a lança a existência tira do filho do claro Menécio que a muitos matara.

Cheio de júbilo então lhe dirige as palavras aladas: “Pátroclo certo pensavas que havias de as casas pilhar-nos e poderias levar para a Acaia nas naves recurvas nossas mulheres depois de privadas dos dias felizes.

Néscio! Os cavalos velozes de Héctor ainda em sua defesa correm no campo da luta.

Entre os bravos Troianos distingo-me por minha lança que afasta de todos o cruel cativeiro.

De ti no entanto os abutres de Tróia farão bom repasto.

De nada mísero pôde valer-te o Pelida que certo te deu prudentes conselhos na tenda ao mandar-te sem ele: ‘Pátroclo exímio ginete não penses em vir de tornada  para os navios sem teres primeiro rasgado a couraça no próprio peito de Héctor homicida tingindo-a de sangue.

’ Ele por certo assim disse suadindo-te néscio a este ponto.”

Pátroclo nobre ginete em tom débil disseste-lhe ainda: “Jactas-te Héctor deste modo por teres obtido a vitória de Zeus potente e de Apolo que fácil puderam vencer-me pois foram eles que as armas alfim me tiraram dos ombros.

Se tal como és vinte Teucros me houvessem buscado de frente com minha lança aqui mesmo os teria prostrado sem vida.

Mata-me a Moira funesta e o de Leto nascido bem como entre os humanos Euforbo; és somente o terceiro a espoliar-me.

Ora outra coisa te quero dizer guarda-a bem no imo peito: Não tens também muito tempo de vida que já se aproxima de ti o Fado implacável e a sombra da lívida Morte.

Às mãos de Aquileu terás de morrer o impecável Eácida.”

Após ter falado cobriu-o com o manto de trevas a Morte e a alma dos membros saindo para o Hades baixou lastimando a mocidade e vigor que perdera nessa hora funesta.

Para o cadáver voltando-se Héctor o admirável responde: “Por que motivo me fazes agouro tão fúnebre Pátroclo?  Quem nos dirá que o impecável Aquileu o filho de Tétis de belas tranças não venha a morrer por meu gládio ferido?” Após ter falado assentou sobre o morto um dos pés e a hasta longa com toda a força puxou atirando de costas o corpo.

A Automedonte depois se dirige com a lança a apontar-lhe o hábil e divo escudeiro do Eácida o herói velocíssimo pois desejava feri-lo; mas presto os velozes ginetes que os imortais a Peleu tinham dado bem longe o puseram.


 

CANÇÃO XVII

O nobre filho de Atreu Menelau valoroso guerreiro ciência tivera que Pátroclo aos golpes dos Troas caíra.

Corta envolvido de bronze através das fileiras da frente e ao derredor do cadáver se pôs a girar qual novilha inexperiente do parto que muge rodeando o bezerro: o louro Atrida desta arte circunda o cadáver de Pátroclo a defendê-lo mantendo sobre ele o pavês e a hasta longa pronto a sem vida prostrar o inimigo que ousasse antepor-se-lhe.

Não se descuida também do cadáver do herói prestantíssimo o alto Pantóida lanceiro extremado; para ele achegando-se a Menelau valoroso dirige as seguintes palavras: “Filho de Atreu Menelau chefe de homens de Zeus alto aluno deixa o cadáver afasta-te entrega-me o espólio sangrento.

Antes de mim na renhida peleja nenhum dos Troianos ou dos altivos aliados em Pátroclo usou a hasta longa.

Deixa portanto que venha alcançar alta glória entre os Teucros; não se me imponha ferir-te arrancando-te a doce existência.”

O louro Atrida indignado lhe disse o seguinte em resposta: “Não é bonito por Zeus a vanglória a tal ponto exaltada.

Nem a pantera nem mesmo o leão de vigor indomável nem o javardo possante que alberga no peito grande auso os quais conscientes do próprio valor orgulhosos se mostram tanta jactância estadeiam como estes valentes Pantóidas.

De que serviu mocidade e vigor ao preclaro Hiperénor quando me veio esperar para insultos pesados jogar-me? Tinha afirmado que eu era o mais fraco dos homens da Acaia.

Penso porém que não pôde voltar com seus pés para casa aos genitores levando alegria e à dilecta consorte.

Do mesmo modo estou certo hei-de o orgulho abater-te se vieres ora de frente atacar-me.

Aconselho-te aliás a que fujas por entre a turba; arrostar-me não venhas se queres salvar-te enquanto é tempo; somente aos estultos os factos ensinam.”

Não persuadiu Menelau ao Troiano que logo retruca: “Eis o momento progénie de Zeus de pagares a morte do meu irmão acto cruel de que falas com tanta jactância.

Viúva deixaste-lhe a esposa na casa construída de pouco; nos genitores fizeste nascer a vontade do choro; mas lenitivo eu seria aos coitados no luto em que se acham se conseguisse levar-te a cabeça e a armadura brilhante  e no regaço as lançasse de Panto e de Fróntide excelsa.

Não ficará diferido mais tempo este nosso combate  sem que se prove quem deve fugir ou a quem cabe a vitória.”

Tendo isso dito a hasta longa no escudo redondo arremessa sem que o metal o rompesse contudo que a ponta se amolga na resistência do escudo.

Depois Menelau arremessa a sua lança também dirigindo a Zeus grande uma súplica.

E quando Euforbo recuava na base do colo ferindo-o a lança calca de rijo confiado nos nervos do braço.

Do lado oposto do tenro pescoço saiu a hasta aguda.

Tomba estrondoso no solo ressoando-lhe em torno a armadura.

Sangue lhe suja o cabelo que como o das Graças trazia em belos cachos trançados com fios de prata e ouro fino.

Como acontece com broto de tenra oliveira plantado pelo colono em lugar solitário de muita humidade que logo surto admirável adquire –a ramagem os ventos de toda classe a inquietam coberta de brancas florinhas– até que com muitos remoinhos de súbito um vento se eleve que a árvore enfim desarreiga e a projecta estendida no solo: por Menelau desse modo o lanceiro habilíssimo Euforbo  filho de Panto foi morto e da bela armadura espoliado.

Quando o leão que nos montes crescera confiado na força rouba do pasto a mais bela novilha de todo o rebanho –primeiramente lhe quebra a cerviz nas possantes mandíbulas e lacerando-a a seguir todo o sangue e as entranhas lhe chupa– e ao derredor a matilha e os pastores se postam fazendo grande barulho mas sempre de longe sem terem coragem de acometê-lo que o pálido Medo de todos se possa: do mesmo modo nenhum dos Troianos no peito abrigava disposição de enfrentar o glorioso e viril Menelau.

E o louro Atrida sem dúvida as armas do filho de Panto mui facilmente levara se Apolo de inveja movido contra ele Héctor não tivesse incitado o guerreiro preclaro.

Sob a figura de Mentes o chefe dos fortes Cicónios chega-se para o guerreiro e lhe diz as palavras aladas: “É inatingível Héctor o que intentas pegar neste instante: os corredores do Eácida ilustre.

É tarefa muito árdua para os humanos de curta existência forçá-los ao jugo se exceptuarmos Aquileu por deusa imortal concebido.

Perdes o tempo e enquanto isso o viril Menelau de Atreu filho  em torno a Pátroclo a vida a um Troiano eminente cerceia o claro Euforbo Pantóida extinguindo-lhe o ardor belicoso.”

Após ter falado mistura-se o deus no tumulto dos homens.

Grande aflição envolveu a alma nobre de Héctor conturbando-a.

Pelas fileiras o olhar alongando ao Atrida percebe atarefado em tirar a armadura vistosa de Euforbo e este no solo estendido escorrendo-lhe sangue da chaga.

Corta através das fileiras da frente soltando altos gritos  em bronze fúlgido envolto qual chama terrível de Hefestos inextinguível.

Ouviu-lhe o clamor o alto filho de Atreu.

Cheio de angústia ao magnânimo peito falou deste modo: “Pobre de mim! Se abandono estas armas soberbas e Pátroclo que por vingar-me aqui jaz estendido no solo sem vida temo que algum dos Aqueus ao notá-lo de mim escarneça.

Mas se os Troianos e Héctor enfrentar por ceder à vergonha só como estou é certeza ficar pela turba cercado.

O ínclito Héctor para cá traz o exército inteiro dos Troas.

Mas para que coração entregares-te a tais pensamentos? Quem se atrever a lutar desprezando a vontade dos deuses contra um guerreiro que um nume protege à desgraça se atira.

Não poderá censurar-me nenhum dos Acaios guerreiros que vir de Héctor esquivar-me que é certo ampará-lo um dos deuses.

Ah! Se pudesse saber onde Ájax admirável se encontra presto estaríamos ambos de volta a lutar decididos ainda que contra um dos deuses.

Se ao menos levar conseguíssemos para o Pelida o cadáver! Seria menor o infortúnio.”

No coração e no espírito enquanto dessa arte pensava turmas de Teucros armados avançam; Héctor os guiava.

Retrocedendo o cadáver o Atrida deixou; mas amiúde volta a enfrentar o inimigo.

Assemelha-se a leão majestoso que do curral é enxotado por cães entre ladros e tiros e homens dispostos e a mal de seu grado o redil abandona o coração valoroso sentindo no peito angustiar-se-lhe: o louro Atrida desta arte abandona o cadáver de Pátroclo.

Pára ao chegar às fileiras dos seus e virando-se o filho de Télamon sem cessar o admirável Ájax procurava.

No lado esquerdo da crua peleja afinal o divisa a encorajar a companha exortando-a a lutar briosamente que em todos eles Apolo o sagrado Terror infundira.

Corre para ele e alcançando-o lhe disse as palavras aladas:  “Vem caro Ájax; apressemo-nos para onde se acha sem vida Pátroclo; ao menos o corpo levemos para o alto Pelida nu como está porque Héctor despojou-o das armas brilhantes.”

Essas palavras o peito abalaram de Ájax Telamónio que para a frente da pugna correu pelo Atrida seguido.

Após ter despido o cadáver de Pátroclo Héctor o arrastava para poder decepar-lhe a cabeça com o bronze afiado e o corpo assim mutilado jogar para os cães da cidade.

Aproximou-se-lhe Ájax de pavês a alta torre semelho; o ínclito Héctor retrocede acolhendo-se às teucras fileiras; salta depois para o carro mandando que as armas de Pátroclo para Ílion sacra levassem como alto sinal de triunfo.

Com o pavês defendia o cadáver Ájax Telamónio sem trepidar como leoa em defesa de seus cachorrinhos  inexperientes se acaso os conduz pela mata e defronta com caçadores; do grande vigor de pronto ela consciente as sobrancelhas contrai ocultando nas dobras os olhos: em torno assim do cadáver de Pátroclo Ájax se movia.

Pôs-se-lhe ao lado o viril Menelau de Ares forte discípulo em cujo peito a tristeza incessante aumentava angustiando-o.

Glauco nascido de Hipóloco chefe dos Lícios guerreiros com torvo olhar para Héctor dirigindo-se o increpa desta arte: “Com belas formas Héctor te revelas privado de ousio.

Tens muita fama é verdade mas pensas somente na fuga.

De agora em diante procura a cidade amparar como possas com os teus braços e a ajuda somente dos homens de Tróia pois contra os Dánaos não mais lutarão os guerreiros da Lícia ao pé dos muros altivos que paga nenhuma recebem os que sem tréguas se arriscam por vós contra gentes imigas.

Como admitir que te esforces e exponhas no ardor das refregas para salvar os guerreiros obscuros se o claro Sarpédon que foi teu hóspede e amigo abandonas às mãos dos Aquivos? Enquanto esteve com vida servia-te e à cidade de amparo; e ora permites que seja o cadáver aos cães atirado? Por isso tudo se os Lícios me ouvissem a casa voltáramos e a mais terrível catástrofe então sobre Tróia caíra.

Se coração varonil e ousadia os Troianos possuíssem tal como soem mostrar os que a pátria querida defendem contra inimigo tenaz suportando canseiras e lutas já para Tróia teriam levado o cadáver de Pátroclo.

Caso nos fora possível tirá-lo do meio da pugna e para dentro levá-lo da grande cidade de Príamo não só as armas do grande Sarpédon os Dánaos trariam para o resgate; o cadáver também com certeza obteríamos pois era o morto o escudeiro do herói mais prestante de quantos ao pé das naves se encontram; só gente esmerada o acompanha.

Não tens coragem no entanto de Ájax enfrentar valoroso no meio da pugna terrível olhá-lo de frente e com as dele as tuas forças medir por ser ele de muito mais força.”

Com torvo aspecto retruca-lhe Héctor do penacho ondulante: “Glauco por que sendo o que és com tamanha arrogância te exprimes? Que decepção! Sempre tive que fosses o herói mais sensato de quantos moram nas plagas sagradas da Lícia fecunda; mas ora faço juízo mesquinho de ti por dizeres que não me atrevo a enfrentar o terrível Ájax Telamónio.

Nunca tremi nos combates e no meio do fragor dos cavalos.

Mas sempre vence em tudo isso a vontade de Zeus poderoso pois fácil lhe é pôr em fuga o mais bravo e negar-lhe a vitória ainda que lhe haja ele próprio acendido o desejo da luta.

Vem ao meu lado postar-te meu caro e meus actos contempla   para julgares se sou como dizes guerreiro sem préstimo ou se não sei obrigar muitos Dánaos até mesmo os mais fortes a desistirem da pugna ao redor do cadáver de Pátroclo.”

Tendo isso dito os Troianos exorta com voz atroante: “Lícios Dardânios e Teucros viris combatentes de perto sede homens caros amigos e força mostrai impetuosa até que nos ombros eu ponha a armadura brilhante de Aquileu que como espólio adquiri após haver morto a Pátroclo exímio.”

Tendo falado o impecável Héctor do ondulante penacho deixa a batalha funesta.

Depressa com céleres passos os companheiros alcança –não muito distantes se achavam– que para a grande cidade a armadura levavam de Aquileu.

Aí da batalha lugente apartado trocou ele as armas.

Aos belicosos Troianos a sua entregando para Ílion manda que a levem; depois envergou a imortal armadura do grande Aquileu presente que os deuses celestes haviam feito a Peleu; ao chegar à velhice a entregou este ao filho que envelhecer não devia lutando com as armas paternas.

Quando Zeus grande que as nuvens cumula observou do alto Olimpo que ele a armadura brilhante envergara de Aquileu Peleio  move a imponente cabeça e consigo murmura o seguinte: “Mísero sem dedicares nenhum pensamento à funesta Morte que te anda a rondar a armadura imortal envergaste dum valoroso guerreiro de quem todos tremem de medo.

A morte deste ao seu sócio benévolo e forte tirando-lhe por modo indécoro as armas da fronte e das largas espáduas.

Mas por agora farei que consigas obter alta glória em recompensa de ser-te vedado voltar do combate e pois a Andrómaca as armas do claro Pelida entregares.”

As sobrancelhas escuras franziu o alto filho de Cronos.

Fez que a armadura magnífica ao corpo de Héctor se ajustasse.

Ares Eniálio no herói se infundiu invadindo-lhe os membros força e vigor.

Dando gritos de júbilo vai para o meio dos companheiros ilustres aos olhos dos quais parecia na fulgurante armadura o magnânimo Aquileu Peleio.

Corre as fileiras do exército e os sócios ilustres incita: Mesiles e Glauco valentes Medonte depois e Tersíloco Asteropeu o notável ginete Disénor Hipótoo Énomo o ilustre adivinho e por último Forco e o alto Crómio.

Para animá-los profere as seguintes palavras aladas:  “Tribos sem conta de nossos vizinhos e aliados ouvi-me! Não foi por causa do número ou para vos ter ao meu lado que vos chamei das cidades nativas e aqui vos conservo; mas para que de bom ânimo as teucras esposas e os filhos nos defendêsseis do ataque dos fortes guerreiros acaios.

Por isso esgoto o meu povo exigindo alimentos e dádivas  para que todos possais lutar sempre com zelo extremado.

Sem vacilar pois deveis atirar-vos de encontro ao inimigo para viver ou morrer que esta é a sorte de toda batalha.

Quem conseguir arrastar para Tróia o cadáver de Pátroclo e o Telamónio obrigar a afastar-se metade do espólio de minhas mãos obterá; para mim há-de ser a outra parte.

Honras iguais há-de ter no alto feito desta arte comigo.”

Todos então após ouvi-lo se atiram de encontro aos Acaios lanças no reste afagando no peito a esperança de ser-lhes fácil a Ájax Telamónio arrancar o cadáver de Pátroclo.

Néscios! que a muitos devia ele a vida tirar sobre o morto.

Vira-se Ájax para o Atrida de voz atroante e lhe fala: “Ó dilectíssimo aluno de Zeus Menelau não presumo que consigamos com vida escapar da batalha funesta.

Não tanto cuido me causa o destino do corpo de Pátroclo que vai servir de alimento aos cachorros e abutres de Tróia como o perigo receio que sobre a cabeça nos pende pois o bulcão das batalhas Héctor em redor tudo cobre.

É manifesto que a Morte funesta de nós se aproxima.

Chama os heróicos Aqueus é possível que alguém nos escute.”

De boamente obedece-lhe o herói Menelau glorioso; com voz possante chamou pelos fortes guerreiros aquivos: “Vós conselheiros e guias dos fortes Acaios ouvi-me quantos à custa do povo bebeis nos banquetes dos claros filhas de Atreu e exerceis sobre vossos soldados o mando vós a quem Zeus poderoso honra e glória perene concede! É-me impossível andar à procura um por um dos caudilhos tal é o furor com que a chama da guerra por tudo se alastra.

Vinde espontâneos; revolta no peito abrigai ante a ideia de se atirar o cadáver de Pátroclo aos cães dos Troianos.”

Mui claramente chegou aos ouvidos de Ájax esse apelo filho de Oileu que muito antes dos outros correu para a pugna.

Idomeneu vem depois e Meríones fiel companheiro que tinha de Ares funesto a figura exterior e a imponência.

A quem seria possível no entanto nomear de memória os que acorreram depois reanimando a batalha dos Dánaos? Densos os Teucros avançam; comanda-os Héctor valoroso.

Como na foz majestosa dum rio por Zeus engrossado ondas ingentes se chocam de encontro à corrente e ribombam ambas as margens cobertas de espuma do mar incansável: toa dos Teucros assim a avançada.

Os Aquivos entanto com um só ânimo à volta se postam do corpo de Pátroclo por trás dos brônzeos escudos.

Em torno dos elmos brilhantes o grande filho de Cronos caligem espessa derrama pois jamais ódio tivera ao viril Menecíada enquanto com vida esteve e serviu de escudeiro ao divino Pelida.

Desagradava-lhe ser o cadáver aos cães atirado.

Os companheiros do morto por isso excitou para a luta.

Logo de entrada os Troianos fizeram que os Dánaos cedessem os quais deixando o cadáver se põem a correr; nenhum deles foi perseguido apesar do desejo que aos Teucros anima que logo tratam de o corpo arrastar.

Pouco tempo contudo longe os Acaios não ficam que Ájax retornar os fez logo o mais valente e o mais belo de todos os Dánaos guerreiros  se exceptuarmos apenas o herói impecável Aquileu.

Corta por entre as fileiras da frente semelho em possança a javali que nos montes cachorros e moços dispersa mui facilmente ao voltar-se para eles no espesso das matas: o grande Ájax Telamónio consegue espalhar desse modo as formações adensadas dos fortes guerreiros troianos que se encontravam à volta do corpo de Pátroclo certos de para Tróia o arrastarem e fama alcançarem perene.

O incomparável Hipótoo Pelasgo de Leto nascido para tornar-se agradável a Héctor e aos Troianos o corpo já pelo campo arrastava seguro no pé pelo bálteo que em torno aos fortes maléolos atara.

Mas logo desgraça lhe sobreveio da qual nenhum Teucro o livrou: o alto filho de Télamon apressado cortando por entre os guerreiros de perto a lança lhe mete pelo elmo de faces de bronze.

O elmo comado se rompe ao redor da hasta longa e pontuda ante a violência do golpe vibrado por destra robusta: cérebro ao longo do caule da lança escorreu misturado com sangue vivo; extinguiu-se-lhe a força; das mãos do guerreiro o pé de Pátroclo exímio escapou contra o solo batendo.

Sobre o cadáver também cai de bruços o forte Troiano longe da fértil Larissa sem ter tido tempo de aos velhos recompensar os cuidados que com ele tiveram pois breves foram seus dias.

A lança de Ájax o privou da existência.

O ínclito Héctor contra Ájax atirou a hasta longa e pontuda; este porém que o notara consegue ainda em tempo desviar-se indo a arma brônzea encravar-se em Esquédio notável Focense de Ífito claro nascido que tinha na célebre Pânope bela morada exercendo o comando em guerreiros inúmeros.

No alto do peito o atingiu na clavícula o dardo certeiro indo sair o inquebrável hastil do outro lado sob o ombro.

Tomba ruidoso o guerreiro ressoando-lhe em torno a armadura.

Forco nascido de Fénope foi por Ájax atingido em pleno ventre ao tentar defender o cadáver de Hipótoo.

Rompe-se a chapa da coira enterrando-se o bronze nas vísceras.

Ei-lo que tomba na poeira apertando nas mãos o chão duro.

O ínclito Héctor e os Troianos que estavam na frente recuaram.

Com grandes gritos então os Acaios os corpos arrastam  de Forco e Hipótoo despindo-os depressa das armas brilhantes.

E porventura os Troianos teriam para Ílion fugido  sob a pressão dos Acaios valentes em franco desânimo glória perene cedendo aos Aquivos mau grado Zeus grande graças à força nativa se Apolo frecheiro não viesse ao grande Eneias falar sob a forma do herói Perifante filho de Epítio arauto notável de bons sentimentos que envelhecera a serviço do pai venerando daquele.

Febo nascido de Zeus transmudado lhe disse o seguinte: “Como é possível Eneias salvar Ílion excelsa conquanto a isso se oponha Zeus grande? A outros homens já vi certamente que só no ardor e denodo confiados bem como na cópia de seus guerreiros até contra Zeus seus domínios salvaram.

Ora apesar de connosco estar Zeus e aos Aquivos infenso vejo que todos de medo fugis; ninguém fica na luta.”

Reconheceu logo Eneias o deus que de longe asseteia após ter-lhe visto as feições.

A gritar para Héctor se dirige: “Ínclito Héctor e vós outros caudilhos dos Teucros e aliados grande vergonha há-de ser o fugirmos para Ílion sagrada ante os Aqueus valorosos vencidos por nossa fraqueza.

Mas para mim achegando-se há pouco um dos deuses me disse que Zeus o máximo juiz ora se acha do lado dos Teucros.

Contra os Aqueus atiremo-nos pois; não lhes seja mui fácil para os navios escuros levar o cadáver de Pátroclo.”

Isso disse ele e dum pulo alcançou logo um posto dianteiro.

Voltam os Teucros então a enfrentar os guerreiros da Acaia.

Logo de entrada a Leócrito Eneias feriu com sua lança de Licomedes o sócio e do heróico Arisbante nascido.

Vendo-o no chão Licomedes sentiu apertar-se-lhe o peito e para perto achegando-se atira a hasta longa e brilhante que em Apisáon Hipásida chefe preclaro se encrava sob o diafragma no fígado as forças dos joelhos tirando-lhe.

Viera o guerreiro da Peónia região de ferazes campinas; se a Asteropeu exceptuarmos era ele o mais forte dos Peónios.

Asteropeu vendo-o morto sentiu apertar-se-lhe o peito e contra os Dánaos também se dispôs a lutar denodado sem conseguir vulnerá-los que em volta do corpo de Pátroclo lanças em riste se achavam por trás da muralha de escudos.

O grande Ájax percorria as fileiras dando ordens diversas sem consentir que os Aquivos o corpo deixassem nem ainda que se adiantassem no afã de altos feitos então realizarem.

Sim todos juntos deviam lutar ao redor do cadáver.

Essas as ordens de Ájax o gigante; empapava-se a terra de negro sangue caindo sem vida os guerreiros em barda tanto do lado dos Teucros e seus valorosos aliados como dos Dánaos porque estes também não lutavam sem perdas.

Mas em menor quantidade morriam que a todos lembrava sempre na luta uns aos outros dos riscos da morte ampararem-se.

Como edaz fogo a batalha fervia; teríeis pensado que tanto o Sol como a Lua não mais no éter puro brilhavam; densa neblina envolvia realmente os preclaros guerreiros que sem cessar combatiam à volta do corpo de Pátroclo.

Os demais Teucros e os fortes Aquivos de grevas bem feitas com o céu sereno lutavam sem peias que o Sol irradiava fúlgida luz sem que nuvem nenhuma pairasse por sobre montes e vales.

No embate porém permitiam-se pausas e de distância prudente evitavam ser alvo das setas dos inimigos.

No centro porém grandemente sofriam a acção da densa neblina e dos dardos de bronze impiedosos os mais prestantes heróis.

Trasimedes apenas e Antíloco dois extremados guerreiros até esse momento não tinham tido notícia da morte de Pátroclo excelso.

Julgavam  que ainda se achasse com vida a lutar nas fileiras da frente.

Ambos à parte lutavam da morte e da fuga amparando os companheiros desde a hora em que o Pílio Nestor dos navios de bojo escuro os enviara a tomar parte activa na pugna.

Para os demais entretanto que à volta do corpo lutavam do fiel e bom escudeiro do Eácida exímio o combate o dia todo durava escorrendo-lhes suor abundante dos fortes joelhos que as pernas e os pés lhes banhava; de poeira sujas as mãos eles tinham as faces e os olhos brilhantes.

Tal como quando um senhor aos seus homens ordena que espichem um belo couro de boi onde muita gordura pusera e eles em círculo postos de todos os lados o esticam e em pouco tempo a humidade se esvai penetrando na gordura graças ao esforço de tantos que a pele bem tensa alfim deixam: de ambos os lados assim o cadáver puxavam de Pátroclo em reduzido terreno esperando os Troianos levá-lo para a cidade espaçosa de Príamo e os Dánaos guerreiros para os navios bojudos.

Selvagem tumulto se eleva.

Nem Ares forte que os povos excita nem Palas Atena mesmo que irados se os vissem nenhuma censura fariam.

Esses os graves trabalhos que Zeus em tal hora estendera sobre o cadáver de Pátroclo.

Ao divo Pelida a notícia ainda não tinha chegado da morte do amigo dilecto que muito longe das naus se travava a terrível peleja sob as muralhas de Tróia.

Não cria portanto que morto ele se achasse mas vivo e que logo de ao pé da cidade retornaria pois não suspeitava que seu escudeiro nem por si só nem com ele pudesse jamais expugná-la que ser empresa impossível a mãe muita vez lhe dissera quando dos grandes decretos de Zeus só com ele falava.

Nada porém lhe contara a respeito da grande desgraça que se acabava de dar do trespasso do amigo extremado.

Matam-se entanto sem pausa ao redor do cadáver os Teucros e os fortes Dánaos armados de lanças de cúspide afiada.

Um dos Aquivos de vestes de bronze desta arte se exprime: “Mui vergonhoso será meus amigos buscarmos refúgio nas naus simétricas; é preferível que a terra nos trague antes que tal aconteça.

Fora isso melhor para todos que consentirmos levarem o corpo os valentes Troianos para a cidade murada alcançando com isso alta glória.”

Por modo idêntico fala também um dos Teucros magnânimos: “Caros amigos ninguém abandone seu posto ainda mesmo que tenha a Moira assentado que todos morrer aqui vamos.”

Os companheiros desta arte excitar eles todos procuram.

Dessa maneira prosseguem; o estrépito férreo das armas até ao céu brônzeo subia pelo éter vazio e infrutuoso.

Os dois cavalos do Eácida à parte da luta choravam desde que tinham sabido que o seu condutor se encontrava no duro chão pelos golpes de Héctor homicida prostrado.

Em vão procura excitá-los fazendo vibrar o chicote Automedonte o valente cocheiro de Diores nascido ora empregando expressões de carinho ora termos severos.

Eles porém nem queriam voltar para o vasto Helesponto nem para o meio da pugna onde os fortes Aqueus se encontravam.

Do mesmo modo que firme se eleva uma bela coluna na sepultura dum ente querido mulher ou mesmo homem: eles imóveis assim junto ao carro magnífico estavam com a cabeça inclinada.

Dos cílios a fluxo lhes corriam lágrimas quentes.

No jugo o trespasso do auriga bondoso ambos choravam saudosos pendendo-lhes da alva coleira  sujas as crinas outrora vistosas que ao solo tocavam.

Vendo-os chorar apiedado sentiu-se o alto filho de Cronos e sacudindo a cabeça consigo desta arte conversa: “Pobres criaturas! Por que sendo isentas do Tempo e da Morte ao soberano Peleu que é mortal tive a ideia de dar-vos? Para que viésseis também a sofrer da miséria dos homens? Tão infeliz quanto os homens não há ser algum por sem dúvida entre os que vivem na face da terra e sobre ela se movem.

Não deixarei entretanto que seja no carro magnífico por vós Héctor triunfalmente levado o alto filho de Príamo.

Pois não lhe basta a armadura que tanta vanglória lhe causa? Na alma e nos joelhos tamanho vigor vou fazer que vos nasça que a Automedonte possais da refrega salvar conduzindo-o para os navios recurvos pois ainda pretendo aos Troianos dar muita glória até que eles consigam chegar aos navios quando descer o Sol fúlgido e as Trevas sagradas baixarem.”

Tendo isso dito vigor singular inspirou nos ginetes os quais sacodem a poeira da crina levando velozes por entre os Teucros e os Dánaos o carro de bela feitura.

Tal como abutre entre gansos no meio dos Teucros se arroja  Automedonte apesar de enlutado com a morte do amigo ora fugindo das filas compactas das hostes imigas ora de novo atirando-se contra as falanges dos Teucros.

Mas não matava ninguém muito embora encalçasse muitíssimos por ser de todo impossível sozinho no carro sagrado os ardorosos corcéis dirigir e vibrar a hasta longa.

Foi finalmente notado por um dos fiéis companheiros Alcimedonte nascido de Laerces viril filho de Hémon que veio atrás colocar-se do carro e lhe disse o seguinte: “Automedonte que deus te inspirou tão inútil propósito no coração despojando-te assim da prudência consueta para que intentes sozinho atacar as fileiras troianas? Teu companheiro foi morto e a brilhante armadura do neto de Éaco se acha nos ombros de Héctor o alto filho de Príamo.”

Automedonte de Diores nascido lhe disse em resposta: “Alcimedonte qual dentre os Aqueus dirigir poderia estes corcéis imortais e no jugo domar-lhes a fúria a não ser Pátroclo enquanto viveu o guerreiro prestante de senso olímpico e tu? Ora a Morte privou-nos de Pátroclo.

Faz então uso do açoite e das rédeas de bela feitura  que vou descer por que possa de jeito enfrentar o inimigo.”

Alcimedonte dum pulo subiu para o carro tomando com decisão do chicote e das rédeas de lúcido aspecto; Automedonte saltou; o alto Héctor percebeu logo tudo; vira-se então para Eneias que perto lhe estava e lhe fala: “Príncipe Eneias mentor dos Troianos de vestes de bronze por condutores de pouca experiência guiados acabo de distinguir os cavalos de Aquileu de pés velocíssimos.

Tenho esperança de vir a tomá-los se acaso quiseres nesta entrepresa ajudar-me.

Nenhuma coragem por certo demonstrarão os aurigas se contra eles dois nos jogarmos.”

Obediente mostrou-se ao conselho o alto filho de Anquises.

Ambos então se adiantaram com as largas espáduas envoltas em couros secos de boi recobertos por fúlgido bronze.

Vieram juntar-se-lhes Crómio guerreiro notável e Areto de forma igual à dos deuses pensando que fácil lhes fosse os dois aurigas matar e arrastar os corcéis indomáveis.

Néscios! Sem perda de sangue escapar impossível lhes fora de Automedonte que a Zeus fervoroso dirige uma súplica logo sentindo vigor nas entranhas escuras estuar-lhe.

Volta-se então para o fiel companheiro e lhe diz o seguinte: “Alcimedonte afastados de mim não conserves os brutos;  quero sentir-lhes o bafo nas costas pois tenho certeza de que não há-de o alto filho de Príamo Héctor refrear o ímpeto com que ora vem contra nós sem primeiro ou tirar-nos a vida e para o carro de Aquileu divino subir espalhando entre os Aqueus o terror ou lutando cair na dianteira.”

Após ter falado em voz alta chamou Menelau e os Ájaxes: “Ínclitos chefes aquivos Ájaxes e tu Menelau ora entregai a defesa do morto aos Aquivos mais fortes que possam firmes rodeá-lo livrando-o do assalto inimigo e de nós dois que vivemos o dia afastai do extermínio pois aqui fazem pressão na batalha de prantos fecunda os mais temíveis guerreiros troianos Héctor e o alto Eneias.

As consequências porém ainda se acham nos joelhos dos deuses.

Vou denodado atacar; aos cuidados de Zeus fica o resto.”

Tendo isso dito jogou a hasta longa de sombra comprida que foi bater bem no meio do escudo redondo de Areto.

Não resistiu nada o escudo; a hasta brônzea saiu da outra banda e tendo o cinto passado no ventre do herói foi cravar-se.

Do mesmo modo que um jovem com bem afiada secure por trás um golpe desfere entre os cornos dum touro selvagem e os tendões corta abatendo-se o touro dum pulo no solo: cai ressupino desta arte o guerreiro ainda tendo nas vísceras a hasta pontuda a vibrar que lhe as forças dos membros dissolve.

A Automedonte Héctor visa atirando-lhe o dardo brilhante; este porém que o notara consegue desviar-se do bote.

Em tempo inclina-se o herói para a frente indo a lança encravar-se no solo atrás do guerreiro ficando a oscilar algum tempo até que Ares forte fizesse que a força impetuosa perdesse.

E ambos então se teriam à espada de perto agredido se no mais árduo da pugna apartar não os viessem os Ájaxes por entre a chusma dos seus acorrendo ao apelo do amigo.

Para as fileiras dos Teucros recuaram tomados de medo Crómio semelho a um dos deuses eternos Héctor o alto Eneias abandonando o cadáver de Areto com a lança fincada no coração.

A armadura brilhante tirou-lhe dos ombros Automedonte veloz que se jacta do feito exclamando: “Ainda que seja um guerreiro somenos a queda deste homem me desafoga algum tanto da dor pela morte de Pátroclo.”

Após ter falado a armadura cruenta coloca no carro para onde logo subiu tendo os pés e as mãos fortes cobertos de negro sangue qual leão que uma rês devorado tivesse.

Trava-se mais uma vez temerosa e lugente batalha em volta do corpo de Pátroclo; Atena do céu logo desce para excitar a peleja e auxiliar os Aquivos por parte do pai atroante que tinha mudado outra vez de desígnio.

Tal como o arco-íris purpúreo que Zeus para os homens distende  no firmamento sinal portentoso de guerra impiedosa ou tempestade seguida de frio tão grande que obriga a interromper os trabalhos do campo e contrista os rebanhos: da mesma cor era a nuvem que a Palas Atena envolvia quando ela à turba dos Dánaos baixou para o brio espertar-lhes.

A Menelau valoroso em primeiro lugar se dirige o nobre filho de Atreu –por estar-lhe mais perto que os outros– após ter a voz de Fénix incansável e a forma assumido: “Humilhação e vergonha viril Menelau por sem dúvida hás-de sentir se rasgarem os cães sob os muros de Tróia o companheiro prestante de Aquileu de pés mui velozes.

Vamos! Confirma teu prisco valor e os guerreiros exorta!” Vira-se então Menelau de voz forte e lhe diz o seguinte: “Ó venerável Fénix se Palas Atena quisesse força infundir-me nos membros dos dardos do imigo amparando-me decidir-me-ia a ficar defendendo o cadáver de Pátroclo pois sua morte me causa indizível angústia no peito.

Mas esse Héctor se assemelha a uma chama voraz não cessando de dizimar nossos homens que Zeus lhe concede alta glória.”

A de olhos glaucos Atena sentiu-se deveras contente por ver que fora invocada em primeiro lugar pelo Atrida.

Força incontida nos joelhos nas largas espáduas lhe infunde pondo-lhe a audácia da mosca teimosa no peito que volta vezes e vezes sem conta a picar-nos embora com afinco seja enxotada que o sangue dos homens mui doce lhe sabe: de igual audácia as entranhas escuras a deusa lhe infunde.

Pondo-se junto de Pátroclo o dardo luzente desfere.

Entre os Troianos achava-se Podes o filho de Eécion rico e valente guerreiro que Héctor mais que a todos prezava entre os do povo por ser-lhe comparsa mui grato nas festas.

O louro Atrida no cinto o atingiu no momento em que estava para fugir trespassando-lhe o corpo a hasta longa de bronze.

Estrepitoso caiu; logo o Atrida o cadáver retira de entre os Troianos levando-o para onde os consócios se achavam.

Aproximou-se de Héctor Febo Apolo com o fim de animá-lo sob a aparência de Fénope de Ásio nascido dos hóspedes o mais prezado que belo palácio em Ábidos possuía.

Tendo essa forma assumido lhe disse o frecheiro infalível: “Qual dos Aquivos Héctor de ora avante haverá de temer-te se Menelau que até então tinha fama de ruim combatente medo a esse ponto te causa? Sozinho tomar ele pôde dos Teucros todos o corpo de Podes teu fiel companheiro filho de Eécion que sem vida tombou nas fileiras da frente?” Nuvem de dor envolveu a alma nobre do chefe troiano que para a frente da pugna avançou revestido de bronze.

A égide então resplendente de franjas ornada agitando  Zeus poderoso o Ida augusto de nuvens escuras envolve e fuzilando contínuo e troando terrível os Teucros para a vitória estimula infundindo terror nos Aquivos.

