Eurípides, Helena

O que aconteceria se Helena não tivesse ido a Troia?  


Johann Heinrich Wilhelm Tischbein (1751–1829)

A peça teatral Helena foi escrita por Eurípides que viveu entre os anos de 480 a.C e 406 a.C. e mostra uma intencionada obra de ficção sobre o mito de Helena. A premissa do é autor é  se perguntar: O que aconteceria se Helena nunca tivesse ido para Troia? Ele descreve que a Helena que teria sido essa a levada por Páris era uma farsa, na verdade, um construto da deusa Hera. A verdadeira Helena estaria vivendo no Egito onde, após o final da Guerra, seu marido Menelau a reencontra. É uma forma do autor explorar o psicológico da personagem ao retirar-lhe o sentimento de culpa e também analisar se a expedição grega realmente valeu a pena.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por Clara Lacerda Crepaldi.

 

Helena

 

Personagens

Helena
Teucro
Menelau
Proteu
Primeiro Mensageiro
Segundo Mensageiro
Tenôe
Teoclímeno
Servo
Castor
Coro (Mulheres Escravas)

 

(Helena está sozinha, junto ao túmulo de Proteu e diante da skené que representa o palácio.)

Helena

Do Nilo são estas correntes de belas virgens

que, em lugar da chuva de Zeus, molham a terra,

o torrão egípcio, quando derretida a branca neve.

Proteu, enquanto vivia, era o rei dessa terra

[habitando a ilha de Faros, mas senhor de todo o Egito]. 5

Com uma das virgens do mar ele casou-se,

Psamateia, depois que essa deixara o leito de Éaco

e, nesse palácio, ela deu à luz dois filhos:

o varão Teoclímeno, [assim chamado porque sempre

temente aos deuses], e a nobre virgem Eidó, 10

ornamento da mãe quando pequenina,

mas que, depois que alcançou a idade de casar,

foi chamada Teônoe, pois sabia todas as coisas divinas,

as que são e as que serão, honra essa herdada de Nereu, seu ancestral. 15

Quanto a mim, a minha terra pátria é a não inglória Esparta,

e Tíndaro é meu pai. Há decerto uma história,

segundo a qual, Zeus voou para minha mãe,

Leda, na forma de um cisne que fugia da perseguição de uma águia, 20-1

e assim logrou um leito enganoso – se é mesmo certa uma história tal. 20-1

Helena é meu nome, e os males que sofri hei de vos contar.

Três deusas foram, pela causa da beleza,

a um vale do monte Ida, em busca de Alexandre,

Hera, Cípris e a virgem filha de Zeus, 25

querendo elas decidir um concurso de formosura.

E tendo oferecido a minha beleza – se é mesmo belo o infortunado –

para que Alexandre desposasse, Cípris

venceu. Então Páris do monte Ida deixou seu rebanho

e foi à Esparta para me tomar como esposa. 30

Mas Hera, inconformada por não ter vencido as outras deusas,

inflou de vento meu tálamo com Alexandre:

não foi a mim que ela entregou ao filho do rei Príamo,

mas um fantasma vivente, que ela forjou do céu à minha semelhança.

E ele imagina que me tem – imagem70 vã –, quando não tem. 35

70 No grego, δόκησις, isto é, imagem abstrata, puramente mental.44

Também os planos de Zeus, por seu lado, a esses outros males juntaram: guerra ele levou aos gregos e aos infortunados frígios

para aliviar a mãe terra da enorme multidão de mortais 40

e também para que se conhecesse o mais poderoso da Hélade.

E para a luta contra os frígios, não eu, mas o meu nome

foi posto como prêmio de guerra aos gregos.

Pelas dobras do éter, Hermes me levou escondida em uma nuvem, 45

(porque não fora Zeus negligente comigo) e me estabeleceu nesta casa de Proteu,

que ele julgara o mais virtuoso dentre todos os mortais,

a fim de que eu mantivesse meu leito incorrupto para Menelau.

E aqui estou eu, mas o meu combalido esposo reuniu um exército

e marchou contra as torres de Troia para me apanhar de volta. 50

Muitas almas, por minha causa, às margens do Escamandro,

pereceram. E eu, que tudo isso aturei,

sou amaldiçoada e julgada, como se tivesse abandonado meu esposo

e assim causado aos gregos uma guerra enorme. 55

Por que, então, ainda vivo? Do deus Hermes ouvi a palavra

de que ainda habitarei o solo glorioso de Esparta com o meu marido,

quando ele souber que a Ílion nunca fui

– isso contanto que eu não tenha servido o leito de nenhum outro. 60

De fato, enquanto via a luz do sol

Proteu, estive livre de casamentos; mas, depois que foi coberto

pela escuridão da terra, o filho do falecido

me persegue para se casar comigo. E, em honra ao marido de antanho,

estou ajoelhada neste mausoléu de Proteu,

como suplicante, a fim de que isso preserve o meu leito para Menelau. 65

Pois, se pela Hélade carrego um nome infame,

que, pelo menos, meu corpo aqui não incorra em vergonha.

(Entra Teucro pelo eisodos que leva à costa.)

Teucro

Quem será o senhor deste palácio fortificado? 68

Com efeito, do próprio Pluto é digna uma morada assim,

tão régias as suas muralhas e tão bem acimalhadas as suas câmaras. 70

Eia!

Ó deuses, que visão é essa que descubro?! A imagem mortífera

da mulher mais odiosa, ela que arruinou a mim

e a todos os aqueus! Que os deuses te repudiem

por carregares uma imagem assim tão parecida com a de Helena! 75

Se meus pés não estivessem em terra estrangeira, com certeza morrerias por essas

bem-miradas flechas, como recompensa por tua semelhança à filha de Zeus.

Helena
 Ó miserável, quem quer que sejas tu, por que te viras contra mim

e me odeias pelos infortúnios causados por aquela outra?45

Teucro
 Errei. Cedi à raiva mais do que deveria. 80

É que toda a Grécia odeia a filha de Zeus.

Desculpa-me pelo que disse, senhora.

Helena
 Quem és tu? De que terra vieste até aqui?

Teucro
 Sou um dos aqueus, senhora, um dos infelizes.

Helena
 Pois então não é de se espantar que odeies tanto Helena. 85

[Mas quem és e de onde vens? Filho de quem eu devo te chamar?

Teucro
 Meu nome é Teucro, o pai que me gerou foi

Télamon, e Salamina a pátria que me nutriu.

Helena
 O que então te trouxe aos campos do Nilo?]

Teucro
 Sou um exilado, fui banido da terra pátria. 90

Helena
 Coitado de ti! Mas quem te expulsa da pátria?

Teucro
 Télamon, que me gerou. Que pessoa mais querida poderia haver?

Helena
 Mas por quê? Um ato assim envolve desgraça.

Teucro
 Ájax, meu irmão, me destruiu quando morreu em Troia.

Helena
 Mas como? Não foste tu a tirar-lhe a vida com tua espada, foste?! 95

Teucro
 Atirando-se a sobre sua própria espada, morreu.

Helena
 Estava louco? Que homem são ousaria fazer isso?

Teucro
 Conheces um certo Aquiles, filho de Peleu?

Helena
 Sim. Ele foi pretendente de Helena, segundo ouvi dizer.

Teucro
 Quando morreu, deixou uma disputa por suas armas entre os aliados. 100

Helena
 E como é que isso resultou em desgraça a Ájax?

Teucro
 Depois que um outro ficou com as armas, matou-se.

Helena
 E tu então sofres pelos males dele?

Teucro
 Sim, porque não morri com ele.46

Helena
 Então foste, estrangeiro, à famosa cidade de Troia? 105

Teucro
 Ajudei a saqueá-la; em troca, me destruí.

Helena
 Então já foi tomada e subjugada pelo fogo?

Teucro
 De modo que não há vestígio evidente de suas muralhas.

Helena
 Pobre Helena! Por sua causa, pereceram os frígios.

Teucro
 Sim, e os aqueus também; grandes males ela engendrou. 110

Helena
 E há quanto tempo a cidade foi devastada?

Teucro
 Quase sete círculos de anos dobrados.

Helena
 E por mais quanto tempo permaneceram em Troia?

Teucro
 Muitas luas, passaram-se dez anos completos.

Helena
 E a mulher espartana vós também capturastes? 115

Teucro
 Menelau arrastou-a pelos cabelos.

Helena
 Viste tu a infeliz, ou falas de ouvir?

Teucro
 Como te vejo agora com meus próprios olhos, nada menos.

Helena
 Mas observa se não tivestes uma imagem vinda dos deuses.

Teucro
 Recorda-me algum outro assunto – chega dessa mulher! 120

[Helena
 Então imaginas que essa imagem era indubitável?

Teucro
 Porque a vi com meus próprios olhos, e a mente ainda a vê.]

Helena
 E já está em casa com o marido Menelau?

Teucro
 Certamente não em Argos, e nem às margens do Eurotas.

Helena
 Ai ai! Um mal noticiaste… para aqueles de quem falas. 125

Teucro
 O que se diz é que ele e a mulher estão desaparecidos.

Helena
 O caminho não era o mesmo para todos os argivos?47

Teucro
 Era, mas uma tempestade os dispersou em caminhos diferentes.

Helena
 Em que parte do vasto mar estavam?

Teucro
 Estavam no meio da travessia do Mar Egeu. 130

Helena
 Desde então ninguém soube de Menelau ter chegado?

Teucro
 Ninguém. Pela Hélade, diz-se que ele morreu.

Helena
 Estou perdida! E a filha de Téstio ainda é viva?

Teucro
 Falas de Leda? Partiu, está morta.

Helena
 De certo que não foi a fama vergonhosa de Helena que a destruiu? 135

Teucro
 É o que dizem: morreu apertando com um laço o nobre pescoço.

Helena
 E os tindáridas ainda vivem, ou já não existem esses jovens?

Teucro
 Morreram e não morreram, há duas versões.

Helena
 Qual a melhor? Ó infeliz de mim!

Teucro
 Foram transformados em astros, dizem que são deuses. 140

Helena
 Belamente contaste isso, e qual a outra versão?

Teucro
 Que eles cortaram suas próprias gargantas por causa da irmã.

Mas chega de histórias. Não quero gemer duas vezes.

Já que vim a esta morada real,

querendo ver a profetisa Teônoe, 145

sê minha anfitriã, para que eu consiga os oráculos

que me digam como colocar minha vela em vento favorável

em direção à terra marítima de Cípris, onde Apolo me profetizou

que eu moraria, dando-lhe o nome de ilha de Salamina,

em honra da minha outra pátria. 150

Helena
 A própria viagem, ó estrangeiro, revelá-lo-á. Mas agora foge,

deixa esta terra, antes que te veja o filho de Proteu,

que governa esta terra: ele está ausente,

confiado em seus cães para a matança de animais selvagens.

Ele assassina qualquer estrangeiro grego que lhe apareça. 155

O porquê disso não procure saber.

Eu mesma não conto – pois em que te ajudaria?

Teucro
 Falaste bem, mulher, que os deuses48

te deem boas recompensas em troca.

Ainda que tenhas o corpo semelhante ao de Helena, não tens 160

semelhante coração, mas um bem diferente!

Que ela morra horrivelmente e que nunca às margens do Eurotas

chegue, mas que tu, mulher, tenhas boa sorte sempre.

(Sai Teucro.)

Helena

 

Oh! Enquanto começo um grande clamor pelas minhas grandes dores,

com que choro devo concorrer ou a que musa devo me aproximar? 165

[Com lágrimas, com trenos, ou com lutos? Ai ai!] 71

Donzelas aladas,

virgens filhas da Terra,

Sereias: com oboé líbio 170

ou flautas, juntai-vos a mim

em meus dolorosos males.

E enviai, cantoras, lágrimas

em harmonia aos meus trenos,

mágoas como as minhas mágoas, 173

cantos como os meus cantos, 173

para que, lá embaixo,

em sua noturna morada,

de mim receba Perséfone,

além das minhas lágrimas,

um peã aos mortos – sangrento e sem graça. 178

CORO:

180 Perto d’água azul-marinha

e da relva espiralada,

estava eu secando os fenícios

peplos sobre brotos de junco,

ao sol de dourados raios:

de lá ouvi lamentável ruído,

185 canção imprópria à lira,

185 o que, uma vez, certa ninfa

gritou gemendo em altos

ais, tal como uma Náiade

que nas montanhas fugindo,

deixa escapar um lamento

e, sob rochoso côncavo,

190 com clamores chora sua união a Pã.

71 del. Willink49

Helena
 Ó espólio de bárbaro remo,

filhas da terra grega,

um dos nautas aqueus

passou, passou por aqui me trazendo lágrimas sobre lágrimas. 195

Dos escombros de Ílion

cuida o fogo destruidor,

por causa de mim, assassina de muitos,

por causa do meu nome, de muitos pesares.

Leda, enforcando-se, 200

apoderou-se da morte,

em razão da aflição pela minha desonra.

E o meu marido, que pelo mar

muito errou, está morto e acabado.

