Hesíodo, Teogonia

O Texto mais Canônico da Mitologia Grega 

Jacopo Zucchi 1542–1596

Teogonia fala das origens do mundo e dos deuses, desde seu começo com o Vazio, a Terra, o Céu e o Amor. Ela foi escrita por volta do ano 750 a.C., sendo considerada a primeira poesia da Europa, e  seu autor foi Hesíodo, um homem do campo, rústico e conservador, que sentia o peso do mundo sobre si. Esta era uma época em que a religião era extremamente diversa, com rica variedade mitológica de cidade para cidade. Assim, a bem escrita e reconhecida versão de Hesíodo destas antigas histórias acabou por se tornar a versão aceita que unia todos os gregos antigos.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por Jaa Torrano.

Teogonia

ìndice

O Hino às Musas
Os Deuses Primordiais
A História do Céu e de Crono
Os Filhos da Noite
A Linhagem do Mar
A Linhagem do Céu
O Hino a Hécate
O Nascimento de Zeus
A História de Prometeu
A Titanomaquia
A Descrição do Tártaro
A Luta contra Tifão
Os Deuses Olímpicos
O Catálogo de Mulheres

Proêmio: hino às Musas

Pelas Musas heliconíades comecemos a cantar. Elas têm grande e divino o monte Hélicon, em volta da fonte violácea com pés suaves dançam e do altar do bem forte filho de Crono. Banharam a tenra pele no Permesso ou na fonte do Cavalo ou no Olmio divino e irrompendo com os pés fizeram coros belos ardentes no ápice do Hélicon. Daí precipitando-se ocultas por muita névoa vão em renques noturnos lançando belíssima voz, hineando Zeus porta-égide, a soberana Hera de Argos calçada de áureas sandálias, Atena de olhos glaucos virgem de Zeus porta-égide, o luminoso Apoio, Ártemis verte-flechas, Posídon que sustém e treme a terra, Têmis veneranda, Afrodite de olhos ágeis, Hebe de áurea coroa, a bela Dione, Aurora, o grande Sol, a Lua brilhante, Leto, Jápeto,  de curvo pensar, Terra, o grande Oceano, a Noite negra e o sagrado ser dos outros imortais sempre vivos.

Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto  quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino.  Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas  Musas olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:  “Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,  sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos  e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações”.  Assim falaram as virgens do grande Zeus verídicas,  por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso  colhendo-o admirável, e inspiraram-me um canto  divino para que eu glorie o futuro e o passado,  impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos  e a elas primeiro e por último sempre cantar.  Mas por que me vem isto de carvalho e de pedra?

Eia! pelas Musas comecemos, elas a Zeus pai hineando alegram o grande espírito no Olimpo dizendo o presente, o futuro e o passado vozes aliando. Infatigável flui o som das bocas, suave. Brilha o palácio do pai Zeus troante quando a voz lirial das Deusas espalha-se, ecoa a cabeça do Olimpo nevado e o palácio dos imortais. Lançando voz imperecível o ser venerando dos Deuses primeiro gloriam no canto dês o começo: os que a Terra e o Céu amplo geraram e os deles nascidos Deuses doadores de bens, depois Zeus pai dos Deuses e dos homens, no começo e fim do canto hineiam as Deusas o mais forte dos Deuses e o maior em poder, e ainda o ser de homens e de poderosos Gigantes. Hineando alegram o espírito de Zeus no Olimpo Musas olimpíades, virgens de Zeus porta-égide.

Na Piéria gerou-as, da união do Pai Cronida, Memória rainha nas colinas de Eleutera,  para oblívio de males e pausa de aflições.  Nove noites teve uniões com ela o sábio Zeus  longe dos imortais subindo ao sagrado leito.

Quando girou o ano e retornaram as estações  com as minguas das luas e muitos dias findaram,  ela pariu nove moças concordes que dos cantares  têm o desvelo no peito e não-triste ânimo,  perto do ápice altíssimo do nevoso Olimpo,  aí os seus coros luzentes e belo palácio.  Junto a elas as Graças e o Desejo têm morada nas festas, pelas bocas amável voz lançando  dançam e gloriam a partilha e hábitos nobres  de todos os imortais, voz bem amável lançando.

Elas iam ao Olimpo exultantes com a bela voz,  imperecível dança. Em torno gritava a terra negra  ao hinearem, dos pés amável ruído erguia-se  ao irem a seu pai. Ele reina no céu tendo consigo o trovão e o raio flamante,  venceu no poder o pai Crono, e aos imortais  bem distribuiu e indicou cada honra; isto as Musas cantavam, tendo o palácio olímpio,  nove filhas nascidas do grande Zeus:  Glória, Alegria, Festa, Dançarina,  Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste  e Belavoz, que dentre todas vem à frente.  Ela é que acompanha os reis venerandos.  A quem honram as virgens do grande Zeus  e dentre reis sustentados por Zeus vêem nascer,  elas lhe vertem sobre a língua o doce orvalho  e palavras de mel fluem de sua boca. Todas  as gentes o olham decidir as sentenças  com reta justiça e ele firme falando na ágora  logo à grande discórdia cônscio põe fim,  pois os reis têm prudência quando às gentes  violadas na ágora perfazem as reparações  facilmente, a persuadir com brandas palavras.  Indo à assembléia, como a um Deus o propiciam  pelo doce honor e nas reuniões se distingue.

Tal das Musas o sagrado dom aos homens.

Pelas Musas e pelo golpeante Apoio  há cantores e citaristas sobre a terra,  e por Zeus, reis. Feliz é quem as Musas  amam, doce de sua boca flui a voz.  Se com angústia no ânimo recém-ferido  alguém aflito mirra o coração e se o cantor  servo das Musas hineia a glória dos antigos  e os venturosos Deuses que têm o Olimpo,  logo esquece os pesares e de nenhuma aflição  se lembra, já os desviaram os dons das Deusas.

Alegrai, filhas de Zeus, dai ardente canto,  gloriai o sagrado ser dos imortais sempre vivos,  os que nasceram da Terra e do Céu constelado,  os da Noite trevosa, os que o salgado Mar criou.  Dizei como no começo Deuses e Terra nasceram,  os Rios, o Mar infinito impetuoso de ondas,  os Astros brilhantes e o Céu amplo em cima.  Os deles nascidos Deuses doadores de bens  como dividiram a opulência e repartiram as honras  e como no começo tiveram o rugoso Olimpo.  Dizei-me isto, Musas que tendes o palácio olímpio,  dês o começo e quem dentre eles primeiro nasceu.

