Eurípides, As Troianas

O Triste Fim das Mulheres de Troia

Astyanax-arrache-des-bras-de-sa-mere---francois-guillaume-menageot

François-Guillaume Ménageot (1744–1816)

A peça teatral As Troianas foi escrita por Eurípides que viveu entre os anos de 480 a.C e 406 a.C. Ela narra o final da guerra de Troia com o massacre generalizado dos troianos e a escravização das mulheres. Essas triste mulheres agora esperam para para embarcar nos navios gregos com o arauto Taltíbio anunciando uma terrível notícia à rainha Hécuba. Ele revela que sua filha Polixena e seu neto Astiánax, filho de Heitor e Andrômaca, foram ambos condenados à morte.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por Mário da Gama Kury.

 

As Troianas

Personagens

Poseidon, deus do mar
Atena
, deusa também conhecida como Palas
Hécuba
, viúva de Príamo, rei de Tróia
Coro
, composto de virgens troianas (primeiro semicoro) e de viúvas de guerreiros troianos (segundo semicoro)
Taltíbio
, arauto dos gregos
Cassandra
, filha de Hécuba e de Príamo, profetisa e sacerdotisa de Apolo
Andrômaca
, viúva de Heitor, o maior dos guerreiros troianos, nora de Hécuba e mãe de Astíanax]
Menelau
, irmão de Agamêmnon, o comandante dos gregos em Tróia
Helena
, mulher de Menelau
Astíanax
, filho de Heitor e Andrômaca, ainda criança

Cenário: A história se passa diante da cidade destruída de Troia, também chamada Ílion, que está na região da Frígia e é formada entre outras pela citadela de Pérgamo. Tendo ao fundo a fumaça e o incêndio vindo da cidade, as cativas troianas estão confinadas no acampamento dos conquistadores gregos (também chamados de argivas ou helenos). É manhã cedo. Diante da porta de uma das tendas Hécuba chora caída no chão quando Poseidon entra, estando invisível para ela.

Poseidon

Do salso mar Egeu profundo, eu, Poseidon,estou saindo lá de onde as Nereidas bailam em sinuosas danças com graciosos passos.Desde que aqui em volta da antiga Tróia, Apolo e eu erguemos as muralhas sólidas de enormes pedras em perfeito alinhamento,jamais meu coração deixou de ser benévolo com os habitantes desta terra e seu país.Agora restam dela apenas fumo e cinzas;a lança grega saqueou-a, destruiu-a.

Um grego, Epeio, usando um artifício insólito inspirado por Palas, construiu enorme,fatal cavalo, encheu-lhe os flancos de armamento e introduziu esse funesto simulacro em Tróia, que lhe abriu as portas; o futuro relembrará o monstro feito de madeira repleto de pugnazes lanças em seu bojo.Os bosques consagrados hoje estão desertos e dos sacrários corre apenas sangue humano.Ao pé do altar do grande Zeus Familiar tombou ferido mortalmente o velho Príamo.

Levam-se aos montes muito ouro e os despojos de Tróia para as numerosas naus dos gregos.Esperam eles ventos fortes favoráveis soprando certos pelas popas, pois aspiram agora à máxima ventura de rever suas mulheres e seus filhos, esses gregos que por dez anos já contaram o retorno da época propícia ao plantio ânuo desde o início desta guerra contra Tróia.

E eu, vencido pela deusa de Argos, Hera,e por Atena, que se uniram firmemente visando à perdição de toda a gente frígia,tenho de abandonar a gloriosa Ílione meus altares já desfeitos e desertos. Na dolorosa solidão desta cidade decai, fenece, extingue-se o tributo aos deuses,aos quais já falta a adoração habitual. Ecoam nos barrancos do Escamandro os gritos de inúmeras cativas na expectativa de ver a sorte designar-lhe um senhor.Algumas foram dadas aos guerreiros árcades;outras irão servir aos homens da Tessália;aos filhos de Teseu, chefes de Atenas, outras.Muitas troianas excluídas da partilha estão prisioneiras lá naquelas tendas;compõem o melhor e derradeiro lotejá reservado aos chefes dos vitoriosos.No meio delas se destaca Helena bela,tratada agora justamente como escrava.Se alguém quiser neste momento contemplara imagem do infortúnio, bastará olhar,caída ali, defronte à tenda, a idosa Hécuba;quantas e quão sentidas lágrimas derrama,quantos motivos ela tem para chorar!A filha Polixena pereceu — coitada! —,sacrificada sobre o túmulo de Aquiles,vítima deplorável de cruel cutelo.Já pereceram Príamo e seus filhos todos e a inspirada filha que Apolo profeta levou a transes delirantes (sim, Cassandra!)será forçada pelo intrépido Agamêmnon a ser sua mulher em leito clandestino,contra a divina lei e contra a piedade.Adeus, então, cidade outrora venturosa!Adeus, muralhas construídas pelos deuses!Se tanto não houvesse Palas pelejado por tua perdição inda estarias firme sobre teus alicerces; não serias cinzas.

(Entra Atena)

Atena

Irmão mais próximo de meu augusto pai,nume potente honrado pelos próprios deuses,consentirás que, alheia ao nosso antigo ódio,eu venha aqui falar contigo frente a frente?

Poseidon

Sem dúvida, divina Atena, pois o trato entre familiares é tão agradável que o coração se rende facilmente a ele.

Atena

Sensibiliza-me teu ânimo suave.Desejo apresentar-te logo uma proposta,que te interessa tanto quanto a mim, senhor.

Poseidon

Será mensagem usual de outros deuses,talvez de Zeus? Que divindade te mandou?

Atena

Nenhuma. Falarei de Tróia, destruída por minha intercessão. Sejamos aliados.

Poseidon

Cessou, então, teu ódio persistente a Tróia e sentes pena dela já desfeita em cinzas?

Atena

Atém-te ao fato apenas; quererás juntar-te a mim em meu propósito e prestar-me ajuda?