Castor e seu irmão, 205

gêmeo esplendor da nação,

sumiram, sumiram! Deixaram

a planície ressoante de cascos

e os ginásios do juncoso Eurotas,

onde treinam os mancebos. 210

Coro
 Ai ai! É muito penosa divindade

o teu destino, mulher!

Uma vida que não é vida

tomou, tomou a ti, quando Zeus da mãe te gerou,

reluzente através dos éter,

215 com asa branco-nívea.

Oh sim! que outro mal carece aos teus males?

Que coisa durante a vida não aturaste?

A mãe acabou-se.

220 Os gêmeos de Zeus,

estimada progênie, já não mais prosperam,

e a terra pátria tu já não vês.

Um boato corre pelas cidades

de que tu, soberana,

225 a um leito bárbaro passou.

E seu ‘sposo no mar crispado

deixou a vida; e não mais alegrarás tu

a residência pátria, nem Atena

que habita brônzeo templo.

Helena
 Ai ai! Qual dos frígios 229

ou dos gregos cortou

da terra lacrimoso pinheiro para Ílion?

Dele moldou ruinoso

barco o priamida

e navegou com bárbaro remo50

rumo à minha casa 235

[rumo à mais infortunada

formosura, para que adquirisse minhas núpcias]

e com ele a enganadora e assassina Cípris

levando a morte aos dânaos [e priamidas].

Ó infeliz circunstância! 240

E ela, a que senta em dourado trono,

amante venerável de Zeus,

Hera, enviou o de rápidos pés,

o filho de Maia,

e, enquanto eu colhia em minhas vestes

frescas pétalas de rosas para Atena de brônzeo templo, 245

ele me raptou e carregou através do éter

até essa terra não abençoada e me fez

o motivo de dissídio, dissídio infeliz

entre troianos e gregos.

Meu nome junto às correntes do Simoente 250-1

falsa fama carrega.

Coro
 Sofres, eu sei. Mas é conveniente suportar as privações da vida 253

o mais levemente possível.

Helena
 Mulheres amigas, a que destino eu fui atrelada? 255

Então a que me gerou pariu-me como um portento aos homens?

[Com efeito, nenhuma outra mulher, grega ou bárbara,

colocou branco conceptáculo de passarinho,

como naquele em que – dizem – Leda de Zeus me gerou.] 72

Sim, portentosa é a minha vida e tudo ao meu respeito, 260

em parte, por causa de Hera, em parte, pela minha beleza.

Ah, se eu pudesse ser apagada, como uma pintura,

e tomasse outra forma, uma mais feia, em lugar dessa bonita,

e as desditas de que padeço agora

os gregos tivessem esquecido, e preservassem 265

as felicidades como agora preservam os meus infortúnios.

Alguém que perscrute uma única eventualidade

e seja afligido pelos deuses, sofre, mas pode suportar,

mas eu estou afundada em múltiplos infortúnios.

Primeiro, sem ser injusta, estou desonrada, 270

e este é um mal maior do que a verdade:

o de suportar males que não lhe pertencem.

Depois os deuses me transferiram da terra pátria

para os bárbaros, e, despojada de amigos,

72 Os editores modernos se dividem quanto à autenticidade dos versos 257-9. A deletio, originalmente pro­posta por Wieland, é aceita por Kannicht e Diggle. Mas Allan, Burian e Amiech são a favor da manutenção da passagem, que serve como uma explicação ao τέρας ‘portento’ do v. 256. Há ainda uma proposta, preferida por Kovacs, de manter os versos 257-9, mas transpor o v. 256 para depois do bloco, o que faz do v. 260 uma resposta direta à pergunta do v. 256. 51

escrava me tornei, apesar de ter nascido livre, 275

pois entre os bárbaros todos são escravos, exceto um.

A âncora que sustentava o meu fadário era uma só,

o marido que um dia viria e me libertaria dos meus males;

mas, já que ele está morto, não há mais.

A mãe está acabada, e eu sou sua assassina. 280

Decerto injustamente, mas o que é injusto me pertence.

O ornamento da casa, minha filha,

sem marido e grisalha, segue virgem.

Os Dióscuros, assim chamados porque filhos de Zeus,

não mais existem. E mesmo padecendo de todas as desgraças, 285

estou morta apenas quanto às circunstâncias, mas não na realidade.

[E a pior parte é essa: mesmo que chegasse à terra pátria,

seria barrada nos portões, pois pensariam que eu fosse

a Helena que foi a Troia com Menelau.

É que se o marido estivesse vivo, nós nos reconheceríamos 290

pelos sinais conhecidos apenas por nós.

Mas agora isso não é mais possível, e ele não sobreviverá de jeito algum.]

Então, por que ainda vivo? Que sorte me resta?

Preferir o casamento às adversidades

e viver com um homem bárbaro, sentada à sua opulenta mesa? 295

Mas quando um marido acre une-se a uma mulher,

o seu próprio corpo a ela se torna acre também.

[Melhor morrer. Mas como então morrer com nobreza?

Enforcar-se é vergonhoso,

coisa indigna até mesmo aos escravos. 300

Morrer pela espada é nobre e belo,

mas curto é o ponto vital que desprende a vida.]

Atingi assim o topo dos meus males:

enquanto outras mulheres, por causa da beleza, foram bem-aventuradas,

a mim a mesma coisa destruiu. 305

Coro
 Helena, quem quer que seja esse estrangeiro que aqui veio,

não tomes como verdade tudo o que disse ele.

Helena
 Mas ele disse claramente que meu marido está morto.

Coro
 Muito do que se diz claramente não passa de mentira.

Helena
 E, pelo contrário, também muito é verdade. 310

Coro
 Falas assim porque estás mais para infortúnios do que para o bem.

Helena
 Sim, porque o medo me domina e me guia para o que mais temo.

Coro
 Em quão boa graça estás dos que vivem na casa?52

Helena
 Todos são amigos, com exceção daquele que caça minhas bodas.

Coro
 Aí vai o que tens que fazer: deixa esse refúgio do mausoléu… 315

Helena
 Mas que discurso ou conselho é esse?

Coro
 … e vai à casa e àquela que tudo sabe,

a filha da nereida do mar, Teônoe,

pergunta-lhe do teu marido, se ainda vive,

ou se deixou a luz do dia; e, então, sabendo de fato, 320

alegra-te ou lamenta-te de acordo com a tua sorte.

Mas antes de ter ciência certa das coisas, que vantagem há

em sofrer? Faz o que digo!

[Abandona este túmulo e encontra a donzela

de quem saberás tudo. Já que a tens em casa 325

para dizer-te toda a verdade, por que procurar adiante?]

E eu também quero entrar contigo na casa

para pedir junto a ti pelos oráculos da virgem,

afinal, as mulheres devem se unir na necessidade.

Helena
 Amigas, eu aceito vossos conselhos 330

entrai, entrai na casa,

para que lá dentro escuteis

os desafios que me esperam.

Coro
 Vou de boa vontade, não precisas me chamar duas vezes.

Helena
 Ó dia infeliz! 335

Que história de lágrimas

ouvirei, miserável que sou?

Coro
 Não sejas profeta de aflições,

nem antecipes lamentos, amiga.

Helena
 E o que aturou meu marido infeliz? 340

Acaso vê a luz do dia,

a quadriga do sol

e os caminhos dos astros,

ou, entre os mortos, debaixo da terra,

suporta a sorte duradoura? 345

Coro
 O que quer que o futuro traga,

cuida que seja o melhor.

Helena
 Eu invoco a ti, eu juro a ti,53

Eurotas verde, de juncos aquáticos, 349-50

que, se é verdade o rumor

de que está morto o esposo

como não compreender isso?†,

enforcamento fatal

pelo pescoço alcançarei,

ou a espada de sangrenta 354-5

matança enterrarei fundo

dentro da carne, como prova de força suicida,

oferenda sacrificial às três deusas emparelhadas

e ao priamida que, um dia, na caverna oca,

sentou-se com seu rebanho.

Coro
 Que se afastem esses males! 360

Que seja boa a tua sorte!

Helena
 Oh, Troia infeliz! 73

Por causa de feitos não feitos, sofreste misérias, pereceste.

A minha dádiva de Afrodite engendrou

copioso sangue, copiosas lágrimas, 365

†acarretou dores sobre dores, lágrimas sobres lágrimas, sofrimentos†

mães perderam seus filhos,

e as virgens, irmãs dos cadáveres,

cortaram seus cabelos, junto ao frígio

rio Escamandro.

E longos ais e gritos de dor 370

a Grécia lançou,

pôs as mãos na cabeça

e banhou as delicadas faces

com sangrentos golpes de unhas.

Ó abençoada donzela da Arcádia, 375

Calisto, que deixou o leito de Zeus

como animal de quatro patas,

– como foi melhor que a minha a tua sina!

Na forma de uma fera de patas cabeludas,

[de olhar feroz, a figura de uma leoa]

alienaste a carga dolorosa. 380

E também tu, titanida filha de Mérope,

que, por causa da tua beleza, foste expulsa do coro de Ártemis,

na forma de uma corça de chifres de ouro.

Mas a minha figura arrasou, arrasou a cidade dardânia

e os aqueus arrasados estão. 385

73 Durante essa última estrofe cantada apenas por Helena, presume-se que o coro saísse em silêncio, talvez ainda dançando. Sobre a mise-en-scène desse trecho, vide Taplin, 1977, p. 376.54

(Helena e o coro saem. Entra Menelau pelo eisodos que leva à costa.)

Menelau

Ó Pélope, que, uma vez, em Pisa, bravamente

disputaste a corrida de quadrigas com Enomeu,

ah! se [naquele dia em que, persuadido,

serviste banquete aos deuses] tivesses deixado a vida, 74

antes de haver jamais gerado meu pai Atreu! 390

De seu tálamo com Aérope

gerou Agamêmnon e a mim, Menelau – célebre parelha.

Com efeito, penso – e não falo para me gabar –

ter sido a maior das expedições a que eu levei a Troia por barco,

comandando não como tirano, e nem liderando as tropas à força, 395

mas conduzindo os jovens gregos com consentimento deles.

É possível contar os que não mais existem,

tanto quanto os que felizes escaparam ao mar,

levando de volta para casa os nomes dos que pereceram.

Quanto a mim, pelas ondas do salgado mar brilhante, 400

perambulo, paciente, desde o tempo em que saqueei as torres de Troia.

Ainda que anseie por alcançar a terra pátria,

aos deuses não sou digno dessa sorte.

Naveguei por todos os atracadouros desertos

e inóspitos da Líbia. E toda vez que estivesse perto de casa, 405

mais uma vez, um vento me afastava, e nunca um sopro favorável

atingia minha vela para me fazer chegar a pátria.

E agora, como infeliz náufrago, depois de perder companheiros,

chego a esta terra. A nau contra as pedras

partiu-se em mil pedaços. 410

De suas peças habilidosamente ajustadas, sobrou só a quilha,

sobre a qual consegui me salvar a duras penas,

com Helena, que trouxe arrastada de Troia.

Não sei o nome deste povo e desta terra,

porque tive vergonha de me aproximar da multidão 415

[para que não reparassem nos meus andrajos]

e por pudor escondi meus infortúnios. Quando um homem

nobre sofre agruras, cai num estado a que não está acostumado,

e sofre mais do que aquele que já é infeliz faz tempo.

Mas a necessidade me oprime: não há alimento 420

e nem roupas sobre a pele – o que dá para inferir

dos destroços da nau que uso para me cobrir.

Dos peplos luxuosos e das vestes brilhantes de outrora

74 Porque o trecho correspondente aos versos 388b-389a se encontra muito corrompido e com interpolações, traduzo seu conteúdo apenas parcialmente. Não satisfeita com as propostas de emenda ao complemento ἐν θεοῖς (ἠίθεος Grégoire : ἐν δρόμοις Kannicht), ignorei-o na tradução.55

o mar se apoderou. Nos recônditos de uma caverna,

escondi a mulher que é causa de todos os meus males, 425

forcei os companheiros sobreviventes a vigiá-la e aqui estou.

Sozinho venho, procurando provisões para os companheiros,

se acaso conseguir encontrar alguma coisa.

Vi esta casa, de algum homem rico, 430

cercada por muros e veneráveis portões,

e me aproximei. De casas ricas há esperança de conseguir

alguma coisa para os meus marinheiros, mas os pobres,

ainda que eles quisessem, não teriam como ajudar.

Ei, sentinela! Por favor, sai de casa, vem aqui 435

e comunica ao interior as minhas aflições.

(Sai do palácio a anciã.)

Anciã

Quem está junto aos portões? Deixa essa casa!

E não fiques aí parado junto aos portões do pátio!

Não incomodes o soberano! Ou morrerás!

És grego, e gregos aqui não têm vez! 440

Menelau
 Ó anciã, †falas muito bem essas palavras!†75

Tudo bem, convenceste-me, mas larga de raiva!

Anciã
 Vai embora! Estou incumbida disto, estrangeiro:

não deixar que nenhum dos gregos se aproxime da casa.

Menelau
 Ai! não levantes o punho, nem me empurres à força! 445

Anciã
 Vou sim, porque tu não escutas nada do que digo! A culpa é tua!