Os Deuses primordiais

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,  dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,  e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,  e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,  solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos  ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.  Da Noite aliás Éter e Dia nasceram, gerou-os fecundada unida a Érebos em amor. Terra primeiro pariu igual a si mesma Céu constelado, para cercá-la toda ao redor e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre. Pariu altas Montanhas, belos abrigos das Deusas ninfas que moram nas montanhas frondosas. E pariu a infecunda planície impetuosa de ondas o Mar, sem o desejoso amor. Depois pariu do coito com Céu: Oceano de fundos remoinhos e Coios e Crios e Hipérion e Jápeto e Teia e Réia e Têmis e Memória e Febe de áurea coroa e Tétis amorosa. E após com ótimas armas Crono de curvo pensar, filho o mais terrível: detestou o florescente pai.

Pariu ainda os Ciclopes de soberbo coração:  Trovão, Relâmpago e Arges de violento ânimo  que a Zeus deram o trovão e forjaram o raio.  Eles no mais eram comparáveis aos Deuses,  único olho bem no meio repousava na fronte.  Ciclopes denominava-os o nome, porque neles  circular olho sozinho repousava na fronte.  Vigor, violência e engenho possuíam na ação.

Outros ainda da Terra e do Céu nasceram,  três filhos enormes, violentos, não nomeáveis. Cotos, Briareu e Giges, assombrosos filhos.  Deles, eram cem braços que saltavam dos ombros,  improximáveis; cabeças de cada um cinqüenta  brotavam dos ombros, sobre os grossos membros.  Vigor sem limite, poderoso na enorme forma

História do Céu e de Crono

Quantos da Terra e do Céu nasceram,  filhos os mais temíveis, detestava-os o pai  dês o começo: tão logo cada um deles nascia  a todos ocultava, à luz não os permitindo,  na cova da Terra. Alegrava-se na maligna obra  o Céu. Por dentro gemia a Terra prodigiosa  atulhada, e urdiu dolosa e maligna arte.

Rápida criou o gênero do grisalho aço,  forjou grande podão e indicou aos filhos.  Disse com ousadia, ofendida no coração:  “Filhos meus e do pai estólido, se quiserdes  ter-me fé, puniremos o maligno ultraje de vosso  pai, pois ele tramou antes obras indignas”.  Assim falou e a todos reteve o terror, ninguém  vozeou. Ousado o grande Crono de curvo pensar  devolveu logo as palavras à mãe cuidadosa:  “Mãe, isto eu prometo e cumprirei  a obra, porque nefando não me importa o nosso  pai, pois ele tramou antes obras indignas”.

Assim falou. Exultou nas entranhas Terra prodigiosa, colocou-o oculto em tocaia, pôs-lhe nas mãos a foice dentada e inculcou-lhe todo o ardil. Veio com a noite o grande Céu, ao redor da Terra desejando amor sobrepairou e estendeu-se a tudo. Da tocaia o filho alcançou com a mão esquerda, com a destra pegou a prodigiosa foice longa e dentada. E do pai o pênis ceifou com ímpeto e lançou-o a esmo para trás. Mas nada inerte escapou da mão: quantos salpicos respingaram sanguíneos a todos recebeu-os a Terra; com o girar do ano gerou as Erínias duras, os grandes Gigantes rútilos nas armas, com longas lanças nas mãos, e Ninfas chamadas Freixos sobre a terra infinita. O pênis, tão logo cortando-o com o aço atirou do continente no undoso mar, aí muito boiou na planície, ao redor branca espuma da imortal carne ejaculava-se, dela uma virgem criou-se. Primeiro Citera divina atingiu, depois foi à circunfluída Chipre e saiu veneranda bela Deusa, ao redor relva crescia sob esbeltos pés. A ela. Afrodite

Deusa nascida de espuma e bem-coroada Citeréia apelidam homens e Deuses, porque da espuma  criou-se e Citeréia porque tocou Citera,  Cípria porque nasceu na undosa Chipre,  e Amor-do-pênis porque saiu do pênis à luz.  Eros acompanhou-a, Desejo seguiu-a belo,  tão logo nasceu e foi para a grei dos Deuses.  Esta honra tem dês o começo e na partilha  coube-lhe entre homens e Deuses imortais  as conversas de moças, os sorrisos, os enganos,  o doce gozo, o amor e a meiguice.

O pai com o apelido de Titãs apelidou-os:  o grande Céu vituperando filhos que gerou  dizia terem feito, na altiva estultícia,  grã obra de que castigo teriam no porvir.

Os filhos da Noite

Noite pariu hediondo Lote, Sorte negra  e Morte, pariu Sono e pariu a grei de Sonhos.  A seguir Escárnio e Miséria cheia de dor. Com nenhum conúbio divina pariu-os Noite trevosa.  As Hespérides que vigiam além do ínclito Oceano  belas maçãs de ouro e as árvores frutiferantes  pariu e as Partes e as Sortes que punem sem dó:  Fiandeira, Distributriz e Inflexível que aos mortais  tão logo nascidos dão os haveres de bem e de mal, elas perseguem transgressões de homens e Deuses  e jamais repousam as Deusas da terrível cólera  até que dêem com o olho maligno naquele que erra.  Pariu ainda Nêmesis ruína dos perecíveis mortais  a Noite funérea. Depois pariu Engano e Amor  e Velhice funesta e pariu Éris de ânimo cruel.

Éris hedionda pariu Fadiga cheia de dor,  Olvido, Fome e Dores cheias de lágrimas,  Batalhas, Combates, Massacres e Homicídios,  Litígios, Mentiras, Falas e Disputas,  Desordem e Derrota conviventes uma da outra,  e Juramento, que aos sobreterrâneos homens  muito arruina quando alguém adrede perjura.

A linhagem do Mar 

O Mar gerou Nereu sem mentira nem olvido,  filho o mais velho, também o chamam Ancião  porque infalível e bom, nem os preceitos  olvida mas justos e bons desígnios conhece.  Amante da Terra gerou também o grande Espanto  e o viril Fórcis e Ceto de belas faces  e Euríbia que nas entranhas tem ânimo de aço.