Poseidon

Unamo-nos, mas antes quero ouvir teus planos.Terás em mira os gregos ou os meus troianos?

Atena

Quero mostrar por Tróia, antes detestada,algum apreço finalmente, impondo aos gregos retorno demorado e desastroso à pátria.

Poseidon

Por que saltar assim de um sentimento a outro e odiar e amar voluvelmente com tal força?

Atena

Sabes que afronta me fizeram em meu templo?

Poseidon

Quando Ájax constrangeu Cassandra duramente?

Atena

E os gregos não o censuraram nem puniram!

Poseidon

Mas foi com teu apoio que venceram Tróia.

Atena

Mas pelo ultraje, unida a ti vou castigá-los.

Poseidon

Terás a minha ajuda. Quais são os teus planos?

Atena

Farei com que a vitória lhes resulte amarga.

Poseidon

Enquanto estão em terra, ou sobre as ondas salsas?

Atena

Quando partirem suas naus daqui de Tróia levando-os de retorno ao lar, conforme esperam. Zeus as fustigará com chuvas em torrente se tempestades escurecerão os céus;meu pai nos cederá o fogo de seus raios para com eles açoitarmos os soldados e incendiarmos suas naus; faze tu mesmo vagas enormes estrondarem sobre a rota amontoando em turbilhões no Egeu as onda se enchendo de cadáveres o mar sulcado de Eubéia para que os gregos enfim aprendam a respeitar os meus altares no futuro e a venerar os outros deuses como é justo.

Poseidon

Assim será. Não há sequer necessidade de longas falas para obter estes serviços.Agitarei as águas abismais do Egeu;o litoral micônio e os recifes délios de Ciros e de Lemnos, mesmo o promontório de Cafareu receberão os corpos mortos das numerosas vítimas de nossa ira.Sobe ao Olimpo! Vai e lá recebe logo das mãos de Zeus teu pai as flechas fulgurantes de seus certeiros raios, antes que as amarras das gregas naus se soltem para a volta à pátria!

(Sai Atena).


Poseidon

O homem que destrói cidades é demente como o profanador de templos e de túmulos,asilos sacrossantos dos parentes mortos.Quem age dessa forma cedo há de perder-se.

(Poseidon se afasta.  Hécuba começa a mover-se lentamente e tenta levantar-se).

Hécuba

Levanta do chão duro esta cabeça, infortunada! Apruma teu pescoço!Não mais existem Tróia nem rainha.A sorte muda, deves resignar-te.Irás errante, ao fluxo das correntes,irás errante ao gosto do destino.É vão esforço pretender opor a frágil nave desta vida às vagas.Navega! Entrega-te ao azar dos ventos!

Pausa

Quantas razões eu tenho — ai de mim! —para chorar nesta calamidade a perda de meus filhos, meu marido,minha querida pátria… Ai de mim!…Dourado fausto antigo em que vivi,meu fim me faz saber que nada eras!Convém calar? Talvez falar… Chorar…Um peso imenso oprime os meus cansados,sofridos membros nesta posição,caída aqui no chão desconfortável.Dói-me a cabeça… Quanta dor nas têmporas!…Meus flancos doem tanto!… Mal consigo mover-me para em nova posição continuar chorando as minhas mágoas entre queixumes e incessantes lágrimas.É a música restante aos infelizes aniquilados por desastres tão terríveis que fazem silenciar todos os cantos…

Hécuba levanta-se lentamente

Ah! Naus de proas lépidas que os remos fizeram ir até a sacra Ílion cortando o mar purpúreo, procedentes de vários pontos da distante Hélade! De certo foi ao som das flautas lúgubres e trompas estridentes que, lançando ao mar as longas cordas que o Egito aos nautas ensinou a bem trançar,firmastes — ai de mim! — vossas amarras no ancoradouro plácido de Tróia!Viestes procurar a esposa pérfida de Menelau, opróbrio de Castor e mácula do Eurotas, assassina de Príamo, pai de cinqüenta filhos,e para mim — infortunada Hécuba —causa de minha ruína e de meus males!Ah! Infeliz de mim! A que lugar cheguei aqui? À tenda de Agamêmnon!Como cativa levam-me de casa,decrépita, os cabelos aparados— sinal de luto —, o rosto macerado…Mulheres infelizes dos troianos de lanças brônzeas, e vós mesmas, virgens,que nunca chegareis a ter esposos,choremos! Tróia está envolta em chamas!Igual ao pássaro que grita aflito às tenras crias, quero começar um canto para vós; não será ele em nada comparável aos que outrora eu costumava entoar alegre marcando bem com os pés a vivacíssima cadência frígia, conduzindo os coros nas festas em celebração aos deuses,tendo nas mãos o cetro do rei Príamo.

 

Entra o primeiro CORIFEU, moça troiana vinda de uma das tendas visíveis ao fundo

 

Primeiro Corifeu

Que significam, Hécuba, teus gritos?Que há de novo? De onde estamos presas ouvi os teus lamentos e o terror,varando o peito, entrou no coração de todas as troianas que nas tendas lamentam sem parar o cativeiro.

Hécuba

Ah! Minha filha!… Os gregos em seus barcos,de mãos nos remos, estão preparados para partir de volta às suas casas.

Primeiro Corifeu

Desgraça nossa! Que pretendem eles?Irão levar-nos já, de mar afora,para bem longe da querida Tróia?

Hécuba

Não sei, mas antevejo grandes males.

Primeiro Corifeu

Desventuradas, míseras troianas!Iremos conhecer as provações que nos aguardam. Vinde todas cá!Os gregos estão prestes a partir!

Saem de algumas tendas várias moças troianas formando o primeiro semicoro. De outras tendas saem mulheres de meia-idade, viúvas dos guerreiros troianos. Vem à frente uma delas, o Segundo Corifeu)

Hécuba

Não! Por favor! Tentai obstar que saia de sua tenda minha pobre filha,Cassandra profetisa, insana mênade,para vergonha nossa junto aos gregos!Que eu não sinta esta dor a mais!Ah! Tróia! Tróia muito infortunada!Deixaste de existir! Desventurados os que te perdem, vivos ou finados!