Menelau
 Comunica aos teus soberanos lá dentro que…

Anciã
 Acre, eu acho, vai ser comunicar o teu recado.

Menelau
 Aqui venho como um estrangeiro náufrago, espécie inviolável.

Anciã
 Vai embora agora para outra casa que não seja esta! 450

Menelau
 Não, eu vou entrar; e tu faz o que eu digo.

Anciã
 Vê, tu és incômodo; e já, já serás expulso à força.

Menelau
 Ai ai! As minhas célebres tropas, onde estão?

75 O texto está corrompido. Na leitura de Diggle, o tom é de ironia.56

Anciã
 Com certeza, tu foste alguém venerável em outro lugar, mas não aqui.

Menelau
 Ó destino, que desonra imerecida eu sofro! 455

Anciã
 Por que molhas as pálpebras de lágrimas? Aos olhos de quem és

[lamentável?

Menelau
 Aos olhos da minha venturosa posição de outrora.

Anciã
 Então vai embora e vai chorar aos teus amigos!

Menelau
 Que terra é esta? De quem é esta morada real?

Anciã
 Esta é a casa de Proteu, e a terra é o Egito. 460

Menelau
 Egito? Ó infeliz! Até onde eu fui navegar!

Anciã
 Que há para censurar nas brilhantes águas do Nilo?

Menelau
 Não censuro a ele, a minha sorte é que eu lamento.

Anciã
 Muitos sofrem desgraças, tu não és o único.

Menelau
 Então está em casa o rei de que me falaste? 465

Anciã
 Este é o seu mausoléu, seu filho governa a terra.

Menelau
 E onde estaria? Fora ou dentro de casa?

Anciã
 Está fora, e é o mais hostil aos gregos.

Menelau
 E qual a causa pela qual pago?

Anciã
 Helena, a filha de Zeus, está nesta casa. 470

Menelau
 Que dizes? Que história contaste? Dize-me de novo.

Anciã
 A filha de Tíndaro, que um dia esteve em Esparta.

Menelau
 Vinda de onde?! Que explicação tem isso?!

Anciã
 Da terra lacedemônia veio para cá.

Menelau
 Quando? Minha mulher foi roubada da caverna? 475

Anciã
 Antes de os aqueus, ó estrangeiro, chegarem a Troia.57

Mas vai para longe desta morada. Há uma mudança por aqui,

e a casa real está mexida.

Chegaste em momento nada oportuno. E se o soberano

te pegar, a morte será tua xênia. 480

Favorável sou a todos os gregos – as palavras acres

que disse foram por medo do meu soberano.

(Volta para o palácio a anciã.)

Menelau

 

O que penso? O que digo? Após os infortúnios

de antes, ouço sobre esse árduo presente

– se é mesmo certo que de Troia eu vim trazendo 485

a esposa raptada, e, na caverna, ela está guardada,

enquanto alguém de nome idêntico à minha

esposa, uma outra, vive neste palácio.

A anciã disse ainda que trata-se da filha de Zeus.

Mas será mesmo possível que haja um homem chamado Zeus, 490

aqui pelas margens do Nilo? Não, há apenas um, o que vive no céu.

E onde haverá na terra uma outra Esparta, além de lá

onde estão as correntes de belos juncos do Eurotas?

Será que pode haver dois homens chamados Tíndaro

e alguma terra homônima a Lacedemônia 495

ou a Troia? Não sei o que dizer.

É que parece que, pelo mundo, há muitos

que têm nomes idênticos, e o mesmo vale para as cidades

e também para as mulheres. Não há do que se admirar.

Não vou fugir da ameaça de uma serva. 500

Não há homem que seja de coração tão bárbaro

que, ouvindo meu nome, não me dê alimento.

[O fogo de Troia é famoso, assim como eu que o ateei,

Menelau, não desconhecido por toda a terra.

Esperarei o senhor da casa; ele me dá duas opções 505

de cautela: se for perverso, ficarei escondido

e voltarei para junto dos destroços do navio,

mas se apresentar algum sinal de gentileza,

pedirei pelo necessário às minhas atuais circunstâncias.]

Este é para mim o pior de todos os males: 510

sendo rei eu mesmo, ter que mendigar a outros tiranos

pela subsistência; no entanto, é preciso.

Não é palavra minha, mas de algum sábio:

não há nada mais poderoso do que a terrível necessidade.

(Epipárodo.)58

CORO.

Escutei da jovem profetisa 515

o que queria quando fui ao palácio do tirano:

que Menelau ainda não se perdeu pela escuridão

brilhante do Érebo e não está oculto pela terra,

mas ainda se consome ao longo das ondas salgadas, 520

sem alcançar porto da terra pátria,

miserável pela vida errante,

e de amigos privado,

atingindo terras de todo tipo com o remo marinho, 525

desde que deixou a terra de Troia.

(Helena entra seguindo o coro. Menelau ainda está em cena.)

HELENA.

E eu novamente volto ao meu assento neste túmulo,

depois de ouvir de Teônoe palavras amigas.

[Ela realmente sabe de todas as coisas; e diz que vive 530

o meu marido, que está vivo e que vê a luz do dia!

Navegou incontáveis mares, vagando

pra cá e pra lá, não inexperiente em perambulações,

mas virá quando chegar o fim de seus suplícios.

Uma coisa não disse: se, depois que vier, sobreviverá. 535

Eu me reservei de perguntá-lo abertamente,

alegre que fiquei, quando me disse que ele sobrevivera.

Mas disse que ele estaria em algum lugar perto daqui,

naufragado e soçobrado com alguns poucos companheiros.

Ai de mim! Quando virás? Como estou ansiosa por que venhas!] 540

Eia! quem é este? Será que me preparam uma cilada

por determinação do sacrílego filho de Proteu?

E por que, qual rápida potra ou bacante tomada pelo deus,

não juntarei minha perna a este túmulo? Há algo de selvagem

na expressão deste que me persegue. 545

Menelau

 

Tu que te apressas com enorme esforço

em direção à base do túmulo e às colunas onde se queimam as oferendas:

para! Por que foges? Assim que revelaste teu corpo,

deixaste-me perplexo e sem palavras.

Helena

 

Ai, mulheres, estou sendo ultrajada! Por este homem 550

sou impedida de alcançar o túmulo, e ele quer

me pegar para me dar ao tirano de quem evito o consórcio.59

Menelau
 Não sou ladrão, e nem servo de malvados.

Helena
 E ainda assim as roupas que tens ao redor do corpo são feias o

[suficiente para tanto.

Menelau
 Abandona o medo e detém o pé ligeiro! 555

Helena
 Paro, mas só porque já toco o túmulo.

Menelau
 Quem és? Que visão distingo em ti, mulher?

Helena
 E tu, quem és? A mesma pergunta vale para ti e para mim também.

Menelau
 Nunca antes vi um corpo tão parecido.

Helena
 Ó deuses! pois divino é o reconhecer os amigos. 560

< Menelau
 És helênica ou mulher nativa? >

Helena
 Helênica. Mas a tua nacionalidade também quero saber.

Menelau
 A Helena te vejo tão parecida, mulher!

Helena
 E eu te vejo a Menelau! Não sei o que dizer.

Menelau
 E reconheceste corretamente o mais infeliz dos homens. 565

Helena
 Ó que longo tempo até que vieste para os braços de tua esposa!

Menelau
 De que esposa? Não toques minhas roupas!

Helena
 Aquela que te deu Tíndaro, meu pai.

Menelau
 Ó Hécate, que traz a luz, envia aparições benignas!

Helena
 Não é ministro noturno da deusa Enodia que vês em mim. 570

Menelau
 Mas eu, com certeza, não sou um marido de duas esposas.

Helena
 Mas de que outra mulher és senhor?

Menelau
 Daquela que está guardada na caverna, a que recuperamos dos frígios.

Helena
 Não há outra esposa tua que não seja eu!

Menelau
 Estaria eu raciocinando bem, mas com os olhos doentes?! 57560

Helena
 Pois, olhando para mim, não julgas ver tua mulher?

Menelau
 O corpo é semelhante, mas não há certeza.

Helena
 Observa com atenção; de que prova mais certa precisas?

Menelau
 Pareces com ela; isso, com certeza, eu não posso negar.

Helena
 Quem mais pode te provar, além dos teus olhos? 580

Menelau
 Aí está a enfermidade: outra mulher eu já tenho.

Helena
 Não fui eu a Troia, era um fantasma.

Menelau
 E quem fabrica corpos que veem?

Helena
 O éter, é de lá que tens o leito feito pelos deuses.

Menelau
 Formado por qual dos deuses? Inacreditável é o que me dizes. 585

Helena
 Hera o fez como um substituto, para que Páris não me tivesse.

Menelau
 Como assim? Então estavas, ao mesmo tempo, aqui e em Troia.

Helena
 O nome pode estar em vários lugares, mas não o corpo.

Menelau
 Deixa-me ir; cheguei aqui já com aflições suficientes.

Helena
 Então vais me deixar e levarás a esposa vã? 590

Menelau
 Sim, e te desejo bem, porque és semelhante a Helena.

Helena
 Estou acabada! Mesmo tendo te encontrado, não terei marido.

Menelau
 A magnitude dos sofrimentos de Troia me convencem, e não tu!

Helena
 Ai de mim! Haverá alguém mais infeliz do que eu?

Os mais amigos me deixaram, e eu não mais alcançarei a Hélade 595

ou a minha terra pátria algum dia.

(Entra o servo de surpresa, enquanto Menelau já se prepara para sair.)61

SERVO.

Menelau! Eis que te encontro, depois de muito procurar!

Vaguei por toda esta terra bárbara,

enviado pelos companheiros que foram deixados para trás.

Menelau
 Mas o que há? Não fostes vós roubados por esses bárbaros, fostes? 600

Servo
 É admirável! Ainda que o seja menos de nome do que de fato.

Menelau
 Diga, pois pela pressa, é algo de inopinado o que te traz.

Servo
 Digo que foi em vão que suportaste incontáveis penas.

Menelau
 Lamentas por sofrimentos já antigos. E de novo, o que trazes?

Servo
 Partiu tua esposa, arrebatada, em segredo, 605

pelas dobras do éter. Está escondida no céu,

depois de ter deixado a reverenda caverna onde a guardávamos

com as seguintes palavras: “Ó infelizes frígios

e todos vós, aqueus: por mim, junto às margens do Escamandro,

dia após dia, vós seguíeis morrendo por força das maquinações de Hera, 610

imaginando que Páris possuía Helena, quando não possuía.

E eu, depois de ter permanecido pelo tempo que era necessário

e tendo garantido o que estava destinado a acontecer,

vou-me embora ao céu, meu genitor. A infeliz tindárida

ouviu injustas maledicências, de nada tendo culpa.” 615

Ah! olá, filha de Leda! Então era aqui que estavas!

Contava eu como tu tinhas partido

pelos recônditos estrelares, porquanto não soubesse

nada do corpo alado que tens. Não permito que tu zombes

de nós novamente, já que em Troia 620

já contribuíste com penas o suficiente para o teu marido e companheiros.

Menelau
 Então é isto mesmo, a história dela acabou por ser verdadeira.

Ó dia tão esperado que te trouxe de volta aos meus braços!

Helena
 Ó mais amado dos homens, Menelau! 76 625

Tão longo tempo demorou, mas agora o júbilo é completo!

Contente, recebo de volta meu esposo, amigas,

e estendo-lhe os braços amorosos ao seu redor

– depois de tantas auroras do sol reluzente!

76 Nos versos 625-97, Helena e Menelau celebram o seu reconhecimento tardio em um dueto. Na primeira parte (625-59), que constitui o dueto propriamente dito, o casal se abraça comovido pelo reencontro. Na segunda parte (660-97), Menelau interroga Helena, em trímetros iâmbicos ou em partes líricas divididas, sobre detalhes de sua estadia egípcia, ao que sua esposa responde sempre cantando. Esse tipo de canção foi batizada por Willink (1989) de “monódia pontuada”.62

Menelau
 E eu te abraço também. Mas tenho tantas questões, 630

que agora nem sei por onde começar.

Helena
 Regozijo-me. De excitamento, meus cabelos ficam de pé, 77

e lágrimas deixo cair.

Ao teu redor, meu marido, atiro os braços

para gozar deste prazer. 635

Menelau
 Ó visão mais amada, não tenho do que me queixar.

† Possuo o fruto de Zeus e Leda. †

Helena
 Sim, aquela que, sob as tochas, os moços de cavalos brancos,

seus irmãos, proclamaram abençoada, abençoada! 639-40

Menelau
 Há tempos. Mas o deus que de casa e de mim

te levou à outra condição

agora te conduz a uma melhor sorte.

Helena
 Um feliz infortúnio reuniu a mim e a ti, ó esposo,

depois de longo tempo, mas ainda assim. Que eu bem aproveite desta sorte! 645

Menelau
 Que realmente aproveite! Junto-me a ti na mesma prece.

É que quando se trata de um casal, um não é infeliz, sem que o outro

[também o seja.

Helena
 Amigas, amigas,

Não mais lamento ou sofro pelo passado.