De Nereu nasceram filhas rivais de Deusas  no mar infecundo. Dádiva de belos cabelos  virgem do Oceano, rio circular, gerou-as:  Primeira, Eficácia, Salvante, Anfitrite, Doadora, Tétis, Bonança, Glauca,  Ondaveloz, Gruta, Veloz, Marina amável,  Onidéia, Amorosa, Vitória de róseos braços,  Melita graciosa, Portuária, Esplendente, Dadivosa, Primeira, Portadora, Potente, Ilhéia, Recife, Rainhaprima, Dádiva, Onividente, formosa Galatéia, Eguaveloz amável, Égua-sagaz de róseos braços,  Pega-onda que apazigua no mar cor de névoa  facilmente a onda e o sopro de fortes ventos  com Aplana-onda e Anfitrite de belos tornozelos, Ondeia, Praia, a bem-coroada Rainhamarina, Glaucapartilha sorridente, Travessia,  Reúne-gente, Reúne-bem, Rainha-das-gentes, Multi-sagaz, Sagacidade, Rainha-solvente,  Pastora de amável talhe e perfeita beleza,  Arenosa de gracioso corpo, divina Equestre,  llhoa, Escolta, Preceitora, Previdência  e Infalível que do pai imortal tem o espírito.  Estas nasceram do irrepreensível Nereu,  cinqüenta virgens, sábias de ações irrepreensíveis.

Espanto à filha do Oceano de profundo fluir  desposou, Ambarina. Ela pariu ligeira Íris  e Harpias de belos cabelos: Procela e Alígera  que a pássaros e rajadas de vento acompanham com asas ligeiras, pois no abismo do ar se lançam.

De Fórcis, Ceto gerou as Velhas de belas faces, grisalhas de nascença, apelidam-nas Velhas

Deuses imortais e homens caminhantes da terra: Penfredo de véu perfeito e Ênio de véu açafrão.  Gerou Górgonas que habitam além do ínclito Oceano os confins da noite (onde as Hespérides cantoras): Esteno, Euríale e Medusa que sofreu o funesto, era mortal, as outras imortais e sem velhice  ambas, mas com ela deitou-se o Crina-preta no macio prado entre flores de primavera. Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço, surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso; tem este nome porque ao pé das águas do Oceano nasceu, o outro com o gládio de ouro nas mãos, voando ele abandonou a terra mãe de rebanhos e foi aos imortais e habita o palácio de Zeus, portador de trovão e relâmpago de Zeus sábio. Aurigládio gerou Gerioneu de três cabeças unindo-se a Belaflui virgem do ínclito Oceano. E a Gerioneu matou-o a força de Heracles perto dos bois sinuosos na circunfluída Eritéia no dia em que tangeria os bois de ampla testa para Tirinto sagrada após atravessar o Oceano após matar Ortro e o vaqueiro Eurítion no nevoento estábulo além do ínclito Oceano.

Ela pariu outro incombatível prodígio nem par a homens mortais nem a Deuses imortais  numa gruta cava: divina Víbora de ânimo cruel,  semininfa de olhos vivos e belas faces  e prodigiosa semi-serpente terrível e enorme,  cambiante carnívoro sob covil na divina terra Aí sua gruta lá embaixo está sob côncava pedra  longe dos Deuses imortais e dos homens mortais,  aí lhe deram os Deuses habitar ínclito palácio.  Em Árimos sob o chão reteve-se a lúgubre Víbora ninfa imortal e sem velhice para sempre.  É fama que com ela Tífon uniu-se em amor,  terrível soberbo sem lei com a virgem de olhos vivos.

Ela fecundada pariu crias de ânimo cruel.  Gerou primeiro Ortro, cão de Gerioneu. Depois pariu o incombatível e não nomeável  Cérbero carnívoro, cão de brônzea voz do Hades,  de cinquenta cabeças, impudente e cruel.  A seguir gerou Hidra, sábia do que é funesto,  e em Lerna nutriu-a a Deusa de alvos braços Hera  por imenso rancor contra a força de Heracles;  matou-a o filho de Zeus com não piedoso bronze,  Heracles Anfitrionida, com o dileto de Ares  Iolau, por desígnios de Atena apresadora.

Ela pariu a Cabra que sopra irrepelível fogo,  a terrível e grande e de pés ligeiros e cruel,  tinha três cabeças: uma de leão de olhos rútilos,  outra de cabra, outra de víbora, cruel serpente.  Na frente leão, atrás serpente, no meio cabra,  expirando o terrível furor do fogo aceso.  Agarrou-a Pégaso e o bravo Belerofonte.

E ela pariu a funesta Fix, ruína dos cadmeus, emprenhada por Ortro, pariu o Leão de Neméia que Hera a ínclita esposa de Zeus nutriu e abrigou nas colinas de Neméia, pena dos homens: aí residindo destruía greis de homens senhor de Treto e Apesanta em Neméia, mas sucumbiu ao vigor da força de Heracles.

Unida a Fórcis em amor, Ceto gerou por fim  terrível Serpente que no covil da terra trevosa  nas grandes fronteiras guarda maçãs de ouro.  Esta é a geração de Ceto e de Fórcis.

A linhagem do Céu

Tétis gerou de Oceano os rios rodopiantes: Nilo, Alfeu, Erídano de rodopios profundos, Estrímon, Meandro, Istro de belo fluir, Fase, Reso, Aquelôo de rodopios de prata, Nesso, Ródio, Haliácmon, Sete-bocas, Granico, Esepo, Simoente divino, Peneu, Hermo, Caico bem-fluente,  Sangário grande, Ládon, Partênio,  Eveno, Árdesco e Escamandro divino.

E pariu a sagrada geração de filhas que pela terra adolescem homens com Apoio rei e com os Rios e que têm de Zeus esta honra: Persuasiva, Virgínea, Violeta, Ambarina, Dádiva, Popa, Celeste de divina aparência, Equina, Clímene, Rósea, Belaflui, Núpcia, Clítia, Sábia, Persuasora, Plexaura, Galaxaura, amável Dione, Pecuária, Veloz, formosa Polidora, Tecelã de amável talhe, Riqueza de olhos bovinos, Perseida, Ianeira, Acaste, Loira, Pétrea amorosa, Resistência, Europa, Astúcia, Eurinome, Concludente de véu açafrão, Áurea, Ásia, amorosa Calipso, Doadora, Acaso, Circunflui, Velozflui e Estige que dentre todas vem à frente.

Estas nasceram de Oceano e de Tétis filhas mais velhas: há muitas outras ainda, há três mil Oceaninas de finos tornozelos que dispersas percorrem terra e águas profundas por igual e de todo, crias magníficas entre Deusas. Outros rios que fluem fragorosos são tantos filhos de Oceano, gerou-os Tétis soberana. De todos é difícil a um mortal dizer o nome, a cada um conhece quem habita à sua beira.

Téia gerou o grande Sol, a Lua brilhante  e Aurora que brilha a todos nós sobreterrâneos  e aos Deuses imortais que têm o céu amplo,  gerou-os submetida a Hipérion em amor.

