Hesíodo, Escudo de Héracles

A Origem do Maior dos Heróis

Nicolas Bertin 1667–1736

O Escudo de Héracles narra a expedição do protagonista e seu companheiro Iolau contra o filho de Ares chamado Cicno (Cisne), que desafiou o herói a um combate quando este passava pelo bosque de Apolo em Ítono. Ela foi escrita por volta do ano 750 a.C. Esta era uma época em que a religião era extremamente diversa, com rica variedade mitológica, variando de cidade para cidade. Assim, a bem escrita e reconhecida versão de Hesíodo destas antigas histórias acabou por unir todos os gregos antigos. Esta obra propriamente dita não só narra o confronto de Héracles e Cicno, mas faz uma descrição da origem e das armas do maior herói grego.

A obre oferecida a seguir foi traduzida por Jaa Torrano.

 

O Escudo de Héracles

Índice

O Nascimento de Héracles
O Encontro entre Héracles e Cisne
As Armas e o Escudo
A Interpelação de Palas Atenas
O Combate ente Héracles e Cisne
Héracles e Ares
Epílogo


  

O Nascimento de Héracles [1-56]

Qual desertora do palácio e terra pátria veio a Tebas com o beligerante Anfítrion Alcmena, filha do impele-tropas Eléctrion: ela excedia a tribo de mulheres femininas em beleza e porte; em espírito, sem rival entre mortais maes por amor de mortais. De sua fronte e das pálpebras sombrias o eflúvio era tal qual da multiáurea Afrodite.

Ela ainda assim no animo honrava o esposo como nenhuma outra das mulheres femininas, Ele dominou à força e matou-lhe o bom pai, irritado por bois, e deixando a terra pátria, em Tebas suplicou a escutíferos cadmeus. Aí habitava o palácio com a pudica esposa, privado porém do diário amor, nem podia ir ao leito da Electrionida de belos tornozelos, antes de punir a morte dos irmãos magnânimos de sua esposa, e com árdego fogo acender aldeias dos homens heróis táfios e teleboas

Assim se dispôs e Deuses eram testemunhas cujo rancor respeitava e urgia o mais rápido cumprir grande proeza que por Zeus lhe era lei. Junto com ele, ávidos de combate e de guerra, beócios cavaleiros a respirarem atrás de escudos, lócrios lutadores e foceus magnânimos seguiram, à frente ia o bravo filho de Alceu jubiloso das tropas. O Pai dos homens e dos Deuses outro ardil urdia no âmago: para os Deuses e os homens panívoros criar um defensor de praga, ergueu-se do Olimpo, a maquinar dolo no âmago, a desejar o amor de mulher de bela cintura, à noite. Rápido atingiu o Tifônio; daí aliás chegou ao Fício altíssimo o sábio Zeus.

Aí pousou e meditou no âmago divinas proezas.Nessa noite, com a Electrionida de finos tornozelos no leito e no amor uniu-se e satisfez o desejo.

Nessa noite, Anfítrion impele-tropas, brilhante herói, perfeita a proeza, chegou a seu palácio, nem foi aos fâmulos e pastores campestres antes de subir ao leito de sua esposa, tal ardor possuía o cor do pastor de tropas. Qual quando alguém álacre escapa ao mal de dolorosa doença ou ainda de cruel cadeia, assim é que Anfítrion perfez a áspera fadiga e álacre amante entrava em seu palácio. A noite toda deitou-se com a pudica esposa a gozar as dádivas da multiáurea Afrodite.

Ela submetida ao Deus e ao homem ótimo, em Tebas de sete portas gerou dois gêmeos não por igual prudentes, irmãos eram ambos, um era inferior, o outro era o melhor varão: terrível e poderoso, o estrenuo Heracles. Pariu-o, submetida ao negrinublado Cronida, e pariu Íficles, submetida ao lanceiro Anfítrion.

Distinta prole: um, unida a homem mortal, e outro, a Zeus Cronida, guia dos Deuses todos.