Foi o primeiro a fugir Peneleu cabo excelso dos Beócios quando se viu no alto do ombro ferido ao lutar na dianteira; Polidamante o atacou bem de perto; riscou-lhe de leve  o osso a hasta aguda de bronze depois de esflorar-lhe a epiderme.

O ínclito Héctor mete a lança de perto no corpo de Lito filho viril de Alectríon obrigando-o a afastar-se da luta.

Foge angustiado o guerreiro; esguardando em redor afigura-se-lhe que nunca mais poderia vibrar contra os Teucros a lança.

Vendo que Héctor lhe saíra no encalço a hasta longa atirou-lhe Idomeneu indo o bronze atingi-lo bem perto do seio mas na coiraça partiu-se; os Troianos em gritos prorrompem.

O ínclito Héctor por sua vez joga a lança no heróico Deucálida que se encontrava no carro de pé; mas errando-o por pouco foi em Cerano encravar-se o hastil longo do forte Meríones o inseparável cocheiro que viera de Licto altanada.

Idomeneu saíra a pé dos navios no encalço dos Teucros; e porventura alta glória aprestara aos guerreiros troianos se para perto Cerano os corcéis não houvesse trazido.

Foi-lhe o escudeiro sem dúvida luz salvadora nessa hora mas sob o golpe de Héctor homicida perdeu a existência que sob a orelha o feriu na maxila arrancando-lhe os dentes e atravessando-lhe a língua a hasta brônzea de sombra comprida.

Tomba o guerreiro deixando que as rédeas ao solo caíssem  as quais Meríones logo inclinando-se apanha de novo; e a Idomeneu dirigindo-se diz-lhe as palavras aladas: “Faz uso agora do látego até que aos navios cheguemos; tu próprio vês que a vitória não mais com os Aquivos se encontra.”

Idomeneu toca os brutos depressa seguindo-lhe o alvitre para os navios recurvos que o Medo no peito lhe entrara.

Não escapou ao magnânimo Ájax e ao viril Menelau que Zeus havia mudado e que aos Teucros agora amparava.

Vira-se Ájax para o Atrida e lhe diz as seguintes palavras: “Deuses! Até mesmo as pessoas mais simples decerto veriam que o próprio Zeus é que está protegendo os guerreiros troianos pois sempre acertam seus tiros quer partam das mãos de covardes quer das de heróis destemidos que Zeus os dirige para o alvo.

Todos os nossos no entanto frustrâneos no solo se espalham.

Consideremos agora qual seja o recurso mais certo para podermos livrar o cadáver e assim retirarmo-nos salvos da pugna terrível levando alegria aos amigos que para cá certamente angustiados se voltam julgando ser impossível sustar as mãos fortes de Héctor impedindo que assoladoras se abatam em nossos navios escuros.

Ah se nos fosse possível mandar para o claro Pelida com muita urgência um recado! Porque ele estou certo ainda ignora de todo a triste notícia da morte do amigo dilecto.

Mas distinguir não consigo ninguém apropriado para isso pois os cavalos e os homens espessa neblina os envolve.

Zeus poderoso liberta os Acaios das trevas que os cercam! O firmamento serena concede-lhes luz para os olhos! Morram se assim te é agradável mas que isso se passe no claro!” Por esse modo falou.

Apiedado Zeus pai do seu pranto a escuridão logo desfez dissipando a neblina funesta.

Brilha o Sol claro; a batalha de pronto visível se torna.

Vira-se Ájax para o Atrida de voz atroante e lhe fala: “Vê Menelau se descobres ainda com vida entre os Dánaos o claro Antíloco filho do velho Nestor de Gerena para que a Aquileu prudente sem perda de tempo transmita a triste nova da morte do amigo entre todos dilecto.”

De boamente obedece-lhe o herói Menelau glorioso e se afastou como um leão que do estábulo alfim se retira lasso de cães enfrentar e pastores no curso da noite que não lhe dão azo algum de saciar-se nas pingues vitelas.

Esfomeada acomete contudo bem vezes a fera sem conseguir coisa alguma que mãos vigorosas contra ela abrasadores tições arremessam e dardos pontudos o que lhe infunde algum medo apesar da coragem nativa; na alba afinal se retira sentindo angustiar-se-lhe o peito: dessa maneira se afasta do corpo de Pátroclo o Atrida a seu mau grado pois tinha receio que os homens da Acaia do frio medo vencidos o corpo ao imigo entregassem.

Com os Ájaxes por isso e Meríones fala insistente: “Ínclitos chefes aquivos Ájaxes valente Meríones ora a vós todos compete lembrar o boníssimo Pátroclo esse infeliz que se fez tão amado de todos nós outros enquanto vivo e ora vítima se acha da Moira funesta.”

O louro Atrida depois de falar se pôs logo em caminho a examinar cuidadoso de todos os lados como a águia a ave assim dizem de mais penetrante visão que ainda mesmo quando muito alto se encontre distingue uma lebre ligeira dentro de moita frondosa escondida; sobre ela caindo súbito a apanha e lacera privando-a da cara existência: o mesmo ó aluno de Zeus com teus olhos fulgentes se dava  que pela turba dos homens aquivos passavam tentando ver se vivia ainda entre eles o insigne o preclaro Nestorida.

Subitamente o enxergou na ala esquerda da fera batalha a reanimar os Aqueus incitando-os a entrar em combate.

O louro herói Menelau foi postar-se-lhe perto e lhe disse: “Vem para cá nobre Antíloco aluno de Zeus para que ouças  uma notícia bem triste –prouvera que fosse inverdade.

Tu próprio aliás poderás convencer-te se a vista lançares para o combate que Zeus sobre os Dánaos desgraças cumula e dá a vitória aos Troianos.

Morreu o melhor dos Aquivos Pátroclo.

É imenso o pesar que a nós todos nos punge nesta hora.

Corre até às naus dos Acaios e a Aquileu a nova transmite para que venha com pressa salvar pelo menos o corpo nu como se acha que Héctor o espoliou da armadura brilhante.”

Estarrecido a notícia deixou ao Nestorida ilustre; por algum tempo não pôde falar; marejaram-lhe lágrimas nos belos olhos; a voz lhe ficou embargada de todo.

Mas ainda assim não lhe esquece a incumbência que o Atrida lhe dera.

Logo se pôs a correr tendo as armas a Laódoco entregue o companheiro preclaro que perto os cavalos refreava.

Da sanguinária batalha o arrebatam os pés velocíssimos e ele a chorar leva a infausta notícia ao divino Pelida.

Não permitiu Menelau teu viril coração que em defesa dos afanosos guerreiros de Pilos ficasses mais tempo ainda que muito sentissem a ausência do chefe preclaro.

À direcção entregando-os segura do herói Trasimedes volta de novo a correr para junto do corpo de Pátroclo.

Quando os Ájaxes alcança lhes diz sem rodeios o Atrida: “Já foi enviada notícia do facto aos navios velozes para o Pelida de rápidos pés o saber.

Mas não creio que venha o herói auxiliar-nos por mais que ódio a Héctor o arrebate.

Não lhe seria possível sem armas lutar contra os Teucros.

Consideremos agora o partido melhor e exequível para tomarmos aos Teucros o corpo de Pátroclo exímio e nos livrarmos da clade horrorosa escapando da Morte.”

O grande Ájax Telamónio lhe disse em resposta o seguinte: “Com muito juízo e prudência viril Menelau discorreste.

Vamos abaixa-te agora auxiliado pelo alto Meríones e com presteza retira o cadáver da pugna terrível que nós atrás haveremos de opor-nos a Héctor e aos Troianos.

Pois habituados já estamos a o risco enfrentar dos combates; temos idêntico nome e sentir também temos idêntico.”

Com destemor os dois chefes então segurando o cadáver no alto o elevaram.

Em grande alarido os Troianos prorrompem ao perceberem que os Dánaos o corpo dali transportavam.

Contra eles todos carregam no jeito de cães animosos que aos caçadores se adiantam em pós dum javardo ferido.

Vão-lhe no encalço a princípio querendo em pedaços fazê-lo; mas quando a fera confiada na força para eles se vira a caniçalha a tremer para todos os lados dispara: dessa maneira até então os Troianos em massa apertavam os inimigos a golpes de espadas e lanças pontudas;  mas quando os dois formidáveis Ájaxes se voltam para eles pálidos todos se mostram nenhum revelando coragem de prosseguir na disputa do corpo de Pátroclo exímio.

Dessa maneira o cadáver tiravam da pugna levando-o para os navios.

À volta de todos se inflama a peleja tal como incêndio selvagem que súbito se alça em cidade de homens industres derruindo edifícios no meio da imensa flama que os ventos furiosos atiçam num crebro estralido:  do mesmo modo cavalos e peões num tumulto incessante dificultavam a marcha dos dois valorosos Aquivos.

Como dois mulos robustos usando do máximo esforço trazem por ínvias picadas no espesso dos montes um tronco ou viga excelsa para uso das naves e o suor e a fadiga o coração lhes oprime no afã de o caminho vencerem: ambos assim o cadáver carregam.

Atrás se conservam os dois Ájaxes e os Teucros detêm como dique sombreado que numa linha contínua na extensa planície represa a água impetuosa estuante dos rios de curso revolto e lhes desvia a corrente espalhando-os no plaino fecundo sem que o volume das águas consiga romper a barreira: os dois Ájaxes assim aos Troianos valentes detinham; estes contudo insistiam mormente os dois chefes Eneias filho de Anquises e Héctor o guerreiro do belo penacho.

Como debanda uma nuvem de gralhos com gritos atroantes ou de estorninhos bulhentos se ao longe um gavião é notado cuja presença é sinal da ruína das aves pequenas do mesmo modo ante Eneias e Héctor os guerreiros aquivos de combater esquecidos com gritos atroantes debandam.

Não poucas armas formosas dos Dánaos que à fuga se entregam rolam no fosso; prossegue a peleja com fúria crescente.


 

CANÇÃO XVIII

Enquanto a luta prossegue qual chama voraz chega Antíloco de pés velozes a Aquileu levando a notícia funesta.

Este se achava sentado ante as naves de popas erectas a pressentir no imo peito a desgraça de havia ainda pouco.

Cheio de angústia ao magnânimo peito falou deste modo: “Céus! Que significa os Aquivos de belos cabelos cortarem dessa maneira a planície à procura das naves recurvas? Não seja o caso de os deuses haverem cumprido a desgraça por minha mãe anunciada ao dizer que ainda vivo na terra de contemplar a luz clara do Sol deixaria o mais forte dos valorosos Mirmídones pelos Troianos vencido.

Provavelmente morreu o alto filho do grande Menécio.

Louco! Ordenei-lhe que para os baixéis regressasse logo que o fogo extinguisse sem vir com Héctor a bater-se.”

No coração e no espírito enquanto desta arte pensava aproximou-se-lhe o filho preclaro do velho Neleio que a derramar quentes lágrimas disse as palavras funestas: “Nobre e prudente Pelida é forçoso que nova bem triste tenhas agora de ouvir – oh prouvera que fosse inverdade–  Pátroclo a vida perdeu; ferve a luta ao redor do cadáver nu como se acha que Héctor o espoliou da armadura brilhante.”

Nuvem de dor envolveu a alma nobre do grande Pelida que tendo terra anegrada tomado nas mãos a derrama pela cabeça desta arte as graciosas feições afeando.

De cinza escura manchado também fica o manto nectáreo.

Logo na poeira se estende ocupando grande área no solo e os ondulados cabelos com ambas as mãos arrepela.

Vendo-o as escravas que Aquileu e Pátroclo haviam presado mestas em altos lamentos prorrompem e a tenda deixando vieram cercar o prudente Pelida.

A punhadas os seios todas contundem sentindo que a força dos joelhos lhes falta.

Chora também o Nestorida ilustre apertando entre as suas as mãos de Aquileu que fundos lamentos no peito agitava visto recear que ele o tenro pescoço com o ferro cortasse.

Solta gemidos terríveis; ouviu-os a mãe veneranda das profundezas do mar onde ao lado do pai se encontrava.

Em altos gritos prorrompe; cercaram-na logo afanosas todas as deusas nereides que o fundo do mar habitavam.

Glauce e Talia chegaram Cimódoce a amiga das ondas  logo seguidas de Espio e Neseia de Toe e de Halia de olhos bovinos Acteia e Cimótoe numa onda mais célere  mais Iera Anfítoe Agave Limnórea e Melita graciosa e Dinamene impetuosa Ferusa de curso veloz e Calianira; depois Dexamene a impecável Anfínome e Galateia famosa seguida de Pánope e Dóride da senhoril Calianassa Nemertes verídica e Doto Clímene Apseudes Ianassa a senhora dos risos e Mera Proto Oritiia Amatia de tranças venustas Ianira e muitas outras nereides que o fundo do mar habitavam.

Enche-se a gruta luzente de ninfas que mestas golpeavam os seios cândidos.

Tétis dá logo princípio aos lamentos: “Sede-me atentas nereides irmãs para que possais todas as aflições conhecer que o imo peito me afligem.

Que sina ter dado à luz o maior dos heróis para um fado tão triste! Como oliveira vistosa meu filho cresceu de beleza e robustez adornado o primeiro entre todos os próceres.

Após haver dele cuidado qual planta em terreno propício para Ílion o enviei nos navios recurvos a fim de bater-se contra os Troianos.

No entanto jamais deverei recebê-lo  de volta à pátria na casa do velho Peleu carinhosa.

E enquanto vive e contempla a luz bela do Sol pesadumes tem de sofrer sem que o possa aliviar muito embora o procure.

Hei-de rever o meu filho; desejo saber o motivo que tanto o aflige apesar de afastado da guerra encontrar-se.”

Em companhia de todas as ninfas da gruta retira-se após ter falado.

Em redor dela afastam-se as ondas marinhas.

Logo que a altura alcançaram do solo fecundo de Tróia uma após outra saíram na praia onde as naus dos Mirmídones em torno ao barco de Aquileu se achavam em filas dispostas.

Chega-se para o guerreiro que fundo gemia a divina mãe; dando gritos agudos de dor abraçou-lhe a cabeça e entre lamentos sentidos lhe diz as palavras aladas: “Qual a razão de teu choro meu filho? Que dor te acabrunha? Ora me conta sem nada ocultar-me; de Zeus obtiveste quanto pediste para o alto na súplica as mãos elevando: que contra as popas premidos sofrendo trabalhos indignos falta sentissem de ti grande falta os guerreiros da Acaia.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés a gemer fundamente: “Sim minha mãe é verdade que o Olímpio me fez isso tudo;  mas que prazer posso eu ter se perdi o mais caro dos sócios Pátroclo o amigo que acima de todos prezava estimando-o como a mim próprio? Perdi-o e a armadura admirável encanto de nossos olhos Héctor ao privá-lo da vida tomou-lha a que a Peleu como dádiva excelsa os eternos doaram no dia em que eles no leito dum homem mortal te puseram.

Fora melhor que entre as ninfas do mar a viver continuasses e que Peleu uma esposa mortal escolhido tivesse.

Mas quis o Fado que dor a sofrer também venhas infinda quando perderes o filho que nunca de volta da guerra hás-de acolher no palácio.

Viver continuar entre os homens certo não posso diz-me a alma se a Héctor não tirar a existência com minha lança pontuda e não vir desse modo vingada a grande perda de Pátroclo o filho do claro Menécio.”

Tétis então a chorar lhe responde as seguintes palavras: “Curta existência terás caro filho se assim resolveste pois logo após o trespasso de Héctor quer o Fado que morras.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés a gemer fundamente: “Que seja logo uma vez que não pude servir para nada ao companheiro querido; morreu mui distante da pátria  sem ter-me ao lado no instante em que mais precisava de amparo.

Ora que à pátria querida não devo voltar –nem a Pátroclo apareci como luz salvadora nem mesmo aos fiéis sócios que às mãos do filho de Príamo Héctor a existência perderam; mas junto às naves fiquei peso inútil na terra.

Que importa na luta cruenta exceder venha acaso os valentes Aquivos de vestes brônzeas conquanto outros possam brilhar nos concílios? Se se extinguisse a Discórdia entre os homens e os deuses eternos e a irresistível Vingança que aos próprios cordatos irrita e mais suave que o mel quando escorre dos favos repletos no peito do homem se expande qual fumo que ameaça asfixiá-lo! Dessa maneira irritou-me Agamémnon rei poderoso.

Não mais falemos porém do passado; refreemos a mágoa dentro do peito por mais que me aflija que assim é preciso.

Ora a esse Héctor vou buscar o assassino da cara cabeça.

Quanto ao meu fim estou pronto a acolher o momento funesto logo que Zeus o quiser e as demais divindades eternas.

A força de Héracles não conseguiu subtrair-se da Morte em que mui caro ele fosse a Zeus grande nascido de Cronos; de Hera a vingança terrível e a Moira afinal o alcançaram.

Hei-de baixar ao sepulcro também se o Destino igual sorte me reservou; mas desejo antes disso alcançar alta glória para que muitas Dardânias e Teucras de baixa cintura com as mãos ambas das faces rosadas e tenras enxuguem o pranto mesto e copioso desfeitas em fundos suspiros e reconheçam que estive afastado dos prélios sangrentos.

Não me procures deter muito embora me estimes; é inútil.”

Disse-lhe Tétis de pés argentinos então em resposta: “É muito justo meu filho o que dizes; louvável por certo é libertar da ruína impendiosa os aflitos consócios.

Mas os Troianos se encontram de posse de tua armadura bela de bronze esplendente; nos ombros Héctor ora a leva cheio de orgulho o guerreiro do excelso penacho.

Mas curta satisfação há-de ter que ao seu lado já a Morte se encontra.

Mas não te apresses a entrar nos pesados trabalhos da guerra sem que ante os olhos me tenhas aqui novamente de volta.

Antes do Sol despontar amanhã voltarei à luz da alva para trazer-te a armadura formosa de Hefestos potente.”

Do filho amado depois de falar afastou-se voltando-se para as nereides irmãs e lhes disse as seguintes palavras.

“No largo seio das águas deveis mergulhar para verdes o branco velho marinho em seu belo palácio e contar-lhe tudo o que aqui se passou enquanto subo à sede dos deuses para saber do admirável artífice Hefestos se ao filho caro ele quer aprestar armadura de lúcido aspecto.”

Obedecendo-lhe as ninfas nereides no mar submergiram enquanto Tétis a deusa marinha subiu ao Olimpo para ir buscar a armadura brilhante do filho querido.

Levam-na os pés para o Olimpo altanado.

Entrementes os Dánaos com prodigioso alarido de Héctor homicida fugiam em direcção ao Helesponto e às naves que breve alcançaram sem que da fúria troiana o cadáver houvessem de Pátroclo o ínclito e forte escudeiro de Aquileu tirar conseguido pois os cavalos e os peões novamente no encalço lhes iam sob o comando de Héctor que uma chama voraz parecia.

Três vezes pega no pé do cadáver Héctor por trás dele para arrastá-lo dali concitando os Troianos à luta; os dois Ájaxes três vezes de ardor indomável vestidos o repeliram do corpo; mas ele na força confiado ora dum salto cortava o tumulto ora em gritos horríssonos  se conservava parado sem nunca recuar donde estava.

Como pastores em ronda nocturna não podem da presa a um fulvo leão repelir pela fome imperiosa acossado: do mesmo modo impossível aos dois arnesados Ájaxes era fazer que do corpo de Pátroclo Héctor se afastasse.

E porventura o arrastara colhendo com isso alta glória se Íris de pés mais velozes que o vento do Olimpo não viesse da parte de Hera às ocultas de Zeus e das outras deidades para dizer ao Pelida que as armas fulgentes vestisse.

Aproximando-se-lhe Íris de rápidos pés assim disse: “Alça-te filho do claro Peleu dos heróis o mais forte; corre em defesa de Pátroclo em torno do qual junto às naves pugna terrível se ateou; uns aos outros ali se trucidam; dum lado os fortes Aqueus desejosos de o corpo trazer-te do outro os Dardânios que o querem levar para os muros de Tróia.

O ínclito filho de Príamo Héctor mais que todos se esforça para arrastar o cadáver que o peito a cercear o concita do tenro colo a cabeça e ultrajá-la espetando-a num poste.

Não mais ocioso prossigas; que tua alma de horror estremeça de poder ser o cadáver de Pátroclo aos cães atirado.

Tua a vergonha há-de ser se lhe o corpo desta arte ultrajarem.”

Disse-lhe Aquileu divino de rápidos pés em resposta: “Íris veloz qual dos deuses aqui te mandou como núncia?” Íris de pés mais velozes que o vento lhe disse em resposta: “Hera foi quem me mandou do alto Zeus a gloriosa consorte sem que de minha incumbência soubesse o alto filho de Cronos nem as demais divindades que moram no Olimpo nevoso.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés o seguinte em resposta: “Como é possível lutar? Minhas armas as têm os Troianos e minha mãe me proibiu que armadura de guerra envergasse sem que primeiro ante os olhos aqui novamente a tivesse.

Fez-me a promessa de dar-me outras armas trabalho de Hefestos.

Não sei de qual dos heróis poderia envergar a armadura se exceptuarmos o escudo de Ájax Telamónio; mas este penso se encontra também a lutar nas fileiras da frente com sua lança em defesa do corpo de Pátroclo exímio.”

Íris de pés mais velozes que o vento lhe disse em resposta: “Não ignoramos que os Teucros tomaram tua bela armadura.

Mas aparece aos Troianos na beira do fosso tal como te achas; talvez da batalha desistam do Medo apossados  e os belicosos Aquivos consigam tomar novo alento ainda que lassos; embora pequeno o descanso é valioso.”

Íris daí retornou após haver a mensagem cumprido.

Alça-se o herói a Zeus caro; ao redor das espáduas robustas a égide horrível Atena lhe pôs de cem franjas ornada; cinge-lhe a deusa preclara em seguida a cabeça com nuvem de ouro fazendo que chama brilhante do herói se irradiasse.

Como de grande cidade numa ilha pelo éter se eleva fumo que ao longe se vê quando o sítio os imigos apertam e o dia todo das altas muralhas a luta sustentam os moradores; mas quando a luz clara do Sol desaparece grandes fogueiras acendem; para o alto o esplendor logo sobe porque das ilhas vizinhas se acaso de longe for visto tragam nas naves recurvas auxílio eficaz e oportuno: chega até ao éter assim o esplendor da cabeça de Aquileu que tendo o muro deixado avançou para o fosso apartado dos valorosos Aqueus obediente aos conselhos de Tétis.

Aí se deteve e gritou reforçando-lhe Palas o brado que nos guerreiros troianos terror indizível espalha.

Como ressoa distinta a trombeta sonora que o alarma  alquando toca em cidade cercada por cruel inimigo: soa desta arte bem claro o alto brado do Eácida ilustre.

Ficam tomados de medo os Troianos no instante em que a aénea voz escutaram; os próprios cavalos de crinas tratadas retrocederam que o dano iminente já então pressagiavam.

Tremem de susto os aurigas preclaros ao verem a chama  inextinguível em torno à cabeça do claro Pelida; a de olhos glaucos Atena fazia que ardesse incessante.

Por sobre o fosso três vezes gritou o Pelida divino; por vezes três os Troianos e os fidos aliados recuaram com tal balbúrdia que doze guerreiros distintos morreram por suas lanças feridos ou sob seus carros.

Os Dánaos mais aliviados da pugna retiram o corpo de Pátroclo; numa padiola o colocam que os fiéis companheiros circundam em pranto desfeitos.

Aquileu de rápidos pés os seguia a derramar quentes lágrimas após ter o amigo enxergado sobre seu leito de morte por bronze cruel trespassado.

Com seus cavalos o enviara no carro de guerra ao combate sem que lhe fosse possível ainda uma vez abraçá-lo.

Hera a magnânima de olhos bovinos o Sol incansável  a seu mau grado obrigou a afundar na corrente do oceano.

Deita-se o Sol descansando afinal os divinos Aquivos do cruel combate e dos árduos trabalhos da guerra funesta.

Os picadores troianos também por seu lado interrompem o duro prélio os cavalos velozes retiram dos carros e em assembleia se reúnem sem mesmo pensarem na ceia.

De pé mantêm-se eles todos durante a reunião sem que ousasse nenhum sentar-se; invadira-os o Medo desde a hora em que Aquileu reaparecera que há muito da pugna afastado se achava.

Polidamante o Pantóida prudente dá início aos debates conhecedor experiente do tempo passado e futuro.

Na mesma noite nascera que Héctor a quem era afeiçoado; este guerreiro mais hábil; aquele orador primoroso.

Cheio de bons pensamentos lhes diz arengando o seguinte: “Urge pensar seriamente na escolha meus caros.

Por minha parte aconselho a voltarmos em vez de aguardarmos no plaino junto das naves a Aurora que os muros mui longe se encontram.

Enquanto esse homem se achava irritado com o divo Agamémnon muito mais fácil nos era enfrentar os guerreiros aquivos.

Foi para mim também grato passar junto às naves a noite  por presumir que seria possível tomar os navios.

Ora me sinto receoso de Aquileu de pés muito rápidos.

Sendo impetuoso como é com certeza não há-de no campo por muito tempo ficar onde os Teucros e os fortes Aquivos com sorte vária equilibram os duros sucessos da guerra.

Não lutará para os muros tomar-nos e as nossas mulheres.

Para a cidade voltemos; assim há-de dar-se é certeza: a sacra Noite por ora deteve o Pelida veloz; mas quando as armas tomar ao romper da manhã se no plaino ainda estivermos os nossos terão de travar mais de perto conhecimento com ele.

Felizes dos que conseguirem Ílion sagrada alcançar.

Quantos Teucros de cães e de abutres  não serão pasto? Jamais ao ouvido me chegue tal nova.

Ainda que muito nos pese façamos conforme o aconselho.

Na ágora enquanto faz noite reunamos os nossos soldados que a fortaleza de Tróia será defendida por suas torres com traves seguras e barras de lúcido aspecto.

Mas amanhã logo cedo enverguemos as armas luzentes e nos postemos nas torres.

Ser-lhe-á muito dura a experiência se se afastar dos navios e vier combater sob os muros.

Após ter em vão fatigado os cavalos em torno às muralhas altas de Tróia há-de alfim retornar para as naves simétricas.

Nem com o ardor que o distingue jamais poderá ter acesso à fortaleza; tentando-o há-de ser para os cães atirado.”

Com torvo olhar lhe responde o guerreiro do casco ondulante: “Polidamante essas tuas palavras em nada me agradam.

Aconselhaste a que para a cidade de novo recuemos? Não vos cansais porventura de tanto viverdes fechados? Antes os homens falavam na rica cidade de Príamo em ouro e bronze abundante e trabalhos de fina feitura; mas actualmente vazias de jóias as casas se encontram pois foram todas vendidas na Frígia e na Meónia agradável desde que Zeus poderoso ficou irritado connosco.

E ora que o filho de Cronos astucioso permite que excelsa glória conquiste expulsando até ao mar os guerreiros aquivos não tens estulto outra coisa a propor na reunião dos Troianos? Assentimento nenhum obterás que contra isso me oponho.

Ora façamos conforme o aconselho; obedeçam-me todos.

Sem dispersar as falanges no campo da ceia se cuide; todos se ocupem da guarda; a ninguém se consente que durma.

E se a algum Teucro as riquezas por modo excessivo preocupam traga-as então e as divida entre o povo que é muito mais útil serem por nós consumidas a caírem nas mãos dos Acaios.

Mas amanhã logo cedo enverguemos as armas luzentes para fazer espertar junto às naves o deus Ares forte.

Se o divo Aquileu de facto pretende afastar-se das naves dura experiência há-de ter que não penso em fugir do recontro dolorosíssimo; sim arrostando-o com ânimo firme hei-de alcançar alta glória ou fazer que alta glória ele alcance.

Ao matador é frequente o próprio Ares tirar a existência.”

Esse o discurso de Héctor; os Troianos em peso o aplaudiram.

Néscios! A todos Atena privara do são raciocínio pois aceitaram os planos ruinosos de Héctor sem que ao sábio Polidamante ninguém a menor atenção concedesse.

No próprio campo cuidaram da ceia.

Os Aquivos a noite toda gastaram em prantos à volta do corpo de Pátroclo.

As sevas mãos colocando no peito do extinto consócio lamentações principiou a fazer o Pelida mescladas  de mui sentidos suspiros no jeito de leão guedelhudo a que no espesso das matas predador de ágeis gamos roubado  tenha os cachorros queridos.

O leão ao voltar para a grota se desespera e saindo à procura de rastos desse homem só desejoso de achá-lo percorre convales e montes; para os Mirmídones fala desta arte a gemer o Pelida: “Vãs foram minhas palavras em nosso palácio no dia em que tentava afastar os temores do claro Menécio.

Sim prometi-lhe que a Opunta haveria de o filho levar-lhe com sua parte da presa depois de Ílion fértil destruirmos.

Mas nem a todos os votos dos homens atende Zeus grande.

Quer o Destino impiedoso que a terra de Tróia tinjamos ambos de sangue e que o velho Peleu picador nunca possa grata acolhida me dar novamente em seu belo palácio nem a mãe Tétis.

Aqui há-de a terra em seu seio abrigar-me.

Mas doce Pátroclo visto tocar-me viver ainda um pouco só te farei as exéquias depois que trouxer a cabeça e bem assim a armadura de Héctor causador de tua morte.

Diante da pira sagrada pretendo imolar doze Teucros dos de mais lúcida estirpe por terem causado a tua morte.

Mas até lá deverás continuar junto as naves recurvas e noite e dia ao redor de teu corpo com pranto copioso  se postarão as Dardânias e as Teucras de baixa cintura as mesmas sim que presámos com muita fadiga e hastas longas quando arrasámos os burgos dos homens de curta existência.”

Aos companheiros depois de falar o divino Pelida manda que ponham sem mora no fogo uma trípode grande para limpar da sangueira o cadáver de Pátroclo exímio.

Põem de facto a chaleira de banho nas brasas ardentes; enchem-na de água até à boca queimando ao redor muita lenha.

Lambem as chamas o bojo da trípode; aquece-se o líquido.

Quando no lúcido bronze começa-a ferver a água clara limpam do cruor o cadáver; com óleo depois o ungem todo e nas feridas unguento derramam de mais de nove anos.

No leito então o colocam cobrindo-o dos pés à cabeça com brando linho por cima do qual alvo manto depõem.

Junto de Aquileu veloz toda a noite levantam lamentos em volta do corpo de Pátroclo exímio os Mirmídones fortes.

Vira-se o Crónida Zeus para a irmã e consorte e lhe fala: “Hera magnânima de olhos bovinos alfim conseguiste que reingressasse na pugna o Pelida de pés muito rápidos.

São certamente teus filhos os Dánaos de soltos cabelos.”

Hera a magnânima de olhos bovinos lhe disse em resposta: “Zeus prepotente nascido de Cronos que coisa disseste? Se pode um homem levar a bom termo o que faz contra o próximo ainda que seja mortal e me ceda em saber e cordura  como é possível que eu sendo a primeira das deusas eternas –e não somente por esse motivo também por chamar-me tua consorte e imperares em todos os deuses do Olimpo– não cause mal aos Troianos se me acho irritada contra eles?” Dessa maneira em colóquio eles dois tais conceitos trocavam.

Tétis entanto chegou ao palácio que Hefestos o deus coxo para si próprio construíra: a mais bela das casas dos deuses imperecível de bronze e que luz estelar irradiava.

Azafamado coberto de suor entre os foles o encontra a fabricar vinte trípodes todas de bela feitura para dispô-las ao longo do muro da estância soberba todas providas de rodas nos pés de ouro puro com que elas por próprio impulso até ao meio dos deuses pudessem mover-se e retornar para casa –espectáculo em verdade admirável.

Quase completas estavam; apenas as asas magníficas ainda faltava pregar para o que ele ora os cravos batia.

Enquanto o fabro engenhoso com o máximo ardor trabalhava aproximou-se-lhe Tétis a deusa dos pés argentinos.

Viu-a chegar a consorte do fabro de membros robustos Caris a deusa venusta que um belo diadema trazia.

Toma-lhe a mão e falando lhe diz as seguintes palavras: “Tétis do manto luzente que tanto venero e respeito qual o motivo de tua visita? Aqui vens raramente.

Antes porém me acompanha que dons hospitais te ofereça.”

Tendo isso dito conduz para dentro a augustíssima deusa oferecendo-lhe um trono enfeitado com cravos de prata belo de ver; escabelo também para os pés lhe apresenta.

O ínclito artífice Cáris chamou logo após em voz alta: “Vem até aqui caro Hefestos que Tétis deseja falar-te.”

Disse-lhe então em resposta o deus coxo de braços possantes: “Acha-se então aqui em casa a deidade que estimo e venero que me acolheu quando tive o infortúnio de cair do alto Olimpo por minha mãe imprudente atirado que assim pretendia de mim livrar-se tão-só por ser coxo! Teria sofrido imensamente a não ser recolhido por Tétis e Eurínome –a bela Eurínome filha do Oceano que a terra circunda.

Junto das duas nove anos vivi numa gruta escavada a fabricar-lhes objectos de bronze fivelas colares e braceletes e brincos.

Fluía a corrente do oceano à minha volta espumosa com seu incessante murmúrio.

Homem nenhum nenhum deus onde certo me achava sabia a não ser Tétis e Eurínome as duas que ali me ocultavam.

E ora que Tétis de tranças venustas vem ver-me em visita é simplesmente um dever procurar compensar-lhe a bondade.

Dons hospitais primorosos apresta-lhe e mesa abundante enquanto os foles afasto do fogo e os demais instrumentos.”

Alça-se logo do banco da incude o disforme ferreiro a coxear afanoso nas pernas recurvas e bambas.

Tira das chamas os foles depondo os demais utensílios com que folgava ocupar-se numa arca de prata maciça.

Com uma esponja depois limpa o suor e as escórias do rosto de ambas as mãos do pescoço robusto do peito Veloso; e após vestir alva túnica sai a coxear da oficina num ceptro forte apoiado ladeado por duas estátuas de ouro semelhas a moças dotadas de vida –pois ambas entendimento possuíam alento vital e linguagem  sobre entenderem das obras que aos deuses eternos são gratas.

O amo elas duas ladeiam cuidosas.

Coxeando o ferreiro foi para junto de Tétis num trono luzente assentou-se toma-lhe a mão e falando lhe disse as seguintes palavras: “Tétis de manto luzente que tanto venero e respeito qual o motivo de tua visita? Aqui vens raramente.

Fala o que queres que o peito me manda acatar-te o desejo se for de facto exequível e em mim estiver realizá-lo.”

Tétis então a chorar lhe responde as seguintes palavras: “Há porventura entre as deusas Hefestos do Olimpo altanado uma que tenha no peito abrigado tão grandes pesares quantos o Crónida Zeus mais que a todas me tem propinado? A mim somente obrigou entre todas as deusas marinhas Zeus a casar com Peleu de mortal condição filho de Éaco e a partilhar-lhe do leito.

Ora a triste velhice o domina e em seu palácio se encontra abatido.

Outros males me tocam pois consentiu que eu gerasse e educasse o mais belo dos filhos.

Como oliveira vistosa cresceu de beleza adornado.

Após haver dele cuidado qual planta em terreno propício para Ílion o enviei nos navios recurvos a fim de bater-se  contra os Troianos.

No entanto jamais deverei recebê-lo de volta à pátria na casa do velho Peleu carinhosa.

E enquanto vive e contempla a luz bela do Sol pesadumes tem de sofrer sem que eu possa por mais que me esforce aliviá-lo.

A bela escrava que em prémio os Aqueus outorgado lhe haviam pelo possante Agamémnon foi-lhe dos braços tirada.

Cheio de dor consumia-se à parte.

Os Troianos entanto vieram até junto às naus não deixando que os Dánaos saíssem para a planície.

Deprecam-lhe auxílio os mais nobres Aquivos inumeráveis presentes de preço infinito ofertando.

Ele inflexível se nega a livrá-los da ruína iminente; mas consentiu que sua própria armadura o escudeiro vestisse Pátroclo e junto a outros homens o enviou em socorro dos Dánaos.

Das portas Ceias em frente até ao oceano a batalha estirou-se.

E nesse dia a cidade teriam tomado se Pátroclo quando maiores estragos causava não fosse vencido  bem na dianteira dos seus por Apolo que a Héctor cede a glória.

Por isso agora a teus joelhos me tens.

Venho ver se desejas para o meu filho de curta existência aprestar elmo e escudo grevas formosas de belas fivelas que bem se lhe adaptem  e cintilante couraça que o amigo perdeu isso tudo.

O coração excruciado na poeira o meu filho se encontra.”

Disse-lhe Hefestos de braços robustos então em resposta: “Ânimo! Que isso não seja motivo de mais te afligires.

Se em meu poder estivesse mantê-lo escondido da Morte dolorosíssima quando o Destino vier procurá-lo como é certeza poder aprestar-lhe tão bela armadura que para todos os homens que a virem será grande espanto.”

Deixa-a depois de falar dirigindo-se para os seus foles que pôs no fogo ordenando que logo o trabalho iniciassem.

Vinte eram eles ao todo e em fornalhas também de igual número.

Logo se põem a soprar por maneira contínua e variável com mais vigor quando Hefestos animado ficava; mais lentos quando o queria o ferreiro ou o trabalho dessa arte o exigia.

Bronze infrangível não cessa de ao fogo lançar duro estanho ouro de grande valor e também muita prata; Em seguida pôs sobre o cepo a maior das incudes e o malho pesado numa das mãos sustentando a tenaz na outra firme segura.

Grande e maciço primeiro fabrica o admirável escudo com muito esmero lançando-lhe à volta orla tríplice e clara  de imenso brilho.

De prata a seguir fez o bálteo vistoso.