Tenho meu marido, meu marido por quem esperei 650

e esperei, durante muitos anos, que voltasse de Troia.

Menelau
 Sim, tens a mim, e eu tenho a ti.

Depois de padecer por incontáveis dias, enfim percebo a intervenção

[da deusa.

E de alegria minhas lágrimas têm mais prazer do que dor.78 654-5

Helena
 Que coisa digo? Quem dentre os mortais jamais esperou algo assim?

Inesperado te tenho junto ao peito.

77 Willink (1989) atribui toda a sequência dos versos 630-5 a Menelau e também reestrutura quase completa­mente os próximos versos da primeira parte do dueto, conhecida como o “enlace” (625-59). Além da busca pela simetria lírica, uma tese importante norteia a leitura de Willink: a de que a linguagem emotiva das partes cantadas também é adequada ao personagem masculino de Menelau. Para a tradução, atenho-me às leituras tradicionais da edição de Diggle.

78 Para os versos 654-6, adoto as atribuições do manuscrito, ao invés das correções de Kretschmar adota­dos por Diggle: no OCT, 654-5 são dados a Helena, enquanto 656 fica com Menelau. A correção pretende atribuir todos os versos doquimíacos a Helena, mas a leitura do manuscrito tem a vantagem da simetria formal. Contra Diggle, Willink (1989, p. 58-9), Burian (2007, p. 232), Allan (2008, p.223) e Kovacs (2002, p. 84) preferem a leitura adotada aqui.63

Menelau
 E eu a ti, que pensei teres ido à cidade do monte Ida

e às torres infelizes de Ílion.

Mas pelos deuses, como foste embora de nossa casa? 660

Helena
 Ai ai! Dolorosa é a causa que tu buscas!

Ai ai! Dolorosa é a história que procuras!

Menelau
 Conta, pois é história que deve ser ouvida. São assim todas as

[dádivas divinas.

Helena
 Uma história tal eu abomino,

uma história tal, como a que revelarei agora.

Menelau
 Mesmo assim, conta. É agradável ouvir sobre males passados. 665

Helena
 Não foi para jovem leito de um bárbaro

que voei levada pelo rápido remo, nem foi o alado desejo

a me guiar para casamento injusto…

Menelau
 Mas então que deus ou destino te privou de tua pátria?

Helena
 O filho de Zeus, de Zeus e Maia, ó esposo, 670

foi quem me levou ao Nilo.

Menelau
 É de se admirar! Enviado por quem? Mas que história espantosa!

Helena
 Choro e encharco as pálpebras de lágrimas.

A esposa de Zeus foi quem me arruinou.

Menelau
 Hera? Mas por que razão ela nos desejaria mal? 675

Helena
 Ai de mim! Foi por causa daqueles banhos e fontes

onde as deuses lavaram sua beleza,

quando foram ao julgamento.

Menelau
 †E por que o julgamento deixou Hera com tanto rancor de ti?†79

Helena
 Para que ela roubasse Páris…

Menelau
 Como? Fala! 680

Helena
 … para quem Cípris tinha me destinado.

Menelau
 Ó infeliz!

Helena
 Infeliz, infeliz mesmo! Trouxe-me ela ao Egito.

79 Traduzo a conjectura de Diggle: †τί δ’ ἐς κρίσιν σοι τόνδ’ ἔθηχ’ Ἥρα κότον;†.64

Menelau
 Então Hera deu-lhe um fantasma em teu lugar, se te dou ouvidos.

Helena
 E em casa que dores, que dores eram as tuas, ó mãe!

Ai de mim!

Menelau
 Que dizes? 685

Helena
 Não existe mais minha mãe! Deu um laço em volta do pescoço

por vergonha do meu casamento impróprio.

Menelau
 Ai de mim! E da nossa filha Hermione há alguma notícia?

Helena
 Sem esposo e sem filhos, ó marido,

ela lamenta <o meu> casamento que não é casamento… 80 690

Menelau
 Ó Páris, ao extremo pilhaste a minha casa!

Helena
 Ação que destruiu a ti e também a incontáveis

dânaos armados de bronze.

E longe da minha cidade e de ti, o deus me lançou, 695

desgraçada e execrada, 695

quando deixei, sem nunca ter deixado,

a tua casa e teu leito por uma vergonhosa união.

Coro
 Se, também no futuro, obtiverdes boa sorte,

isso será suficiente para compensar o passado.

Servo
 Menelau, comigo também partilha deste prazer, 700

o qual eu mesmo percebo, mas não entendo perfeitamente.

Menelau
 Mas então, velho, participa também de nossa conversa.

Servo
 Não foi esta mulher a autora de nossos trabalhos em Ílion?

Menelau
 Não esta: pelos deuses nós éramos enganados,

[tendo em mãos uma imagem ruinosa de nuvem.] 705

Servo
 [Que dizes?]

Então foi por uma nuvem, em vão, que suportamos tantas penas?

Menelau
 Façanha de Hera e da disputa entre as três deusas.

Servo
 O quê, então?! Esta aqui que é realmente a tua esposa?

80 Traduzo ἄγαμον <ἐμόν> de Hermann em lugar da leitura transmitida ἄγαμον †αἰσχύνα†.65

Menelau
 Esta sim; quanto a isso, confia nas minhas palavras. 710

Servo
 Ó filha! Quão variada e indecifrável

é a divindade! Como desvia a tudo totalmente

[arrastando-o para lá e para cá! Um homem pena,

enquanto um outro que nunca penou depois morre horrivelmente,

nada de estável jamais tendo em sua sorte. 715

Tu e teu esposo tiveram vosso quinhão de males,

tu pela tua reputação e ele por sua prontidão para a lança.

Por todo o seu empenho, enquanto empenhou-se, nada obteve,

mas agora os bens lhe chegam por si mesmos e são os mais afortunados.]

Então não envergonhaste teu velho pai e os Dióscuros 720

e nem fizeste o que dizem.

Revivo agora mais uma vez a tua canção de casamento

e me lembro das tochas que eu carregava,

enquanto corria junto aos teus quatro cavalos atrelados. E tu, na carruagem,

com este aqui deixava, como noiva, a casa abençoada. 725

É que é mau aquele que não respeita os assuntos de seu senhor

e não se alegra com ele, nem se agonia com seus males.

[E eu, mesmo que tenha nascido como servo,

que seja contado entre os escravos nobres,

porquanto não tendo nome de homem livre, 730

tenho o espírito, pois isso é melhor do que um só homem

sofrer de dois males: ter um coração mau

e também obedecer como escravo àqueles que o rodeiam.]

Menelau
 Vai, ancião, tu que, junto ao escudo, muitas

fadigas cumpriu labutando por mim, 735

agora também compartilha do meu sucesso

e vai contar aos amigos que deixei para trás

como encontraste as coisas e como está nossa sorte.

Diga-lhes que permaneçam na costa e que aguardem

pelas batalhas que me restam, como espero, 740

e que, caso possamos, de algum modo, roubar Helena desta terra,

estejam eles preparados para unir-se no nosso mesmo destino

e escapar, se pudermos, destes bárbaros.

Servo
 Assim será, ó senhor. Mas agora eu vejo

como é barata e cheia de mentiras a arte dos adivinhos. 745

[Então não há mesmo nada de são na chama dos sacrifícios

ou nas vozes dos pássaros: é ingênuo até mesmo

cogitar que as aves possam ter alguma serventia aos mortais.]

Com efeito, Calcas não disse e nem deu sinal ao exército

de que ele via os amigos morrerem por uma nuvem, 750

e nem o fez Heleno, mas a cidade foi destruída em vão.

[Dirias: porque o deus não o quis.66

Por que então profetizamos? Necessário é aos deuses,

com sacrifícios, pedir pelas dádivas, mas deixar de lado a adivinhação.

Aleatoriamente ela foi inventada, um engodo à existência, 755

e ninguém jamais enriqueceu com sacrifícios, sendo preguiçoso:

o juízo e a prudência são o melhor adivinho.]

Coro
 Essa mesma opinião sobre os adivinhos

divido com o velho: aquele que tiver os deuses

como amigos terá a melhor adivinhação em sua casa. 760

(Provável saída do servo.)

Helena
 Bom, até aqui tudo vai bem.

Mas o modo como sobreviveste, ó infeliz, desde Troia,

não há nenhum lucro em sabê-lo, mas há um certo desejo

[dos amigos de ouvirem as dores daqueles a quem amam.]

Menelau
 Sobre muito me perguntaste em uma só palavra e em uma viagem só. 765

Para que te contaria sobre as destruições no Egeu

e de Náuplio na Eubeia os faróis

e de Creta e da Líbia as cidades que tenho circundado

e a atalaia de Perseu? Porquanto não te saciaria de histórias,

mas, contando-te dos meus males, mais me afligiria 770

[como sofri quando os vivenciei; duas vezes nos entristeceríamos].

Helena
 Falaste até mais do que te perguntei.

Mas uma só coisa diz, deixando de lado o resto: quanto tempo

sobre as costas do mar vagueaste perambulagem marítima?

Menelau
 Nas naus, além dos dez anos em Troia, 775

passei sete circuitos de anos.

Helena
 Ai ai! Longo o tempo que me dizes, ó infeliz!

Tendo sobrevivido, de lá para cá vieste para a degola.

Menelau
 Como falas?! O que dirás? Tu me arruínas, mulher!

Helena
 [Foge o mais rapidamente e parte desta terra.] 780

Morrerás pelas mãos do homem que possui esta morada.

Menelau
 Que fiz para ser merecedor desses infortúnios?

Helena
 Chegaste como obstáculo inesperado às minhas núpcias.

Menelau
 Acaso alguém quis casar com minha esposa?67

Helena
 Ultrajando a mim, e eu teria de suportar. 785

Menelau
 Alguém que tem poderes privados, ou o que governa esta terra?

Helena
 O que deste solo é senhor, progênie de Proteu.

Menelau
 É este o enigma que ouvi daquela serva.

Helena
 A que portas bárbaras paraste?

Menelau
 A estas, de onde, como um pedinte, fui expulso. 790

Helena
 Mas não mendigavas pelo sustento, não?! Ó infeliz de mim!

Menelau
 A ação de fato era essa, mas esse nome não tinha.

Helena
 Tudo sabes então, como parece, sobre as minhas núpcias.

Menelau
 Sei. Mas se escapaste do leito, isso eu não tenho certo.

Helena
 Sabe que teu tálamo foi preservado intocado. 795

Menelau
 Que prova há disso? Bem-vindas palavras, se dizes a verdade.

Helena
 Vês este túmulo, meu sofrido assento?

Menelau
 Vejo uma infeliz cama de palha; que tens a ver com ela?

Helena
 Aqui suplicamos por uma fuga desse leito.

Menelau
 Na falta de um altar, ou por costumes bárbaros? 800

Helena
 Protegia-nos este túmulo, como os santuários dos deuses.

Menelau
 Não me é possível, então, transportar-te para casa?

Helena
 A espada te espera antes que meu tálamo.

Menelau
 Assim seria eu o mais desgraçado dos mortais.

Helena
 Mas agora não te acanhes, foge desta terra. 805

Menelau
 Deixando-te? Troia arrasei em teu favor!

Helena
 Pois é melhor do que meu tálamo te matar.68

Menelau
 Desviril o que disseste! E também não digno de Ílion.

Helena
 Não poderias matar o tirano, o que anseias, talvez.

Menelau
 Assim tão invulnerável ao aço tem ele o corpo? 810

Helena
 Saberás. Ousar o impossível é próprio do homem não sábio.

Menelau
 Em silêncio, entregarei então minhas mãos para serem atadas?

Helena
 Uma aporia atinges. Alguma maquinação é necessária.

Menelau
 Pois é melhor morrer agindo do que não agindo.

Helena
 Única é a esperança pela qual poderíamos nos salvar. 815

Menelau
 Por suborno, ousadia, ou palavras?

Helena
 Se o tirano não ouvir que tu chegaste.

Menelau
 Não perceberá quem sou, eu sei. E quem contará?

Helena
 Há na casa dele uma aliada aos deuses semelhante.

Menelau
 Alguma voz divina instituída nos recônditos da casa? 820

Helena
 Não, é a irmã. De Teônoe chamam-na.

Menelau
 Profético é o nome, mas dize o que ela faz.

Helena
 De tudo sabe. Dirá ao irmão que estás presente.

Menelau
 Estamos mortos então! Já que não me será possível passar despercebido.

Helena
 Talvez se pudermos persuadi-la suplicando-lhe… 825

Menelau
 Fazer o quê? A que esperança me guias?

Helena
 Que não diga ao irmão que estás presente.

Menelau
 E depois de persuadi-la, da terra tiraríamos o pé?

Helena
 Com ela ao nosso lado, facilmente. Mas em segredo, não.

Menelau
 É tua tarefa, pois à mulher convém outra mulher. 83069

Helena
 Saiba que não ficará com os joelhos intocados pelas minhas mãos.

Menelau
 Vai! E se ela não aceitar nossos argumentos?

Helena
 Morrerás. E eu, infeliz, casarei à força.

Menelau
 Uma traidora serias; a força é o que alegas.

