Higino, Fábulas


Giovanni Battista Tiepolo (1696–1770)

A obra Fábulas é um excelente compêndio da mitologia grega que foi escritas Caio Júlio Higino, que viveu entre os anos de 64 a.C. e 17 d.C.). Ele foi um escritor da Roma Antiga, discípulo de Alexandre, o Polímata e amigo de outro famoso filósofo Sêneca. Era natural da Península Ibérica, na Valência dos Edetanos e recebeu o pomposo epíteto de “Liberto de Augusto”, por seu humilde passado como escravo. Ele conseguiu alcançar altos postos, conquistando o respeito da intelectualidade de sua época. Chegou a ser o encarregado da biblioteca do Templo de Apolo, no monte Palatino, onde ensinou filosofia.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por Diogo Martins Alves.

Fabúlas

Índice

I. TEMISTO

Atamante, filho de Éolo, teve com sua esposa Nébula o filho Frixo e a filha Hele; e de Temisto, filha de Hipseu, dois filhos: Esfínquioe Orcômeno; e de Ino, filha de Cadmo, dois filhos: Learco e Melicerta. 2. Temisto, uma vez que Ino havia impedido seu casamento, intentou assassinar os filhos dela; assim, escondeu-se no palácio e, tendo encontrado a oportunidade, quando pensava ter assassinado os filhos da inimiga, matou os seus sem o saber, enganada por uma nutriz que tinha lançado a veste errada sobre eles. Revelada a situação, Temisto-se matou.

II. INO

Ino, filha de Cadmo e Harmônia,como desejava matar Frixo e Hele, filhos de Nébula, deu início a um plano junto com matronas de todo tipoe conspirou no sentido de que elas torrassem os grãos que dessem para a semeadura, a fim de que não nascessem. Dessa forma, quando os grãos estivessem estéreis e escassos, toda a cidade pereceria em parte pela fome, em parte por doença.2. Por esse motivo, Atamante enviou a Delfos um guarda, a quem Ino, antes, instruiu que trouxesse de volta uma falsa resposta, nos seguintes termos: se Atamante sacrificasse Frixo a Júpiter, a pestilência haveria de chegar ao fim. Como ele se negou a realizar o sacrifício, Frixo, de livre e espontânea vontade se compromete a, sozinho, livrar a cidade do sofrimento.3. Assim, com ele sendo conduzido com ínfulas ao altar,e seu pai se dispondo a fazer súplicas a Júpiter, o guarda, por misericórdia ao jovem, revelou a Atamante o plano de Ino.Conhecido o crime, o rei entregou a Frixo sua esposa Ino e Melicerta, o filho dela, para serem mortos. 4. Quando os conduzia ao sacrifício, o pai Líber lançou uma caligems obre ele e libertou sua nutriz Ino. Em seguida, Atamante, devido à loucura lançada por Juno,matou o filho Learco. 5. Ino, por sua vez, atirou-se ao mar junto com seu filho Melicerta.Líber quis nomeá-la “Leucótea”, ao passo que nós dizemos “Mãe Manhã”, e a Melicerta, ele chamou deus “Palémon”, e nós “Portuno”.Em homenagem a ele, a cada quinto ano celebram-se jogos ginásticos, que são chamados Ístmicos.

III. FRIXO

Quando Frixo e Hele, devido à loucura lançada por Líber, erravam por um bosque, dizemque lá chegou sua mãe, Nébula, trazendo o carneiro dourado, filho de Netuno e de Teófane, e ordenou a seus filhos que o montassem e atravessassem até a Cólquida, para junto do rei Eetes, filho do Sol,e que ali sacrificassem o carneiro para Marte. 2. Dizem que assim foi feito. Tendo ambos montado, quando o carneiro os conduzia pelo alto mar, Hele caiu do carneiro, e, por isso, o mar, na região em que caiu, foi nomeado Helesponto;a Frixo, entretanto, o carneiro conduziu até a Cólquida. Ali, seguindo as ordens da mãe, Frixo sacrificou o carneiro e depositou no templo de Marte o velo dourado. Este, que era protegido por uma serpente, dizem que Jasão, filho de Éson e de Alcímede,tinha vindo buscar.3. E Eetes, com prazer, acolheu Frixo e concedeu-lhe, como esposa, sua filha Calcíope. Esta, mais tarde, concebeu filhos do marido. Mas Eetes temeu que o banissem do reino, pois havia um presságio para ele, vindo expresso em forma de prodígios, recomendando-lhe que se precavesse de ser morto por um estrangeiro, descendente de Éolo.Dessa forma, ele assassinou Frixo.4. Mas os filhos deste, Argo, Frôntis, Melane e Cilindro embarcaram em uma jangada, em direção ao avô Atamante. Náufragos, Jasão, em sua busca pelo velo, resgatou-os da ilha de Diae os levou à mãe Calcíope. Por tal préstimo, ele ganhou o crédito de Medeia, irmã desta.

IV. INO DE EURÍPEDES

Atamante, rei na Tessália, pensando que sua esposa Ino, de quem dois filhos, tinha morrido, desposou Temisto, filha de uma ninfa; e dela teve dois filhos. 2. Depois disso, soube que Ino estava em Parnaso, e que ali tinha chegado tendo em vista as festas báquicas;enviou alguns homens para que a trouxessem a si; e, uma vez trazida, escondeu-a. 3. Temisto soube que uma moça havia sido encontrada, mas não sabia quem era. Passou a intencionar matar os filhos dela; tomou a própria Ino, que ela acreditava ser uma escrava, como cúmplice em seu intento,e disse a ela que cobrisse seus filhos com roupas brancas, e os filhos de Ino, com negras. 4. Ino cobriu os seus com as roupas brancas, e os de Temisto com as escuras; então Temisto, enganada, matou seus próprios filhos; quando soube disso, tirou a própria vida.5. Atamante, porém, tomado de loucura, assassinou seu filho mais velho, Learco, em uma caçada; mas Ino se lançou ao mar, junto com seu filho mais novo, Melicerta, e foi transformada em uma deusa.

V. ATAMANTE

Uma vez que Sêmele se deitou com Júpiter, Juno foi, por esse motivo, hostil a toda sua descendência. Assim, Atamante, filho de Éolo, tomado de loucura assassinou seu filho a flechadas durante uma caçada.

VI. CADMO

Cadmo, filho de Agenor e de Argíope, foi vítima da ira de Marte por ter matado o dragão guardião da fonte de Castália: uma vez aniquilada sua descendência, foi transformado em serpente na região de Ilíria, junto com sua esposa Harmônia, filha de Vênus e Marte.

VII. ANTÍOPE

Antíope, filha de Nicteu, foi violada por Épafo, que usou de um ardil, e, por isso, foi rechaçada por seu marido Lico. Tendo sido repudiada, Júpiter a tomouà força. 2. Lico, então, casou-se com Dirce, a quem veio a suspeita de que seu marido se deitava às escondidas com Antíope. Dessa forma, ordenou as criadas que a esta encerrassem, amarrada, em um lugar escuro. 3. Quanto a esta, na iminência de seu parto, escapou das amarras, e, com consentimento de Júpiter, partiu em direção ao monte Citéron. Estando prestes a dar à luz, e procurando um lugar onde parir, a dor a impeliu a parirem pleno cruzamento de duas vias. 4. Alguns pastores os criaram como se fossem seus, e lhes deram os nomes de Zeto, “o que busca um lugar”, e ao outro Anfíon, “o que nasceu em uma encruzilhada ou em duas vias”, quer dizer: já que ela os havia parido em um cruzamento. 5. Depois que reconheceram sua mãe, eles tiraram a vida de Dirce, tendo-a amarrado a um touro indômito. De seu corpo, no monte Citéron, nasceu uma fonte, que foi chamada Dirce em homenagem a Líber, pois ela fora uma bacante sua.

VIII. A MESMA DE EURÍPIDES, QUE ESCREVEU ÊNIO

De Nicteu, rei na Beócia, Antíope era filha; cativado por sua beleza, Júpiter a engravidou. 2. Como seu pai, desejando puni-la pela desonra, colocava-a em perigo, Antíope fugiu. Por acaso, no mesmo lugar a que ela chegou estava Épafo de Sícion. Ele, conduzindo a mulher a seu próprio lar, uniu-se a ela em casamento.3. Nicteu, que suportava isso com pesar, ao morrer roga solenemente ao seu irmão Lico, pedindo a ele (a quem, então, deixava o reino) que Antíope não ficasse impune; depois de sua morte, Lico chegou a Sícion. Assassinado Épafo, levou Antíope, amarrada, a Citéron; ela pariu e abandonou os gêmeos, que um pastor criou e nomeou como Zeto e Anfíon. 4. Antíope foi entregue a Dirce, esposa de Lico, para ser torturada; encontrando uma oportunidade, pôs-se em fuga e dirigiu-se a seus filhos. Um deles, Zeto, julgando tratar-se de uma fugitiva, não a acolheu. No mesmo lugar foi parar Dirce, em meio a uma celebração em homenagem a Líber que ali se dava. E se punha a levar Antíope, lá descoberta, para ser morta. 5. Mas, informados pelo pastor que os criara de que se tratava de sua mãe, os jovens rapidamente a seguiram, livraram a mãe e mataram Dirce, amarrando-a pelos cabelos a um touro. 6. Queriam matar Lico, mas Mercúrio os impediu, e ao mesmo tempo ordenou que Lico cedesse o reino a Anfíon.

IX. NÍOBE

Anfíon e Zeto, filhos de Júpiter e de Antíope (filha de Nicteu), por ordem de Apolo cercaram Tebas com uma muralha até o túmulo de Sêmele, enviaram ao exílio Laio, filho do rei Lábdaco, e passaram a reinar eles próprios ali. 2. Anfíon aceitou em matrimônio Níobe, filha de Tântalo e de Dione, de quem teve sete filhos e o mesmo número de filhas; tal parto, Níobe considerou ser mais importante que o de Latona, e falou com muita soberba contra Apolo e Diana (que esta se vestiria aos modos de um homem, e Apolo com longos vestido e cabelos) e também que ela mesma superava Latona em número de filhos. 3. Por esse motivo, Apolo matou filhos dela a flechadas, enquanto caçavam em uma floresta, e Diana a flechadas aniquilou as filhas no palácio, com exceção de Clóris. Mas se diz que a mãe, lastimando ter perdido os filhos, foi transformada em pedra no monte Sípilo, do qual, dizem, ainda hoje emanam suas lágrimas. 4. Anfíon, por sua vez, como desejava tomar o templo de Apolo, foi morto a flechadas por Apolo.

X. CLÓRIS

Clóris foi a única sobrevivente dentre os sete filhos de Níobe e Anfíon. Neleu, filho de Hipocoonte, tomou-a por esposa, de quem teve doze filhos homens. 2. Hércules, ao atacar Pilo, matou Neleu e dez dos filhos dele; no entanto, o décimo primeiro, Periclímeno, tendo obtido a aparência de uma águia graças a Netuno, escapou da morte. 3. E quanto ao décimo segundo, Nestor, que estava em Ílio, diz-se ter vivido por três séculos graças a Apolo; pois, os anos que tirara dos irmãos de Clóris, Apolo concedeu a Nestor.

XI. OS NIÓBIDAS

Lerta, Tântalo, Ismeno, Eupínito, Fédimo, Sípilo, Quíade, Clóris, Astigraça, Síboe, Sictótio, Eudoxa, Archenôr e Ogígia. Estes são os filhos e filhas de Níobe, esposa de Anfíon.

XII. PÉLIAS

Pélias, filho de Creteu e de Tiro, foi instruído por um oráculo a fazer um sacrifício a Netuno; e, caso um indivíduo monocrepis, isto é com apenas um pé calçado aparecesse inesperadamente, então sua morte estaria se aproximando. 2. Quando ele celebrava as festas anuais a Netuno, Jasão, filho de Éson, irmão de Pélias, desejando participar da cerimônia, perdeu um calçadoenquanto atravessava o rio Eveno; mas, a fim de chegar rapidamente à cerimônia, não se importou com o fato. 3. Atentando a isso, e recordando-se da instrução do oráculo, Pélias ordenou a ele que solicitasse a seu inimigo, o rei Eetes, o velo dourado do carneiro que Frixo sacrificara a Marte, na Cólquida. 4. Tendo ele convocado os líderesda Grécia, partiu para a Cólquida.

XIII. JUNO

Juno, disfarçada de anciã, permanecia na margem do rio Eveno a fim de testar a atitudedos homens, solicitando a eles que a atravessassem ao outro lado do rio; e, como ninguém queria fazê-lo, Jasão, filho de Éson e de Alcímede, conduziu-a na travessia. Ela, porém, irritada com Pélias por ele ter deixado de realizar um sacrifício em sua homenagem, fez com que Jasão perdesse uma sandáliana lama.