Euríbia unida a Crios em amor gerou  divina entre Deusas: o grande Astreu, Palas  e Perses distinto de todos pela sabedoria.

Aurora gerou de Astreu ventos de ânimo violento,  Zéfiro clareante, Bóreas de veloz caminhada  e Notos, no coito amoroso a Deusa com o Deus,  e após aurorante pariu a Estrela da Manhã  e os astros brilhantes de que o céu se coroa.

Estige filha do Oceano unida a Palas no palácio pariu Zelo e Vitória de belos tornozelos e pariu Poder e Violência, insignes filhos.

Longe deles não há morada de Zeus nem pouso nem percurso por onde o Deus não os guie mas sempre peito de Zeus gravitroante repousam. Assim decidiu Estige imperecível Oceanina no dia em que o Olímpio relampeante a todos os imortais conclamou ao alto Olimpo, e disse quem dos Deuses combatesse com ele os Titãs ele não o privaria dos prêmios e cada honra manteria como antes entre os Deuses imortais, e que o não-honrado sob Crono e sem-prêmios honra e prêmio alcançaria, como é justiça. E veio primeiro Estige imperecível ao Olimpo com os filhos, por desígnios de seu pai; honrou-a Zeus e supremos dons lhe deu:

fez dela própria o grande juramento dos Deuses e seus filhos para sempre residirem com ele. Assim para todos inteiramente como prometeu cumpriu, ele próprio tem grande poder e reina.

Hino a Hécate

Febe entrou no amoroso leito de Coios e fecundou a Deusa o Deus em amor, ela gerou Leto de negro véu, a sempre doce, boa aos homens e aos Deuses imortais, doce dês o começo, a mais suave no Olimpo. Gerou Astéria de propício nome, que Perses conduziu um dia a seu palácio e desposou, e fecundada pariu Hécate a quem mais

Zeus Cronida honrou e concedeu esplêndidos dons, ter parte na terra e no mar infecundo. Ela também do Céu constelado partilhou a honra e é muito honrada entre os Deuses imortais. Hoje ainda, se algum homem sobre a terra com belos sacrifícios conforme os ritos propicia e invoca Hécate, muita honra o acompanha facilmente, a quem a Deusa propensa acolhe a prece; e torna-o opulento, porque ela tem força.

De quantos nasceram da Terra e do Céu e receberam honra, de todos obteve um lote; nem o Cronida violou nem a despojou do que recebeu entre os antigos Deuses Titãs, e ela tem como primeiro no começo houve a partilha. Nem porque filha única menos partilhou de honra e de privilégio na terra e no céu e no mar mas ainda mais, porque honra-a Zeus.

A quem quer, grandemente dá auxílio e ajuda, no tribunal senta-se junto aos reis venerandos, na assembléia entre o povo distingue a quem quer, e quando se armam para o combate homicida os homens, aí a Deusa assiste a quem quer e propícia concede vitória e oferece-lhe glória. Diligente quando os homens lutam nos jogos aí também a Deusa lhe dá auxílio e ajuda, e vencendo pela força e vigor, leva belo prêmio facilmente, com alegria, e aos pais dá a glória. Diligente entre os cavaleiros assiste a quem quer, e aos que lavram o mar de ínvios caminhos e suplicam a Hécate e ao troante Treme-terra,  fácil a gloriosa Deusa concede muita pesca  ou surge e arranca-a, se o quer no seu ânimo.  Diligente no estábulo com Hermes aumenta  o rebanho de bois e a larga tropa de cabras  e a de ovelhas lanosas, se o quer no seu ânimo,  de poucos avoluma-os e de muitos faz menores.

Assim, apesar de ser a única filha de sua mãe,  entre imortais é honrada com todos os privilégios.  O Cronida a fez nutriz de jovens que depois dela  com os olhos viram a luz da multividente Aurora.  Assim dês o começo é nutriz de jovens e estas as honras.

O nascimento de Zeus

Réia submetida a Crono pariu brilhantes filhos:  Héstia, Deméter e Hera de áureas sandálias,  o forte Hades que sob o chão habita um palácio  com impiedoso coração, o troante Treme-terra  e o sábio Zeus, pai dos Deuses e dos homens,  sob cujo trovão até a ampla terra se abala.

E engolia-os o grande Crono tão logo cada um  do ventre sagrado da mãe descia aos joelhos, tramando-o para que outro dos magníficos Uranidas  não tivesse entre os imortais a honra de rei.  Pois soube da Terra e do Céu constelado  que lhe era destino por um filho ser submetido  apesar de poderoso, por desígnios do grande Zeus.  E não mantinha vigilância de cego, mas à espreita engolia os filhos. Réia agarrou-a longa aflição.  Mas quando a Zeus pai dos Deuses e dos homens  ela devia parir, suplicou-lhe então aos pais queridos, aos seus, à Terra e ao Céu constelado,  comporem um ardil para que oculta parisse  o filho, e fosse punido pelas Erínias do pai e filhos engolidos o grande Crono de curvo pensar.  Eles escutaram e atenderam à filha querida e indicaram quanto era destino ocorrer ao rei Crono e ao filho de violento ânimo. Enviaram-na a Licto, gorda região de Creta, quando ela devia parir o filho de ótimas armas, o grande Zeus, e recebeu-o Terra prodigiosa na vasta Creta para nutri-lo e criá-lo.

Aí levando-o através da veloz noite negra atingiu primeiro Licto, e com ele nas mãos escondeu-o em gruta íngreme sob o covil da terra divina no monte das Cabras denso de árvores.

Encueirou grande pedra e entregou-a ao soberano Uranida rei dos antigos Deuses. Tomando-a nas mãos meteu-a ventre abaixo o coitado, nem pensou nas entranhas que deixava em vez da pedra o seu filho invicto e seguro ao porvir. Este com violência e mãos dominando-o logo o expulsaria da honra e reinaria entre imortais.

Rápido o vigor e os brilhantes membros  do príncipe cresciam. E com o girar do ano,  enganado por repetidas instigações da Terra,  soltou a prole o grande Crono de curvo pensar,  vencido pelas artes e violência do filho.  Primeiro vomitou a pedra por último engolida.  Zeus cravou-a sobre a terra de amplas vias  em Delfos divino, nos vales ao pé do Parnaso,  signo ao porvir e espanto aos perecíveis mortais.

E livrou das perdidas prisões os tios paternos Trovão, Relâmpago e Arges de violento ânimo, filhos de Céu a quem o pai em desvario prendeu; e eles lembrados da graça benéfica deram-lhe o trovão e o raio flamante e o relâmpago que antes Terra prodigiosa recobria.