Segundo Corifeu

Rainha nossa! Estou saindo trêmula de uma das várias tendas em que estão as muitas frígias dadas em partilha a Agamêmnon. Quero ouvir-te logo:os gregos decidiram, afinal,exterminar-me — infeliz de mim! —ou já enfileirados em seus barcos empunham remos prestes a levar-me?

Hécuba

Desde a alvorada, filha, estou aqui,pois tinha a alma cheia de receios.

Primeiro Corifeu

Já veio aqui algum arauto grego? De quem serei a desgraçada escrava?

Hécuba

Decidirão depressa a tua sorte.

Segundo Corifeu

Ah! Que guerreiro de Argos ou da Ftia ou qualquer ilha vai levar-me agora de Tróia para longe, muito longe?

Hécuba

Ah! Céus! Em que palácio irei servir?De que senhor, de quem serei cativa,eu, velha, triste, inútil qual zangão,espectro lastimável, nada maisque a sombra sofredora de um cadáver?Guardar as portas, pajear crianças…Eis a tarefa reservada àquela que em Tróia tinha as honras de rainha!…

Segundo semicoro

Ah! Infeliz! Com que soluços, Hécuba,pranteias tua queda! Nunca mais faremos nos teares junto ao Ida girar as lançadeiras velocíssimas!…Veremos pela derradeira vez os corpos lívidos de nossos filhos!…Sim, derradeira vez e nunca mais!Iremos suportar ignóbeis provas:ou nos terão os gregos em seus leitos— maldita seja essa noite próxima! —,ou nos constrangerão a carregar— criadas dignas só de piedade —a água nas nascentes de Pirene.

Primeiro semicoro

Preferiríamos ter de viver na terra gloriosa de Teseu. Ah! Praza aos céus que nunca nós vejamos do Eurotas a corrente e as margens planas na terra odiosa da funesta Helena,lá onde como escravas serviríamos a Menelau, a perdição de Tróia!…A nobre terra do Peneu, esplêndida,ao pé do Olimpo, é cheia de riquezas segundo dizem seus conhecedores,e de abundantes, verdes plantações.É essa a região que escolheríamos depois da terra de Teseu, divina.As faldas do Etna, onde demora Hefesto,berço dos píncaros sicilianos frente à Fenícia, ganham recompensas— é voz geral — que falam muito alto das qualidades de seus habitantes.Bem próxima, na rota do mar Jônio,situa-se a planície celebérrima banhada pelo rio mais belo — o Crátis;de loura cor brilhante, suas águas impregnam os cabelos dos nativo se ao mesmo tempo nutrem e fecundam e tornam próspera uma terra pródiga em homens cuja força é proclamada.

(Vendo aproximar-se um arauto dos gregos, os dois semicoros se reúnem em volta de Hécuba)

Segundo Corifeu

Está aproximando-se de nós o arauto das odiosas tropas gregas.A passos rápidos nos traz, sem dúvida,mensagens novas. Que virá dizer-nos?Que ordens nos trará, desagradáveis?Pressinto que já fomos destinadas à condição servil na terra dória.

(Entra Taltíbio, escoltado por soldados gregos)

Taltíbio

Por certo sabes, Hécuba, que fiz a Tróia visitas repetidas, como arauto-mordas forças gregas. Conhecemo-nos há muito,senhora; sou Taltíbio e trago uma mensagem.

Hécuba

Caras troianas, meu temor confirma-se.

Taltíbio

Foram tomadas decisões inapeláveis,se nesta hora o teu receio é este, Hécuba.

Hécuba

Pobre de mim! A que cidade, então,lá na Tessália ou na distante Ftia ou porventura na terra de Cadmos vão enviar-nos? Dize, mensageiro!

Taltíbio

A cada uma a sorte deu senhor diverso.

Hécuba

Qual o senhor, então, de uma por uma?E quem pode esperar melhor destino?

Taltíbio

Direi, se perguntares separadamente.

Hécuba

Assim farei. Quem levará Cassandra,minha desventurada filha? Quem?

Taltíbio

Rei Agamêmnon, ele mesmo, a escolheu.

Hécuba

Ah! Que desgraça! Para ser escrava de alguma dama da Lacedemônia?

Taltíbio

Nosso rei vai querê-la para sua amante.

Hécuba

Não! A donzela consagrada a Febo,a quem a graça de não ter esposo foi concedida pelo fulvo deus?

Taltíbio

Amor prendeu o rei à virgem inspirada.

Hécuba

Desfaze-te das chaves sacras, filha!Arranca de teu corpo as santas vestes!

Taltíbio

Então é pouca honra estar em leito régio?

Hécuba

E minha filha que levaste há pouco?

Taltíbio

A quem aludes? Deve ser a Polixena.

Hécuba

Acertas. Quem a teve na partilha?

Taltíbio

Levou-a a sorte ao túmulo do herói Aquiles.

Hécuba

Desgraça! Foi para servir a um túmulo que eu a tive! Mas, qual é, Taltíbio,esse costume ou rito dos helenos?

Taltíbio

Alegra-te, pois tua filha está em paz…

Hécuba

Que dizes? Vamos! Fala, por favor!Contempla ela ainda a luz do sol?

Taltíbio

Agora ela está imune a infortúnios…

Hécuba

E a nobre esposa do valente Heitorde brônzea decisão, a infeliz Andrômaca, dize o destino dela!

Taltíbio

Também foi partilhada e coube a Neoptólemo.

Hécuba

E eu? E eu? De quem serei a serva,eu, que para marchar tenho de dar à minha mão a necessária ajuda que um sólido bordão proporciona à envelhecida, atônita cabeça caída ao peso da avançada idade?

Taltíbio

Serás escrava de Odisseu, senhor de Ítaca.