XIV. ARGONAUTAS CONVOCADOS

Jasão, filho de Éson e de Alcímede, filha de Clímeno, e general dos tessálios. Orfeu, filho de Eagro e da musa Calíope, um trácio, da cidade de Flévia, que fica no monte Olimpo próximo ao rio Enipeu, citarista adivinho. Astérion, filho de Piremo,sua mãe era Antígona, filha de Feres, da cidade de Pelene; outros o dizemfilho de Hiperaso, da cidade de Piresia, que fica à falda do monte Fileu, ficana Tessália, local onde dois rios, Apídano e Enipeu, de cursos separados, afluem em um único.2. Polifemo, filho de Elato e da mãe Hipeia, filha de Antipo, era um tessálio de pés lentos,da cidade de Larissa. Íficlo, filho de Fílaco e da mãe Clímene (filha de Mínias, da Tessália), tio materno de Jasão. Admeto, filho de Feres e da mãe Periclímene(filha de Mínias, da Tessália), do monte Calcedônio (de onde se originou o nome da cidadela e do rio): dizem que Apolo pastoreou seu rebanho. 3. Êurito e Equíon, filhos de Mercúrio e de Antianira, filha de Meneto,da cidade de Álope, que agora é chamada Éfeso;alguns autores os consideram tessálios. Etalides, filho de Mercúrio e de Eupolemia, filha de Mírmidon; este era de Larissa., da cidade de Gírton, que fica na Tessália. 4. Este , filho de Élato, era magnésio>,mostrou que não se podia ferir os centauros de modo algum com arma de ferro, mas sim com troncos de árvores talhados em forma de cunha. Alguns dizem que ele tinha sido uma mulher, mediante cujos rogos, Netuno, por conta do conúbio desejado, concedeu que fosse transformado em jovem que não poderia ser morto por golpe algum: o que nunca aconteceu, nem pode acontecer; mortal algum pode ser invunerável à morte por arma de ferro, nem ser convertido de mulher em homem.5. Mopso (filho de Âmpico e de Clóris): esse, instruído por Apolo na arte do augúrio, era de Ecália, ou como alguns pensavam, titarense. Eurídamas, filho de Iro e de Demonassa (outros o dizem filho de Ctímeno), que habitava a cidade dolopeide, muito próxima ao lago Xínio. Teseu, filho de Egeu e de Etra, filha de Piteu, da região de Trezena; ou, como outros dizem, da região de Atenas. 6. Pirítoo, filho de Íxion, irmão dos centauros, tessálio. Menécio, filho de Actor, opúncio. Eribotes, filho de Teleonte, de Eléon. 7. Euritião, filho de Iro e Demonassa. Ixítion, da região da cidade de Cerinto. Oileu, filho de Hodédoco e de Agriânome, filha de Perseu, da cidade de Nárico. 8. Clítio e Ífito, filhos de Êurito e de Antíope, filha de Pílon, reis da Ecália. Outros dizem que vêm de Eubeia. Este, a quem foi concedido, por Apolo, o conhecimento da arte das flechas, dizem ter competido com o autor do dom. Seu filho, Clítio, foi morto por Eetes. Peleu e Télamon, filhos de Éaco e de Endeis, filha de Quíron, da região da ilha de Egina. Tendo abandonado suas residências devido ao assassinato do irmão Foco, buscaram moradas em lugares distintos: Peleu em Ftia, Télamon em Salamina, que Apolônio de Rodas chama Átida.9. Butes, filho de Télen e de Zeuxipe, filha do rio Erídano, da região de Atenas. Falero, filho de Álcon, da região de Atenas. Tífis, filho de Forbase Hirmina, beócio; ele foi timoneiro da nau Argos. 10. Argo, filho de Pólibo e de Argia, outros o dizem filho de Dânao; este era argivo, de cabeça encoberta com negralanugem de pele de touro. Ele foi o construtor da nau Argos. Fliaso, filho do pai Líber e de Ariadne, filha de Minos, da cidade de Fliunte, que fica no Peloponeso, outros dizem que era tebano. Hércules, filho de Júpiter e de Alcmena, filha de Eléctrion, tebano. 11. Hilas, filho de Teódamas e da ninfa Menódice, filha de Oríon, efebo, da Ecália, outros o dizem de Argos, companheiro de Hércules. Náuplio, filho de Netuno e de Amimone, filha de Dánao, argivo. Ídmon, filho de Apolo e da ninfa Cirene, alguns o dizem filho de Abante, argivo. Este, experiente em augúrio, embora tenha percebido nos presságios das aves que sua morte lhe era anunciada, não faltou, entretanto, à fatal expedição. 12. Castor e Pólux, filhos de Júpiter e de Leda, filha de Téstio, lacedemônios, ou espartanos, como outros dizem, ambos imberbes; escreve-setambém que a ambos, ao mesmo tempo, estrelas apareceram em suas cabeças, para que pudessem ser vistos.Linceu e Idas, filhos de Afareu e de Arena, filha de Ébalo, messênios do Peloponeso. Dizem que por um deles, Linceu, coisas ocultas debaixo da terra podiam ser vistas, e ele não era impedido nem por uma caligem. 13. Outros dizem que Linceu não era visto por ninguém à noite. Ele mesmo, como se disse, era acostumado a ver claramente debaixo da terra e, por isso, identificava as minas de ouro. Como ele descia e, súbito, mostrava o ouro, assim passou a correr um rumor de que ele enxergava debaixo da terra. Da mesma forma Idas, (passava por)violento, feroz. 14. Periclímeno, filho de Neleu e de Clóris, filha de Anfíon e Níobe; este era pílio. Anfídamas e Cefeu, filhos de Áleo e de Cleobula, da Arcádia. Anceu, filho de Licurgo, (outros o dizem neto), tegeata. 15. Augeu, filho de Sol e de Nausídame,filha de Anfídamas; este era eleu. Astérion e Anfíon, filhos de Hiperaso (outros dizem de Hípaso), de Pelene. Eufemo, filho de Netuno e de Europa, filha de Titio, tenário; dizem que esse corria sobre as águas com os pés secos. 16. Um outro Anceu, filho de Netuno, de mãe Alteia, filha de Téstio, da região da ilha Ímbraso(que foi chamada Partênia, porém agora dizem Samos). Ergino, filho de Netuno, da região de Mileto, alguns o dizem filho de Periclímeno, orcômeno.Meleagro, filho de Eneu e de Alteia, filha de Téstio, alguns o consideram filho de Marte, calidônio. 17. Laocoonte, filho de Portáon, irmão de Eneu, calidônio. Um outro Íficlo, filho de Téstio, de mãe Leucipe, irmão de Alteia por parte de mãe; esse era forte corredor e lançador de dardos. Ífito, filho de Náubolo, focence; outros dizem que era filho de Hípaso, do Peloponeso. 18. Zeto e Cálais, filhos do vento Aquilão e de Oritia, filha de Erecteu; esses, dizem, tinham a cabeça e os pés cobertos de penas, os cabelos azulados, que abriam caminho através do ar. Esses afugentaram para longe de Fineu, filho de Agenor, as três aves Harpias, filhas de Taumante e Ozómene: Aelópoda, Celeno, Ocípete, quando os companheiros de Jasão se dirigiam à região da Cólquida. Elas habitavam as ilhas Estrófades, no mar Egeu, que são denominadas Plotas. Elas, dizem, tinham cabeça de ave, cobertas de penas, asas e também braços humanos, enormes garras, pés de ave, o peito alvo e coxashumanas. Porém eles, Zeto e Cálais, foram mortos a dardos por Hércules; sobre seus túmulos as lápides superpostas se movem com o sopro paterno. Dizem, contudo, que eles eram da Trácia. 19. Foco e Príaso, filhos de Ceneu, de Magnésia. Eurimedonte, filho do pai Líber e de Ariadne, filha de Minos, da região de Fliunte. Palémon, filho de Lerno, calidônio. 20. Actor, filho de Hípaso, do Peloponeso. Tersânor, filho do Sol e de Leucótoe, de Andro. Hipálcimo, filho de Pélope e Hipódame, filha de Enómao, do Peloponeso, na região de Pisa. 21. Asclépio, filho de Apolo e de Corónis, da região de Trica filha de Téstio, argivo. Neleu, filho de Hipocoonte, pílio. 22. Iolau, filho de Íficlo, argivo. Deucalião, filho de Minos Pasífae, filha do Sol, de Creta. Filoctetes, filho de Peante, da região de Melibéia. 23. Um outro Ceneu, filho de Coroneu, de Gortina. Acasto, filho de Pélias e de Anaxíbia, filha de Bias, de Iolco, coberto com duplo pálio. Ele se juntou voluntariamente aos argonautas, foi companheiro de Jasão por vontade própria. 24. Entretanto, todos eles foram chamados Mínias, ou porque as filhas de Mínias geraram muitos deles, ou porque a mãe de Jasão era filha de Clímene, de Mínias.Mas, nem todos chegaram à Cólquida, nem regressaram à pátria.25. Pois Hilas foi raptado em Mésia pelas ninfas, próximo à Cio e ao rio Ascânio, e quando Hércules e Polifemo o buscavam, tendo a nau sido arrastada por um vento, foram abandonados. Também abandonado por Hércules, Polifemo, tendo fundado uma cidade em Mésia, pereceu entre os cálibes. 26. Tífis, por sua vez, foi consumido por uma enfermidade entre os mariandinos, na Propantida, na casa do rei Lico; em seu lugar, Anceu, filho de Netuno, conduziu a nau até a Cólquida. Mas lá, na casa de Lico, Ídmon, filho de Apolo, quando saiu para colher feno, caiu ferido por um javali; o vingador de Ídmon foi Idas, filho de Afareu, que matou o javali. 27. Butes, filho de Teleonte, embora costumasse ser distraído com o canto e a cítara de Orfeu, foi, no entanto, vencido pela doçura das sereias, e atirou-se ao mar para nadar até elas; levado pelas ondas, Vênus o salvou em Lilibeu.28. Esses são os que não chegaram à Cólquida; no entanto, durante a volta pereceram Euríbates, filho de Teleonte, e Canto, filho de Cerinto; foram mortos na Líbia pelo pastor Cefálion, irmão de Nasamão, filho da ninfa Tritônia e de Anfítemis, cujo gado eles haviam atacado com bastão.29. Mopso, por sua vez, filho de Âmpico, morreu na África com a mordida de uma serpente. Ele, contudo, tinha se juntado aos Argonautas durante a jornada, como companheiro, tendo morrido seu pai Âmpico. 30. Assim, chegaram da ilha de Dias os filhos de Frixo e Calcíope, irmã de Medeia: Argo, Melane, Frôntis, Cilindro (que outros dizem Frônio), Demoleonte, Autólico e Flógio.Quanto aos últimos, tendo Hércules os levado para tê-los como seus companheiros durante sua busca do boldrié das Amazonas, abandonou-os, abalados de terror por causa de Dáscilo, filho de Lico, rei dos mariandinos. 31. Porém, tendo partido em direção à Cólquida, eles desejaram tornar Hércules comandante; este recusou, pois era conveniente que fosse Jasão, cujo trabalho possibilitou que todos partissem; e, assim, Jasão governou na qualidade de comandante. 32. O artífice foiArgo, filho de Dânao; (após sua morte conduziu a nau Ceneu, filho de Netuno). Como vigia à proa navegou Linceu, filho de Afareu, que enxergava muito bem; os chefes dos remadores foram Zeto e Cálais, filhos de Áquilo, que tinham asas nas cabeças e nos pés; à proa e junto aos remos sentaram Peleu e Télamon;junto aos grandes remos sentaram Hércules e Idas; os demais guardaram seu posto; o canto dos remadores, quem deu foi Orfeu, filho de Eagro. Depois, quando Hércules foi abandonado , assumiu seu posto Peleu, filho de Éaco. 33. Essa é a nau Argo,que Minerva converteu em constelação, uma vez que havia sido construída em sua homenagem, e ter sido a primeira nau a ser conduzida ao mar, e aparece nos astros desde o timão até a vela; e numa forma que Cícero relata nos Fenômenos, nestes versos:Mas em direção à cauda do Cão, serpenteando, resvala Argo, voltada para si, ela transporta sua popa iluminada; não como costumavam outras naus lançar no alto mar a proa, com seus esporões sulcando os prados de Netuno; assim como quando começam a atingir os portos seguros, voltam a nau com grande peso os nautas, e movem a popa, oposta, até a margem desejada; assim, virada, a velha Argo desliza sobre o éter… donde estendendo o timão sobre a popa voante, toca as patas traseiras do luminoso Cão. Essa nau tem quatro estrelas na popa, cinco no timão direito, quatro no esquerdo, semelhantes entre si; treze no total.

XV. AS LEMNÍADAS

Na ilha de Lemnos, as mulheres haviam deixado de realizar por alguns anos sacrifícios a Vênus, e devido à ira desta,seus maridos tomaram por esposas mulheres da Trácia e rejeitaram as primeiras. Mas as Lemníadas, tendo conspirado por incitação da própria Vênus, assassinaram toda a estirpede homens que ali havia, com exceção de Hipsípile, que, secretamente, escondeu seu pai, Toante, em uma nau, que uma tempestade levou até a ilha Táurica. 2. Nesse ínterim, os argonautas, navegando pelas proximidades, abordaram Lemnos. Quando os viu, Ifínoe, guardiã do portão, comunicou-o à rainha Hipsípile, a quem Polixo, mulher de idade avançada, aconselhou a criar com eles vínculos sagrados de hospitalidade. 3. Hipsípile teve dois filhos com Jasão: Euneu e Deípilo. 4. Como ficaram retidos ali por muitos dias, censurados por Hércules, partiram. 5. Mas as Lemníadas, após saberem que Hipsípile havia salvado seu próprio pai, intentaram assassiná-la; ela pôs-se em fuga. Piratas, tendo-a capturado, levaram-na a Tebas e a venderam como escrava ao rei Lico. 6. Por sua vez, todas as Lemníadas que conceberam filhos dos argonautas colocaram os nomes destes em seus filhos.

XVI. CÍZICO

Cízico, filho de Eusoro e rei em uma ilha da Propôntide, recebeu os argonautas em generosa hospitalidade.Estes, tendo se afastado dele e navegado por um dia inteiro, durante uma tempestade à noite foram, sem o saber, levados à mesma ilha. 2. Cízico, acreditando que fossem inimigos pelasgos, travou com eles um combate noturno no litoral, e foi assassinado por Jasão. Este, no dia seguinte, ao aproximar-se do litoral e ver que havia assassinado o rei, deu-lhe sepultura e entregou o reino aos filhos dele.

XVII. ÂMICO

Âmico, filho de Netuno e de Mélia e rei da Bebrícia. Quem chegava a seu reino era obrigado a lutar contra ele com luvas de pugilato,e, aos que eram vencidos, destruía. Quando desafiou os argonautas à tal pugilato, Pólux lutou contra ele e o matou.

XVIII. LICO

Lico, rei em uma ilha da Propôntide, recebeu os argonautas com honrosa hospitalidade, em agradecimento ao fato de que eles haviam assassinado Âmico, que o repudiava com frequência. Durante o período em que moravam junto a Lico, tendo os argonautas saído para colher palha, Ídmon, filho de Apolo, pereceu ferido por um javali. Durante o longo tempo em que demoravam para dar-lhe sepultura, morreu Tífis, filho de Forbas. Os argonautas, então, passaram o comando da nave Argo a Anceu, filho de Netuno.

XIX. FINEU

Fineu, trácio, filho de Agenor, teve com Cleópatra dois filhos. Estes, devido a uma acusação da madrasta, foram cegados pelo pai. 2. Diz-se também que Apolo concedeu ao mesmo Fineu o dom da adivinhação. Por ter revelado os desígnios dos deuses, ele foi cegado por Júpiter, que colocou ao seu lado as Harpias (que, dizem, são as cadelas de Júpiter), para que elas tirassem o alimento de sua boca. 3. Quando os argonautas ali chegaram e a ele pediram que lhes indicasse o caminho, ele disse que o indicaria caso o livrassem de seu castigo. Então Zetes e Cálais, filhos do vento Aquilão e de Oritia e que tinham, dizem, asasna cabeça e nos pés, afugentaram as Harpias para as ilhas Estrófades e liberaram Fineu de seu castigo. 4. A eles, ele mostrou de que modo atravessariam pelas Simplégades, a saber, soltando uma pomba: logo após as rochas se aproximarem, mediante o afastamento delas , eles deveriam recuar.Graças a Fineu, os argonautas atravessaram pelas Simplégades.

XX. AS ESTINFÁLIDES

Quando os argonautas chegaram à ilha Dia, aves começaram a atacá-los com suas penas, usando-as como se fossem flechas. Como não podiam resistir à multidão de aves, seguindo o conselho de Fineu lançaram mão de seus escudos e lanças , ao modo dos Curetes, afugentaram-nas por meio de um estrondo.

XXI. OS FILHOS DE FRIXO

Depois que os argonautas, passando por entre os rochedos de Cíane (que são chamados rochas Simplégades), adentraram o mar chamado Euxino e seguiam à deriva, foram levados à ilha de Dia por vontade de Juno. 2. Lá encontraram náufragos, despidos e desamparados,os filhos de Frixo e Calcíope: Argos, Frôntis, Melane e Cilindro. Estes expuseram a Jasão seus infortúnios: enquanto se apressavam ao encontro do avô Atamante, tendo naufragado, foram ali lançados. Jasão os acolheu e lhes dispensou ajuda. Eles conduziram Jasão até a Cólquida pelo rio Termodonte. 3. E quando já não estavam longe da Cólquida, ordenaram que a nau fosse colocada em um lugar escondido, vieram ao encontro de sua mãe Calcíope, irmã de Medeia, e contaram a ela os favores de Jasão e o motivo por que ele viera. Então Calcíope conta sobre Medeia e a conduz, junto aos seus filhos, à presença de Jasão. 4. Quando ela o viu, reconheceu aquele por quem, instigada por Juno, se apaixonara em sonhos; prometeu a ele tudo, e eles o conduziram ao templo.

XXII. EETES

Um oráculo havia previsto que Eetes, filho do Sol, ocuparia o trono por tanto tempo quanto o velo que Frixo havia consagrado permanecesse no templo de Marte. 2. E assim Eetes impôs a Jasão a seguinte prova: se desejasse levar o velo dourado, ele deveria jungir, com um jugo de aço, touros cujos pés eram de bronze e que exalavam chamas pelas narinas; bem como arar e semear os dentes de dragão contidos em um elmo,dos quais nasceria imediatamente uma raça de homens armados, que se matariam reciprocamente. 3. Juno, por sua vez, sempre desejou que Jasão fosse protegido, pelo fato de que, tendo chegado à margem de um rio desejando testar a atitude dos homens, assumiu a aparência de uma anciã e solicitou a eles que a atravessassem à outra margem. Como os demais que ali passavam a desprezassem, ele a conduziu na travessia. 4. E assim, quando soube que Jasão não conseguiria cumprir o que lhe fora ordenado sem a ajuda de Medeia, solicitou a Vênus que incutisse o amor em Medeia. Por incitação de Vênus, Jasão foi amado por Medeia. Por obra dela, ele se viu livre de todos os perigos. Com efeito, depois de ter arado o solo com os touros e de terem nascido os homens armados, por conselho de Medeia lançou entre eles uma pedra. Estes, lutando entre si, mataram uns aos outros. Por sua vez, tendo entorpecido o dragão por meio de uma poção mágica, ele roubou o velo do templo e partiu com Medeia em direção a sua pátria.

XXIII. ABSIRTO

Quando soube que Medeia havia fugido com Jasão, Eetes, tendo preparado uma nau, enviou seu filho Absirto, junto com guardas armados, para que a perseguisse. Como ele a perseguiu pelo mar Adriático, na Ístria, até o reino de Alcínoo, e intentava combater recorrendo a armas, Alcínoo se colocou entre eles a fim de que não guerreassem. Eles o tomaram por juiz, que adiou seu casopara o dia seguinte. 2. Estando Alcínoo extremamente triste e tendo sido questionado por sua esposa Arete quanto ao motivo de sua infelicidade, disse a ela que lhe havia sido atribuída a função de juiz por dois povos distintos, colcos e argivos. Quando Arete o interrogou sobre qual decisão tomaria, Alcínoo respondeu que, caso Medeia ainda fosse virgem, iria entregá-la ao seu pai; caso fosse já mulher, ao marido. 3. Ao ouvir isso de seu marido, Arete enviou um mensageiro até Jasão, e ele desvirginou Medeia, à noite, em uma caverna. No dia seguinte, quando vieram ao julgamento e foi revelado que Medeia já era mulher, ela foi entregue ao marido. 4. No entanto, depois que eles partiram, Absirto, temente às ordens de seu pai, perseguiu-os até a ilha de Minerva. Ali, enquanto Jasão fazia sacrifícios em homenagem a Minerva, interveio Absirto, que foi assassinado por Jasão. Medeia deu sepultura a seu corpo, e em seguida eles partiram dali. 5. Os colcos, que haviam vindo junto com Absirto, temendo Eetes, ali permaneceram e fundaram uma cidade que, a partir do nome de Absirto, denominaram Absores. E esta ilha, por sua vez, está localizada na Ístria, em frente à Póla, próxima à ilha Canta.

XXIV. JASÃO: AS PELÍADES

Jasão, depois de ter enfrentado tantos perigos por ordem de seu tio paterno Pélias, passou a cogitar de que forma o assassinaria sem levantar suspeita. Medeia prometeu que o faria. 2. E assim, quando já estavam longe da Cólquida, ela ordenou que a nau fosse colocada em um lugar escondido, e ela mesma, fingindo ser uma sacerdotisa de Diana, foi ao encontro das filhas de Pélias. Prometeu-lhes que faria de seu velho pai Pélias um jovem, mas a filha mais velha, Alcestis, negou que fosse possível fazer isso. 3. Medeia, a fim de a induzir mais facilmente ao que intentava, lançou uma caligem sobre elas e, através de feitiços, realizou muitos prodígios que pareciam ser verdadeiros: lançou um carneiro velho em um caldeirão de bronze, de onde foi visto sair saltando um cordeiro belíssimo. 4. Do mesmo modo as pelíades, isto é Alcestis, Pelópia, Medusa, Pisídice e Hipótoe, por incitação de Medeia, cozinharam seu pai, morto, no caldeirão de bronze. Quando perceberam que haviam sido enganadas, fugiram da pátria. 5. E Jasão, ao sinal de Medeia, tomou o reino e entregou o trono paterno a Acasto, filho de Pélias e irmão das pelíades, que o acompanhara à Cólquida, e partiu com Medeia em direção a Corinto.