Neles confiante reina sobre mortais e imortais.

História de Prometeu 

Jápeto desposou Clímene de belos tornozelos  virgem Oceanína e entraram no mesmo leito.  Ela gerou o filho Atlas de violento ânimo,  pariu o sobreglorioso Menécio e Prometeu  astuto de iriado pensar e o sem-acerto Epimeteu  que foi um mal dês o começo aos homens come-pão,  pois primeiro aceitou de Zeus moldada a mulher  virgem. Ao soberbo Menécio, Zeus longividente  lançou-o Érebos abaixo golpeando com fúmeo raio  por sua estultícia e bravura bem-armada.  Atlas sustém o amplo céu sob cruel coerção  nos confins da Terra ante as Hespérides cantoras,  de pé, com a cabeça e infatigáveis braços:  este destino o sábio Zeus atribuiu-lhe.

E prendeu com infrágeis peias Prometeu astuciador,  cadeias dolorosas passadas ao meio duma coluna,  e sobre ele incitou uma águia de longas asas,  ela comia o fígado imortal, ele crescia à noite  todo igual o comera de dia a ave de longas asas.  O filho de Alcmena de belos tornozelos valente  Heracles matou-a, da maligna doença defendeu  o filho de Jápeto e libertou-o dos tormentos,  não discordando Zeus Olímpio o sublime soberano  para que de Heracles Tebano fosse a glória  maior que antes sobre a terra multinutriz.  Reverente ele honrou ao insigne filho,  apesar da cólera pôs fim ao rancor que retinha  de quem desafiou os desígnios do pujante Cronida.

Quando se discerniam Deuses e homens mortais  em Mecona, com ânimo atento dividindo ofertou  grande boi, a trapacear o espírito de Zeus:  aqui pôs carnes e gordas vísceras com a banha  sobre a pele e cobriu-as com o ventre do boi,  ali os alvos ossos do boi com dolosa arte  dispôs e cobriu-os com a brilhante banha.

Disse-lhe o pai dos homens e dos Deuses: “Filho de Jápeto, insigne dentre todos os reis, ó doce, dividiste as partes zeloso de um só!”. Assim falou a zombar Zeus de imperecíveis desígnios.

E disse-lhe Prometeu de curvo pensar sorrindo leve, não esqueceu a dolosa arte: “Zeus, o de maior glória e poder dos Deuses perenes, toma qual dos dois nas entranhas te exorta o ânimo”. Falou por astúcia. Zeus de imperecíveis desígnios soube, não ignorou a astúcia; nas entranhas previu males que aos homens mortais deviam cumprir-se. Com as duas mãos ergueu a alva gordura, raivou nas entranhas, o rancor veio ao seu ânimo, quando viu alvos ossos do boi sob dolosa arte. Por isso aos imortais sobre a terra a grei humana queima os alvos ossos em altares turiais. E colérico disse-lhe Zeus agrega-nuvens: “Filho de Jápeto, o mais hábil em seus desígnios, ó doce, ainda não esqueceste a dolosa arte!”. Assim falou irado Zeus de imperecíveis desígnios, depois sempre deste ardil lembrado negou nos freixos a força do fogo infatigável aos homens mortais que sobre a terra habitam.

Porém o enganou o bravo filho de Jápeto: furtou o brilho longevisível do infatigável fogo em oca férula; mordeu fundo o ânimo a Zeus tonítruo e enraivou seu coração ver entre homens o brilho longevisível do fogo. E criou já ao invés do fogo um mal aos homens: plasmou-o da terra o ínclito Pés-tortos como virgem pudente, por desígnios do Cronida; cingiu e adornou-a a Deusa Atena de olhos glaucos com vestes alvas, compôs um véu laborioso descendo-lhe da cabeça, prodígio aos olhos, ao redor coroas de flores novas da relva sedutoras lhe pôs na fronte Palas Atena e ao redor da cabeça pôs uma coroa de ouro, quem a fabricou: o ínclito Pés-tortos lavrando-a nas mãos, agradando a Zeus pai, e muitos lavores nela gravou, prodígio aos olhos, das feras que a terra e o mar nutrem muitas ele pôs muitas ali (esplendia muita a graça) prodigiosas iguais às que vivas têm voz.

Após ter criado belo o mal em vez de um bem levou-a lá onde eram outros Deuses e homens adornada pela dos olhos glaucos e do pai forte. O espanto reteve Deuses imortais e homens mortais ao virem íngreme incombatível ardil aos homens. Dela descende a geração das femininas mulheres. Dela é a funesta geração e grei das mulheres, grande pena que habita entre homens mortais, parceiras não da penúria cruel, porém do luxo.

Tal quando na colméia recoberta abelhas nutrem zangões, emparelhados de malefício, elas todo o dia até o mergulho do sol diurnas fadigam-se e fazem os brancos favos, eles ficam no abrigo do enxame à espera e amontoam no seu ventre o esforço alheio, assim um mal igual fez aos homens mortais Zeus tonítruo: as mulheres, parelhas de obras ásperas, e em vez de um bem deu oposto mal. Quem fugindo a núpcias e a obrigações com mulheres não quer casar-se, atinge a velhice funesta sem quem o segure: não de víveres carente vive, mas ao morrer dividem-lhe as posses parentes longes. A quem vem o destino de núpcias e cabe cuidosa esposa concorde consigo, para este desde cedo ao bem contrapesa o mal constante. E quem acolhe uma de raça perversa vive com uma aflição sem fim nas entranhas, no ânimo, no coração, e incurável é o mal.

Não se pode furtar nem superar o espírito de Zeus  pois nem o filho de Jápeto o benéfico Prometeu  escapou-lhe à pesada cólera, mas sob coerção  apesar de multissábio a grande cadeia o retém.

A Titanomaquia

Tão logo o pai lhes teve ódio no ânimo prendeu em poderosa prisão Briareu, Cotos e Giges admirado da bem-armada bravura, aspecto e tamanho, e meteu-os sob a terra de amplas vias. Aí, doloridos sob a terra habitando jaziam nos confins e fronteiras da grande terra com longas angústias e grande mágoa no coração. Mas o Cronida e os outros Deuses imortais que Réia de belos cabelos pariu amada por Crono restituíram-nos à luz por conselhos da Terra.