  

O Encontro de Héracles e Cisne [57-121]

Ele ainda matou Cisne, Aretíada magnânimo. Encontrou-o no precinto do longeatirante Apolo, a ele e a seu pai Ares insaciável de guerra, com armas a refulgirem qual fogo fulgurante, de pé no carro; ágeis cavalos vibraram o chão golpeando com os cascos, e o pó ao redor brilha batido por trançados carros e pés de cavalos, carros bem fabricados e anteparos retumbavam, correndo os cavalos, Cisne irrepreensível alegrou-se esperando matar o belígero filho de Zeus e o cocheiro com o bronze e assim espoliar as ínclitas armas, Lummoso Apolo porém não lhe ouviu as preces: ele mesmo lhe enviou estrênuo Heracles.

Todo o bosque e o altar de Apolo Pagaseu e suas armas brilhavam sob o terrível Deus, e dos olhos qual fogo relampejava. Quem, se fosse mortal ousaria contra ele combater, além de Heracles e do assinalado Iolau?

Ele então falou ao poderoso cocheiro Iolau: Ó herói Iolau, o mais caro dos mortais todos, contra Imortais venturosos que têm o Olimpo Anfítrion delinqüiu ao ir à bem coroada Tebas deixando Tirinto, bem construída fortaleza, após matar Eléctrion por bois latifrontes, e suplicou a Creonte e Heníoca longivelada, que o acolhiam e ofereciam todo o sustento como é justo aos súplices e honravam de cor.Deles, grande violência e braços inabordáveis brotavam dos ombros, sobre grossos membros.

Vivia feliz com a Electrionida de belos tornozelos, sua esposa, e logo nós, com o girar do ano, nascemos, nem no porte nem no tino pares, teu pai e eu. Zeus lhe arrebatou o juízo: ele abandonou o seu palácio e os seus pais e partiu para honrar o delinquente Euristeu, mísero: depois muitas vezes o lastimou ao suportar sua erronia, mas é irrevogável; e a mim o Nume impôs ásperas provas.

Eia, amigo, tem rápido as rédeas purpúreas dos cavalos céleres, aumenta no imo a audácia, tem reto o carro veloz e os céleres fortes cavalos. Não temas o estrondo de Ares homicida: ele agora clamoroso percorre o sagrado bosque do luminoso Apolo, longeatirante soberana; ainda que seja cruel, há de saciar-se de guerra.”

Respondeu-lhe o irrepreensível Iolau; “Ó tio, muito o Pai dos homens e dos Deuses honra a tua cabeça, e o táureo Treme-terra que tem as torres e defende a cidade de Tebas, eis aí quão grande e poderoso mortal assim às tuas mãos conduzem para obteres boa glória.”

Eia! Veste as armas bélicas, que o mais rápido próximos o carro de Ares e o nosso carro combatamos, pois não ao intrépido filho de Zeus nem ao Ificlida intimidará, mas creio que há de fugir dos dois filhos do irrepreensível Alcides que estão perto e ardentes por altearem o grito de guerra, mais grato a eles do que festa.”

Assim falou, e o estrênuo Heracles sorriu exultante no animo, pois bem grato lhe falou e respondendo-lhe disse palavras aladas: “Ó herói Iolau, aluno de Zeus, não está longe a áspera batalha. Tu, como antes eras hábil assim agora ao grande corcel Aríone crinipreto volteia por toda parte e previne como puderes.”

 

  

As Armas e o Escudo [122-324]

Assim disse e pôs perneiras de bronze rutilante, ínclitas dádivas de Hefesto, ao redor das pernas, depois vestiu ao redor do peito a couraça bela, áurea, multitrabalhada, que lhe deu Palas Atena, filha de Zeus, quando iria primeiro lançar-se aos lúgubres combates. Pôs nos ombros o ferro repulsor da ruína, homem terrível. Em volta do peito cava aljava lançou atrás e dentro dela muitas setas álgidas, portadoras de cala-vozes morte; na frente levavam morte e vertiam lágrimas, no meio, brunidas, longuíssimas, e atrás, cobertas com plumagem de ígnea águia.