Cinco camadas o escudo possuía gravando na externa o hábil artífice muitas figuras de excelso traçado.

Nela o ferreiro engenhoso insculpiu a ampla terra e o mar vasto o firmamento o sol claro e incansável a lua redonda e as numerosas estrelas que servem ao céu de coroa.

Pôs nela as plêiades todas Órion robustíssimo as Híades e mais ainda a Ursa também pelo nome de Carro chamada -a Ursa que gira num ponto somente a Órion sempre espiando e que entre todas é a única que não se banha no oceano.

Duas cidades belíssimas de homens de curta existência grava também.

Numa delas celebram-se bodas alegres.

Saem do tálamo os noivos seguidos por seus convidados pela cidade à luz clara de archotes; os hinos ressoam.

Ao som das flautas e cítaras moços dançavam formando roda em cadência agradável.

Nas casas de pé junto das portas viam-se muitas mulheres que o belo cortejo admiravam.

Cheio se achava o mercado que dois cidadãos contendiam sobre quantia a ser paga por causa dum crime de morte: um declarava ante o povo que tudo saldara a contento;  o outro negava que houvesse até então recebido a importância.

Ambos um juiz exigiam que fim à contenda pusesse.

O povo à volta tomava partido gritando e aplaudindo.

A multidão os arautos acalmam; no centro os mais velhos num recinto sagrado sentados em pedras polidas nas mãos os ceptros mantêm dos arautos de voz sonorosa.

Fala cada um por seu turno de pé e o seu juízo enuncia.

Quem decidisse com mais equidade dois áureos talentos receberia que ali já se achavam no meio de todos.

À volta da outra cidade se vêem dois imigos exércitos com reluzente armadura indecisos nos planos propostos: ou devastá-la de todo ou fazer por igual a partilha das abundantes riquezas que dentro das casas se achavam.

Os cidadãos não se rendem contudo e emboscada preparam.

E enquanto as caras esposas as crianças e os velhos cansados cheios de ardor se defendem de cima dos muros bem feitos seguem os homens guiados por Ares e Palas Atena.

Altos e belos armados tal como convém aos eternos e facilmente distintos da turba dos homens pequenos de ouro ambos eram e de ouro também os luzentes vestidos.

Logo que o ponto alcançaram que haviam adrede escolhido perto dum rio vistoso onde vinha beber todo o armento sem se despirem das armas luzentes se põem de emboscada.

Duas vigias colocam dali a pequena distância para avisá-los se ovelhas e reses tardonhas viessem.

Dentro de pouco aparecem trazidos por dois condutores que ao som de gaitas se alegram sem nada cuidarem da insídia.

Os da emboscada acometem de súbito e em pouco se apossam dos tardos bois das ovelhas vistosas dotadas de lúcido velo tirando a existência aos incautos e imbeles pastores.

Os sitiadores que estavam reunidos em junta ao ouvirem a gritaria do assalto aos rebanhos depressa abalaram em seus velozes corcéis alcançando na margem do rio aos da cidade e travando com eles renhida batalha onde aéneas lanças furiosas causaram recíprocos danos.

Via-se a fera Discórdia o Tumulto e a funesta e inamável Parca que havia agarrado um ferido um guerreiro ainda ileso e pelos pés arrastava um terceiro que a vida perdera.

Dos ombros pendem-lhe as vestes manchadas de sangue dos homens.

Como se fossem mortais comportavam-se na áspera luta  e arrebatavam das mãos uns dos outros os corpos dos mortos.

Para a lavoura apropriado um terreno também representa largo e amanhado três vezes no qual lavradores inúmeros juntas de bois conduziam no arado dum lado para o outro.

E quantas vezes o extremo do campo lavrado atingiam vinha encontrá-los um homem que um copo de mosto lhes dava doce e agradável.

Depois de beber novos sulcos abriam só desejosos de o linde alcançar do agro pingue e profundo.

Preta era a terra que atrás lhes ficava apesar de ser de ouro e parecia revolta –espectáculo em verdade estupendo.

Um campo real também grava onde messe alourada se via e os segadores que a ceifam na mão tendo foices afiadas.

Molhos caíam sem pausa por terra ao comprido dos sulcos.

Os molhos juntam em feixes ligados com junco flexível três atadores; aos pés uns meninos braçadas de molhos continuamente lhes jogam que ao longo dos sulcos recolhem.

O coração satisfeito de pé bem no meio dum sulco o rei se achava sem nada dizer sustentando áureo ceptro.

Sob um carvalho os arautos um boi corpulento já haviam para o banquete imolado; as mulheres o almoço aprontavam  dos segadores cobrindo os assados com branca farinha.

Representou uma vinha também carregada e belíssima; de ouro brilhante era a cepa e de viva cor negra os racimos que sustentados se achavam por muitas estacas de prata.

De aço era o fosso gravado em redor; mas a cerca de cima de puro estanho.

Um caminho somente ia dar até à vinha que os vinhateiros percorrem no tempo da bela vindima.

Moços e moças no viço da idade de espírito alegre o doce fruto carregam em cestas de vime trançado.

Com uma lira sonora no meio do grupo um mancebo o hino de Lino entoava com voz delicada à cadência suave da música e todos batendo com os pés compassados em coro alegres o canto acompanham dançando com ritmo.

De boi de chifres erectos manada vistosa ali grava.

Uns animais eram de ouro; outros feitos de estanho luzente.

Saem do estábulo nessa hora a mugir para o pasto que ao lado se acha dum rio sonoro com margens de canas flexíveis.

Quatro pastores os bois conduziam também de ouro puro; por nove cães protegidos de rápidos pés vinham todos.

Mas de repente dois leões formidáveis o gado acometem  e o touro empolgam que o espaço atroava com tristes mugidos enquanto os leões o arrastavam; mancebos e cães os perseguem.

As duas feras porém após haverem a rês lacerado o negro sangue e as entranhas lhe chupam.

Em vão os pastores os cães contra eles açulam pavor intentando incutir-lhes.

Não se atreviam contudo os forçudos mastins a atacá-los mas esquivando-se sempre dos leões só com ladros investem.

Um grande prado também representa o ferreiro possante num vale ameno onde muitas ovelhas luzentes se viam bem como apriscos e estábulos e choças de boas cobertas.

Plasma um recinto de dança ainda o fabro de membros robustos mui semelhante ao que Dédalo em Cnossos de vastas campinas fez em louvor de Ariadne formosa de tranças venustas.

Nesse recinto mancebos e virgens de dote copioso  alegremente dançavam seguras as mãos pelos punhos.

Elas traziam vestidos de linho; os rapazes com túnicas mui bem tecidas folgavam em óleo brilhante embebidas.

Belas grinaldas as fontes das virgens enfeitam; os moços de ouro as espadas ostentam pendentes de bálteos de prata.

Ora eles todos à volta giravam com pés agilíssimos  tal como a roda do oleiro quando este sentado a experimenta dando-lhe impulso com as mãos para ver se se move a contento ora correndo formavam fileiras e a par se meneavam.

Muitas pessoas à volta o bailado admirável contemplam alegremente.

Cantava entre todos o aedo divino ao som da cítara ao tempo em que dois saltadores a um tempo cabriolavam seguindo o compasso no meio da turba.

Plasma por fim na orla extrema do escudo de bela feitura a poderosa corrente do oceano que a Terra circunda.

Após ter o artífice o escudo maciço desta arte aprontado fez a couraça de brilho mais forte que os raios do fogo o elmo com ricos lavores mui sólido e belo que às fontes bem se ajustasse provido duma áurea e luzente cimeira e finalmente umas grevas formadas de dúctil estanho.

Logo que as armas o artífice ilustre aprontou sobraçando-as foi colocá-las aos pés da mãe triste de Aquileu divino.

Como um gavião desceu ela do Olimpo nevoso trazendo a refulgente armadura que Hefestos potente forjara.


 

CANÇÃO XIX

De cróceo manto já a Aurora do seio do oceano se alçara para que a luz aos eternos bem como aos mortais conduzisse quando aos navios a deusa chegou com o presente de Hefestos indo a seu filho encontrar abraçado ao cadáver de Pátroclo em pranto desfeito cercado por muitos dos fiéis companheiros.

Tétis a deusa de pés argentinos para ele achegou-se toma-lhe a mão e falando lhe disse as seguintes palavras: “Filho por mais que tristeza te cause deixemos o morto a descansar pois tudo isso se deu por vontade dos deuses.

Ora estas armas recebe.

São tuas.

Hefestos aprontou-as.

Armas como estas decerto ninguém nunca pôs sobre os ombros.”

Após ter falado na frente de Aquileu a deusa coloca a refulgente armadura; ressoam as armas divinas.

Os valorosos Mirmídones ficam tomados de medo sem que nenhum se atrevesse a fixá-la a tremer afastando-se.

O divo Aquileu ao vê-la sentiu aumentar-se-lhe ainda a grande cólera; os olhos nas pálpebras chispas emitem.

Cheio de gozo recebe o presente do deus primoroso.

Logo que a dádiva esplêndida havia a contento admirado  para a mãe nobre se vira e lhe diz as palavras aladas: “Mãe estas armas que Hefestos me enviou dizem bem com os trabalhos dos imortais; nenhum homem seria capaz de forjá-las.

Vou para a luta aprontar-me envergando-as; mas tenho receio de que entrementes as moscas penetrem nas chagas abertas pelo cruel bronze no corpo do filho do claro Menécio e criem larvas afeando desta arte o cadáver do amigo –ah sem mais vida nenhuma– e estragando-lhe a bela aparência.”

Tétis dos pés argentinos lhe disse o seguinte em resposta: “Filho querido não seja isso causa de o peito afligir-te.

Fica a meu cargo afastar dele as tribos de moscas selvagens que se alimentam dos homens que tombam nos campos da luta.

Ainda que fosse preciso jazer pelo espaço dum ano como se encontra ficara seu corpo ou melhor porventura.

Cuida porém de reunir a assembleia dos fortes Aquivos para anunciar-lhes o fim de tua cólera contra Agamémnon e vai lutar logo após do consueto vigor revestido.”

Grande e indomável coragem depois de falar ela infunde-lhe e nas narinas do corpo de Pátroclo ambrosia e vermelho néctar instila a seguir para os membros deixar-lhe incorruptos.

O divo Aquileu entanto se foi pela praia marinha com grandes gritos fazendo espertar os guerreiros aquivos.

Até mesmo os homens que sempre soíam ficar nos navios os remadores das naus e os que os remos do leme cuidavam bem como os fiéis despenseiros que o pão entre os mais distribuem para a assembleia acorreram nessa hora por causa de Aquileu que para a luta voltava depois duma ausência tão longa.

Vêm manquejando os dois nobres alunos do deus Ares forte o valoroso Tidida e Odisseu o divino e astucioso nas lanças longas firmados pois ainda as feridas os pungem.

Num dos primeiros lugares na frente ambos foram sentar-se.

Veio por último o Atrida Agamémnon o de homens caudilho que vulnerado se achava também pois na pugna terrível com sua lança de bronze o ferira Cóon Antenórida.

Logo que todos os homens da Acaia reunidos se acharam alça-se Aquileu de rápidos pés e lhes diz o seguinte: “Esta reconciliação Agamémnon fora mais útil para nós dois se levada a bom termo no dia em que fomos pela Discórdia vencidos por causa tão-só duma escrava.

Fora melhor que no dia em que os muros entrei de Limesso  em nossos barcos a vida lhe fosse tirada por Ártemis.

Pelos imigos vencidos enquanto me achava irritado muitos Aqueus não teriam sem dúvida a poeira mordido.

Lucro somente os Troianos e Héctor obtiveram.

Por muito tempo os Aqueus hão-de nossa discórdia lembrar é certeza.

Mas o passado é passado.

O dever me concita nesta hora ainda que muito irritado a refrear o rancor no imo peito.

Da ira desisto; não me orna em verdade mostrar-me implacável por muito tempo.

Mas vamos! Agora incitar te compete para o combate os Aquivos de soltos cabelos nos ombros.

Quero encontrar novamente os Troianos e ver se ainda insistem em pernoitar junto aos nossos navios; mas penso que muitos hão-de aliviados os joelhos dobrar quando escapes se virem da fúria insana da guerra e de nossa hasta longa e invencível.”

Isso disse ele; os Acaios de grevas bem feitas exultam por ver do grande Pelida acalmado o rancor finalmente.

Disse aos Aquivos então Agamémnon rei poderoso sem avançar para o meio do próprio lugar onde estava: “Meus valorosos Aquivos alunos do deus Ares forte é decoroso em silêncio escutardes-me agora; até mesmo  os oradores mais hábeis aparte importuno os perturba.

Como é possível que no meio do barulho falar alguém possa ou ser ouvido ainda mesmo dotado de voz retumbante? Vou dirigir-me ao Pelida; mas quero que todos os homens de Argos me escutem e atentos reflictam nas minhas palavras.

Frequentemente inculpavam-me os fortes Argivos; contudo culpa não tenho nenhuma senão tão-somente Zeus grande a fatal Moira e as Erínias que vagam nas trevas espessas.

Uma cegueira feroz me ensejaram tais deuses no peito a qual me fez no conselho ao Pelida privar do alto prémio.

Como pudera eu reagir? São os deuses que tudo dispõem.

A Culpa é filha de Zeus deusa excelsa que os homens conturba nume funesto de pés muito leves que a terra não roça ao caminhar mas passeia por sobre a cabeça dos homens ocasionando tropeços.

Até seres mais altos enleia.

O próprio Zeus poderoso que os deuses e os homens supera em suas malhas se viu duma feita no dia em que a esposa Hera conquanto mulher o enganou com subtil artifício.

Foi quando Alcmena de insigne beleza à luz dar deveria Héracles forte no burgo de Tebas de belas muralhas.

Zeus exultante dirige-se a todos os numes e fala: ‘Deuses eternos e deusas agora atenção prestai todos ao que vos digo e no peito me ordena falar-vos o espírito.

As Ilitiias que as dores do parto presidem hão-de hoje á luz trazer refulgente um varão que vai ter o comando sobre os vizinhos por ser duma estirpe que em mim se origina.

’ Com solapada intenção Hera augusta lhe disse em resposta: ‘Tenho certeza de que não tencionas fazer o que dizes.

Mas se em verdade assim pensas Olímpio é preciso jurares que há-de comando exercer sobre todos os povos vizinhos o alto varão que entre os pés de mulher a cair vier acaso desde que seja da estirpe que tu claro Zeus engrandeces.

’ Sem suspeitar-lhe a dolosa intenção fez a jura solene Zeus poderoso do que lhe adviria depois muito dano.

Hera dum salto baixou das cumeadas do Olimpo nevoso a Argos da Acaia de belas mulheres chegando onde estava a venerável consorte de Esténelo o nobre Perseida.

De sete meses estava ela grávida; a deusa lhe trouxe o filho à luz apesar de imaturo e cessar fez de pronto as dores fortes de Alcmena detendo as cruéis Ilitiias.

Tudo isso pronto voltou para o Olimpo e falou a Zeus grande: ‘Zeus pai que os raios dominas notícia especial quero dar-te: já veio à luz o varão que será dos Argivos o chefe filho de Esténelo o nobre Perseida a saber: Euristeu.

É de teu sangue e assim digno de ser dos Argivos o chefe.

’ Dor muito aguda Zeus na alma sentiu ao ouvir a notícia.

Súbito a Culpa aferrou pela fronte de tranças macias e num momento de cólera jura solene profere de que jamais no alto céu estrelado e no Olimpo entraria de novo a Culpa que a mente dos homens e deuses transtorna.

Rodopiando-a com força depois de jurar atirou-a do alto do Olimpo e ela veio a cair entre os homens industres.

Muito depois suspirava Zeus pai quando via o dilecto filho nos duros trabalhos que o forte Euristeu a ele impunha.

Do mesmo modo comigo se deu quando Héctor arnesado desbaratava os Aquivos ao lado das naves recurvas sem que pudesse da Culpa esquecer-me que em mim se exercia.

Por ter ficado porém conturbado que Zeus me cegara quero sanar o mal feito depondo a teus pés muitas dádivas.

Para os combates levanta-te pois e os Aquivos anima  que por meu lado confirmo os presentes magníficos que ontem em tua tenda o divino Odisseu te ofertou em meu nome.

Ou se o desejas detém-te conquanto de lutas sequioso para que os meus escudeiros das naves recurvas te tragam quanto te foi prometido e te alegres à vista dos brindes.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés em resposta o seguinte: “Filho de Atreu nobilíssimo rei poderoso Agamémnon deixo ao teu cargo esse ponto: ou mandares-me os brindes –e é justo– ou com eles todos ficares.

Agora somente pensemos na dura guerra.

A falar aereamente de braços cruzados não poderemos ficar; ainda está por fazer o grande acto para que vejam a Aquileu de novo na frente de todos a desfazer com sua lança de bronze as falanges dos Teucros e isso em vós todos desperte o desejo de ir contra o inimigo.”

Disse-lhe então em resposta Odisseu o guerreiro solerte: “Por mais valente que sejas Aquileu divino é prudência não exortar os Aqueus para a luta ante os muros de Tróia pois certamente não há-de durar pouco tempo o combate quando as falanges contrárias a pugna encetarem e brio irresistível um deus inspirar em Troianos e Aquivos.

Antes ordena que junto das naus os Acaios se fartem de doce vinho e alimento que a força e a coragem restauram.

Não há ninguém que consiga em jejum prosseguir na batalha o dia todo enfrentando o inimigo até o Sol ocultar-se pois ainda mesmo que o espírito forte a lutar o concite sem que o perceba fraquejam-lhe os membros a fome e a abrasante sede o acometem e os joelhos de fracos alfim se lhe negam.

Mas o que teve a sua parte de vinho e alimento consegue o dia todo lutar contra o imigo sem fraco sentir-se; o coração no imo peito indefesso persiste e a fadiga nos fortes membros não lhe entra até ao fim da renhida peleja.

Vamos! Dissolve a assembleia e aos soldados ordena que cuidem da refeição.

Quanto aos ricos presentes que o Atrida Agamémnon os mande vir para o meio da praça que todos possamos vê-los com os olhos e tu no mais íntimo alegre te sintas.

Diante de todos de pé faça o Atrida uma jura solene de nunca haver partilhado do leito da filha de Brises como varão e mulher Agamémnon unir-se costumam.

Que o coração se te mostre no peito com isso abrandado.

Em sua tenda depois deve um lauto banquete ofertar-te   para que as honras devidas te sejam sem falha prestadas.

E de futuro Agamémnon trata de ser mais cordato para com todos.

Um rei não se avilta se acaso apresenta satisfações quando foi o primeiro a ofender sem motivo.”

Disse-lhe então em resposta Agamémnon rei poderoso: “Muito me alegra Laercíada ouvir essas tuas palavras pois discorreste com senso e equidade a respeito de tudo.

Sim juramento pretendo fazer que a isso o peito me incita sem que perjuro me torne ante os deuses.

Demore-se Aquileu um pouco mais apesar de querer entrar logo em combate.

Todos os outros também permaneçam até que da tenda mande eu buscar os presentes e a jura solene profira.

Tu próprio ilustre Odisseu tomarás a teu cargo a incumbência conjuntamente com os moços mais nobres do exército aquivo de irdes às naus e trazerdes os dons que por mim ontem foram oferecidos a Aquileu.

Que venham também as escravas.

Traga Taltíbio depressa do vasto arraial dos Acaios o javali que imolado há-de ser a Zeus grande e ao Sol claro.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés em resposta o seguinte: “Filho de Atreu nobilíssimo rei poderoso Agamémnon  em qualquer outra ocasião ficará bem melhor isso tudo quando se der uma pausa qualquer na batalha homicida e no imo peito não seja tão forte esse ardor que me abrasa.

Ainda se encontram no campo os valentes Aqueus que tombaram aos golpes do ínclito Héctor quando glória lhe deu Zeus potente –e aconselhais que comamos! Por mim mandaria que todos os valorosos guerreiros da Acaia ingressassem na pugna sem que do almoço cuidassem.

Somente ao Sol posto um banquete lauto seria aprestado depois de tomada vingança.

De modo algum antes disso há-de vinho e alimentos tocar-me de leve os lábios.

Na tenda por bronze cruel trespassado o corpo se acha do amigo dilecto com os pés estendidos na direcção do vestíbulo; os fidos consócios à volta mestos o choram.

Por isso não cuido de tais pensamentos mas de matança e de sangue e dos tristes suspiros dos homens.”

Disse-lhe então em resposta Odisseu o guerreiro solene: “Ínclito Aquileu Pelida o mais forte de todos os Dánaos és mais robusto do que eu e no jogo da lança não pouco me sobrepujas; contudo te sou superior nos conselhos por ter nascido primeiro e ter mais experiência das coisas.

Que o coração se te acalme e se mostre atencioso ao que digo.

Presto no campo da luta sangrenta os guerreiros se cansam quando apesar de jogarem por terra abundância de palha é muito escassa a colheita ao fazer inclinar-se a balança para o outro lado Zeus grande que a sorte dos prélios decide.

Com sacrifício do ventre é impossível que os mortos choremos.

Se não têm conta os que caem diariamente sem vida na luta quando encontrar o momento em que livres da dor nos vejamos? É necessário com ânimo firme levar para o túmulo os que tombaram chorando-os apenas o espaço de um dia.

Quantos porém conseguirem livrar-se da pugna funesta devem pensar em comer e beber porque mais facilmente todos possamos sem pausa vestidos do rígido bronze acometer os imigos.

Então aguardar ninguém deve para sair que outrem venha chamá-lo porque o reiterado incitamento a desgraça há-de ser para quantos ficarem nas naus argivas.

Adiante! Num corpo somente corramos a despertar Ares forte no meio dos bravos Troianos.”

Por companheiros depois de falar escolheu os rebentos do velho Pílio Nestor Melanipo o alto herói Licomedes  filho de Creonte Megete Meríones e o insigne Toante.

Todos então para a tenda do Atrida a caminho se põem.

Rapidamente puseram em obra a missão recebida: trípodes sete da tenda escolheram conforme o assentado doze corcéis vigorosos e vinte luzentes caldeiras; logo apartaram também sete escravas de prendas variadas às quais Briseide de faces rosadas a oitava ajuntaram.

Os dez talentos que havia pesado Odisseu é quem leva; seguem-no os moços aqueus conduzindo os presentes magníficos.

Foi tudo exposto no meio da praça.

Nessa hora Agamémnon se pôs de pé vindo ao lado postar-se-lhe o arauto Taltíbio de voz igual à dos deuses o qual segurava o javardo.

O nobre filho de Atreu Agamémnon tira o cutelo que sempre junto à bainha da espada cortante trazia e após cortar as primícias do pêlo da vítima as palmas a Zeus estende e suplica ficando os restantes Aquivos como de praxe em silêncio sentados a ouvir o monarca que contemplando o céu vasto profere a oração deste modo: “Saiba primeiro o maior e o mais forte dos numes Zeus grande e a Terra e o Sol e as Erínias também que nos reinos subtérreos têm por função castigar quem houver perjurado na vida:  nunca na jovem Briseide toquei nem por força de amores nem por que em mim tenha actuado outra força qualquer porventura.

Em minha tenda durante esse tempo ficou ela intacta.

Se quanto digo é inverdade que os deuses me dêem sofrimentos indescritíveis tal como costumam punir os perjuros.”

Tendo assim dito degola com bronze cruel o javardo que logo o arauto Taltíbio fazendo-o voltear às espúmeas ondas jogou para pasto dos peixes.

Aquileu no entanto fica de pé dirigindo-se para os valentes Acaios: “Zeus pai é grande a cegueira que aos homens enviar tens por hábito.

A não ser isso jamais em meu peito teria Agamémnon  a ira profunda inflamado ou sequer conseguido arrancar-me da tenda a jovem usando de força.

Mas Zeus desejava certo que muitos Acaios a Morte funesta apresasse.

Ora cuidai de comer para a luta depois reiniciarmos.”

Isso disse ele; e sem mais circunlóquios dissolve a assembleia.

E enquanto os outros Aquivos procuram as naves recurvas os corajosos Mirmídones logo dos brindes se ocupam e para o barco de Aquileu divino cuidosos os levam;  dentro da tenda os dispõem e os postos às servas indicam.

Os servidores os belos corcéis para o pasto levaram.

Logo que a bela Briseide tão bela quanto a áurea Afrodite viu pelo bronze cruel trespassado o cadáver de Pátroclo a soluçar fundamente sobre ele caiu lacerando as pulcras faces e o peito e o pescoço elegante e macio.

Sempre a chorar diz a escrava que deusa imortal parecia: “Pátroclo deste infeliz coração companheiro caríssimo vivo ficaste no dia em que vieram buscar-me na tenda e ora ao voltar deste modo te encontro pastor de guerreiros! Os infortúnios assim sempre novos me seguem de perto.

Diante de nossa cidade por bronze cruel trespassado vi tombar morto o marido a que o pai e a mãe nobre me deram; meus três irmãos dilectíssimos todos dum tronco nascidos no mesmo dia também alcançou o Destino funesto.

Não me deixaste chorar quando Aquileu de pés muito rápidos a meu marido matou de Minete assolando a cidade e prometeste que havias de obter do divino Pelida me conduzisse tal como legítima esposa em seu barco e entre os Mirmídones fortes em Ftia o festim celebrasse.

Foste-me sempre bondoso; por isso hei-de sempre chorar-te.”

Todas as outras cativas a morte chorando de Pátroclo ao mesmo tempo choravam o grande e pessoal infortúnio.

Reúnem-se à volta de Aquileu os chefes aqueus insistindo para que algum alimento aceitasse; mas ele recusa: “Se entre vós outros há quem obediente se mostre ao que digo que ninguém venha falar-me em tomar alimento ou bebida pois infinito é o infortúnio que o peito nesta hora me oprime.

Hei-de aguentar a fadiga até ver o Sol claro afundir-se.”

Após ter falado despede o Pelida os demais soberanos.

Os dois Atridas somente e o divino Odisseu permanecem Idomeneu o Gerénio Nestor e Fénix galhardo a distraí-lo.

Contudo nenhum lenitivo aceitava sem que primeiro ingressasse na boca sanguínea da Guerra.

Do caro amigo lembrado entre fundos suspiros dizia: “Imaginar infeliz companheiro do meu peito aflito que muitas vezes na tenda tu próprio os festins me aprestaste pronto e solícito sempre que os fortes Aqueus tinham pressa  de retornar para o embate lutuoso com os Teucros valentes! Ora te encontras aqui pelo bronze cruel trespassado  sem que a tristeza me deixe aceitar alimento ou bebida ainda que os tenha de sobra.

Mais grave infortúnio é impossível mesmo que a nova me viesse de haver meu bom pai falecido que ora se encontra sem dúvida em Ftia a chorar incessante a longa ausência do filho que em terra estrangeira por causa da abominável Helena combate os guerreiros de Tróia ou se meu filho morrer que em Esciro está sendo criado caso ainda veja a luz bela do Sol o divino Neoptólemo.

Antes o peito abrigava a esperança de estar eu somente predestinado a morrer longe de Argos nutriz de ginetes nestas campinas de Tróia e que tu para Ftia voltasses para em Esciro tomares meu filho em teu barco ligeiro de negro casco e depois lhe mostrares meus bens numerosos os servos todos da casa e o palácio de tecto elevado.

O coração me anuncia que morto Peleu já se encontra; mas caso um pouco de vida ainda os membros lhe anime consome-o a irremediável velhice e a suspeita constante de ser-lhe dada a notícia funesta de que haja eu descido para o Hades.”

Entre soluços falava; os presentes também soluçavam ante a lembrança de quanto em seus belos palácios deixaram.

Vendo-os chorar apiedou-se de todos o filho de Cronos e para Atena virando-se diz-lhe as palavras aladas: “Filha querida por que te descuidas do herói valoroso? Ou porventura tua alma não mais com Aquileu se ocupa? Acha-se junto das naves de proas erectas chorando seu companheiro extremado.

Os demais combatentes aquivos foram cuidar do repasto; ele só sem comer continua.

Vai para onde ele se encontra e lhe deita no peito agradável néctar e ambrósia: que livre se veja da fome imperiosa.”

Palas que só desejava isso mesmo sentiu-se animada.

Como falcão de amplas asas e grito estridente atirou-se do céu a deusa pelo éter.

E enquanto os valentes Aquivos no acampamento a armadura cingiam a deusa no peito do alto Pelida instilou néctar puro e agradável ambrosia para que a fome molesta não viesse afracar-lhe os joelhos.

Para a morada esplendente do pai depois disso retorna.

Longe dos seus corredores os fortes Aqueus se reuniram.

Do mesmo modo que flocos de neve por Zeus enviada caem sob o impulso do sopro de Bóreas que do éter proveio: tão numerosos assim dos navios recurvos saíam  cascos brilhantes escudos ornados de umbigos sem conta fortes e belas couraças e lanças compridas de freixo.

Até o alto Céu chega o brilho das armas; com o lúcido bronze ri toda a terra ressoando ao barulho dos passos dos homens.

O divo Aquileu as armas vestia no meio do exército.

Rangem-lhe os dentes sem pausa; dos olhos cintilas lhe saem como de chama vivaz angustiando-lhe o peito dorido insuportável tristeza.

Desta arte a pensar nos Troianos as belas armas vestia que Hefestos para ele aprestara.

As caneleiras primeiro lavradas nas pernas ataca belas de ver por fivelas de prata maciça ajustadas; em torno ao peito coloca depois a couraça magnífica; lança nos ombros a espada de bronze com cravos de prata e o grande escudo sobraça inteiriço e de largos contornos que como a lua fulgor difundia até grande distância.

Tal como chega no mar até aos nautas aflitos o brilho que da fogueira acendida no cimo dum monte se espalha em solitária paragem enquanto nas ondas piscosas a tempestade a afastarem-se os força dos caros parentes: do mesmo modo até ao éter atinge o esplendor que do escudo  belo de Aquileu se expande.

Depois na cabeça coloca o elmo potente adornado com belo penacho de crina que como estrela brilhava esvoaçando-lhe em torno a plumagem de ouro que Hefestos pusera na forte e brilhante cimeira.

Fez o divino Pelida depois experiência das armas se lhe iam bem e se os membros podia mover a contento: eram como asas bem firmes que no alto o pastor mantivessem.

A hasta fraxínea depois de Peleu vai buscar na hastaria grande maciça e pesada.

Nenhum dos robustos Aquivos a manejava; o Pelida somente o fazia sem custo.

Dera-a Quíron a Peleu para exício de heróis numerosos; fora tirada do tronco dum freixo do cimo do Pélio.

Automedonte ajudado por Álcimo entanto os cavalos punham no jugo; formosas correias aos peitos lhes prendem; freios depois lhes colocam; e as rédeas alfim repuxando as amarraram no assento bem feito.

O chicote magnífico Automedonte no punho mantendo saltou para o carro.

Sobe também logo após o divino Pelida nas armas resplandecentes vestido que luzem tal como o sol fúlgido.

Com voz terrível Aquileu afala os cavalos paternos:  “Xanto e Balio notáveis rebentos da harpia Podargo por modo bem diferente cuidai de trazer vosso auriga para as fileiras dos Dánaos depois de saciado de lutas.

Não aconteça eu ficar como Pátroclo morto no campo.”

Xanto de rápidos pés lhe responde do jugo onde estava com a cabeça inclinada pendendo-lhe da alva coleira a bela crina tratada que vinha tocar no chão duro –Hera de cândidos braços o fez deste modo expressar-se: “Hoje impetuoso Pelida serás por nós salvo sem dúvida; mas já tens próximo o dia em que deves morrer; não nos culpes  que nisso a culpa será dum deus forte e da Moira impiedosa.

Se os bravos Teucros as armas tiraram dos ombros de Pátroclo não foi por causa de nossa preguiça ou porque demorássemos; o deus possante nascido de Leto de belos cabelos bem na dianteira da vida o privou glória a Héctor aprestando.

Nós mais velozes seremos por certo que o sopro de Zéfiro que é o mais ligeiro de todos os ventos se diz.

Mas é força que venham breve tirar-te a existência um dos deuses e um homem.”

As poderosas Erínias da voz depois disso o privaram.

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés a gemer fundamente:  “Xanto por que me predizes a morte? Não deves fazê-lo.

Sei meu destino qual é: perecer aqui mesmo distante do pai querido e de Tétis.

Contudo só penso em deter-me no meio da pugna após ter anulado o vigor dos Troianos.”

Tendo isso dito lançou para a frente os fogosos ginetes.


 

CANÇÃO XX

Enquanto junto das naves de proas recurvas os Dánaos à tua volta se armavam Pelida insaciável de pugnas numa eminência do plaino os de Tróia também se apercebem.

A Témis Zeus ordenou do alto Olimpo que para a assembleia os deuses beatos chamasse.

Correndo por todas as partes aos deuses ela anuncia que a casa de Zeus procurassem.

Não faltou rio nenhum se exceptuarmos apenas o Oceano nem mesmo as ninfas graciosas que moram nos bosques floridos pelas nascentes dos rios e prados virentes e ervosos.

Após o palácio alcançarem de Zeus que bulcões acumula todos se sentam no pórtico liso que havia construído o ínclito Hefestos famoso ferreiro de braços robustos.

Reúnem-se os deuses assim no palácio de Zeus.

Movimenta-se o abalador ao chamado de Témis; das ondas emerge no meio dos outros se senta e de Zeus o conselho interroga: “Fulminador poderoso por que esta assembleia reuniste? Tens porventura algum plano a respeito de Teucros e Aquivos cuja contenda voraz está prestes a ser consumida?” Zeus que bulcões acumula lhe disse em resposta o seguinte:  “Adivinhaste Posídon o motivo de ter-vos chamado.

Ainda que estejam fadados à morte com todos me ocupo.

Nos altos cumes do Olimpo pretendo ficar deleitando-me com a visão dos combates.

Vós todos porém para o meio ide dos homens de Tróia e dos fortes Aquivos conforme vos aprouver para auxílio levardes a quem vos for grato.

Porque se Aquileu sozinho devesse lutar os Troianos nem um instante ao Pelida eficaz resistência oporiam pois sua vista somente lhes causa pavor indizível.

E ora que se acha irritado por causa da morte do amigo temo que contra o Destino consiga expugnar a cidade.”

Essas palavras do Crónida enorme batalha provocam.

Entram os deuses o campo da luta em dois bandos cindidos: Hera desceu para as naves ao lado de Palas Atena do abalador poderoso Posídon e do nume benéfico Hermes insigne por ser exornado de espírito culto.

Em sua força confiado também desce Hefestos com eles a coxear afanoso nas pernas recurvas e débeis.

Ares do casco brilhante se foi para os Teucros seguido de Ártemis deusa frecheira de Febo de intonsos cabelos  de Leto e o Xanto e da bela Afrodite dos risos amante.

Enquanto os deuses à parte ficaram dos homens os Dánaos  ledos exultam por causa de Aquileu que alfim retornara para os combates depois de afastado por tempo tão longo; mas os Troianos sentiram correr-lhes nos ombros o Medo trémulos quando o Pelida de rápidos pés perceberam em suas armas luzentes como Ares aos homens funesto.

Mas quando os deuses do Olimpo na chusma dos Teucros e Aquivos se misturaram agita a Discórdia os guerreiros e Atena grita atroadora ora junto do fosso por fora dos muros ora da banda dos altos penhascos ao longe ressoantes.

Grita Ares forte também semelhando bulcão tempestuoso a concitar os Troianos já do alto das grossas muralhas já da Colina Formosa e das margens do belo Simoente.

Fazem os deuses eternos e beatos assim que se choquem os contendores renhida batalha entre todos ateando.

Do alto troveja terrível o pai dos mortais e dos deuses enquanto em baixo Posídon de escuros cabelos sacode a terra imensa e as excelsas montanhas de picos altivos.

O Ida de múltiplas fontes retreme com todos os vales  os altos picos o burgo dos Teucros e as naus dos Acaios.

Treme angustiado Edoneu rei dos vastos domínios subtérreos e dando um grito do trono saltou receando que a terra sobre ele o deus de cabelos escuros Posídon rasgasse escancarando desta arte à visão dos mortais e dos deuses seu tenebroso palácio que até pelos numes é odiado.

Tal o fragor no momento em que os deuses na luta ingressaram.

Com o carcás transbordante de flechas.

Apolo atirou-se ao soberano Posídon que a terra violento sacode; a de olhos glaucos Atena o terrível Eniálio acomete; a Hera magnífica a irmã do frecheiro brilhante persegue Ártemis de áurea naveta das grandes caçadas amiga; Leto contra Hermes o deus dadivoso e potente se atira; e contra o artífice Hefestos se eleva a corrente impetuosa que os deuses Xanto nomeiam e os homens mortais Escamandro.

Enquanto os deuses contendem Aquileu ardia em desejos de com Héctor defrontar-se na chusma nascido de Príamo que o coração o levava em verdade a saciar no seu sangue a Ares terrível o deus que jamais de combates se farta.

Febo que as hostes excita de súbito a Eneias atira  contra o Pelida insuflando-lhe grande coragem no peito.

Sob as feições de Licáon o filho aguerrido de Príamo e a mesma voz dirigiu-se-lhe o filho de Zeus Febo Apolo: “Onde as ameaças Eneias mentor dos Troianos se encontram que costumavas fazer nos banquetes dos príncipes teucros quando afirmavas que a Aquileu Peleio haverias de opor-te?” Disse-lhe Eneias o filho de Anquises então em resposta: “Filho de Príamo qual o motivo de assim me incitares  contra o meu próprio desejo a enfrentar o terrível Pelida? Não seria esse o primeiro recontro que tenho com ele.

Já doutra vez sua lança comprida terror infundiu-me no Ida abundoso de fontes ao vir assaltar-nos o gado e de Lirnesso e de Pédaso os muros destruir.