Ela lhes revelou clara e plenamente: teriam com eles vitória e renome esplêndido. Há muito combatiam com dolorosas fadigas uns contra outros em violentas batalhas os Deuses Titãs e quantos nasceram de Crono: uns no alto Ótris — os Titãs magníficos —, outros no Olimpo — os Deuses doadores de bens que Réia de belos cabelos pariu amada por Crono.

Davam uns aos outros doloroso combate em batalhas contínuas há dez anos cheios. Nenhum final nem solução da áspera discórdia de nenhum lado, ambíguo pairava o termo da guerra. Mas quando àqueles ofereceu todo o sustento, néctar e ambrosia que só os Deuses comem no peito de todos cresceu o ânimo viril. Após sorverem o néctar e a amável ambrosia disse-lhes o pai dos homens e dos Deuses: “Ouvi-me, filhos magníficos da Terra e do Céu, que eu diga o que no peito o ânimo me ordena: já há muitos anos, uns contra os outros, todo dia combatemos pela vitória e poder os Deuses Titãs e quantos nascemos de Crono. Vós com grande violência e braços intocáveis surgi contra os Titãs na lúgubre batalha, lembrai a doce lealdade e quanto sofrestes na prisão cruel antes de voltar à luz por nossos desígnios, de sob a treva nevoenta”.

Assim falou. Respondeu o irrepreensível Cotos:  “Ó, portento, não o não sabido revelas: nós  sabemos que tens supremo cor e supremo espírito,  e repeliste dos imortais o mal horrendo;  por tua sabedoria, de sob a treva nevoenta  das prisões sem-mel, nós já sem esperanças  de volta viemos, ó rei filho de Crono.  Agora com rijo espírito e prudente vontade  defenderemos vosso poder na luta terrível  combatendo os Titãs na violenta batalha”.

Assim falou. Aprovaram os Deuses doadores de bens a palavra ouvida. Ávido de guerra o ânimo ainda mais, e despertaram o triste combate todos — Deusas e Deuses — naquele dia: os Deuses Titãs, quantos nasceram de Crono, os que Zeus do Érebos sob a terra lançou à luz, terríveis, poderosos, com bem-armada violência. Deles eram cem braços que saltavam dos ombros de cada um, cabeças de cada um cinqüenta brotavam dos ombros sobre grossos membros. Eles impuseram aos Titãs lúgubre batalha agarrando íngremes pedras com os grossos braços. Os Titãs defronte fortificavam as fileiras com ardor. Ambos os lados mostravam obras braçais violentas. Terrível mugia o mar infinito, retumbava forte a terra, o vasto céu gemia sacudido, no solo estremecia o alto Olimpo sob golpes dos imortais, o abalo pesado atingia o Tártaro nevoento, e o surdo estrondo de pés de indizíveis assaltos e ataques brutais. E uns contra outros lançavam dardos gemidosos, vinda de ambos atinge o céu constelado a voz exortante, e batiam-se com grande grito.

Não mais Zeus continha seu furor e deste  furor logo encheram-se suas vísceras e toda  violência ele mostrava. Do céu e do Olimpo  relampejando avançava sempre, os raios  com trovões e relâmpagos juntos voavam do grosso braço, rodopiando a chama sagrada densos. A terra nutriz retumbava ao redor queimando-se, crepitou ao fogo vasta floresta, fervia o chão todo e as correntes do Oceano e o mar infecundo, o sopro quente atava os Titãs terrestres, a chama atingia vasta o ar divino, apesar de fortes cegava-os nos olhos o brilhar fulgurante de raio e relâmpago. O calor prodigioso traspassou o Caos. Parecia, a ver-se com olhos e ouvir-se com ouvidos a voz, quando Terra e o Céu amplo lá em cima tocavam-se, tão grande clangor erguia-se dela desabada e dele desabando-se por cima, tal o clangor dos Deuses batendo-se na luta. Os ventos revolviam o tremor de terra, a poeira, o trovão, o relâmpago e o raio flamante, dardos de Zeus grande, e levavam alarido e voz ao meio das frentes, estrondo imenso erguia-se da discórdia atroz. Mostrava-se o poder dos braços.

A batalha decai. Antes, uns contra outros atacavam-se tenazes em violentas batalhas. Na frente despertaram áspero combate Cotos, Briareu e Giges insaciável de guerra. Trezentas pedras dos grossos braços lançavam seguidas e cobriram de golpes os Titãs. E sob a terra de amplas vias lançaram-nos e prenderam em prisões dolorosas vencidos pelos braços apesar de soberbos, tão longe sob a terra quanto é da terra o céu, pois tanto o é da terra o Tártaro nevoenta.

Descrição do Tártaro

Nove noites e dias uma bigorna de bronze  cai do céu e só no décimo atinge a terra  e, caindo da terra, o Tártaro nevoento.  E nove noites e dias uma bigorna de bronze  cai da terra e só no décimo atinge o Tártaro.

Cerca-o um muro de bronze. A noite em torno  verte-se três vezes ao redor do gargalo. Por cima  as raízes da terra plantam-se e do mar infecundo.

Aí os Deuses Titãs sob a treva nevoenta estão ocultos por desígnios de Zeus agrega-nuvens, região bolorenta nos confins da terra prodigiosa. Não têm saída. Impôs-lhes Posídon portas de bronze e lado a lado percorre a muralha. Aí Giges, Cotos e Briareu magnânimo habitam, guardas fiéis de Zeus porta-égide.

Aí, da terra trevosa e do Tártaro nevoento  e do mar infecundo e do Céu constelado,  de todos, estão contíguos as fontes e confins,  torturantes e bolorentos, odeiam-nos os Deuses.  Vasto abismo, nem ao termo de um ano  atingiria o solo quem por suas portas entrasse  mas de cá para lá o levaria tufão após tufão  torturante, terrível até para os Deuses imortais  este prodígio. A casa terrível da Noite trevosa  eleva-se aí oculta por escuras nuvens.

Defronte, o filho de Jápeto sustem o Céu amplo de pé, com a cabeça e infatigáveis braços inabalável, onde Noite e Dia se aproximam e saúdam-se cruzando o grande umbral de bronze. Um desce dentro, outro vai fora, nunca o palácio fecha a ambos, mas sempre um deles está fora do palácio e percorre a terra, o outro está dentro e espera vir a sua hora de caminhar, ele tem aos sobreterrâneos a luz multividente, ela nos braços o Sono, irmão da Morte, a Noite funesta oculta por nuvens cor de névoa.

