Hesíodo, Trabalhos e Dias

Uma Descrição da Vida em Micenas

Jan Cossiers 1600–1671

A obra Trabalho e Dias começa com um relato sobra a origem da humanidade, mas na verdade é um manual detalhado para a vida no campo na Grécia Antiga, relatando minúcias específicas da agricultura, pecuária, navegação, escolha de uma esposa, orações e muito mais. Ela foi escrita por volta do ano 750 a.C., cujo autor Hesíodo foi um homem do campo, rústico e conservador, que sentia o peso do mundo e da injustiça humana sobre si.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por Alessandro Rolim de Moura.

 

Trabalhos e Dias

Índice

Proêmio
As Duas Lutas
Prometeu e Pandora
As Cinco Raças
A Justiça
Ética no Trabalho
Relações Sociais e a Família

 

Proêmio [1-9]

Musas da Piéria, que dais glória com canções, vinde; em hinos cantai Zeus, vosso pai. Através dele os homens mortais ficam igualmente sem fama e famosos; deles se fala ou se silencia por meio de Zeus grande. Ele facilmente fortalece, facilmente os fortes esmaga; facilmente diminui o ilustre e exalta o obscuro, endireita o torto e o arrogante enfraquece, Zeus altitonante que habita excelsos palácios.

Escuta, Zeus, vendo e ouvindo, e com justiça endireita as sentenças! Quanto a mim, gostaria de dizer verdades a Perses, [irmão com com quem Hesíodo teve uma disputa na herança paterna] .

 

As Duas Lutas [10-40]

Ora, não houve apenas um nascimento de Lutas [Éris], mas sobre a terra existem duas. Quando alguém observa uma delas, considera louvável; a outra é digna de censura: elas têm ânimos diversos.

Uma promove a guerra má e a disputa, é a cruel. Nenhum mortal a ama, mas por necessidade, pela vontade dos deuses, têm de honrar a Luta pesada. A outra, a primeira, gerou-a a Noite escura, e o filho de Crono, Zeus sentado em alto trono, habitante do éter, colocou-a nas raízes da terra; é bem melhor para os homens: ela leva ao trabalho mesmo a pessoa sem meios. Pois um homem sente falta de trabalho ao olhar para outro que, rico, apressa-se a arar, plantar e administrar bem sua casa, e um vizinho procura igualar o outro que se apressa em alcançar a fartura. Essa Luta é boa para os mortais. O oleiro irrita-se com o oleiro, o carpinteiro com o carpinteiro; o mendigo inveja ao mendigo, o poeta ao poeta.

Ó Perses, coloca essas coisas no teu espírito, e que a Luta que se compraz no mal não te afaste do trabalho para assistir a litígios, atento aos discursos da praça pública. Na verdade, litígios e discursos pouco importam a quem não possui em estoque sustento abundante colhido no tempo certo, os frutos de Deméter, que a terra traz. Estando deles saciado, poderias promover litígios e disputas sobre bens alheios.

Não te será possível, contudo, uma segunda vez assim agir, mas, sem mais, decidamos nosso litígio com julgamentos justos, que vêm de Zeus, os melhores. Pois de fato já tínhamos dividido a herança, e tu muitas outras coisas agarravas e levavas, prestando grandes honras aos juízes devoradores de presentes, que se dispõem a dar esse veredicto.

Tolos! Não sabem quanto a metade é maior do que o todo [a justiça reside no meio-termo] nem quão grande proveito existe na malva e no asfódelo [comida humilde].

 

Prometeu e Pandora [41-104]

É que os deuses mantêm escondido dos humanos o sustento. Pois senão trabalharias fácil, e só um dia, e, mesmo ocioso, terias o bastante para o ano. Logo colocarias o timão sobre a lareira, os trabalhos dos bois e das mulas incansáveis desapareceriam. Mas Zeus escondeu-o, encolerizado em seu coração, porque o enganara Prometeu de curvo pensar. Por isso maquinou amargos cuidados para os humanos, e escondeu o fogo.

Por sua vez, o bom filho de Jápeto roubou-o do sábio Zeus para dá-lo aos humanos numa férula oca, passando despercebido a Zeus a quem alegra o trovão. Encolerizado, disse-lhe Zeus que ajunta nuvens:  “Filho de Jápeto, mais que todos fértil em planos, alegras-te de ter roubado o fogo e enganado minha inteligência, o que será uma grande desgraça para ti próprio e para os homens futuros. Para compensar o fogo lhes darei um mal, com o qual todos se encantarão em seu espírito, abraçando amorosamente seu próprio mal. Assim falou, e riu alto o pai de homens e deuses.

Então ordenou ao ilustre Hefesto que o mais rápido possível misturasse terra com água e ali infundisse fala e força humanas, e que moldasse, de face semelhante à das deusas imortais, uma forma bela e amável de donzela; depois ordenou a Atena que lhe ensinasse trabalhos, a tecer uma urdidura cheia de arte; a Afrodite dourada, que lhe espargisse a cabeça com graça, penoso desejo e inquietação que devora os membros. Que nela colocasse uma mente desavergonhada e um caráter fingido, ordenou a Hermes mensageiro, o matador do monstro Argos. Assim falou, e eles obedeceram a Zeus soberano, filho de Crono.

Logo o célebre deus coxo moldou-a da terra, à semelhança de uma virgem respeitável, seguindo a vontade do filho de Crono; deu-lhe um cinto e enfeitou-a a deusa Atena de olhos brilhantes; as deusas Graças e augusta Persuasão envolveram seu corpo com joias douradas; as Horas de belas cabeleiras coroaram-na com flores primaveris; Palas Atena ajeitou no seu corpo todo o ornamento. Então, o mensageiro matador de Argos fez em seu peito mentiras, palavras sedutoras e um caráter fingido, por vontade de Zeus que grave troveja; assim o arauto dos deuses nela colocou linguagem [voz articulada], e chamou essa mulher Pandora, porque todos os que têm moradas olímpias deram essa dádiva, desgraça para os homens que vivem de pão.

Depois, quando completou o irresistível profundo engano, o Pai enviou a Epimeteu o célebre matador de Argos, o rápido emissário dos deuses, levando o presente. E Epimeteu não pensou no que lhe dissera Prometeu: nunca um presente aceitar de Zeus olímpio, mas mandar de volta, para que não venha a ser um mal para os mortais. Mas ele, depois de o receber, bem quando tinha o mal, compreendeu.

Antes, de fato, as tribos dos humanos viviam sobre a terra sem contato com males, com o difícil trabalho ou com penosas doenças que aos homens dão mortes. E rapidamente em meio aos males os envelhecem. Mas a mulher, removendo com as mãos a grande tampa de um jarro, espalhou-os, e preparou amargos cuidados para os humanos. Sozinha ali ficava a Antecipação [esperança], na indestrutível morada, dentro, abaixo da boca do jarro, e para fora não voou. Pois antes baixou a tampa do jarro por vontade de Zeus que ajunta nuvens, o detentor da égide.

Mas outras incontáveis tristezas vagam entre os homens. Na verdade, a terra está cheia de males, cheio o mar; doenças para os humanos, algumas de dia, outras à noite, por conta própria vêm e vão sem cessar, males aos mortais levando em silêncio, já que privou-as de voz Zeus sábio. Assim, de modo algum pode-se escapar à inteligência de Zeus.

 

Mito das Cinco Raças [105-201]

Mas se queres te farei em resumo outro relato, bem e habilmente narrado, e tu coloca-o no teu espírito: como nasceram da mesma fonte os deuses e os humanos perecíveis.

Primeira de todas entre os humanos de fala articulada, fizeram os imortais que têm moradas olímpias uma raça de ouro. Eles existiram no tempo de Crono, quando este reinava no céu; como deuses viviam, o coração sem cuidados, sem contato com sofrimento e miséria. Em nada a débil velhice estava presente, mas, sempre iguais quanto aos pés e às mãos, alegravam-se em festins, fora de todos os males, e morriam como que vencidos pelo sono. Tudo o que é bom possuíam: a terra fecunda produzia seu fruto espontaneamente, muito e de bom grado. Eles, voluntária e tranquilamente repartiam os trabalhos, tendo bens abundantes. Ricos em rebanhos, eram queridos dos deuses bem-aventurados. Mas desde que a terra encobriu essa raça, eles são divindades pela vontade de Zeus grande, nobres, terrestres, guardiões dos humanos perecíveis. Eles vigiam as sentenças e as cruéis ações, vestidos de bruma, vagando por toda a terra, distribuidores de riquezas: obtiveram esse privilégio de reis.