XXV. MEDEIA

Depois de Medeia, filha de Eetes e de Idia, ter tido com Jasão dois filhos, Mérmero e Feres, e de viverem em suma harmonia, pesavasobre ele o fato de que um homem tão forte, assim como formoso e nobre, tivesse por esposa uma estrangeira e feiticeira. 2. Creonte, filho de Menécio e rei de Corinto, concedeu-lhe como esposa sua filha mais nova, Glauce. Quando, a despeito de todo bem que tinha feito a Jasão,se viu afetada por tamanha afronta, Medeia preparou um coroa de ouro envenenada e ordenou aos seus filhos que a entregassem como um presente a sua madrasta. 3. Creúsa, uma vez aceito o presente, consumiu-se em chamas junto com Jasão e Creonte. Medeia, quando viu que o reino ardia em chamas, assassinou Mérmero e Feres, os próprios filhos que concebera de Jasão, e fugiu de Corinto.

XXVI. MEDEIA EXILADA

Medeia, exilada de Corinto, chegou a Atenas, sendo acolhida como hóspede de Egeu, filho de Pandíon, e com ele se casou. Teve com ele um filho, Medo. 2. Mais tarde, uma sacerdotisa de Diana passou a perseguir Medeia, e afirmava ao rei que não poderia realizar cerimônias religiosas sem mácula porque havia na cidade uma mulher feiticeira e criminosa. E então ela foi desterrada pela segunda vez. 3. Medeia, então, retornou de Atenas à Cólquida em um carro atrelado a dragões. Durante o trajeto chegou a Absores, onde estava sepultado seu irmão Absirto. Ali, os absoritanos não conseguiam combater um grande número de serpentes. E então Medeia, solicitada por eles, reuniu-as e as lançou no túmulo de seu irmão. Elas ainda permanecem ali, e caso alguma venha a sair do túmulo, paga sua dívida com a natureza.

XXVII. MEDO

Perses, filho do sol e irmão de Eetes, foi instruído por um oráculo a tomar cuidado para que um descendente de Eetes não fosse agente de sua morte. Medo, enquanto ia no encalço de sua mãe, foi levado até ele devido a uma tempestade; uma vez preso, os guardas o conduziram ao rei Perses. 2. Medo, filho de Egeu e de Medeia, ao ver que estava em poder de um inimigo, mentiu dizendo que era Hippota, filho de Creonte. O rei procurou se informar com maior diligência e ordenou que o lançassem na prisão. Diz-se que por lá havia privação e escassez de alimentos. 3. Tendo chegado ali Medeia, em um carro atrelado a dragões, ao rei fingiu ser uma sacerdotisa de Diana e lhe disse que poderia aplacar a privação. E, quando ouviu do rei que Hippota, filho de Creonte, estava preso, pensando que ele teria vindo para vingar a injúria contra seu pai, ali ela revela a identidade do próprio filho sem o saber. 4. Com efeito, ela persuadiu o rei de que aquele não era Hippota, mas Medo, filho de Egeu, enviado pela mãe para que assassinasse o rei, e solicitou a ele que o entregasse para que ela própria o assassinasse, pensando se tratar de Hippota. 5. Assim, quando Medo foi conduzido até ela, para que a mentira fosse punida com a morte, ela viu que situação era diferente do que pensara: disse que desejava conversar com ele, entregou-lhe uma espada e ordenou a ele que vingasse as injúrias contra seu avô. Medo, tendo ouvido tais palavras, assassinou Perses e assumiu o trono de seu avô. A partir de seu nome, a região foi denominada Media.

XXVIII. OTO E EFIALTES

Dizem que Oto e Efialtes, filhos de Aloeu e de Ifimedia (filha de Netuno), tinham um admirável porte. Cada um deles crescia nove polegadaspor mês. E assim, quando tinham nove anos, tentaram subir ao céu. 2. Buscaram o acesso da seguinte maneira: colocaram o monte Ossa sobre o Pélio (donde o monte Pélio ser chamado também de Ossa), e empilharam outros montes. Foram encontrados por Apolo e assassinados. 3. No entanto, outros autores dizem que, sendo filhos de Netuno e Ifimedia, eram invulneráveis. Como intentaram violar Diana, que não poderia resistir à força deles, Apolo enviou uma cerva entre eles; inflamados de furor, enquanto intentavam matá-la com dardos, mataram um ao outro. 4. Dizem que eles sofrem um castigo nas regiões infernais: de costas um para o outro, estão presos a uma coluna, amarrados por serpentes. Há entre eles uma coruja, pousada na coluna em que estão presos.

XXIX. ALCMENA

Quando Anfitrião partiu para lutar na Ecália, Alcmena, acreditando que fosse seu marido, recebeu Júpiter em seu leito. Quando este chegou ao leito e relatou a ela suas façanhas na Ecália, ela, acreditando se tratar de seu marido, deitou-se com ele. 2. Júpiter, tamanho o prazer de estar com ela, suprimiu um dia, unindo duas noites, de modo que Alcmena ficou admirada com uma noite tão longa. Depois disso, quando lhe anunciaram que seu marido chegara vitorioso, ela não deu a menor atenção, pois pensava que já havia se encontrado com seu marido. 3. Quando Anfitrião, tendo entrado no palácio e a vendo muito indiferente, impassiva, passou a estranhar e a questionar porque ela não o acolhia, uma vez que ele havia chegado. A ele, Alcmena respondeu: “já chegaste há muito tempo, deitaste comigo e me contaste as tuas façanhas na Ecália”.4. Tendo ela dado a ele todos os indícios, Anfitrião percebeu que alguma divindade havia se passado por ele, e a partir desse dia não mais se deitou com ela. Dessa relação com Júpiter, ela deu à luz Hércules.

XXX. OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES IMPOSTOS POR EURISTEU

Quando era um bebê, matou com suas duas mãos duas serpentes, as quais Juno havia enviado; por isso, ele foi chamado “primogênito”. 2. Matou o leão de Némea, invulnerável, que a Lua criaraem uma caverna de duas entradas, e usou sua pele para se cobrir. 3. A Hidra de Lerna, filha de Tífon, com suas nove cabeças, ele exterminou perto da fonte de Lerna. Tamanho era seu veneno que matava um homem com seu sopro, e, caso alguém passasse por ela enquanto dormia, ela soprava sobre seu rastro, e a pessoa morria com imenso sofrimento. Seguindo a indicação de Minerva, matou-a, estripou-ae impregnou suas flechas com seu veneno. Depois disso, nada que sua flecha tocasse escapava da morte. Ele próprio, tempos depois, veio a perecer na Frígia por isso. 4. Matou o javali de Erimanto. 5. Levou da Arcádia até a presença do rei Euristeu um cervo feroz, vivo, cujos chifres eram de ouro. 6. Matou a flechadas na ilha de Marte as aves Estinfálides, que lançavam suas penas como se fossem dardos. 7. Limpou em apenas um dia o esterco do gado de Egeu, tendo Júpiter como ajudante em grande parte. Lançando um rio, lavou todo o esterco. 8. Levou da ilha de Creta a Mecenas, vivo, o touro com o qual Pasífae se deitou. 9. Com a ajuda do escravo Abdero, assassinou Diomedes, rei da Trácia, e seus quatro cavalos que se alimentavam de carne humana. Os nomes dos cavalos eram: Pordago, Lâmpon, Xanto e Dino. 10. Arrebatou o cinturão da amazona Hipólita, rainha das amazonas e filha de Marte e da rainha Otrere. Então, presenteou Antíope como cativa a Teseu.11. Matou com apenas uma flecha Gêrion, de três corpos, filho de Crisaor. 12. Matou no monte Atlas a terrível serpentefilha de Tífon, que costumava proteger as maçãs douradas das Hespérides, e levou as maçãs ao rei Euristeu. 13. Levou o cão Cérbero, filho de Tífon, das regiões infernais até a presença do rei.

XXXI. OS DEMAIS TRABALHOS DO MESMO

Na Líbia, matou Anteu, filho da Terra. Este obrigava seus hóspedes a lutar contra ele e, uma vez fadigados, assassinava-os. Matou-o lutando. 2. No Egito assassinou Busíris, que costumava sacrificar seus hóspedes. Tendo ouvido falar sobre suas leis, deixou-se conduzir adornado com as ínfulas até o altar. No entanto, quando Busíris intentou sacrificá-lo aos deuses, Hércules, com um bastão, assassinou a ele e aos sacerdotes da cerimônia. 3. Matou Cicno, filho de Marte, vencendo-o num combate armado. Quando Marte chegou e, para vingar seu filho, intentou combater contra ele com armas, Júpiter enviou um raio entre eles. E, assim, apartou-os. 4. Em Tróia, matou o monstro marinhoa quem Hesíone havia sido oferecida. Assassinou a flechadas Laomedonte, pai de Hesíone, porque não a entregava a ele como recompensa. 5. Matou a flechadas a águia Éton, que devorava o coração de Prometeu. 6. Assassinou Lico, filho de Netuno, pois ele intentou matar sua esposa Mégara, filha de Creonte, e seus filhos Terímaco e Ofites. 7. O rio Aquelôo podia assumir qualquer forma. Quando lutou contra Hércules pelo matrimônio com Dejanira, converteu-se em um touro, do qual Hércules arrancou um chifre e presenteou as Hespérides ou Ninfas com o chifre, que as deusas preencheram com frutos e o denominaram “cornucópia”. 8. Matou Neleu, filho de Hipocoonte, com seus dez filhos, porque ele se recusou a expurgá-lo, isto é purificá-lo depois de ter assassinado sua esposa Mégara, filha de Creonte, e seus filhos Terímaco e Ofites. 9. Matou Êurito, pois, ao pedir em matrimônio sua filha Íole, ele o repudiou. 10. Matou o centauro Nesso, pois ele intentou violar Dejanira. 11. Matou o centauro Euritião, pois ele pediu em casamento sua prometida, Dejanira, filha de Dexâmeno.

XXXII. MÉGARA

Quando Hércules foi enviado pelo rei Euristeu ao cão de três cabeças, e Lico, filho de Netuno, pensando que ele tivesse morrido, intentou assassinar sua esposa Mégara, filha de Creonte, bem como seus filhos Terímaco e Ofites, e ocupar o trono. 2. Nesse ínterim, Hércules lá chegou e assassinou Lico. Em seguida, devido à loucura lançada por Juno, assassinou Mégara e os seus filhos Terímaco e Ofites. 3. Quando voltou a si,solicitou a Apolo que lhe desse uma solução sobre como poderia se purificar do crime. Como Apolo negou dar-lhe uma resposta, Hércules, irado, roubou de seu templo a trípode. Mais tarde, devolveu-o por ordem de Júpiter, que ordenou o outro, que se recusava, a dar a resposta. 4. Por esse motivo, Hércules foi entregue por Mercúrio à rainha Ônfale, como escravo.

XXXIII. OS CENTAUROS

Quando Hércules chegou como hóspedeao reino de Dexâmeno, tendo desvirginado Dejanira, filha deste, deu a ele sua palavra de que a tomaria por esposa. Depois de sua partida, o centauro Euritião, filho de Íxion e de Nuvem, pediu Dejanira como esposa. O pai dela, temendo sua violência, prometeu-lhe entregá-la. 2. Na data marcada, compareceu à cerimônia de casamento com seus irmãos. Hércules interveio, assassinou o centauro e casou-se com sua prometida. 3. Do mesmo modo, em outra cerimônia de casamento, quando Pirítoo tomava por esposa Hipódame, filha de Adrasto, os centauros, embriagados de vinho, ameaçaram raptar as esposas dos lápitas. Os centauros assassinaram muitos, mas pereceram pelas mãos daqueles.

XXXIV. NESSO

Ao centauro Nesso, filho de Íxion e Nuvem, Dejanira pediu que a levasse até a outra margem do rio Eveno. Ele intentou violá-la dentro do próprio rio enquanto a transportava. Hércules, tendo ali surgido, e Dejanira implorado por sua ajuda, transpassou Nesso com suas flechas. 2. Enquanto morria, sabendo o quão poderoso era o veneno das flechas banhadas no veneno da Hidra de Lerna, entregou uma amostra de seu próprio sangue a Dejanira e disse se tratar de uma poção de amor, com o qual deveria banhar a veste do esposo, caso ela não quisesse ser por ele desprezada. Acreditando nisso, Dejanira o escondeu e guardou diligentemente.

XXXV. ÍOLE

Como Hércules havia pedido em casamento Íole, a filha de Êurito, e este o teria rejeitado,ele atacou Ecália. Emboraa virgem lhe implorasse, ele começou a assassinar os pais da moça em sua presença. Ela, de ânimo extremamente pertinaz, suportou os pais serem mortos diante de si.Tendo assassinado a todos, ele enviou Íole, cativa, até Dejanira.

XXXVI. DEJANIRA

Quando Dejanira, filha de Eneu e esposa de Hércules, viu que Íole, moça de notável beleza, vinha conduzida como escrava, temeu que esta lhe tomasse o esposo. E assim, recordando-se dos conselhos de Nesso, mandou um escravo chamado Licas levar a Hércules uma veste impregnada com o sangue do centauro. 2. Em seguida, uma pequena parte, que caiu na terra e o sol atingiu, começou a queimar. Quando Dejanira viu isso, percebeu que a situação era muito diferente do que lhe havia dito Nesso, e enviou alguém para fazer voltar aquele a quem ela tinha entregue a veste. 3. Hércules já havia se coberto, e imediatamente começou a queimar. E quando se jogou em um rio para apagar as chamas, surgiu uma chama ainda maior. Ao intentar, por sua vez, arrancar a veste, juntamente saíam suas vísceras. 4. Hércules, então, rodopiando Licas, que havia lhe trazido a veste, lançou-o ao mar. No lugar onde ele caiu surgiu um rochedo, que é chamado Licas. 5. Diz-se, então, que Filoctetes, filho de Peante, ergueu no monte Eta uma pira em homenagem a Hércules, que atingiu a imortalidade.Por esse tributo Hércules presenteou Filoctetes com seu arco e suas flechas. 6. Dejanira, por sua vez, diante do que ocorreu a Hércules, matou a si própria.

XXXVII. ETRA

Netuno e Egeu, filho de Pandíon, em uma mesma noite se deitaram com Etra, filha de Piteu, no templo de Minerva. Netuno concedeu a Egeu o filho que teve com ela. 2. Egeu, por sua vez, depois de retornar a Atenas, vindo de Trezena, depositou sua espada sob uma pedra, e instruiu Etra a enviar-lhe o filho quando este fosse capaz de levantar a pedra e retirar a espada do pai. Esse seria o indício de reconhecimento de seu filho. 3. E assim Etra, mais tarde, deu à luz Teseu. Quando ele atingiu a puberdade, sua mãe o informa sobre as intruções de Egeu, indica a pedra para que ele retirasse a espada, e lhe ordena que partisse para junto de Egeu em Atenas. Ele matou todos os que infestavamseu caminho.

XXXVIII. OS TRABALHOS DE TESEU

Matou Corinetes, filho de Netuno, em combate armado. 2. Assassinou Pitiocampta, que obrigava os que cruzavam seu caminho a flexionar, junto com ele, um pinheiro até o chão. Desse modo, segurando a árvore junto com o viajante, impulsionava-a com força de volta, com o que o outro era arremessado, e, ao bater gravemente contra o chão, perecia.3. Matou Procrustes, filho de Netuno. Quando chegava um hóspede em sua casa, se fosse alto, oferecia-lhe um leito menor, e cortava a parte do corpo que sobrava; porém, caso fosse de baixa estatura, dava-lhe um leito mais comprido, e com bigornas presas aos seus pés, esticava-o até que seu tamanho se igualasse ao do leito. 4. Cirão, que ficava sentado em um local íngreme próximo ao mar, obrigava os que passavam por ali a lavar seus pés; dessa forma, jogava-os no mar. Teseu lhe impingiu uma morte parecida: lançou-o ao mar, donde as rochas passaram a ser chamadas Cironides. 5. Matou em combate armado Cércion, filho de Vulcano. 6. Matou o javali que havia em Cremnos. 7. Matou o touro que estava em Maratona, levado por Hércules de Creta a Euristeu. 8. Matou o minotauro na cidade de Cnosso.

XXXIX. DÉDALO

Dédalo, filho de Eupálamo, que, diz-se, recebeu de Minerva o dom das artes fabris, lançou do alto de um telhado Perdiz, filho de sua irmã, por invejar sua habilidade, uma vez que este havia inventado primeiro a serra. Por esse crime, partiu exilado de Atenas a Creta, para junto do rei Minos.

XL. PASÍFAE

Pasífae, filha do Sol e esposa de Minos, havia deixado de realizar por alguns anos sacrifícios à deusa Vênus. Por esse motivo, Vênus lançou sobre ela um amor nefando: amaria, sob outra forma, o touro que ela mesma já amava.2. Quando Dédalo chegou ali, exilado, solicitou sua ajuda. Para ela, construiu uma vaca de madeira e revestiu com o couro de uma vaca de verdade; dentro dela, Pasífae copulou com o touro. Dessa relação, ela pariu o Minotauro, com cabeça de touro e corpo de homem. 3. Dédalo, então, construiu para o Minotauro um labirinto cuja saída era inextricável, onde o enclausurou. 4. Revelada a situação, Minos lançou Dédalo na prisão, mas Pasífae o libertou das correntes. Assim, Dédalo fabricou asas para si e para seu filho, Ícaro, acoplou-as, e saíram voando dali. Ícaro, que voava muito alto, sendo a cera aquecida pelo sol, caiu no mar, que, por isso, foi denominado Mar de Ícaro. Dédalo voou até o rei Cócalo, na ilha da Sicília. 5. Outros dizem: tendo Teseu matado o Minotauro, levou Dédalo de volta a sua pátria, Atenas.