Aí os filhos da Noite sombria têm morada,  Sono e Morte, terríveis Deuses, nunca o Sol fulgente olha-os com seus raios ao subir ao céu nem ao descer o céu. Um deles, tranqüilo e doce aos homens, percorre a terra e o largo dorso do mar, o outro, de coração de ferro e alma de bronze não piedoso no peito, retém quem dos homens agarra, odioso até aos Deuses imortais. Defronte, o palácio ecoante do Deus subterrâneo  o forte Hades e da temível Perséfone  eleva-se. Terrível cão guarda-lhe a frente  não piedoso, tem maligna arte: aos que entram  faz festas com o rabo e ambas as orelhas,  sair de novo não deixa: à espreita  devora quem surpreende a sair das portas.

Aí habita a Deusa detestada dos imortais terrível Estige, filha do Oceano refluente a mais velha, longe dos Deuses em ilustre palácio coberto de altas pedras, todo ao redor com as colunas de prata se apóia no céu. Pouco a filha de Espanto Íris de ágeis pés aí vem mensageira sobre o largo dorso do mar: quando briga e discórdia surgem entre imortais e se um dos que têm o palácio Olímpio mente Zeus faz Íris trazer o grande juramento dos Deuses num jarro de ouro, a longe água de muitos nomes fria. Ela precipita-se da íngreme pedra alta. E abundante sob a terra de amplas vias do rio sagrado flui pela noite negra, braço do Oceano, décima parte ela constitui: nove envolvem a terra e o largo dorso do mar com rodopios de prata e depois caem no sal, ela só proflui da pedra, grande pena aos Deuses. Dos imortais que têm a cabeça nivosa do Olimpo quem espargindo-a jura um perjúrio jaz sem fôlego por um ano inteiro, nem da ambrosia e do néctar se aproxima para comer, jaz porém sem alento nem voz num estendido leito e mau torpor o cobre. Quando a doença perfaz um grande ano, passa de uma a outra prova mais áspera: nove anos afasta-se dos Deuses sempre vivos, nem freqüenta conselho nem banquetes nove anos a fio. No décimo freqüenta de novo reuniões dos imortais que têm o palácio Olímpio. Tal juramento os Deuses fizeram de Estige imperecível água ogígia que brota de abrupta região.

Aí, da terra trevosa e do Tártaro nevoento  e do mar infecundo e do céu constelado,  de todos, estão contíguos as fontes e confins,  torturantes e bolorentos, odeiam-nos os Deuses.

Aí resplandentes portas e umbral de bronze  inabalável, embutidos em raízes contínuas  nascido de si mesmo. Defronte, longe dos Deuses,  os Titãs habitam além do Caos sombrio.  Os ínclitos aliados de Zeus estrondante  habitam um palácio no alicerce do Oceano, Cotos e Giges, a Briareu por sua bravura  o gravitroante Treme-terra fez seu genro,  deu-lhe por esposa sua filha Anda-onda

A luta contra Tifão

E quando Zeus expulsou do céu os Titãs,  Terra prodigiosa pariu com ótimas armas Tifão quando amada por Tártaro graças a áurea Afrodite.  Ele tem braços dispostos a ações violentas  e infatigáveis pés de Deus poderoso. Dos ombros  cem cabeças de serpente, de víbora terrível,  expeliam línguas trevosas. Dos olhos  sob cílios nas cabeças divinas faiscava fogo  e das cabeças todas fogo queimava no olhar.

Vozes havia em todas as terríveis cabeças a lançar vário som nefasto: ora falavam como para Deuses entender, ora como touro mugindo de indômito furor e possante voz, ora como leão de ânimo impudente, ora símil a cadelas, prodígio de ouvir-se, ora assobiava a ecoar sob altas montanhas. Naquele dia suas obras seriam incombatíveis e ele sobre mortais e imortais teria reinado se não o visse súbito o pai de homens e Deuses e trovejou grave e duro. A terra em torno retumbou tremenda, o céu amplo lá em cima, o mar, as correntezas do Oceano e o Tártaro. Sob os pés imortais estremece o alto Olimpo com o ímpeto do rei e geme a terra. Penetrava o mar víoláceo o calor de ambos, de trovão, relâmpago, fogo vindo do prodigioso ser, de furacões, ventos e do raio flamante. Fervia toda a terra, céu e mar, saltavam em volta dos cabos altas ondas sob golpes dos imortais, irreprimível abalo cresce, tremem Hades lá embaixo rei dos mortos e Titãs no Tártaro em torno de Crono pelo irreprimível clangor e pavorosa luta.

Zeus encrista seu furor, agarra as armas,  o trovão, o relâmpago e o raio flamante,  e fere-o saltando do Olimpo. Fulmina em torno  todas as cabeças divinas do terrível prodígio.  E ao dominá-lo açoitando com os golpes  mutila e abate-o, e geme a terra prodigiosa.  Do rei fulminado a chama jorra  nos vales não visíveis rugosos das montanhas,  golpeando. E vasta queima-se a terra prodigiosa com bafo divino e fundia-se com o estanho  pela arte de homens em perfurado crisol  aquecido, ou o ferro que é mais possante  nos vales dominado pelo fogo ardente funde-se no chão divino por obra de Hefesto,  assim fundia-se a terra ao brilhar do fogo aceso.

Com afligente ânimo atirou-o ao largo Tártaro.

De Tifão vem o furor dos ventos que sopram úmidos, não Notos, Bóreas e Zéfiro clareante, estes vêm de Deuses, grande valia dos mortais, os outros sopram às cegas sobre o mar e, ao caírem no alto-mar cor de névoa, impetuam ruim procela, grande ruína dos mortais. Eles sopram diversos, dispersam os navios,    . perdem os nautas, e não têm resistência ao mal os homens que os encontram pelo mar, e pela terra sem-fim e florida eles perdem os campos amáveis dos homens nascidos no chão atulhando-os de pó e de doloroso turbilhão.

Os Deuses Olímpicos

Quando os venturosos completaram a fadiga  e decidiram pela força as honras dos Titãs,  por conselhos da Terra exortavam o Olímpio  longividente Zeus a tomar o poder e ser rei  dos imortais. E bem dividiu entre eles as honras. Zeus rei dos Deuses primeiro desposou Astúcia mais sábia que os Deuses e os homens mortais. Mas quando ia parir a Deusa de olhos glaucos Atena, ele enganou suas entranhas com ardil, com palavras sedutoras, e engoliu-a ventre abaixo, por conselhos da Terra e do Céu constelado. Estes lho indicaram para que a honra de rei não tivesse em vez de Zeus outro dos Deuses perenes: era destino que ela gerasse filhos prudentes, primeiro a virgem de olhos glaucos Tritogênia igual ao pai no furor e na prudente vontade, e depois um filho rei dos Deuses e homens ela devia parir dotado de soberbo coração. Mas Zeus engoliu-a antes ventre abaixo  para que a Deusa lhe indicasse o bem e o mal.