Helena
 Mas pela tua cabeça eu juro um sagrado juramento… 835

Menelau
 Que dizes? Morrerás? E jamais trocarás de leito?

Helena
 Pela mesma espada; e jazerei junto a ti.

Menelau
 Em vista disso, toma então minha mão direita.

Helena
 Toco-a; morrendo tu, deixarei a luz do dia.

Menelau
 E eu, privado de ti, acabarei com minha vida. 840

Helena
 Então como morreremos de modo a adquirir fama?

Menelau
 Sobre o túmulo, depois de te matar, matar-me-ei.

Primeiro combateremos grande combate

pelo teu leito. Quem quiser que chegue perto.

Pois não desonrarei a glória troiana 845

e nem, voltando à Hélade, aceitarei grande censura,

eu que, de fato, privei Tétis de Aquiles,

e vi o assassinato de Ájax Telamônio

e o nelida sem filhos; não pensarei eu

ser digno morrer por minha esposa? 850

Por certo, sem dúvida! Com efeito, se são sábios os deuses,

o homem valente que morre guerreando,

com terra leve o cobrem no túmulo,

mas os covardes em duro recife lançam da terra.

Coro
 Ó deuses, que um dia seja bem-aventurada a raça 855

de Tântalo e liberta de males!

Helena
 Ai, infeliz de mim! É assim que estou quanto à sorte.

Menelau, arranjemo-nos: sai da casa

a profetisa Teônoe. A casa ressoa,

enquanto são retiradas as barras. Foge! Mas para que fugir? 860

Estando ausente ou presente, que tu chegaste

aqui ela sabe. Desgraçada, estou arruinada!70

A Troia sobrevivendo, de terra bárbara

vieste para cair novamente sobre bárbaras espadas.

(Teônoe sai do palácio, acompanhada por dois ou mais servos.)

Teônoe

Guia-me tu, carregando a chama das tochas, 865

e purifica com enxofre, conforme a lei venerável, os recônditos do éter,

para que recebamos o ar puro do céu.

E tu, por sua vez, se alguém poluiu o caminho,

pisando-o com pé profano, dá-lhe ao fogo purificador

e bate o pinho à frente para que eu passe. 870

E tendo prestado esta minha cerimônia aos deuses mais uma vez,

a chama do lar à casa recolhei.

Helena, e sobre os meus oráculos? O que pensas?

Está de volta o teu marido Menelau aqui visível,

privado dos navios e de tua imagem. 875

Ó infeliz, vieste escapando de tamanhas penas,

e nem tens certeza do retorno à casa, ou se permaneces aqui mesmo.

Dissídio há entre os deuses, e uma assembleia a respeito de ti

acontecerá diante de Zeus neste dia.

Hera, de um lado, que a ti hostil antes foi, 880

agora é bem-disposta e deseja resgatá-lo à pátria

com esta aqui, para que a Hélade saiba

que as bodas de Alexandre, dádiva de Cípris, pseudonúpcias foram.

Cípris, por sua vez, quer arruinar teu retorno,

para que não seja exposta e não apareça que tenha comprado 885

o concurso de beleza às custas das bodas improdutivas de Helena.

A decisão está em mim: ora, como deseja Cípris,

contando ao irmão que tu estás aqui, te destruo,

ora, ficando ao lado de Hera, salvo tua vida

ocultando-te do parente, que me ordenara falar 890

quando a esta terra sucedesses de retornar.

[Quem irá sinalizar ao meu irmão

que ele é presente, de modo que me ponha a salvo?]

Helena
 Ó virgem, suplicante, caio aos teus joelhos

e sento-me em assento não afortunado, 895

por mim e por este, o qual, apenas tendo encontrado,

estou a ponto de ver morto.

Não me denuncies ao teu irmão que o esposo,

o mais querido, às minhas mãos é chegado.

Salva-o, eu te suplico: pelo teu irmão 900

não traias nunca a tua piedade,

comprando favores nefandos e injustos.71

Com efeito, o deus odeia a violência e ordena a todos

adquirir suas aquisições sem saques.

[Deve ser deixada de lado a riqueza †injusta†, 905

pois comum é o céu a todos os mortais

e também a terra, na qual é forçoso, enquanto enchem suas casas,

não reter as posses alheias nem tomá-las à força.]

Para nós oportunamente, mas infelizmente para mim,

Hermes deu-me ao teu pai para salvar-me a este 910

marido, que está aqui e deseja reaver-me.

[Como então, estando morto, me recuperaria? E como aquele

o vivo aos mortos devolveria?

Agora observa os interesses dos deuses e do teu pai:]

Acaso a divindade e o morto as coisas alheias 915

desejariam ou não desejariam devolver?

Penso que sim. Então não é preciso tu respeitar mais

ao irmão insensato do que ao pai valoroso.

Se sendo profetisa e nos deuses acreditando,

a justiça do teu pai arruínas, 920

enquanto que ao injusto irmão concedes um favor,

vergonhoso será tu discernir todas as coisas divinas,

as que são e as que serão, mas as justas não.

Quanto a mim, infeliz, em tais males envolvida,

salva-me, concedendo-me isso, acréscimo à justiça. 925

É que não há ninguém que não odeie Helena entre os mortais:

eu que sou celebrada pela Hélade por ter abandonado meu

marido e ter ido morar nas casas repletas de ouro dos frígios.

Mas se eu for à Hélade e pisar em Esparta mais uma vez,

ouvindo e vendo que pelas artimanhas dos deuses 930

foram destruídos, e eu traidora então não fui aos amigos,

novamente reconduzida à minha virtude,

prometerei em matrimônio a filha com quem agora ninguém casa

e, deixando aqui a mendicância amarga,

com os tesouros de casa deleitar-me-ei. 935

Se estivesse morto, na pira, † assassinado †,

distante, ausente, com lágrimas, eu lhe mostraria meu afeto;

mas, agora que é presente e a salvo, serei privada dele?

Não, de jeito algum, virgem, mas te suplico isto:

conceda-me esta graça e imita os modos 940

do pai justo; pois aos filhos é esta a glória

mais bela – a qualquer um nascido de pai valoroso –,

puxar aos pais quanto aos modos.

Coro
 Lamentáveis palavras aqui presentes

e lamentável tu também. Mas de Menelau anseio 945

ouvir as palavras que dirá por sua vida.72

Menelau
 Eu não me submeteria a cair aos teus joelhos

e nem molhar de lágrimas minhas pálpebras: é que à Troia,

ao tornarmo-nos covardes, envergonharíamos ao máximo.

De fato, dizem que aos homens bem-nascidos convém, 950

em más circunstâncias, lágrimas dos olhos verter.

Mas bela esta atitude, se bela for,

eu não a preferiria ante a coragem.

Mas, se te parece correto salvar um homem estrangeiro

que procura recuperar sua mulher, 955

devolve-a e também me salva; e se não te parece,

agora não seria eu infeliz uma primeira vez, mas já numerosas,

e tu aparecerá como mulher má.

O que digno de nós e justo consideramos

e que tocará ao máximo o teu coração, 960

direi caído diante deste mausoléu do teu pai.

Ó ancião, que habita esta tumba de pedra,

devolva-a, peço-te de volta a minha consorte,

a que Zeus enviou até aqui para tu guardares para mim.

Sei que nunca a devolverás, porque estás morto, 965

mas esta, enquanto invoco desde baixo o seu pai,

não julgará digno que o que antes era tão bem-afamado

seja mal falado; já que soberana é agora.

Ó ínfero Hades, também a ti convoco como aliado,

que muitos corpos por causa desta recebeste, 970

sucumbidos à minha espada, tens tua paga:

ou devolva agora aqueles corpos reanimados novamente,

ou, ao menos, força esta mulher a parecer

ainda mais piedosa do que seu pai †e a devolver minha† esposa.

Se me roubareis minha mulher, 975

dir-te-ei o que ela omitiu em suas palavras.

Ficas a saber, ó virgem: por juramentos estamos presos

a primeiro ir à luta com teu irmão,

e ou ele ou eu precisa morrer – a questão é simples.

E se ele não quiser confrontar minha força pé contra pé 980

e apanhar a nós dois pela fome, enquanto suplicamos neste túmulo,

estou decidido a matar a ela e depois a mim,

ao fígado enfiar esta espada de duplo fio

nas costas deste túmulo, para que as correntes de sangue

pinguem da tumba; e jazeremos 985

dois corpos, um após o outro, sobre esta tumba talhada,

imorredoura aflição para ti, e censura ao teu pai.

Ah sim! não casará esta com teu irmão,

nem com nenhum outro; eu vou levá-la para mim,

se não para casa, pelo menos, para os mortos. 990

[Que é isso? Com lágrimas, tornando-me ao feminino,

eu seria mais digno de pena do que eficaz.73

Mata-nos, se te parece, pois inglórios não matarás;

mas, de preferência, sê persuadida pelas minhas palavras

para que tu sejas justa e eu tome minha esposa.] 995

Coro
 Está em teu poder ajuizar, ó jovem, essas palavras:

decide de forma que agrades a todos.

Teucro
 Fui gerada para e também quero viver piedosamente;

amo a mim mesma, e a glória do meu pai

não macularia, e nem ao irmão um favor 1000

concederia do qual eu fosse parecer inglória.

Há um grande templo da justiça

em minha natureza, e isto da parte de Nereu

recebi e tentarei, Menelau, conservá-lo.

Com Hera, já que ela deseja ser-te benévola, 1005

o mesmo voto darei; e que Cípris me

seja favorável, ainda que, em lugar algum, tenha se juntado a mim.

[Pretendo permanecer virgem para sempre.]

Quanto às coisas que junto a esta tumba do meu pai repreendes,

para mim vale o mesmo discurso: eu agiria injustamente 1010

se não a devolvesse, pois ele, se visse a luz do dia,

devolvê-la-ia a ti para mantê-la, e tu a ela.

Com efeito, há punição destas coisas tanto aos ínferos,

quanto também a todos os homens de cima; por um lado, a mente

dos mortos não vive, mas, de outra parte, mantém o juízo 1015

imorredouro ao imorredouro éter advindo.

Para então finalizar sem delonga, silenciarei

sobre o que me rogaram, e da loucura

do meu irmão jamais serei conselheira.

Sou benévola a ele, ainda que não pareça, 1020

se de ímpio a reverente o faço.

Vós mesmos agora descobri o caminho,

e eu, colocada à distância, silenciarei.

Pelos deuses começai e suplicai

a Cípris que te permita voltar à pátria 1025

e que a intenção de Hera permaneça a mesma,

que quer salvação para ti e teu marido.

E tu, ó meu falecido pai, enquanto eu tiver forças,

jamais tu serás chamado impiedoso ao invés de piedoso.

Coro
 Ninguém jamais prosperou sendo injusto; 1030

na justiça, está a esperança de salvação.

(Teônoe volta para o palácio.)74

Helena
 Menelau, quanto à virgem, estamos salvos.

Mas agora a um só ponto é preciso que nós conduzamos os raciocínios

para coligirmos um plano comum de salvação.

Menelau
 Escuta-me agora então: há longo tempo estás sob este teto 1035

e estás familiarizada com os servos do rei.

Helena
 Por que dizes isto? Trazes esperanças

de que, de fato, farás algo proveitoso a nós dois.

Menelau
 Persuadirias algum dos que a quadriga

comandam a nos conceder uma carruagem? 1040

Helena
 Persuadiria. Mas que fuga fugiremos,

inexperientes que somos nas planícies destas terras bárbaras?

Menelau
 Impossível, dizes. Bem, e se, escondendo-me na casa,

eu matar o soberano com esta espada de duplo fio?

Helena
 A irmã não suportaria nem silenciaria, 1045

se estivesses a ponto de matar seu irmão.

Menelau
 Além do que não há nau em que nos salvássemos

fugindo, já que a que tínhamos o mar tem agora.

Helena
 Escuta, se até mesmo uma mulher puder dizer algo de esperto.

Estarias disposto a ser declarado morto por palavra, não estando morto? 1050

Menelau
 Mau é o augúrio, mas se me traria proveito, dize.

Preparado estou para morrer por palavra, não estando morto.

Helena
 E nós ainda nos lamentaríamos com os cabelos aparados

e com trenos femininos, diante do homem profano.

Menelau
 Mas para nossa salvação que remédio isso tem? 1055

Algo de antiquado há nesta história.

Helena
 É que estando tu morto no mar, pedirei ao tirano desta terra

prestar honras a ti em uma tumba vazia.

Menelau
 E caso ele permita, como então sem nau

sobreviveremos, honrando minha pele com um cenotáfio? 1060

Helena
 Pedirei que conceda uma embarcação, em que deitaremos

ornamento à tua tumba nos braços do pélago.75

Menelau
 Falaste bem, exceto por uma coisa: se, na terra seca,

ele pedir que realize os ritos fúnebres, em nada o pretexto ajuda.

Helena
 Mas eu direi que não é costume na Hélade 1065

sepultar em terra seca os que morreram no mar.

Menelau
 Isto igualmente endireitas; então eu navegarei contigo

e contigo deitarei ornamento no mesmo barco.