Então uma segunda raça, e muito pior, depois fizeram os que têm moradas olímpias, a de prata, que não se assemelhava à de ouro nem em corpo nem em pensamento. Mas o filho junto à mãe querida por cem anos era nutrido, um grande tolo brincando em sua casa. Mas quando tornavam-se adolescentes e alcançavam a flor da idade, viviam por pouco tempo, padecendo dores com sua insensatez, pois não podiam conter uma presunçosa insolência uns para com os outros, nem queriam servir aos imortais nem sacrificar nos santo altares dos bem-aventurados, como é justo para os humanos, conforme os costumes. Depois Zeus filho de Crono, encolerizado, escondeu-os, porque não honravam os deuses bem-aventurados que habitam o Olimpo. Mas desde que a terra encobriu também essa raça, eles são chamados bem-aventurados mortais subterrâneos, secundários, mas de qualquer modo também acompanhados de honra.

E Zeus pai uma outra raça de humanos de fala articulada, a terceira, de bronze fez, em nada igual à de prata, mas nascida de freixos, terrível e vigorosa; eles se ocupavam dos funestos trabalhos de Ares e de violências, e trigo não comiam, mas tinham um coração impetuoso, de aço. Eram toscos; grande força física e braços invencíveis cresciam de seus ombros sobre um corpo robusto. Suas armas eram de bronze, de bronze suas casas, trabalhavam com bronze: negro ferro não existia. Vencidos por suas próprias mãos, desceram à mansão bolorenta do gélido Hades, anônimos: também a eles, embora espantosos, a morte negra os conquistou, e deixaram a esplendente luz do sol.

Mas quando a terra encobriu também essa raça, de novo ainda outra, a quarta sobre a terra que muitos nutre, Zeus filho de Crono fez, mais justa e valorosa, a raça divina dos homens heróis, que são chamados semideuses, a geração anterior à nossa na terra imensurável. Esses, destruíram-nos a guerra má e o combate medonho, uns sob as muralhas de Tebas de sete portas, terra de Cadmo, quando lutavam pelos rebanhos de Édipo; outros, levando-os em naus sobre o grande abismo do mar, para Troia, por causa de Helena de coma adorável. Lá o termo da morte envolveu, sim, alguns deles; a outros, conferindo-lhes vida e moradia à parte dos humanos, Zeus pai, filho de Crono, estabeleceu-os nos limites da terra. E eles, o coração sem cuidados, habitam as ilhas dos bem-aventurados, junto ao Oceano de fundos redemoinhos, afortunados heróis, para quem um fruto doce como o mel, que floresce três vezes ao ano, a terra fecunda traz. Longe dos imortais sobre eles reina Crono. [Pois o próprio] pai de deuses e homens libertou-o, e agora, já] com eles, tem honra, como convém.

Então Zeus fez outra raça [de humanos de fala articulada,daqueles que hoje] têm nascido sobre a terra que muitos nutre. Que eu não mais fizesse parte então da quinta raça de homens, mas tivesse morrido antes ou nascido depois. Pois a raça agora é bem a de ferro. Nem de dia terão pausa da fadiga e da miséria, nem à noite deixarão de se consumir: os deuses lhes darão duras preocupações.

Mas mesmo para tais homens hão de se misturar bens aos males. Zeus destruirá também essa raça de humanos de fala articulada, quando acabarem nascendo já com as têmporas grisalhas. Nem o pai será concorde com os filhos, nem os filhos com o pai, nem hóspede com anfitrião, nem companheiro com companheiro; nem um irmão será querido, tal como era antes. Desprezarão os pais logo que envelheçam, e vão repreendê-los proferindo duras palavras, os cruéis, ignorando a vingança divina; e nem mesmo dariam aos velhos pais retorno pelo alimento que tiveram na infância. O direito da força: um saqueará do outro a cidade. Nenhum apreço haverá por quem é fiel aos juramentos, pelo justo ou pelo bom: antes o malfeitor e o homem-violência19 honrarão. A sentença estará na força; reverência não existirá. O cobarde fará mal ao homem de maior valor com discursos tortuosos, e a seguir dirá “juro”.

A inveja todos os humanos miseráveis acompanhará, voz dissonante, face odiosa, comprazendo-se no mal. Será então que, da terra de largos caminhos, partindo para o Olimpo, a bela tez a cobrir com véus brancos, irão ter com a tribo dos imortais, deixando os humanos, Reverência e Indignação. E ficarão para trás dores amargas para os humanos perecíveis: não haverá defesa contra o mal.

 

A Justiça [202-285]

Agora uma fábula narrarei para os reis, sábios que sejam. Assim disse um falcão a um rouxinol de colo pintalgado que arrebatara com suas garras e levava bem no alto entre as nuvens, e que, trespassado pelas garras recurvas, pateticamente chorava; o falcão lhe disse, com ar superior: “Ó desgraçado, por que gritas? Alguém muito superior agora te domina. Irás aonde eu te levar, embora sejas poeta: farei de ti meu jantar, ou, se quiser, te libertarei. Insensato é quem quer medir-se com os mais fortes. É privado da vitória e, além da vergonha, dores padece.” Assim falou o falcão de rápido voo, pássaro de longas asas.

Ó Perses, ouve a Justiça e não aumentes a desmedida [violência]. A desmedida é um mal para um mortal pobre, e nem o nobre pode carregá-la com facilidade, mas é abatido por seu peso ao deparar-se com Desvarios. O outro caminho, para chegar ao justo, é melhor; a justiça sobrepuja a desmedida quando chega ao fim: sofrendo, o tolo o compreende. Pois o Juramento, a correr, segue de perto as sentenças distorcidas.Ouve-se o clamor da Justiça arrastada por onde a conduzem os homens devoradores de presentes, e julgam com sentenças distorcidas. Ela os acompanha deplorando a cidade e os costumes do povo, vestida de bruma, levando o mal aos humanos que a repelem e não a distribuem retamente.

Os que para estrangeiros e conterrâneos dão sentenças retas, e em nada se desviam do justo, para esses a cidade prospera e nela o povo floresce; na terra vigora a Paz nutriz de jovens, e jamais para eles Zeus que vê longe reserva a penosa guerra; jamais aos homens de retas sentenças acompanham a Fome e ο Desvario; em festins eles repartem os frutos de seus trabalhos. Para eles a terra produz meios de vida abundantes; nas montanhas o carvalho produz, no alto, a glande, e, no meio, abelhas; as ovelhas de espesso tosão ficam carregadas de lã. As mulheres geram filhos semelhantes aos pais; prosperam continuamente com bens; e em naus não partem: a terra fecunda produz seu fruto.

Mas os que se ocupam da perversa desmedida e de cruéis ações, o filho de Crono, Zeus que vê longe, lhes reserva uma pena. Frequentemente até mesmo toda a cidade sofre com um homem mau, quem quer que seja, que peca e maquina iniquidades. O filho de Crono lhes traz do céu grande desgraça, fome e ao mesmo tempo peste, e o povo perece; as mulheres não dão à luz e as casas minguam pela prudência de Zeus olímpio. Mas outras vezes ele lhes destrói o vasto exército ou mesmo a muralha, ou o filho de Crono os faz pagar com as naus no mar.

Ó reis, refleti também vós mesmos sobre essa lei: perto, entre os humanos, em verdade, estão os imortais, e observam quantos com sentenças distorcidas prejudicam uns aos outros, sem se importar com o olhar dos deuses. Pois sobre a terra que muitos nutre são trinta mil imortais a serviço de Zeus, guardiões dos humanos perecíveis. Eles vigiam as sentenças e as cruéis ações, vestidos de bruma, vagando por toda a terra.

Justiça é virgem nascida de Zeus, nobre e venerável para os deuses que habitam o Olimpo; e toda vez que alguém a fere, acusando tortamente, imediatamente ela senta-se ao lado de Zeus pai, filho de Crono, e canta os intentos injustos dos homens, para que pague o povo pela arrogância dos reis que, tramando ruínas, desviam a justiça de seu caminho, a falar tortamente. Observando tais coisas, reis, endireitai vossas palavras, ó devoradores de presentes, e esquecei de todo as sentenças distorcidas. Para si próprio faz mal o homem que faz mal a outrem, e um mau intento é o pior para quem por ele se decidiu.

O olho de Zeus, tudo vendo e tudo compreendendo, também agora isto, se quiser, observa, e não lhe escapa qual de fato é esta justiça que a cidade pratica internamente. Agora, eu próprio não quero mais entre os humanos ser justo, nem meu filho, já que é mau ser um homem justo se quem é mais injusto obtiver maior vantagem da justiça: mas de modo algum penso que Zeus prudente dará às coisas tal conclusão.

Ó Perses, coloca essas coisas no teu coração,e agora dá ouvidos à Justiça, e esquece de todo a força. Pois o filho de Crono fixou para os humanos esta lei: que peixes, feras e pássaros alados devorem-se uns aos outros, já que justiça não há entre eles; mas para os humanos deu a justiça, que é de longe o melhor, pois se alguém quiser dizer coisas justas consciente disso, Zeus que vê longe lhe dá prosperidade.

Mas quem em testemunho deliberadamente fizer um juramento e mentir, ferindo a justiça, erra por cegueira incurável,  e depois deixa uma descendência mais fraca; a descendência de um homem fiel aos juramentos será melhor.