XLI. MINOS

Minos, filho de Júpiter e de Europa, travou guerra contra os atenienses, combate em que morreu seu filho Andrógeo. Depois de vencer os atenienses, estes começaram a pagar tributosa Minos, que, por sua vez, instituiu o seguinte: a cada ano, eles deveriam enviar sete de seus filhos para alimentaro Minotauro. 2. Teseu, depois de chegar a Trezena e ouvir sobre tamanha calamidade a que a cidade era submetida, de livre e espontânea vontade prometeu ir ao encontro do Minotauro. 3. Quando seu pai o enviou, recomendou a ele que, caso retornasse vitorioso, usasse velas brancas no navio, uma vez que os que eram enviados ao Minotauro navegavam com velas negras.

XLII. TESEU CONTRA O MINOTAURO

Quando Teseu chegou a Creta, Ariadne, filha de Minos, apaixonou-se por ele de tal modo que traiu seu próprio irmão e salvou o hóspede, pois ela mostrou a Teseu a saída do labirinto, do qual Teseu, ali tendo entrado e assassinado o Minotauro, por instrução de Ariadne saiu desenrolando um fio; como ele havia prometido, levou-a consigo para se casar com ela.

XLIII. ARIADNE

Teseu, retido na ilha Dia devido a uma tempestade, pensando que, se levasse Ariadne a sua pátria, desonraria a si mesmo, abandonou-a, dormindo, na ilha Dia. Líber, apaixonado por ela, levou-a dali para desposá-la. 2. Porém Teseu, enquanto navegava, esqueceu-se de trocar as velas negras, e, assim, seu pai Egeu, acreditando que Teseu tivesse sido devorado pelo Minotauro, precipitou-se no mar, que foi denominado Mar Egeu. 3. Teseu, por sua vez, casou-se com Fedra, irmã de Ariadne.

XLIV. CÓCALO

Minos, uma vez que as obras de Dédalo lhe tinham causado tantos danos, perseguiu-o até a Sicília e solicitou ao rei Cócalo que o entregasse. Uma vez que Cócalo havia se comprometido com ele, e Dédalo o havia descoberto, este pediu ajuda às filhas do rei. Elas mataram Minos.

XLV. FILOMELA

Tendo-se se casado com Procne, filha de Pandíon, Tereu, um trácio filho de Marte, veio a Atenas ao encontro do sogro Pandíon, a fim de solicitar a ele que lhe desse em matrimônio sua outra filha, Filomela, e diz a ele que Procne havia morrido. 2. Pandíon deu-lhe seu consentimento, e enviou Filomela e alguns soldados para acompanhá-la; a estes, Tereu lançou ao mar, e deitou-se com Filomela à força em um monte.Mas, depois disso, volta à Trácia, envia Filomela ao rei Linceu, cuja esposa, Latusa, levou tal amante imediatamente até Procne, uma vez que esta era sua amiga. 3. Depois que Procne reconheceu sua irmã e soube do crime impetuoso de Tereu, ambas passaram a maquinar, de comum acordo,como retribuir ao rei tal favor. Nesse ínterim, a Tereu se mostrava, por meio de prodígios, a iminência da morte de seu filho Ítis, pela mão de alguém próximo. Ao ouvir o presságio, pensando que seu irmão Drias tramava a morte de seu filho, matou seu irmão Drias, que era inocente. 4. Por sua vez, Procne matou o filho que teve com Tereu, Ítis, serviu-o em um banquete ao próprio pai e fugiu com a irmã. 5. Quanto tomou conhecimento do crime, enquanto Tereu perseguia as fugitivas, por misericórdia dos deuses Procne foi transformada em uma andorinha; Filomela, em um rouxinol. Quanto a Tereu, dizem que foi convertido em um falcão.

XLVI. ERECTEU

Erecteu, filho de Pandíon, teve quatro filhas que juraram entre si que, caso uma delas viesse a morrer, as demais se matariam. 2. Naquela época, Eumolpo, filho de Netuno, chegou a Atenas para lutar, pois dizia que a terra Ática tinha sido de seu pai. 3. Quando ele, tendo sido vencido com seu exército, foi assassinado pelos atenienses, Netuno, para que Erecteu não se alegrasse com a morte de seu filho, exigiu que uma filha dele fosse sacrificada a Netuno. 4. Assim, quando sua filha Ctônia era sacrificada, as demais, conforme o juramento, mataram a si próprias. O próprio Erecteu foi abatido por Júpiter com um raio, a pedido de Netuno.

XLVII. HIPÓLITO

Fedra, filha de Minos e esposa de Teseu, apaixonou-se por seu enteado Hipólito. Como não podia persuadi-loa cumprir sua vontade, enviou a seu marido uma carta, dizendo que havia sido violada por Hipólito, e ela mesma se suicidou, enforcando-se. 2. Ouvindo tais coisas, Teseu ordenou a seu filho que deixasse as muralhas e pediu ao seu pai Netuno a morte de seu filho. Assim, enquanto Hipólito era transportado por cavalos atrelados, surgiu repentinamente do mar um touro. Os cavalos, assustados com seu mugido, despedaçaram Hipólito, tirando-lhe a vida.

XLVIII. OS REIS DOS ATENIENSES

Cécrope, filha da Terra; Céfalo, filho de Deíon; Egeu, filho de Pandíon; Pandíon, filho de Erictônio; Teseu, filho de Egeu; Erictônio, filho de Vulcano; Erecteu, filho de Pandíon; Demofonte, filho de Teseu.

XLIX. ESCULÁPIO

Diz-se que Esculápio, filho de Apolo, devolveu a vida a Glauco, filho de Minos, oua Hipólito, e por isso Júpiter o transpassou com um raio. 2. Apolo, visto que não podia fazer mal a Júpiter, matou os que criaram os raios, isto é os ciclopes. Por esse feito, Apolo foi entregue como escravo a Admeto, rei da Tessália.

L. ADMETO

Como muitos solicitavam em casamento Alcestis, filha de Pélias, e Pélias desaprovava muitos deles, instituiu-lhes a seguinte prova: ele a entregaria a quem atrelasse animais selvagens a um carro; este poderia levar a mulher que quisesse.2. E assim, Admeto pediu a Apolo que o ajudasse. Apolo, tendo sido tratado com generosidade por ele quando foi entregue a ele como escravo, trouxe-lheum javali e um leão atrelados, com o que aquele levou consigo Alcestis a fim de a desposar.

LI. ALCESTIS

Muitos pretendentes solicitavam em casamento Alcestis, filha de Pélias e de Anaxíbia, filha de Bias. Pélias, evitando as propostas, recusou-os e estabeleceu uma prova: iria entregá-la a quem atrelasse animais selvagens a um carro e levasse Alcestis nesse meio de transporte. 2. E assim, Admeto pediu a Apolo que o ajudasse. Apolo, por sua vez, uma vez que havia sido recebido de modo generoso por ele quando lhe fora escravo, trouxe-lhe um javali e um leão atrelados, com os quais este levou Alcestis. 3. Apolo aceitou também que outra pessoa pudesse morrer, voluntariamente, em seu lugar. Como nem seu pai nem sua mãe quiseram morrer em seu lugar, sua esposa Alcestis se ofereceu e morreu por ele, substituindo-ona morte. Mais tarde, Hércules trouxe-a de volta dos infernos.

LII. EGINA

Júpiter, intentando violar Egina, filha de Asopo, e temendo Juno, levou-aà ilha de Delose a engravidou, donde nasceu Éaco. 2. Tendo descoberto isso, Juno enviou uma serpente que envenenou a água: quem dela bebia pagava sua dívida com a natureza. 3. Éaco, que perdera seus companheiros e, diante do escasso número de homens, não podia se estabelecer, vendo algumas formigas, pediu a Júpiter que lhe desse homens como escolta. Então Júpiter transformou as formigas em homens, que foram chamados Mirmídones, pois, em grego, myrmices quer dizer “formigas”. 4. A ilha, por sua vez, recebeu o nome de Egina.

LIII. ASTÉRIA

Estando Júpiter apaixonado por Astéria, filha de um Titã, ela o desprezou. Foi transformada por ele na ave ortígia, que nós chamamos “codorniz”, e a lançou ao mar; dela surgiu uma ilha que é denominada Ortígia. 2. Esta era móvel. Depois disso, por ordem de Júpiter Latona foi levada até ali pelo vento Aquilão, quando Píton a perseguia. Lá, segurando uma oliveira, Latona deu à luz Apolo e Diana. Mais tarde, a ilha foi denominada Delos.

LIV. TÉTIS

Para a nereida Tétis, havia uma profecia segundo a qual quem dela nascesse seria mais forte que o pai.2. Uma vez que ninguém tinha conhecimento sobre isso, apenas Prometeu, e que Júpiter queria se deitar com ela, Prometeu garantiu a Júpiter que lhe faria uma premonição caso o livrasse das correntes.Assim, dada sua palavra, admoestou Júpiter a não se deitar com Tétis, a fim de que não nascesse alguém mais forte que arrebatasse Júpiter do trono da mesma maneira que este próprio o fizera com Saturno. 3. Então, Tétis foi dada em matrimônio a Peleu, filho de Éaco, e Hércules foi enviado para matar a águia que devorava o coração de Prometeu. Tendo a ave sido morta, ele foi libertado do monte Cáucaso após trinta anos.

LV. TÍCIO

Uma vez que Latona havia se deitado com Júpiter, Juno ordenou a Tício (o imenso filho da Terra) que tomasse Latona à força. Ao intentá-lo, foi morto por Júpiter com um raio. Diz-se que jaz nas regiões inferiores, estendido em nove jeiras, e uma serpente, colocada junto a ele, para que devorasse seu fígado, que volta a crescer junto com a lua.

LVI. BUSÍRIS

Como a escassez assolava o Egito, reino de Busíris, filho de Netuno, e o Egito sofria com a seca há nove anos, aquele convocou alguns áugures vindos da Grécia. Trásio, filho do irmão de Pigmalião, informou a Busíris que as chuvas viriam com o sacrifício de um estrangeiro, e, sacrificando a si mesmo, comprovou suas previsões.499

LVII. ESTENEBEIA

Quando, exilado, Belerofonte chegou ao reino de Preto para se hospedar, a mulher deste, Estenebeia, apaixonou-se por ele.Como ele não quis se deitar com ela, a mulher mentiu ao seu marido dizendo que havia sido violada por ele. 2. Mas Preto, ouvindo tais palavras, escreveu sobre isso uma cartae o enviou ao rei Ióbates, pai de Estenebeia. Ao ler a carta, este não quis matar tal homem, mas o enviou a Quimera para que fosse morto. Dizia-se que ela exalava fogo de seu corpo tripartido 3. nestas formas: a parte da frente, era um leão; a parte de trás, uma serpente; e, no meio, a própria quimera.4. Ele a matou cavalgando Pégaso, e, diz-se que caiu nos campos de Ale, pelo que também se diz ter rompido o quadril.5. Mas o rei, elogiando suas virtudes, deu-lhe em matrimônio sua outra filha. Ao ouvir sobre isso, Estenebeia se matou.

LVIII. ESMIRNA

Esmirna era filha de Cíniras (rei dos assírios)e de Cêncreas. Sua mãe, Cêncreas, falou com muita soberba, antepondo a beleza de sua filha à de Vênus. Vênus, buscando uma punição à mãe, lançou sobre Esmirna um amor nefando, de tal maneira que esta se apaixonou pelo próprio pai. 2. A fim de a impedir de se enforcar, uma nutriz interveio, e o pai, ignorando-o, por intermédio da nutriz se deitou com ela, que dele engravidou. A fim de que isso não se tornasse público, impelida pela vergonha ela se escondeu em uma floresta. 3. Mais tarde, Vênus se apiedou dela e a fez passar à forma arbórea, da qual emana a mirra, e dela nasceu Adônis, que sofreu os castigos de Vênus contra sua mãe.

LIX. FÍLIS

Diz-se que, tendo chegado Demofonte, filho de Teseu, à Trácia para hospedar-se no reino de Fílis, esta se apaixonou por ele. Como ele desejava retornar a sua pátria, deu à moça a palavra de que retornaria para ela. 2. Como ele não havia chegado no dia combinado, diz-se que nesse dia ela correu nove vezes até o litoral, que por isso foi denominado, em grego, “Nove Caminhos”. Fílis, então, devido à fatal de Demofonte, deu seu último suspiro. 3. Seus pais lhe construíram um túmulo, onde nasceram árvores que, em determinada época, choram a morte de Fílis, quando as folhas secam e caem. A partir de seu nome as folhas foram denominadas phylla, em grego.

LX. SÍSIFO E SALMONEU

Sísifo e Salmoneu, filhos de Éolo, eram inimigos um do outro. Sísifo perguntou a Apolo de que maneira poderia matar seu inimigo, isto é seu irmão. A resposta para ele foi que, caso violentasse Tiro, filha de seu irmão Salmoneu, e tivesse filhos com ela, eles seriam seus vingadores. 2. Tendo Sísifo feito isso, nasceram dois filhos, os quais sua mãe Tiro assassinou, uma vez que tomara conhecimento a respeito da sorte. 3. Mas, quando Sísifo soube diz-se que agora, devido à sua falta de respeito, nas regiões inferiores rola com os ombros uma pedra monte acima, e que, quando a conduz até o extremo cume, em seguida ela rola novamente para baixo, às suas costas.

LXI. SALMONEU

Salmoneu, filho de Éolo e irmão de Sísifo, como imitava os trovões e raios de Júpiter e, sentado em uma quadriga, enviava tochas em chamas contra a população e seus cidadãos, foi, por esse motivo, abatido por Júpiter com um raio.

LXII. ÍXION

Íxion, filho de Leonteu,tentou violentar Juno: por ordem de Júpiter, Juno colocou em seu lugar uma nuvem, que Íxion acreditou ser a imagem de Juno. Dela, nasceram os centauros. Mas Mercúrio, por ordem de Júpiter, prendeu Íxion a uma roda nas regiões inferiores, a qual, diz-se, continua ali, rodando.

LXIII. DÂNAE

Dânae era filha de Acrísio e de Aganipe. Estava fadado que o filho que ela parisse assassinaria Acrísio. Temendo isso, Acrísio a encerrou em uma muralha de pedra. Júpiter, porém, convertido em chuva de ouro deitou-se com Dânae, e dessa relação nasceu Perseu. 2. Devido à violação, seu pai a lançou ao mar junto com Perseu, encerrada em uma arca. 3. Por vontade de Júpiter, ela foi conduzida até a ilha de Serifos, quando um pescador, Díctis, encontrou-a e, aberta, viu a mulher com a criança, os quais conduziu ao rei Polidectes, que a tomou por esposa e criou Perseu no templo de Minerva. 4. Quando Acrísio soube que eles moravam com o rei Polidectes, foi a seu encontro a fim de reivindicá-los. Tendo ali chegado, Polidectes implorou em favor deles, e Perseu deu ao seu avô a palavra de que nunca o assassinaria. 5. Enquanto este permanecia ali devido a uma tempestade, Polidectes faleceu. Quando para ele realizaram os jogos fúnebres, Perseu, lançando um disco que o vento desviou até a cabeça de Acrísio, matou-o. Dessa forma, o que não quis fazer por vontade própria, ele fez pela dos deuses. Dado o sepultamento, ele partiu para Argos e tomou posse do reino de seu avô.519

LXIV. ANDRÔMEDA

Cassiopeia antepôs a beleza de sua filha, Andrômeda, à das Nereidas. Por esse motivo, Netuno exigiu que Andrômeda, filha de Cefeu, fosse atirada a um monstro marinho. 2. Quando ela foi atirada, diz-se que Perseu, voando com as sandálias aladas de Mercúrio, lá chegou e a livrou do perigo. Como ele a quis levar, Cefeu, seu pai, junto com Agenor, a quem ela estava prometida, intentaram assassinar Perseu em segredo. 3. Revelada a situação, ele mostrou-lhes a cabeça da Górgona, e todos foram transformados, mantendo a forma humana, em pedra. Perseu retornou a sua pátria com Andrômeda. 4. Polidectes, viu que Perseu tinha tamanha força, teve dele muito medo e intentou assassiná-lo por meio de um ardil. Revelada essa situação, Perseu mostrou a ele a cabeça da Górgona, e ele foi convertido, mantendo a forma humana, em pedra.

LXV. ALCÍONE

Como Cêix, filho de Héspero (ou Lúcifer) e de Filônide, havia perecido em um naufrágio, sua esposa, Alcíone, filha de Éolo e de Egíale, atirou-se ao mar por amor. Dizem que, pela misericórdia dos deuses, eles foram transformados em aves alcíones. Essas aves fazem no mar um ninho, colocam os ovos e têm seus filhotesdurante sete dias, no inverno. Nesses dias o mar é tranquilo, e por isso são chamados pelos navegantes de “dias alcíones”.

LXVI. LAIO

A Laio, filho de Lábdaco, havia um presságio de Apolo recomendando-lhe que se precavesse de ser morto pelas mãos de um filho seu. Assim, quando sua esposa Jocasta, filha de Meneceu, deu à luz, ordenou que a criança fosse abandonada. 2. Peribeia, esposa do rei Pólibo,como lavava a roupa à margem do mar, resgatou o abandonado. Estando Pólibo ciente de tudo, como eles não tinham filhos, criaram-no como um filho seu, e, devido aos seus pés perfurados, nomearam-no “Édipo”.