Mas salvou-me Zeus poderoso infundindo-me força e presteza nos joelhos.

Sem isso às mãos me veria de Aquileu e Palas Atena que o precedia levando o fanal da vitória e o animava a exterminar com sua lança de bronze os Troianos e os Lélegas.

Homem nenhum sei-o bem é capaz de se opor ao Pelida pois sempre ao lado lhe está qualquer deus que o protege da morte.

Mas além disso seu dardo vai sempre directo; não pára  sem que se encrave no corpo do imigo.

Se um deus o combate equilibrado deixar muito fácil vitória por certo não há-de obter muito embora se fie na couraça de bronze.”

O soberano frecheiro nascido de Zeus lhe responde: “Ínclito herói faz aos deuses eternos também teu pedido pois dizem todos que és filho da filha de Zeus Afrodite enquanto Aquileu provém duma deusa de menos valia; uma de Zeus se origina; outra é filha do velho marinho.

Joga certeiro contra ele tua lança infrangível; não fiques amedrontado com suas ameaças e doestos pesados.”

Incontrastável poder no pastor de guerreiros insufla que para a frente avançou na armadura de bronze envolvido.

Hera de cândidos braços notou quando o filho de Anquises contra o Pelida marchava através das falanges compactas.

Os outros deuses depressa reunindo lhes disse o seguinte: “Considerai no imo espírito Atena e Posídon estas coisas e revelai-me o destino que presto vai ter a aventura.

Vede que Eneias em bronze envolvido a lutar se decide contra o Pelida de rápidos pés instigado por Febo.

A retirar-se o obriguemos forçando-o a deixar o guerreiro  ou se o julgardes melhor um de vós fique ao lado de Aquileu e grande força lhe infunda de modo que nada lhe falte na alma de escol para que ele perceba que são valorosos os deuses todos que o ajudam ao passo que um sopro não valem quantos ao lado dos Teucros nos prélios e pugnas se encontram.

Se a tomar parte na fera batalha descemos do Olimpo foi com o fim de fazer que hoje ao menos Aquileu não sofra dano nenhum.

Que lhe venha depois o que o Fado impiedoso desde o princípio teceu quando foi pela mãe à luz dado.

Se pela voz dum dos deuses não for informado ora Aquileu há-de recear quando alguma deidade o atacar nos combates pois em verdade é tremenda a aparência dos deuses eternos.”

Disse-lhe entanto Posídon que a terra sacode o seguinte: “Hera não fiques assim irritada que em nada isso te orna.

Eu pelo menos não quero que a luta entre os deuses se inflame –isto é: que nós principiemos por sermos os mais poderosos.

Em uma daquelas alturas é mais vantajoso sentarmo-nos fora do prélio a observá-lo; deixemos aos homens a guerra.

Se Febo Apolo porém der início à peleja ou mesmo Ares ou se o Pelida impedirem de entrar impetuoso na pugna  nós nesse caso devemos contra eles sair decididos.

Renunciarão logo todos à luta estou certo voltando para a assembleia das outras deidades no Olimpo altanado por nossas mãos poderosas assim fatalmente vencidos.”

O deus que a terra sacode depois de falar os dirige para a muralha elevada que os Teucros e Palas Atena tinham para Héracles divo construído com o fim de refúgio facilitar-lhe se acaso do monstro fugir precisasse quando das ondas do mar irrompesse e o atacasse no firme.

Nessa muralha Posídon e as demais divindades se assentam impenetrável neblina ao redor das espáduas lançando.

Os outros deuses se foram sentar na Colina Formosa em torno Febo de ti e do grande eversor Ares forte.

Por esse modo em dois grupos os deuses ficaram volvendo vários conselhos conquanto nenhum a iniciar se atrevesse a dura guerra apesar de Zeus no alto os haver exortado.

Eis que se encheu todo o plaino de peões e de carros ao brilho do bronze fúlgido.

Aos passos de tantos guerreiros retumba a terra imensa.

No espaço deixado entre as hostes dois homens marcham visando encontrar-se ambos eles sedentos de lutas  o divo Aquileu e Eneias o filho preclaro de Anquises.

Parte de Eneias o exemplo com porte minaz avançando a sacudir o elmo grande.

O pavês resistente segura diante do peito na destra agitando a hasta longa de bronze.

Marcha para ele o Pelida veloz como leão valoroso contra o qual todos os homens de um pago se reúnem sequiosos de dar-lhe caça e da vida privá-lo.

A princípio ele segue sem que atenção lhes conceda; mas quando um dos moços valentes de lança o fere recolhe-se as fauces dilata mostrando os dentes cheios de espuma.

No válido peito lhe freme o coração; com a cauda o costado e os ilhais açoitando para a batalha procura animar-se até quando rodando os glaucos olhos o salto desfere terrível ou para um caçador apanhar ou perder ali mesmo a existência: o coração valoroso de Aquileu assim e o alto brio o concitavam a ir contra Eneias de peito magnânimo.

E caminhando um para o outro afinal frente a frente ficaram.

Fala em primeiro lugar o Pelida de pés rapidíssimos: “Ínclito Eneias por que te adiantaste dos outros guerreiros para arrostar-me? Pretendes acaso provar-te comigo   esperançado de vires a ser rei dos Teucros com as honras do velho Príamo? Entanto ainda mesmo que as armas me tires não obterás só por isso o comando que Príamo exerce pois o monarca tem filhos e juízo perfeito demonstra.

Ofereceram-te acaso os Troianos um belo terreno próprio igualmente para uso do arado e cultivo de frutas se conseguires matar-me? Ser-te-á quero crer bem difícil.

Já de outra feita parece-me em fuga te pôs esta lança.

Ou não te lembras que achando-te só fiz que os bois tu largasses e que teus rápidos pés te fizeram baixar do Ida augusto sem que um momento sequer para trás a cabeça volvesses? Nessa ocasião conseguiste acolher-te em Limesso que logo pude escalar com a ajuda de Zeus e de Palas Atena.

Do dia livre as mulheres privei como escravas levando-as.

A ti salvou Zeus potente e as demais divindades eternas.

Mas não presumo que venham de novo salvar-te conforme creio que pensas.

A que te retires instante aconselho para as fileiras dos teus; não te arrojes a vir encontrar-me enquanto é tempo; somente aos estultos os factos ensinam.”

Disse-lhe Eneias então em resposta as seguintes palavras:  “Não penses ínclito Aquileu que tuas palavras me assustam como se criança ainda eu fosse.

Eu também poderia estirar-me em palavrões insultuosos e termos de pura bazófia.

Ambos um do outro sabemos os nomes de nossos maiores por ser assunto que a voz dos mortais divulgou muito embora nunca eu teus pais enxergasse nem tu nunca os meus também visses.

Ouço dizer que do nobre Peleu és rebento prestante e da alva Tétis a deusa marinha de tranças venustas.

Por minha parte me orgulho de ser descendente de Anquises de coração valoroso e da deusa imortal Afrodite.

Há-de haver pais hoje certo que morte do filho pranteiem pois não presumo que seja bastante para ambos deixarmos sem combater este campo depois de trocarmos insultos.

Já que desejas porém conhecer donde venho qual seja minha progénie dir-te-ei com certeza por muitos sabida.

Por Zeus que as nuvens cumula gerado primeiro foi Dárdano o fundador de Dardânia no tempo em que não existia ainda no plaino Ílion augusta baluarte de fortes guerreiros que por todo o Ida habitavam ornado de fontes inúmeras.

Um filho Dárdano teve o monarca possante Erictónio  que foi o mais opulento de todos os homens da terra pois três mil éguas possuía que ufanas de seus potrozinhos num plaino extenso pasciam na margem dum pântano pingue.

Enamorado de algumas ao vê-las pastar inflamou-se Bóreas que sob a figura de escuro corcel a uma dúzia delas juntou-se que doze potrinhos então conceberam.

Quando estes ledos brincavam no prado de messes viçosas pelas espigas corriam sem que elas com isso vergassem; ou quando acaso folgavam no dorso do mar infinito por sobre a crista das ondas os pés só de leve tocavam.

Trós rei dos Teucros nasceu do opulento monarca Erictónio.

De Trós provieram três filhos de forma e intelecto perfeitos: Ilo depois deste Assáraco e alfim Ganimedes deiforme que entre os mortais foi sem dúvida o herói de mais bela aparência.

Os deuses a este raptaram por causa de sua beleza para que a Zeus de copeiro servisse e vivesse no Olimpo.

De Ilo nasceu Laomedonte o monarca de forma impecável que descendentes deixou preclaríssimos.

Lampo Titono Príamo Clício e Icetáon de Ares aluno dilecto.

Cápis provém do impecável Assáraco; Anquises de Cápis;  nado de Anquises sou eu; vem de Príamo Héctor valoroso.

Esse o meu sangue essa a estirpe que só de nomear me envaideço.

É Zeus quem faz aumentar ou minguar o valor de nós todos como lhe apraz por ser ele dos deuses o mais poderoso.

Mas por que causa aqui estamos desta arte a falar como crianças completamente inactivos enquanto a peleja se alastra? Ambos dispomos de tal provisão de impropérios e insultos que cobriria o calado de nau de cem bancos dotada.

Muito flexível é a língua dos homens mui rica em discursos de toda a espécie que para as palavras o campo é infinito.

Como sair teu discurso assim logo ouvirás a resposta.

Mas que vantagem nos vem de ficarmos aqui deste modo nesta contenda irrisória de meras palavras tal como fracas mulheres pela ira assanhadas que vêm para a rua e de impropérios se cobrem citando entre factos verídicos coisas que nunca se deram que a ira a mentir as compele? Não obterás com teus ditos que o ardor se me aplaque no peito antes de as forças provarmos.

Mas vamos! Sem mores delongas as duras lanças de bronze provemos e a força consócia.”

A lança ingente depois de falar atirou contra o escudo  terribilíssimo que alto ressoa à pancada do bronze.

Com a mão possante o Pelida manteve afastado do corpo o grande escudo temendo que a lança de sombra comprida do ínclito Eneias pudesse as camadas furar-lhe sem custo.

Não lhe ocorreu –que simplório– ao espírito e ao peito a lembrança que para os homens de curta existência não é muito fácil os dons excelsos dos deuses romper ou sequer amolgá-los.

A hasta possante de Eneias não pôde furar a rodela pois foi detida pela áurea camada dum deus grato mimo.

Duas camadas furou mas três outras ainda restavam pois cinco chapas havia o ferreiro aleijado batido: duas de bronze as de fora; outras duas de estanho por dentro;  de ouro maciço a terceira que a lança de freixo deteve.

Joga em segundo lugar o Pelida a hasta longa e pontuda que foi bater bem no meio do escudo redondo de Eneias próximo da orla exterior onde é fina a camada de bronze e a táurea pele também mais delgada.

Atravessa-o a pesada lança de freixo do Pélio fazendo-o ressoar fortemente.

O ínclito Eneias se agacha medroso afastando a rodela; a hasta passou-lhe por cima do dorso depois de os dois círculos  fortes do amparo dos homens furar indo longe encravar-se na terra dura.

Depois de livrar-se da lança o guerreiro fica um momento aturdido sentindo que a vista lhe foge por ver que a lança caíra ali perto.

O Pelida no entanto salta furioso contra ele sacando da espada pontuda com grandes gritos.

O filho de Anquises então uma pedra nas mãos tomou –grande empresa– que dois dos guerreiros de agora mal abalar poderiam; sozinho a atirou sem trabalho.

E certamente de longe teria acertado em Aquileu no elmo ou no escudo que o herói salvariam da morte funesta mas tirar-lhe-ia a existência sem dúvida a espada do Acaio se o não tivesse notado Posídon que a terra sacode o qual de súbito para os eternos se vira e lhes fala: “Como me causa pesar o destino de Eneias magnânimo que por Aquileu vencido para o Hades baixar vai depressa só por ter dado atenção às palavras de Apolo frecheiro! Tolo! Que o deus não lhe serve de amparo no instante funesto.

Mas por que causa inocente como é padecer ele deve pelos gemidos dos outros? É facto que foram seus mimos sempre acolhidos por todos os deuses do Olimpo vastíssimo.

Vamos fazer que ele possa ficar ao abrigo da morte para não vir a agastar-se o alto filho de Cronos se Aquileu da alma o privar que o Destino ordenou que ele seja poupado para que não desapareça sem rasto nenhum a progénie nobre de Dárdano o filho que Zeus tempestuoso prezava mais do que quantos nasceram do amor de mulheres terrenas.

Já os descendentes de Príamo são pelo Crónida odiados; mas há-de o mando exercer nos Troianos Eneias o forte e quantos filhos depois de seus filhos a luz contemplarem.”

Hera a magnífica de olhos bovinos lhe disse em resposta: “Abalador poderoso tu próprio no peito resolve o que melhor entenderes: ou salve-se Eneias ou deixe-se que não obstante seu grande valor caia aos golpes de Aquileu.

Que eu juntamente com Palas Atena por vezes inúmeras fiz juramento solene na frente de todos os deuses de nunca o dia funesto afastar dos guerreiros troianos nem mesmo quando a cidade estivesse tomada das chamas assoladoras que os fortes Aquivos lhe houvessem lançado.”

Quando Posídon que a terra sacode lhe ouviu o conselho pela batalha cortou perpassando o tumulto das armas  até que o lugar alcançou onde Eneias e Aquileu estavam.

No mesmo instante nos olhos atira de Aquileu Pelida densa neblina tirando do escudo de Eneias magnânimo a hasta comprida de freixo provida de ponta de bronze a qual depois colocou junto aos pés do Pelida veloz.

Fez em seguida que Eneias dum salto do chão se elevasse de forma tal que o Troiano com o impulso do deus atravessa muitas fileiras de heróis muitos carros e fortes ginetes ao lado extremo do campo do prélio lugente chegando onde vestiam as armas de guerra os intrépidos Cáucones.

Aproximando-se então do Anquisíada o deus poderoso que os muros térreos sacode lhe diz as aladas palavras: “Ínclito Eneias que deus te levou a fazer tão patente insensatez de querer enfrentar o Pelida animoso? É ele mais forte que tu sobre ser predilecto dos deuses.

Deves recuar quantas vezes o vires no campo da luta se não quiseres baixar contra o Fado para o Hades escuro.

Mas quando Aquileu morrer por haver o Destino cumprido podes confiado passar a lutar nas fileiras da frente que nada tens a temer dos demais combatentes Aquivos.”

Deixa-o Posídon depois de lhe haver ministrado conselhos e logo após a caligem divina dos olhos de Aquileu tira desfazendo-a.

Depois que consegue enxergar o Pelida cheio de angústia ao magnânimo peito falou deste modo: “Deuses que enorme prodígio ante os olhos agora me surge! É minha a lança que se acha aqui perto; contudo não posso ver o varão contra o qual a atirei com a intenção de matá-lo.

É por sem dúvida Eneias querido dos deuses eternos.

E eu a julgar que só fosse jactância o que há pouco ele disse! Salve-se pois não terá mais coragem de vir enfrentar-me quem pôde alegre escapar uma vez de minha basta possante.

Ora desejo exortar os valentes Aqueus para a luta e procurar outros Teucros a fim de com eles provar-me.”

Disse e as fileiras percorre exortando os guerreiros acaios: “Não demoreis por mais tempo afastados dos Teucros Aquivos mas relembrados da luta investi contra os fortes Troianos.

É-me bastante difícil por mais vigoroso que eu seja toda esta massa enfrentar e lutar contra tantos imigos.

Ares tampouco apesar de ser deus nem Atena guerreira conseguiriam as fauces domar da espantosa batalha.

Quanto em mim cabe fazer ou com os pés ou com os braços e a força tudo farei sem que nunca me possam tachar de remisso.

Vou já romper as fileiras imigas; nenhum dos Troianos há-de mostrar-se contente se a tiro de lança ficar-me.”

Isso dizia a exortá-los.

Os Teucros Héctor belicoso estimulava dizendo que iria sair contra Aquileu: “Teucros magnânimos não reveleis medo algum do Pelida.

Só com palavras até contra os deuses eu próprio lutara; mas com a lança é impossível porque são bem mais poderosos.

Não poderá certo Aquileu fazer tudo quanto promete; há-de umas coisas fazer deixando outras a meio caminho.

Vou-lhe ao encontro e fora ainda que mãos como fogo possuísse mãos como fogo possuísse e vigor como o ferro luzente.”

Isso disse ele animando-os; os Teucros as lanças calaram; dura refrega se trava elevando-se o grito de guerra.

Chega-se então Febo Apolo para o ínclito Héctor e lhe fala: “Não te aventures Héctor a lutar só por só contra Aquileu mas a investida lhe aguarda no meio dos outros guerreiros para que não te lanceie ou de perto com a espada te tira.”

A essas palavras Héctor se retrai para o meio dos Teucros  amedrontado que a voz claramente escutara dum nume.

Lança-se Aquileu de encontro aos Troianos vestido de força com grandes gritos estreando-se logo no claro Ifitíon o valoroso Atrintida regente de povos inúmeros que duma náiade ninfa e do grande Otrinteu descendia nos campos de Hida ferazes na base do Tmolo gelado.

Quando para ele avançava o Pelida com a lança comprida fere-o no meio da testa partindo-lhe em dois a cabeça.

Tomba ruidoso o guerreiro; gloria-se Aquileu divino: “Eis-te no chão Otrintida dos homens o mais formidável.

A morte aqui vieste achar muito embora tivesses nascido junto do Lago Gigeu onde se acha o solar da família nas margens do Hilo abundante em pescado e dos vórtices do Hermo.”

Isso disse ele a jactar-se.

Enoitaram-se os olhos do Teucro.

Despedaçou-se-lhe o corpo nas rodas dos carros dos Dánaos no primo embate.

Sobre ele o Pelida matou a Demoleonte filho do claro Antenor e campeão na dura arte da guerra.

Pela viseira luzente do casco o feriu bem na fronte; o elmo de bronze contudo não pôde deter a aénea lança; atravessado ficou bem como o osso e por último o cérebro  que se desfez; perde a vida o guerreiro no arranco audacioso.

A Hipodamante depois que saltara do carro e em sua frente desabalado corria no dorso a hasta Aquileu enterra.

Ao exalar o almo espírito ruge o guerreiro tal como o belo touro no instante em que vai para o altar arrastado do soberano Helicónio exultando Posídon com isso: ruge desta arte o guerreiro ao fugir-lhe a alma nobre dos ossos.

A Polidoro divino o Pelida atacou com a lança.

Filho de Príamo era ele; o monarca até então se negara em consentir que ingressasse na pugna por ser o mais moço  e o filho seu mais amado; ninguém na carreira o vencia.

Por pueril petulância confiado nos pés muito rápidos entre os da frente corria até vir a perder a existência.

Em pleno dorso ao passar atirou-lhe o Pelida veloz a hasta que foi encravar-se onde as áureas fivelas do cinto se superpõem formando desta arte uma dupla couraça.

A arma o atravessa indo a ponta sair-lhe na altura do umbigo.

Geme o mancebo ajoelhando-se; nuvem de trevas o envolve enquanto as quentes entranhas procura deter na ferida.

No mesmo instante em que Héctor viu o irmão Polidoro no solo  a rebolcar-se sustendo nas mãos as entranhas escuras sente enturvar-se-lhe a vista não mais consentindo-lhe o peito longe de Aquileu ficar na peleja.

Para ele adiantando-se vibra a hasta brônzea que fogo parece.

O divino Pelida ao percebê-lo saltou para a frente e exclamou a gloriar-se: “Eis finalmente o indivíduo que chama me abriu no imo peito com o trespasso do amigo dilecto.

Mais tempo decerto nas vastas pontes da luta não mais fugiremos um do outro.”

E com turvadas feições para Héctor o divino assim disse: “Chega-te e logo hás-de ver-te por certo no extremo funesto.”

Sem mostrar medo o impecável Héctor em resposta lhe disse: “Não penses ínclito Aquileu que tuas palavras me assustam como se criança ainda eu fosse.

Eu também poderia estirar-me em palavrões insultuosos e termos de pura bazófia.

Sei que és valente e que muito inferior do que tu sou sem dúvida.

Mas o futuro ainda se acha nos joelhos dos deuses eternos.

Ainda que eu seja inferior poderei da existência privar-te com minha lança que até este momento provou ser pontuda.”

Vibra ao falar a hasta longa atirando-a com força.

Mas Palas com um simples sopro a desvia de Aquileu o herói valoroso  –sopro mui ténue que junto de Héctor a coloca de novo indo cair-lhe ante os pés.

Nesse instante lançou-se o Pelida cheio de fúria a gritar contra o célebre filho de Príamo só desejando matá-lo.

Mas Febo o levou para longe mui facilmente –era deus– envolvendo-o em caligem espessa.

Por vezes três ainda o ataca investindo com a lança o divino e velocíssimo herói; por três vezes bateu contra a nuvem.

Quando porém pela quarta avançava semelho a um demónio com voz terrível o insulta dizendo as palavras aladas: “Mais uma vez cão danado escapaste da Morte! Passou-te perto a desgraça.

Livrou-te sem dúvida Febo de novo de quem obténs real amparo ao entrares no ardor dos combates.

Hei-de dar cabo de ti onde quer que de novo te encontre se porventura um dos deuses quiser igualmente auxiliar-me.

A outros Dardânios agora pretendo arrancar-lhes a vida.”

Após ter falado a hasta longa atirou no pescoço de Dríope  que lhe caiu junto aos pés.

Mas deixando-o ali mesmo acomete o alto e possante Demuco nascido do claro Filétor.

Fê-lo parar atirando-lhe a lança nos joelhos; ferindo-o com o montante depois despojou-o da vida preciosa.

Lança-se após contra os filhos de Bias Laógono e Dárdano os quais com grande violência do carro atirou contra o solo; a um tira a vida com a lança; a outro à espada matou mais de perto.

Trós Alastórida veio abraçar-se-lhe aos joelhos pedindo que dele houvesse piedade e o prendesse deixando-o com vida.

Da mesma idade de Aquileu ele era; levasse isso em conta.

Néscio! Ignorava que com ele era inútil qualquer argumento pois brando peito e intelecto maleável não tinha o Pelida –sim coração rançoso.

Abraçava-lhe o mísero os joelhos a suplicar; mas no fígado Aquileu a espada lhe enterra.

Pela ferida escapou-se-lhe a víscera; sangue anegrado lhe cobre o peito; ao perder os sentidos desceram-lhe aos olhos trevas espessas.

Já perto de Múlio o Pelida enterrou-lhe num dos ouvidos a lança saindo-lhe a ponta de bronze no lado oposto.

A seguir contra Equeclo magnânimo investe de Antenor filho descendo-lhe a espada no meio da fronte; quente de sangue ficou toda a lâmina; aos olhos lhe baixa com o violento Destino indomável a Morte purpúrea.

A Deucalião logo após acomete enterrando-lhe a lança no cotovelo onde os fortes tendões o antebraço articulam.

O Teucro imóvel se queda com o braço pesado sentindo aproximar-se-lhe a morte; dum golpe na nuca o Pelida o elmo e a cabeça lhe corta jogando-os por terra: a medula da branca vértebra escorre estendendo-se o tronco na terra.

Lança-se o forte Pelida depois contra Rigmo excelso filho de Píroo que viera da Trácia de solo fecundo.

No baixo-ventre o feriu enterrando-lhe a lança nas vísceras e derrubando-o do carro.

Depois vendo Areítoo o escudeiro que os corredores fazia virar pelas costas enfia-lhe a hasta jogando-o por terra; os corcéis espantados se empenam.

Como nas grotas profundas dum árido monte se ateia fogo voraz que impetuoso devora a floresta virente e cujas chamas o vento por todas as partes impele: do mesmo modo o Pelida semelho a um demónio com a lança leva aos imigos a Morte; o chão negro se tinge de sangue.

Tal como quando o campónio uma junta de bois põe no jugo para que o trigo debulhe numa eira espaçosa pisando logo as espigas os bois mugidores que presto as separam: guia desta arte o Pelida os cavalos que o carro arrastavam sobre cadáveres e armas.

Em cima o eixo logo se torna  completamente coberto de sangue e assim à volta do assento o parapeito dos pingos que os cascos dos brutos e as rodas em movimento jogavam.

Sequioso de glória o Pelida vociferava com as mãos invencíveis molhadas de sangue.


 

CANÇÃO XXI

Mas quando vau alcançaram no rio de bela corrente o divo Xanto revolto que Zeus sempiterno gerara corta os Troianos Aquileu forçando a correr um dos grupos para a cidade através da planície por onde na véspera tinham fugido os Aqueus ante a fúria de Héctor primoroso.

Em debandada corriam; mas Hera de espessa neblina para detê-los os cobre.

O outro grupo aturdido fugia em direcção à corrente profunda de vórtices claros.

Aí se despenham ruidosos ressoando a corrente impetuosa; alto os barrancos retumbam e em grande alarido os Troianos desorientados bracejam nos torvos remoinhos do rio.

Como acossados por chama voraz que de súbito se alça os gafanhotos o rio procuram e na água se atiram quando a violência do fogo incansável sem pausa os persegue: tal pela fúria de Aquileu ao leito do Xanto profundo lançam-se os Teucros enchendo-o de envolta com belos cavalos.

Deixa o divino guerreiro a hasta longa encostada num tronco de tamargueira e sacando da espada saltou para o rio como demónio enfuriado terríveis acções maquinando.

Golpes desfecha por todos os lados; gemidos e gritos soltam os Teucros feridos e as águas se tingem de sangue.

Tal como diante de imano delfim fogem todos os peixes e enchem medrosos os seios dum porto de bela ancoragem onde devora os que venha a apanhar o cetáceo impiedoso: do mesmo modo se agacham os Teucros transidos de medo junto das margens do Xanto.

Depois de cansados os braços doze mancebos com vida o Pelida das águas retira para em vingança da morte de Pátroclo excelso imolá-los.

Quais enhos fracos e atónitos presto os arrasta do rio; e após haver-lhes as mãos para trás amarrado nas fortes e bem trançadas correias que todos traziam nas túnicas para que às naus os levassem aos sócios então os confia.

Volta a seguir para o rio sequioso de novos estragos.

Aí foi achar a um dos filhos de Príamo o moço Licáon quando tentava escapar e que já duma feita prendera numa surtida nocturna que aos campos do pai realizara.

Com bronze afiado Licáon os galhos mais novos cortava de baforeira com o fim de trançar para um carro de guerra o parapeito.

Sobre ele o Pelida caiu nesse instante  como um flagelo improviso mandando-o depois embarcado para que em Lemnos o vendessem.

Comprou-o de Jasão um dos filhos.

De lá um amigo de Príamo Eécion natural de Imbro trácica por grande preço o comprou para Arisba divina mandando-o.

Pôde afinal por caminhos ocultos chegar até casa.

Por onze dias depois do regresso de Lemnos se goza da companhia dos seus; mas no dia seguinte um dos deuses nas mãos de Aquileu o entrega que enviá-lo por certo devia para o Hades negro por mais que lhe fora essa viagem odiosa.

Logo que Aquileu divino de rápidos pés o percebe completamente despido sem elmo pavês e sem lança –porque ele tudo arrojara de si quando da água saíra pelo cansaço vencido –cobertos de suor tinha os membros– muito indignado ao magnânimo peito falou deste modo: “Deuses que enorme prodígio ante os olhos agora me surge! Certo hão-de vir novamente das trevas escuras do Tártaro pelo que vejo os Troianos que eu mesmo privei da existência uma vez que este do dia fatal conseguiu libertar-se ainda que em Lemnos o tivesse vendido.

Não pôde retê-lo o mar espúmeo que a tantos impede de a pátria reverem.

Mas desta vez quero dar-lhe a provar minha lança aguçada para que na alma afinal venha a obter a certeza de que ele dessas paragens consegue voltar ou de que a terra fértil o reterá desta vez como a muitos heróis já tem feito.”

Isso pensava parado; o Troiano aturdido achegou-se-lhe com a intenção de abraçar-lhe os joelhos pois na alma o desejo ainda afagava de vir a escapar da precípite Morte.

O divo Aquileu de rápidos pés a hasta longa levanta para feri-lo.

Agachado Licáon aos pés se lhe atira; a hasta comprida passou-lhe por cima do dorso encravando-se no duro solo num corpo qualquer desejando saciar-se.

Súplice os joelhos de Aquileu com uma das mãos ele abraça enquanto a lança aguçada com a outra sustém obstinado.

E começando a falar lhe dirige as palavras aladas: “Peço-te Aquileu divino de joelho piedade e respeito.

Qual suplicante alto aluno de Zeus ora deves tratar-me pois já comi em tua casa dos grãos de Deméter no dia em que pudeste apanhar-me no campo de bela cultura e me mandaste vender muito longe dos meus e de Príamo em Lemnos sacra o valor de cem bois nessa venda ganhando.

Três vezes isso obterás desta vez se resgate aceitares.

Há doze auroras somente depois de infindáveis trabalhos pude para Ílion voltar e ora o Fado impiedoso me entrega em tuas mãos novamente! É que Zeus me tem ódio por certo para que assim aconteça.

Fadado a mui curta existência me trouxe Laótoe à luz a princesa que de Altes é filha de Altes que em Pédaso alpestre o palácio possuía no Sátniois e como rei dominava nas turmas dos Léleges fortes.

Entre outras muitas esposas a filha o alto Príamo obteve da qual dois filhos nasceram que a morte de ti receberam.

Já a Polidoro de formas divinas da vida privaste com tua lança aguçada entre as turmas dos peões da dianteira.

Ora a desgraça chegou para mim que esperança não tenho de ainda viver que um demónio em tuas mãos me entregou neste instante.

Mas uma coisa ainda quero dizer: guarda-a bem no imo peito: poupa-me a vida que irmão uterino não sou do alto Héctor que da existência privou teu bondoso e esforçado consócio.”

Por esse modo falava o preclaro guerreiro troiano com termos súplices; mas muito dura resposta recebe:  “Tolo! Não percas o tempo nem venhas falar-me em resgate.

Antes que a Pátroclo houvesse descido o momento funesto era-me grato por vezes poupar aos Troianos a vida.

A muitos vivos prendi comprazendo-me após em vendê-los.

Mas de ora avante é impossível poupar a existência a um que seja dos picadores troianos que um deus me entregar prisioneiro ante as muralhas de Tróia mormente aos nascidos de Príamo.

Morre também caro amigo –por que lastimares-te tanto? Não morreu Pátroclo herói do que tu muito mais importante? Vê como sou bem formado e de grande estatura; provenho de genitor valoroso; uma deusa imortal me deu vida.

Fica sabendo no entanto que a Morte já me anda no encalço.

Não está longe o momento no meio do dia ou seja isso pela manhã ou de tarde em que a vida alguém venha tirar-me seja com lança de perto ou com seta que do arco dispare.”

A essas palavras os joelhos e o peito do Teucro esmorecem.

Abandonando a hasta as mãos estendeu para Aquileu divino.

Mas o Pelida arrancou do montante pontudo e assestou-lhe golpe no colo onde se acha a clavícula entrando-lhe a folha de duplo gume nas carnes.

De bruços na terra Licáon fica estendido escorrendo-lhe o sangue que banha o chão duro.

Por um dos pés segurando-o atirou-o depois o Pelida dentro do rio e a exultar proferiu as palavras aladas: “Fica-te agora entre os peixes que estranhos às lutas dos homens te hão-de lamber a ferida.

Tua mãe não virá lamentar-se sobre o teu leito de morte que as águas do turvo Escamandro te arrastarão nos seus vórtices para o amplo seio marinho.

É bem possível que saia das ondas escuras um peixe para sorver a gordura amarela do forte Licáon.

Que todos vós perecêsseis até que Ílion sacra alcançássemos –vós a fugir; eu atrás sem cessar grande estrago fazendo.

Não poderá proteger-vos nem mesmo o amplo Rio Escamandro a quem inúmeros bois a imolar vos achais habituados e em cujas ondas com vida jogais resistentes ginetes.

Apesar dele há-de a morte alcançar-vos até terdes todos  a triste morte de Pátroclo expiado e os prejuízos sem conta que em minha ausência causastes aos fortes Aqueus junto às naves.”

Extremamente indignado sentiu-se o Escamandro a essas vozes pondo-se na alma a pensar como havia de pôr o Pelida fora da luta e amparar os Troianos no extremo funesto.

Nesse entrementes Aquileu com a lança investiu contra o heróico  Asteropeu desejando no solo sem vida prostrá-lo.

De Pélagon era filho que do Áxio imponente nascera e Peribeia a mais velha das filhas do forte Acessámeno que se juntara às ocultas com o rio de curso revolto.

Contra ele Aquileu avança.

Nas mãos duas lanças o Teucro sai da corrente a esperá-lo.

No peito coragem lhe infunde o Xanto ainda irritado com a morte de tantos guerreiros que sem piedade o Pelida em seu leito sagrado atirara.

Quando desta arte um para o outro avançando bem perto ficaram foi o primeiro a falar o Pelida de pés muito rápidos: “Donde provéns qual teu nome e por que te atreveste a enfrentar-me? Filhos de pais infelizes são quantos procuram opor-se-me.”

Disse-lhe o filho admirável do herói Pélagon em resposta: “Por que perguntas quem sou nobre filho do grande Peleu? Nas fertilíssimas plagas nasci da Peónia longínqua; sou o caudilho dos Peónios que lanças compridas manejam.

Há onze auroras somente chegámos a Tróia sagrada.

Minha linhagem se estronca no rio de curso imponente: o Áxio o mais belo dos rios que ufanos se alargam na terra.

O Áxio engendrou o viril Pélagon mui famoso lanceiro;  deste assim dizem nasci.

Mas lutemos Aquileu glorioso.”

Ameaçador expressava-se.

O divo Pelida levanta a hasta de freixo do Pélio; a um só tempo desfere-lhe as lanças Asteropeu valoroso por ser ambidestro muito hábil.

Um dos hastis foi no escudo bater sem contudo furá-lo que a áurea camada o deteve presente valioso de Hefestos.

O cotovelo direito o outro apenas esflora fazendo sangue anegrado escorrer; mui por cima do herói passa a lança que foi na terra cravar-se apesar de anelar carne humana.

Contra o inimigo então joga o Pelida a hasta longa de freixo em voo recto querendo privá-lo da cara existência sem que no entanto acertasse indo no alto barranco da margem a hasta de sombra comprida enterrar-se até ao meio do cabo.

Saca da espada cortante de junto da coxa o Pelida para o adversário avançando que embalde arrancar procurava com a mão forte da borda escarpada a hasta longa de freixo.

Três vezes tenta abalá-la no afã de arrancá-la da terra; três desfalecem-lhe as forças.

Na quarta pensou que vergando-a conseguiria quebrar a hasta longa de freixo do Eácida.

Mas antes disso de perto o Pelida a existência truncou-lhe.

Junto do umbigo no ventre o feriu derramando-se as vísceras pelo chão duro.

Anelante o caudilho caiu recobrindo-lhe densa caligem os olhos.

Pisando-lhe Aquileu o peito as belas armas lhe tira e a jactar-se lhe diz o seguinte: “Fica onde estás; enfrentar os que nascem de Zeus poderoso é mui difícil até para quantos provenham de rios.

Tu te dizias nascido dum rio de curso imponente; pois me orgulho de ser de progénie que em Zeus se origina.

Meu genitor foi o grande Peleu filho de Éaco e chefe dos valorosos Mirmídones; Éaco vem de Zeus grande.

Enquanto Zeus é mais forte que todos os rios revoltos tanto seus filhos aos filhos dum rio em vigor ultrapassam.

Tens ao teu lado uma grande corrente; que venha auxiliar-te.

Mas é impossível lutar contra o filho de Cronos astucioso.

Rio nenhum se lhe iguala nem mesmo o possante Aqueloo nem ainda a força inconteste do Oceano de leito profundo que os mares todos da terra alimenta e assim todos os rios bem como os poços escuros e as fontes de ledo murmúrio.

O próprio Oceano contudo tem medo dos raios de Zeus: teme o espantoso trovão quando no alto do Olimpo ribomba.”

A hasta de bronze depois de falar arrancou do barranco abandonando ali mesmo estendido no solo sem vida a Asteropeu cujo corpo a água escura da margem recobre.

Em pouco tempo cercaram-no peixes enguias vorazes para lamber-lhe a gordura que à volta dos rins se acumula.

Volta-se Aquileu de rápidos pés contra os Peónios ginetes que pelas margens fugiam do rio de vórtices túrbidos logo que viram que ao chefe esforçado em terrível peleja o forte braço de Aquileu com a espada privara da vida.

Mata ali mesmo Tersíloco Astípilo e o forte Midonte mais Mneso e Trásio e a seguir Énio altivo e o membrudo Ofeletes.

E a muitos mais por sem dúvida Aquileu veloz prostraria se indignação não sentisse a corrente de vórtices túrbidos que forma de homem tomando do fundo das ondas lhe fala: “Ínclito Aquileu superas a todos os homens em força e em acções ímpias também porque sempre os eternos te amparam.

Se te concede Zeus grande que todos os Teucros destruas sai do meu leito e esses actos horríveis no plaino executa que minha bela corrente se encontra entulhada de mortos.

Não me é possível levar para as ondas divinas as águas  que me represam os corpos; e tu de matar não desistes! Meu grande espanto confesso; é o bastante senhor poderoso!” Disse-lhe Aquileu de rápidos pés o seguinte em resposta: “Divo Escamandro que Zeus alimenta será como queres.

Não cessarei de matar entretanto nos Teucros soberbos sem que para Ílion os repila e me venha a encontrar com Héctor  para de perto ser morto por ele ou deixá-lo sem vida.”

Como um demónio depois de falar sai no encalço dos Teucros.

Vira-se então para Apolo a corrente de vórtices túrbidos: “Filho de Zeus do arco argênteo nenhuma atenção concedeste ao que te disse o alto filho de Cronos que aliás insistente te encarregou de amparar os Troianos até que o crepúsculo lento na terra se estenda cobrindo de sombras o campo.”