Pegou grave lança afiada com fúlgido bronze. No forte crânio pôs bem fabricado elmo lavrado de aço, ajustado às têmporas, que cobria a cabeça de Héracles divino. Nas mãos pegou o escudo furta-cor, nenhum golpe o rompeu, nem partiu, prodígio de ver. Todo ao redor com gesso e com alvo marfim e com âmbar brilhava e com ouro rutilante rebrilhava e dobras de ciano o percorriam. No meio era de aço Pavor não dizível a fitar atrás com olhos ígneos brilhantes, sua boca era cheia de alvas fileiras de dentes terríveis, inabordáveis, e sobre hirsuta fronte terrível Rixa pairava tumultuando homens, Mísera, roubou o tino e o íntimo de varões que levam violenta guerra ao filho de Zeus. Suas sombras mergulham na terra, no Hades, seus ossos, corrompida a pele ao redor, ao ardor de Sírio, apodrecem na terra negra. Aí Persecução e Contra-ataque figuravam.

Aí Multidão, Massacre e Homicídio têm fulgor, Aí Rixa e ali Tumulto correm, e a funesta Cisão pega um vivo recém-ferido, pega outro não ferido, e puxa pelos pés ainda outro, morto na peleja. Traz nos ombros vestes fulvas de sangue viril, a olhar terrível e a gritar com estridência.

Aí havia cabeças de serpentes terríveis, não dizíveis, doze, que apavoravam na terra tribos de homens que levam violenta guerra ao filho de Zeus, Dos dentes espalha-se o clangor, quando combate o Anfitrionida, e brilham as admiráveis proezas, laivos assim luzem nas serpentes terríveis de ver, sombrias no dorso, negras nas mandibulasAí havia um bando de javalis e um de leões a entreolharem-se, rancorosos e impetuosos.

Seus renques estavam reunidos, nenhum dos dois tremia, eriçavam pescoços ambos. Já lhes jazia um grande leào e ao redor dois javalis despojados da vida, negro sangue vertiam no chão; pendidos os pescoços,jaziam massacrados por hirsutos leòes. Rancorosos, despertos ainda mais para lutar eram ambos, javalis e leões de olhos rútilos. Aí havia a batalha dos lanceiros Lápitas ao redor do rei Ceneu, Driante, Pirítoo, Hopleu, Exádio, Falero, Próloco, Mopso, Ampícida e Titarésio, rebento de Ares, e Teseu Egida, semelhante aos Imortais, argênteos, com áureas armas sobre a pele.

Centauros adversários defronte se reuniam ao redor do grande Petreu: Ásbola áugure Urso, Montanhês, crinipreto Mimante, e os dois Peucidas, Perimedes e Dríalos, argênteos, com áureos abetos nas mãos; assim num só impulso como se fossem vivos com lanças e com abetos juntos atacavam. Aí estavam céleres cavalos de Ares hirsuto, áureos, aí ainda o porta-espólios funesto Ares com a cúspide na mño, a impelir os peões, purpúreo de sangue, como se os espoliasse vivos, firme no carro, e junto dele Temor e Pavor estavam, ávidos de mergulhar na guerra viril.

Aí a filha de Zeus apresadora Tritogênia; sua imagem como se quisesse armar a batalha com lança na mao e com áureo elmo e égide nos ombros; percorria a terrível luta. Aí havia o sagrado coro de Imortais; no meio, o filho de Zeus e Leto tangia amorosamente áurea lira; santa sede dos Deuses, o Olimpo, aí se reuniam e a opulência sem-fim coroava a reunião dos Imortais; Deusas principiavam o canto, Musas da Piéria na imagem de dançarinas cantoras. Aí porto, bom ancoradouro do irresistível mar, arredondado, feito com o derretido estanho, parecia batido de ondas; no meio dele, muitos delfins aqui e ali saltitavam a pescar, pareciam nadar, e dois a respirarem argênteos delfins afugentavam mudos peixes, deles corriam brônzeos peixes; e na fraga sentava-se um pescador à espreita, nas mãos tinha rede de pescar e parecia lançá-la.

Aí o filho de Dânae pulcrícoma cavaleiro Perseu, sem tocar o escudo com os pés, nem longe dele, grande prodígio de ver, que em nada se apoiava: assim o ínclito Ambidestro o fez com as mãos, áureo, tinha nos pés aladas sandálias, nas ombros espada com bainha negra pendia de brônzeo cinturão; pairava como pensamento; cobria-lhe as costas o crânio de terrível monstro Górgona, envolto por bolsa, prodígio de ver, argêntea e as franjas pediam rutilantes, áureas; terrível cingia as têmporas do rei o elmo de Hades com terríveis trevas noturnas;

Parecendo precipitar-se e arrepiar-se, o próprio Perseu Danaida arremessava-se e atrás dele Górgonas inabordáveis e nefandas corriam ávidas de agarrá-lo; e sobre o pálido aço ao pisarem, o escudo tinia com grande clangor, agudo e estríduo; nas cinturas, duas serpentes dependuravam-se e arqueavam suas cabeças e lingüiferavam e furiosas aguçavam os dentes a olharem bravias.