Após desposou Têmis luzente que gerou as Horas,  Eqüidade, Justiça e a Paz viçosa  que cuidam dos campos dos perecíveis mortais,  e as Partes a quem mais deu honra o sábio Zeus,  Fiandeira Distributriz e Inflexível que atribuem  aos homens mortais os haveres de bem e de mal.

Eurínome de amável beleza virgem de Oceano terceira esposa gerou-lhe Graças de belas faces:  Esplendente, Agradábil e Festa amorosa,  de seus olhos brilhantes esparge-se o amor  solta-membros, belo brilha sob os cílios o olhar.

Também foi ao leito de Deméter nutriz  que pariu Perséfone de alvos braços. Edoneu  raptou-a de sua mãe, por dádiva do sábio Zeus.

Amou ainda Memória de belos cabelos, dela nasceram as Musas de áureos bandôs, nove, a quem aprazem festas e o prazer da canção.

Leto gerou Apoio e Ártemis verte-flechas,  prole admirável acima de toda a raça do Céu,  gerou unida em amor a Zeus porta-égide.

Por último tomou Hera por florescente esposa, ela pariu Hebe, Ares e Ilitía unida em amor ao rei dos Deuses e dos homens.

Ele da própria cabeça gerou a de olhos glaucos  Atena terrível estrondante guerreira infatigável  soberana a quem apraz fragor combate e batalha.  Hera por raiva e por desafio a seu esposo  não unida em amor gerou o ínclito Hefesto  nas artes brilho à parte de toda a raça do Céu.

O Catálogo de Mulheres

De Anfitrite e do troante Treme-terra  nasceu Tritão violento e grande que habita  no fundo do mar com sua mãe e régio pai  um palácio de ouro. E de Ares rompe-escudo  Citeréia pariu Pavor e Temor terríveis  que tumultuam os densos renques de guerreiros  com Ares destrói-fortes no horrendo combate,  e Harmonia que o soberbo Cadmo desposou.

Maia filha de Atlas após subir no leito sagrado  de Zeus pariu o ínclito Hermes arauto dos imortais.

Sêmele filha de Cadmo unida a Zeus em amor  gerou o esplêndido filho Dioniso multialegre  imortal, ela mortal. Agora ambos são Deuses.

Alcmena gerou a força de Heracles  unida em amor a Zeus agrega-nuvens.

Esplendente a mais jovem Graça, Hefesto  o ínclito Pés-tortos desposou-a florescente.

Dioniso de áureos cabelos à loira Ariadne  virgem de Minos tomou por esposa florescente  e imortal e sem-velhice tornou-a o Cronida.

A Hebe, o filho de Alcmena de belos tornozelos  valente Heracles após cumprir gemidosas provas  no Olimpo nevado tomou por esposa veneranda,  filha de Zeus grande e Hera de áureas sandálias;  feliz ele, feita a sua grande obra, entre imortais  habita sem sofrimento e sem velhice para sempre.

Do Sol incansável a ínclita Oceanina  Perseida gerou Circe e o rei Eetes.  Eetes, filho do Sol ilumina-mortais,  desposou a virgem do Oceano rio circular Sábia de belas faces, por desígnios dos Deuses.  Ela pariu Medéia de belos tornozelos,  subjugada em amor graças à áurea Afrodite.

Alegrai agora, habitantes do palácio Olímpio,  ilhas e continentes e o salgado mar no meio. Cantai agora a grei de Deusas, vós de doce voz  Musas olimpíades virgens de Zeus porta-égide: quantas deitando-se com homens mortais  imortais pariram filhos símeis aos Deuses.

Deméter divina entre Deusas gerou Riqueza,  unida em amores ao herói Jasão sobre a terra  três vezes lavrada na gorda região de Creta.  Boa Riqueza por terra e largo dorso do mar  anda e a quem encontra e chega às mãos  ela torna próspero e dá muita opulência.

De Cadmo, Harmonia filha de áurea Afrodite  gerou Ino, Sêmele, Agave de belas faces,  Sagacidade esposa de Aristeu de crina profunda,  e Polidoro na bem-coroada Tebas.

Virgem de Oceano, pela multiáurea Afrodite  unida em amor a Aurigládio de violento ânimo,  Belaflui pariu o mais poderoso dos mortais,  Gerioneu, a quem matou a força de Heracles  pelos bois sinuosos na circunfluida Eritéia.

De Titono, Aurora pariu Ménon de brônzeo elmo rei dos etíopes e o príncipe Emátion. De Céfalo, deu à luz um esplêndido filho, o forte Fulgêncio, homem símil aos Deuses: na tenra flor de gloriosa juventude a Sorridente Afrodite arrebatou-o e levou-o ainda criança e dele no sagrado templo fez o guardião interior, nume divino.

Virgem do rei Eetes sustentado por Zeus,  o Esonida por desígnios dos Deuses perenes  levou-a de Eetes após cumprir gemidosas provas,  as muitas impostas pelo grande rei soberbo  o insolente Pélias estulto e de obras brutais.  Cumpriu-as, e chegou a Iolcos após muito penar  o Esonida, levando em seu navio veloz a  virgem de olhos vivos, e desposou-a florescente.  Ela, submetida a Jasão pastor de homens,  pariu Medéio, criou-o nas montanhas Quíron  Filirida, e cumpriu-se o intuito do Grande Zeus.

E as virgens de Nereu, o Ancião marino:  Arenosa divina entre as deusas gerou Foco  amada por Éaco graças à áurea Afrodite;  submetida a Peleu a Deusa Tétis de pés de prata  gerou Aquiles rompe-falange e de leonino ânimo.

Gerou Enéias a bem-coroada Afrodite  unida ao herói Anquises em amores  nos cimos do Ida enrugado e ventoso.

Circe, filha de Sol Hiperionida,  amada por Odisseu de sofrida prudência, gerou  Ágrio, Latino irrepreensível e poderoso,  e pariu Telégono, graças à áurea Afrodite.  Bem longe, no interior de ilhas sagradas,  E eles reinam sobre os ínclitos tirrenos.

Calipso divina entre as Deusas em amores  unida a Odisseu gerou Nausítoo e Nausínoo.  Estas deitando-se com homens mortais  imortais pariram filhos símeis aos Deuses.  Cantai agora a grei de mulheres, vós de doce voz  Musas olimpíades virgens de Zeus porta-égide.