LXVII. ÉDIPO

Quando Édipo, filho de Laio e de Jocasta, atingiu a puberdade, era o mais forte dentre todos os outros, e esses, por inveja, ridicularizavam-no, lançando-lhe a acusação de que era um filho adotivo de Pólibo, uma vez que Pólibo era tão clemente, e ele sem pudor. Édipo percebeu, então, que não era falsa a acusação. 2. E assim partiu para Delfos a fim de se informar era mostrado, em prodígios, que se aproximava sua morte pelas mãos de um filho seu. 3. Quando Laio se dirigia a Delfos, encontra-o no caminho Édipo, que, embora os guardas ordenassem que desse caminho ao rei, desdenhou. O rei impeliu os cavalos contra ele, e uma roda pressionou seu pé. Irado, Édipo, sem o saber, puxou de cima do carro o próprio pai e o assassinou. 4. Com Laio morto, Creonte, filho de Meneceu, assumiu o reino. Nesse ínterim, Esfinge, filha de Tifeu, foi enviada à Beócia e atacava os campos dos tebanos.Ela impôs uma condição ao rei Creonte: caso alguém interpretasse o enigma que propunha, partiria dali; porém, caso não solucionasse o enigma dado, ela disse que o devoraria e de nenhuma outra maneira deixaria o território. 5. Ao ouvir tais palavras, o rei anunciou por toda a Grécia: àquele que solucionasse o enigma da Esfinge, prometeu entregar o reino e, em matrimônio, sua irmã Jocasta. Embora muitos houvessem chegado, desejando o reino, e tivessem sido devorados pela Esfinge, Édipo, filho de Laio, chegou e interpretou o enigma. A Esfinge se atirou num precipício. 6. Édipo aceitou o reino do pai e, como esposa, sem o saber,a própria a mãe, de quem nasceram Etéocles e Polinices, Antígona e Ismene. Nesse ínterim, incide sobre Tebas a esterilidade dos grãos e a penúria, devido aos crimes de Édipo. Tirésias, interrogado sobre o motivo pelo qual Tebas era assim assolada, respondeu que, caso houvesse algum sobrevivente da linhagem dos dragões e este morresse pela pátria, livrá-la-ia da epidemia.Então Meneceu, pai de Jocasta, atirou-se de cima de uma muralha.7. Enquanto se davam tais acontecimentos em Tebas, Pólibo morre em Corinto. Ao ouvir sobre isso, Édipo começou a sentir pesar, acreditando que morrera seu pai. Peribeia revelou a ele a adoção.Do mesmo modo, o velho Menetes, que havia abandonado Édipo quando criança, observando as cicatrizes em seus pés e tornozelos, reconheceu que se tratava do filho de Laio. 8. Mediante o que ouviu, percebendo que cometera tantos crimes nefastos, Édipo arrancou as fivelas das vestes de sua mãe e tirou a própria visão, entregou aos seus filhos o reino,para governarem em anos alternados, e fugiu de Tebas tendo como guia sua filha Antígona.

LXVIII. POLINICES

Polinices, filho de Édipo, passado um ano completo reivindica o trono ao seu irmão, Etéocles. Este não quis entregar-lhe. Desse modo, contando com o auxílio do rei Adrasto, Polinices chegou para atacar Tebas, junto com sete comandantes.2. Ali Capaneu, por dizer que capturaria Tebas mesmo contra vontade de Júpiter, foi golpeado com um raio enquanto subia a muralha; Anfiarau foi engolido pela terra; Etéocles e Polinices, lutando entre si, mataram um ao outro. 3. Quando para eles era realizada a cerimônia fúnebre, em Tebas, ainda que o vento estivesse intenso, a fumaça nunca se convertia em uma apenas, mas se dividia em duas partes. 4. Enquanto os demais travavam batalha contra Tebas, e os tebanos desconfiavam de seus próprios reis, o áugure Tirésias, filho de Everes, teve a premonição de que, caso morresse alguém da estirpe dos dragões, a cidadela seria liberada da destruição. Meneceu, vendo que era o único que poderia alcançar a salvação dos cidadãos, atirou-se de cima de uma muralha. Os tebanos conseguiram a vitória.

LXIX. ADRASTO

Para Adrasto, filho de Tálao e de Eurínome, havia um presságio de Apolo instruindo-o a dar em casamento suas filhas, Argia e Deípile, a um javali e a um leão. 2. Na mesma época Polinices, filho de Édipo, expulso por seu irmão Etéocles, dirigiu-se até Adrasto. Também naquela mesma época, quase ao mesmo tempo, chegou ali Tideu, filho de Eneu e da cativa Peribeia, expulso por seu pai porque matara seu irmão, Menalipo, em uma caçada.3. Tendo alguns guardas anunciado a Adrasto que haviam chegado dois jovens com vestes estranhas (pois um estava coberto com a pele de um javali e o outro com a de um leão), no mesmo momento, lembrando-se de sua sorte, Adrasto ordenou que eles fossem conduzidos a sua presença e, assim, interrogou-os sobre o que os teria levado ao seu reino trajando tais vestimentas. 4. Polinices declara a ele que vinha de Tebas, e que se cobrira com a pele de leão porque Hércules pertencia à linhagem tebana; assim, ele portava consigo uma insígnia de seu povo. Tideu, por sua vez, diz que era filho de Eneu e pertencia à linhagem de Cálidon, e por esta razão se cobrira com a pele de javali, representando o javali de Cálidon. 5. Então o rei, lembrando-se do presságio, entrega a Polinices sua filha mais velha, Argia, de quem nasce Tersandro. A Tideu, entrega Deípile, a filha mais nova, de quem nasceu Diomedes, que lutou em Tróia. 6. Então Polinices pede a Adrasto que lhe empreste um exército a fim de recuperar, do irmão, o reino paterno. Adrasto não apenas entregou o exército a ele, como também ele próprio partiu, com outros comandantes, uma vez que sete portas fechavam Tebas. 7. Isso porque Anfíon, que havia cercado Tebas com uma muralha, construiu sete portas com os nomes de suas filhas. Eram elas: Tera, Cleodóxe, Astínome, Asticrátia, Quias, Ogígia e Clóris.

LXX. OS SETE REIS QUE MARCHARAM CONTRA TEBAS

Adrasto, filho de Tálao e de Eurínome (filha de Ífito), argivo. Polinices, filho de Édipo e de Jocasta (filha de Meneceu), tebano. Tideu, filho de Eneu e de Peribeia (cativa de Calidônio). Anfiarau, filho de Ecleu – ou como dizem outros autores, de Apolo – e de Hipermnestra (filha de Téstio), pílio. Capaneu, filho de Hipônoo e de Astínome (filha de Tálao e irmã de Adrasto), argivo. Hipomedonte, filho de Mnesímaco e de Metídice (filha de Tálao e irmã de Adrasto), argivo. Partenopeu, filho de Meleagro e de Atalanta (filha de Iásio, do monte Partênio), arcádio. 2. Todos esses comandantes pereceram em Tebas, com exceção de Adrasto, filho de Tálao, pois ele escapou graças ao seu cavalo. Em seguida, ele enviou os filhos daqueles, armados, para que lutassem contra Tebas a fim de que vingassem as injúrias de seus pais, uma vez que jaziam, insepultos, por ordem de Creonte, irmão de Jocasta, o qual assumira o trono de Tebas.

LXXI. OS SETE EPÍGONOS, ISTO É OS FILHOS

Egialeu, filho de Adrasto e de Demonassa, argivo. Apenas ele morreu, dentre os sete que haviam partido, porque, tendo seu pai sobrevivido, deu a vida em troca da do pai. Os seis restantes retornaram vitoriosos. 2. Tersandro, filho de Polinices e de Argia (filha de Adrasto), argivo. Polidoro, filho de Hipomedonte e de Evanipe (filha de Élato), argivo. Alcméon, filho de Anfiarau e de Erifile (filha de Tálao), argivo. Tlesímanes, filho de Partenopeu e da ninfa Clímene, mísio.

LXXII. ANTÍGONA

Creonte, filho de Meneceu, proibiu por meio de édito que se sepultasse Polinices ou os que o acompanhassem, visto que eles teriam vindo para lutar contra a pátria. A irmãAntígona e a esposa Argiasecretamente levaram o corpo de Polinices, à noite, e o depositaram na mesma pira em que Etéocles foi sepultado. 2. Tendo sendo sido surpreendidas pelos guardas, Argia fugiu, e Antígona foi conduzida ao rei. Ele a entregou, para ser morta, a seu filho Hemão, a quem estava prometida. Hemão, tomado de amor, desobedeceu à ordem do pai, confiou Antígona a uns pastores, e mentiu, dizendo tê-la assassinado. 3. Ela teve um filho que, quando atingiu a puberdade, veio a Tebas para os jogos. O rei Creonte o reconheceu, uma vez que todos da linhagem dos dragões tinham uma marca em seu corpo.Embora Hércules tenha intercedido a favor de Hemão, para que se lhe perdoasse, não o conseguiu. Hemão matou a si próprio e a esposa Antígona.4. Já Creonte deu em casamento a Hércules sua filha Mégara, de quem nasceram Terímaco e Ofites.

LXXIII. ANFIARAU, ERIFILE E ALCMÉON

Anfiarau, filho de Ecles e de Hipermnestra (filha de Téstio), áugure. Quando soube que, se fosse a Tebas para lutar, não voltaria de lá, ele se escondeu, tendo como cúmplice sua esposa Erifile, filha de Tálao. 2. Adrasto, por sua vez, a fim de investigá-lo, fez um colar de ouro com pedras preciosas e deu-o a sua irmã Erifile, que, cobiçando o presente, denunciou o esposo. Anfiarau instruiu seu filho Alcméon a aplicar, após sua morte, um castigo em sua mãe. 3. Depois que ele foi engolido pela terra, em Tebas, Alcméon, lembrando-se das instruções do pai, matou sua mãe Erifile. Tempos depois, as fúrias o perseguiram.

LXXIV. HIPSÍPILE

Os sete comandantes que iam lutar em Tebas chegaram a Némea, onde Hipsípile, filha de Toante, escravizada, era ama do menino Arquêmaco, ou Ofites, filho do rei Lico.Para este havia um presságio que instruía a não se colocar a criança no chão antes que ela pudesse andar. 2. Então, os sete comandantes que se dirigiam a Tebas, ao procurar por água, chegaram até Hipsípile e pediram a ela que indicasse um lugar onde houvesse água. Ela, temendo colocar a criança no solo,como havia um aipo altíssimo junto à fonte, colocou a criança sobre ele. 3. Enquanto ela lhes trazia água, uma serpente que guardava a fonte devorou a criança. Mas Adrasto e os demais mataram a serpente e intercederam por Hipsípile junto a Lico, bem como instituíram jogos pela criança, que acontecem a cada quinto ano, nos quais os vitoriosos recebem uma coroa de aipo.

LXXV. TIRÉSIAS

Diz-se que no monte Cilene o pastor Tirésias, filho de Everes, golpeou com seu bastão duas cobras que copulavam, outros dizem que ele pisou sobre elas. Por esse motivo foi transformado em mulher; em seguida, aconselhado por um oráculo, ele mesmo pisou sobre as serpentes e voltou ao aspecto anterior. 2. Naquela mesma época havia, entre Júpiter e Juno, uma disputa jocosa sobre quem conseguia obter mais prazer durante o ato sexual, se o homem ou se a mulher. Na questão, tomaram como juiz Tirésias, que era experimente em ambos os papéis. 3. Tendo ele julgado em favor de Júpiter, irada, Juno, com um revés, o cegou.Diante disso, Júpiter, por sua vez, fez com que ele vivesse por sete gerações e fosse adivinho frente aos demais mortais.

LXXVI. OS REIS DOS TEBANOS

Cadmo, filho de Agenor; Anfíon, de Júpiter; Polidoro, de Cadmo; Laio, de Lábdaco; Penteu, de Equíon; Cretone, de Meneceu; Édipo, de Laio; Polinices, de Laio; Lico, de Netuno; Etéocles, de Édipo; Zeto, de Júpiter; Lábdaco, de Polidoro.

LXXVII. LEDA

Júpiter, convertido em cisne, às margens do rio Eurotas violou Leda, filha de Téstio. Dele, ela deu à luz Pólux e Helena e, de Tíndaro, por sua vez, Castor e Clitemnestra.

LXXVIII. TÍNDARO

Tíndaro, filho de Ébalo, teve com Leda, filha de Téstio, Clitemnestra e Helena.Deu Clitemnestra em casamento a Agamêmnon, filho de Atreu. Devido a sua beleza, muitos pretendentes, vindos de várias cidades, solicitavam Helena em casamento. 2. Tíndaro, tendo receio de que sua filha Clitemnestra fosse repudiada por Agamêmnon e temendo que a partir disso surgisse uma discórdia, aconselhado por Ulisses, comprometeu-se por meio de um juramento e encarregou Helena de colocar uma coroa naquele com quem quisesse se casar. 3. Ela a colocou em Menelau, a quem Tíndaro a deu como esposa. Ao morrer, ele entregou o reino a Menelau.

LXXIX. HELENA

Teseu, filho de Egeu e de Etra (filha de Piteu), junto com Pirítoo, filho de Íxion, raptaram do templo de Diana a jovem Helena, filha Tíndaro e de Leda, enquanto ela fazia sacrifícios, e a trouxeram até Atenas, para uma aldeia na região Ática. 2. Júpiter, quando viu que eles tinham tamanha audácia – a ponto de eles próprios se exporem ao perigo -, em um sonhoordenou que ambos pedissem em casamento a Plutão a mão de Prosérpina, para Pirítoo. Tendo eles descido às regiões inferiores pela ilha Tenária e informado a Plutão o motivo pelo qual tinham ido, foram atormentados pelas fúrias por diversos dias. 3. Quando Hércules chegou ali a fim de levar o cão de três cabeças, eles lhe imploraram ajuda. Ele intercedeu junto a Plutão, e os conduziu, ilesos.4. Os irmãos Castor e Pólux guerrearam por causa de Helena e capturaram Etra, mãe de Teseu, e Tisadia, irmã de Pirítoo,e as entregaram à sua irmã na condição de escravas.

LXXX. CASTOR

Idas e Linceu, filhos de Afareu, procedentes de Messana, tinham como prometidas Febe e Hilaíra, filhas de Leucipo. No entanto, como elas eram moças de extrema beleza – Febe era sacerdotisa de Minerva, e Hilaíra de Diana -, Castor e Pólux, ardentes de amor, raptaram-nas. 2. Uma vez perdidas as prometidas, Idas e Afareu pegaram em armas para que, assim, pudessem recuperá-las. Castor matou Linceu em combate; Idas, tendo perdido o irmão, abandonou a luta e a prometida, e começou a dar sepultura ao irmão. 3. Enquanto ele empilhava os ossos em uma coluna, Castor irrompe e lhe proíbe de começar a fazer o túmulo, pois, dizia, o vencera como a uma mulher. Idas, indignado, atravessou a virilha de Castor com a espada que tinha à cintura. Outros dizem, que enquanto erguia a coluna, esta caiu sobre Castor, que foi morto. 4. Quando anunciaram isso a Pólux, ele acorreu e venceu Idas em uma única luta. Recuperado o corpo do irmão, deu-lhe sepultura. No entanto, como ele próprio havia recebido de Júpiter uma estrela, que não tinha sido dada a seu irmão (pelo fato de que, segundo Júpiter, Castor e Clitemnestra eram nascidos do sangue de Tíndaro, ao passo que ele e Helena eram filhos de Júpiter), Pólux suplicou a Júpiter que lhe permitisse dividir seu presente com o irmão. Ele o permitiu. Por esse motivo, dizem: “um é resgatado pela morte do outro”. A partir disso os romanos mantiveram um costume: quando enviam um dessultor, este monta dois cavalos e traja um píleona cabeça, salta um cavalo para outro cavalo, pois desempenha a sua função e a do irmão.

LXXXI. OS PRETENDENTES DE HELENA

Antíloco, Ascálafo, Ájaxfilho de Oileu, Anfímaco, Anceu, Blaniro, Agapenor, Ájax Telamônio, Clítio Ciâneo, Menelau, Pátroclo, Diomedes, Peneleu, Fêmio, Nireu, Polipetes, Elefenor, Eumelo, Esténelo, Tlepólemo, Protesilau, Podalírio, Eurípilo, Idomeneu, Leonteu, Tálpio, Políxeno, Proto, Menesteu, Macáon, Toante, Ulisses, Fidipo, Meríones, Meges, Filoctetes. Os autores antigos indicam outros.

LXXXII. TÂNTALO

Tântalo, filho de Júpiter e de Plutão, teve com Dione a filha Pélope. 2. Júpiter era acostumado a confiar suas deliberações a Tântalo e a recebê-lo no banquete dos deuses, o que Tântalo anunciou aos homens. Diz-se que por esse motivo, permanece nas regiões inferiores, com o corpo imerso em água até a linha da cintura, sempre sedento, e que, quando deseja beber água, a água retrocede. 3. Do mesmo modo, frutas pendem sobre sua cabeça, cujos ramos, quando ele as deseja pegar, retrocedem movidos pelo vento. Do mesmo modo, uma imensa pedra pende sobre sua cabeça, e ele teme constantemente que ela caia sobre ele.572

LXXXIII. PÉLOPE

Tendo sido Pélope, filho de Tântalo e de Dione (filha de Atlas), esquartejado e servido por Tântalo no banquete dos deuses, Ceres comeu um de seus braços. Ele recuperou a vida por vontade dos deuses. Tendo sido reunidos seus demais membros assim como eram antes, no lugar do ombro mortal Ceres adapta um de marfim.