 

Uma Ética no Trabalho [286-340]

Eu falarei com a melhor das intenções, ó Perses, grande tolo: miséria aos montes te é possível tomar facilmente: plano é o caminho, e ela mora bem perto. Mas na frente da prosperidade colocaram o suor os deuses imortais, e longa e íngreme é a estrada para ela, e espinhosa no início; quando chega-se ao alto, em seguida já é fácil, por difícil que seja. Este é o homem de todo excelente: quem tudo compreende por si só, pensando no futuro e nas coisas que levam a um fim melhor.

Também é nobre quem é convencido por quem diz boas coisas; mas quem nem compreende por si só nem, ouvindo a outro, coloca no espírito seus conselhos, esse é um homem inútil. Mas tu, sempre lembrado do meu conselho, trabalha, Perses, ó divina prole, para que a Fome te odeie, e te ame Deméter de bela coroa, a venerável, e encha o teu celeiro de alimento. A Fome é em tudo a companheira do homem ocioso; deuses e homens se indignam com quem ocioso vive, semelhante em caráter aos zangões sem ferrão, que consomem o esforço das abelhas, ociosos a comer; para ti seja caro organizar os trabalhos regrados, de modo que os teus celeiros se encham de alimento no tempo certo. Com trabalho os homens tornam-se ricos em rebanhos e opulentos, e trabalhando serás muito mais querido dos imortais e dos mortais: muito eles odeiam os ociosos.

O trabalho não é nenhuma desonra; desonra é não trabalhar. E se trabalhares, logo o ocioso procurará igualar tua riqueza: ao rico acompanham mérito e prestígio. Qualquer que seja tua fortuna, trabalhar é preferível, se o teu louco espírito dos bens alheios desvias para o trabalho e atentas para a subsistência, como te ordeno. A vergonha não é boa para cuidar de um homem necessitado, a vergonha, que aos homens muito prejudica e beneficia: a vergonha liga-se à pobreza tal como a audácia à prosperidade.

Bens não são para roubar: os presentes dos deuses são bem melhores. Pois se alguém pela força do braço grande fortuna conquista, ou a arrebata pela língua, coisas que muitas vezes acontecem, toda vez que a cobiça engana a inteligência dos humanos, e a Impudência expulsa a Reverência, facilmente os deuses enfraquecem tal homem e rebaixam sua casa, e a prosperidade o acompanha por pouco tempo.

O mesmo acontece a quem maltratar um suplicante ou um hóspede, ou subir à cama de seu próprio irmão para os abraços clandestinos da esposa deste, ato sem cabimento, ou quem impensadamente ofender teus filhos órfãos, ou quem ao pai idoso no malvado limiar da velhice injuriar, dirigindo-se a ele com palavras duras. Contra eles indigna-se o próprio Zeus, e no fim dá uma dura resposta às ações injustas.

Tu, porém, delas afasta por completo o louco espírito. De acordo com tua capacidade faz sacrifícios aos deuses imortais de modo limpo e puro, e queima brilhantes coxas; outras vezes torna-os favoráveis com libações e incenso, tanto ao te deitares como quando a sagrada luz do dia chegar, de forma que eles tenham coração e espírito para ti favoráveis, e tu compres a gleba dos outros, não os outros a tua.

 

Relações Sociais e a Família [342-382]

Aquele que é amigável, chama-o para o banquete; quem é hostil, deixa-o; sobretudo chama aquele que mora perto de ti. Pois se te acontece alguma coisa na tua terra, os vizinhos vêm sem atar o cinto, enquanto parentes se preparam.O mau vizinho é penoso, tanto quanto o bom é grande proveito: tem sua parte de honra quem tem por sorte um vizinho nobre, nem um boi se perderia se não fosse um mau vizinho.

Deves medir bem o que emprestas do vizinho, retribuir corretamente com a mesma medida e, se puderes, mais, para que tenhas com quem contar caso mais tarde necessites. Não ganhes desonestamente: ganhos desonestos são iguais a desastres.

Ama a quem te ama, liga-te a quem te procura. Doa a quem doar, e não does a quem não doar. Doa-se a um doador, a um não-doador ninguém doa. A Doação é boa, a Rapina, má, e doadora de morte. O homem que, voluntariamente, doar, mesmo algo grande, alegra-se com o presente e compraz-se em seu espírito. Mas quem toma algo por conta própria, confiando na impudência, mesmo que tome algo pequeno, isso gela o coração. Pois se colocares pequeno sobre pequeno e o fizeres com frequência, rapidamente pode tornar-se grande. Quem acrescenta ao que tem afasta a fome ardente; coisa guardada em casa não preocupa o homem: e é melhor que esteja em casa, pois o que está fora perturba.

É bom tomar do que está presente, penoso para o espírito desejar o que está ausente: exorto-te a considerar tais coisas. Farta-te no começo do jarro e quando está acabando; no meio sê econômico: economia no fundo é desprezível.

O salário combinado com um homem amigável lhe seja assegurado. Mesmo com um irmão faz contrato diante de testemunha, mas com um sorriso: tanto confiança como desconfiança já destruíram homens. E uma mulher com roupa que chama a atenção para o traseiro não te engane a tagarelar lisonjas, a revistar o teu celeiro: quem acredita em mulher acredita em ladrões.

Que haja um filho unigênito para os bens paternos preservar, pois assim a riqueza cresce na casa. E que morras velho, deixando outra criança [um neto]. Ainda que facilmente Zeus possa dar indizível prosperidade para mais: com mais gente maior é o cuidado com o trabalho, e maior o excedente. Se em teu peito o espírito aspira à riqueza, assim faz, e trabalha em trabalho sobre trabalho.

 

Trabalho com a Terra e as Estações do Ano [383-

Quando as Plêiades filhas de Atlas se levantam no céu, começa a colheita; quando se põem, a lavra; por quarenta noites e dias elas estão escondidas; e, passando o ano, de novo aparecem pela primeira vez na época de se afiar o ferro.

Existe esta norma para as terras cultiváveis, para as que perto do mar se estendem e para os vales cheios de ravinas, terreno fértil longe do mar encapelado: semearás nu, nu ararás e nu colherás, se quiseres na estação certa cuidar de todos os trabalhos de Deméter, para que cada fruto cresça na estação própria, para de forma alguma depois necessitado mendigares nas casas alheias e nada conseguires.

Foi assim que agora vieste a mim; mas eu não te darei nada, nem emprestarei a mais. Trabalha, tolo Perses, nos trabalhos que os deuses marcaram para os humanos, para nunca, sofrendo no espírito, com as crianças e a mulher buscares sustento junto aos vizinhos, que não se importarão.

Duas ou três vezes poderás talvez fazê-lo; mas se além disso incomodares, coisa alguma alcançarás, e terás dito muitas coisas vãs: inútil será tua pastagem de palavras. Mas te aconselho a pensar no pagamento das dívidas e na defesa contra a fome.

Tem, em primeiro lugar, uma casa, uma mulher e um boi para arar (a mulher, não uma esposa, mas uma escrava que possa seguir os bois).34 Faz as coisas em casa, todos os equipamentos, para que não peças a um outro e ele recuse, tu daquilo tenhas falta, o tempo passe e teu trabalho se perca.

Não adies para amanhã nem depois de amanhã,

 

(410) pois não enche o celeiro o homem negligente, nem aquele que adia: a atenção faz o trabalho prosperar. O homem que adia o trabalho está sempre a lutar com Desastres.

Quando arrefece a intensidade do sol brilhante,

seu ardor que faz suar, quando chove no outono

(415) Zeus poderosíssimo, e muda a tez dos mortais, agora bem mais aliviada (pois é então que a estrela Sírius sobre as cabeças dos humanos que comem e morrem passa apenas por curto período do dia, e tem maior parcela da noite), então a madeira cortada pelo ferro fica mais livre de caruncho,

(420) as folhas derramam-se pela terra, cessam os brotos. Então, lembra-te, corta árvores, trabalho da estação. Pilão de três pés corta, pisão de três braças, eixo de sete pés: assim com certeza é adequado.

Se cortares um madeiro de oito pés, dele farás também um martelo.

(425) Corta uma roda de três palmos para uma carroça de dez, e muitos pedaços curvados; se encontrares um em formato de teiró,35 leva

para casa – procura-o na colina ou no campo,de azinheira, que na verdade é a mais forte para arar com os bois,quando um servo de Atena36 a fixa no dente

(430) com pregos e, ajustando, acopla ao timão. Faz dois arados, trabalhando em casa, um com teiró de formato natural e outro montado — assim é bem melhor: se quebrares um deles, atrelarás aos bois o outro.

De loureiro ou olmo são os timões mais resistentes ao caruncho,

(435) de carvalho o dente, de azinheira a teiró. Dois bois de nove anos37 adquire, pois sua força não é fácil de abater, estando na flor da idade: são os melhores para trabalhar. Eles não vão lutar no sulco, o arado quebrar e deixar o trabalho para trás, inútil.