Sobre as terríveis cabeças de Górgonas; movia-se grande Pavor, Acima, homens combatiam com armas de guerra, uns em defesa de sua cidade e de seus filhos repelindo a ruína, outros ansiosos por pilhar. Muitos jaziam, a maioria ainda na batalha combatia. As mulheres em bem construídas torres brônzeas gritavam agudo e arranhavam as faces, pareciam vivas, lavores do ínclito Hefesto.

Os homens anciãos a quem Velhice pegou aglomeravam-se fora das portas e aos Deuses venturosos erguiam as mãos, temerosos por seus filhos que guerreavam. Atrás deles Cisões sombrias a rangerem os alvos dentes, terríveis, hirsutas, sangrentas, inabordáveis batalhavam ao redor dos caídos. Todas queriam beber sangue negro e quem elas agarrassem ao jazer ou ao cair ferido, envolviam-no com grandes unhas, a alma descia ao Hades, ao Tártaro álgido ao saciarem as entranhas de sangue humano, deixam-no para trás. e retornando percorrem tumulto e peleja.

Fiandeira e Distributriz o presidem. Inferior, Inflexível não era grande Deusa, ela porém vinha à frente e era mais antiga que as outras. Todas junto a um só varão faziam áspera batalha; furentes, terrível olhar lançavam umas às outras, aí nas unhas e nas mãos ousadas são iguais. Névoa estacava miseranda e terrível, pálida, ressequida, mirrada de fome, joelhuda com longas unhas nas mãos: das narinas fluía muco e sangue das faces pingava no chão; inabordável arreganhada estacava, muita poeira pousava nos ombros, úmida de pranto.

Perto, bem torreada cidade: áureas mantinham-se ajustadas às vergas as sete portas. Entre esplendores e coros homens tinham alegria. Em carro de boas rodas uns a brincarem com a dança e o canto, outras a rirem, cada um com o flautista. Iam adiante, por toda a cidade, festas e esplendores havia e diante da cidade outros montados em cavalos saltavam. Os lavradores rasgavam a terra divina, de arregaçadas túnicas vestidos. Era profunda a messe: uns colhiam com alfanjes afiados as recurvadas, pétalas conduziam a noiva ao noivo, com grande himeneu.

Longe, o brilho de tochas acesas rodopiava nas mãos de servas, viçosas de esplendor iam adiante, seguidas de coros dançantes, que com sonoras flautas lançavam a voz das suaves bocas. Ao redor quebrava o eco. Elas com liras conduziam coro amoroso.

Aí no outro lado jovens festejavam com flautas, pesadas de espigas como se trigo de Deméter. Uns as enfeixavam e deitavam na eira. Outros vindimavam, com foices nas mãos. Outros traziam nos cestos dos vindimadeiros alvos e negros cachos dos grandes renques pesados de folhas e de argênteos sarmentos. Outros levavam nos cestos. Perto, arbóreo renque era áureo, ínclita obra do prudente Hefesto, sacudido com as folhas e argênteas estacas, pesado de racimos que enegreceram.

Ou pisavam uva, ou hauriam suco, ou lutavam púgeis e fortes. Outros caçavam céleres lebres, caçadores, ainda adiante dois denticortantes cães, ávidos de agarrar, e as lebres ávidas de escapar.

Perto cavaleiros tinham trabalho, pelos prêmios competiam e lutavam, Em bem-trançados carros cocheiros de pé impeliram os velozes cavalos a rédeas soltas e voavam os estrepitosos carros compactos, e os eixos dão forte chiado. Eles tinham eterna fadiga, nunca se lhes cumpria a Vitória, mas sem decisão mantinha-se o combate. Ante eles ainda jazia grande trípode no certame, áurea, ínclita obra do prudente Hefesto.