Disse; o Pelida de lança famosa saltou da alta margem para o mais fundo do rio.

Mas este de súbito as águas intumescendo revolve-se iroso e arrastando os cadáveres dos picadores troianos que Aquileu nas ondas lançara fora do leito os jogou a mugir como touro sanhudo enquanto aos vivos procura salvar ocultando-os nas dobras e depressões dos revoltos remoinhos da bela corrente.

Contra o divino Pelida terríveis as ondas avançam e com tal força no escudo brilhante lhe batem que muito dificilmente podiam firmar-se-lhe os pés.

O guerreiro tenta agarrar-se num olmo robusto; mas este arrancado pela raiz rompe a borda escarpada e no rio caindo fica-lhe à guisa de ponte obstruindo a hialina corrente com a ramagem vistosa.

O guerreiro dum salto se livra do torvelinho lançando-se rápido para a planície amedrontado.

Porém não desiste a deidade possante que ondas escuras levanta com o fim de obrigar o Pelida a retirar-se da luta livrando desta arte os Troianos.

Cerca dum tiro de lança o Pelida consegue adiantar-se num só disparo como águia impetuosa e rapace anegrada que vence todas as aves em força e no rápido voo: dessa maneira avançava o Pelida; no peito ressoava-lhe terrivelmente a armadura.

De esguelha procura livrar-se; mas a corrente no encalço o persegue com grande estrupido.

Se fontaneiro conduz desde a fonte profunda água límpida por entre as plantas viçosas em horto de belo traçado e com enxada na mão de calhaus desentope o regueiro  –a água começa a correr abalando as pedrinhas que encontra e quando alcança declive mais forte murmura adiantando-se até que ultrapassa sem custo o próprio homem que o leito lhe abrira: as ondas grandes do rio desta arte o Pelida alcançavam em que veloz ele fosse que os deuses o são mais que os homens.

Sempre que Aquileu divino de rápidos pés se detinha para tentar enfrentá-lo e saber se a fugir o obrigavam os demais deuses eternos que moram no Olimpo vastíssimo as grandes ondas do rio que as chuvas de Zeus alimentam o fustigavam nos ombros.

Aflito o guerreiro saltava; mas a corrente impetuosa por baixo cansava-lhe os joelhos continuamente roubando-lhe às plantas a areia do fundo.

Para o céu vasto virando-se então geme o claro Pelida: “Zeus pai nenhum dos eternos virá libertar-me do rio nesta emergência? Que eu venha a sofrer tudo o mais depois disto.

De nada disto porém faço cargo a deidade nenhuma; é minha mãe a culpada que sempre queria enganar-me quando dizia que junto às muralhas dos Teucros valentes me matariam as flechas velozes de Apolo certeiro.

Antes Héctor o mais forte dos Teucros me houvesse matado;  fora das armas privar um herói a outro herói nobremente.

Quer o Destino no entanto que eu morra de estúpida morte por este rio cercado tal como um menino porqueiro no atravessar um regato que as águas do Inverno engrossaram.”

Ao perceberem-lhe as queixas humanas feições assumindo vieram se pôr junto dele mui prestes Atena e Posídon; e pelas mãos segurando-o confiança no peito lhe infundem.

Foi o primeiro a falar o deus grande que a terra sacode: “Ânimo claro Pelida; receio nenhum ora mostres.

Como auxiliares agora ao teu lado dois numes se encontram Palas Atena e Posídon que Zeus poderoso o permite.

Não pode ser teu destino morrer nesse rio impetuoso que deixará de ameaçar-te; hás-de a tudo assistir em pessoa.

Ora desejo que aceites o nosso prudente conselho: que não descanse teu braço jamais nesta horrível batalha antes de haveres nos muros de Tróia altanada encerrado quantos da morte escaparem.

Pós teres a Héctor dado a morte para os navios retorna.

Dar-te-emos ganhar glória imensa.”

Ambos depois de falar para o meio dos deuses voltaram.

Mais animado com isso o Pelida prossegue correndo  pela planície que então se encontrava de todo alagada.

Armas brilhantes de moços que a vida perderam flutuavam corpos em número infindo.

O Pelida os joelhos levanta contra a corrente a avançar sem que o rio gigante o impedisse que incontrastável vigor a donzela de Zeus lhe infundira.

Mas não desiste o Escamandro da cólera imensa; irritado cada vez mais contra Aquileu a crista das ondas alteia; e o Simoente chamando com grande alarido lhe fala: “Vamos irmão predilecto reunidas as forças a esse homem já contrapor-nos; se não dentro em breve a cidade de Príamo há-de cair que os Troianos não podem na pugna enfrentá-lo.

Corre depressa a auxiliar-me; enche o leito com as águas das fontes; os ribeirões estimula também para que ondas furiosas possas para o alto atirar.

Com estrondo espantoso desloca pedras e troncos a fim de refrearmos este homem feroz que ora estadeia coragem mais própria dos deuses eternos.

Não há-de agora valer-lhe o vigor e a beleza estou certo nem essas armas brilhantes que em breve no fundo cenoso  vai recobri-las o limo.

A ele próprio em tal monte de areia esconderei derramando-lhe em torno infinito cascalho  que nem os ossos sequer poderão recolher os Aquivos.

Tal a camada de saibro que em cima hei-de em breve amontoar-lhe que um monumento farei sem que os seus compatriotas precisem por ocasião das exéquias mais digno sepulcro erigir-lhe.”

Logo depois de falar contra o forte Pelida arremete encapelado e a mugir espumoso entre sangue e cadáveres.

As foscas ondas do rio que as chuvas de Zeus alimentam por modo tal avançavam tentando arrastar o guerreiro que Hera receando que viesse a morrer o divino Pelida nos torvelinhos revoltos um grito emitiu angustiada e para o filho amantíssimo Hefestos virando-se disse: “Alça-te coxo amantíssimo filho! Adversário condigno nesta batalha estou certa no Xanto revolto encontraste.

Corre em socorro depressa e por tudo tuas chamas ostenta.

Zéfiro entanto farei levantar-se e assim Noto fulgente para que feia borrasca do lado do mar nos conduzam e na voragem das chamas os corpos dos Teucros e as armas sejam tragados.

Abrasa o arvoredo das margens do Xanto lança-lhe fogo no leito e que ameaças nem termos melífluos possam jamais conseguir que do intento iniciado desistas.

Somente quando me ouvires gritar avisando-te a fúria abrasadora atenua e consente que o fogo se extinga.”

A essas palavras ateou ardentíssimas chamas Hefestos.

Primeiramente incendiou todo o plaino queimando os cadáveres inumeráveis dos Teucros que Aquileu privara da vida.

A água brilhante deixou de correr pelas margens do rio.

Tal como um campo irrigado se enxuga depressa no Outono ao soprar Bóreas e alegre se mostra quem vai cultivá-lo: seca-se toda a planície ficando queimados os corpos.

Contra a corrente depois vira Hefestos a potência do fogo.

As tamargueiras viçosas os olmos os belos salgueiros o fogo abrasa; arde o junco e a morraça arde o loto que em abundância crescia nas margens da bela corrente.

Sofrem tormento as enguias e os peixes nos vórtices túrbidos desorientados saltando por todos os lados opressos pela violência do sopro de Hefestos de engenho fecundo.

Queima-se a força do rio também que falou deste modo: “Nenhum dos deuses Hefestos é capaz de medir-se contigo.

Não poderei contrastar o furor de tuas chamas ardentes.

Cessa! Que o divo Pelida os imigos expulse de Tróia.

A mim que imporia esta guerra ou qualquer tentativa de auxílio?” Clama abrasada a corrente elevando-se em bolhas as ondas.

Tal como à banha dum gordo cevado depressa se funde num caldeirão colocado nas chamas de lenha bem seca  e pela acção do calor cresce e ameaça ao redor derramar-se: ferve desta arte a corrente nas chamas vivazes de Hefestos.

Não mais podendo avançar pára o Xanto a corrente oprimido pelo vapor abrasado do sábio ferreiro.

Virando-se súplice então para a deusa lhe disse as palavras aladas: “Hera por que só a mim entre todos os deuses teu filho dessa maneira atormenta? No entanto não sou tão culpado como as demais divindades que aos fortes Troianos protegem.

Bem deixarei de ajudá-los se assim determinas que o faça; mas que ele cesse também.

Juramento solene profiro de nunca o dia funesto afastar dos guerreiros de Tróia nem mesmo quando a cidade estiver sendo presa das chamas assoladoras que os fortes Aquivos lhe houverem lançado.”

Hera de cândidos braços ouviu o pedido angustioso e para Hefestos virando-se o filho dilecto lhe disse: “Ínclito Hefestos é bastante! Não é conveniente que sofra  dessa maneira um dos deuses por causa dos homens terrenos.”

Obedecendo-lhe Hefestos extinguiu a potência do fogo; plácido volta o Escamandro a correr entre as margens graciosas.

Os contendores se apartam depois de aplacada a violência do belo Xanto; continha-o a deusa apesar de irritada.

Mas espantosa e renhida peleja entre as outras deidades se levantou por estarem em duas facções divididas.

Com grande estrépito ali se travaram; ressoa a ampla terra; toa por tudo o alto céu como grande trombeta o que logo foi percebido por Zeus donde estava no Olimpo alegrando-se-lhe o coração ante a luta iminente dos deuses eternos.

Por muito tempo afastados não ficam; dá início à peleja Ares que fura paveses o qual contra Atena se atira com uma lança de bronze assacando-lhe doestos pesados: “Mosca canina por que novamente ante os deuses pretendes com tua audácia incansável atear a terrível Discórdia? Ou não te lembras talvez que animaste o Tidida Diomedes a me ferir e lhe guiaste em presença de todos tu própria a arma terrível que veio ainda assim tão-só a pele esflorar-me? Ora pretendo vingar as ofensas que então me fizeste.”

Logo depois de falar joga a lança contra a égide horrenda cheia de franjas que até ao próprio raio de Zeus resistira.

Ares o deus homicida contra ela atirou a hasta longa.

Retrocedendo com as mãos vigorosas Atena uma pedra áspera e negra levanta do solo de enorme tamanho que como marca do campo os antigos ali tinham posto.

De Ares em pleno pescoço a atirou dissolvendo-lhe as forças.

Em sete jeiras estira-se o deus homicida; empoeiram-se-lhe os resplendentes cabelos; ressoam-lhe as armas.

Gloriando-se entre risadas Atena lhe diz as palavras aladas:  “Não compreendeste ainda estulto que sou muito mais vigorosa para que tenhas a audácia de vir medir forças comigo? Ficas desta arte a sofrer o castigo das sevas Erínias que contra ti tua mãe invocou por haveres a causa dos fortes Dánaos deixado passando-te para os Troianos.”

Para outra parte depois de falar volve os olhos brilhantes.

A Ares conduz pela mão Afrodite de Zeus descendente.

Com muito custo recobra o sentido a gemer o deus forte.

Hera a magnânima deusa dos cândidos braços ao vê-los súbito a Palas Atena dirige as palavras aladas:  “Palas Atena indomável donzela de Zeus poderoso mais uma vez essa mosca canina livra a Ares terrível dos dissabores da guerra afastando-o da luta.

Vai a eles.”

Palas Atena de facto com grande alegria os encalça e junto deles no peito da deusa vibrou com mão forte rija pancada que os joelhos lhe dobra e lhe tira o sentido.

Ficam desta arte estendidos na terra fecunda os dois deuses.

Vangloriando-se Atena as palavras aladas profere: “Fossem como estes os homens que vêm em auxílio dos Teucros contra os Acaios valentes munidos de vestes de bronze; como Afrodite mostrassem tão grande firmeza no instante de a Ares socorro prestar atrevendo-se a vir defrontar-se-me e desde muito esta guerra estaria acabada e a cidade dos picadores troianos por nós conquistada e saqueada.”

Hera a magnífica de olhos bovinos sorriu escutando-a.

Vira-se então para Apolo o deus forte que a terra sacode: “Febo por que nos deixamos ficar a departe se os outros deuses já deram o exemplo? Vergonha há-de ser retornarmos para a morada de Zeus no alto Olimpo sem termos lutado.

Já que és mais moço começa.

Não fica decente que eu o faça  por ter nascido primeiro e ser mais do que tu experiente.

Néscio por que te revelas assim destituído de senso? Já te esqueceste talvez de que fomos os únicos deuses que padecemos em Tróia forçados por Zeus a servirmos a Laomedonte o orgulhoso mortal pelo prazo dum ano? Como senhor nos tratou prometendo pagar-nos salário.

Em torno à grande cidade dos Teucros construí as muralhas largas e belas de ver que a tornassem de facto invencível sendo que tu caro Febo nos vales e bosques virentes do Ida tratavas cuidoso de bois que se arrastam tardonhos.

Mas quando as Horas alegres o termo afinal sinalaram do nosso ajuste abusando da força o feroz Laomedonte da humilde paga nos priva chegando a ameaçar ao tocar-nos que mãos e pés mandaria amarrar-nos com fortes atilhos e nos faria vender como escravos em ilhas longínquas.

Sim chegou mesmo a ameaçar de cortar-nos com bronze as orelhas.

O coração pesaroso dali nos partimos irados por não levarmos a paga que o rei não cumprira a palavra.

E ora a seu povo te mostras benévolo em vez de te aliares com todos nós para alfim alcançarmos que os Teucros pereçam  sem excepção com seus filhos pequenos e as gratas esposas!” Disse-lhe Apolo em resposta o senhor que de longe asseteia: “Abalador julgar-me-ias por certo privado de senso se contendesse contigo por causa dos homens apenas que semelhantes às folhas das árvores ora se expandem cheios de viço e louçãos pelos frutos da terra nutridos ora da vida privados sem brilho nenhum emurchecem.

Da dura guerra abstenhamo-nos; que eles apenas combatam.”

Tendo assim dito afastou-se porque no imo peito sentia acanhamento de vir a travar-se com o tio paterno.

Ameaçadora porém indignada contra ele se mostra Ártemis deusa selvagem que termos lhe assaca injuriosos: “Foges galhardo frecheiro que ao longe asseteia entregando sem resistência nenhuma a vitória e a alta glória a Posídon? Néscio por que esse arco inútil então sempre no ombro ostentares? Não aconteça outra vez ter que ouvir-te na casa paterna ante os demais a jactar-te tal como é costume fazeres que te atreveste a lutar corpo a corpo com o forte Posídon.”

Isso disse ela; nenhuma resposta lhe deu Febo Apolo; mas irritada mostrou-se a consorte de Zeus poderoso  que com palavras violentas se vira para ela e lhe fala: “Como te atreves cachorra sem pejo a enfrentar-me? Difícil muito difícil ser-te-ia o vigor contrastar-me conquanto leves esse arco que Zeus poderoso te pôs como leoa entre as mulheres apenas as quais a teu grado exterminas.

É mais seguro de facto correr ágeis gamos nos vales e caçar feras do que defrontar-se com quem tem mais força.

Mas se desejas provar o combate dá logo começo.

Vindo medir-te comigo verás quanto em força te excedo.”

Com a mão esquerda depois de falar pelos pulsos a prende; com a direita depois o arco e o belo carcás lhe arrebata e vários golpes com eles a rir nas orelhas da deusa que procurava escapar assestou.

Espalharam-se as setas.

Ártemis foge afinal lacrimosa qual tímida pomba que por gavião perseguida se esconde em rochedo escavado pois seu destino não era perder nesse instante a existência: desta arte a deusa fugiu arco e aljava ali mesmo deixando.

Vira-se então para Leto o brilhante e sagaz mensageiro: “Leto contigo não hei-de lutar; arriscado é sem dúvida forças medir com a esposa de Zeus que bulcões acumula.

Podes gabar-te à vontade entre os deuses eternos do Olimpo de que impossível me foi antepor-me à tua força inconcussa.”

Leto recolhe enquanto Hermes falava o arco e as setas brilhantes que nos remoinhos da poeira do campo espalhadas se achavam em seguimento da filha partindo depois de reuni-las.

Esta ao Olimpo chegara a morada de bronze de Zeus fulminador e chorosa assentou-se nos joelhos paternos.

O véu divino lhe treme no colo; com doce sorriso ao peito Zeus a aconchega e lhe diz as aladas palavras: “Qual das deidades urânias te fez esse dano querida como se à vista de todos houvesses um mal praticado?” A caçadora bulhenta do rico diadema lhe disse: “Hera de cândidos braços a tua mulher me fez isso a causadora entre os deuses eternos da feia Discórdia.”

Enquanto os deuses no Olimpo conceitos desta arte trocavam para o recinto sagrado de Tróia dirige-se Apolo.

Muito cuidado lhe davam os muros bem feitos receoso de que apesar do Destino os Aqueus nesse dia os tomassem.

Os outros deuses eternos voltaram então para o Olimpo uns exultantes por causa da glória alcançada outros tristes  e se assentaram à volta de Zeus poderoso.

O Pelida no morticínio dos Teucros e seus corredores prossegue.

Como de incêndio de grande cidade que os deuses atearam em sua cólera o fumo se eleva até ao éter vastíssimo a todos grandes trabalhos a muitos a ruína levando: causa o Pelida desta arte aos Troianos fadigas e danos.

Do alto da torre que os deuses haviam construído percebe o velho Príamo ao forte Pelida e com ele a fugirem em confusão os Troianos sem ânimo algum para nada.

Geme sentido o monarca e baixando apressado até aos muros ordens expressas aos guardas gloriosos desta arte transmite: “Escancarai bem as portas e firmes ficai até que todos os fugitivos aos muros se acolham que Aquileu monstruoso lhes vem no encalço.

Receio chegado o momento funesto.

Mas logo que eles respirem nos muros alfim refugiados sem perder tempo fechai novamente as mui sólidas folhas pois tenho medo que esse homem funesto nos entre na cidade.”

As folhas logo escancaram retiram os fortes ferrolhos luz para todos assim aprestando.

Saltou Febo Apolo para o exterior com o fim de livrar os Troianos da ruína  que em direcção da cidade e das altas muralhas corriam atormentados por sede abrasante e cobertos de poeira.

Vem-lhes Aquileu no encalço com a lança terrível que a cólera o coração lhe oprimia sequioso de obter alta glória.

E porventura os Acaios teriam o burgo escalado se Febo Apolo ao divino Agenor não tivesse animado filho do claro Antenor vigoroso e de forma perfeita.

No íntimo o deus ousadia lhe infunde ficando-lhe ao lado  para que as Parcas funestas pudesse do corpo afastar-lhe.

Perto da faia postando-se em névoa mui densa se envolve.

Quando Agenor viu já perto ao Pelida eversor de cidades pára batendo-lhe forte o viril coração indeciso.

Cheio de angústia ao magnânimo peito falou deste modo: “Pobre de mim! Se tentar escapar do Pelida possante por onde correm os outros Troianos sem tino e em desordem alcançar-me-á facilmente matando-me sem resistência.

Que se daria porém se deixasse que Aquileu Peleio os trucidasse e em carreira veloz me afastasse dos muros o plaino de Ílion a cortar até que o bosque virente alcançasse do Ida onde fácil me fora esconder-me na espessa folhagem?  Retornaria para Ílion à tardinha depois de banhado e refrescado do suor na tranquila corrente do Xanto.

Mas para que coração entregares-te a tais pensamentos? Se pelo plaino a correr me afastasse dos muros a Aquileu logo daria na vista que presto viria alcançar-me.

Fora impossível então escapar do Destino e da Morte que aos homens todos Aquileu em força e valor sobreexcede.

Bem: e se diante dos muros de Tróia sair a enfrentá-lo? Ao corte de armas de bronze é seu corpo também vulnerável; uma alma apenas possui; que também é mortal dizem todos; mas Zeus potente nascido de Cronos lhe dá glória excelsa.”

Disposição desse modo adquiriu para ir contra o Pelida que o coração valoroso o incitava a combates e lutas.

Como a pantera que sai do mais denso da selva ao encontro de caçador varonil sem que espanto sequer ou receio o coração lhe revele quando ouve o ladrar da matilha e se adiantando-se aquele de longe ou de perto a vulnera não esmorece do ardor combativo conquanto ferida antes de vir a travar-se com ele e morrer ou matá-lo: da mesma forma Agenor de Antenor o preclaro rebento  não repedava disposto a lutar com o forte Pelida.

Diante do corpo sustendo o redondo pavês e apontando para o adversário a hasta brônzea com voz atroante lhe fala: “Ínclito Aquileu sem dúvida no íntimo afagas o sonho de tomar hoje a cidade dos Teucros de vestes de bronze.

Tolo! Trabalhos ainda deveis padecer incontáveis.

Dentro encontramo-nos muitos e fortes varões que lutando por nossos pais e as esposas e os tenros filhinhos havemos de salvar Tróia.

Quem corre de encontro ao Destino funesto és tu guerreiro terrível conquanto esforçado e valente.”

Tendo isso dito da mão vigorosa a hasta longa desfere que foi na perna de Aquileu bater logo abaixo do joelho.

A dura greva de estanho construída de pouco e mui bela toa terrível.

A ponta de bronze resvala no entanto  sem perfurar o presente do deus que ao Pelida protege.

Por sua vez contra o divo Agenor salta o forte Pelida; mas Febo Apolo o frecheiro o impediu de alcançar alta glória: arrebatando o Troiano envolveu-o em espessa neblina e da batalha lutuosa deixou que saísse tranquilo.

Logo depois enganando o Pelida o separa dos Teucros:  sob as feições do divino Agenor o frecheiro brilhante pôs-se na frente de Aquileu que presto contra ele se atira.

E enquanto Aquileu corria atrás dele num campo de trigo em direcção ao Escamandro de leito revolto mantendo sempre o frecheiro pequena distância que o claro Pelida nunca a esperança perdesse de vir finalmente a alcançá-lo os demais Teucros fugindo em tropel aliviados chegaram aos muros sacros de Tróia que logo se encheu de guerreiros.

Fora da grande cidade ninguém a ficar se atrevia nem para entrar juntamente com os outros nem para notícias ter dos que haviam caído na luta.

Feliz se julgava só quem podia chegar como fosse a acolher-se nos muros.


 

CANÇÃO XXII

Todos os Teucros que haviam alcançado a cidade fugindo como ágeis gamos da sede e do suor se refrescam nos belos e altos merlões recostados.

Os fortes Aquivos entanto com os escudos pendentes dos ombros aos muros chegavam.

Somente a Héctor o Destino funesto do lado de fora das portas Ceias deteve bem perto das fortes muralhas.

Para o terrível Pelida virando-se diz Febo Apolo: “Por que motivo Pelida te cansas desta arte em seguir-me sendo mortal e eu eterno? Dar-se-á que não tenhas notado que sou um deus imortal para assim furibundo seguires-me? Aos fugitivos Troianos por certo não dás importância pois aqui te achas enquanto à cidade eles todos se acolhem.

Não te é possível matar-me que em mim não tem força o Destino.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés indignado em resposta: “Asseteador és o deus mais funesto! Por que me enganaste para afastar-me dos muros altivos? Muitíssimos outros antes de a Tróia chegarem teriam mordido o chão duro.

De excelsa glória privaste-me; fácil te foi aos Troianos dar protecção pois receio não tens dum castigo futuro.

Pronta vingança tomara se em mim estivesse fazê-lo.”

Para a cidade depois com soberba partiu agilmente como o corcel habituado a ganhar altos prémios que o carro pela planície arrebata galhardo em carreira veloz: os pés e os joelhos assim alternava a correr o Pelida.

Logo o avistaram os olhos de Príamo o velho monarca quando ele o plaino cortava brilhando-lhe as armas como o astro que se distingue no Outono no curso da noite divina pelo irradiante fulgor entre as outras estrelas brilhantes denominado Cachorro de Órion pelos homens terrenos: brilho extraordinário possui mas é indício de grandes desgraças pois para os míseros homens é causa constante de febres: do mesmo modo lampeja no peito de Aquileu o bronze.

Príamo geme sentido elevando para o alto as mãos ambas; em desespero a cabeça percute e a chamar pelo filho pede que aos muros se acolha.

Das portas o herói não se arreda cheio de ardor decidido a travar-se com o forte Pelida.

As mãos o velho estendendo-lhe em tom lastimoso lhe fala: “Vem meu Héctor não esperes a esse homem sozinho sem teres quem te auxilie.

É ele muito mais forte.

Cairás a seus golpes  e prematuro ver-te-ás pelo Fado inditoso alcançado.

Cruel! Dedicassem-lhe os deuses a mesma afeição que lhe voto  e logo abutres e cães insepulto comer o haveriam aliviando-me a dor excruciante que o peito me oprime.

De muitos filhos ilustres privou-me esse monstro ou matando-os ou como escravos mandando vendê-los em ilhas distantes.

Hoje ainda embalde procuro a dois deles o meigo Licáon e Polidoro nascidos de Laótoe a ilustre princesa sem que consiga enxergá-los no meio dos outros Troianos.

Caso se encontrem com vida entre os Dánaos serão resgatados com muito bronze e muito ouro pois temos reservas que o velho Altes a filha dilecta dotou por maneira sumptuosa.

Mas se a luz clara não vêem já tendo para o Hades baixado tanto maior minha dor e da mãe que existência lhes demos que o sentimento do povo será passageiro se ao menos não sucumbires também sob os golpes do fero Pelida.

Vem para dentro dos muros meu filho que possas os Teucros filhas e esposas salvar.

Não te obstines assim em dar glória inconfrontável a Aquileu perdendo a existência querida.

Deste infeliz pelo menos apiada-te que ainda conservo  o entendimento.

Quer Zeus que no extremo da vida cansada por modo triste pereça depois de infortúnios sem conta: mortos os filhos queridos as filhas privadas do dia da liberdade violado o recinto sagrado dos tálamos os meus netinhos jogados ao solo durante a refrega e em servidão pelos duros Aqueus arrastadas as noras.

E quando alfim qualquer Dánao me houver da existência privado com bronze agudo ferindo-me ou seta de longe atirada hão-de arrastar-me ante os muros altivos os cães voradores que à minha mesa criei para guarda do belo palácio.

E quando o sangue me houverem bebido agitados hão-de eles pôr-se ante o pórtico.

A um moço que tomba no campo da luta é decoroso jazer trespassado no solo fecundo; belo de ver é ele sempre apesar de sem vida encontrar-se.

Mas profanarem os cães as vergonhas a cândida barba e a veneranda cabeça dum velho que a vida perdesse é para os míseros homens sem dúvida o quadro mais triste.”

Queixa-se o velho arrancando punhados de brancos cabelos sem que com isso o impecável Héctor demover conseguisse.

A velha mãe por seu lado também a chorar se lastima.

Dos seios murchos as vestes afasta e mostrando-os ao filho a derramar quentes lágrimas diz-lhe as palavras aladas: “Filho querido respeito e piedade a estes seios demonstra.

Lembra-te quando te punha a mamar para o choro acalmar-te.

Vem para dentro meu filho e daqui resguardado defende-te contra esse monstro; não podes sozinho com ele medir-te.

Se te matar infeliz não virei a chorar-te no leito em que jazeres pimpolho querido de minhas entranhas  nem tua esposa de dote copioso; mas longe de todos junto das naus dos Aquivos aos cães servirás de repasto.”

Ao filho caro desta arte suplicam desfeitos em lágrimas os dois anciões sem com isso o impecável Héctor demoverem que fora a Aquileu aguarda o qual vinha terrível contra ele.

Como serpente que de ervas malignas se nutre ao viandante sói esperar enroscada na frente da cova no monte e em feroz cólera acesa lhe deita terrível mirada: o ínclito Héctor com viril decisão desse modo se achava desde que o escudo brilhante na torre saliente apoiara.

Cheio de angústia ao magnânimo peito falou deste modo: “Pobre de mim! Se as muralhas e as portas entrar novamente  Polidamante será o primeiro a cobrir-me de opróbrio por me haver dado o conselho na noite funesta em que Aquileu para os combates voltou de levar para dentro os Troianos.

Não me deixei persuadir; fora muito melhor que o fizesse! Ora que muitos morreram por causa de minha imprudência quanta vergonha dos homens das Teucras de peplos compridos eu sentiria se alguém por malícia de mim afirmasse: ‘Fiado no próprio valor foi a causa da ruína do exército.

’ Isso dirão certamente.

Será preferível agora ou retornar para o burgo depois de matar o Pelida ou frente aos muros a vida perder por maneira gloriosa.

Que se daria entretanto se o escudo abaulado largasse e o forte casco encostando no muro a hasta longa de bronze para o impecável Aquileu assim desarmado avançando e prometesse que Helena bem como os objectos preciosos que o divo Páris nas côncavas naus para Tróia nos trouxe –causa que foi inicial desta guerra funesta– aos Atridas restituiria e que aos fortes Aqueus outrossim mandaria distribuir os tesouros que Tróia sagrada ainda encerra após ter obtido dos graves anciões juramento solene  de que sem nada ocultar formariam dois lotes idênticos das abundantes riquezas que dentro das casas se encontram? Mas para que coração entregares-te a tais pensamentos? Não deverei suplicar-lhe que é certo não vir a apiedar-se nem demonstrar reverência; imolado seria indefeso como se fosse mulher mal me visse despido das armas.

Não é possível mantermos conversa a respeito das pedras e dos carvalhos no jeito de moças e guapos rapazes moças e guapos rapazes em seus agradáveis colóquios.

Muito mais digno é avançar decidido sem perda de tempo para que logo se veja a quem Zeus glória imensa concede.”

Tais pensamentos no peito agitava aguardando o Pelida que como Eniálio avançava.

Ondulava-lhe o casco brilhante; na mão direita segura a hasta horrenda de freixo do Pélio  vivo fulgor irradiando a armadura de bronze que o cinge como de incêndio voraz ou do Sol quando se alça no Oriente.

Grande tremura apossou-se de Héctor quando o viu mais de perto e apavorado das portas se afasta a correr começando.

Vai-lhe no encalço o Pelida confiado nos pés rapidíssimos.

Como no monte o gavião a mais lestes de todas as aves  mui facilmente se atira a voar contra tímida pomba que se lhe escapa de esguelha e de perto a acomete soltando guinchos agudos que o peito o concita a apanhar presa fácil: do mesmo modo o Pelida impetuoso acomete deitando o ínclito Héctor a correr ao redor da muralha de Príamo.

Vão pela estrada por fora dos muros e o posto deixando das sentinelas e a grande figueira que os ventos agitam; os mananciais cristalinos passaram que as duas nascentes perenemente alimentam do Xanto de vórtices túrbidos: de uma água quente deflui donde denso vapor se levanta continuamente tal como se fogo vivaz a aquecesse enquanto da outra até mesmo no ardor do Verão sempre escoa água tão gélida quanto granizo ou cristais de alva neve.

Junto das fontes cavados na pedra mui belos e largos viam-se os tanques que outrora as esposas e as filhas dos Teucros para lavar seus brilhantes vestidos usavam no tempo em que reinava ainda paz anterior à chegada dos Dánaos.

O seguidor e o seguido depressa os transpõem na carreira.

Foge um notável guerreiro; um mais forte no encalço lhe segue sempre velozes que não contendiam por vítima inerme  ou belo couro de boi das carreiras o prémio consueto: em jogo estava a existência de Héctor domador de cavalos.

Como ginetes de sólidos cascos disparam velozes em longa pista em disputa de prémios de grande valia trípode ou bela mulher nas exéquias dum forte guerreiro: do mesmo modo três vezes à volta dos muros de Príamo os contendores correram.

Contemplam-nos todos os deuses para os quais Zeus se dirige dizendo as palavras aladas: “Que lastimoso espectáculo! Um varão que me é caro meus olhos vêem perseguido ao redor das muralhas! O peito confrange-se-me ante o destino de Héctor o guerreiro que vítimas pingues me ofereceu tantas vezes não só do Ida augusto e ventoso como da acrópole teucra.

Ora Aquileu divino o persegue com pés velozes em torno dos muros de Príamo ilustre.

Considerai sempiternas deidades o caso e o conselho que for mais justo tomai se devemos salvá-lo da morte ou se apesar de extremado é forçoso que Aquileu o vença.”

A de olhos glaucos Atena lhe disse o seguinte em resposta: “Pai que desferes coriscos e nuvens cumulas que dizes? Tens intenção de livrar novamente da morte funesta   o lutador que fadado a morrer já de há muito se encontra? Seja se o queres conquanto nós outras jamais te aprovemos.”

Zeus que bulcões acumula lhe disse o seguinte em resposta: “Ó Tritogénia acomoda-te.

Quanto falei foi produto certo da cólera; mas para ti quero ser mais sereno.

Sem mais delongas procede de acordo com teu alvedrio.”

Essas palavras a Atena ainda mais excitada deixaram; célere baixa passando por cima dos cumes do Olimpo.

Segue no encalço de Héctor entrementes o divo Pelida.

Como o sabujo nos montes por vales e costas persegue enho veloz que fizera deixar o covil abrigado e se este trépido logra esconder-se no meio de arbustos voa sem pausa para aí procurando encontrá-lo de novo: vai desse modo no encalço de Héctor o impecável Aquileu.

Sempre que o nobre guerreiro das portas Dardânias tentava aproximar-se construídas por baixo de torres altivas certo de auxílio alcançar dos disparos que do alto fizessem força-o o Pelida a afastar-se interpondo-se entre ele e a muralha e em direcção da planície desta arte a correr obrigando-o.

Como no sonho se dá quando alguém corre atrás do inimigo  sem conseguir alcançá-lo nem este tampouco adiantar-se: nem pode Héctor escapar nem Aquileu a mão pôr-lhe em cima.

De que maneira das Parcas Héctor poderia esquivar-se se Febo Apolo pela última vez não o tivesse ajudado agilidade e inconteste vigor emprestando-lhe aos membros? Com a cabeça o divino Pelida aos Acaios acena para que setas amargas ninguém disparasse no Teucro pois não queria perder a alta glória de ser o primeiro.

Mas quando após quatro voltas as fontes de novo alcançaram da áurea balança tomando Zeus pai que bulcões acumula pôs sobre as conchas as Queres que a morte fatal determinam a do divino Pelida e a de Héctor domador de cavalos e pelo meio a librou: baixa o dia funesto de Héctor para o negro Hades; Apolo nessa hora ao Troiano abandona.

A de olhos glaucos Atena de Aquileu então se aproxima; pôs-se-lhe ao lado e lhe disse as seguintes palavras aladas: “Ínclito Aquileu dilecto de Zeus ora espero podermos para os navios voltar de alta glória os Acaios cobrindo após imolarmos Héctor muito embora incansável pareça.

Não poderá por mais tempo de nós escapar ainda mesmo  que Febo Apolo se esforce o frecheiro que ao longe asseteia e aos pés de Zeus poderoso se atire abraçando-lhe os joelhos.

É conveniente que pares e alento recobres enquanto vou procurar convencê-lo a que lute de frente contigo.”

O coração satisfeito ao conselho da deusa obedece o alto Pelida apoiando-se na hasta de ponta de bronze.

Dele afastando-se Atena de Héctor varonil se aproxima tendo as feições de Deífobo e a voz poderosa tomado.

Pôs-se-lhe ao lado e lhe disse as seguintes palavras aladas: “Mano em terrível aperto te pôs o Pelida veloz a perseguir-te com rápidos pés ao redor das muralhas.

Vamos parar porque juntos possamos de frente esperá-lo.”

Disse-lhe Héctor em resposta o guerreiro do casco ondulante: “Se antes Deífobo me eras o irmão predilecto entre quantos filhos nascemos de Príamo e de Hécabe a mãe veneranda a partir de hoje mais no íntimo da alma hás-de sempre ficar-me por te arriscares assim ao me veres em tanta apertura a abandonar a cidade onde os outros a salvo se ficam.”

A de olhos glaucos Atena lhe disse o seguinte em resposta: “Mano em verdade não só nosso pai como a mãe veneranda  e os companheiros com férvidas preces instantes pediram que não saísse tal era o pavor em que todos estavam.

A alma porém me excruciava o teu triste e funesto destino.

Vamos! Lutemos de frente; não deves deixar por mais tempo a hasta de bronze inactiva.

Que logo se veja se Aquileu após da existência privar-nos conduz para as naus nossas armas ensanguentadas ou se de contrário aos teus golpes sucumbe.”

Isso dizia e astuciosa se pôs logo a deusa a guiá-lo.

Quando desta arte um para o outro avançando bem perto ficaram foi o primeiro a falar o guerreiro do casco ondulante: “Não fugirei mais de ti como o fiz até agora Pelida dando três vezes a volta à cidade sagrada de Príamo sem ter coragem de o assalto aguardar.

Ora o peito me leva a acometer-te e a privar-te da vida ou a morrer por teu braço.

Antes porém de lutar invoquemos os deuses eternos que testemunhas idóneas serão do que firmes jurarmos.

Se porventura Zeus grande me der a vitória deixando que da existência te prive de ultrajes ao corpo me abstenho.

Após a armadura brilhante dos membros tirar-te Pelida para os Aqueus o cadáver entrego; promete outro tanto.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés indignado em resposta: “Odiosíssimo Héctor não me fales em pactos solenes.

Como é impossível entre homens e leões haver paz e confiança ou que carneiros e lobos revelem iguais sentimentos pois nutrem ódio implacável e danos meditam recíprocos não pode haver entre nós amizade nenhuma nem pactos ou juramentos solenes até que um de nós caia morto e com seu sangue a Ares forte sacie o guerreiro incansável.

Deves de tua bravura habitual investir-te que nunca necessidade tão grande tiveste de ser valoroso.

Não poderás escapar.

Há-de Atena fazer dentro em breve que à minha lança sucumbas.

O mal que aos Aquivos obraste  com tua lança homicida ora deves por junto pagar-me.”