Hécuba

Golpeia esta cabeça maltratada!Fere com as unhas o teu rosto triste!Ai! Desgraçada! Ai! Infeliz de mim!A sorte impiedosa faz-me escrava de um ser abominável, duro, pérfido,de um inimigo da justiça, monstros em lei que entre vós difama os outros e entre os outros nos difama em troca!Língua terrível, duplamente falsa que espalha o ódio onde reinava a paz!Chorai por mim! A desventura mata-me!Estou perdida! Os fados impuseram que na partilha me coubesse — a mim! —o mais insuportável dos quinhões!

Segundo Corifeu

Agora sabes o destino teu, rainha,mas qual será o meu senhor entre os helenos?

Taltíbio (dirigindo-se aos soldados da escolta)

Ide, soldados, e trazei a mim Cassandra.É meu dever fazê-la chegar logo às mãos do chefe dos soldados gregos e em seguida levar aos outros as cativas que lhes cabem.

(Notando sinais de chamas em uma das tendas)

Que será isso? Creio que há fulgurações naquela tenda, como se fossem archotes.Parece incêndio ateado por troianas!Ao ver chegada a hora de serem levadas de seu país para a distante terra helênica talvez pretendam as cativas transtornadas matar-se, consumindo em fogo os próprios corpos.É bem verdade que em momentos como este dificilmente as almas livres se resignam ao infortúnio. Abri! Abri! Eu não desejo que esse procedimento, para elas bom mas mau para os helenos, me desfavoreça.

Hécuba (Menos agitada)

Não é incêndio; é Cassandra, minha filha,que em transe, delirante, avança para cá.

(Entra Cassandra, vinda de uma das tendas, dançando, trazendo as insígnias de sacerdotisa (ramos de loureiro, franjas de lã e as chaves do templo); imagina, em seu delírio, estar celebrando suas próprias bodas diante do santuário de Apolo, e traz na mão direita um archote

Cassandra (Frenética)

Eleva, agita, chega perto a chama!Olhai! Eu porto o archote e santifico com a flama pura o templo consagrado!Senhor das núpcias! Abençoa o noivo!Bendita seja eu também, a noiva,votada ao leito do senhor de Argos!Núpcias! Senhor das núpcias! Minha mãe:já que, desfeita em incontido pranto,choras sentidamente meu pai morto e minha pátria em ruínas, eu, a filha,farei brilhar em minhas próprias bodas a luz que deve iluminar o enlace de virgens, elevando muito alto a chama deste archote fulgurante em tua honra, protetor das núpcias,em tua honra, senhora dos partos,tal como exigem os sagrados ritos!Salta alto! Bem alto! Baila rápida!Conduze, leva o coro! Viva! Viva a vida como nos dias felizes vividos com meu pai! Conduze, tu,Apolo, o coro nupcial sagrado em honra de tua sacerdotisa no teu divino templo entre os loureiros.Senhor das núpcias! Núpcias, minhas núpcias!Vem, participa deste coro, mãe,e dança e gira cadenciando os passos nas voltas pelos passos meus! Atende-me!Cantai vós todas o hino nupcial e festejai com odes a nubente!Quero escutar vossos gritos alegres!Acompanhai-me! Vamos, virgens frígias!Em trajes coloridos celebrai o esposo que receberei no leito!

Segundo Corifeu

Contém, rainha, tua filha delirante.Evita que seus saltos ágeis a conduzam assim até o acampamento dos argivos.

Hécuba

O porta-flama nupcial és tu, Hefesto,mas hoje é diferente a chama que provocas e estão distantes para nós as esperanças de núpcias verdadeiras, que não mais virão.Ah! Minha filha! Nunca eu poderia — nunca! —imaginar que tuas bodas se fariam em meio às lanças e às espadas dos argivos.Dá-me este archote; não consegues segurá-lo erecto em tua agitação, em teu delírio.Tão grande golpe fez-te até perder o senso e não espero que recobres a razão.

(Hécuba entrega a uma das mulheres próximas o archote que tira das mãos de Cassandra e prossegue)

Levai, troianas, este archote; respondei com pranto à ode nupcial de minha filha.

Cassandra (Menos agitada)

Coroa minha fronte vencedora, mãe,e regozija-te com minhas núpcias régias.Conduze-me ao esposo meu e se pareço medrosa ou relutante, usa a força e leva-me.Se Apolo é deus e tem poderes, Agamêmnon,o rei, terá em mim esposa mais funesta que Helena; fá-lo-ei morrer e arruinarei a sua casa e raça como ele a minha,vingando assim meu pai e meus irmãos finados.Há, todavia, certas previsões fatais de tal maneira torpes que é melhor calar;não falarei da arma que decepará o meu pescoço e outro; não mencionarei o matricídio que estas núpcias causarão e a destruição total da casa dos Atridas.Desejo apenas convencer-te, minha mãe,de que os troianos são mais felizes que os gregos.Embora esteja possuída por um deus,para provar-te vou sair de meu delírio.Por causa de uma só mulher, de um só amor,só por Helena, quantos gregos pereceram!Seu chefe, cujas qualidades muitos louvam,sacrificou o mais precioso de seus bens visando ao mais nefando de todos os fins;a alegria de seu lar, a própria filha ele entregou a seu irmão, ele a matou,apenas para devolver-lhe a esposa indigna,mulher levada de seu lar não pela força,mas por vontade própria. Os homens desse rei,por ele conduzidos para longes terras,às margens do Escamandro foram dizimados em lutas árduas cujo prêmio não seria nem a sobrevivência do país natal,nem a preservação das muralhas primevas.E essas vítimas sem número de Ares não mais reviram seus abandonados filhos e a mão que as sepultou não foi da esposa amada;em terra estranha jazem seus sofridos corpos.Nos lares que deixaram a desdita é igual;morrem viúvas as mulheres sem arrimo;os pais idosos morrem e não deixam filhos para perpetuá-los nos lares vazios; levaram-nos por outrem e sobre seus túmulos parente algum virá oferecer por eles sangue de vítimas imoladas à terra.Aí está o merecido panegíricoà expedição dos gregos. Quanto às crueldades de seus soldados, é melhor silenciar;jamais me venha a doce inspiração das Musas para cantar e celebrar tantas infâmias!Já os troianos desde cedo se cobriam da glória sem igual de morrer pela pátria.Se eles morriam transpassados pelas lanças seus corpos eram transportados por amigos até o lar; a terra de seus ancestrais cobria seus cadáveres nos sacros túmulos enquanto as mãos prescritas para esse fim com a merecida piedade os enterravam.Os frígios que sobreviviam aos combates no fim de cada dia viam as famílias,seus filhos, as mulheres, afinal gozavam das alegrias recusadas aos helenos.Quanto ao destino heróico de teu filho Heitor,cruel demais aos olhos teus de mãe querente,atenta bem: se meu irmão já não existe,antes da morte demonstrou valor sem par.E foi a vinda dos aqueus que lhe deu glória.Se eles, em vez de virem pelejar aqui,houvessem preferido a paz em seu país,os méritos de Heitor ninguém celebraria.Páris tornou-se esposo da filha de Zeus;sem essas núpcias nem sequer se falaria de uma aliança que nos igualou aos deuses.Deve o mortal sensato detestar a guerra;se, entretanto, ela for inevitável,os louros não serão de quem morrer lutando por causa ignóbil que afinal só traz desonra.Por isso, minha mãe, não deverás chorar o fim de Tróia nem as minhas bodas tristes;meu humilhante enlace há de causar sem dúvida a ruína dos aqueus, que eu e tu odiamos.