(440) Que os conduza um homem robusto de quarenta anos alimentado com um pão de quatro pedaços em oito porções, alguém que, cuidando do trabalho, faça um sulco reto,

não mais buscando, com o olhar inquieto, outros da sua idade, mas no trabalho mantendo o espírito; um outro, nada mais jovem, é melhor

(445) para espalhar as sementes e evitar semeadura excessiva, pois o homem mais novo voa atrás dos da sua idade. Observa quando ouvires a voz do corvo que grasna todo ano do alto das nuvens; ela traz o sinal para arar e para o tempo do inverno

(450) chuvoso aponta, e morde o coração do homem sem bois.

Já então engorda no curral os bois de chifres recurvos. Pois é fácil dizer: “dá-me dois bois e um carro”, mas fácil recusar: “mas os bois têm trabalho a fazer”. O homem rico em ideias pensa em construir um carro:

(455) tolo! Não sabe que um carro se faz com cem tábuas, e que antes vem o cuidado de juntá-las em casa.              Quando a estação da semeadura aparece pela primeira vez aos mortais, lançai-vos ao trabalho, tu mesmo e os servos, arando a terra seca ou úmida no tempo da semeadura,

(460) muito esforçando-te logo de manhã, para que teus campos fiquem abundantes. Ara na primavera, mas a terra arada de novo no verão não te decepcionará.

Semeia a terra de pousio quando o solo ainda está solto: a terra de pousio protege contra a morte e tranquiliza as crianças.38

Ora a Zeus ctônio e a Deméter pura:

(465) que o trigo santo de Deméter amadureça pesado; ora logo no início da semeadura, quando, o cabo da rabiça tomando na mão, deres com a vara nas costas dos bois que puxam a cavilha do jugo com a correia. Um pouco atrás, o servo, segurando o enxadão, imponha sofrimento aos pássaros

(470) encobrindo as sementes, pois uma boa organização é o melhor para os humanos perecíveis, e uma má organização é o pior.  Assim as espigas maduras vão se inclinar para o chão, se depois um bom resultado o próprio Olímpio conceder; tu tirarás as teias de aranha dos potes, e espero

(475) que te alegrarás ao tomares dos recursos que estão dentro.

Chegarás em boa situação à primavera de céu claro, e sobre os outros não fixarás teu olhar, mas um outro homem terá de ti necessidade. Mas se apenas no solstício de inverno arares a terra divina, agachado farás a colheita pegando pouco com a mão,

(480) atando um feixe ao contrário do outro,39 coberto de poeira e sem grande alegria.

Vais levá-los embora num cesto, e poucos olharão para ti. Mas o desígnio de Zeus porta-égide é diferente em tempos diferentes, e é difícil de conhecer para os homens mortais.

Se arares mais tarde, eis aqui para ti um remédio:                               (485) quando o cuco nas folhas do carvalho diz cuco pela primeira vez, e agrada aos mortais sobre a terra imensurável, no terceiro dia possa Zeus chover continuamente, sem contudo cobrir os cascos do boi nem deixá-los de todo à mostra: assim o que ara tardiamente pode se igualar ao que o faz cedo.

(490) Observa bem isso tudo no teu espírito, e não te esqueças nem da chegada da primavera brilhante nem da estação das chuvas.  Passa direto pela forja e pelo abrigo quente40 no tempo do inverno, quando o frio mantém os homens longe dos trabalhos: então um homem ativo pode aumentar muito seus bens,

(495) para que a Incerteza do duro inverno não te alcance com a Indigência, nem apertes o pé inchado com a mão franzina.41 O homem ocioso, vivendo para esperança vã, carente de sustento, medita muitas maldades.42

A esperança não é boa para cuidar de um homem necessitado

(500) sentado no abrigo, sem bastante sustento.

Mostra aos servos, quando o verão ainda está na metade: “não será verão para sempre; fazei vossas cabanas”.

O mês Lenáion, de maus dias, todos para esfolar gado, evita-o, e também às geadas, que sobre a terra

(505) são impiedosas quando sopra o Bóreas, que, pela Trácia nutriz de cavalos, por sobre o largo mar soprando o agita, e mugem a terra e a floresta; e sobre muitos carvalhos de altas frondes e grossos abetos nas ravinas ele cai e traz ao chão, à terra que muitos nutre,

(510) e então toda a floresta imensa ressoa; os animais tremem e põem o rabo entre as pernas: sua pele é coberta de pelos, mas agora o frio Bóreas sopra através deles, mesmo sendo de peito cabeludo.

Ele também atravessa o couro do boi –

(515) este não o consegue parar –,sopra através da cabra de longos pelos, mas não através das ovelhas: porque é espesso o seu pelo, não as atravessa o forte sopro do Bóreas. Este faz o velho correr, mas não sopra através da virgem de pele macia, que fica dentro de casa junto à mãe querida,

(520)

sem conhecer ainda os trabalhos da multidourada Afrodite; lavando bem a pele delicada e com azeite brilhante a ungindo, vai dormir bem no interior da casa num dia invernal, quando o sem-osso rói seu pé43 em sua casa sem fogo, deplorável morada,

(525) pois o sol não lhe mostra um lugar de pasto aonde correr, mas sobre o país e a cidade dos homens negros vai e vem, e brilha mais lentamente para os gregos. E então os animais com chifres e sem chifres que dormem nos bosques, rangendo os dentes tristemente, para os matagais das ravinas

(530) fogem; ocupam-se do mesmo em seu coração todos que, desejando um abrigo, têm esconderijo bem fechado numa gruta rochosa. Então, semelhantes a um mortal de três pés,44 as costas curvadas e a cara voltada para o chão, semelhantes a ele vêm e vão, evitando a neve branca.

(535) Então usa uma proteção para a pele, como te ordeno:

um manto macio e uma túnica até os pés; tece abundante trama em espaçada urdidura. Cobre-te com isso, para que teus pelos não tremam nem fiquem de pé, arrepiados, levantados por sobre o corpo.             (540) Aos pés ata calçados de couro de um boi abatido, bem ajustados, revestidos com feltro no interior. Peles de cabritos recém-nascidos, toda vez que o tempo frio chegar, costura com tendão de boi, para que nas costas jogues um abrigo para chuva. Sobre a cabeça

(545) tem um chapéu bem-feito, para que não encharques as orelhas, pois a aurora é fria depois que sopra o Bóreas, e na aurora, do céu estrelado para a terra se espalha uma névoa sobre os trabalhos férteis dos bem-aventurados; ela, buscando água nos rios sempre-correntes,

(550) levada acima da terra por uma tempestade de vento, às vezes chove à tarde, às vezes sopra quando o trácio Bóreas leva densas nuvens em confusão.

Adiantando-se a ele, ao terminar o trabalho, volta para casa, para que nunca te envolva uma nuvem escura vinda do céu,

(555) deixe tua pele molhada e encharque tuas roupas. Evita-o, pois esse mês é o mais difícil do inverno, difícil para os rebanhos e difícil para os humanos.  Então dá para os bois a metade, para o homem a maior parte da ração, pois as longas noites vêm em socorro.45

(560) Observando tais coisas até que o ano complete o seu ciclo, equilibra as noites e os dias, até que novamente a Terra mãe de todos traga fruto variegado. Quando, depois das voltas do sol, Zeus completa sessenta dias invernais,46 então o astro

(565) Arcturo, deixando a corrente sagrada do Oceano, primeiro aparece de madrugada, todo brilhante.

Depois dele, a filha de Pandíon, a andorinha que cedo lamenta, surge à luz para os homens, estabelecida há pouco a primavera. Adiantando-se a ela, poda as videiras, pois assim é melhor.

(570) Mas quando o carrega-casa47 subir da terra às plantas, fugindo das Plêiades, então não é mais tempo de cavar vinhas; mas afia as foices e desperta os servos. Foge do sentar-se à sombra e do sono de manhã no tempo da colheita, quando o sol seca a pele.

(575) Então apressa-te e leva o fruto para casa, de pé desde a alvorada, para que tenhas bastante sustento. Pois a aurora faz a terça parte do trabalho; a aurora de fato faz progredir no caminho e também no trabalho, a aurora, que aparecendo faz avançarem na estrada muitos

(580) humanos, e coloca o jugo sobre muitos bois.

Quando o cardo floresce e a cigarra sonora, pousando numa árvore, derrama um canto claro e constante de sob as asas, na estação do verão cansativo, é então que as cabras são mais gordas, o vinho melhor,

(585) as mulheres mais lascivas e os homens mais fracos, pois Sírius queima a cabeça e os joelhos, e a pele resseca sob o calor. Mas então é o tempo da sombra de uma rocha, um vinho biblino, um pão da melhor farinha, leite de cabras esgotadas,48

(590) carne de vaca que pastou nos bosques e ainda não pariu e de cabritos recém-nascidos. Daí bebe o vinho ardente, sentado à sombra, o coração satisfeito com a comida, a face voltada para o frescor do Zéfiro.