Helena
 É necessário, sobretudo, que tu também estejas presente e os teus

marinheiros, os que escaparam do naufrágio. 1070

Menelau
 E, de fato, se eu tomar uma nau ancorada,

homem contra homem levantar-se-á de espada em punho.

Helena
 É preciso que tu controles tudo. Ventos condutores

nas velas venham apenas, e rota propícia.

Menelau
 Assim será, pois as divindades cessarão minhas penas. 1075

Contudo, de quem dirás ter ouvido que estou morto?

Helena
 De ti. E dirás que sozinho escapaste ao destino

navegando com o filho de Atreu e viste ele morrer.

Menelau
 E, de fato, estes trapos ao redor do meu corpo

testemunham contigo a tua história da ruína náutica. 1080

Helena
 Para bom proveito vieram, ainda que desproveitosas quando

[destruídas.

Aquela infelicidade, de repente, afortunada será.

Menelau
 Acaso é preciso que eu entre junto a ti na casa,

ou próximo a este túmulo, sossegados, sentamos?

Helena
 Fica aqui, pois ainda que ele te faça algo fora de tom, 1085

este túmulo te protegeria e tua espada.

E eu vou para casa, cortarei uns cachos do cabelo

e os peplos brancos por negros trocarei

e nas bochechas enfiarei as unhas sanguinárias à pele.

Grande é a contenda, e vejo dois lados para onde possa cair a balança: 1090

é que ou é preciso que eu morra, se for pega maquinando,

ou eu retorno à pátria e salvo tua pele.

Ó senhora que no leito de Zeus repousas,

Hera, dois míseros mortais alivia de penas,

pedimos lançando os braços estendidos ao céu, 1095

onde habitas em meio ao brocado das estrelas.76

E tu, que às custas do meu casamento adquiriste a beleza,

jovem filha de Dione, Cípris, não me destruas.

De assaz ultrajes já me ultrajastes,

exibindo o meu nome, mas não meu corpo, entre os bárbaros. 1100

Morrer concede-me, se queres matar-me,

em terra pátria. Por que és insaciável de males,

a amores, enganos, dolos e invencionices

dedicando-te e filtros fatais aos corpos?

Se fosses moderada, em tudo, certamente, a mais doce dentre os deuses 1105

serias aos homens – de outro modo não digo.

(Helena entra no palácio.)

(Estrofe A)

Coro
 A ti em teus retiros sob a coma das árvores,

em salão musical e assento colocado,

convoco,

o mais canoro pássaro musical,

rouxinol lacrimoso, 1110

vem trinando pela bico gorjeante,

em sinergia com meus trenos,

enquanto canto de Helena as penas vãs

e das mulheres de Ílion

o destino lacrimoso 1115

sob as pontas de lanças aqueias,

quando correu pelas ondas cinzentas, em bárbaro remo,

aquele que veio, veio conduzindo aos priamidas lúgubre

leito da Lacedemônia,

a ti, ó Helena, Páris o fatalmente casado, 1120

a mando de Afrodite.

(Antístrofe A)

E muitos dos aqueus pela lança e por rochosos

arremessos expiraram e o Hades

lúgubre habitam,

das infelizes esposas

cortaram os cabelos,

1125 e sem núpcias jazem as casas.

E a muitos, acendendo com brilho flamejante

a Eubeia cercada de mar, matou um dos aqueus,

homem de remo solitário – nas pedras

cafareias lançando-os,

1130-1 e nos promontórios marinhos do Egeu,

1130-1 lampejando o astro doloso.

E a territórios sem porto, lúgubres, de bárbaro vestuário,77

foi impelido, longe da pátria, por rajadas de tempestade;

uma dádiva, que não é dádiva, mas dissídio

1135 dos dânaos Menelau nas naus conduzia,

o fantasma sagrado de Hera.

(Estrofe B)

O que é deus, e o que não é deus, e o intermédio?

Qual dos mortais, depois de investigar, vai dizer?

O mais extremo limite encontrou aquele que a vontade dos deuses enxerga, 1140

de cá, para lá, e de volta saltando em incertas,

inesperadas fortunas.

Tu, ó Helena, é filha de Zeus gerada,

pois, nos seios de Leda, um alado 1145

pai te engendrou,

e ainda assim foste proclamada pela Grécia

traidora, infiel, injusta e sem deus; não sei

†o que pode ser claro entre os mortais, a palavra

dos deuses descobri verdadeira†81. 1150

(Antístrofe B)

Insanos vós que a glória pela guerra

e pela ponta da forte lança

procurais, estupidamente na morte dissipando as penas.

Se as disputas de sangue devem decidi-lo, jamais o dissídio

1157 deixará as cidades dos homens,

†que deixaram sepultura na terra de Príamo,†

quando era possível endireitar com argumentos

1160 o teu dissídio, ó Helena.

Mas agora de Hades eles são assunto lá embaixo,

e contra os muros uma chama, †chamejante† como Zeus,

[foi impelida

e mágoas sob mágoas suportas, †em desgraçados

infortúnios lutuosos.†

(Entra Teoclímeno e seus servidores pelo eisodos oposto à costa.)

TEOCLÍMENO. Salve, mausoléu paterno! É que junto à saída 1165

te enterrei, Proteu, para minha saudação:

sempre que saindo ou entrando em casa,

81 Intérpretes tendem a estranhar a repentina confiança na palavra dos deuses, depois da dúvida expressa no começo da estrofe. Allan e Kovacs defendem emendas de Schenkl e Willink que seriam traduzidas assim: “não sei o que seja claro, que palavra verdadeira sobre os deuses eu possa encontrar (ἕυρω) entre os mortais”.78

este Teoclímeno, teu filho, te chama, pai.

E vós, então, os cães e os laços para as feras

levai, escravos, para a casa do tirano. 1170

Eu mesmo, muitas vezes, de fato, me repreendi,

já que com a morte os maus não castigamos.

E agora ouço que um dos helenos abertamente

a esta terra chegou, tendo passado despercebido pelos vigias,

por certo ou como espião, ou caçando Helena para roubá-la, 1175

mas morrerá assim que for pego.

Ah!

Mas parece-me que tudo já concretizado

encontro, pois, tendo deixado vazio o assento do túmulo,

a tindárida filha foi levada desta terra pelo mar.

Oh! soltai as barras, abri as hípicas 1180

manjedouras, servos, e trazei as carruagens,

para que, ao menos, pelo meu esforço, não me escape

levada desta terra a mulher que desejo.

Detende! que vejo os que perseguimos

presentes na casa, e não fugidos. 1185

Tu aí, por que peplos negros penduraste à pele

trocando-os pelos brancos, e da nobre cabeça

o cabelo cortaste infligindo-lhe o aço,

e molhas com lágrimas cintilantes tua bochecha

chorando? Acaso convencida por sonhos 1190

noturnos te lamentas, ou tendo ouvido alguma notícia de casa,

devastas teu coração?

Helena
 Ó senhor – pois agora por este termo já te nomeio –

estou perdida! Arruinados estão os meus negócios, e eu já não sou nada.

Teoclímeno
 Mas em que infortúnios jazes? Que sorte é a tua? 1195

Helena
 Menelau – ai de mim! como direi? – me é morto.

Teoclímeno
 [Em nada me alegro com tuas palavras, ainda que me sejam

[afortunadas.]

Como soubeste? Não é Teônoe que te conta isto?

Helena
 Ela o diz, e também alguém que esteve presente quando ele morreu.

Teoclímeno
 Alguém que veio e isso reporta com segurança? 1200

Helena
 Veio – pois que vá aonde desejo que chegue.79

Teoclímeno
 Quem é? Onde está? Fala para eu saber mais seguramente.

Helena
 Este que se sentou agachado no túmulo.

Teoclímeno
 Apolo! Com que traje horrível se apresenta!

Helena
 Ai de mim! Penso que meu marido também tem um desses. 1205

Teoclímeno
 Mas de que pátria é este homem e de onde chegou a esta terra?

Helena
 Da Hélade, é um dos aqueus que navegaram com meu marido.

Teoclímeno
 E que tipo de morte diz Menelau ter morrido?

Helena
 A mais lamentável, nas marolas úmidas do mar.

Teoclímeno
 Onde no pélago bárbaro navegava? 1210

Helena
 Na Líbia, naufragou contra os rochedos inóspitos.

Teoclímeno
 E como este, compartilhando o remo, não morreu?

Helena
 Ignóbeis, às vezes, são mais afortunados do que os nobres.

Teoclímeno
 E onde deixou os destroços da nau, antes de vir aqui?

Helena
 Onde gostaria que perecesse horrivelmente, mas não Menelau! 1215

Teoclímeno
 Pereceu aquele. Mas em que barco veio este?

Helena
 Marinheiros que o encontraram salvaram-lhe, segundo conta.

Teoclímeno
 E onde está o mal mandado a Troia em teu lugar?

Helena
 A imagem de nuvem, tu dizes? Para o éter partiu.

Teoclímeno
 Ó Príamo e terra de Troia, como sucumbes em vão! 1220

Helena
 Eu, também, tive parte nas desventuras dos priamidas.

Teoclímeno
 E deixou teu marido insepulto, ou o cobriu com a terra?

Helena
 Insepulto! Ai de meus males, miserável que sou.

Teoclímeno
 E por causa disso cortaste os cachos da coma loura?80

Helena
 Pois querido †é, seja quem for, estando aqui†.82 1225

Teoclímeno
 É justo, de fato, que esses infortúnios sejam chorados.

<Helena
 >

<Teoclímeno
 >

Helena
 É fácil, então, passar despercebido por tua irmã.

Teoclímeno
 De modo algum. Mas e agora? Habitarás ainda este túmulo?

Helena
 É que sou fiel ao marido fugindo de ti. 1230

Teoclímeno
 Por que me provocas e não deixas o morto em paz? 1229

Helena
 Não mais. Começa já os preparativos das minhas núpcias. 1231

Teoclímeno
 Depois de longo tempo isso acontece, mas mesmo assim eu o louvo!

Helena
 Aí vai o que tens que fazer: esqueçamos o passado.

Teoclímeno
 Em que termos? Graça venha em troca de graça.

Helena
 Façamos uma trégua, e tu te reconcilia comigo. 1235

Teoclímeno
 Desisto da minha rixa contigo, que bata asas!

Helena
 Agora aos teus joelhos, já que és amigo…

Teoclímeno
 Que coisa queres alcançar de mim como suplicante?

Helena
 Ao falecido meu marido quero fazer o funeral.

Teoclímeno
 O quê? Não está ausente de tumba? Ou farás o funeral de

[uma sombra? 1240

Helena
 Há um costume entre os helenos, quem morrer no mar…

Teoclímeno
 Que fazer? Certamente os pelópidas serão sábios a esse respeito.

Helena
 Fazer o funeral nos tecidos vazios dos peplos.

Teoclímeno
 Fazei-lhe as exéquias: erige o túmulo onde quiseres nesta terra.

82 Entre as muitas emendas propostas, Diggle e Allan preferem: φίλος γάρ ἐστιν, ὥς ποτ’ ἦν, ἔτ’ ἐνθάδ’ ὤν (‘Pois ainda é amado aqui, como foi um dia’).81

Helena
 Não dessa maneira enterramos os marinheiros mortos. 1245

Teoclímeno
 Como então? Fico para trás quanto aos costumes da Hélade.

Helena
 Ao mar levamos o que é necessário ao defunto.

Teoclímeno
 Então o que devo providenciar-te para o falecido?

Helena
 Este aqui sabe; eu sou ignorante, já que até agora era bem-aventurada.

Teoclímeno
 Ó estrangeiro, trouxeste de fato notícias apreciadas. 1250

Menelau
 Não para mim, e nem para o falecido.

Teoclímeno
 Como fazeis funerais aos cadáveres mortos no mar?

Menelau
 De acordo com o que cada um tiver disponível.

Teoclímeno
 Quanto aos bens, diga o que queres pela graça desta mulher.

Menelau
 Primeiro, sacrifica-se sangue aos ínferos. 1255

Teoclímeno
 De que animal? Tu sinaliza-me, e eu o pagarei.

Menelau
 Tu mesmo decide, pois o que deres bastará.

Teoclímeno
 Entre os bárbaros, cavalo ou touro é o costume.

Menelau
 E dá apenas o que não for em nada defeituoso.

Teoclímeno
 Destes não carecemos em nossos prósperos rebanhos. 1260

Menelau
 E leva-se também um leito coberto, vazio de corpo.

Teoclímeno
 Assim será. E que outra coisa costuma-se oferecer?

Menelau
 Armas de cobre, já que também era amigo da lança.

Teoclímeno
 Dignas dos pelópidas serão as que daremos.

Menelau
 Quanto ao resto, tudo o que a terra dá de bons frutos. 1265

Teoclímeno
 Mas aí como? Às ondas, de que maneira o lançais?

Menelau
 É preciso que haja uma nau e com remadores.82

Teoclímeno
 E a que distância da terra é preciso afastar o barco?

Menelau
 De modo a mal avistar-se da costa as espumas dos remos.