Tendo isso dito atirou-lhe a hasta longa de sombra comprida.

Vendo-a o impecável Héctor abaixando-se ao golpe se esquiva; passa-lhe a lança de bronze por sobre a cabeça indo ao longe no duro solo encravar-se.

Mas Palas Atena tomando-a às escondidas do herói foi de novo entregá-la ao Pelida.

O ínclito Héctor para Aquileu virando-se diz o seguinte: “Não acertaste divino Pelida! Era falso dizeres  que Zeus te havia informado a respeito do fim que me espera.

És forjador mui subtil de enganosas palavras apenas para que viesse a assustar-me esquecido do ardor que me é próprio.

Não deverás entretanto cravar-me a hasta longa nas costas.

Mas se algum deus o permite atravessa-me o peito de frente quando atacado te vires.

Primeiro porém te resguarda de minha lança que anseio até ao cabo enterrar-te no corpo.

Para os Troianos a guerra ficara bem mais suportável se te finasses por seres a todos terrível açoite.”

Tendo isso dito atirou-lhe a hasta longa de sombra comprida que foi certeira no meio do escudo bater do Pelida.

Mas repulsada caiu ao tocar no pavês.

Indignado fica o Troiano ao notar que frustrânea a hasta longa jogara.

Ao perceber que não tinha outra lança aturdido se mostra e em altos gritos chamou pelo irmão de pavês reluzente para pedir-lhe mais uma; nenhures porém o percebe.

No coração tudo Héctor compreendeu e a si próprio então disse: “Pobre de mim! É bem certo que os deuses à morte me votam.

Tive a impressão de que o forte Deífobo estava ao meu lado mas na cidade se encontra; foi tudo por arte de Atena.

Inevitável a morte funesta de mim se aproxima.

Há muito tempo decerto Zeus grande e seu filho frecheiro determinaram que as coisas assim se passassem pois eles sempre benévolos soíam salvar-me; ora o Fado me alcança.

Que pelo menos obscuro não venha a morrer inactivo; hei-de fazer algo digno que chegue ao porvir exaltado.”

Tendo isso dito arrancou logo a espada de gume cortante que sempre ao lado lhe estava pesada e de boa feitura.

E concentrando-se um pulo desfere como águia altaneira que na planície se atira através de bulcões adensados para prear lebre tímida ou ovelha de lã reluzente: como águia Héctor arremete a brandir o montante afiado.

Contra ele Aquileu investe também transbordante de cólera; diante do peito mantém o brilhante pavês protegendo-o de primorosa feitura; ondulava-lhe no alto da fronte o elmo de quatro saliências fazendo esvoaçar a plumagem de ouro que Hefestos pusera na forte e brilhante cimeira.

Tal como Vésper a mais resplendente de quantas estrelas  se alçam no céu majestosas no escuro da noite divina:  do mesmo modo fulgura a hasta longa de ponta aguçada na mão de Aquileu que a Héctor infligir fatal dano procura investigando no corpo donoso um lugar descoberto.

Todos os membros porém envolvidos se achavam na bela e refulgente armadura espoliada de Pátroclo exímio.

Via-se apenas a parte em que do ombro separa a clavícula o tenro colo a garganta onde o ataque é funesto para a alma.

Quando contra ele avançava o Pelida aí lhe enterra a hasta longa atravessando-lhe a ponta de bronze o pescoço macio.

Deixa-lhe intacta a faringe contudo a arma longa de freixo para que a Héctor ainda fosse possível falar ao imigo.

Ei-lo que tomba na poeira; o Pelida exclamou exultante: “Quando tiraste a armadura de Pátroclo estulto pensaste que a salvo sempre estarias por veres que longe me achava.

Mas vingador muito mais poderoso havia ele deixado junto das naves recurvas o mesmo que as forças dos joelhos veio nesta hora solver-te.

Os Aqueus hão-de exéquias prestar-lhe mas o teu corpo será para os cães e os abutres jogado.”

Sem forças quase responde-lhe Héctor do penacho ondulante: “Por teus joelhos tua vida por teus genitores suplico não consentires que junto das naves aos cães atirado  seja o meu corpo.

Ouro e bronze abundante em resgate recebe quantos presentes meu pai te ofertar minha mãe veneranda e restitui o cadáver que possam em casa os Troianos e suas jovens esposas à pira funérea entregá-lo.”

Com torvos olhos Aquileu de rápidos pés lhe responde: “Nem por meus joelhos cachorro por meus genitores supliques.

Se em meu furor fosse agora levado a fazer-te em pedaços e crus os membros comer-te em vingança do que me fizeste como é impossível dos cães voradores livrar-te a cabeça! Ainda que aos pés me trouxessem dez vezes o preço ajustado ou vinte vezes até com promessa de novos presentes; ainda que o velho Dardânida Príamo ordene que a peso de ouro se compre o cadáver não há-de em tua casa chorar-te como desejas a mãe veneranda a quem deves a vida mas como pasto serás para os cães e os abutres jogado.”

Já moribundo responde-lhe Héctor do penacho ondulante: “Por conhecer-te sabia que tudo seria assim mesmo.

O coração tens de ferro; impossível me fora dobrá-lo.

Que isso porém contra ti não provoque a vingança dos deuses quando tiveres de a vida perder muito embora esforçado  das portas Ceias em frente aos ataques de Páris e Apolo.”

Após ter falado cobriu-o com o manto de trevas a Morte e a alma dos membros saindo para o Hades baixou lastimando a mocidade e o vigor que perdia nessa hora funesta.

Para o cadáver voltando-se Aquileu divino então fala: “Morre que me acho disposto a acolher o Destino funesto logo que Zeus o quiser e as demais divindades eternas.”

A hasta de bronze depois de falar do cadáver arranca pondo-a de lado e também a armadura sangrenta dos largos ombros lhe tira.

Acorreram então numerosos Aquivos para admirar a imponência e a beleza do corpo de Héctor sem que nenhum de feri-lo deixasse ao passar pelo corpo.

Muitos entre eles falavam virando-se para os mais próximos: “É por sem dúvida muito mais brando de ser apalpado do que no dia em que fogo lançou nos navios recurvos.”

Golpes seguidos lhe deram trocando discursos como esse.

Logo que Aquileu de rápidos pés o espoliou da armadura foi para o meio dos Dánaos e disse as palavras aladas: “Vós conselheiros e guias dos povos acaios ouvi-me: Já que os eternos deixaram que a vida ao varão arrancasse  que só por si mais trabalho nos deu do que todos os Teucros vamos os muros altivos de Tróia assaltar bem armados para ficarmos sabendo do intento de seus moradores se a fortaleza pretendem deixar uma vez morto o chefe ou se apesar de privados de Héctor resistência oferecem.

Mas para que coração entregares-te a tais pensamentos? Acha-se o corpo de Pátroclo ao lado das naus insepulto e não chorado.

Jamais quanto tempo eu ficar entre os vivos e agilidade nos joelhos tiver poderei esquecê-lo.

Mesmo que no Hades aos mortos faleça a memória das coisas do companheiro querido até ali hei-de sempre lembrar-me.

O hino cantai da vitória mancebos argivos e às naves sem mais demora tomemos levando o cadáver do imigo.

Glória infinita alcançámos com termos a Héctor dado a morte que como a um deus imortal na cidade os Troianos honravam.”

Isso disse ele disposto a infligir no cadáver ultrajes: fura-lhe os fortes tendões dos dois pés do calcâneo aos maléolos por onde passa uma tira de couro de boi muito forte que prende ao carro deixando a cabeça tocar no chão duro.

Logo subiu para o assento e tomando a armadura magnífica  com chicotada os cavalos esperta que partem velozes.

Poeira levanta o cadáver de rojo no chão; os cabelos bastos e escuros se esparzem; na terra a cabeça que fora tão majestosa se afunda que Zeus ao imigo a entregara para que fosse ultrajada no próprio torrão de nascença.

Mancha-se a bela cabeça desta arte na poeira.

Atirando o branco véu para longe os cabelos a mãe arrepela ao ver o filho extremado rompendo em sentidos queixumes.

O velho pai também solta gemidos de dor e os do povo por toda a grande cidade a lamentos e prantos se entregam.

Até parecia em tamanha tristeza que Tróia altanada de seu fastígio ruíra envolvida nas chamas vorazes.

Dificilmente os do povo podiam conter o monarca que desvairado queria sair pelas portas dardânias.

A rebolcar-se no esterco fazia insistentes pedidos por entre fundos lamentos chamando a um por um pelo nome: “Por mais cuidado que amigos vos dê minha sorte deixai-me ir da cidade sozinho e buscar os navios dos Dánaos para que súplice a esse homem violento e funesto depreque.

É bem possível que a minha velhice respeito lhe inspire  e que se apiade de mim.

Como eu sou é Peleu também velho que o pôs no mundo e o educou para exício dos homens de Tróia.

Mais do que a todos porém me tem sido fautor de pesares.

A quantos filhos ilustres e jovens me trouxe ele a morte! Mas muito embora lhes chore o destino nenhuma outra perda tanto me dói como a que há-de levar-me para o Hades depressa: de Héctor a morte.

Quem dera que houvesse morrido em meus braços! Fora possível então de lamentos e dores saciarmo-nos a triste mãe que o gerou para um fado implacável e eu próprio.”

Os cidadãos os queixumes do velho monarca secundam.

Hécabe então deu início aos lamentos sentidos das Teucras: “Filho querido como hei-de viver em tamanho infortúnio órfã de ti? Eras minha ventura e legítimo orgulho noites e dias na grande cidade; de Teucros e Teucras o só conforto eras tu como um deus pelo povo acatado.

Eras a máxima glória de todos enquanto viveste.

Mas ora a Morte funesta e o Destino fatal te alcançaram.”

Nada do facto entretanto sabia de Héctor a consorte porque nenhum mensageiro veraz lhe levara a notícia de que ele havia ficado do lado de fora das portas.

Ela se achava nos quartos de dentro do belo palácio a tecer manto purpúreo muito amplo e de flores ornado.

Tinha dado ordem às criadas de tranças bem feitas que trípode grande no fogo pusessem a fim de aprontar banho quente para o marido quando este voltasse do campo da luta.

Não pressentira a infeliz que bem longe do banho morrera pois pela mão do alto Aquileu Atena da vida o privara.

Eis que ouve gritos e tristes lamentos do lado da torre.

A lançadeira das mãos se lhe escapa; fraquearam-lhe os joelhos.

Vira-se então para as criadas de tranças venustas e fala: “Duas de vós me acompanhem; vou ver o que passa lá fora.

De minha sogra ouço a voz; quase à boca parece saltar-me o coração sem que os joelhos pesados consigam levar-me.

Certo infortúnio ameaça terrível aos filhos de Príamo.

Que essa palavra jamais as orelhas me alcance; mas temo enormemente que Aquileu divino tivesse podido  longe dos muros a Héctor colocar e no plaino o alcançasse vindo a triunfar desse modo do ardor exicial que ora à perda o conduziu pois jamais quis ficar entre a turba sem nome mas dos Troianos à frente a ninguém em coragem cedia.”

Como uma louca depois de falar do aposento se afasta o coração em tumulto seguida por duas criadas.

A multidão atravessa que junto dos muros se achava e debruçando-se no alto da torre arrastado percebe diante dos muros paternos o esposo; os cavalos o levam sem piedade nenhuma no rumo das naus dos Aquivos.

A esse espectáculo cobriram-lhe os olhos as trevas da noite e abandonando-a a consciência caiu para trás sem sentidos.

Longe da linda cabeça espalharam-se os belos ornatos a fina coifa o toucado bem feito o brilhante diadema e o próprio véu que a divina Afrodite lhe dera no dia em que o impecável Héctor do palácio de Eécion a tirara na qualidade de esposa a quem dote entregara magnífico.

As concunhadas a cercam e as belas irmãs do marido que cuidadosas a amparam julgando que a vida perdesse.

Quando a consciência lhe volta tomando-lhe o espírito ao peito pelas Troianas rodeada levanta sentidos queixumes: “Pobre de mim caro Héctor! Para o mesmo destino nascemos: tu no palácio de Príamo dentro dos muros de Tróia; em Tebas eu junto à falda do Placo abundoso em florestas  na bela casa de Eécion o infeliz que me criou de pequena para igual sorte que a sua.

Antes nunca me houvesse gerado.

Baixas agora para o Hades escuro nos reinos subtérreos e no palácio me deixas viúva e em tristezas sem conta desamparada.

Ainda infante é o filhinho que os deuses nos deram em nossa grande desdita.

E ora Héctor que morreste nem podes ser-lhe baluarte algum dia nem ele de amparo servir-te.

Ainda que escape da guerra lutuosa dos feros Aquivos só poderá de futuro esperar aflições e tormentos.

Defraudá-lo-ão dos haveres mudando as balizas dos campos.

O dia cruel da orfandade os amigos afasta da criança.

Baixa a cabeça vai sempre de pranto inundadas as faces; pela miséria levado procura do pai os amigos: puxa a este o manto a implorar; do outro a túnica fina sacode.

O mais piedoso talvez abalado lhe dê um copinho que se lhe chega até aos lábios não desce a molhar a garganta.

Menosprezando-o o escorraçam dos gratos festins os meninos a quem os pais ainda amparam e o cobrem de graves insultos: “Sai-te importuno teu pai não se assenta nos nossos banquetes! E para a mãe triste e viúva a chorar voltará Astianacte  que antigamente nos joelhos do pai valoroso somente pingue medula comia e gordura macia de ovelhas  e que ao sentir-se cansado de tanto brincar se entregava ao doce sono no leito de fofos colchões tamanhinho nos braços da ama a irradiar alegria do rosto amorável.

Ora terá de sofrer muitas dores que o pai lhe mataram pois de Astianacte os Troianos em toda a cidade o chamavam por seres tu caro Héctor o baluarte das teucras muralhas.

Junto das naves recurvas de todos os teus apartado os vermes hão-de comer-te depois de os cachorros saciados nu como te achas ao passo que mantos macios e finos em profusão tens aqui por mulheres zelosas tecidos.

Mas já que neles não deves jazer lançarei tudo ao fogo; se não te podem servir de mortalha obterás desse modo glória sem par junto aos homens de Tróia e de suas esposas.”

Isso dizia a chorar; ao redor as mulheres gemiam.


 

CANÇÃO XXIII

Todos assim na cidade gemiam. No entanto os Aquivos logo que as naus alcançaram e a praia do vasto Helesponto se dispersaram em busca dos barcos de proas recurvas com excepção dos Mirmídones fortes que Aquileu reteve.

Aos companheiros valentes desta arte o Pelida se expressa: “Caros e fiéis companheiros Mirmídones fortes dos coches não desatemos ainda os cavalos de pés muito rápidos mas como estamos armados à beira do morto fiquemos para chorá-lo prestando-lhe as honras funéreas devidas.

Logo porém que ficarmos saciados do choro funéreo os corredores soltemos a fim de cuidarmos da ceia.”

Disse.

Inicia o Pelida os lamentos; os mais o acompanham.

Três vezes fazem passar os cavalos à volta do morto.

Tétis lhes põe no imo peito vontade incontida de choro.

Molha-se a areia com as lágrimas; molham-se as armas dos homens –tão sem rival é o herói cuja perda ali todos choravam.

As sevas mãos colocando no peito do amigo defunto lamentações principiou a fazer o divino Pelida: “Ainda que no Hades escuro te encontres alegra-te Pátroclo  pois vou cumprir tudo quanto afirmei que fazer haveria.

Trouxe arrastado o cadáver de Héctor para aos cães atirá-lo e na fogueira sagrada pretendo imolar doze Teucros dos de mais lúcida estirpe por causa tão-só de tua morte.”

Isso disse ele passando a infligir no cadáver ultrajes que junto ao fúnebre leito de Pátroclo atira de bruços sobre o chão duro.

Os Mirmídones logo das armas brilhantes se despojaram tirando do jugo os velozes cavalos.

Inumeráveis ao lado se assentam da nave do Eácida que para todos um lauto banquete funéreo apresenta.

Muitas ovelhas e cabras balantes bois alvos e pingues se contorceram ao serem com ferro cruel degolados muitos cevados de flórido lardo e colmilhos recurvos que sobre a chama de Hefestos passavam a fim de os assarem.

Sangue abundante escorria ao redor do cadáver de Pátroclo.

Os chefes dánaos depois para a tenda do Atrida Agamémnon o ínclito Aquileu de rápidos pés conduziram fazendo por aliviar-lhe o desgosto da perda do amigo dilecto.

Logo que a tenda alcançaram do grande senhor Agamémnon aos dois arautos de voz sonorosa instruções transmitiram  para que trípode grande nas chamas pusessem no caso de consentir o Pelida em limpar-se do sangue e da poeira.

Mas este firme recusa jurando por modo solene: “Nunca por Zeus que é o melhor e o mais forte dos deuses há-de contrário aos costumes molhar-me a cabeça algum banho antes de a Pátroclo pôr na fogueira erigir-lhe o sepulcro e a cabeleira cortar porque dor tão profunda como esta o coração jamais há-de angustiar-me por mais que ainda viva.

Já que é de praxe cuidemos agora do odioso banquete.

Mas quando a Aurora raiar Agamémnon de homens caudilho manda que lenha nos tragam e o mais de que um morto precisa quando há-de a viagem fazer para o reino das trevas espessas para que o fogo incansável depressa o consuma tirando-o de nossas vistas e assim possam todos voltar para a lida.”

Isso disse ele; os demais obedientes às ordens se mostram e prontamente depois de aprestado o repasto funéreo se banquetearam ficando cada um com a porção respectiva.

Tendo assim pois a vontade da fome e da sede saciado para dormir recolheram-se todos às tendas bem feitas.

Deita-se o claro Pelida na praia do mar sonoroso  em lugar limpo onde as ondas espúmeas na areia se quebram a suspirar fundamente cercado por muitos Mirmídones.

E quando o plácido sono o cercou aliviando-lhe as dores –pois em extremo cansados os membros donosos sentia de perseguir o alto Héctor ao redor das muralhas de Tróia– aproximou-se-lhe o espectro do mísero Pátroclo ao morto em tudo igual na estatura gigante nos fúlgidos olhos e no agradável da voz; iguais vestes também tinha o espectro.

Fica-lhe junto à cabeça e lhe diz as seguintes palavras: “Dormes Aquileu o amigo esquecendo? Zeloso eras antes quando me achava com vida; ora morto de mim te descuidas.

Com toda a pressa sepulta-me para que no Hades ingresse pois as imagens cansadas dos vivos as almas me enxotam não permitindo que o rio atravesse para a elas juntar-me.

Por isso vago defronte das portas amplíssimas do Hades.

Dá-me tua mão; é chorando que o peço; não mais à tua frente conseguirei retornar quando o fogo me houver consumido nem será dado jamais a departe dos outros Mirmídones aconselharmo-nos tal como em vida soíamos visto já ter de mim se apossado o destino que trouxe do berço.

É teu destino também nobre Aquileu semelho aos eternos junto às muralhas de Tróia opulenta a existência perderes.

Ora desejo fazer-te um pedido e bem sei que me atendes: não deixes serem mui longe dos meus os teus ossos depostos mas junto deles que juntos crescemos em vosso palácio desde bem moço ao levar-me de Opunte Menécio preclaro para os domínios do velho Peleu por motivo de triste e involuntário homicídio que a vida eu tirara do filho  de Antidamante por causa de rixa no jogo de dados.

Em seu palácio bem feito Peleu valoroso acolheu-me benignamente e educou-me nomeando-me teu escudeiro.

Que nossas cinzas por isso numa urna somente se guardem –a ânfora de ouro que Tétis te deu tua mãe veneranda.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés o seguinte em resposta: “Por que motivo vieste até aqui mui querida cabeça e essa incumbência me dás com tamanha minúcia? Hei-de certo desempenhar-me de tudo de acordo com teu pensamento.

Mas aproxima-te; embora por breves instantes concede ainda uma vez abraçar-te e de tristes lamentos saciarmo-nos.”

Após ter falado avançou estendendo-lhe os braços sem nada  ser-lhe possível tocar; com um sibilo qual fumo na terra desaparece.

Aturdido levanta-se o nobre Pelida e as mãos batendo uma na outra com voz lamentosa profere: “Ora a certeza adquiri de que no Hades realmente se encontram almas e imagens dos vivos privadas contudo de alento.

A alma do mísero Pátroclo assaz parecida com ele toda essa noite a gemer e a chorar se manteve ao meu lado dando instruções minudentes de quanto fazer é preciso.”

Essas palavras em todos aumentam a vontade do choro.

E quando a Aurora de dedos de rosa surgiu veio achá-los ainda em lamentos à volta do morto.

O potente Agamémnon manda que saiam de todas as tendas guerreiros e mulos para que lenha carreassem.

Chefiava-os o claro Meríones de Idomeneu cabo insigne de Creta o escudeiro dilecto.

Seguem os mulos na frente; machados afiados os homens levam e cordas de belo trançado subindo e descendo morros em vários sentidos de viés recuando e cortando.

Quando afinal o Ida augusto alcançaram de muitas nascentes a derrubar se põem logo carvalhos de copas altivas com as afiadas secures; cerceadas as árvores tombam  estrepitosas.

Em achas depois os Argivos as partem e presto os mulos carregam que atalhos velozes devoram dentro da mata sequiosos de a estrada alcançar na planície.

Os lenhadores robustos carregam também vários troncos pois desse modo o ordenara o Cretense notável Meríones indo depô-los por ordem num alto onde Aquileu ideara a sepultura de Pátroclo e a sua erigir imponente.

Após terem todos a lenha infinita amontoado assentaram-se na expectativa do que deveriam fazer.

Manda Aquileu que os valorosos Mirmídones logo de bronze se armassem e que no jugo os cavalos de cascos robustos pusessem.

Presto levantam-se as armas luzentes envergam compondo os combatentes e os fortes aurigas seus carros de guerra.

Estes a marcha iniciam por nuvem de peões secundados  inumeráveis; no meio os amigos o corpo carregam pelas madeixas coberto que todos lhe haviam jogado.

O divo Aquileu atrás a cabeça donosa sustenta a suspirar.

Desse modo para o Hades o amigo despede.

Quando o lugar alcançaram que Aquileu havia indicado o belo esquife depõem acervando-se lenha infinita.

O ínclito Aquileu de rápidos pés teve então outra ideia: da grande pira afastando-se corta seus louros cabelos que para ao Rio Esperqueio ofertar conservava crescidos e para o mar cor de vinho virando-se mesto profere: “Em vão divino Esperqueio meu pai fez o voto fervente de que ao voltar para a terra de meu nascimento eu teria de em teu louvor os cabelos cortar e hecatombe sagrada oferecer em tuas fontes de ovelhas cinquenta onde luco possuis sagrado no qual foi construído altar odoroso.

Essa a vontade do ancião; tu porém não lhe ouviste o pedido.

E ora que Ftia não devo rever vou cortar os cabelos e oferecê-los a Pátroclo para que os leve consigo.”

A cabeleira depois de falar entre as mãos deposita do companheiro fazendo aumentar nos presentes o choro.

E entre lamentos viria encontrá-los o sol já no ocaso se não houvesse a Agamémnon Aquileu divino falado: “Filho de Atreu tuas ordens são sempre acatadas por todos os valorosos Aquivos; ordena que o choro interrompam e que da pira se afastem; depois aprontar manda a ceia.

Nós que devemos cuidar mais de perto do morto faremos  o que ainda resta; somente aqui fiquem os cabos do exército.”

Ao escutar-lhe o pedido Agamémnon rei poderoso manda que os fortes Aqueus para as naves recurvas retornem permanecendo os amigos mais caros que a lenha amontoam cem pés de lado com ela uma pira gigante construindo no alto da qual consternados o corpo do herói depuseram.

Inumeráveis ovelhas e bois que se arrastam tardonhos em frente à pira degolam e esfolam.

Depois o Pelida toda a gordura tomando com ela o cadáver recobre desde a cabeça até aos pés amontoando-lhe as carnes à volta.

Junto do leito funéreo coloca a seguir duas ânforas de óleo e de mel e soltando suspiros profundos atira nas chamas quatro soberbos cavalos de colo altanado.

Dos nove cães que o monarca possuía à sua mesa criados dois sacrifica o Pelida atirando-os às chamas ardentes bem como doze mancebos de ilustre prosápia troiana a bronze mortos pois na alma a acção cruel realizar assentara.

A fúria desperta do fogo afinal para à larga saciar-se; e pelo amigo a chamar muitas vezes gemendo dizia: “Ainda que no Hades escuro te encontres alegra-te Pátroclo   pois já cumpri tudo quanto afirmei que fazer haveria: doze mancebos de ilustre prosápia troiana ora às chamas conjuntamente contigo entreguei; mas de forma nenhuma hei-de o cadáver de Héctor dar às chamas; aos cães vou jogá-lo.”

Mas apesar das ameaças do corpo de Héctor os cachorros não se acercavam que longe os mantinha constante Afrodite filha de Zeus a qual o unge com óleo fragrante e divino para não ser lacerado ao tirá-lo de rojo o Pelida.

Fez Febo Apolo também que do céu para a terra baixasse nuvem cerúlea que logo por sobre o lugar se distende onde o cadáver se achava impedindo que o sol desse modo lhe ressecasse a epiderme ao redor dos tendões e dos músculos.

Não arde entanto a fogueira onde o corpo de Pátroclo estava.

O ínclito Aquileu de rápidos pés teve então outra ideia: da pira ingente alongando-se instante aos dois ventos implora Zéfiro e Bóreas aos quais prometeu ofertar belas vítimas.

E libações reiterando com taça belíssima de ouro pede que acorram a fim de que o fogo consuma os cadáveres e logo a lenha abrasada se torne.

Escutou-lhe o pedido Íris de rápidos pés que a mensagem levou logo aos ventos  os quais na casa do incómodo Zéfiro em lauto banquete juntos estavam.

Na pétrea soleira deteve-se a deusa de pés velozes.

Assim que ante os olhos a viram os ventos se levantaram pedindo que viesse ao seu lado sentar-se.

Íris porém do convite declina falando desta arte: “Não me é possível sentar-me que aos lindes devo ir do oceano onde os Etíopes moram que aos deuses estão neste instante sacrificando hecatombe da qual hei-de ter uma parte.

Pede-vos Zéfiro e Bóreas Aquileu de pés muito rápidos que vades já violentos –promete-vos vítimas belas– a fim de a pira fazerdes arder em que Pátroclo se acha por quem não cessam de pranto verter os valentes Aquivos.”

Após haver dado o recado se foi.

Com imenso barulho alçam-se os ventos depressa fazendo espalharem-se as nuvens.

Rapidamente o oceano perpassam; ao sopro estridente ondas sobre ondas se elevam; alfim Tróia fértil alcançam; à pira investem fazendo que logo rompesse a alta chama.

A noite toda desta arte num sopro contínuo os dois ventos o fogo despertam; e assim toda a noite o Pelida veloz com dupla taça lavrada duma áurea cratera retira  vinho espumoso que ao solo derrama irrigando o chão duro a alma do mísero Pátroclo sempre a invocar pesaroso.

Tal como o ancião se lamenta ao queimar o cadáver do filho recém-casado que os pais ao morrer desditosos deixara: queixa-se Aquileu assim quando os ossos do amigo queimava a suspirar fundamente arrastando-se em torno da pira.

Quando o astro belo surgiu anunciando a chegada do dia e a crócea Aurora estendeu a seguir sobre as ondas o manto enlanguesceu a fogueira cessando a violência das chamas.

Para suas casas depressa retornam os ventos por sobre o mar da Trácia que túmido se alça gemendo contínuo.

O ínclito Aquileu então afastando-se um pouco da pira lasso no solo deitou-se; envolveu-o logo o sono agradável.

Presto os caudilhos se reúnem em torno do Atrida Agamémnon.

Mas o rumor que fizeram acorda o Pelida que se alça e para os fortes Aquivos virando-se diz o seguinte: “Filho de Atreu Agamémnon e vós dignos chefes aquivos primeiramente com vinho brilhante apaguemos as brasas que da fogueira ficaram no chão para os ossos tirarmos do ínclito Pátroclo filho do claro Menécio empregando  muita cautela em tudo isso.

É bem fácil aliás orientarmo-nos pois depusemos-lhe o corpo no meio da pira e a departe sem distinção na orla extrema os dos homens e belos ginetes.

Em urna de ouro os ponhamos com dupla gordura por cima até ser o tempo chegado em que eu deva também ir para o Hades.

Túmulo muito elevado não quero que seja construído mas até aqui simplesmente; depois poderão ampliá-lo alto e mais largo deixando-o os Aquivos que após minha morte permanecerem nos negros navios de proas recurvas.”

Isso disse ele; os demais obedientes às ordens se mostram.

Primeiramente com vinho brilhante os vestígios apagam do fogo ingente que espessa camada de cinza formara; os brancos ossos do amigo a chorar em seguida recolhem em urna de ouro os colocam cobrindo-os com muita gordura e a urna na tenda depõem sobre a qual branco linho estenderam.

Traçam depois o contorno do túmulo à volta da pira os fundamentos afirmam e a terra escavada amontoam.

O monumento erigido dispõem-se a sair; mas Aquileu os Dánaos todos detém para os jogos fazendo assentarem-se e manda vir dos navios os prémios: caldeiras e trípodes  mulos cavalos e bois de cabeça robusta bem como servas formosas de porte elegante e assim ferro luzente.

Para a corrida de carros primeiro os magníficos prémios apresentou: bela escrava muito hábil e trípode grande de vinte e duas medidas com asas de linhas graciosas para o que à frente chegar; de seis anos uma égua destina para o segundo indomada com feto de mulo no ventre; um caldeirão que não fora levado ainda ao fogo apresenta para o terceiro mui cândido e belo de quatro medidas; de ouro faz vir dois talentos que ao quarto diz ser destinado; uma urna de asas jamais posta ao fogo para o último apronta.

Alevantado aos Aqueus valorosos então se dirige:  “Filho de Atreu e vós outros Acaios de grevas bem feitas estes os prémios que para os aurigas prestantes destino.

Se em honra de outro guerreiro os Aquivos agora lutássemos a recompensa melhor para a tenda decerto eu levara pois bem sabeis quanto excelem no curso os formosos ginetes de descendência divina que outrora Posídon em lembrança deu a meu pai; presenteou-mos Peleu quando vim para Tróia.

Esses fogosos cavalos não entram porém no concurso  pois o prestígio excelente do auriga sem par já perderam tão carinhoso que vezes sem conta os banhava com água límpida azeite nas crinas passando-lhes após cada banho.

Choram-no agora com o peito angustiado sentindo-lhe a falta; e sempre imóveis as crinas no solo empoeirado derrubam.

Em todo o exército pois aprontai-vos quem quer dos Aquivos que nos cavalos confiar e nos carros de bela feitura.”

Isso disse ele; os velozes aurigas depressa se reúnem.

Antes de todos levanta-se Eumelo senhor de guerreiros filho prezado de Admeto e muito hábil no curso de carros; logo depois o Tidida Diomedes de forte estatura que pôs no jugo os cavalos de Trós a Eneias tomados quando este herói por Apolo foi salvo na pugna terrível; alça-se o Atrida de louros cabelos o Rei Menelau de diva estirpe que uma égua e um cavalo atrelou em seu carro: este Podargo era seu; Eta ao forte Agamémnon havia dado em lembrança Equepolo o guerreiro de Anquises nascido para ficar dispensado de parte tomar na campanha de Ílion ventosa ficando a gozar de seus bens pois Zeus grande lhos concedera infinitos; morava na extensa Sicíone:  essa no jugo foi posta de o páreo vencer impaciente.

Os corredores de pêlo brilhante aprestou logo Antíloco filho notável do velho Nestor majestoso monarca que de Neleu descendia.

Os cavalos que o carro lhe tiram eram da raça de Pilos.

Achegou-se-lhe o pai para dar-lhe orientação judiciosa conquanto prudente ele fosse: “Ainda que moço meu filho aprendeste de Zeus e Posídon que te são muito afeiçoados as regras da equestre corrida.

Não necessito por isso falar-te com muitas minúcias que em torno à meta voltear te é bem fácil.

Contudo são lerdos teus dois cavalos razão por que temo qualquer desventura.

Em recompensa se os outros aurigas dispõem de parelha mais desenvolta a eles todos excedes em férteis recursos.

Deves portanto meu caro valer-te de todos os meios que te ditar o intelecto; a perder não me venhas o prémio.

Na derrubada das árvores mais vale o jeito que a força; é a habilidade somente que em mar tempestuoso permite ao timoneiro seu frágil batel conduzir com firmeza.

Com arte assim vence o auriga prudente os demais contendores.

O que nos seus corredores confia e no célere carro  sem reflexão se permite dar voltas dum lado para outro; vagam por fim pelo estádio os cavalos; é inútil contê-los.

Mas quem dispõe de corcéis inferiores de tudo se vale: firme na meta contorna-a de perto sem nunca esquecer-se de quando for necessário afrouxar-lhes as rédeas de couro mas de contínuo os domina a olhar sempre os que vão na dianteira.

Ouve um sinal de confiança que certo não há-de esquecer-te: um tronco seco se eleva uma braça ali fora da terra ou de carvalho ou de pinho que a chuva estragar não consegue por duas pedras mui alvas ladeado no ponto preciso onde se estreita o caminho que daí para diante é mais amplo.

Provavelmente assinala o sepulcro de alguém morto há muito se não for marco de pista ali posto por homens de antanho.

Lá pôs a meta o divino Pelida de pés muito rápidos.

Rente a esse tronco os cavalos e o carro habilmente dirige inclinação para a esquerda imprimindo no corpo por cima do parapeito trançado.

O corcel da direita procura estimulá-lo com gritos soltando-lhe a rédea vistosa; mas que o da esquerda perpasse tão perto da meta que tenhas quase a impressão de que o cubo bem feito da roda na pedra  vai esbarrar.

Mas evita ainda mesmo de leve tocá-la: danificar poderias o carro e ferir os cavalos o que vergonha te fora e prazer aos demais causaria.

Sê pois prudente meu filho e com muita cautela procede.

Se conseguires guiando os cavalos passar essa meta não haverá quem te alcance e ainda menos consiga adiantar-se-te mesmo que Aríon o forte cavalo de Adrasto o levasse de rapidíssimo curso e de origem divina ou os cavalos de Laomedonte os melhores por certo que em Tróia se criaram.”

Após haver dado conselhos preciosos ao filho dilecto volta a sentar-se o Neleio Nestor entre os fortes Aquivos.

Os corredores em quinto lugar pôs no jugo Meríones.

Todos nos carros se aprestam; as sortes são no elmo lançadas que o forte Aquileu agita.

Primeiro a do claro Nestorida salta a de Antíloco; logo em seguida a de Eumelo possante; vem em terceiro a do filho de Atreu Menelau chefe insigne a que se segue Meríones; o último a ser colocado foi o Tidida Diomedes de todos o mais competente.

Em seus lugares se põem; muito ao longe no plaino assinala-lhes o forte Aquileu a meta final onde pôs como guarda  o venerando Fénix do velho Peleu companheiro para que tudo observasse e depois lhe contasse a verdade.

Todos a um tempo o chicote por sobre os cavalos elevam no dorso as rédeas lhes batem e em gritos ardentes prorrompem  para animá-los; velozes os brutos o plaino atravessam das naus depressa afastando-se.

A poeira que então levantavam lhes sobe ao peito qual nuvem escura ou procela terrível as crinas todas ondeando desfeitas ao sopro do vento.

Os leves carros às vezes no solo fecundo tocavam outras pulavam para o alto; no assento os aurigas se firmam o coração palpitante com o fito na grata vitória.

Todos com gritos os fortes corcéis animar procuravam que pelo plaino se atiram no meio de poeira infinita.

Quando os cavalos robustos no trecho final já se achavam em direcção novamente das naus revelou-se a perícia dos condutores; velozes avançam; na frente se adiantam as fortes éguas do herói Ferecíada Eumelo possante; os do Tidida Diomedes as seguem da raça troiana não distanciados decerto; ao contrário tão perto se achavam que pareciam querer para o assento subir de seu carro  com o próprio fogo aquecendo as espáduas e o dorso de Eumelo visto que quase chegavam a nele encostar a cabeça.

E porventura o teria Diomedes passado ou deixado sem decisão a vitória se Apolo agastado contra ele não lhe tivesse arrancado das mãos o chicote brilhante.

Rasos de lágrimas nadam-lhe os olhos de dor incontida por ver que mais desenvoltas as éguas agora corriam e que os cavalos privados de estímulo atrás se ficavam.

Palas entanto percebe que Apolo frecheiro procura embaraçar o Tidida; correndo para este solícita nas mãos lhe entrega o chicote vigor nos cavalos lhe insufla e cheia de ira se foi para o filho galhardo de Admeto da luzidia parelha rompendo-lhe o jugo; dispersam-se as duas éguas saindo da estrada; o timão risca o solo; tomba do carro o guerreiro estirando-se ao lado da roda; os cotovelos a boca e os narizes lacera e por cima das sobrancelhas a fronte espaçosa; de lágrimas enchem-se-lhe os belos olhos ficando-lhe a voz sonorosa embargada.

Guia o Tidida os robustos cavalos desviando-se um pouco e logo toma a dianteira que Palas vigor infundira  nos corredores a glória do triunfo para ele guardando.

O louro filho de Atreu Menelau vem-lhe o rasto seguindo.

Para animar os cavalos do pai grita o forte Nestorida: “Quanto possível correi; esforçai-vos o mais que puderdes! Já não vos digo que àqueles cavalos possais exceder-vos os corredores do claro Tidida aos quais Palas Atena deu ligeireza pois guarda a vitória para o alto guerreiro; mas alcançai pelo menos a bela parelha do Atrida pois vergonhoso seria se à meta chegasse primeiro Eta que é fêmea afinal.