De límpida fonte corrente sempre a fluir                                             (595) serve três partes de água para uma de vinho. Exorta os servos a debulhar o trigo santo de Deméter quando primeiro aparecer a força de Órion, em lugar bem ventilado e numa eira arredondada.

Medindo o trigo, em cestos leva-o com cuidado. Mas quando

(600) depositares todo o sustento pronto dentro de casa, a arranjar trabalhador sem casa e procurar uma serva sem filhos te aconselho, pois é complicada uma empregada com cria.

Cuida também de um cão de dentes afiados (não economizes na sua comida), para que nunca um homem que dorme de dia roube tuas coisas.

(605) Leva para casa feno e palha, o bastante para os bois e as mulas. E então que os servos descansem os joelhos e tirem o jugo dos bois.  Quando Órion e Sírius chegarem ao meio do céu e a dedirrósea Aurora vir Arcturo,

(610) ó Perses, então colhe todos os cachos de uva e leva-os para casa. Deixa-os no sol por dez dias e dez noites, na sombra por cinco, e no sexto derrama em jarros o presente de Dioniso, o cheio de alegria. Mas quando as Plêiades, as Híades e a força de Órion

(615) se põem, então é o tempo de lembrar-se da semeadura, e que o ano esteja preparado sob a terra.49

ensInamentos sobre navegação

E se te tomar o desejo da navegação tempestuosa: quando as Plêiades, da força poderosa de Órion fugindo, caem no mar nebuloso,

(620) então os sopros de todos os ventos lançam-se furiosamente. Então não mantenhas barcos no mar cor de vinho, mas trabalha a terra, lembrando-te do que ordeno.

Puxa o barco para a terra firme e o rodeia com pedras de todos os lados, contendo assim a fúria úmida

(625) dos ventos que sopram, e retira o tampão do fundo do barco, para que a chuva de Zeus não o apodreça. Coloca em tua casa todo o equipamento bem ajustado, em boa ordem dobrando as asas da nau que atravessa o mar; o timão bem trabalhado sobre a lareira suspende.

Tu próprio, espera que venha o momento certo para a navegação.           (630) Então arrasta a rápida nau para o mar, e dentro a carga adequada dispõe, para que leves lucro para casa – assim meu e teu pai, ó Perses, seu grande tolo, necessitando de um bom sustento, costumava navegar em barcos.

Um dia aqui chegou, depois de cruzar muito mar,                               (635) deixando a eólia Cime numa nau negra, não para fugir à abundância, à riqueza, à prosperidade, mas sim à pobreza má, que Zeus dá aos homens. Veio morar perto do Hélicon, num vilarejo miserável,

Ascra, ruim no inverno, difícil no verão, nunca boa.

(640) E tu, Perses, lembra-te dos trabalhos todos na hora certa, sobretudo quanto à navegação. Elogia a nau pequena, mas põe tua carga numa grande:quanto mais carga, mais lucro sobre lucro, se os ventos retiverem os maus sopros.

(645) Quando quiseres fugir à necessidade e à fome triste voltando o louco espírito para o mercado, mostrarei a ti as medidas do mar de altos bramidos, eu que nem sou instruído em navegação ou em navios.

Na verdade eu nunca naveguei sobre o largo mar,

(650) a não ser para Eubeia partindo de Áulis, onde uma vez os Aqueus, esperando o fim do inverno, reuniram um grande exército da Hélade sagrada para ir a Troia de belas mulheres. De lá, para os jogos do valoroso Anfidamante eu fiz a travessia a Cálcis: muitos prêmios anunciados

(655) os filhos do herói magnânimo colocaram em jogo. E me orgulho de ali, vencendo com um hino, ter levado uma trípode com asas,50 que eu dediquei às Musas do Hélicon, onde elas primeiro me puseram no caminho do canto claro.

Tal foi de fato minha única experiência com naus bem pregadas,

(660) mas mesmo assim direi o desígnio de Zeus porta-égide, pois as Musas me ensinaram a cantar um hino extraordinário.51           Cinquenta dias depois do solstício, quando vai para o fim o verão, estação de cansaço,

é para os mortais a hora certa de navegar. Então a nau                       (665) não quebrará nem o mar aniquilará teus homens, se de propósito Posídon abalador da terra ou Zeus rei dos imortais não os quiser destruir, pois com eles está igualmente o fim das coisas boas e das más.

Então as brisas estão regulares e o mar propício;

(670) tu, seguro, confiando nos ventos, a rápida nau arrasta até o mar e coloca nela toda a tua carga. Esforça-te para voltar para casa o mais rápido possível: não esperes o vinho novo e a chuva do fim do verão, o inverno que vem a seguir e os temíveis sopros do Noto,

(675) que levanta o mar, acompanhando a chuva de Zeus abundante no fim do verão, e torna o mar difícil.

Existe uma outra navegação para os humanos: a da primavera. Logo que o tamanho da pegada que a gralha faz andando parecer aos homens igual ao das folhas

(680)

na ponta de um ramo de figueira, então o mar é navegável. Essa é a navegação da primavera; quanto a mim, não a recomendo; não me agrada em meu coração.

É um instante para agarrar; dificilmente fugirias ao mal; mas até isso os humanos realizam, mentes ignaras:

(685) pois a propriedade é o sopro da vida para os infelizes mortais. E é horrível morrer entre as ondas. Mas te aconselho a pensar sobre tudo isso em teu coração, conforme te digo. Não coloques todo o teu sustento em côncavas naus, mas deixa a maior parte e carrega a menor,

(690) pois é terrível encontrar a desgraça entre as ondas do mar, e é terrível, se colocas fardo excessivo no carro, quebrar o eixo e a carga se estragar. Observa a medida: o oportuno é em tudo o melhor.

 

outros conselHos sobre relações socIaIs

No tempo certo desposa uma mulher,

(695) quando faltarem não muitos anos para alcançares os trinta, ou sem ultrapassares muito essa idade: é o casamento no tempo certo.

A mulher, na puberdade por quatro anos, deve se casar no quinto.

Desposa uma virgem, para que lhe ensines sábios costumes;

{de preferência casa-te com uma mulher que mora perto de ti,}

(700) olhando bem tudo à volta: não desposes um motivo                                             de riso para os vizinhos. Pois um homem não consegue nada melhor que uma mulher boa, mas não há coisa mais horrível que uma má, à espreita de jantares, que ao homem, mesmo sendo vigoroso,

assa-o sem chama e entrega à velhice prematura.

(705) {Observa bem o olhar dos imortais bem-aventurados.} Não trata um amigo como um irmão, mas, se o fizeres, não sejas o primeiro a agir mal com ele, nem uses linguagem mentirosa.52 E se ele começar, falando ou agindo de modo odioso,

(710) lembra-te de dar punição duas vezes maior. Mas se de novo procurar a tua amizade, e quiser oferecer reparação, aceita: bem miserável o homem que a cada momento muda de amigos: que em nada a tua intenção desminta a tua aparência.

Não te chamem homem de muitos hóspedes ou

(715) de nenhum hóspede, nem companheiro dos maus ou alguém em rixa com os bons. Nunca a pobreza maldita, corruptora do coração, a um homem ouses censurar, pois é coisa dada pelos bem-aventurados eternos. O maior tesouro entre os humanos é uma língua econômica; o maior favor encontra uma língua que fala na medida.

(720) Se disseres algo mau, rapidamente algo pior ouvirás. Não sejas rabugento num banquete com muitos convidados: com despesas repartidas o prazer é maior e o gasto menor.

 

conselHos sobre relIgIão; prátIcas a serem evItadas

Nunca na aurora faças libações de vinho ardente a Zeus sem lavar as mãos, nem a outros imortais,

(725) pois assim não te ouvem, e cospem de volta tuas orações. Evita mijar de pé voltado para o sol, e lembra-te, desde o ocaso até o amanhecer, de não urinar no caminho nem fora dele ao caminhares, nem completamente nu: as noites pertencem aos bem-aventurados.

(730) Agachado o faz quem é homem religioso, conhecedor do que é sábio, ou aproximando-se do muro de um pátio bem cercado. E não apareças com os genitais salpicados de esperma perto do altar da casa, mas evita-o.

Nem depois de voltar de um funeral (mau agouro!)

(735) concebas prole, mas vindo de um banquete dos deuses.53

Nunca a água que corre bela dos rios sempre-fluentes atravesses a pé antes de rezares olhando para a bela corrente, tendo lavado as mãos com água límpida, tão amável.

Quem atravessa um rio sem lavar sua maldade e suas mãos,

(740) com ele os deuses se indignam e depois lhe dão dores. Nem cortes do galho de cinco ramos, no rico banquete dos deuses,

o seco do verde com o ferro ardente.54

E nunca coloques o jarro de verter vinho sobre a cratera dos que estão bebendo, pois destino funesto a isso se liga.