Teoclímeno
 Por quê? Por que a Grécia respeita tal costume? 1270

Menelau
 Para que as ondas não lancem de volta à terra as impurezas.

Teoclímeno
 Rápidos remos fenícios serão providenciados.

Menelau
 Nobre isso seria, e um favor a Menelau.

Teoclímeno
 E tu sem esta bastará para tudo cumprir, não?

Menelau
 Esta é tarefa da mãe, da mulher ou dos filhos. 1275

Teoclímeno
 Desta é o trabalho, segundo dizes, de fazer o funeral do marido.

Menelau
 Piedosamente, ao menos; o costume é não trapacear os mortos.

Teoclímeno
 Que seja, é do meu interesse nutrir uma esposa piedosa.

Depois de ir à casa e escolher o ornamento aos mortos

< >

E a ti não despacharei desta terra de mãos vazias,

tendo feito a ela um favor e tendo me trazido

boas notícias: em lugar desses trapos,

receberás vestuário e alimentos para que à pátria

tu chegues, já que agora te vejo tão combalido.

E tu, infeliz, pelo inútil não

te desgastes <

> mas Menelau tem seu lote, 83

e não seria possível, com lamentos, fazer viver o falecido. 1287

Menelau
 Tua tarefa, ó jovem: aquele que está presente

é preciso amar como marido, e deixar ir o que não mais está.

Com efeito, isto é o melhor para ti em face dos acontecimentos. 1290

E se à Hélade eu chegar e tiver salvação,

deterei o opróbrio anterior sobre ti – se fores a mulher 1293

que é preciso que sejas ao teu consorte. 1292

Helena
 Assim será. E nem censurará jamais o marido

a nós; tu mesmo, estando próximo, saberás disso. 1295

Entra, ó infeliz, toma um banho

e as roupas troca. Sem demora,

83 Para a lacuna, Diggle sugere e. g. < Μενέλεων ἄγαν στένε. | σὺ μὲν βλέπεις φῶς, >, em tradução: não < lamentes demais por Menelau. | Tu vês a luz, > mas Menelau tem seu lote.83

cuidarei de ti, pois, mais bem-disposto,

ao meu mais amado Menelau farias

o que for conveniente, de nós obtendo o que te é preciso. 1300

(Teoclímeno, Helena e Menelau entram no palácio.)

(Estrofe A)

Coro
 Outrora, em pé veloz,

correu a Mãe montanhesa dos deuses

pelos bosques arborizados,

e fluviais correntes de água,

e troantes ondas salgadas, 1305

em desejo da afastada

donzela que não pode ser nomeada.

E os bramantes címbalos, penetrante

clamor lançando, bradavam,

quando a uma parelha de feras 1310

a deusa atrelou a carruagem,

(atrás) daquela raptada do círculo

do coro de virgens

e entre as donzelas†

< ᴗ ᴗ – ᴗ > com pés de tempestade, 84

e então Ártemis com seus arcos, e a 1315

de olhos ferozes com lança totalmente armada.

Mas olhando do celeste

< – x – x – ᴗ ᴗ – > 85

outro destino ordenava.

(Antístrofe A)

E quando velozes perambulações

1320 a mãe cessou o afã,

buscando †afãs†

o doloso rapto da filha,

e cruzou os cumes nutridos de neve

do monte Ida habitado por ninfas

1325 e, em sofrimento, lança-se

nos rochosos bosques muito nevados.

E aos mortais as planícies da terra desviçosas

< x – x – ᴗ ᴗ – >

não fertilizando com safras,

84 Uma boa solução para essa sequência é proposta por Maas, que rearranja e suplementa os versos 1314-5 assim: κούραν < – x – ᴗ ᴗ – >. | μετὰ δ’<ἠιξαν> ἀελλόποδες. Pelo sentido da passagem, o verbo que conti­nua faltando deve significar algo como “partiu em busca”.

85 Como suplemento, Diggle dá < Ζεὺς ὁ παντόπτας ἑδράνων >. A sentença inteira, em tradução, ficaria: “Mas olhando do celeste assento, Zeus que tudo vê outro destino ordenava.”84

e destrói a raça dos homens;

1330 e aos rebanhos não envia fresca

forragem de folhas espiraladas;

e a vida deixava as cidades,

e nem haviam sacrifícios aos deuses,

e as misturas restavam inconsumidas nos altares.

1335 E faz cessar as fontes orvalhadas

de águas brilhantes de fluir,

em sofrimento inconsolável pela filha.

(Estrofe B)

Mas quando cessou os banquetes

aos deuses e à progênie dos mortais,

Zeus, querendo aplacar a soturna

raiva da Mãe, profere: 1340

‘Ide, reverendas Graças,

parti, a Deo enraivecida

por causa da virgem

† a dor retirai † com brado,

e vós, Musas, com cantos para os coros.’ 1345

E a voz ctônica do bronze

e os tambores de pele tesa pegou

então, pela primeira vez, a mais bela

entre os bem-aventurados,

Cípris; e a deusa riu

e tomou em suas mãos 1350

o aulos altissonante,

divertida com seu som.

(Antístrofe B)

† dos quais não é certo nem permitido pela lei divina

consumiste como sacrifício nos leitos †86

1355 e tens a cólera da grande

Mãe, ó filha, não tendo honrado

os sacrifícios da deusa.

São, de fato, enormemente poderosos

os variegados trajes de pele de cervo

1360 e o viço da hera laureado

nas férulas sagradas87

e o balanço circular do rombo88

86 Muito corrompidos, esses versos falam de alguma falta de Helena, não conhecida por outras fontes, que teria motivado a ira de Cibele/Deméter.

87 1360-1 descreve o tirso.

88 Sobre o ῥόμβος, West explica que: “It consists of a shaped piece of wood whirled round on the end of a string to produce a demonic roaring noise, and it is widely used in primitive initiation ceremonies. In Greece it was used in some mystery cults, especially those of Dionysus and Cybele, in association with drums and cymbals. It also had magical uses, and it could be a child›s toy.” (1992, p. 122)85

girando no éter

e a cabeleira agitada baquicamente por Brômio

1365 e os festivais noturnos da deusa.

†E de dia a lua

bem o excedeu,

pela beleza apenas te jactavas.†89

(Helena sai do palácio.)

Helena
 Quanto às coisas da casa, amigas, somos afortunados.

É que a filha de Proteu, ajudando a esconder 1370

a presença do meu marido, quando questionada,

[não disse ao irmão; mas, morto e na terra,]

afirma que ele não vê a luz do sol – em meu favor.

E o melhor † de fato fisgou, em sua sorte, † meu marido.

Com efeito, as armas que ele deveria lançar ao mar, 1375

tendo passado seu nobre braço na correia,

ele mesmo carrega, também apanhando a lança na destra,

como se cooperando de fato nas oferendas ao morto.

E adequadamente ataviou o corpo para a luta

para obter, com seu braço, troféus de inúmeros bárbaros, 1380

quando embarcarmos no barco de remos.

E tendo trocado as vestes naufragadas por peplos,

eu mesma lhe paramentei e dei seu corpo ao banho,

aguardadas águas puras de rio.

Mas sai do palácio aquele que imagina 1385

ter meus esponsais em suas mãos,

devo silenciar. E a ti convenço

< >

gentilmente controlar tua língua; se pudermos

nos salvar, também a ti ajudaremos a salvar um dia.

(Teoclímeno sai do palácio, seguido por Menelau e alguns servos.) 90

Teoclímeno
 Avançai em ordem, como mandou o estrangeiro, 1390

escravos, levando as oferendas funerárias ao mar.

Mas tu, Helena, se a ti não pareço falar mal,

escuta: fica aqui. Com efeito, as mesmas honras prestarás

ao teu marido, estando presente ou não.

89 A tradução lê μορφᾶ como dativo. De resto, é desconhecida essa ofensa de Helena de negligenciar os ritos da deusa por apenas cuidar de sua própria beleza.

90 A entrada de Menelau aqui não é anunciada, talvez por ele estar sob os auspícios do rei (HALLERAN, 1985, p.23). Parece pouco plausível que Menelau entre já no verso 1369, uma vez que Helena se refere a ele na terceira pessoa nos versos 1370-84.86

Temo que algum desejo que te caia 1395

vá te persuadir a soltar teu corpo às ondas do mar,

arrebatada pelas graças do marido anterior.

É que ele não estando presente, ainda o lamentas demais.

Helena
 Ó meu novo esposo, é forçoso

o primeiro marido e a união virginal 1400

honrar. Eu, por amar o marido,

morreria com ele, mas que favor faria ao morto

morrendo com ele? Mas permite a mim

mesma ir e conceder exéquias ao morto.

E que os deuses te concedam o que eu desejo 1405

e a este estrangeiro aqui, já que ele ajuda nisso.

E me terás tal como a mulher que te é preciso ter

em casa, uma vez que a Menelau és gentil

e a mim, pois para algum sucesso caminham as coisas.

Mas aquele que dará a nau em que conduziremos esses ritos 1410

designa, para que eu receba teu favor inteiro.

Teoclímeno
 Vai tu e dá a eles uma nau quinquerreme

sidônia e com remadores.

Helena
 E não comandará a nau este que ordena os ritos fúnebres?

Teoclímeno
 Certamente. É preciso que meus marinheiros escutem a ele. 1415

Helena
 Mais uma vez, ordena, para que claramente eles o aprendam de ti.

Teoclímeno
 Mais uma vez, ordeno, e uma terceira até, se te apraz.

Helena
 Abençoado sejas! E eu por meus propósitos.

Teoclímeno
 Mas agora que não dissolvas tua tez com lágrimas demais.

Helena
 Este dia te mostrará minha gratidão. 1420

Teoclímeno
 As coisas dos mortos não são nada, além de trabalho vão.

Helena
 † São alguma coisa, cá e lá, estes dos quais falo. †

Teoclímeno
 Terás a mim como um marido em nada pior a Menelau.

Helena
 Em nada mereces ser censurado; falta-me sorte apenas.

Teoclímeno
 Isto está em tuas mão – se tiveres boa vontade em relação a mim. 142587

Helena
 Não serei agora instruída sobre como amar os amados.

Teoclímeno
 Queres que eu ajude a despachar a expedição?

Helena
 De jeito nenhum! Não sejas um escravo aos teus escravos, senhor.

Teoclímeno
 Muito bem, então! Aos costumes dos pelópidas não atento.

Com efeito, limpa está minha casa, já que não foi aqui 1430

que Menelau perdeu sua vida. Mas alguém vá

e fale aos meus comandantes para levar presentes de casamento

à minha casa. É preciso que toda

a terra ressoe com hinos alegres,

para que invejáveis sejam as núpcias minhas e de Helena. 1435

E tu, ó estrangeiro, depois de ir aos braços do pélago

e oferecer estas coisas ao que outrora foi marido dela,

apressa-te de volta para a casa conduzindo minha esposa,

para que, banqueteando comigo pelo casamento dela,

possas partir para casa, ou permanecendo prosperar. 1440

(Teoclímeno entra no palácio.)

Menelau
 Ó Zeus, conhecido como pai e deus sábio,

olha por nós e livra-nos dos males,

A nós que arrastamos ao penhasco nossos infortúnios

acode com pressa, se nos tocares com a ponta do dedo,

alcançaremos a sorte que desejamos. 1445

Chega dos sofrimentos que sofremos antes.

Já fostes mesmo chamados, ó deuses, para ouvir de mim muitas coisas

[inúteis

e dolorosas, mas não devo passar sempre por aflições,

e sim andar em passo firme – concedendo-me uma só graça

fareis o resto da minha vida feliz. 1450

(Helena e Menelau saem pelo eisodos que conduz à costa.)

(Estrofe A)

Coro
 De Sídon, fenício,

ó rápido remo, remar querido

aos redemoinhos de Nereu,

corego dos belos coros

de golfinhos, quando 1455

o pélago é sem sopro de brisas,

e a brilhante filha do Mar,

Calmaria, assim fala:88

‘Desenrolai as velas,

abandonando as brisas marinhas, 1460

e apanhai as lâminas de pinheiro,

ó marinheiros, marinheiros,

que escoltam Helena aos litorais

de bons portos da casa de Perseu.’

(Antístrofe A)

1465 Decerto as garotas leucípides,

junto às vagas do rio, ou defronte ao templo

de Palas, ela encontraria,

depois de longo tempo, juntando-se aos coros,

ou aos cortejos de Jacinto,

1470 na alegria noturna,

– ele que desafiado,

†com o fio da roda do disco,†

Febo matou, e para a terra

lacedemônia um dia de sacrifício de bois

o filho de Zeus mandou observar com reverência.

1475 E (encontraria) a novilha que †deixou em casa†

< x – x – ᴗ ᴗ – >

por cujas núpcias ainda não reluziram as tochas.

(Estrofe B)

Se apenas, através do éter, aladas,

fôssemos para onde na Líbia,

as filas de grous vão 1480

deixando as chuvas de inverno,

confiadas na siringe do mais velho,

seu pastor, que, as áridas

e frutíferas planícies da terra 1485

sobrevoando, grita.