Segundo Corifeu

Discorres com prazer e ris de tuas mágoas.O teu destino evidencia a falsidade desse discurso lúcido e consolador.

Taltíbio

Não fosse Apolo o causador de teu delírio custar-te-ia muito caro macular com mau agouro o embarque de tão bravos chefes.Eu mesmo vejo bem que com o seu orgulho e ostentação de excepcional sabedoria em coisa alguma os grandes são superiores ao nosso nada. Assim o todo-poderoso rei dos helenos, filho querido de Atreu,fez recair o seu amor em uma insana que eu, embora humilde, não desejaria sequer para ser companheira de meu leito.Não me oporei a que teu ânimo do ente insulte o povo heleno e louve os teus troianos;serão palavras vãs e o vento as levará. Segue-me às naus, formosa noiva de meu rei.

(Dirigindo-se a Hécuba)

Tu, quando o filho de Laertes ordenar que te levem às naus, vai resignadamente;serás a serva de uma senhora sensata segundo dizem os argivos cá em Tróia.

Cassandra

É de pasmar este criado ignaro e rude!Por que, então, ostentam o pomposo nome de arautos estes detestáveis componentes da corja desprezada com razão por todos,destes pretensiosos moços de recados,abjetos serviçais dos reis e das cidades?Já te esqueceste das palavras de Loxias?Ignoras que perante mim Apolo disseque Hécuba — coitada! — morreria aqui?O resto é uma vergonha indigna de menção.Ah! Odisseu desventurado! Ele não sabe os sofrimentos incontáveis que o aguardam!Meus males e os dos bravos frígios hão de um dia parecer-lhe tão invejáveis quanto o ouro!Além dos já passados, dez terríveis anoss e escoarão até que ele regresse, só,à sua pátria. Antes, porém, enfrentará o estreito perigoso onde Caríbdis mora,terrível, no rochedo em que se oculta aos nautas,e o Cíclope antropófago, a Circe lígure que metamorfoseia os homens em suínos,muitos naufrágios no infindável mar amargo e mal resistirá à tentação do lótus.Verá também as vacas em que manda o Sole cuja carne um dia vai ter voz humana para falar sinistramente a Odisseu.Serei concisa: inda a caminho descerá vivo aos infernos; finalmente escapará ao proceloso mar apenas para verem seu regresso ao lar, após sofrer demais,um número infindável de calamidades.

(Novamente agitada)

Mas, por que lançar sobre Odisseu ameaças de infortúnios?Vamos, Agamêmnon! Quero ir juntar-me ao noivo no Hades! Sim! Terás indigna sepultura e morrerás nas trevas ao invés de em pleno dia, tu, que apenas na aparência foste colocado pela sorte em culminância máxima,chefe onipotente dos argivos! E eu? Meu corpo morto,nu, abandonado nas ravinas onde corre a água das torrentes, junto ao túmulo de meu senhor e noivo,vai servir de pasto às feras, que devorarão famintas a fiel profetisa de Apolo e sua servidora.

Cassandra (arranca dos cabelos as franjas de lã e outras insígnias da condição de profetisa)

Ah! Insígnias de meu deus querido, adornos de horas de êxtase!Ide! Adeus! Arranco-vos de mim! Enquanto tenho o corpo como agora, puro, atiro-vos todas aos ventos céleres pedindo-lhes que as transportem ao profeta soberano!Onde estará a nau do grande chefe? Onde embarcarei?Colhe logo o vento para tuas velas, pois conduzes junto a mim, daqui, o gênio da vingança inevitável.Adeus, minha mãe! Não te lamentes mais! Querida pátria!Meus irmãos postos em vossos túmulos! Meu pai amado!Digo-vos que não demorarei a vir juntar-me a vós.Voltarei depressa, vencedora, à morada dos mortos,pois a casa dos Atridas desmoronará em breve!

(Cassandra sai com Taltíbio e a escolta. Hécuba cai desmaiada)

Segundo Corifeu

Guardiãs da idosa Hécuba, não estais vendo tombar por terra, sem um grito, a soberana?Não a ergueis? Ireis abandonar, cruéis,vossa senhora veneranda assim caída?Ide! Não demoreis! Cuidai de levantá-la!