(745) Fazendo uma casa, não a deixes com saliências, para que uma gralha gritadora não pouse no teu teto a grasnar. Nem tomes de caldeirões não consagrados para comeres ou te lavares, já que nisso também há castigo. Nem ponhas sentado sobre invioláveis55 (pois não é vantagem)

(750) um menino de doze dias – deixa um homem sem virilidade –, nem um de doze meses: ocorre o mesmo.

Com a água do banho de uma mulher não se lave um homem: também a isso liga-se, por um tempo, triste castigo. Nem te deparando com sacrifício a queimar

(755) critiques os ritos: também com isso o deus fica irado. Nunca nas águas dos rios que correm para o mar nem em fontes urines: evita-o completamente. Nem ali evacues: isso não é aconselhável.56

Faz assim; e foge ao terrível rumor dos mortais,

(760) pois o rumor é mau, rápido para se criar com grande facilidade, penoso para suportar, difícil de deixar de lado. Nenhum rumor se destrói completamente quando muita gente o divulga: é que também ele é um deus.

 

Os Dias

(764) Os dias vindos de Zeus observa bem conforme o lote de cada um, e mostra-os aos servos: o dia trinta do mês é o melhor para supervisionar os trabalhos e distribuir o alimento, quando o povo julga corretamente ao celebrá-lo.57 Estes dias vêm da parte de Zeus sábio: para começar, são dias sagrados o primeiro, o quatro, o sete

(770) (pois neste Leto deu à luz Apolo de espada de ouro), o oito e o nove. Dois dias do mês crescente58 são superiores para aprontar os trabalhos dos mortais: o dia onze e o doze, e ambos são bons para tosar ovelhas e colher o fruto benévolo,

(775) mas o doze é muito melhor que o onze, pois nele tece os fios a aranha que voa no alto59 ao meio-dia, quando a que sabe60 junta a sua pilha.

Que nesse dia a mulher coloque de pé o tear e se entregue ao trabalho.

No dia treze depois do início do mês evita

(780) começar a semeadura; mas ele é o melhor para transplantar mudas. O seis do meio61 é muito nocivo para as plantas, mas bom para nascerem meninos. Já para uma menina não é conveniente, nem para nascer nem para contrair núpcias.

Nem o primeiro seis é adequado para uma menina nascer,                 (785) mas sim para castrar cabritos e carneiros, e para fazer o cercado das ovelhas é um dia favorável. É bom para um menino nascer: mas poderá amar troças, mentiras, palavras sedutoras e companhias secretas.

No dia oito do mês, o javali e o boi de mugido sonoro

(790) castra, e as mulas trabalhadeiras no dia doze. No grande vinte, em pleno dia, homem sábio nasce: será em verdade de inteligência bem consistente. O dez é bom para menino nascer, e para menina o quatro

do meio. Neste, doma ovelhas, bois de chifres recurvos

(795) e andar ondulante, o cão de dentes afiados e as mulas trabalhadeiras, colocando sobre eles a mão. Tem em mente evitar o dia quatro do fim do mês62 e do início para devorar o espírito com dores: é dia inteiramente sagrado.

E no quatro do mês leva para casa uma esposa,

(800) tomando às aves os melhores auspícios para essa empresa. Evita os dias cinco, pois são difíceis e terríveis: pois dizem que no cinco as Erínias cuidaram do Juramento recém-nascido, que a Luta deu à luz                                   como punição dos perjuros.63

O sete do meio é para joeirar o trigo santo de Deméter

(805) na eira arredondada, olhando com cuidado; que nele o lenhador corte madeira para o quarto de dormir e muitas tábuas para os navios, que se adaptem bem a uma nau; e no dia quatro começa a pregar barcos estreitos.

O nove do meio é melhor à tarde,

(810) mas o primeiro nove é todo ele inofensivo para os humanos. Na verdade ele é bom para plantar e para nascer, tanto para homem quanto para mulher. Nunca é um dia de todo mau. Por outro lado, poucos sabem que o três-nove do mês64 é ótimo para começar um jarro65 e colocar o jugo no pescoço

(815) dos bois, mulas e cavalos de pés rápidos, e para a rápida nau de muitos bancos para o mar cor de vinho puxar, e poucos o chamam pelo seu nome verdadeiro. Abre o jarro no quatro – entre todos dia sagrado –, no do meio. E poucos sabem que o vinte e um do mês é excelente

(820) depois da aurora: à tarde é pior.

Esses dias são para os que habitam sobre a terra um grande proveito; outros dias são de presságios mutáveis, são privados de destino, nada trazem, e cada um louva um dia, mas poucos conhecem. Às vezes um dia é madrasta, às vezes mãe.

(825) Feliz quanto aos dias e próspero aquele que, isso tudo sabendo, trabalhar sem ofender os deuses, tomando às aves auspícios e evitando transgressões.

 

 

 

 

  • Possivelmente já uma referência aos julgamentos injustos dos “reis devoradores de presentes” que serão mencionados em 38-39.
  • Irmão de Hesíodo, com o qual este tem desavenças quanto à divisão da herança paterna (ver 27 et sqq.).
  • Aqui Hesíodo corrige a própria Teogonia 225, onde apenas uma Luta (Ἔρις) é mencionada.
  • Os “reis” são provavelmente membros da nobreza encarregados da administração da justiça.
  • A justiça reside no meio-termo.
  • Dieta frugal. Ver outra interpretação em Clay, 2003, p. 36-37.
  • Cessando os trabalhos da navegação, o timão é assim guardado para que não apodreça.
  • Na divisão do boi sacrificado em uma reunião entre os deuses e os homens, conforme a Teogonia 535-564. Vernant, 1992 [1974], p.154-170, é um estudo clássico do mito prometeico em Hesíodo, comparando a versão da Teogonia com a dos Trabalhos.
  • Seguindo Mazon, 1914, p. 56, “linguagem” é minha proposta de tradução para φωνήν (79), com o fim de distinguir essa palavra de αὐδήν (61), que verti como “fala”, embora os dois vocábulos gregos admitam a mesma tradução, “voz”. Desde a Antiguidade chama a atenção dos comentadores o fato de Zeus ter ordenado a Hefesto que colocasse em Pandora uma “voz” humana (ἐν δ’ ἀνθρώπου θέμεν αὐδήν), ao passo que, na cena que descreve como as ordens de Zeus foram colocadas em prática, o deus coxo aparentemente não o faz, e é Hermes quem coloca nela uma “voz” (ἐν δ’ ἄρα φωνήν / θῆκε). A autenticidade do verso 79, consequentemente, foi colocada em dúvida (por exemplo, por Bentley e Rzach). Não fica claro se Hesíodo via alguma diferença de sentido entre as duas palavras, e qual seria essa diferença. Os antigos dão explicações contraditórias: nos escólios, por vezes φωνή é tida como a faculdade da fala articulada, e ela aparece assim, ou com sentidos análogos (“língua”, “dialeto”), em Ésquilo, Sófocles, Heródoto e Platão (ver Sinclair, 1932, ad 79); mas outros comentadores antigos dão esse significado a αὐδή (veja-se o contraste entre os escólios 77-78 e 77a, p. 40 Pertusi). De fato, o testemunho de Homero aduzido por West, 1978, ad 79 (Il. 19.407), sugere o significado de fala articulada para essa palavra. Tampouco os modernos estão de acordo em suas diversas interpretações (cf. Verdenius, 1985, ad 61, 79). Para reproduzir ο uso de duas palavras diferentes no original, pretendo sugerir com “fala” e “linguagem” dois níveis de articulação diferentes para a voz de Pandora. Note-se que a Teogonia 39 traz as duas palavras juntas num contexto que trata do canto das Musas.
  • Epimeteu (“o que pensa depois”) é irmão de Prometeu (“o que pensa antes”).
  • Este verso (93) falta em diversos testemunhos manuscritos e é idêntico a Hom. Od. 19.360. É pouco adequado ao contexto e normalmente considerado espúrio.
  • Supostamente, o sujeito subentendido é “a mulher”, mencionada pela última vez, todavia, em 94.
  • O sentido do verbo ἐκκορυφώσω é controverso: discussão em Wilamowitz, 1928, West, 1978, e Verdenius, 1985, ad loc.
  • Considerado suspeito por Solmsen, 1990, entre outros, esse verso não está necessariamente em contradição com o fato de os deuses terem criado os homens. O que o texto dá a entender é que no início havia proximidade entre os mortais e os imortais (ver 112), mesmo porque esses dois tipos de seres têm uma origem comum na Terra (563 e Píndaro Nemeias1-2) e muitos heróis são filhos de deuses (ὁμόθεν indica parentesco, mas também proximidade no espaço: ver LSJ s.v.). Os humanos posteriores à raça de ouro, mostra Hesíodo, têm se afastado paulatinamente dos deuses, o que culminará, no fim da raça de ferro, com a partida de Reverência e Indignação (197-200).
  • Pode-se traduzir ἔργα como “trabalhos”, mas também como “frutos do trabalho”, e daí os sentidos “terras cultivadas”, “riquezas”, “propriedades”. O verbo νέμω, usado aqui na voz média, pode ser “distribuir entre si” (de um grupo), “gozar de”, “possuir”, “pastar, alimentar-se, comer”. Mazon, 1914, p. 63, propõe “viviam de seus campos”. Lê-se paráfrase análoga em West, 1978, ad loc., embora ele reconheça que a conotação de “trabalhos” para ἔργα não está ausente do verso, o que o faz considerar a escolha da palavra um tanto inadequada (em sua tradução de 1988, West traz “harvested their fields”). Ver também as traduções em Pinheiro e Ferreira, 2005, Jiménez e Díez, 1978, e Eyth, 1855-1906. Já Verdenius, 1985, ad 119, p. 83, afirma que ἔργα “pode ter o sentido de ‘comida’ sem a implicação de que era necessário trabalho para produzi-la”, o que não parece muito convincente, ainda menos com o exemplo da Odisseia 318 citado em apoio a essa interpretação.
  • O verso 120 está ausente dos manuscritos de Hesíodo que possuímos, apare-cendo somente em uma citação de Diodoro Sículo (5.66.6), e por isso é tido como acréscimo posterior. Menor consideração ainda merece o verso 113a (ver aparato crítico e Livrea, 2008, p. 52-53).
  • Estes versos (124-125) são idênticos a 254-255. Omitidos em diversos testemunhos antigos (ver aparato crítico), são rejeitados pela maioria dos editores.