LXXXIV. ENÓMAO

Enómao, filho de Marte e de Estérope(filha de ), casou-se com Evarete, filha de Acrísio, de quem teve Hipódame, moça de notável beleza. Ele não a concedia em casamento a ninguém, uma vez que havia um presságio precavendo-o de que ele seria morto por um genro. 2. E, assim, como muitos a solicitavam em casamento, estabeleceu uma prova: ele a daria àquele que disputasse contra ele em uma corrida de quadrigas e saísse vitorioso (é que ele tinha os cavalos mais velozes que o Aquilão); porém, aquele que fosse vencido seria morto. 3. Quando muitos já haviam sido mortos, Pélope, filho de Tântalo, acabava de chegar ali e, quando viu fixadas sobre as portas as cabeças dos que pretendiam ter Hipódame por esposa, passou a se arrepender, temendo a crueldade do rei. 4. Desse modo, persuadiu o cocheiro Mírtilo, prometendo-lhe metade do reino caso o ajudasse. Dada sua palavra, Mírtilo atrelou o carro e não juntou os pregos às rodas. Assim, quando os cavalos foram impelidos, os cavalos destruíram o carro sabotado de Enómao. 5. Ao retornar Pélope a casa, vitorioso, junto com Hipódame e Mírtilo, refletiu que seria uma vergonha para si e não quis manter a palavra dada a Mírtilo, e o lançou ao mar, o qual foi denominado “Mar de Mirto”.Conduziu Hipódame até sua pátria, que é chamada Peloponeso, onde teve com ela os filhos Hipalco, Atreu e Tiestes.

LXXXV. CRISIPO

Laio, filho de Lábdaco, raptou, durante os jogos de Némea, Crisipo (filho bastardo de Pélope), devido a sua notável beleza. Pélope o resgatou em uma guerra. Atreu e Tiestes mataram-no, por conselho da mãe Hipódame. Quando Pélope acusou Hipódame, esta tirou a própria vida.

LXXXVI. OS PELÓPIDAS

Tiestes, filho de Pélope e de Hipódame, uma vez que se havia deitado com Aérope, esposa de Atreu, foi expulso do reino por seu irmão Atreu. Mas ele deu a Plístenes (o filho de Atreu que criara como se fosse seu), a missão de matar Atreu. Acreditando que se tratava do filho de seu irmão, Atreu, ignorante, matou o próprio filho.

LXXXVII. EGISTO

Para Tiestes, filho de Pélope e de Hipódame, havia um presságio, segundo o qual aquele que Pélope, sua filha, desse à luz seria o vingador de seu irmão. Quando ouviu isso , nasceu uma criança, que Pélope abandonou e que, alguns pastores encontraram e colocaram sob uma cabra para que fosse alimentado. Foi chamado “Egisto”, uma vez que, em grego, cabra é denominada aega.

LXXXVIII. ATREU

Atreu, filho de Pélope e de Hipódame, desejando vingar as injúrias cometidas por seu irmão Tiestes, reconciliou-se com ele, reconduziu-o ao seu reino, matou seus filhos, Tântalo e Plístenes, ainda crianças, e os serviu em um banquete a Tiestes. 2. Enquanto este se alimentava, Atreu ordenou que fossem trazidos os braços e as cabeças das crianças. Diante desse crime, até mesmo Sol desviou seu carro. 3. Tiestes, percebendo o crime abominável, fugiu em direção ao rei Tesproto, na região onde se diz que fica o lago Averno. A partir dali, chegou a Sícion, onde estava, abandonada, Pelópia, filha de Tiestes. Por acaso, chega nesse lugar durante a noite, enquanto se realizavam sacrifícios a Minerva; temendo contaminar as cerimônias, escondeu-se em um bosque. 4. Porém Pelópia, enquanto conduzia uma dança em coro, escorregou e manchou o vestido com a carne do animal sacrificado. Enquanto saía em direção ao rio para lavar o sangue, tirou a túnica manchada. Saindo do bosque, Tiestes avançou com a cabeça coberta. Durante a violação, Pelópia tirou-lhe a espada da bainha, e, retornando ao templo, escondeu-a debaixo de um pedestal. No dia seguinte, Tiestes solicita ao rei que o permita voltar à pátria, Lídia. 5. Nesse ínterim, inicia-se em Micenas uma escassez de alimentos e penúria devido ao crime de Atreu. Ali houve um presságio instruindo que se reconduzisse Tiestes ao reino. 6. Tendo-se dirigido ao rei Tesproto, pensando que ali se detinha Tiestes, voltou os olhos para Pelópia e solicitou a Tesproto que a desse em casamento para si, pois pensava que ela era filha de Tesproto. Tesproto, a fim de não provocar suspeitas, dá-lhe Pelópia, que, da relação com o próprio pai, já estava grávida de Egisto. 7. Quando ela chegou ao reino de Atreu, deu à luz Egisto e o abandonou. Mas alguns pastores o colocaram debaixo de uma cabra. Atreu ordenou que o procurassem, e o criassem como se fosse um filho seu. 8. Nesse ínterim, Atreu envia os filhos Agamêmnon e Menelau em busca de Tiestes, e eles se dirigiram a Delfos em busca de informações. Por casualidade, Tiestes chegara ali para consultar o oráculo acerca de sua vingança contra seu irmão. Capturado por eles, é conduzido a Atreu. Atreu ordenou que ele fosse lançado na prisão, chama Egisto, acreditando que fosse seu filho, e o envia a Tiestes para que aquele o matasse. 9. Quando Tiestes viu Egisto e a espada que Egisto portava, reconheceu que se tratava daquela que havia perdido durante a violação. Pergunta a Egisto onde ele a havia conseguido. Ele respondeu que havia sido dada por sua mãe, Pelópia, e ordenou que ela fosse chamada. 10. Ela lhe contou que, durante uma violação à noite, tirou-a de um desconhecido e que dessa violação deu à luz Egisto. Pelópia, então, arrebatou a espada, simulando querer reconhecê-la, e a cravou violentamente no próprio peito. 11. Egisto, segurando a espada ensanguentada que tirara do peito de sua mãe, levou-a até Atreu. Este se alegra, acreditando que Tiestes estava morto. Egisto o matou enquanto ele fazia sacrifícios na praia, e retornou ao reino de seu avô com seu pai Tiestes.

LXXXIX. LAOMEDONTE

Dizem que Netuno e Apolo cercaram Tróia com uma muralha. O rei Laomedonte fez um voto de que sacrificaria a eles, naquele ano, o gado que nascesse em seu reino. Faltou com a promessa por avareza. Outros dizem que havia prometido ouro. 2. Diante dessa falta, Netuno enviou um monstro marinho para que atacasse Tróia. Diante disso, o rei enviou um consultor até Apolo. Apolo, irado, assim respondeu: que se moças de Tróia, amarradas, fossem oferecidas ao monstro marinho, a pestilência chegaria ao fim. 3. Tendo muitas sido devoradas, a sorte escolheu Hesíone, que foi amarrada a uma pedra. Hércules e Télamon, enquanto iam a Cólquida como Argonautas, chegaram ali e mataram o monstro marinho. Devolveram Hesíone ao pai, após fazerem um pacto: quando voltassem, levá-la-iam consigo à pátria, e também os cavalos que caminhavam sobre as águas e espigas.4. Também quanto a isso, Laomedonte faltou com a promessa, e não quis entregar Hesíone. E assim Hércules, com navios equipados a fim de combater Tróia, foi até eles, matou Laomedonte e entregou o reino ao filho dele, ainda infante, Podarces, que em seguida foi chamado Príamo, a partir de príasthai. 5. Hesíone, recuperada, foi entregue em casamento a Télamon, de quem nasceu Teucro.

XC. OS FILHOS DE PRÍAMO, EM NÚMERO DE 54

Hector, Deífobo, Cebríones, Polidoro, Heleno, Alexandre, Hipósido, Antínoo, Ágato, Díon. 2. Mestor, Líside, Polímena, Ascânio, Quirodamante, Evágoras, Dríops, Astínomo, Polimeto, Laódice. 3. Etiônome, Fegeia, Heniceia, Demnosia, Cassandra, Filomela, Polites, Troilo, Palémon, Bríson. 4. Gorgítion, Protôdamas, Areto, Dólon, Crômio, Éreso, Crisolau, Demóstea, Dóriclo, Hípaso. 5. Hipéroco, Lisianassa, Ilíona, Nereide, Evandro, Proneu, Arquêmaco, Hilageu, Axíon, Bias, 6. Hipótroco, Deiopites, Medusa, Hero, Creúsa.

XCI. ALEXANDRE PÁRIS

Tendo Príamo, filho de Laomedonte, muito filhos de sua relação com Hécuba (filha de Cisseu ou Dimas), sua esposa, grávida, viu em um sonho que dava à luz uma tocha ardente, da qual saíam muitas serpentes. 2. Tendo narrado essa visão a muitos intérpretes de sonhos, eles ordenam que matasse o que quer que dela nascesse, para evitar a destruição de sua pátria. 3. Depois que Hécuba deu à luz Alexandre, ele foi entregue para ser morto, mas os guardas, por misericórdia, abandonaram-no. Alguns pastores o encontraram, abandonado, criaram-no como se fosse o próprio filho e lhe deram o nome de Páris. 4. Quando ele chegou à puberdade, tinha afeição por um touro. Alguns guardas ali chegaram, enviados por Príamo, para levar o touro, que seria colocado como prêmio em jogos fúnebres realizados em honra do próprio Alexandre. E, assim, começaram a levar embora o touro de Páris. 5. Este os perseguiu, questionando para onde o conduziam. Eles o informaram que o conduziam a Príamo, que vencesse os jogos fúnebres em honra de Alexandre. Este, inflamado de amor por seu touro, participou da disputa e venceu todas as provas, de modo a superar mesmo a seus próprios irmãos. 6. Indignado, Deífobo empunhou a espada contra ele. Mas ele saltou para cima do altar de Júpiter Herceu. Quando Cassandra advertiu que ele era seu irmão, Príamo o reconheceu e o recebeu em seu palácio.

XCII. O JULGAMENTO DE PÁRIS

Diz-se que, quando Tétis se casou com Peleu, Júpiter convocou todos os deuses a um banquete, com exceção de Éris, isto é a Discórdia, que, tendo chegado mais tarde e não sendo admitida no banquete, da porta, enviou uma maçã ao centro da sala, e disse que a pegaria quem fosse a mais bela. 2. Juno, Vênus e Minerva começaram a reivindicar a beleza para si mesmas, e entre elas nasceu uma enorme discórdia. Júpiter ordena Mercúrio a conduzi-las até Alexandre Páris, no monte Ida, e que o ordenasse a dar uma sentença. 3. Juno prometeu a ele que, caso julgasse a favor dela, ele reinaria na terra sobre todos e teria, frente aos demais, riqueza a sua disposição. Minerva prometeu que, caso ela saísse vencedora dali, ele seria o mais forte entre os mortais, e conhecedor de todos os artifícios. Vênus, por sua vez, prometeu dar a ele em casamento a mais bela de todas as mulheres, Helena, filha de Tíndaro. 4. Páris preferiu o último presente aos primeiros, e julgou que Vênus era a mais bela. Por esse motivo, Juno e Minerva foram hostis aos troianos. 5. Alexandre, hóspede de Menelau, por incitação de Vênus levou Helena da casa de Menelau, na Lacedemônia, até Tróia, e a tomou por esposa. E junto com ela levou também duas criadas, Etrae Tisíade, outrora rainhas, as quais Castor e Pólux haviam doado a ele como escravas.

XCIII. CASSANDRA

Diz-se que Cassandra, filha de Príamo e de Hécuba, brincando no templo de Apolo, adormeceu, fatigada. Quando Apolo desejou possuí-la, ela não consentiu que ele tocasse seu corpo. Por esse motivo, Apolo fez com que ela, quando profetizasse coisas verdadeiras, não tivesse credibilidade.

XCIV. ANQUISES

Diz-se que Vênus amava Anquises, filho de Assáraco e que com ele se deitou, de quem teve Enéias, e o instruiu a não divulgar isso entre os homens. Anquises, movido pelo vinho, revelou o fato entre seus companheiros. Por esse motivo, foi abatido por Júpiter com um raio. Alguns dizem que morreu de morte natural.

XCV. ULISSES

Quando Agamêmnon e Menelau, filhos de Atreu, conduziam alguns comandantes aliados para atacar Tróia, chegaram à ilha de Ítaca, até Ulisses, filho de Laertes, a quem havia um presságio que previa que, caso fosse a Tróia, retornaria a casa após vinte anos, sozinho, com os companheiros perdidos, e na condição de mendigo. 2. E assim, quando soube que chegariam alguns embaixadores, simulando loucura colocou um píleona cabeça e atrelou um cavalo e um boi ao arado. Quando Palamedes o viu, percebeu que simulava, levantou seu filho Telêmaco de um berço, lançou-o debaixo do arado e disse: “deixe de simulação e junte-se aos aliados”. Então Ulisses deu sua palavra de que se juntaria a eles. A partir disso, tornou-se inimigo de Palamedes.

XCVI. AQUILES

Como a nereida Tétis sabia que seu próprio filho, que ela teve com Peleu, morreria caso fosse lutar em Tróia, confiou-o ao rei Licomedes, na ilha Ciro. Ele o mantinha entre suas filhas moças, em trajes femininos e com o nome alterado, já que as moças o nomearam Pirra, porque tinha os cabelos loiros, e em grego ruivo se diz pyrrhon. 2. Porém, quando os aqueus descobriram que ele estava escondido ali, enviaram ao encontro do rei Licomedes alguns embaixadores, que a ele pediram que o enviasse, como forma de ajuda aos dânaos. O rei negou que ele estivesse em sua casa, mas deu permissão para que o procurassem no palácio. 3. Como eles não podiam discerni-lo dentre os que estavam lá, Ulisses colocou na entrada no palácio alguns presentes femininos, entre eles um escudo e uma lança. Ordenou que subitamente se tocasse a trombeta e que se fizesse um som de armas e gritos. 4. Aquiles, pensando que o inimigo avançava, rasgou as vestes de mulher e tomou o escudo e a lança. Por esse motivo foi reconhecido, e prometeu aos argivos sua ajuda e seus soldados mirmídones.

CXVII. QUEM FOI A TRÓIA PARA ATACÁLA E EM QUAIS NAUS

Agamêmnon, filho de Atreu e de Aérope, proveniente de Micenas: com cem naus. Menelau, seu irmão, de Micenas: com sessenta naus. 2. Fenice, filho de Amintor, argivo: com cinquenta naus. Aquiles, filho de Peleu e de Tétis, da ilha de Ciro: com sessenta naus. Automedonte, cocheiro de Aquiles, de Ciro: com dez naus. Pátroclo, filho de Menécio e de Filomela, da Ftia: com dez naus. 3. Ájax, filho de Telamônio e de Eribeia, de Salamina: com doze naus. O irmão Teucro, filho de Hesíone (filha de Laomedonte): com doze naus. 4. Ulisses, filho de Laertes e de Anticleia, de Ítaca: com doze naus. Diomedes, filho de Tideu e de Deípile (filha de Adrasto), de Argos: com trinta naus. Esténelo, filho de Capaneu e de Evadne, de Argos: com vinte e cinco naus. 5. Ájax, filho de Oileu e da ninfa Rena, de Locros: com vinte naus. Nestor, filho de Neleu e de Clóris (filha de ), de Pilos: com noventa naus. O irmão Trasimedes, filho de Eurídice, de Pilos: com quinze naus. Antíloco, filho de Nestor, de Pilos: com vinte naus. 6. Eurípilo, filho de Evêmon e de Ops, de Orcômeno: com quarenta naus. Macáon, filho de Asclépio e de Corônis, da Trica: com vinte naus. Podalírio, irmão dele: com nove naus. 7. Tlepólemo, filho de Hércules e de Astíoque, de Micenas: com nove naus. Idomeneu, filho de Deucalião, de Creta: com quarenta naus. Meríones, filho de Molo e de Mélfide, de Creta: com quarenta naus. 8. Eumelo, filho de Admeto e de Alcestis (filha de Pélias), de Perrébia: com oito naus. Filoctetes, filho de Peante e de Demonassa, de Melibeia: com sete naus. Peneleu, filho de Hipalco e de Astérope, da Beócia: com doze naus. 9. Leito, filho de Lácrito e de Cleobula, da Beócia: com doze naus. Clônio, o irmão dele, da Beócia: com nove naus. Arcesilau, filho de Areílico e de Teobula, da Beócia: com dez naus. Protenor, o irmão , de Téspias: com oito naus. 10. Iálmeno, filho de Lico e de Pernide, de Argos: com trinta naus. Ascálafo, o irmão dele, de Argos: com trinta naus. Esquédio, filho de Ífito e de Hipólita, de Argos: com trinta naus. Epístrofo, o irmão dele, do mesmo lugar: com dez naus. Elefenor, filho de Calcodonte e de Imenarete; de Argos: com trinta naus. 11. Menesteu, filho de †Ea; de Atenas: com cinquenta naus. Agapenor, filho de Anceu e de †Io, da Arcádia: com sessenta naus. Anfímaco, filho de Ctéato, de Élea: com dez naus. Êurito, filho de Palas e de Diomede, de Argos: com quinze naus. Amarinceu, filho de Onesímaco, de Micenas: com dezenove naus. Políxeno, filho de Agástenes e de Peloríade, da Etólia: com quarenta naus. 12. Meges, filho de Fileu e de Eustíoque, vindo de Dulíquio: com quarenta naus. Toante, filho de Andrémon e de Gorge, de Tito: com quinze naus Podarces, o irmão dele, do mesmo lugar: com dez naus. 13. Prótoo, filho de Tentrédon, de Magnésia: com quarenta naus. Cicno, filho de Ócito e de Aurofite, de Argos: com doze naus. Nireu, filho de Cárops e da ninfa , de Argos: com dezesseis naus. 14. Ântifo, filho de Téssalo e de Calcíope, de Nisiros: com vinte naus. Polipetes, filho de Pirítoo e de Hipódame, de Argos: com vinte naus. Leonteu, filho de Corono, vindo de Sícion: com dezenove naus. 15. Calcas, filho de Testor, de Micenas, áugure. Foco, filho de Dânao, arquiteto. Euríbates e Taltíbio, mensageiros. Diáforo, juiz. Neoptólemo, filho de Aquiles e de Deidamia, vindo da ilha de Ciro. Este mesmo foi chamado de Pirro devido ao pai, Pirra. Em suma, duzentas e quarenta e cinco naus.