(As moças do primeiro Semicoro fazem menção de levantar Hécuba)

Hécuba

Não, moças, peço-vos! Serviço inoportuno não deve ser prestado. Muito mais me agrada ficar caída aqui, prostrada, como estou.Um aniquilamento assim condiz melhor com meus terríveis sofrimentos atuais,com os passados e também com os futuros.Ah! Deuses! Clamo por omissos aliados mas mesmo assim convém chamar as divindades na hora em que nos chegam tantos infortúnios.Desejo relembrar minha felicidade enorme em dias idos; na comparação a minha desventura de hoje inspirará maior piedade. Fui princesa e esposei um rei; tivemos muitos e excelentes filhos,pois o seu número seria pouco méritos e não houvessem sido incontestavelmente os mais ilustres entre todos os troianos.Mulher nenhuma, bárbara, troiana ou grega,teria mais direito de vangloriar-se por ter trazido ao mundo filhos como os meus.Pois esses filhos vi-os perecerem todos feridos pelas lanças dos guerreiros gregos,e meus cabelos já cortei sobre seus túmulos.Quanto ao rei Príamo, princípio dessa estirpe,não foi pelos relatos de outrem que chorei a sua morte; vi-o com meus próprios olhos,decapitado cruelmente sobre a lápide do altar doméstico ao cair vencida Tróia.E minhas filhas, que eu havia preparado para entregar a esposos da mais nobre estirpe,arrancam-nas de sua mãe homens diversos daqueles para os quais ela as criou tão bem.Já não espero a graça de voltar a vê-las e nunca, nunca mais serei vista por elas!Enfim, para coroamento de meus males des comunais, farão de mim escrava e mais:levar-me-ão como um troféu de meu senhor.Irão impor-me obrigações insuportáveis,impróprias para a pobre velha que hoje sou;sem dúvida farão de mim — da mãe de Heitor! —a guardiã das chaves de qualquer vestíbulo;pior ainda, a amassadeira de seus pães!A terra nua servirá de leito ao corpo cansado que dormiu em tálamo real.O espectro a que estou reduzida irá cobrir-sede trapos, marcas vis de minha decadência.Ah! Infeliz! Por causa das malditas núpcias de Helena, quanto já sofri e sofrerei!Ah! Minha filha! Ah! Cassandra, a quem Apolo ditava seus desígnios em divinos êxtases!Que poderei dizer desta calamidade que hoje te priva da pureza virginal?E tu, sofrida Polixena, onde estarás?Dos muitos filhos concebidos em meu ventre nenhum, nenhuma está aqui para valer-mena hora em que tantos desastres me aniquilam!Por que me levantais? Que esperanças tendes?Guiai os passos que em melhores dias Tróia seguia, tão altivos, e hoje são de escrava…Levai-me aonde haja palha em que me deite e pedras para repousar esta cabeça!…E lá, entregue à sorte, esperarei que a morte me leve amargurada e esvaída em lágrimas.Jamais julgueis alguém feliz enquanto vive.

(Após tentar alguns passos amparada pelas moças, Hécuba cai novamente)

Coro

Agora, Musa, canta Ílion, canta!Seu triste fado há de inspirar um hinoà nossa voz plangente, um hino fúnebre.Dedicaremos triste ode a Tróia.PRIMEIRO

Semicoro

Cantaremos o carro muito longo,de quatro rodas, que ao entrar, funesto,em Tróia, fez de nós — ai, infelizes! —cativas dos argivos para sempre.SEGUNDO

Semicoro

O monstro de madeira fez subir aos céus estrídulo e sinistro silvo,brilhando ao sol com seus arreios de ouro,repleto de guerreiros, que os helenos deixaram junto às portas da cidade.PRIMEIRO

Semicoro

Gritou bem alto nosso povo uníssono premido na altaneira cidadela:“Chegou o fim de nossas provações;ide buscar sem mais demora o ídolo enorme de madeira! Andai depressa!Trazei-o para ser oferecido à filha nobilíssima de Zeus!”

Segundo Semicoro

Ah! Quantos jovens, quantos anciãos,saíram apressados de seus lares!…Ao ritmo alegre de refrões festivos introduziram na cidade crédula a insólita armadilha dos argivos.

Primeiro Semicoro

A gente frígia veio pressurosa,querendo contemplar com os próprios olhos a obra portentosa dos helenos talhada nos pinheiros das montanhas.Foi perdição, foi ruína para Tróia o pérfido presente oferecido devotamente à virgem imortal.

Segundo Semicoro

Atando-o com seguras, fortes cordas como se faz para arrastar o casco de negra nau, trouxeram-no afinal até o templo da divina Pala serguido sobre a rocha onde devia correr ainda o sangue dos troianos.

Primeiro Semicoro

A escuridão da noite sobreveio ao terminar a caminhada alegre.Então, ao som das doces flautas líbias soaram alto os hinos dos troianos.

Segundo Semicoro

Vibrando ao ritmo de seus passos certos as moças exultavam de alegria.Nas casas era tanta a luz festiva que mal se via a chama das fogueiras nas ruas, fracas, quase adormecidas.

Primeiro Semicoro

E nós naquele instante celebrávamos a virgem das montanhas, casta Ártemis,cantando em coro junto ao seu sacrário.Mas repentinamente reboou pela cidade toda um grito horrível de morte, vindo da alta cidadela.

Segundo Semicoro

Crianças transtornadas pelo medo tentavam agarrar-se com as mãos frágeis às vestes das desnorteadas mães.O deus da guerra desferia o golpe;a trama torpe se evidenciou e Palas completava sua obra.

Primeiro Semicoro

Em torno dos altares começou a trágica e final carnificina.De Tróia só restaram as mulheres e glória imorredoura para os gregos e apenas luto para o povo frígio.

(Chega um carro, puxado por soldados gregos, trazendo Andrômaca e seu filho Astíanax. Vê-se no carro, entre outros despojos dos troianos, o escudo gigantesco de Heitor).

Primeiro Corifeu

Já viste, Hécuba, chegar Andrômaca trazida neste carro pelos gregos?No colo tem o filho que lhe deu Heitor; o embalo regular do carro adormeceu Astíanax junto ao seio de sua mãe querente e desvelada.Aonde te conduzem, infeliz,sentada no alto deste carro, junto das armas brônzeas do finado Heitor e de outros mais despojos dos troianos,troféus que adornarão os templos gregos,como oferendas do filho de Aquiles quando voltar de Tróia vencedor?