18 Num ponto do poema que estaria entre esta passagem e o verso 174, dois papiros nos fornecem os restos de versos ausentes da tradição medieval. Um dos papiros em questão (P. Berol. 21107) posiciona o antigo verso 169 depois de 173, razão pela qual aquele passou a ser chamado 173a. Os fragmentos de versos preservados apenas nos papiros, por sua vez, geraram a sequência 173b-e. Para edições desses papiros, ver Nicole, 1888, e Maehler, 1974. A tradução acima é em grande parte conjectural, feita com base em reconstituições propostas por diferentes filólogos, para as quais remeto o leitor ao original e ao aparato crítico (os colchetes da tradução tentam dar uma ideia do estado fragmentário dos versos, mas só com o texto grego é possível compreender com exatidão o que realmente está preservado). A autenticidade do trecho é questionada por vários especialistas, principalmente pelo fato de a Teogonia (717-721, 729-735 e 851) dizer que Crono foi aprisionado no Tártaro por Zeus, embora Hesíodo possa muito bem ter assumido uma postura diferente nos Trabalhos, a exemplo do que fez com as Lutas (ver acima n. aos versos 11-12; cf. Livrea, 2008, p. 45-46). Já a crítica antiga expressava dúvidas em relação a 173a e um verso (ou versos) na sequência (ver Scholia uetera ad 160α, p. 64 Pertusi), o que terá ocasionado o quase total desaparecimento da passagem. Como parece sugerir West, 1978, p. 194, a expressão τηλοῦ ἀπ’ ἀθανάτων do verso 173a soa mal como continuação da frase de 173 (a não ser que seja pensada, com outra pontuação, como uma referência à situação de Crono – ainda longe dos deuses do Olimpo, mas já livre). O foco em Crono, porém, fica estranhο na conclusão do trecho sobre os heróis. Colocar a passagem toda depois de 168 ocasionaria, é claro, uma confusão ainda maior. Uma conjectura possível seria a transposição para lá apenas de 173a-c, mantendo 173d-e onde estão. Note-se, no entanto, que os dois papiros mencionados acima não coincidem em nem sequer uma letra nos fragmentos que hoje compõem 173b-e, o que torna as reconstruções ainda mais incertas e nos leva a manter o trecho entre chaves, muito embora Livrea, 2008, defenda a autenticidade da passagem como um todo.

  • Aqui Hesíodo utiliza um substantivo, ὕβριν, como atributo de outro substantivo, ἀνέρα.
  • Esta fábula (no sentido consagrado sob o nome de Esopo) é a primeira manifestação do gênero na literatura ocidental que conhecemos.

21 A palavra ὕβρις, termo de amplo significado em grego, e que traduzi anteriormente por “insolência” (134) e “violência” (146 e 191), será vertida a partir de agora com “desmedida”, vocábulo relativamente novo no português, mas que já foi utilizado por outros tradutores e helenistas. Como assinala

  • No grego, estes versos são idênticos a 124-125.
  • A analogia entre a atividade da Justiça (γηρύετ’ ἀνθρώπων ἄδικον νόον) e a das Musas na Teogonia 28 (ἀληθέα γηρύσασθαι) é menosprezada por Verdenius, 1985. West, 1978, por sua vez, não acredita que o verbo γηρύω tenha aqui alguma conotação ligada ao canto. Poderíamos, no entanto, fundar nesse paralelo a ideia de que a Justiça, enquanto tema de importância central no poema, “canta” a denúncia dos homens maus. Hesíodo, poeta inspirado pelas Musas tanto aqui quanto na Teogonia, é o instrumento desses cantos de verdade e justiça.
  • O verso 310 falta em todos os papiros que contêm a passagem e nos dois manuscritos medievais mais antigos (embora uma mão mais recente tenha-o acrescentado à margem em C). Rejeitam-no, por exemplo, Rzach, 1913, Wilamowitz, 1928, Sinclair, 1932, Colonna, 1959, e West, 1978, seguido por Verdenius, 1985 (que não oferece nenhum argumento adicional). A presença da linha em E e H, contudo, pode indicar que se trata de uma lição herdada da Antiguidade, e a suposta frase sem verbo de ligação em 309 seria corriqueira no grego, o que torna forçada a ideia de que 310 teria surgido em resposta à “sintaxe elíptica” daquele (West, 1978, ad loc., seguindo Wilamowitz, 1928, p. 78: “Veranlassung der Interpolation war wohl das Fehlen der Kopula”). Por outro lado, as razões semânticas apresentadas por West são um tanto vagas e sugerem hesitação: “If it [sc. 310] were in all manuscripts, one would hardly venture to question its authenticity; ‘gods and men’ echoes 303, and connects well with what follows. But ‘rich in flocks’ goes with ‘dear to the gods’, not with ‘dear to gods and men’, and the φιλεῖν/στυγεῖν axis is not appropriate to men’s attitude towards the industrious and the idle”. Paley, 1883, e Most, 2006, aceitam o verso.
  • A construção de 312-313, σε ζηλώσει ἀεργὸς / πλουτεῦντα, é paralela à de 23-24, ζηλοῖ δέ τε γείτονα γείτων / εἰς ἄφενος σπεύδοντ’.
  • Este verso, por faltar na primeira mão de um dos manuscritos e ser quase idêntico a uma linha homérica (Il. 24.45), é por alguns (e.g. Mazon, 1928, ad loc.) considerado produto de um interpolador. Mas, como observa West, 1978, ad loc., a frase se encaixa melhor aqui do que lá, e, se houve interpolação, é mais provável que tenha ocorrido nos manuscritos de Homero. Pode tratar-se, contudo, de provérbio anterior aos dois poetas.
  • Assim como a arrogância pode surgir como um vício típico dos ricos, a vergonha pode ser um vício para o homem necessitado, se a ideia de que o trabalho não é ocupação honrosa impede que se busque nele uma saída para a pobreza (ver 299 e 311).
  • Em caso de emergência, os que moram perto acorrem tal como estão. O paren-tesco em que Hesíodo pensa é aquele constituído por casamento.
  • Diz Proclo (Scholia uetera ad 353-354, p. 119 Pertusi): “Plutarco rejeita esses versos

[aparentemente, 354-355]. Pois estando o poeta prestes a dizer que doar é próprio dos bons e como se alegram ao doar, seria absurdo dizer que se doe ao doador e que não se doe ao que não doa. Pois dessa forma teria tornado as doações forçadas, e erradicado as que influenciam as boas ações”. Mas, como a própria sequência dos escólios explica, Hesíodo não quer dizer que damos apenas àqueles de que recebemos algo, mas sim que damos àqueles que são generosos, que, mesmo não possuindo nada, são inclinados a doar. Tzetzes (ad 351, p. 228 Gaisford), por outro lado, dizendo também que Plutarco não aceita “esses versos”, tenta defender a autenticidade do trecho com uma explicação que se refere a 353 (segundo o autor bizantino, Hesíodo quer dizer “ama a quem tem uma inclinação amigável e sabe amar”). Ou seja, talvez Plutarco tenha rejeitado (sem razão suficiente) os três versos (353-355).