Por que causa tão lerdos meus caros?  Ora vos quero dizer uma coisa que vai realizar-se: acabar-se-ão para vós do Neleio Nestor os cuidados que a bronze afiado vos há-de privar da existência se acaso colocação inferior alcançarmos por vossa desídia.

Logo esforçai-vos o mais que puderdes; correi sem descanso que farei tudo também para o Atrida passar onde a estrada é mais estreita.

Não hei-de perder ocasião tão propícia.”

Isso disse ele; os cavalos temendo as ameaças do dono mais velozmente algum tempo correram.

De pronto apresenta-se ao valoroso guerreiro o lugar onde a estrada apertava.

Feita por água de chuva que a terra insistente escavara em depressão do terreno uma fossa profunda se via.

Aí Menelau procurava evitar qualquer choque tenteando seus corredores; mas nisso por fora da estrada o Nestorida joga os robustos cavalos a par colocando-se dele.

O louro Atrida indignado desta arte ao Nestorida increpa: “Muito imprudente te mostras Antíloco; os brutos refreia.

Não vês que é estreito o caminho? No largo terás franca a estrada.

A ambos assim prejudicas fazendo que os carros se choquem.”

Mas como surdo à advertência o Nestorida os brutos excita com mais ardor chicoteando-os a fim de ganharem terreno.

Quanto é dum disco o percurso que um moço por cima dos ombros com galhardia arremessa o vigor juvenil ostentando: tanto se adianta a parelha de Antíloco às éguas do Atrida que voluntário cessou de animá-las receoso em verdade de que na via apertada os cavalos pudessem chocar-se ocasionando tombarem os carros e em terra lançarem os condutores no afã de alcançar a tão grata vitória.

O louro Atrida indignado desta arte ao Nestorida increpa: “Homem nenhum pode haver que em maldade se iguale contigo.

Vai-te em má hora; foi erro pensarmos que de algo valias.

Mas não terás o alto prémio sem jura solene fazeres.”

Vira-se então para os seus corredores e assim lhes fala: “Desanimar não convém; não deixeis que vos entre o desgosto no coração.

Hão-de os joelhos cansar-lhes e os pés mais depressa pela fadiga vencidos que o viço da idade lhes falta.”

Isso disse ele; os cavalos ouvindo o conselho do dono mais velozmente correram ficando mais perto dos outros.

Donde se achavam sentados contemplam os chefes aquivos os corredores que avançam envoltos em nuvem de poeira.

Foi o primeiro a enxergar um cavalo o caudilho cretense Idomeneu que a departe dos outros num alto se achava.

Dum dos aurigas a voz conheceu muito embora distante sobre haver visto um cavalo que à frente de todos corria: de corpo e membros de pêlo vermelho na fronte ostentava marca muito alva e redonda que a lua brilhante lembrava.

Pondo-se logo de pé aos Argivos falou o seguinte: “Vós conselheiros e guias dos povos acaios ouvi-me.

Conhecedor de cavalos serei eu somente ou vós todos? Já na dianteira não se acham os mesmos cavalos; parece-me  que o condutor é também outro agora.

Qualquer acidente aconteceu certo às éguas que adiante no plaino corriam.

Vi-as primeiro no instante em que a meta longínqua dobraram; mas não consigo enxergá-las de novo por mais que as procure por toda a extensa planície dos Teucros a vista estendendo.

Das mãos do auriga escaparam as rédeas? Não pôde ele os brutos em torno à meta refrear nem fazer com perícia a manobra? Temo que ao solo haja sido atirado ao quebrar-se-lhe o carro e que em acesso de fúria se tenham as éguas perdido.

Mas levantai-vos também para ver; distinguir não consigo mais o que passa; parece-me entanto que aquele da frente é um dos caudilhos argivos varão prestimoso da Etólia o destemido Diomedes do grande Tideu descendente.”

O velocíssimo Ájax descendente de Oileu o repreende: “Idomeneu por que falas às tontas? As éguas velozes em disparada na vasta planície ainda vêm na dianteira.

Dentre os Argivos guerreiros não és o mais moço por certo nem se projecta de tua cabeça visão muito aguda pois sempre falas sem nexo.

Não pode ser isso decente diante de tantas pessoas a ti superiores sem dúvida.

Os corredores da frente ainda são os que há pouco se viam: as fortes éguas de Eumelo que as rédeas galhardo domina.”

Muito indignado lhe disse em resposta o caudilho cretense: “Mestre somente em picuinhas Ájax detractor te revelas em tudo o mais inferior aos Aquivos por seres grosseiro.

Pois nesse caso uma trípode ou bela caldeira apostemos e como juiz fique o Atrida Agamémnon para dizer-nos quais os cavalos que à frente se encontram.

Aprende à tua custa.”

Isso disse ele; levanta-se o Oilíada cheio de cólera para com termos violentos lhe dar adequada resposta.

E porventura a contenda teria tomado outro aspecto se o próprio Aquileu não viesse apartá-los com termos suasórios: “Idomeneu caro Ájax é preciso pôr fim a esse diálogo.

Não ficam bem tais palavras nem mesmo entre gente sem classe.

Se outros assim procedessem vós próprios censura faríeis.

Ide sentar-vos em vossos lugares e olhai a corrida; dentro de pouco no anelo de o prémio alcançar hão-de os brutos aproximar-se de nós quando então podereis facilmente reconhecer qual na frente se encontra qual vem na traseira.”

Mal tinha Aquileu falado e eis que surge o Tidida Diomedes  sempre a vibrar do alto do ombro o chicote brilhante.

Os cavalos em disparada avançaram pelo último trecho da pista  inumeráveis terrões a jogar no cocheiro habilíssimo enquanto o carro magnífico de ouro e de estanho enfeitado pela parelha de rápidos pés é trazido com tanta velocidade que apenas na poeira subtil imprimiam as leves rodas a marca: a tal ponto corria a parelha! Em meio da turba ao chegar bruscamente estacou o Tidida.

Suor cai em bagas do colo e do peito dos dois corredores.

Com galhardia então pula Diomedes do carro brilhante e prende ao jugo o chicote.

O admirável Esténelo pronto já se encontrava; sem perda de tempo dos prémios se apossa e aos companheiros a trípode e a escrava graciosa entregando para que à tenda as levassem do jugo os cavalos desprende.

Chega em segundo lugar o Nestorida Antíloco; à frente de Menelau ele viera tão-só por valer-se de astúcia.

Mas muito perto dos dele trazia os cavalos o Atrida.

Quanto da roda distante um corcel se mantém quando o plaino em disparada percorre arrastando o senhor e a carruagem –a extremidade dos pêlos mais longos da cauda de leve  tocam na roda porque mui pequena distância a separa dos corredores velozes que a extensa planície atravessam: tanto o viril Menelau do Nestorida excelso distava.

A diferença primeiro era o espaço dum tiro de disco; mas graças à égua de brio sem par de Agamémnon ilustre Eta de crina vistosa pudera de perto encalçá-lo.

E o superara sem dúvida excelsa vitória alcançando se ambos na pista a correr algum tempo ficassem ainda.

Ao louro Atrida seguia-se o claro Meríones sócio de Idomeneu distanciado o que uma hasta num tiro percorre; os seus cavalos de crinas vistosas de facto eram lerdos sobre ser ele pouco hábil em guiar a parelha na pista.

Chega por último o filho preclaro de Admeto que triste o belo carro arrastava tocando na frente os cavalos.

Vendo-o o divino Pelida de rápidos pés apiedou-se e para os fortes Acaios virando-se disse o seguinte: “Vede! O melhor dos aurigas por último e a pé vem chegando.

Como de toda justiça convém dar-lhe o prémio segundo tocando ao filho do claro Tideu o penhor da vitória.”

À sugestão se mostraram concordes os chefes aquivos.

E conferido lhe fora portanto o vistoso cavalo a não ter sido o protesto de Antíloco o claro Nestorida que para Aquileu avança com o fim de impetrar-lhe justiça: “Nunca hei-de Aquileu perdoar-te se acaso em acção transformares essas palavras que implicam perder eu o prémio devido só por achares que Eumelo com ser valoroso cocheiro deve a um desastre ficar sem cavalos nem carro.

Rogasse aos imortais e por certo teria evitado ser o último.

Se compassivo a esse ponto te mostras por ser-te afeiçoado tens ouro e bronze bastante na tenda robustos cavalos infinidade de ovelhas e escravas de baixa cintura.

Dessas riquezas mais rico presente dar-lhe-ás quando o queiras ou neste instante ou depois que hão-de certo aplaudir-te os Aquivos.

Mas o animal não lhe cedo; se alguém desejar possuí-lo há-de primeiro medir-se comigo e dos braços tirar-mo.”

Rindo-se Aquileu de rápidos pés o protesto escutou-lhe compadecido de Antíloco a quem afeição dedicava para o qual logo se vira dizendo as palavras aladas: “Vou realizar-te o desejo Nestorida ilustre mandando de minha tenda trazer para Eumelo um presente magnífico.

Dou-lhe a couraça de bronze que eu próprio tomei em combate a Asteropeu de orla ornada de estanho de brilho sem jaça.

Penso que ele há-de apreciar em seu justo valor o presente.”

A Automedonte o consócio dilecto instruções deu precisas para ir à tenda buscá-la ao que presto o guerreiro obedece.

Nas mãos de Eumelo a depõe que radiante o presente recebe.

Alça-se então Menelau demonstrando nos traços a cólera que contra Antíloco o peito lhe incende.

Nas mãos dá-lhe o ceptro um dos arautos prestantes que a todos impetra silêncio pondo-se então a falar o guerreiro que um deus parecia: “Não confirmaste Nestorida o nome de herói justo e sábio; envergonhaste-me a fama e na estrada os meus claros cavalos atrapalhaste passando com os teus que lhe são inferiores.

Vós conselheiros e chefes dos fortes Aquivos julgai-nos imparcialmente a questão sem mostrar preferência nenhuma para que os fortes Acaios não possam dizer em futuro que Menelau por malícia tomou do Nestorida o prémio a égua vistosa e que embora possuísse corcéis menos ágeis pôde vencer um guerreiro que em força e vigor o excedia.

Eu mesmo aliás vou julgar a questão sem temer que me façam  os fortes Dánaos qualquer objecção pois presumo ser justo.

Vamos Antíloco aluno de Zeus aproxima-te e faz como é de praxe: ante o carro e os cavalos te põe segurando na mão direita o chicote flexível que há pouco vibravas e nos cavalos tocando pelo alto Posídon nos jura que involuntário e sem dolo aos corcéis me trancaste o caminho.”

Disse-lhe Antíloco o herói prudentíssimo então em resposta: “Condescendência te peço pois muito nos anos te cedo Rei Menelau; és mais velho do que eu e bem mais valoroso.

Certo conheces os moços e quão facilmente se excedem por serem de ânimo vivo mas faltos do justo equilíbrio.

Sê pois paciente comigo; dar-te-ei voluntário o meu prémio a égua vistosa.

Ainda mais: se de quanto possuo quiseres algo exigir-me sem mores delongas declaro-o prefiro  a teu pedido ceder caro aluno de Zeus a saber-me de teu afecto banido e perjuro ante os deuses eternos.”

Após ter falado a égua o filho do claro Nestor com presteza nas mãos entrega do Atrida cuja alma exultante se mostra.

Tal como o trigo que o orvalho humedece no tempo em que as searas crescem viçosas e o campo se torna eriçado de espigas:  o coração Menelau desse modo no seio te exulta.

Pondo-se então a falar as aladas palavras profere: “De mui bom grado Nestorida apraz-me ceder-te fazendo minha requesta cessar pois que nunca leviano ou assomado te revelaste; a razão te nublou hoje a idade somente.

Os que te são superiores evita enganar em futuro.

Não poderia nenhum outro Aqueu persuadir-me assim fácil; mas considero que muitos trabalhos por mium suportaste junto do pai venerando e do irmão; sim fadigas sem conta.

Cedo por isso à tua súplica; e embora me outorgue o alto prémio a égua te cedo.

Assim todos aqui ficarão conhecendo que coração implacável não tenho nem mesmo soberbo.”

Tendo-se assim expressado a um dos sócios de Antíloco Noémon a égua entregou para si o caldeirão reluzente apartando.

O quarto prémio a Meríones cabe os dois áureos talentos que esse lugar obtivera; restava sem dono a urna de asas prémio do quinto campeão; deu-a Aquileu ao velho Nelida que se encontrava entre os Dánaos; e ao dar-lhe lhe disse o seguinte: “Toma Nestor venerando; conserva este prémio valioso como lembrança do enterro de Pátroclo; nunca mais hás-de  entre os Aquivos revê-lo.

Concedo-te pois este prémio sem que o disputes: é teu –pois não podes entrar nos certames do pugilato e da luta dos dardos e assim da carreira pois a velhice inamável te agrava excessiva a postura.”

Ao receber o alto prémio o Neleio exultante se mostra e principiando a falar as palavras aladas profere: “Quanto disseste meu filho é de acordo com a estrita verdade: falham-me os membros os pés ligeireza não mais me consentem nem as mãos cardas se movem como antes nas largas espáduas.

Se remoçado me visse e com todo o vigor como quando à sepultura em Buprásio fizeram baixar os Epeios a Amarinceu instituindo seus filhos os prémios dos jogos! Nenhum dos fortes Epeios então conseguiu igualar-se-me nem os de Pilos arenosa nem mesmo os Etólios magnânimos.

De Énopo o filho no cesto venci o viril Clitomedes; na luta a Anceu de Pleurona que ousou medir forças comigo; Íficlo o célere foi na carreira por mim derrotado; a Polidora e a Fileu superei no jogar a hasta longa.

Só na corrida de carro puderam vencer-me os Actóridas.

Porque eram dois conseguiram passar-me esforçando-se ao máximo   pois desejosos estavam de obter os troféus mais valiosos.

Eram dois gémeos; um deles somente da rédea cuidava com pulso firme enquanto o outro vibrava o chicote brilhante.

Esse fui noutro tempo; ora cumpre deixar para os moços gestas e glórias como essas curvando-se à triste velhice quem tantos louros colheu entre tantos heróis prestantíssimos.

Mas continua com os jogos em honra do sócio dilecto.

Esta lembrança de bom coração e exultante a recebo pois testemunha a afeição que me votas e que não te esquece a reverência a que tenho direito no exército aquivo.

Que em recompensa os eternos te dêem quanto no íntimo almejas.”

Após ter Aquileu ouvido até ao fim do Nelida os encómios volta a cortar pela turba dos fortes guerreiros argivos.

Do pugilato terrível os prémios valiosos estende: mula de quase seis anos difícil de ser amansada mas resistente e perfeita amarrou do recinto no meio; para o que viesse a perder dupla taça mui bela destina.

Posto de pé para os fortes Aquivos então se dirige: “Filho de Atreu e vós outros Acaios de grevas bem feitas dois dos mais fortes varões invitemos agora a que venham  por estes prémios lutar a pugilos.

Quem for por Apolo favorecido uma vez que os Aqueus vitorioso o proclamem o resistente animal para a tenda exultante conduza; a dupla copa há-de ter quem ficar no certame vencido.”

A essas palavras levanta-se Epeio alto e forte nascido de Panopeu que no cesto entre todos campeava inconteste o qual da mula vistosa tomando prorrompe confiante: “Venha o que deve ficar com a copa de bela feitura pois não presumo que algum dos Aquivos pretenda levar-me o resistente animal que no cesto a ninguém cedo a palma.

Não é bastante dever confessar-me inferior nos combates? Fora impossível brilhar por igual nos variados certames.

Ora pretendo dizer uma coisa que vai realizar-se: vou moer-lhe fácil os ossos deixar-lhe pisados os membros; que os companheiros fiéis venham logo postar-se-lhe à volta para levá-lo depois que ficar por meu punho prostrado.”

Isso disse ele; os presentes o ouviam calados e quedos.

Alça-se apenas Euríalo o herói de presença divina de Mecisteu descendente o famoso e viril Talaiónida que certa vez foi a Tebas e a todos os filhos de Cadmo  nos jogos fúnebres de Édipo audaz e glorioso vencera.

Por almejar-lhe a vitória Diomedes lanceiro famoso com animosas palavras o brio nativo lhe exalta.

Passa-lhe o cinto primeiro provendo-o depois das correias dos duros guantes tiradas do couro dum boi das campinas.

Prontos os cintos os dois contendores ingressam na liça;  em frente pondo-se um do outro levantam os braços possantes e entrelaçando as mãos fortes desferem-se golpes contínuos.

Os dentes rangem por modo terrível; de todos os membros suor abundante destila.

Eis que Epeio divino acomete o contendor que o marcava atingindo-lhe o queixo: falsearam-lhe os fortes membros não mais conseguindo de pé conservar-se.

Como encrespando-se as ondas ao sopro de Bóreas um peixe pula entre as algas da praia e o mar negro de novo o recolhe: salta desta arte o ferido; mas logo o magnânimo Epeio com braço rijo o levanta entregando-o aos consócios solícitos que do recinto o retiram; os pés a arrastar no chão duro ei-lo a cuspir sangue vivo pendendo-lhe ao lado a cabeça.

No meio dos seus o fizeram sentar dos sentidos privado e a dupla copa tomando zelosos ao lado lhe põem.

Para o terceiro certame o Pelida propôs novos prémios que mostra aos Dánaos guerreiros a luta penosa anunciando.

Ao vencedor oferece uma trípode ao fogo adaptável em doze bois avaliada por todos os chefes presentes; para o que fosse vencido apresenta uma escrava donosa em quatro bois avaliada e entendida em trabalhos de preço.

Alevantado aos Aqueus valorosos então se dirige: “Quem desejar nesta luta mostrar o valor apresente-se.”

A essas palavras alteia-se Ájax Telamónio o gigante pelo astucioso Odisseu secundado fecundo em recursos.

Postos os cintos os dois contendores ingressam na liça.

Os alentados guerreiros com braços robustos se enlaçam tal como vigas possantes que no alto da casa traveja hábil artífice amparo eficaz contra a força dos ventos.

Sob a pressão continuada e violenta dos braços os dorsos dos contendores estralam banhados de suor abundante.

Roxas de sangue equimoses extensas nos ombros se formam como nas costas; mas ambos prosseguem na luta indefessos de conquistar desejosos a trípode ao fogo adaptável.

Nem conseguia Odisseu levantar o adversário e prostrá-lo  nem este àquele de força pasmosa nos membros dotado.

Quando impacientes já estavam os fortes Acaios grevados o grande Ájax Telamónio as seguintes palavras profere: “Filho de Laertes de origem divina Odisseu engenhoso ou me levanta ou a ti faça eu o mesmo que a Zeus cumpre o resto.”

Após ter falado o soleva; da astúcia Odisseu não se esquece: a perna prende de Ájax com a sua na altura do joelho e o faz cair ressupino enquanto ele por cima lhe fica.

A multidão circunstante admirava o espectáculo perplexa.

Por sua vez o divino Odisseu tenta erguer o adversário sem que o pudesse fazer conseguindo somente abalá-lo.

Mas logo os joelhos lhe dobram; ao solo de novo caíram  juntos um do outro enlaçados ficando cobertos de poeira.

E porventura de pé novamente outra vez lutariam se não se houvesse interposto o Pelida que aos dois se dirige: “Basta de tanto apertardes-vos dores tão fortes causando-vos; de ambos é a grande vitória; iguais prémios por certo vou dar-vos; ora deixai franca a liça para outros Aqueus contenderem.”

Obedeceram-lhe logo ao conselho os dois fortes guerreiros e das escórias limpando-se as belas camisas envergam.

Para a carreira veloz traz os prémios depois o Pelida: uma cratera de prata lavrada trabalho finíssimo de seis medidas que a todas as outras da terra excedia; dos afamados peritos sidónios era obra de preço.

Por traficantes fenícios trazida no porto a expuseram por algum tempo até ser ofertada ao magnânimo Toante.

Mais tarde a Pátroclo Euneu a entregou de Jasão descendente para resgate do belo Licáon filho de Príamo.

Ora o Pelida a oferece em memória do amigo dilecto para o que mais velozmente corresse na justa a iniciar-se; um boi soberbo o que viesse em segundo lugar obteria; meio talento só de ouro para o último alfim apresenta.

Alevantado aos Aqueus valorosos então se dirige: “Que se apresentem os que hão-de extremar-se no rápido curso.”

O velocíssimo Ájax descendente de Oileu se levanta mais o astucioso e divino Odisseu e por último Antíloco filho do velho Nestor o primeiro entre os moços aquivos.

Postos em fila por ordem Aquileu a meta lhes mostra.

Logo a carreira iniciam tomando a dianteira o ligeiro filho de Oileu; secundava-o o divino Odisseu Laercíada.

Quanto distante do seio de bela mulher se conserva a lançadeira quando ela habilmente a maneja passando-a pela urdidura dum lado para o outro mui perto do seio: tanto Odisseu das pegadas de Ájax distanciado corria nelas pisando antes mesmo que a poeira agitada as cobrisse.

Tão perto sempre no encalço do Oilíada o herói se conserva que o hálito a nuca de Ájax alcançava; os Aquivos em gritos mais ainda o brio espicaçam do herói desejoso de glória.

Mas quando próximo estava da parte final da carreira à de olhos glaucos Atena Odisseu do imo eleva uma súplica: “Ouve-me deusa e auxilia-me; aos pés ligeireza me empresta!” A fervorosa oração foi ouvida por Palas Atena; leves lhe torna ela os membros os braços e as pernas robustas.

E quando estavam no ponto de o prémio alcançar cobiçado o ágil Ájax a correr escorrega –trabalho de Atena– no liso chão onde esterco se via dos bois mugidores que o divo Aquileu em honra do amigo dilecto imolara: ficam de estrume emboldreados a boca e o nariz do guerreiro.

Ganha a cratera o divino e sofrido Odisseu porque tinha sido o primeiro a chegar; leva Ájax o boi forte dos campos.

Pondo-se junto do boi das campinas do chifre lhe aterra e a cuspinhar a espurcícia aos valentes Aqueus se dirige: “A escorregar obrigou-me sem dúvida a mesma deidade que como mãe carinhosa a Odisseu sempre ampara e auxilia.”

Com gargalhada do gozo respondem-lhe os caros consócios.

Toma o Nestorida Antíloco o prémio de menos valia e procurando sorrir aos que o cercam de pronto acentua: “Ainda que seja de todos sabido meus caros vos digo que aos mais idosos os deuses costumam mostrar preferência.

O velocíssimo Ájax é mais velho do que eu poucos anos mas à anterior geração Odisseu valoroso pertence.

Velho ainda fresco lhe chamo; a qualquer dos Acaios seria muito difícil vencê-lo a não ser o divino Pelida.”

O ínclito Aquileu de rápidos pés se alegrou sobremodo com o elogio e em resposta lhe disse as palavras aladas: “Tuas palavras Nestorida não ficarão sem proveito pois de crescença terás como prémio outro meio talento.”

O áureo talento lhe entrega; exultante o guerreiro o recebe.

Traz em seguida o Pelida uma lança de sombra comprida um arco belo e um escudo e no meio da liça os coloca  armas que Pátroclo havia a Sarpédon exímio tomado.

Alevantado aos Aqueus valorosos então se dirige: “Ora convido dois fortes guerreiros dos mais destemidos devidamente arnesados e armados de bronze cortante a experimentarem as forças à vista de todos os Dánaos.

O que em primeiro lugar conseguir vulnerar a epiderme do opositor através da couraça até ao sangue anegrado receberá como prémio esta espada de cravos de prata de Asteropeu conquistada por mim; é trabalho da Trácia.

Os dois campeões ficarão com as armas do claro Sarpédon e em minha tenda hão-de ter hoje mesmo um banquete magnífico.”

A essas palavras eleva-se Ájax Telamónio o gigante e logo após o Tidida Diomedes de forte estatura.

Quando os aprestos concluíram cada um do seu lado avançaram cheios de ardor para o meio do campo os dois fortes guerreiros ambos com aspecto terrível; de todos o espanto se apossa.

Logo que os dois combatentes em frente se acharam um do outro arremeteram três vezes tentando de perto ferir-se.

O Telamónio consegue furar a rodela do imigo sem que a epiderme lhe atinja que a forte couraça o protege.

Busca o Tidida também com a ponta da lança luzente por sobre o escudo redondo o pescoço atingir do guerreiro o que os Aquivos cuidosos da vida de Ájax leva logo a suspender o combate iguais prémios aos dois conferindo.

Mas o Pelida a Diomedes entrega a magnífica espada o telamão bem lavrado e a bainha de bela feitura.

Globo grosseiro de ferro depois o Pelida apresenta; com ele Eécion costumava do grande vigor dar a prova.

Mas quando Aquileu de rápidos pés o privou da existência para os navios mandou que o levassem entre outras riquezas.

Alevantado aos Aqueus valorosos então se dirige: “Que se apresentem agora os que a prova tentar desejarem.

Para cinco anos terá provisão suficiente de ferro quem conquistar este globo; e se longe seus campos ficarem nunca há-de ferro faltar-lhe sem ver-se obrigado a incumbência dar a um dos homens colono ou pastor de à cidade ir comprá-lo.”

O varonil Polipetes de pronto a essas vozes se eleva logo seguido do forte Leonteu semelhante a um dos deuses do Telamónio membrudo e de Epeio de origem divina.

Em fila todos se põem; voltear tenta Epeio divino  o globo férreo o que a todos os Dánaos o riso provoca.

De Ares rebento Leonteu em segundo lugar o arremessa; o grande Ájax Telamónio em terceiro lugar do possante braço o dispara fazendo-o passar os sinais anteriores.

Mas o viril Polipetes tomando do globo de ferro tão longe o atira quanto o hábil pastor quando o laço dispara e a revoltões o distende por cima da bela manada: os circunstantes desta arte ultrapassa os quais à uma o aplaudiram.

Os companheiros do herói Polipetes então adiantando-se para os navios recurvos o prémio do rei carregaram.

Ferro violáceo depois o Pelida aos archeiros promete dez machadinhas dum corte e outras tantas bipenes brilhantes.

Manda em seguida que um mastro de nave anegrada se firme longe na areia no tope do qual uma tímida pomba ata a um cordel por um pé concitando os Aqueus a provarem a pontaria: “Quem quer que a ferir chegue a tímida pomba pode levar para casa as bipenes de bela feitura; quem no cordel simplesmente acertar da ave o tiro falhando as machadinhas carregue por ser menos hábil frecheiro.”

A essas palavras levanta-se a força de Teucro possante  bem como o claro Meríones sócio do chefe cretense.

Postas as sortes num elmo de bronze e agitando-o o Pelida salta a de Teucro em primeiro lugar.

O guerreiro dispara com decisão varonil sem primeiro fazer a promessa a Febo Apolo de tenros cordeiros no altar imolar-lhe.

O alvo por isso ambiciado talhou que o frecheiro lho impede só conseguindo atingir o cordel junto ao pé da avezinha.

Foi seccionado o cordel pelo corte da seta amargosa: cai para o solo a porção do cordel presa ao mastro librando-se no éter a tímida pomba; os Acaios a rir dispararam.

Das mãos de Teucro Meríones o arco arrancou apressado pois de antemão uma seta aprestara enquanto ele atirava e a Febo Apolo o frecheiro promete sem perda de tempo uma hecatombe de tenras ovelhas no altar imolar-lhe.

No alto entre as nuvens percebe a voltear a medrosa pombinha; numa das voltas a atinge no peito sob a asa acertando-lhe; a flecha o corpo lhe passa e na volta do tiro certeiro se vem fincar ante os pés de Meríones.

A ave primeiro pousa no tope do mastro da nave de proa anegrada deixa tombar a cabeça estirando sem forças as asas;  e quando o espírito rápido os membros por fim lhe abandona longe do mastro caiu.

Todos ficam tomados de espanto.

As dez bipenes Meríones presto levanta da arena; as machadinhas mandou Teucro exímio levar para as naves.

Trouxe depois o Pelida uma lança de sombra comprida e um caldeirão da valia dum boi não usado e florido.

Os jogadores de dardo adiantam-se então para o centro o nobre filho de Atreu Agamémnon rei poderoso bem como o claro Meríones sócio do chefe cretense.

O divo Aquileu de rápidos pés deste modo lhe fala: “Todos sabemos Atrida quanto és superior a nós outros em força bruta não só mas também no arrojar a hasta longa.

Fica por isso com esta lembrança e a teu barco retorna que do valente Meríones há-de ser a hasta de bronze se me aceitares a ideia; eu de mim simplesmente a sugiro.”

De mui bom grado concorda Agamémnon rei poderoso a hasta a Meríones forte cedendo.

Ao arauto Taltíbio o próprio herói fez entrega do prémio de grande beleza.


 

CANÇÃO XXIV

Findos os jogos dispersam-se todos; os Dánaos guerreiros às suas naus recolhidos cuidavam somente da ceia e de ao repouso entregar-se.

O Pelida no entanto chorava o companheiro dilecto a virar-se dum lado para outro sem pelo sono que a todos domina sentir-se vencido.

Lembra-lhe a força de Pátroclo a ingente e provada coragem bem como os duros trabalhos que juntos haviam sofrido nas cruas guerras dos homens e assim sobre as ondas revoltas.

Essas visões o levavam a pranto verter amaríssimo sem posição permanente encontrar: já dum lado já de outro ou ressupino ou de borco se deita.

Por fim levantando-se anda ao comprido da praia do mar.

Porém logo que a aurora via raiar reflectindo-se na água e na areia nitente ao jugo atava os cavalos velozes de origem divina atrás do carro o cadáver desnudo de Héctor amarrando.

E após o corpo arrastar por três vezes à volta do túmulo do ínclito Pátroclo à tenda voltava a acolher-se deixando-o na branca areia de bruços.

Mas Febo do herói apiedado ainda depois de sua morte o cadáver ampara de todas  as ocasiões de estragar-se cobrindo-o com a égide de ouro para que no acto de ser arrastado não viesse a ferir-se.

Ao divo Héctor o Pelida em sua fúria desta arte ultrajava.

Compadecidos os deuses do Olimpo à visão desse quadro a Hermes luzente pediram que fosse roubar o cadáver.

Todos concordes à ideia se mostram excepto Hera augusta o abalador poderoso e a donzela de Zeus de olhos glaucos que continuavam como antes a odiar Ílion sacra o monarca Príamo e o povo troiano por causa da ofensa de Páris –Páris que deu preferência entre as deusas na sua cabana à que promessa lhe fez justamente da infausta luxúria.

Quando a dozena manhã no horizonte raiou matutina para os eternos Apolo se vira e lhes diz o seguinte: “Sois todos cruéis destrutores eternos! Héctor por acaso nunca vos fez sacrifícios de bois e de ovelhas vistosas? E ora não tendes coragem sequer de salvar-lhe o cadáver para que a esposa o contemple a mãe nobre e o filhinho ainda infante bem como Príamo e o povo troiano que logo à fogueira o entregariam prestando-lhe as honras funéreas devidas? Ao invés disso ao funesto Pelida amparais tão-somente  tão destituído de humano sentir sem razoáveis propósitos no coração abrigar como o leão cujo instinto selvagem  à força ingente associada e à indomável coragem o leva a devastar os rebanhos dos homens a fim de saciar-se.

Toda a piedade falece ao Pelida falece-lhe o senso da reverência que é fonte de males e bens para os homens.

A todo o instante acontece a mais íntima pena sofrer-se ao ver-se alguém pela morte privado de irmão ou de filho mas afinal tudo acaba: os lamentos o choro sentido que coração resignado aos humanos as Moiras cederam.

Este porém após a vida de Héctor extinguir arrastado ao derredor do sepulcro do amigo os cavalos o levam sem que esse ultraje indecente lhe traga nenhuma vantagem.

Guarde-se o herói por maior que ele seja dos deuses do Olimpo pois contra terra insensível apenas a fúria exercita.”

Hera de cândidos braços lhe disse irritada o seguinte: “Pelo que vejo frecheiro brilhante com tuas palavras queres que a Aquileu e Héctor iguais honras lhes sejam prestadas? Amamentado por leite de simples mortal foi Héctor; mas o alto Aquileu é filho de deusa imortal que nutrida  foi e educada por mim e a Peleu como cônjuge entregue o valoroso guerreiro que tanto os eternos prezavam.

Fostes presentes às núpcias ó deuses! Entre eles te achavas com tua lira também sempre pérfido e mau companheiro.”

Zeus poderoso que as nuvens cumula lhe disse em resposta: “Hera não fiques assim agastada irritada com os deuses.

Certo o Pelida mais honras merece que Héctor; porém este era de todos os homens de Tróia o mais caro aos eternos bem como a mim pois que gratas ofertas me fez com frequência.

Em meus altares jamais seus condignos dons escassearam nem libações nem perfumes as honras em suma devidas.

Mas desistamos de o corpo roubar do impecável troiano; fora impossível fazê-lo às ocultas de Aquileu que nunca do lado dele a mãe sai consolando-o de dia e de noite.

É preferível que a Tétis um deus vá chamar para ouvir-me um ponderável conselho que leve a aceitar o Pelida ricos presentes de Príamo o corpo do filho entregando-lhe.”

Íris a deusa de pés de procela sem mais entre Samos e Imbro rochosa nas ondas inquietas e escuras se atira para levar o recado fazendo gemer o mar fundo.

Cala no mar sonoroso da mesma maneira que o chumbo preso na ponta dum chifre de touro selvagem que baixa para levar aos peixinhos incautos a Morte enganosa.

Numa gruta profunda achou Tétis rodeada de muitas outras deidades marinhas no meio das quais o destino do filho amado chorava o impecável herói que devia longe da pátria morrer nas planícies de Tróia fecunda.

Íris a deusa de rápidos pés deste modo lhe fala:  “Tétis levanta-te; Zeus poderoso deseja falar-te.”

Disse-lhe a deusa de pés argentinos então em resposta: “Por que motivo me chama Zeus máximo? Tenho vergonha de aparecer ante as outras deidades pois sofro em excesso.

Mas ainda assim compareço que vão não será seu desejo.”

Após ter a deusa falado depressa num manto se envolve de cor azul –mais escuro indumento não fora possível– e Íris à frente de rápidos pés se pôs logo em caminho.

Abrem-se as ondas do mar sonoroso ante as duas deidades.

Ao alcançarem o linde rochoso para o alto subiram e logo a Zeus poderoso encontraram cercado por todos os outros deuses beatos de eterna existência.

Assentou-se  Tétis ao lado de Zeus no lugar por Atena cedido.

Com expressões de carinho Hera augusta nas mãos uma copa de ouro lhe entrega que a deusa depois de beber lhe devolve.

O pai dos homens e deuses lhe disse as palavras aladas: “Tétis divina subiste até ao Olimpo apesar de angustiar-te o coração indizível tristeza; sei tudo o que passa.

Mas ainda assim o motivo por que te chamei vou dizer-te: Há nove dias os deuses discordes se encontram por causa do ínclito Aquileu Pelida e do corpo de Héctor valoroso.

A Hermes luzente pediram que fosse roubar o cadáver; mas defraudar não pretendo dessa honra o incansável Aquileu que teu respeito e amizade não quero perder no futuro.

Rapidamente ao exército baixa e teu filho aconselha.

Mostra-lhe quanto se encontram os deuses com ele agastados e eu mais que todos por ser implacável e junto das naves ter o cadáver de Héctor sem querer aceitar-lhe o resgate.

Vê se de alguma maneira me acata e o cadáver entrega.

Íris veloz mandarei com recado ao magnânimo Príamo para remir o cadáver do filho nas naves acaias dádivas grandes levando que o peito de Aquileu alegrem.”

Tétis de pés argentinos de pronto lhe acata o conselho;  célere baixa passando por cima dos cumes do Olimpo junto da tenda de Aquileu parando; ali foi encontrá-lo a suspirar fundamente no meio dos caros consócios que azafamados se achavam nos gratos aprestos do almoço para o que haviam na tenda uma ovelha vistosa imolado.

Senta-se a mãe venerável bem junto do filho dilecto e pela mão o tomando lhe diz as palavras aladas: “Filho até quando hás-de no meio de tantos suspiros e lágrimas o coração consumir tão jejuno a esse ponto e tão vígil? Grato proveito tiraras se a amante afectuosa te unisses.

Não tens também muito tempo de vida que já se aproxima de ti o Fado implacável e a sombra da lívida Morte.

Ora me escuta que venho da parte de Zeus com mensagem.

Diz o Tonante que se acham contigo irritados os deuses e ele ainda mais do que os outros por seres assim obstinado e junto às naus o cadáver desnudo de Héctor conservares.

Vamos entrega o cadáver e aceita resgate condigno.”

Disse-lhe Aquileu de rápidos pés em resposta o seguinte: “Seja! Há-de o corpo levar quem trouxer o resgate condigno se o próprio Olímpio se mostra bondoso e tal ordem me envia.”

A mãe e o filho desta arte se deixam ficar junto às naves dos combatentes argivos trocando palavras aladas.

A Íris entanto Zeus grande apressou para Tróia sagrada: “Íris veloz abandona depressa a alta sede do Olimpo e após a Tróia chegares exorta o magnânimo Príamo a ir o cadáver do filho remir nos navios acaios dádivas grandes levando que o peito de Aquileu alegrem.

Que vá sozinho porém sem nenhum dos guerreiros troianos; leve somente um arauto bem velho que possa guiar-lhe os fortes mulos e o carro bem feito e que o corpo do filho morto pelo alto Pelida para Ílion de novo carregue.

Que nenhum medo da morte ou sequer de mau trato o preocupe pois lhe daremos o próprio Argicida por guia o qual há-de acompanhá-lo até perto encontrar-se de Aquileu divino.

Dentro da tenda não só nenhum mal lhe fará o Pelida como há-de opor-se a que os Dánaos alguma violência pratiquem pois imprudente não é nem perverso ou de senso privado e há-de acolher com a justiça devida quem for suplicar-lhe.”