XCVIII. IFIGÊNIA

Quando Agamêmnon, junto com o irmão Menelau e alguns comandantes selecionados na Acaia, iam a Tróia para reclamar Helena, esposa de Menelau, que havia sido levada por Alexandre Páris, reteve-os na Áulide uma tempestadeprovocada pela ira de Diana, pois Agamêmnon havia profanado uma cerva desta durante uma caçada, e também falado com muita soberba contra Diana. 2. Tendo ele convocado alguns adivinhos, Calcas teria respondido que ele não poderia se reparar a não ser sacrificando Ifigênia, filha de Agamêmnon. Ao ouvir tais palavras, Agamêmnon a princípio recusou a cumpri-las. 3. Então Ulisses, por meio de conselhos, persuadiu-o a uma excelente solução: o próprio Ulisses foi enviado junto com Diomedes para buscarem Ifigênia. Quando eles chegaram até a mãe desta, Clitemnestra, Ulisses mentiu dizendo que a moça seria dada em casamento a Aquiles. 4. Quando a levaram em direção à Áulide, e seu pai intentava sacrificá-la, Diana se compadeceu da moça, lançou uma caligem sobre eles e colocou uma cerva em seu lugar. Levou Ifigênia através das nuvens até a terra táurica e ali a fez sacerdotisa de seu templo.

XCIX. AUGE

Quando chegou o momento do parto de Auge, filha de Aleu (e violada por Hércules), ela deu à luz a seu filho no monte Partênio e ali o abandonou. No mesmo instante, Atalanta, filha de Iásio, abandonou o filho que teve com Meleagro. 2. Mas uma cerva alimentava o filho de Hércules. Alguns pastores os encontraram, os levaram consigo e alimentaram. Deram o nome de Télefo ao filho de Hércules, porque uma cerva o alimentava, e Partenopeu ao de Atalanta, que o abandonara para simular que ainda era uma virgem. 3. A própria Auge, por sua vez, temendo seu pai, se refugiou em Mísia, junto do rei Teutras, que, não tendo filhos, recebeu-a como uma filha.

C. TEUTRAS

Idas, filho de Afareu, quis tomar o trono de Teutras, rei na Mísia. Ali chegou, junto com o companheiro Partenopeu, Télefo (filho de Hércules) seguindo um oráculo, em busca do paradeiro de sua mãe. A Télefo, Teutras prometeu dar o reino e sua filha, Auge, em casamento, caso ele o protegesse do inimigo. 2. Télefo não dispensou a proposta do rei, e junto com Partenopeu venceu Idas em um único combate. O rei cumpriu sua promessa, e deu a ele o reino, bem como Auge em casamento, esta sem saber que era sua mãe. Como ela não queria que nenhum mortal violasse seu corpo, intentou matar Télefo, ignorando que era seu filho. 3. Assim, tendo eles chegado a Tálamo, Auge empunhou uma espada para matar Télefo. Diz-se que então, por vontade dos deuses, uma serpente de imenso tamanho surgiu entre eles. Quando a viu, Auge largou a espada e revelou seu plano a Télefo. 4. Ao ouvir tais palavras, Télefo, inconsciente, quis matar sua mãe. Ela implorou a Hércules, que a violara, e a partir disso Télefo reconheceu a mãe e a reconduziu à sua pátria.

CI. TÉLEFO

Diz-se que Télefo, filho de Hércules e de Auge, foi golpeado por Aquiles com a lança de Quíron em um combate. Como, devido a essa ferida, era atormentado dia após dia, com um sofrimento terrível, perguntou ao oráculo de Apolo qual seria a cura. A resposta para ele foi a de que pessoa alguma poderia curá-lo, apenas a própria lança com a qual havia sido ferido. 2. Quando Télefo ouviu isso, veio ao encontro do rei Agamêmnon e, por conselho de Clitemnestra, raptou a criança Orestes, retirando-o do berço, ameaçando que o mataria caso os aqueus não o currassem. 3. Ora, como para os aqueus havia um presságio de que, sem o comando de Télefo, Tróia não poderia ser capturada, facilmente se reconciliaram com ele e solicitaram a Aquiles que o curasse. Aquiles respondeu a eles que não conhecia a arte médica. 4. Então Ulisses disse: “Apolo não fala sobre você, mas se refere ao que causou a ferida, à lança”. Como eles a rasparam, ele foi curado. 5. Quando solicitado que os acompanhasse para lutar contra Tróia, não o conseguiram, uma vez que ele estava casado com Laódice, filha de Príamo. Mas, pelo benefício de o terem curado, conduziu-os e indicou os lugares e caminhos. Dali, partiu para Mísia.

CII. FILOCTETES

Quando Filoctetes, filho de Peante e de Demonassa, estava na ilha Lemnos, uma cobra mordeu seu pé. Quanto a essa serpente, Juno lhe havia enviado, irada com ele por ter sido o único dentre os demais que ousara construir uma pira para Hércules, quando este abandonou o corpo humano e foi conduzido à imortalidade. 2. Por esse benefício, Hércules o presenteou com suas flechas divinas. Mas, como os aqueus não podiam suportar o cheiro terrível que vinha da ferida, por ordem do rei Agamêmnon o abandonaram em Lemnos, junto com suas flechas divinas. Um pastor do rei Actor, de nome Ifímaco, filho de Dolópio, alimentou o abandonado.3. Mais tarde, houve para a eles um presságio prevendo que Tróia não poderia ser capturada sem as flechas de Hércules. Então, como expedidores, Agamêmnon enviou Ulisses e Diomedes até ele, a quem persuadiram a se reconciliar e ajudar a lutar contra Tróia, e o levaram consigo.

CIII. PROTESILAU

Para os aqueus havia um presságio segundo o qual aquele que primeiro tocasse o solo troiano morreria. Tendo as frotas dos aqueus se aportado, e estando todos os demais hesitantes, Iolau, filho de Íficlo e de Diomede, saltou primeiro da nau e imediatamente foi morto por Hector. Todos o chamaram Protesilau, porque ele foi o primeiro a morrer dentre todos.2. Quando sua esposa Laodamia, filha de Acasto, ouviu que ele tinha morrido, chorando pediu aos deuses que a ela permitissem conversar com ele por três horas. Realizado seu desejo, ele foi conduzido por Mercúrio e ela conversou com ele por três horas. Tendo Protesilau morrido pela segunda vez, Laodamia não pode suportar a dor.

CIV. LAODAMIA

Tendo perdido seu marido, Laodamia, filha de Acasto, após terem se esgotado as três horas que solicitara aos deuses, não pode suportar o pranto e a dor. E assim, fez uma estátua de seu esposo Protesilau, em bronze, colocou-a em seu leito, sob o pretexto de realizar cerimônias sagradas, e passou a venerá-lo. 2. Em uma manhã, quando um criado levou-lhe frutas para o sacrifício, olhou por uma fenda e a viu, em um abraço, segurando e beijando a estátua de Protesilau. Pensando que ela tinha um amante, ele revelou isso ao pai dela, Acasto. 3. Quando ele veio e irrompeu no quarto nupcial, viu a estátua de Protesilau. Para que ela não se torturasse por mais tempo, ordenou que se queimasse a estátua e os objetos sagrados. Estando a pira preparada, e não suportando a dor, Laodamia se lançou e também foi queimada.

CV. PALAMEDES

Como Ulisses havia sido apanhado em um ardil de Palamedes, filho de Náuplio, maquinava dia após dia o modo como o mataria. Finalmente, tendo elaborado um plano, mandou que um soldado seu dissesse a Agamêmnon que tinha visto, em sonho, que deveriam levantar acampamento no prazo de um só dia. 2. Agamêmnon, acreditando que isso fosse verdade, ordenou que se levantasse acampamento no prazo de um só dia. Mas Ulisses, secretamente à noite escondeu, sozinho, uma grande quantidade de ouro no lugar onde havia sido montada a tenda de Palamedes. No mesmo sentido entrega uma carta escrita a um cativo frígio, para que ela fosse entregue a Príamo, e enviou, antes, um soldado seu para que matasse o cativo não longe do acampamento. 3. No dia seguinte, quando o exército voltava para o acampamento, um soldado levou a Agamêmnon a carta escrita por Ulisses, colocada sobre o cadáver do frígio, na qual estava escrito: “A Palamedes, enviada por Príamo”, prometendo a ele tanto ouro quanto o que Ulisses escondera na tenda, caso Palamedes entregasse a Príamo o acampamento de Agamêmnon, do modo como lhe fosse conveniente. 4. E assim, como Palamedes, conduzido até o rei, negava o ato, foram até sua tenda e desenterraram o ouro. Quando Agamêmnon o viu, acreditou que aquilo houvesse ocorrido de verdade. Por esse ato, Palamedes, inocente e apanhado pelo ardil de Ulisses, foi morto por todo exército.

CVI. O REGASTE DE HECTOR

Agamêmnon tomou de Aquiles a cativa Briseida, filha do sacerdote Briseu (de Mísia), que Aquiles havia capturado devido a sua notável beleza. Ao mesmo tempo devolveu Criseida a Crises, sacerdote de Apolo Esminteu. Por conta de sua ira, Aquiles não se apresentava para a batalha, e sim permanecia em sua tenda tocando a cítara. 2. Como os aqueus foram afugentados por Hector, Aquiles, censurado por Pátroclo, entregou a este suas armas. Com elas, este pôs em fuga os troianos, que acreditavam se tratar de Aquiles, e matou Sarpédon, filho de Júpiter e de Europa. Em seguida, o próprio Pátroclo foi morto por Hector, e suas armas foram tiradas de Pátroclo, morto. 3. Aquiles se reconciliou com Agamêmnon, que lhe devolveu Briseida. Quando, então, ele partiu sem armas ao encontro de Hector, sua mãe Tétis conseguiu para ele as armas de Vulcano, as quais as Nereidas trouxeram pelo mar. 4. Com essas armas, ele matou Hector e o arrastou em volta das muralhas troianas, amarrado a um carro. Como ele não queria entregar o corpo ao pai, para que fosse sepultado, Príamo, por ordem de Júpiter e guiado por Mercúrio, foi ao acampamento dos dânaos e aceitou trocar o corpo do filho pelo seu peso em ouro, e lhe deu sepultura.

CVII. O JULGAMENTO DAS ARMAS

Estando Hector sepultado, Aquiles vagava próximo aos muros de Tróia e dizia que, sozinho, havia tomado Tróia. Apolo, irado, simulando ser Alexandre Páris, atingiu com uma flecha o calcanhar de Aquiles – que, conforme se diz, era sua parte mortal -, e o matou.2. Morto e sepultado Aquiles, Ájax Telamônio, que era seu primo-irmão, solicitou aos dânaos que lhe dessem as armas de Aquiles. Devido à ira de Minerva, elas lhe foram negadas por Agamêmnon e Menelau, e dadas a Ulisses. 3. Ájax, tomado de furor, matou seu rebanho em seu delírio e tirou a própria vida com a espada que recebeu de Hector, como presente, enquanto lutava contra ele em uma batalha.

CVIII. O CAVALO DE TRÓIA

Como os aqueus, ao longo de dez anos, não conseguiam capturar Tróia, Epeu, por conselho de Minerva, fez um cavalo de madeira, de magnífica dimensão, dentro do qual se colocaram Menelau, Ulisses, Diomedes, Tersandro, Esténelo, Acamas, Toante, Macáon e Neoptólemo. E, no cavalo, escreveram: “Os dânaos entregam como presente para Minerva”, e mudaram o acampamento para Tênedos. 2. Quando os troianos viram isso, pensaram que os inimigos haviam partido. Príamo ordenou que o cavalo fosse conduzido à cidadela de Minerva, e proclamou que se realizasse uma grande festa. A profetisa Cassandra gritava, dizendo haver inimigos dentro dele, mas não lhe foi dada confiança. 3. Depois de colocá-lo na cidadela, chegada a noite eles mesmos adormeceram, fatigados, devido ao jogo e ao vinho. Os aqueus saíram do cavalo, aberto por Sínon, mataram os guardas dos portões, e, dado o sinal, receberam os companheiros e tomaram Tróia.

CIX. ILÍONA

Tendo nascido de Príamo e de Hécuba seu filho Polidoro,entregaram-no para sua filha Ilíona, que era casada com Polimnestor, rei da Trácia, para ser por ambos criado. Ela o criou como um filho seu. A Deípilo, entretanto, que ela tinha concebido de Polimnestor, Ilíona criou como seu irmão, a fim de que, se acontecesse algo a um deles, entregaria aos seus pais.2. Mas, como os aqueus, estando Tróia capturada, desejavam extinguir a linhagem de Príamo, lançaram da muralha Astíanax,filho de Hector e de Andrômaca,e enviaram embaixadores até Polimnestor, que a ele prometeram em casamento a filha de Agamêmnon, de nome Electra,e imensa quantidade de ouro, se assassinasse Polidoro, filho de Príamo. 3. Polimnestor não rejeitou a proposta dos embaixadores, e sem o saber,matou seu próprio filho Deípilo, acreditando ter assassinado Polidoro, o filho de Príamo. 4. Mas Polidoro tinha ido consultar o oráculo de Apolo a fim de se inteirar sobre seus pais,e a ele foi informado que a pátria estava incendiada, o pai assassinado, a mãe mantida cativa.5. Quando ele voltou de lá e viu que acontecia algo diverso do que lhe fora informado, de que era o filho de Polimnestor, perguntou a sua irmã Ilíona por que lhe teriam dito sortes tão distintas; a irmã lhe revelou qual era a verdade, e, por conselho dele,privou Polimnestor da visão e o matou.

CX. POLÍXENA

Quando os Dânaos, vitoriosos, ao partir de Ílio, embarcaram seu exército, e desejavam retornar a sua pátria, levando cada um seu butim, diz-se que de seu túmulo a voz de Aquiles reclamou sua parte no butim. E assim, os Dânaos sacrificaram no túmulo de Aquiles Políxena, filha de Príamo, que era uma jovem belíssima, por causa de quem ele, quando a buscava e ia conversar com ela, fora morto por Alexandre e Deífobo.

CXI. HÉCUBA

Quando Ulisses levou como escrava Hécuba, filha de Cisseu (ou, como outros autores dizem, de Dimas), esposa de Príamo e mãe de Hector, ela se lançou ao mar, em Helesponto, e diz-se que foi transformada em cachorra. Por esse motivo, o lugar foi denominado “Cineu”.

CXII. AQUELES QUE SE DESAFIARAM E CONTRA QUEM COMBATERAM

Menelau contra Alexandre, Vênus arrebatou dali Alexandre.Diomedes contra Enéias, Vênus salvou Enéias.O mesmo contra Glauco: tendo reconhecido vínculos de hospitalidade, apartaram-se.O mesmo contra Pândaro e outro Glauco: Pândaro e Glauco são mortos.2. Ájax com Hector, apartaram-se e trocaram presentes; Ájax presenteou com um boldrié Hector, pelo qual foi arrastado; Hector, com uma espada Ájax, com a qual este se suicidou.Pátroclo contra Sarpédon, Sarpédon é morto. 3. Menelau contra Euforbo, é morto Euforbo, que em seguida se converteu em Pitágoras e recordava que sua alma havia transmigrado entre os corpos.Aquiles contra Asteropeu, Asteropeu é morto. 4. O mesmo contra Hector, Hector é morto. O mesmo contra Enéias, Enéias foi posto em fuga. O mesmo contra Agenor, Apolo protegeu Agenor.O mesmo contra a amazona Pentesileia, filha de Marte e de Otrere, Pentesileia é morta.Antíloco contra Mêmnon, Antíloco é morto.Filoctetes contra Alexandre, Alexandre é morto.Neoptólemo com Eurípilo, Eurípilo é morto.

CXIII. QUEM MATOU QUAL NOBRE

Apolo matou Aquiles, sob a aparência de Alexandre. Hector matou Protesilau; o mesmo matou Antíloco. Agenor matou Elefenor; o mesmo matou Clônio; Deífobo matou Ascálafo; o mesmo matou Autônoo.2. Ájax matou Hipodamo; o mesmo matou Crômio. Agamêmnon matou Ifídamas; o mesmo matou Glauco. Ájax Locro matou Gárgaso; o mesmo matou †Gávio. Diomedes matou Dólon; o mesmo matou Reso.3. Eurípilo matou Nireu; o mesmo matou Macáon. Sarpédon matou Tlepólemo; o mesmo matou Ântifo. Aquiles matou Troilo. Menelau matou Deífobo. 4. Aquiles matou Astínomo; o mesmo matou Pilêmenes. Neoptólemo matou Príamo.