Ao redor do orbe fluía Oceano, parecia cheio e continha todo o escudo multi-lavrado; nele, cisnes altívolas à grande cantavam, muitos nadavam à flor d’água e perto peixes pululavam, prodígio de ver até para Zeus tonítruo a cujo talante Hefesto fabricou o escudo grande e grosso adequado às mãos. O valente filho de Zeus vibrou-o poderoso e saltou sobre o eqüino carro semelhante ao relâmpago de Zeus Pai egífero, a rápido passo. Seu cocheiro poderoso Iolau subiu no carro e dirigiu o recurvado veículo.

 

  

A Interpelação de Palas Atenas [325-344]

Veio perto deles a Deusa de olhos glaucos Atena, e acorçoando-os disse-lhes palavras aladas: “Alegrai, geração de Linceu longe-ínclito, hoje Zeus Rei dos Venturosos nos dá o poder de matar Cisne e espoliá-lo de ínclitas armas. Uma outra palavra te direi, ó guia das tropas, quando depojares Cisne da doce vida, deixa-o lá mesmo a ele e suas armas; e espreita o ataque de Ares mata-mortais, onde o vires desnudo sob o escudo lavrado com teus olhos, aí fere com agudo bronze; e recua para trás, porque não é teu destino capturar os cavalos nem as ínclitas armas.”

Assim falou e subiu no carro divina entre Deusas, tendo a vitória e o signo nas mãos imortais, com ímpeto. Então o nascido de Zeus Iolau terrífico incitou os cavalos, e incitados puxavam rápido o veloz carro empoeirando a planície. Deu-lhes ardor a Deusa de olhos glaucos Atena a brandir a égide, ao redor retumbou a terra.

 

  

O Combate de Héracles e Cisne [345-423]

Juntos avançaram, símeis a fogo e tempestade, Cisne doma-potro e Ares insaciável de guerra. Seus cavalos, quando defronte uns dos outros, hiniram agudos, ao redor quebrava o eco.

Primeiro lhe falou o estrênuo Heracles: “Cisne doce, por que vós dirigis velozes cavalos contra nós dois sábios de fadigas e de misérias? Eia! Desvia o carro bem brunido e cede-nos caminho pelo desvio. Prossigo para Traquine, ao rei Ceíce, que pelo poder e pelo respeito domina Traquine. Tu mesmo bem 0 conheces, amaste sua filha TemistÔnoe de olhos negros, Ó doce, nem Ares te afastará o fecho da morte, se ambos nos confrontarmos em combate. Afirmo que outrora também ele já provou nossa lança, quando por Pilo arenosa contrapôs-se a mim, ávido de batalha. Três vezes alanceado apoiou-se na terra, roto o escudo, e na quarta golpeei a coxa, pondo todo ardor; rasguei muita carne; prono caíu no pó no chão à força da lança. Teria então ultrajosa sorte entre imortais ao deixar-me nas mãos armas sangrentas” Assim falou, nem Cisne lanceiro desejava obedecer-lhe e reter os veiculosos cavalos.

Pularam então dos bem trançados carros no chão o filho de Zeus grande e o filho do rei Eniálio Perto, cocheiros tangeram crinibelos cavalos Ao atirarem-se atroava sob os pés o vasto chio qual quando do alto cimo de monte grande pedras precipitam-se e caem umas sobre outras, muitos carvalhos altifrôndeos, muitos pinhos e choupos radicifundos quebram-se sob elas, ao rolarem rápidas até atingir a planície, assim caíram um sobre outro com grande grita.

Toda a cidade dos mirmidões e ínclita Iolco e Arne e Hélice e Antéia relvosa ecoavam forte a voz de ambos; com alarido divino, combatiam; troou forte o sábio Zeus e lançou do firmamento gotas sangrentas dando sinal de guerra ao magnânimo filho.

Qual nos vales da serra, difícil de prever, o javali dentudo quer com ânimo lutar com os caçadores, e aguça o seu alvo dente volteando-se, a espuma pela boca ao rilhar escorre, seus olhos parecem fogo fulgente, e eriça pelos hirtos na crina e no pescoço, assim o filho de Zeus saltou do eqüino carro.

Quando a negrialada gárrula cigarra pousa em verde ramo, no verno, e põe-se a cantar para os homens, e bebe e come fêmeo orvalho, e todo o dia desde a aurora verte o canto no calor terrível, quando Sírio cresta a pele, enquanto a pragana surge coroando o milho semeado no verão, e colorem-se os racimos que Dionísio deu aos homens, prazer e pena, então lutavam e grande clangor erguia-se.