Íris a deusa de pés de procela baixou do alto Olimpo  chega à morada de Príamo achando-a em lamentos imersa.

No pátio os filhos encontra do velho monarca banhando as belas vestes em lágrimas todos à volta do velho.

Este no manto envolvido calado se achava deixando ver na cabeça e no tenro pescoço resquícios de esterco que a revolver-se no solo ele próprio no corpo esfregara.

As belas filhas e as noras choravam por todo o palácio pela memória abaladas dos grandes e estrénuos guerreiros que dos Aquivos às mãos a existência ora haviam perdido.

A mensageira de Zeus achegando-se a Príamo fala-lhe quase em sussurro o que aos membros lhe infunde tremor incontido: “Ânimo filho de Dárdano cumpre banir todo o medo; não vim à tua presença anunciar nenhuma outra desgraça mas de teu bem cuidadosa pois núncia de Zeus sou agora que compassivo e zeloso se mostra conquanto distante.

Manda-te o Olímpio que vás resgatar o cadáver de Héctor dádivas grandes levando que o peito de Aquileu alegrem.

Que vás sozinho porém sem nenhum dos guerreiros troianos; leva somente um arauto bem velho que possa guiar-te os fortes mulos e o carro bem feito e que o corpo do filho   morto pelo alto Pelida para Ílion de novo te traga.

Que nenhum medo da morte ou sequer de mau trato te aflija pois o Argicida brilhante dar-te-á como guia que te há-de acompanhar até perto ficares de Aquileu divino.

Dentro da tenda não só nenhum mal te fará o Pelida como há-de opor-se a que os Dánaos alguma violência pratiquem pois imprudente não é nem perverso ou de senso privado e há-de acolher com a justiça devida a quem for suplicar-lhe.”

Íris a deusa veloz após falar retornou para o Olimpo.

Príamo aos filhos ordena que um carro de mulos aprontem e que sobre ele amarrada uma cesta bem grande disponham.

Mas ele próprio baixou em seguida até à câmara odora alta e de cedro na qual abundantes riquezas possuía.

A Hécabe a esposa chamando lhe diz as palavras aladas: “Pobre mulher ordenou-me da parte de Zeus núncio olímpio que fosse às naus dos Acaios remir o cadáver do filho dádivas grandes levando que o peito de Aquileu alegrem.

Ora me fala sincera: que tal te parece tudo isso? Resolução arrojada ora sinto abalar-me o imo peito de ir aos navios recurvos e ao campo dos próprios Aquivos.”

Grita espantada a consorte dizendo-lhe então em resposta: “Pobre de mim! Onde o siso deixaste que tanto os estranhos como teus próprios vassalos outrora soíam louvar-te? Como pretendes ir só aos navios dos fortes Aquivos e apresentar-te ante os olhos do monstro fautor do extermínio de tantos filhos valentes? Tens térreas entranhas decerto.

Se lhe caíres às mãos e ante os olhos com vida enxergar-te pérfido e cruel como ele é não terá compaixão de teu fado nem reverente há-de ser.

Lastimemos o filho querido em nossa casa que a Moira terrível ao seu nascimento lhe fiou destino cruel ao ser ele por mim dado ao mundo: o de saciar cães velozes distante dos pais amantíssimos junto desse homem perverso e violento.

Pudesse enterrar-lhe em pleno fígado os dentes em paga de quantos ultrajes fez ao meu filho querido! Este a vida perdeu sem desdouro mas sempre firme em defesa dos Teucros e suas esposas sem que nenhum pensamento abrigasse de medo ou de fuga.”

O velho Príamo aos deuses semelho lhe disse em resposta: “Não te anteponhas ao que hei assentado nem de ave agoureira queiras servir em meus paços pois não poderás convencer-me.

Se dum qualquer dos mortais esse alvitre tivesse partido ou sacerdote ou adivinho ou entendido no voo dos pássaros de mentiroso eu o tachara sem dar-lhe importância nenhuma.

Mas era a voz duma deusa; ante os olhos a tive; debalde não me terá procurado: obedeço.

E ainda mesmo que esteja pelo destino assentado que morra entre as naves aquivas  à minha sorte me entrego.

Que Aquileu me mate contanto que o coração desafogue e a meu filho abraçar ainda possa.”

Após ter falado o Dardânida as arcas valiosas destampa donde escolheu doze peplos dos mais finamente acabados e mantos simples em número igual doze belos tapetes de alvos lençóis uma dúzia e outras tantas riquíssimas túnicas.

De ouro depois dez talentos maciços mandou que trouxessem um par de trípodes novas mais quatro caldeiras luzentes e uma belíssima copa que os Trácios lhe deram quando ele de embaixador o país visitara presente valioso –nem isso o velho poupou que o movia a ansiedade indizível de resgatar o cadáver do filho.

Com termos violentos escorraçava os Troianos que em grupos se achavam nos pórticos: “Ide-vos homens sem pejo! Não tendes em casa bastantes  lamentações para virdes a dor deste modo agravar-me? Ou presumis que não basta o que Zeus me legou de amarguras com vir o filho a perder? Vós também havereis de senti-lo pois os Aquivos agora bem mais facilmente encontrando-se morto meu filho hão-de a grata existência tirar dos Troianos.

Enquanto a mim só desejo para o Hades baixar sem que aos olhos me surja o triste espectáculo do incêndio e do saque de Tróia.”

Abre o caminho com o ceptro depois de falar; os Troianos fogem da fúria do ancião que prossegue a gritar pelos filhos Páris e Heleno insultando bem como Ágaton o divino Pámonv Antífono e o herói de voz forte na guerra Polites o próprio Hipótoo e Deífobo e Dio de presença admirável.

Os nove filhos o velho chamava dando ordens aos gritos: “Sus preguiçosos vergonha dos pais! Quem me dera que todos em vez de Héctor estivésseis sem vida ante as naus dos Aquivos! Triste o meu fado! Que em Tróia espaçosa gerei tantos filhos de comprovado valor sem que um só me ficasse com vida: Tróilo o impecável auriga e assim Méstor de forma divina e o grande Héctor entre os homens pequenos um nume glorioso que parecia ser filho dum deus não dum homem terreno.

Ares matou-me esses filhos; ficaram-me apenas os fracos os mentirosos e os mestres nos ritmos das danças que servem só para o povo assaltar rebatando-lhe ovelhas e cabras.

Vamos mexei-vos! O carro aprestai-me depressa provendo-o destes objectos que alfim consigamos nos pôr a caminho.”

Atordoados com os gritos de Príamo os filhos se apressam indo buscar a caleça de mulos de rodas velozes e de recente feitura; sobre ela uma cesta colocam.

Logo do gancho apropriado retiram o jugo dos mulos umbilicado e mui belo de buxo de anéis adornado bem como o loro de cúbitos nove que lhe era adaptado o qual na ponta do belo e polido timão ajeitaram  em cuja argola a cavilha adaptaram firmando-a com o loro que pelo umbigo passaram três vezes em cruz dos dois lados e bem seguras as pontas o nó por debaixo esconderam.

Feito isso tudo trouxeram do tálamo os ricos presentes para o resgate de Héctor colocando-o no carro bem feito.

Põem sob o jugo a parelha robusta de mulos galhardos que os fortes Mísios haviam a Príamo outrora ofertado.

Para o monarca depois os cavalos trouxeram que o próprio  rei venerando criara no estábulo de bela feitura.

Enquanto o carro e os cavalos aprestam no pórtico altivo para o Rei Príamo e o arauto que graves cuidados volviam o coração angustiado a consorte do rei se aproxima na mão direita trazendo áurea taça de vinho melífluo porque o marido ao partir reverência prestasse a Zeus grande.

Junto do carro parando profere as palavras aladas: “Toma! A Zeus liba primeiro implorando voltar conseguires salvo das gentes imigas se o peito em verdade te impele a ir aos navios aqueus apesar de me opor a essa ideia.

Vamos: dirige teus votos ao Crónida Zeus poderoso que do Ida altivo domina as extensas planícies de Tróia e lhe suplica mandar-te um sinal a mais forte das aves e a que ele próprio prefere de voo mais rápido.

Venha pela direita que tendo-a de facto ante os olhos reflictas para confiante empreenderes a viagem às naus dos Aquivos.

Mas se o sinal não mandar Zeus potente que ao longe discerne aconselhar-te não devo jamais a ir às naves recurvas dos inimigos por mais que te mostres propenso a fazê-lo.”

Disse-lhe Príamo a um deus semelhante em resposta o seguinte:  “Não poderei cara esposa deixar de atender-te ao conselho; bom sempre é a Zeus implorar para ver se de nós se apiada.”

À despenseira depois de falar manda o ancião que lhe deite água bem limpa nas mãos sem tardança.

Aproxima-se a serva como lhe fora ordenado com o jarro e a bacia do estilo.

Após ter lavado as mãos fracas a copa da esposa recebe e colocado no meio do pátio o bom vinho libado a vista volve para o alto dizendo as seguintes palavras: “Zeus pai que no Ida demoras senhor augustíssimo e máximo faz que eu possa encontrar em Aquileu afecto e piedade.

Manda-me como sinal de tua parte a mais forte das aves a que tu próprio preferes de voo mais rápido.

Venha pela direita que tendo-a de facto ante os olhos reflicta para confiante empreender a viagem à nau dos Aquivos.”

Isso disse ele na súplica; Zeus o atendeu poderoso e logo uma águia lhe manda perfeita entre todas as aves ‘fosca’ de nome por causa das penas veloz caçadora.

Quanta é a largura dum grande portão de potentes ferrolhos  que homem de muitos haveres no tálamo altivo construísse: tanto ela as asas escuras estende librando-se altiva.

Alça-se pela direita por sobre a cidade; alegraram-se quantos a viram de júbilo o peito de todos enchendo-se.

Sem mais tardança subiu para o assento polido o monarca pelo ruidoso vestíbulo fazendo rodar a caleça.

Iam adiante dois mulos robustos puxando o veículo de quatro rodas; guiava-os Ideu cauteloso; os cavalos Príamo atrás com o chicote excitava sem pausa que logo atravessassem as ruas.

Tal como se fosse o monarca para morrer os do povo com grandes lamentos o seguem.

Logo que do alto do burgo desceram e o plaino alcançaram os filhos todos de Príamo e os genros de novo à cidade se recolheram.

Não ficam porém a Zeus grande os dois vultos despercebidos na vasta planície.

Do velho apiedado vira-se o Crónida Zeus para o filho e lhe diz o seguinte: “Hermes por teres prazer especial em servir de companhia para os mortais sobre dares ouvidos àqueles que estimas serve de guia ao monarca troiano até às naus dos Aquivos de forma tal que nenhum dos guerreiros acaios o veja até que ele chegue afinal à presença de Aquileu Peleio.”

Hermes o lúcido guia obediente se mostra ao mandado;  calça sem mores delongas as belas e firmes sandálias de ouro e divinas que o levam por cima das águas marinhas como também pela terra infinita qual sopro do vento; a vara empunha encantada com que faz dormir os que velam quando lhe apraz ou consegue fazer despertar os que dormem.

Firme empunhando-a o Argicida potente baixou do alto Olimpo.

Logo que o claro Helesponto alcançou e a planície de Tróia sob a figura se adianta dum jovem de fina prosápia na mais atraente estação quando o buço lhe aponta gracioso.

Quando os viandantes já haviam o túmulo de Ilo passado as alimárias robustas detêm para a sede saciar-lhes.

Por sobre a terra entrementes baixara o sombrio crepúsculo.

Foi nesse instante que o arauto notou já bem próximo o vulto de Hermes; virando-se então para Príamo disse o seguinte: “Príamo atento! Ora cumpre valer-te de toda a prudência.

O vulto vejo dum homem; é certo fazer-nos em tiras.

Com os corredores velozes no carro fujamos depressa ou imploremos piedade abraçando-lhe os fortes joelhos.”

Turva-se a mente do velho invadindo-o pavor indizível; nos membros curvos os pêlos se eriçam; sem tino se mostra.

O Ajudador entretanto chegando-se para mais perto toma da mão do Dardânida e diz as palavras aladas: “Para onde pai desse modo na noite sagrada diriges mulos e fortes corcéis quando os outros mortais já repousam?  Não tens acaso receio da fúria dos fortes Acaios teus figadais inimigos que intensos e perto se encontram? Se qualquer deles te visse sozinho com tantos tesouros na noite escura qual fora revela-me a tua conduta? Moço não sendo e seguido tão-só por um velho ajudante nada farias se acaso assaltado na estrada te visses.

Enquanto a mim não receies nenhuma violência; mais ainda: defender-te-ei se preciso que vejo a meu pai em teu vulto.”

Príamo o velho que um deus parecia lhe disse em resposta: “Todas as tuas palavras meu filho a verdade reflectem; mas é patente que a mão sobre mim um dos deuses estende pois ensejaram que em tua pessoa me viesse ao encontro tão oportuno viandante de aspecto e presença admirável e sobretudo prudente e de pais bem fadados oriundo.”

Disse-lhe então em resposta o Argicida de aspecto brilhante: “Tudo realmente bom velho disseste de acordo com os factos.

Vamos: agora me fala e responde conforme a verdade: tens porventura a intenção de mandar tais e tantos objecto; para algum povo vizinho que a salvo tos guarde ou –quem sabe– abandonais as sagradas muralhas de Tróia levados pelo temor? Em verdade um guerreiro extraordinário perdestes teu filho amado que em nada ficava a dever aos Aquivos.”

Príamo a um deus semelhante lhe disse em resposta o seguinte: “Diz-me caro quem és e de que genitores descendes para me falares assim do destino infeliz do meu filho.”

Disse-lhe então em resposta o Argicida de aspecto brilhante: “Tentas-me velho fazendo perguntas acerca de Héctor.

Fica sabendo que inúmeras vezes o vi com estes olhos nas sanguinosas batalhas e quando chegou até às naves a dizimar os guerreiros aquivos com o bronze agudíssimo.

Nós inactivos pasmávamos pois o Pelida irritado com o forte Atrida proibira que parte nas lutas tomássemos.

Sou escudeiro de Aquileu; o mesmo navio nos trouxe; entre os Mirmídones me acho; sou filho do claro Polidor de bens infindos e branca aparência que a tua recorda.

Dos sete filhos que teve –os seis outros em casa ficaram–  eu simplesmente por sorte tocou-me partir para a guerra.

Ora das naves saí para o plaino que os fortes Aquivos de olhos brilhantes bem cedo amanhã vão lutar junto aos muros.

Por tanto tempo inactivos excita-os agora o entusiasmo sem que os monarcas acaios consigam conter-lhes o impulso.”

Príamo a um deus semelhante lhe disse em resposta o seguinte: “Se és em verdade escudeiro de Aquileu o claro Pelida informações verdadeiras então poderás fornecer-me sobre o cadáver de Héctor: se ainda está junto às naves recurvas ou se o Pelida o atirou para os cães feito em postas o corpo.”

Disse-lhe então o Argicida de aspecto brilhante em resposta: “Não lhe tocaram meu velho nem aves nem cães voradores; ainda se encontra ante a nave de Aquileu bem junto da tenda.

Já doze vezes seguidas depois de ali estar veio a aurora; nem se lhe alteram as carnes porém nem lhas comem os vermes que tão vorazes os corpos devoram no campo da luta.

Certo é que Aquileu o arrasta ao redor do sepulcro do amigo sem reverência nenhuma mal surge a manhã no horizonte; mas não o estraga ainda assim.

Ficarias pasmado se visses como está rórido ainda o cadáver e limpo de sangue;  mancha nenhuma aparece; fecharam-se todos os golpes que recebeu pois inúmeros Dánaos à lança o feriram.

Os deuses beatos assim de teu filho zelosos se mostram ainda depois de ser morto pois era de todos querido.”

Essas palavras alegram o ancião que lhe diz o seguinte: “Filho é de toda vantagem levar aos eternos as dádivas que lhes devemos.

Héctor –se é que Héctor já viveu algum dia– nunca esquecido ficou pelos deuses que moram no Olimpo.

Por isso mesmo sem dúvida é que eles agora ainda o assistem.

De minhas mãos ora aceita esta copa presente valioso e dá-me amparo; de guia me serve com a ajuda dos deuses até que cheguemos à tenda de Aquileu o forte guerreiro.”

Disse-lhe então o Argicida de aspecto brilhante em resposta: “Tentas-me velho por veres que moço ainda sou; mas é inútil: à revelia de Aquileu não posso aceitar nenhum brinde.

Não o temor simplesmente mas grande respeito me empece de defraudá-lo; algum mal poderia com isso causar-me.

Pronto me sinto porém a guiar-te até mesmo se fores a Argos ilustre por terra ou em navios de rápido curso sem que ninguém a ofender-te se atreva estando eu como guia.”

Ao dizer isso o auxiliar poderoso saltou para o carro e decidido tomando do açoite e das lúcidas rédeas brio nos mulos infunde nos fortes e belos ginetes.

Logo que o fosso alcançaram e o muro que as naus protegiam viram que os guardas à volta dos barcos da ceia cuidavam.

Sono agradável o claro Argicida infundiu neles todos e após abrir o portão removendo os pesados ferrolhos para o interior leva Príamo e o carro com os ricos presentes.

Em pouco tempo alcançaram a tenda que os fortes Mirmídones para o incansável Aquileu haviam construído com troncos de altos abetos; coberta era toda com várias camadas de veludosa tábua que haviam cortado nas várzeas.

Com paliçada bem feita espaçoso recinto os guerreiros para o senhor construíram; uma tranca somente de abeto a grande porta fechava; três homens as forças reuniam para esse tronco gigante dali retirar com trabalho  –homens comuns pois Aquileu bastava sozinho para isso.

A porta abriu para o velho o correio de aspecto brilhante e fez entrar os presentes de Aquileu de pés muito rápidos.

Logo do carro saltando falou para o rei venerando:  “Velho um dos deuses de eterna existência te fez companhia: Hermes; meu pai me enviou para auxílio prestar-te na estrada.

Mas devo agora voltar; não convém que me veja o Pelida; pois em verdade seria motivo de cólera justa que a um dos mortais tão às claras um deus afeição demonstrasse.

Entra sozinho e abraçando-lhe os joelhos suplica-lhe em nome do próprio pai venerando da mãe de venustos cabelos e de Neoptólemo o filho que possas o peito abalar-lhe.”

Hermes depois de falar retornou para a sede dos deuses; Príamo salta depressa do carro deixando ainda nele o venerável Ideu que ficou para guarda dos mulos e dos cavalos.

O velho penetra direito na tenda onde o Pelida a Zeus caro soía sentar-se encontrando-o dentro sozinho que os sócios à parte moravam excepto Automedonte galhardo e o ínclito Álcimo de Ares aluno que prestimosos o servem.

De cear acabara nessa hora sim de comer e beber mas ao lado ainda a mesa lhe estava.

Sem pelos outros ser visto entra o grande monarca e de Aquileu aproximando-se abraça-lhe os joelhos e beija as terríveis mãos homicidas que muitos dos filhos lhe haviam matado.

Como se dá quando algum criminoso exilado da pátria busca vencido da angústia refúgio em mansão opulenta de potentado estrangeiro deixando os presentes atónitos: do mesmo modo o terrível Pelida se assombra ao ver Príamo.

Todos os mais se entreolharam tomados de pasmo como ele.

Súplice Príamo então começou de falar e lhe disse: “Lembre-te Aquileu igual a um dos deuses teu pai venerável da mesma idade que a minha e portanto como eu assim velho.

É bem possível que esteja cercado por fortes vizinhos cheio de angústia sem ter quem lhe sirva de amparo e defesa; mas só de ouvir que estás vivo alegria indizível lhe invade o coração dia a dia esperando poder ante os olhos ter a figura do filho glorioso de volta de Tróia.

Muito mais triste é o meu fado que após tantos filhos haver tido de comprovado valor nem um só na velhice me resta.

Vivos cinquenta floriam no tempo em que os Dánaos chegaram; da mesma mãe dezanove guerreiros me foram brindados; os outros todos diversas mulheres nos paços tiveram.

De muitos deles as forças dos joelhos tirou Ares forte; e o único herói que restava dos muros amparo e de todos  a combater pela pátria não há muito tempo mataste: o meu Héctor cujo corpo aqui venho insistente pedir-te  às naus aquivas trazendo resgate de preço infinito.

Sê reverente aos eternos Aquileu; de mim tem piedade; pensa em teu pai também velho; bem mais infeliz sou do que ele pois chego agora a fazer o que nunca mortal fez na terra: beijo-te as mãos estas mãos que a meus filhos a morte levaram.”

Grande saudade do pai no Pelida o discurso desperta; toma das mãos do monarca afastando-o de si com brandura.

Ambos choravam; o velho lembrado de Héctor valoroso num soluçar convulsivo de Aquileu aos pés enrolado que ora o pai velho chorava ora a perda do amigo dilecto Pátroclo; o choro dos dois pela tenda bem feita ressoava.

Logo que Aquileu divino saciado ficou de gemidos e os membros todos e o peito sentiu libertados da angústia do belo trono se ergueu pela mão toma o velho monarca da branca barba condoído condoído da nívea cabeça e começando a falar lhe dirige as palavras aladas: “Quanta amargura infeliz não suportas no peito sofrido! Como pudeste vir só aos navios dos fortes Aquivos  e apresentar-te ante os olhos de quem foi a causa da perda de tantos filhos valentes? Tens férreas entranhas decerto.

Vamos assenta-te agora no trono; apesar de angustiados é conveniente deixar que as tristezas no peito se aplaquem.

Nada o homem lucra em deixar-se invadir pelo gélido pranto.

Sempre viver em tristeza: eis a sorte que os deuses eternos de descuidada existência aos mortais infelizes dotaram.

Sobre os umbrais do palácio de Zeus dois tonéis se acham postos de suas dádivas; um só de males; de bens o outro cheio.

Se misturando-as Zeus grande senhor dos trovões as derrama quem as recebe ora goza ora males por sorte lhe tocam; mas o que dele recolhe somente infortúnios escárnio vivo se torna; em extrema miséria na terra divina é condenado a vagar desprezado por homens e deuses.

Ao nascimento também de Peleu os eternos lhe deram dons inefáveis: riquezas sem conta dos homens a estima e o incontestado governo dos fortes guerreiros Mirmídones.

Mais: apesar de mortal como esposa uma deusa lhe cedem.

Grande infortúnio porém concederam-lhe os deuses negando-lhe filhos que o mando pudessem herdar-lhe no belo palácio;  a mim somente gerou destinado a morrer muito cedo.

Longe da pátria não posso cercar de cuidados o velho pois me acho em Tróia causando-te e aos filhos desditas sem conta.

Tu também velho já foste feliz pelo que me contaram.

Quantos guerreiros existem de Lesbos na sede de Mácar até para o norte da Frígia nos lindes do vasto Helesponto já dominaste abençoado com filhos e bens infindáveis.

Mas desde o instante em que os deuses celestes tal praga te enviaram  guerra somente e homicídios em torno dos muros te soam.

Vamos suporta! Não deves à dor excruciante entregar-te.

Nada consegues chorando teu filho com tantos encómios; não ressuscita e além disso outro mal poderias causar-te.”

Disse-lhe Príamo a um deus semelhante em resposta o seguinte: “Não me concites Aquileu divino a assentar-me sabendo que não cuidado meu filho se encontra na tenda; mas deixa-me vê-lo sem mores delongas.

Recebe o valioso resgate que te trouxemos e dele te goza e que possas à terra do nascimento voltar uma vez que piedoso me foste e me poupaste a existência deixando que a luz eu contemple.”

Com torvo olhar lhe responde o Pelida de pés muito rápidos:  “Não me provoques ancião que por própria vontade já me acho determinado a atender-te.

É a vontade de Zeus.

Núncia dele Tétis a filha do velho do mar minha mãe revelou-ma.

Não me escapou também Príamo –é inútil pensar-se o contrário– que um dos eternos te trouxe até às rápidas naus dos Aquivos.

Homem nenhum por mais jovem que fosse ousaria esgueirar-se no acampamento; impossível lhe fora esconder-se dos guardas ou remover facilmente os ferrolhos das portas bem feitas.

Não venhas pois irritar-me ainda mais as angústias no peito: não aconteça expulsar-te da tenda conquanto aqui estejas como pedinte violando desta arte de Zeus os mandatos.”

Príamo a tudo obedece de espanto indizível tomado.

Tal como um leão para fora da tenda saltou o Pelida –mas não sozinho que dois servidores zelosos o seguem Automedonte e o ínclito Álcimo os quais o Pelida prezava mais do que a todos depois de haver Pátroclo a vida perdido.

Tiram do jugo do lado de fora os cavalos e os mulos o velho arauto do rei para dentro da tenda conduzem fazem-no aí assentar-se e do carro de rodas bem feitas todo o resgate do corpo de Héctor valoroso transportam.

Para envolver o cadáver apenas deixaram dois mantos e uma belíssima túnica a fim de poder ser levado.

Logo ordenou às escravas que o corpo lavassem e ungissem mas em lugar apartado de Príamo pois receava que o coração angustiado do velho explodisse ante a vista do filho amado obrigando-o quiçá num transporte de cólera a dar-lhe a morte e frustrar desse modo de Zeus o mandato.

Logo que as servas o corpo lavaram e ungiram com óleo e em torno aos membros a túnica e o belo lençol dispuseram o próprio Aquileu o toma e o coloca no leito que junto com os companheiros eleva e no carro veloz deposita.

Geme o Pelida depois pelo nome do amigo chamando: “Pátroclo não te aborreças comigo se até no Hades negro vieres acaso a saber que o cadáver de Héctor foi entregue  ao caro pai pois resgate me deu não indigno em verdade do qual terás a porção que com toda a justiça te cabe.”

Tendo isso dito voltou para a tenda o Pelida divino indo sentar-se de novo no trono que havia momentos abandonara defronte de Príamo a quem se dirige: “Teu filho velho tal como o querias já está resgatado;  jaz sobre o féretro.

Podes revê-lo ao raiar-nos a aurora ou retirá-lo daqui; mas agora pensemos na ceia –pois de comer se lembrou até mesmo a de belos cabelos Níobe quando perdeu no palácio seus doze rebentos seis filhas belas e moças seis filhos no viço da idade.

A estes Apolo frecheiro matou com seus dardos pois contra Níobe estava agastado; as donzelas por Ártemis foram mortas que a Leto de tranças venustas a mãe se gabara de tantos filhos ter tido enquanto a outra só dois concebera –os mesmos dois que com serem tão poucos aos doze mataram.

Por nove dias ficaram os mortos banhados em sangue sem sepultura que em pedra Zeus Crónida o povo mudara.

Os próprios deuses urânios ao décimo dia os enterram.

Níobe lassa de choro afinal de comer foi lembrada.

Ora em penedo mudada se encontra nos picos do Sípilo de desolada aparência onde as ninfas divinas descansam após as coreias graciosas em torno do belo Aqueloo; aí muito embora de pedra o castigo dos deuses padece.

Nós também velho divino pensemos agora na ceia que terás tempo de o filho chorar mais ao diante após teres  para a cidade levado o cadáver; será longo o pranto.”

Ao dizer isso levanta-se e ovelha nitente degola; os companheiros a esfolam e aprontam de acordo com as regras: logo habilmente a esquartejam as postas enfiam no espeto assam-nas todas cuidosos tirando-as depois da fogueira.

Automedonte a seguir de pão alvo traz lindas cestinhas que põe na mesa; afinal toda a carne o Pelida reparte.

Todos as mãos estendiam visando alcançar as viandas.

Tendo assim pois a vontade da fome e da sede saciado Príamo o velho Dardânida o vulto de Aquileu admira sua imponência e estatura que um deus imortal parecia.

Não menor pasmo de Aquileu se apossa ante a vista de Príamo vendo-lhe a nobre aparência e escutando-lhe os graves conceitos.

Quando saciados ficaram de olhar um para o outro perplexo rompe o silêncio o monarca que um deus imortal parecia: “Mostra-me aluno de Zeus sem delongas o leito que eu possa sob a coberta do sono agradável gozar do repouso pois não fechei até agora estes olhos que vês macerados desde que o filho dilecto com bronze cruel me mataste.

Todo esse tempo em gemidos passei abatido angustiado   a rebolcar-me no esterco do pátio do nosso palácio.

Somente agora aceitei alimentos deixando que o vinho me humedecesse a garganta depois de tão grande abstinência.”

A essas palavras Aquileu aos sócios ordena e às escravas que sob o pórtico os leitos armassem com belos estrados de cor purpúrea forrado coberto também com tapetes para por último os mantos velosos por cima assentarem.

Saem da sala as escravas sustendo nas mãos os archotes e em pouco tempo com todo o carinho aprestaram dois leitos.

Vira-se Aquileu e diz para Príamo em tom de galhofa: “Dorme ali fora querido velhinho que aqui chegar pode inesperado qualquer conselheiro do exército aquivo para trocarmos ideias tal como é direito de todos.

Se por acaso te vissem na noite veloz e divina logo a Agamémnon iriam contar o pastor de guerreiros dificultando com isso o resgate assentado do corpo.

Vamos agora me fala e responde conforme a verdade: diz-me os dias que intentas gastar nas exéquias de Héctor para que aqui me conserve e retenha os demais combatentes.”

Príamo a um deus semelhante lhe disse o seguinte em resposta  “Se realizar me permites o enterro de Héctor valoroso ouve divino Pelida o que ao peito me fora mais grato.

Sabes que estamos cercados e quanto é distante a floresta onde é preciso ir por lenha; isso aos Teucros infunde receio.

Se nove dias no nosso palácio chorarmos o morto sepultá-lo-emos ao décimo ao povo banquete aprestando para no onzeno erigir-lhe o sepulcro tal como é de praxe.

No duodécimo então –se é fatal– reinicie-se a luta.”

O ínclito Aquileu de rápidos pés em resposta lhe disse: “Tudo será velho Príamo feito tal como o desejas; suspenderei os combates durante esses dias que pedes.”

A mão direita do velho tomando no pulso coloca-lhe a mão direita igualmente porque lhe desfizesse o receio.

Aos brandos leitos se acolhem na parte de fora no pórtico o velho Príamo e o arauto que graves conceitos revolvem enquanto dentro da tenda bem feita o Pelida ligeiro ao lado foi repousar de Briseide de faces rosadas.

Todos os deuses e os homens que em carros combatem dormiam a noite toda no manto envolvidos do sono agradável.

Hermes somente o auxiliar poderoso do sono não logra  a revolver no imo peito a maneira mais fácil de a Príamo as escondidas dos guardas livrar dos navios acaios.

Pôs-se-lhe junto à cabeça e lhe diz as palavras aladas: “Dormes ancião tão sem medo no meio de gentes imigas sem reflectires apenas por ter-te poupado o Pelida? Certo obtiveste o cadáver mas foi com resgate vultoso;  três vezes isso porém os teus últimos filhos teriam que oferecer para a vida livrar-te se acaso Agamémnon ou outro qualquer dos Acaios soubesse que aqui ora te achas.”

O velho se enche de espanto fazendo que Ideu despertasse.

Hermes no jugo lhes pôs os cavalos e os mulos robustos que o acampamento sem serem notados depressa transpõem.

E quando vau alcançaram no rio de bela corrente o divo Xanto revolto que Zeus sempiterno gerara Hermes apeou-se voltando sem mais para a sede do Olimpo.

O cróceo manto já abrira na terra a solícita Aurora.

Guiando os corcéis à cidade chegaram por entre gemidos prantos e dores; os mulos seguiam com o corpo.

Notado ninguém os tinha nem Teucros nem Teucra de cinto elegante com excepção de Cassandra tão bela quanto a áurea Afrodite  que da alta Pérgamo o pai conhecera de pé na carruagem junto do arauto que tem por ofício apregoar na cidade.

Viu o cadáver também sobre o leito que os mulos traziam.

Soam por toda a cidade seus gritos e tristes lamentos: “Vinde Troianos e Teucras a Héctor contemplar esse mesmo que quando vivo folgáveis de ver ao voltar dos combates por ser o gáudio de Tróia por ser para todos um ídolo.”

Homem nenhum nem mulher ao clamor de Cassandra deixou-se dentro dos muros ficar; indizível angústia os oprime.

Dos portadores do corpo ao encontro saíram na porta.

Antes de todas atiram-se ao carro do leito funéreo arrepelando os cabelos a esposa querida e a mãe velha.

Chora ao redor todo o povo enquanto elas o rosto lhe afagam.

E ficariam talvez todo o dia até o Sol esconder-se diante das portas de Tróia chorando de Héctor o destino se para os Teucros o rei não tivesse do carro falado: “Desimpedi o caminho e deixai-me passar com os mulos; posto o cadáver em casa podeis saciar-vos de choro.”

A essas palavras o povo se afasta franqueando-lhe o passo.

Logo que a régia imponente alcançaram no leito esculpido  foi colocado o cadáver; ao lado cantores se postam com o objectivo de entoar epicédios a que dão começo cheios de unção e tristeza conforme aos queixumes das Teucras.

Dá logo início aos lamentos no meio das Teucras Andrómaca de níveos braços sustendo a cabeça de Héctor valoroso: “Cedo da vida apartado querido consorte me deixas viúva no belo palácio com o filho ainda infante a que demos vida no nosso destino infeliz sem que espere ainda vê-lo na mocidade ingressar; há-de Tróia ruir antes disso que morto agora te encontras amparo de nossa cidade das nobres Teucras o só defensor de seus tenros filhinhos.

Dentro de pouco serão todas elas comigo levadas  nas naus recurvas; e tu caro filho na mesma desdita me seguirás para seres forçado a trabalhos indignos sob os maus tratos dum amo perverso se acaso não fores do alto da torre atirado por um dos Aqueus –horroroso– a quem Héctor em combate privado do pai haja acaso de irmão ou filho extremado pois muitos Acaios decerto pela mão forte de Héctor o chão duro de Tróia morderam.

Nunca foi brando teu pai nas funestas batalhas dos homens.

Por isso todos na grande cidade o destino lhe choram.

Dor indizível Héctor a teus pais venerandos causaste; mas muito mais do que a todos a mim sofrimentos couberam.

Não te foi dado no leito da morte estender-me as mãos ternas nem me disseste ao morrer algum sábio e prudente conselho que noite e dia a chorar na memória dorida eu trouxesse.”

A esses queixumes as Teucras o pranto sentido redobram.

Os seus lamentos então principia a externar a mãe velha: “Ao coração caro Héctor sempre o filho mais grato me foste.

Os próprios deuses enquanto viveste afeição te votaram e ora de ti não se esquecem conquanto no fado da Morte.

Meus outros filhos Aquileu de rápidos pés costumava quando os prendia vender do outro lado do mar infrutuoso em Imbro ou Samos ou no porto de Lemnos de espessa caligem.

A ti depois de matar-te com o bronze afiado arrastou-te vezes sem conta ao redor do sepulcro do sócio dilecto morto por ti sem poder nem por isso outra vez dar-lhe vida.

Tão incorrupto parece que neste momento morreste! Bem te assemelhas àqueles que Apolo o deus do arco de prata com os seus raios benignos assalta e a quem tira a existência.”

Essas palavras em todos suscitam queixumes infindos.

Alça os lamentos Helena em terceiro lugar desse modo: “Eras-me Héctor dos cunhados o que sobre todos prezava desde que Páris o divo Aléxandros para Ílion me trouxe na qualidade de esposa.

Oxalá morta eu fosse antes disso! Já são passados vinte anos em cursos do sol regulares desde que vim para cá afastada da terra nativa.

De ti contudo jamais um só termo grosseiro me veio; antes se alguém me assacava motejo sarcasmo aqui dentro fosse cunhado ou cunhada ou consorte elegante daqueles ou minha sogra –que o sogro me foi sempre pai carinhoso– a irritação lhes calmavas com termos de muita brandura com teus discursos afáveis e o génio de extrema bondade.

O coração angustiado por isso teu fado e o meu choro pois não encontro na vasta cidade dos fortes Troianos quem me demonstre afeição pois repulsa por mim todos sentem.”

A multidão infinita redobra a essas vozes o pranto.

Vira-se então para todos o rei e lhes diz o seguinte:  “Para a cidade Troianos agora trazei muita lenha sem de emboscada temer-vos por parte dos Dánaos que Aquileu  ao despedir-me das naves recurvas solene me disse que não teríamos luta sem que doze auroras raiassem.”

Fortes parelhas de bois e de mulos aos carros atrelam e sem demora se reúnem defronte dos muros de Tróia.

Por nove dias é lenha infinita à cidade trazida; e quando ao décimo a Aurora surgiu com seus dedos de rosa por entre lágrimas levam o corpo de Héctor valoroso sobre a fogueira o colocam e a chama incansável acendem.

Logo que a Aurora de dedos de rosa surgiu matutina em torno à pira de Héctor vai-se o povo de Tróia reunindo.

Quando ao chamado acudiram e todos se acharam reunidos vinho brilhante lançaram nas brasas com o fim de apagá-las até onde a força do fogo chegara.

Os irmãos em seguida e os companheiros de Héctor recolheram-lhe os cândidos ossos sempre a chorar pelas faces correndo-lhes pranto amaríssimo e em urna de ouro de rico lavor os depõem cuidadosos a qual envolvem em mantos purpúreos de fino tecido para a levarem por fim ao cavado sepulcro.

Sobre este blocos de pedra ajustados colocam e o túmulo à pressa com muita terra levantam postando-lhe ao pé sentinelas  para surpresa evitarem dos Dánaos de grevas bem feitas.

Logo que o túmulo pronto ficou para o burgo retornam onde reunidos celebram solene banquete funéreo dentro da régia de Príamo o rei pelos numes nutrido.

Os funerais estes foram de Héctor domador de cavalos.
FIM