  • Aristóteles (fr. 598 Rose) atribui o verso 370 a Piteu. Além disso, 370-372 faltam nos mais antigos manuscritos, inclusive nos papiros. Preferimos mantê-los entre chaves, mesmo reconhecendo, com Wilamowitz, 1928, p. 84, que se trata de “[h]übsche Verse”.
  • Minha tradução para αἱμύλα (cf. 78, αἱμυλίους τε λόγους).
  • Um neto.
  • 33 Para a colheita

34  O verso 406 é omitido por um papiro e parece ter sido ignorado por Aristóteles. Wilamowitz, 1928, e Solmsen, 1990, consideram-no inautêntico. Mas vários autores, desde a Antiguidade, aceitam o texto como de Hesíodo: ver Hoekstra, 1950, p. 91-98. A construção da passagem é incerta. Mazon, 1914, p. 99, entende que “uma casa, uma mulher e um boi para arar” são objeto de ἄρμενα ποιήσασθαι. West, 1978, ad 405, discorda.

  • Aqui se inicia a descrição da feitura do arado, de que são mencionadas três partes: a teiró, o dente e o timão. Mais adiante (467), Hesíodo cita também a rabiça. Ver Pinheiro e Ferreira, 2005, p. 131-134.
  • O carpinteiro está ligado a Atena, que preside a diversos trabalhos manuais.
  • West, 1978, ad loc., comenta que talvez Hesíodo não quisesse ser tão estrito quanto à idade dos bois, mas possivelmente foi levado a se expressar assim pela existência de fórmulas para “de cinco anos” e “de nove anos” na linguagem tradicional da épica (cf. Hom. Il. 2.403, 7.314-315, Od. 10.19, 14.419).

38  West, 1978, ad loc., diz que o grego do verso 464 faz pouco sentido e propõe uma conjectura engenhosa (ver apêndice), que não é todavia aceita por Solmsen, 1990, ou Most, 2006. Mantivemos o texto dos manuscritos.

39 Como as hastes de trigo não estarão muito crescidas, será conveniente atar os feixes com espigas dos dois lados, para evitar que caia a tira que os prende (West, 1978, ad loc.). Tanto esse método quanto o uso de um cesto (em vez de uma carroça) são sinais de uma má colheita (Mazon, 1914, p. 115-116).

  • Com λέσχην Hesíodo parece se referir a um local coberto onde pessoas se reuniriam em volta do fogo. Poderia ser um abrigo improvisado de mendigos e viajantes, sob a cobertura oferecida, digamos, por um pórtico (ver abaixo verso 501 e Hom. Od. 18.328-329).
  • Proclo (Scholia uetera ad <496-497>, p. 167-168 Pertusi) fornece a explicação fisiológica de Plutarco para o inchaço dos pés e o emagrecimento do resto do corpo por efeito da fome. Também relata que entre os efésios uma lei proibia o pai de expor os filhos antes de ter os pés inchados pela fome.
  • O sentido de κακὰ προσελέξατο θυμῷ é incerto. Seguimos a interpretação de Proclo (ad 498-499, p. 170 Pertusi) e do Escoliasta ad 499a (ibidem), tal como Tandy e Neale, 1996, Wender, 1973, e Eyth, 1855-1906 (contra Mazon, 1914, p. 118, n. 2, Wilamowitz, 1928, ad loc., entre outros).

43 O polvo come seu próprio tentáculo quando fica sem alimento (cf. Scholia uetera ad 524-526, p. 174-175 Pertusi, onde Proclo observa que Aristóteles – ver História dos animais 591a4-6 – nega ser verdade que os polvos se comportem assim). West, 1978, ad loc., cita outros autores antigos que relatam o mesmo fenômeno e comenta que há registros científicos atuais de que realmente os polvos podem ser levados a essa autofagia quando estão sob estresse intenso. Ercolani, 2010, p. 335-337, contudo, interpreta “o sem-osso” como o pólipo (cf. LSJ s.v. ἀνόστεος) ou o caracol (neste caso, deveríamos interpretar ὃν πόδα τένδει como “retrai seu pé”, indicando o caracol que se recolhe em sua concha). Para esse tipo de figura, que podemos chamar kenning, ver e.g. abaixo, no verso 571, φερέοικος. Cf. fr. 204 M.-W. 129 (91).

44 Ou seja, a um ancião que anda com o auxílio de uma bengala, como no enigma da Esfinge decifrado por Édipo.

  • No inverno dorme-se mais e trabalha-se menos, justificando-se assim a dimi-nuição da quantidade de alimento. Também os homens devem então consumir menos (embora ainda mais da metade de sua ração normal): ver West, 1978, e Ercolani, 2010, ad loc.
  • Isto é, sessenta dias depois do solstício de inverno. Observe-se a repetição de μετὰ τροπὰς ἠελίοιο aqui e em 663.
  • O caracol.
  • 48 O leite do final da lactação.

49  A palavra πλειών é usada na época helenística com o sentido de “ano” e como tal interpretada por Proclo (ad 614-617, p. 197 Pertusi) e pelos escólios ad 617a e b (p. 198 Pertusi); cf., mais recentemente, Wilamowitz, 1928, p. 111, e Beall, 2001, p. 163-164. Para West, 1978, ad loc., é “sem sentido” o verso que daí resulta. Isso o leva a seguir Mazon, 1914, p. 133, que, lembrando uma glosa de Hesíquio (πλειόνει· σπείρει), conjectura o significado de “semente” (da mesma forma, Ercolani, 2010, ad loc.). Considere-se, no entanto, que o que se coloca na terra agora assume seu pleno significado no ciclo do ano: o trabalho do ano depende da boa semeadura, e portanto é o ano que se planta. Não é uma metáfora forçada.

50  Literalmente, “com orelhas”. Os escólios (ad 657a, p. 206 Pertusi) preservam aqui uma variante bem pouco provável, mas curiosa, que diz que Hesíodo venceu em Cálcis “o divino Homero”. Trata-se de um resquício da tradição do Certame e de uma leitura desta passagem que a vincula a tal anedotário.

51 O adjetivo ἀθέσφατος pode significar também “indizível, inefável” (assim e.g. Cassanmagnano, 2009).

52 A expressão ψεύδεσθαι γλώσσης χάριν não tem paralelo exato na literatura grega. Uma tradução como “nem mintas pelo prazer de falar” (sugerida por Mazon, 1928, Ercolani, 2010, e outros) parece sugerir que outras formas de mentira são toleráveis. West, 1978, ad loc., defende sua interpretação (“offer false tonguefavour”) citando os mesmos passos referidos por Hays (ap. Ercolani, 2010, ad loc.) para defender o outro entendimento do texto. Nossa tradução é conjectural.

53 Os principais manuscritos (C, D, E e H) trazem um texto idêntico ao do verso 758 também entre o 736 e o 737. Neste local, o verso recebe a numeração 736a. Omitem-no, contudo, entre outros, dois importantes testemunhos antigos: um papiro do século II (P. Oxy. 3220) e um fragmento de pergaminho do século IV (P. Vindob. G 19815). Ver aparato crítico.

54 Proibição de cortar as unhas durante um sacrifício. Linguagem análoga à de 524, por exemplo.

55 Túmulos e altares. Ver West, 1978, ad loc.

56 Proclo (Scholia uetera ad 757-759, p. 231 Pertusi): “Plutarco cancela essas palavras como vis e indignas da Musa da educação: não urinar nem defecar – pois isso é o que significa ἀποψύχειν – nas águas dos rios e nas fontes; talvez dê Hesíodo essas instruções tendo em vista a idiotice da maioria, pois nem todos possuem inteligência, e até isso alguns poderiam negligenciar”.

57 West, 1988, ad loc.: “Os meses oscilavam entre vinte e nove e trinta dias, já que as comunidades tentavam manter seus calendários de acordo com a lua, mas em ambos os casos o último dia era chamado ‘trinta’. Frequentemente não se sabia com certeza se o ‘trinta’ seria um ou dois dias depois do vinte e oito”.

58Certas expressões que acompanham a palavra μείς (“mês”) refletem um antigo sentido alternativo do termo (“lua”). Uma tradução nessa linha também seria possível em 780 (ver West, 1978, ad loc.).

59O composto ἀερσιπότητος é anômalo, com dois elementos verbais. Tradução aproximativa.

60 A formiga (o termo é assim interpretado já pelo Escoliasta ad 778c, p. 242 Pertusi; ver também Ercolani, 2010, ad loc. e p. 32-33). Beall, 2001, p. 166-167, não está convencido (“The text might only mean that he who stacks fodder for his livestock on the twelfth of the month is idris”).

61 O dia dezesseis (para essa forma de designar os dias, ver e.g. Cassanmagnano, 2009, p. 969, n. 185).

62 Não é necessariamente o dia vinte e quatro. Pode ser que Hesíodo, contando a partir do final do mês, assim chamasse o vinte e sete (West, 1978, ad loc.).

63 Conforme a Teogonia 226-232.

64 O sentido de τρισεινάδα é incerto. O Escoliasta ad 814a, p. 254 Pertusi, afirma que alguns o interpretam como o dia vinte e sete, outros como o vinte e nove (ver Ercolani, 2010, ad loc.).

65 No sentido de começar a consumir o que ele armazena. Ver 368.