Andrômaca

Os gregos, hoje meus senhores, levam-me.

Hécuba

Ai de mim!

Andrômaca

Por que cantas em tom lamentoso…

Hécuba

Ai de mim!

Andrômaca

… minha sina tão cheia de dores…

Hécuba

Senhor Zeus!

Andrômaca

… e as desgraças terríveis que sofro?

Hécuba

Ai! Meus filhos!

Andrômaca

Quantos filhos nós éramos antes!…

Hécuba

Terminaram os dias felizes…

Andrômaca

Quanta dor!

Hécuba

… terminaram os dias de Tróia…

Andrômaca

Ai de mim!

Hécuba

… e perderam-se meus descendentes!

Andrômaca

Ai! Choremos!

Hécuba

Sim, choremos! Choremos por mim!

Andrômaca

Por teus males.

Hécuba

Dura sorte…

Andrômaca

… de Tróia…

Hécuba

… em chamas!…

Andrômaca

Vem, esposo…

Hécuba

Já evocas meu filho no Hades?

Andrômaca

… vem, protege a fiel companheira!…

Hécuba

Vem! Suplico, flagelo dos gregos…

Andrômaca

… pai de Heitor, meu senhor, nobre Príamo…

Hécuba

… vem e guarda-me perto de ti!

Andrômaca

São tristíssimos nossos desejos…

Hécuba

… são mais tristes as nossas desgraças…

Andrômaca

… triste sorte de nossa cidade…

Hécuba

… a desgraças se somam desgraças.

Andrômaca

Tudo é obra da ira dos deuses contra Páris que a morte não quis.Pela amante odiosa ele fez com que Tróia tivesse este fim.Todos tintos de sangue os cadáveres jazem presas de bandos de abutres junto à imagem de Palas divina.Ele trouxe e lançou sobre Tróia este jugo de atroz servidão.

Hécuba

Pobre pátria!

Andrômaca

Parto em pranto!

Hécuba

Vês o fim lamentável da terra em que minhas crianças nasceram.Ai! Meus filhos! Em Tróia deserta ainda está junto a vós vossa mãe.Luto e lágrimas, lamentações e mais lágrimas, eis o que resta.Ai! Os mortos, só eles, esquecemos seus males e não choram mais!

Segundo Corifeu

Os infelizes acham aparentemente certa doçura nos gemidos e nas lágrimas e nos intermináveis cantos lamentosos.

Andrômaca (Dirigindo-se a Hécuba)

Mãe do guerreiro cuja lança exterminou tantos soldados gregos, mãe de Heitor soberbo,teus olhos vêem este horrível espetáculo?

Hécuba

Sim, minha filha. Vejo que os potentes deuses elevam uns do nada a culminâncias máxima se precipitam outros de alta glória ao chão.

Andrômaca

Somos, meu filho e eu, troféus de guerra; levam-nos.De nobre passo a ser escrava. Como desço!

Hécuba

Não tem entranhas o destino. Inda há pouco levaram-me também Cassandra desditosa à força para algum lugar muito distante.

Andrômaca

Ah! Infeliz! Apareceu-lhe um novo Ájax!Mas outros males, mãe, parecem esmagar-te.

Hécuba

Meus males já não têm medida e não têm número.Apenas sou ferida por uma desgraça,novas desgraças vêm ferir-me num instante!

Andrômaca

E tua filha Polixena pereceu decapitada sobre o túmulo de Aquiles,num sacrifício aos manes de insensível sombra!

Hécuba

Ai! Infeliz de mim! Está esclarecido o enigma das palavras dúbias de Taltíbio.

Andrômaca

Eu mesma vi, parei o carro e apeei,cobri-a com um véu, chorei sobre seu corpo.

Hécuba

Ah! Minha filha! Impiedosa morte a tua!Ah! Pereceste de maneira deplorável!

Andrômaca

Embora morta assim foi mais feliz na morte a tua filha do que eu serei na vida.

Hécuba

Não, minha filha! Não compares morte e vida!Aquela é o nada e esta é tudo; é esperança!

Andrômaca

Não posso concordar com tua afirmação.Quero dizer-te coisas que serão um bálsamo para teu coração cansado de amarguras.Morrer deve ser como não haver nascido e a morte talvez seja até melhor que a vida de dor e mágoas, pois não sofre quem não tema sensação dos males; mas quem se despenhadas culminâncias da fortuna e cai no abismo da desventura tem a alma freqüentada por pertinaz saudade do fausto passado.A morte para tua filha é como se ela jamais houvesse visto a luz; não mais lhe pesam seus infortúnios, que deixaram de existir.Mas eu provei da vida amena a que aspirava e que me prometia a minha condição apenas o bastante para sentir hoje com mais intensidade o peso da desgraça.Todos os bens imagináveis para adorno de uma mulher eu me esmerava em praticar no lar de Heitor. De início, alguns lugares há em que uma esposa, embora procedendo bem,apenas por os freqüentar merece e atraia acusação de não se dedicar à casa.Longe de procurar lugares desse tipo,ficava eu no lar e tinha mil cuidados para impedir que transpusesse suas portas a vil maledicência própria das mulheres.Tirava o meu bom senso de um feitio reto as normas adequadas à conduta honesta.Eram discretos os meus lábios e o semblante sereno na presença do querido esposo.Eu tinha a intuição de quando me era lícito vencê-lo ou, ao contrário, ceder-lhe a vitória.Chegou assim o meu renome até os aqueus em seu acampamento e isso me perdeu.Quando me capturaram o filho de Aquiles mandou buscar-me para sua companheira;serei escrava até morrer na própria casados assassinos de meus entes mais queridos.Se apenas posso por momentos afastar do pensamento a imagem lúcida de Heitor em vão esforço para abrir o coração ao meu esposo de hoje, sinto-me covarde e traidora vil do esposo recém-morto!Se, inversamente, guardo intacto o amor primeiro,provocarei a ira do homem que me tem.Segundo dizem, a aversão de uma mulherpor outro homem numa noite se desfaz.Abominada para sempre deve ser aquela que, infiel a seu primeiro esposo,aceita outro homem e lhe tem amor!Até os irracionais, até a égua estúpida recusa-se a arrastar o jugo habitual se é separada do diuturno companheiro.E as bestas são de natureza inferior,destituídas de palavra e sentimentos!Em ti, querido Heitor, eu tinha o bom esposo que me bastava; inteligência, bens, nobreza,coragem, tudo havia em ti e abundava.Eu era pura quando um dia me levaste da casa de meu pai, e dentre os homens todos foste o primeiro a vir ao meu leito de virgem.Agora não existes mais e sou levada a bordo de uma nau odiosa para a Hélade,cativa, condenada à condição de escrava.Talvez os males que a violenta morte trouxe a Polixena já pareçam bem menores depois de ouvires o futuro que me aguarda e não te façam derramar as mesmas lágrimas.Perdi até o último dos bens humanos— a esperança — e não pretendo escarnecer de mim, eu mesma, imaginando ser possível gozar na vida ainda a mínima alegria.E todavia é doce guardar ilusões…