Ó aves de pescoço longo,

companheiras no curso das nuvens,

ide sob as Plêiades a meio caminho

e Órion noturno, 1490

proclamai a mensagem,

enquanto pousais junto ao Eurotas,

de que Menelau, depois de tomar

a cidade de Dárdano, à casa retorna.

(Antístrofe B)

1495 Que vós volteis, pelo trajeto hípico

acelerando através do éter,

filhos de Tíndaro,89

que sob o turbilhão dos astros brilhantes

habitais o céu,

1500 salvadores de Helena,

sobre as brilhantes ondas salgadas,

e escuras ondulações,

e cinzentas vagas do mar,

1505 enviando da parte de Zeus sopros

1504 favoráveis de ventos aos marinheiros,

retirai de tua irmã

a má fama do leito bárbaro

que, por causa da disputa do monte Ida,

obteve em punição,

1510 nunca tendo ido à terra de Ílion,

sobre as torres erguidas por Febo.

(Entra Teoclímeno pela skené. Entra um servo pelo eisodos que conduz à costa.)

Mensageiro

† Senhor, o pior descobrimos na casa. †91

Tão estranhas as desgraças que logo ouvirás de mim!

Teoclímeno
 Que há?

Mensageiro
 Arranja a corte de uma outra

mulher, pois Helena foi-se embora desta terra. 1515

Teoclímeno
 Elevando-se sobre asas, ou com o pé esmaga-terra?

Mensageiro
 Menelau carregou-a por mar desta terra,

ele próprio que veio noticiar-se morto.

Teoclímeno
 Que coisas terríveis relatas! Mas que navio

levou-a desta terra? Inacreditável é o que dizes! 1520

Mensageiro
 Aquele mesmo que tu deste ao estrangeiro. Depois de

[sobrepujar os teus

marinheiros, ele partiu – para que o aprendas em poucas palavras.

Teoclímeno
 Como? Estou ansioso para saber, pois, dentro das minhas

[expectativas,

não pode ter ido embora superando com um só braço

91 Verso com metro defeituoso e sem sentido. Possivelmente foi redigido por alguém que quis preencher a lacuna do texto.90

os tantos marinheiros, com os quais foste enviado. 1525

Mensageiro
 Quando deixando este palácio real,

a filha de Zeus foi mandada para o mar,

muito astutamente, enquanto punha o delicado pé, lastimou

o marido próximo e presente, e não morto.

Quando chegamos à área dos teus estaleiros, 1530

uma nau de Sídon lançamos em sua primeira viagem

com espaço para cinquenta bancos e remos.

Uma tarefa seguia-se a outra.

Com efeito, um trazia o mastro, outro o remo,

†na mão, as fileiras de remos†, e as brancas velas †reunidas†92 1535

e os timões com correias foram abaixados.

E durante este serviço, esperando por isso (como depois entendemos),

homens gregos, companheiros de Menelau,

aproximaram-se da praia vestidos em trajes

de náufragos, formosos, mas esquálidos na aparência. 1540

Vendo-os chegarem, o filho de Atreu

dirigiu-se a eles, oferecendo dolosa compaixão:

“Ó infelizes, como, de que nau

da Acaia viestes, tendo naufragado o barco?

Mas ajudai-nos a fazer o funeral do filho falecido de Atreu, 1545

para quem esta filha de Tíndaro erige um cenotáfio em sua ausência.”

E eles, derramando lágrimas de modo fingido,

para a nau avançaram, as oferendas marítimas de Menelau

carregando. Havia-nos uma certa suspeita,

e corria um rumor entre nós, de como eram numerosos 1550

os passageiros extras. Contudo, permanecemos calados, 1550

mantendo as tuas resoluções – pois ordenando que o estrangeiro

comandasse a nau, causaste toda esta confusão.

E as outras coisas, facilmente, para dentro da nau

colocamos, sendo elas leves, mas a pata taurina 1555

não queria pisar direito na rampa,

ao contrário, berrou, virando os olhos em círculo,

arqueando as costas e olhando de soslaio ao longo do chifre

para impedir que o tocassem. E o marido de Helena

conclamou: “Ó saqueadores da cidade de Ílion, 1560

vamos, não elevareis, como no costume grego,

o corpo do touro sobre os jovens ombros

para lançá-lo à proa? †E, ao mesmo tempo, esta espada

à mão não se meterᆠna vítima a ser sacrificada ao morto?

Ao seu comando, eles foram, ergueram 1565

92 Sigo a interpretação de Amiech ad loc., que defende o texto transmitido e propõe, como paralelo, Tucídi­des, VI, 85, 3 para sua leitura de εἰς ἓν ἦν.91

o touro, carregaram-no e colocaram-no no convés.

E Menelau, alisando o pescoço e a testa do cavalo,

convenceu-o a embarcar no navio.

E, finalmente, quando a nau acolheu toda sua carga,

Helena subiu os degraus com seu pé de belo tornozelo 1570

e sentou-se entre os bancos dos remadores,

e aquele, segundo relatos, não mais vivente, Menelau, junto a ela,

E os outros, nos lados direito e esquerdo, parelhos,

homem contra homem, sentaram-se; sob as roupas, espadas

escondidas traziam, e as ondas eram preenchidas 1575

pelo nosso grito, enquanto ouvíamos do contramestre os brados.

Quando estávamos não muito longe da terra,

nem perto, assim perguntou o timoneiro:

“Ainda para adiante navegamos, estrangeiro,

ou já está bom? Que o comando da nau pertence a ti.” 1580

E ele disse: “É o suficiente para mim.” E tomando a espada na destra,

para a proa moveu-se e para o sacrifício do touro

posicionou-se, sem fazer menção a morto nenhum,

mas cortando o pescoço, orou: “Ó tu que habitas o salgado

mar, Posseidon, e reverendas filhas de Nereu, 1585

protegei-me em direção às praias da Náuplia e minha esposa,

incólumes, desta terra.” E as torrentes de sangue

jorraram para as ondas, propícias ao estrangeiro.

E alguém disse: “É traiçoeira esta viagem!

Naveguemos de volta, † pelo caminho certo †, ordena tu, 1590

e tu vira o timão.” E de onde estava do assassínio do touro,

o filho de Atreu gritou aos aliados:

“Por que demorais, ó flor da terra grega,

para assassinar e matar estes bárbaros e da nau

lançá-los às ondas?” E aos teus marujos 1595

o contramestre grita comando oposto:

“Alguém tome uma trave como arma,

outro quebre o banco, um outro arranque o remo do tolete,

ensanguentai as cabeças desses estrangeiros hostis!”

E todos pularam de pé, alguns segurando pedaços de madeira 1600

do navio nas mãos, outros com espadas.

E a nau corria em sangue. E da popa vinha

a exortação de Helena: “Onde está a glória de Troia?

Mostrai a estes bárbaros!” Sob ímpeto,

uns caíam, outros se levantavam, e os que jaziam 1605

mortos verias. E Menelau, portando armas,

onde reconhecesse aliados em perigo,

ali levava sua espada na destra,

de modo a lançar-nos da nau ao mar, e assim limpou

os bancos de teus marinheiros. E indo ao timoneiro 1610

ordenou guiar o barco direto para a Hélade.92

Eles levantaram o mastro, e ventos favoráveis vieram.

Partiram desta terra. Mas eu, que fugi da morte,

deixei-me cair ao mar junto à âncora,

e, já desgastado, um pescador 1615

me recolheu e pôs-me em terra para ti

trazer esta mensagem. Prudente descrença!

– não há nada mais útil do que ela aos mortais.

(Sai o servo.)

Coro
 Jamais imaginaria que de ti e de nós Menelau

pudesse passar despercebido, ó senhor, como passou, estando aqui! 1620

Teoclímeno
 Ah, infeliz de mim! que fui pego por artifícios femininos, 93

escaparam-me minhas núpcias. Se a nau fosse fácil de apanhar

em perseguição, empenhando-me logo capturaria os estrangeiros.

Mas agora a irmã que me traiu punirei,

a que em casa viu Menelau e não me disse. 1625

Pois bem, jamais enganará outro homem com suas profecias!

Servo

Tu aí, para onde levas o pé, ó soberano? Para qual assassinato? 94

Teoclímeno
 Para onde a justiça me convoca; mas afasta-te! Para longe do

[meu caminho!

Servo
 Não largarei dos teus peplos, pois te precipitas para grandes malefícios.

Teoclímeno
 Mas governarás sobre soberanos, mesmo sendo escravo?!

Servo
 Porque penso fazer o bem. 1630

Teoclímeno
 Não a mim! Se não me permitires…

Servo
 E certamente não o permitirei!

Teoclímeno
 …matar a irmã mais perniciosa…

Servo
 A mais piedosa, na verdade.

Teoclímeno
 A que me traiu…

Servo
 Uma bela traição, em todo caso – a de fazer o que é justo.

Teoclímeno
 Dando minha mulher a outro.

Servo
 Ao que é mais possuidor.

93 1621-41 estão em tetrâmetros trocaicos. O metro é usado nos dramas tardios de Eurípides, principalmente, em diálogos mais excitados e em passagens de agitação.

94 Há dúvidas quanto à identidade do opositor de Teoclímeno, aqui atribuída a um servo, conforme indicação de Diggle. Halleran (1985, p. 49) aponta que, se essa oposição envolve uma entrada, ela certamente é uma entrada surpresa. Para discussão, ver Stanley-Porter (1997), que atribui o papel a um servo de Teônoe. Dale (1967) e Kannicht (1969) apostam no corifeu.93

Teoclímeno
 Quem é possuidor do que é meu?

Servo
 Aquele que a obteve de seu pai. 1635

Teoclímeno
 Mas a sorte deu-a a mim.

Servo
 E a necessidade a levou.

Teoclímeno
 Não cabe a ti julgar meus atos.

Servo
 A não ser que eu tenha melhores coisas a dizer.

Teoclímeno
 Então sou comandado, ao invés de governar!

Servo
 A fazer o que é certo, e não o injusto.

Teoclímeno
 Pareces desejar morrer.

Servo
 Mata-me! Mas tua irmã,

no que me diz respeito, não matarás, mas a mim – pois pelos senhores

morrer é a coisa mais gloriosa aos escravos nobres. 1640

(Aparecem os Dióscuros suspensos na mechané.)

Castor

Detém a raiva que não corretamente te carrega,

Teoclímeno, senhor desta terra; nós, os duplos Dióscuros,

te chamamos, os que Leda, certa vez,

gerou, e também Helena, a que fugiu do teu palácio. 1645

É que por núpcias não apontadas pelo destino te enraiveces,

e a donzela gerada da divina nereida

não comete injustiça, tua irmã Teônoe, que honrou

a vontade dos deuses e as justas ordens de teu pai.

[Com efeito, sempre, até o presente momento de agora, 1650

carecia que ela morasse em teus palácios,

mas, uma vez que as bases de Troia foram extirpadas,

e aos deuses ela cedeu seu nome, não mais.

Agora é preciso a ela ficar sob o jugo de suas núpcias

e partir para casa para morar com o marido.] 1655

Mas detém a negra espada longe de tua irmã

e pensa que sensatamente ela agiu.

Há muito, já anteriormente, a irmã resgataríamos,

já que Zeus nos fez deuses,

mas somos inferiores ao destino 1660

e também aos deuses, que determinaram que assim fosse.

É o que profiro a ti, mas a minha irmã eu digo:

navega com teu marido, terás ventos favoráveis.

E nós, salvadores, teus dois irmãos,

cavalgando sobre o mar, te escoltaremos à pátria. 1665

E quando deres a última volta da corrida e terminares a vida,94

serás chamada deusa [e junto com os Dióscuros

partilharás das libações] e presentes dos homens

receberás conosco, pois Zeus assim deseja.

E onde primeiro te trouxe o filho de Maia, 1670

quando te arrebatou de Esparta, em seu curso através dos céus,

roubando teu corpo para que Páris não se casasse contigo,

– digo, a ilha esticada ao longo da Akté95 como uma sentinela –

Helena, doravante, será chamada pelos mortais,

já que acolheu a ti, roubada de teus palácios. 1675

E ao errante Menelau, pela vontade dos deuses,

está destinado morar na Ilha dos Bem-Aventurados.

Pois as divindades não odeiam os bem-nascidos,

mas eles † aguentam mais penúrias † do que a multidão dos inumeráveis.

Teoclímeno
 Ó filhos de Leda e Zeus, das prévias 1680

contendas a respeito de vossa irmã desistirei.

E que ela vá para casa, se os deuses acham melhor, 1683

e a minha irmã eu não mais matarei. 1682

Sabei †que nascestes do mesmo sangue da irmㆠ1685

que, ao mesmo tempo, é a melhor e mais sensata. 1684

E regozijai-vos pelo nobilíssimo juízo de Helena,

algo que não há em muitas mulheres.

(Saem os Dióscuros. Teoclímeno e os servos entram no palácio. O coro começa a sair por um dos eisodoi.)

[Coro
 Muitas são as formas das divindades,

e muitas coisas inesperadamente realizam os deuses,

o que era imaginado não foi cumprido,

e para o que não era imaginado o deus encontrou expediente. 1690

Assim termina a história.]