CXIV. QUE AQUEUS MATARAM E QUANTOS

Aquiles matou setenta e dois. Antíloco matou dois. Protesilau matou quatro. Peneleu matou dois. Eurípilo matou um. Ájax Oileu matou vinte e quatro. Toante matou dois. Leito matou vinte. Trasimedes matou dois. Agamêmnon matou dezesseis. Diomedes matou dezoito. Menelau matou oito. Filoctetes matou três. Meríones matou sete. Ulisses matou doze. Idomeneu matou treze. Leonteu matou cinco. Ájax Telamônio matou vinte e oito. Pátroclo matou cinquenta e três. Polipetes matou um. Teucro matou trinta. Neoptólemo matou seis. O número total prefaz: trezentos e sessenta e dois.

CXV. QUE TROIANOS MATARAM E QUANTOS

Hector matou trinta e um. Alexandre matou três. Sarpédon matou dois. Pântoo matou quatro. Gárgaso matou dois. Glauco matou quatro. Polídamas matou três. Enéias matou vinte e oito. Deífobo matou quatro. Clítio matou três. Acamas matou um. Agenor matou dois. O número total perfaz: oitenta e oito.

CXVI. NÁUPLIO

Capturada Ílio, e divido o butim, os dânaos, como retornavam para casa sob a ira dos deuses – pois haviam despojado os templos, e Ájax Locro havia arrebatado, da estátua de Palas, Cassandra -, naufragaram nos rochedos Carafeu, devido à tempestade e ventos contrários. 2. Nesta tempestade, Ájax Locro foi abatido por Minerva com um raio, e as ondas o lançaram contra os rochedos, que foram chamados “pedras de Ájax”. Quando os demais imploravam, à noite, pela ajuda dos deuses, Náuplio ouviu e percebeu ter chegado o momento de se vingar das injúrias contra seu filho Palamedes. 3. E assim, como se fosse para prestar ajuda a eles, apontou com uma tocha em chamas em direção a um lugar onde havia uns rochedos pontiagudos, e era muito perigoso. Aqueles, acreditando que isso era feito como forma de ajuda, conduziram as naus até ali, onde muitas delas se fizeram em pedaços, muitos soldados junto com seus comandantes foram mortos pela tempestade, e seus membros com suas vísceras foram lançados contra os rochedos. E, no caso de alguns que conseguiram nadar até terra firme, eram mortos por Náuplio. 4. Mas o vento levou Ulisses até Máron, e Menelau até o Egito. Agamêmnon chegou à pátria, junto com Cassandra.

CXVII. CLITEMNESTRA

Clitemnestra, filha de Tíndaro e esposa de Agamêmnon, ouviu de Éace, irmão de Palamedes, que Cassandra era trazida até sua casa como amante, o que era mentira de Éace para vingar as injúrias contra seu irmão. Então Clitemnestra, junto com Egisto, filho de Tiestes, elaborou um plano para matar Agamêmnon e Cassandra. Eles o mataram com um machado durante um sacrifício, junto com Cassandra.2. Mas Electra, filha de Agamêmnon, levou seu irmão Orestes, ainda menino, e, na região da Fócide, o confiou a Estófio, com o qual era casada Astíoque, irmã de Agamêmnon.

CXVIII. PROTEU

Diz-se que, no Egito, o velho Proteu era uma divindade marinha acostumada a se transformar em todas as figuras. Menelau, por conselho de Idótea, filha daquele, amarrou-o com uma corrente para que lhe dissesse quando retornariam para casa. 2. Proteu o informou sobre a ira dos deuses, por Tróia ter sido vencida, e que, por esse motivo, se deveria realizar o que em grego se diz “hecatombe”, um massacre de um rebanho de cem bois. E assim, Menelau realizou a hecatombe. Então, oito anos depois de deixar Ílio, finalmente retornou com Helena à pátria.

CXIX. ORESTES

Orestes, filho de Agamêmnon e de Clitemnestra, depois que atingiu a puberdade, desejava vingar a morte de seu pai. E assim, elaborou um plano junto com Pílades, e veio a Micenas, até sua mãe Clitemnestra, dizendo ser um hóspede eólio e informou que Orestes estava morto, pois Egisto recomendara ao povo que o matasse. 2. Não muito depois, Pílades, filho de Estrófio, veio até Clitemnestra e trouxe uma urna consigo, dizendo que os ossos de Orestes estavam ali guardados. Egisto, alegrando-se, recebeu-os como hóspedes. 3. Em uma ocasião oportuna, à noite, Orestes junto com Pílades mataram a mãe daquele, Clitemnestra, e Egisto. Como Tíndaro o acusava, a Orestes foi proporcionada a fuga por parte dos micenenses, em consideração ao seu pai. Depois, as Fúrias de sua mãe o perseguiram.

CXX. IFIGÊNIA TÁURICA

Quando as fúrias perseguiam Orestes, ele partiu para Delfos a fim de se informar sobre um modo se livrar, finalmente, dos seus sofrimentos. A resposta foi que ele se dirigisse à terra táurica, até o rei Toante, pai de Hipsípile, e que dali levasse a Argos a imagem do templo de Diana. Então, seria o fim de seus males. 2. Ao ouvir a predição, embarcou na nau com seu companheiro Pílades, filho de Estrófio, e rapidamente chegaram ao território táurico, onde havia o costume de se sacrificar no templo de Diana o hóspede que entrasse em suas terras. 3. Enquanto Orestes e Pílades se protegiam em uma caverna e esperavam uma oportunidade, foram surpreendidos por alguns pastores e levados até o rei Toante. De acordo com o costume, Toante ordenou que fossem conduzidos, amarrados, ao templo de Diana para que fossem sacrificados. Lá Ifigênia, irmã de Orestes, era sacerdotisa. Depois de descobrir, por meio de alguns sinais e indícios, quem eles eram e porque tinham vindo, dispensando os ajudantes, começou ela mesma a deslocar a imagem de Diana. 4. Quando o rei irrompeu e perguntou por que ela o fazia, mentiu e disse que os criminosos haviam contaminado a imagem. Uma vez que homens ímpios e criminosos haviam sido trazidos ao templo, era necessário levar a imagem ao mar, para purificá-la, e ordenou ao rei que proibisse os cidadãos a saírem da cidade. 5. O rei acatou as palavras da sacerdotisa. Surgida a oportunidade e com a imagem escondida, Ifigênia subiu na nau junto com seu irmão Orestes e Pílades, e foram conduzidos pelo vento favorável até a ilha de Esminteu, para junto de Crises, sacerdote de Apolo.

CXXI. CRISES

Quando Agamêmnon ia para a região de Tróia, Aquiles chegou à de Mésiae, trazendo consigo Criseida, filha do sacerdotede Apolo, deu-a em matrimônio a Agamêmnon. Crises, embora tivesse ido até Agamêmnon a fim de a ele suplicar que lhe devolvesse a filha, não o conseguiu. 2. Diante disso, Apolo destruiu quase todo seu exército, em parte pela fome, .Assim, Agamêmnon enviou de volta ao sacerdote Criseida, grávida, que, embora se dissesse ainda casta, chegado o momento deu à luz o mais novo Crises, e disse tê-lo concebido de Apolo. 3. Em seguida, quando Crisesquis devolvê-los a Toante, o velho Crises ouviu que Ifigênia e Orestes eram filhos de Agamêmnon, e †ele revelou a verdade para o seu filho: que eram eles irmãos e, Crises, filho de Agamêmnon. Revelada a situação, Crises, então, junto a seu irmão Orestes matou Toante e, com a estátua de Diana, salvos, chegaram a Micenas.

CXXII. ALETES

Um falso mensageiro veio até Electra, filha de Agamêmnon e de Clitemnestra e irmã de Orestes, e informou que seu irmão, juntamente com Pílades, havia sido sacrificado em homenagem a Diana, na Táurica. Tendo Aletes, filho de Egisto, entendido que ninguém da estirpe dos Atridas sobrevivera, empenhou-se em ocupar o trono de Micenas.2. Mas Electra partiu para Delfos a fim de inteirar-se sobre a morte de seu irmão. Tendo ali chegado, no mesmo dia chega Ifigênia com Orestes. O mesmo mensageiro que havia relatado sobre Orestes, disse ter sido Ifigênia a assassina do irmão.3. Quando ouviu isso, Electra retirou do altar um tronco de árvore em chamas e quis arrancar os olhos de Ifigênia, sem saber que esta era sua irmã; o que teria feito, se Orestes não tivesse intervindo. E assim, conhecidos os fatos, chegaram a Micenas, e Orestes matou Aletes, filho de Egisto, e quis matar Erígone, filha de Clitemnestra e de Egisto; mas Diana a raptou e a fez sacerdotisa em terras Áticas.4. No entanto, tendo sido morto Neoptólemo, Orestes tomou por esposa Hermíone, a filha de Menelau e Helena;Pílades, por sua vez, casou-se com Electra,filha de Agamêmnon e de Clitemnestra.

CXXIII. NEOPTÓLEMO

Neoptólemo, filho de Aquiles e de Deidamia, teve o filho Anfíalo com sua cativa Andrômaca, filha de Eécion. No entanto, quando ouviu mais tarde que sua prometida Hermione havia sido dada em casamento a Orestes, veio à Lacedemônia e solicitou sua noiva a Menelau. 2. Este não quis descumprir sua palavra com ele, tirou Hermione de Orestes e a entregou a Neoptólemo. Orestes, ao receber tal injúria, matou Neoptólemo enquanto ele realizava sacrifícios em Delfos, e recuperou Hermione. Os ossos daquele foram espalhados pelo território da Ambrácia, que fica na região do Epiro.

CXXIV. OS REIS DOS AQUEUS

Foroneu, filho de Ínaco. Argo, filho de Júpiter. Peranto, filho de Argo. Tríope, filho de Peranto. Pelasgo, filho de Agenor. Dânao, filho de Belo. Tântalo, filho de Júpiter. Pélops, filho de Tântalo. Atreu, filho de Pélops. Têmeno, filho de Aristômaco. Tiestes, filho de Pélopa. Agamêmnon, filho de Atreu. Egisto, de Tiestes. Orestes, de Agamêmnon. Tisâmeno, de Orestes. Alexandre, de Euristeu.

CXXV. ODISSÉIA

Ulisses, quando voltava de Ílio para sua pátria, Ítaca, foi desviado por uma tempestade até os cícones,cuja cidade, Ísmaro, atacou e distribuiu os despojos aos companheiros. 2. Dali foi em direção aos lotófagos, homens em nada maliciosos, que comiam lótus, uma flor que nascia das folhas; e este tipo de alimento proporcionava tanta doçura que os que o provavam eram tomados por um esquecimento quanto à sua volta para casa. Enviados por Ulisses até os lotófagos, dois companheiros, ao provarem das ervas a eles oferecidas, esqueceram-se de retornar às naus, e ele próprio os reconduziu, atados. 3. Dali foi em direção ao ciclope Polifemo, filho de Netuno. Para este, havia um presságio do augúrio Têlemo, filho de Êurimo: que cuidasse para não ser cegado por Ulisses. O ciclope tinha apenas um olho no meio da testa e se alimentava de carne humana. Após reconduzir o rebanho para a caverna, ele colocava diante da entrada uma imensa rocha. 4. Ele confinou Ulisses com seus companheiros, e começou a devorar os companheiros dele.Ulisses, vendo que não era possível deter a crueldade e ferocidade do ciclope, embriagou-o com o vinho que recebera de Máron, e disse que se chamava “Ninguém”.Assim, enquanto ele queimava com um tronco ardente o olho do outro, este chamou os demais ciclopes aos gritos, e lhes disse, da gruta obstruída: “Ninguém me cegou”. Aqueles, acreditando que ele dizia aquilo por zombaria, ignoraram-no. Ulisses, então, prendeu seus companheiros a ovelhas, e a si próprio a um carneiro, e desse modo escaparam 6. em direção a Éolo, filho de Helen, a quem havia sido dado por Júpiter o poder sobre os ventos. Ele recebeu Ulisses em generosa hospitalidade, e deu-lhe de presente foles cheios de ventos. Porém, os companheiros, quando receberam os foles, acreditando que continham ouro e prata, e os querendo repartir entre si, desataram-nos secretamente, e os ventos escaparam. Foi novamente conduzido até Éolo, por quem foi expulso, pois parecia que Ulisses tinha contra si a vontade dos deuses. 7. Foi até os lestrigões, cujo rei era Antífates , devorou e destruiu onze de seus navios, exceto aquele com o qual escapou, tendo seus sócios sido devorados. 8. Chegou à ilha de Enária, até Circe, filha do Sol, a qual costumava transformar homens em animais selvagens dando-lhes uma poção. Enviou até ela Euríloco, na companhia de vinte e dois companheiros, cuja aparência humana ela modificou. Euríloco, que, temendo,não havia entrado, fugiu de lá e o comunicou a Ulisses, que sozinho se dirigiu até ela. Mas, no caminho, Mercúrio deu-lhe um antídoto e mostrou de que modo enganar Circe. 9. Depois de chegar à presença de Circe e aceitar dela um copo, ministrou o antídoto seguindo a instrução de Mercúrio, empunhou a espada e ameaçou matá-la caso ela não restituísse a si seus companheiros. 10. Circe, então, percebeu que não fora sem a vontade dos deuses que isso havia acontecido. Desse modo, dada a sua palavra de que nunca mais cometeria tal ato, restituiu a forma anterior dos companheiros dele, deitou-se ela própria com ele, de quem teve dois filhos, Nausítoo e Telégono. 11. Dali ele partiu ao lago Averno, desceu às regiões inferiores, onde encontrou seu companheiro Elpenor, que ele havia deixado junto a Circe, e interrogou-o acerca do modo como ele havia chegado até ali. Elpenor lhe respondeu que, bêbado, havia caído de uma escada e quebrado o pescoço, e suplicou a ele que, quando voltasse às regiões superiores, sepultasse-o e colocasse em seu túmulo um timão. 12. Nesse lugar, Ulisses falou com sua mãe Anticleia acerca do fim de sua errância. Em seguida, tendo retornado às regiões superiores, deu sepultura a Elpenor, e, assim como este havia pedido, fincou em seu túmulo um timão. 13. Então chegou até as Sereias, filhas de Aquelôo e da Musa Melpômene, as quais tinham a parte superior em forma de mulher, porém a inferior em forma de ave. Seu destino era viver por tanto tempo quanto nenhum mortal, ao ouvir seus cantos, passasse por elas. Ulisses, instruído por Circe (filha do Sol), tapou com cera os ouvidos dos companheiros e ordenou que eles o amarrassem ao mastro e, desse modo, passou por elas. 14. Dali chegou até Cila, filha de Tífon, cuja superior do corpo era em forma de mulher, e a inferior (desde o ventre), em forma de peixe. Ela mantinha seis cães, dela nascidos, e devorou seis companheiros de Ulisses, arrancados da nau.15. Ele tinha chegado à ilha da Sicília, onde estava o gado sagrado do Sol. Quando os companheiros cozinhavam em um caldeirão de bronze o gado, este começou a mugir, tendo sido Ulisses instruído por Tirésias e instruído por Circe a não o tocar. Assim, por esse motivo perdeu nesse lugar muitos companheiros e foi conduzido até Caríbdis, por três vezes ao dia sorvia água, e três vezes a vomitava; por instrução de Tirésias, passou por ela.Mas, devido à ira do Sol, pois o gado dele havia sido profanado (tendo chegado à ilha, por instrução de Tirésias Ulisses proibiu seus companheiros de violar o gado; apesar disso, quando dormiu profundamente, eles o roubaram; assim, enquanto cozinhavam, as carnes dentro do caldeirão de bronze davam berros), Júpiter incendiou a nau dele com um raio.16. Partindo desse lugar, perdidos seus companheiros devido ao naufrágio, errante, nadou até a ilha Eeia. a ninfa Calipso, filha de Atlante, tomada pela aparência de Ulisses, reteve-o por um ano inteiro e não quis libertá-lo até que Mercúrio, sob ordem de Júpiter, advertiu a ninfa que o libertasse. 17. E ali, tendo construído uma embarcação, Calipso o libertou, equipado com diversos tipos de provisões. Netuno destruiu com suas ondas tal embarcação, pois aquele havia privado da visão o ciclope, seu filho. Ali, sendo ele arrojado pelas ondas, Leucótea, a quem nós chamamos “Mãe Manhã”,que vive no mar, deu-lhe um cinturão para que ele prendesse a seu peito, a fim de que não afundasse. Tendo feito isso, salvou-se a nado. 18. Dali chegou à ilha dos feácios e, nu, cobriu-se com folhas das árvores, no local em que Nausícaa, filha do rei Alcínoo, levava uma veste para ser lavada no rio. Ele arrastou-se por entre as folhagens e pediu a ela que lhe prestasse auxílio. Ela, movida pela piedade, cobriu-o com um manto e o conduziu até seu pai. 19. Alcínoo o recebeu com generosa hospitalidade e o enviou, tendo recebido presentes e tendo-se ornamentado, à pátria Ítaca. A ira de Mercúrio provocou, novamente, um naufrágio. Após o vigésimo ano, tendo perdido os companheiros, retorna sozinho à pátria, e, não tendo sido reconhecido pelos homens, ao chegar a sua casa viu os pretendentes que, assentados em seu palácio, solicitavam Penélope em casamento e fingiu ser um estrangeiro. 20. E sua própria nutriz, Euricleia, enquanto lava-lhe os pés percebe, por meio de uma cicatriz, tratar-se de Ulisses. Depois disso, mediante a ajuda de Minerva, com seu filho Telêmaco e dois servos matou os pretendentes a flechadas.

[Dejoneu gerou a Céfalo; Céfalo, a Arcésio; Arcésio, a Laertes; Laertes, a Ulisses; Ulisses (de Circe), a Telêgono; (de Penélope), a Telêmaco; Telêgono (de Penélope, esposa de Ulisses), a Ítalo, que designou a Itália a partir de seu nome; de Telêmaco nasceu Latino, que a partir de seu nome denominou a língua latina].