Como dois leões ao redor da corça morta rancorosos atacam-se um ao outro, terrível era a grita e o ranger de dentes.

Como abutres de garras curvas e bico adunco em alta rocha com grande grita combatem por uma cabra montesa ou corça selvagem pingue, que um moço dominou ao atingi-la com a flecha do arco e ignorante do lugar alhures a perdeu, e rápido perceberam e com ímpeto travam por ela áspero combate; assim a gritar lançaram-se um contra o outro.

Então Cisne, ávido por massacrar o filho de Zeus pujante, golpeia escudo com brônzea lança, nem bronze o rompeu, defendeu-o o dom de Deus. O Anfitrionida, esse que é o estrênuo Héracles, entre o elmo e o escudo, com longa lança, atingiu logo o pescoço nu, sob o queixo, poderosamente, e o freixo homicida a ambos  os tendões cortou, e caiu a grande força do varão.

Desabou qual desaba um carvalho ou pinho altaneiro, atingido pelo fúmeo raio de Zeus; assim desabou, e ressoaram rútilas armas de bronze.

 

  

Héracles e Ares [424-466]

Deixou-o então o longânime filho de Zeus e espreita a vinda de Ares destrói-mortais, com olhares terríveis, qual leão ante uma presa muito sôfrego rasga a pele com garras cruéis e rápido arrebata o ânimo sabido a mel, de ardor assim ele enche o negro coração, refulge terrível nos olhos, flancos e espáduas fustiga com a cauda, cava com as patas, ninguém ousa enfrentar-lhe a vista, nem combatê-lo. Tal o Anfitrionida, insaciável de guerra, ante Ares se pôs, aumentada no imo a audácia, com ímpeto, e veio-lhe Ares aflito de coração.

A gritar ambos se lançaram um contra o outro. Qual quando de alcantil pedra se precipita e com longos pulos rola, corre estrondosa enlouquecida e um penhasco se lhe opõe alto, com que colide e que a detém; assim fragoroso o gravígrado Ares funesto a gritar atacou, o outro pronto resistiu.

Atena, porém, a virgem de Zeus egífero, ante Ares se pôs com a tenebrosa égide. Com terrível olhar disse palavras aladas: “Ares, detém o ardor cruel e mãos inabordáveis, não te é lícito espoliar as ínclitas armas nem matar Heracles audaz filho de Zeus. Eia! Cessa a luta! Não te defrontes comigo!”

Assim falou, mas não persuadiu Ares magnicórdio. Com grande grito, ignissímil, brandindo armas, rápido ele atacou o estrênuo Heracles ávido por matá-lo e atirou brônzea lança, com rancor precípite por causa do filho morto, no grande escudo, mas Atena de olhos glaucos de pé dentro do carro desviou a força da lança.

Áspera aflição agarrou Ares; com aguda espada saltou sobre Heracles crudicórdio, nesse ataque o Anfitrionida insaciável de terrível guerra feriu-o na coxa nua sob o escudo lavrado poderosamente, e rasgou muita carne ao lancear, e prostrou-o no meio do chão.

Pavor e Temor levaram o carro bem rodado e cavalos rápido perto dele, e tomaram-no do chão lativiário e no carro multi-lavrado o depuseram, e rápido fustigaram os cavalos e alcançaram o alto Olimpo.

 

  

Epílogo [467-480]

O filho de Alcmena e o assinalado Iolau retiraram dos ombros de Cisne belas armas, foram-se e rápido alcançaram a cidade de Traquine com céleres cavalos; e Atena de olhos glaucos alcançou o grande Olimpo e o palácio paterno.

Ceíce aliás sepultou Cisne, e sem conta era o povo que habita perto da cidade do ínclito rei, Ante, a cidade dos mirmidões, ínclita Iolco, Arne e Hélice, e reuniu-se vasto povo a honrar Ceíce, caro aos venturosos Deuses.

O túmulo e o monumento destruiu-os Anauro cheio de chuva no inverno. Assim Apolo Letoída mandou porque ele à espreita pilhava quem conduzisse a Pito ínclitas hecatombes.

 

FIM