Segundo Corifeu

Teu infortúnio é o meu; chorando a tua dor revelas-me a extensão da minha própria.

Hécuba

Jamais subi a bordo de uma dessas naus,mas as pinturas que já vi e as narrações ouvidas dão-me a idéia do que ocorre nelas.Se os nautas fazem frente a leve temporal,esforçam-se por escapar aos maus momentos.Um fica no timão, outro domina a vela,impede outro a água de inundar a nau.Mas se o embate do revolto mar excede as suas forças, curvam-se eles ao destino e se abandonam à tempestade mais forte.Da mesma forma eu, perante a enormidade desta desgraça, fico muda e resignada;curvo-me vendo que não poderei vencer tormentas desencadeadas pelos deuses.Coragem, minha cara nora! Deixa Heitor ao seu destino; não te salvarão as lágrimas.Reverencia teu novo senhor e mostra-lheo privilégio que é para qualquer homem a convivência com mulher tão bem-dotada.Assim alegrarás todos os teus amigo se prestarás a Tróia um serviço imenso cuidando de criar o filho de meu filho para que um dia — ah! se os deuses me escutassem! —filhos nascidos dele reconstruam Ílion e façam renascer maior a nossa terra!

(Vendo aproximar-se Taltíbio)

Suponho que teremos mais assunto já.Ao ver chegar este criado dos aqueus pergunto-me o que ainda pode acontecer.Virá comunicar-nos novas decisões?

Taltíbio

Esposa do valente Heitor, não me maldigas;é constrangido que transmito uma mensagemditada há pouco pelos comandantes gregos.

Andrômaca

Que há? Teu prólogo é sinal de más notícias.

Taltíbio

Ordenam que teu filho… Faltam-me as palavras…

Andrômaca

Levam meu filho para ser de outro senhor?

Taltíbio

Nenhum aqueu jamais será senhor de Astíanax…

Andrômaca

Irão deixar aqui o último dos frígios?

Taltíbio

Como direi? É triste anunciar desgraças…

Andrômaca

É óbvio o teu constrangimento… Que desgraça?

Taltíbio

Teu filho será morto. Ouviste o duro anúncio.

Andrômaca

Desgraça, sim! Pior que minhas novas núpcias!

Taltíbio

Foi Odisseu quem convenceu os gregos. Disse…

Andrômaca

Imensa dor! Meu infortúnio não tem fim!

Taltíbio

… que não deixassem vivo o filho de tal pai…

Andrômaca

Volte-se contra os dele a sua opinião!

Taltíbio

… mas o lançassem do alto das torres de Tróia.Vamos! Atende! É a atitude mais sensata!

Andrômaca (aperta o filho nos braços)

Não devem os teus braços estreitá-lo tanto.Suporta com nobreza a tua desventura.Não te presumas forte; agora nada podes.Não tens apoio em parte alguma. Pensa bem:já não existem teu esposo e tua pátria;pertences a novo senhor e aqui estamos tantos para enfrentar uma mulher sozinha.Não queiras pelejar em circunstâncias tais.Evita humilhações; não cedas ao rancor. Peço-te mesmo que não lances maldições contra os helenos, pois se a cólera das tropas consegues açular com tuas atitudes esta criança não terá depois de morta um funeral piedoso e túmulo condigno.Se calas, se suportas resignada o golpe,o corpo de teu filho será sepultado e terás mais benevolência dos helenos.

Andrômaca

Filhinho meu querido! És tudo que me resta,meu filho, e morrerás nas mãos dos inimigos!E eu serei a mãe mais infeliz do mundo…Hoje a bravura de teu pai te faz morrer depois de ter valido a inúmeros troianos.A singular coragem de teu pai, meu filho,não te proporcionou felicidade alguma.Amor fatal! Ah! Dia em que transpus as portas de teu palácio para desposar-te, Heitor!…Não foi para dar uma vítima aos helenos que Heitor e eu quisemos tanto ter um filho,mas para que ele um dia fosse o rei da Ásia de messes abundantes! Ah! Meu filho! Choras?Terás a intuição da morte que te espera?Por que te agarras com tal força ao meu vestido com as pequeninas mãos assim, tão apertadas,qual pássaro encolhido sob as minhas asas?Heitor não mais virá valer-te, filho meu,portando a lança gloriosa, tão solícito,como se brotasse do chão para salvar-te.A mão paterna e o poder troiano foram-se.Em salto horrível, de cabeça para baixo,lançar-te-ão das altas torres sem piedade,e com teu pequenino corpo destroçado exalarás sem mim o último suspiro!Ah! Criancinha frágil que esta mãe sem sorte gostava tanto de acariciar no colo!Ah! O suave odor de teu formoso corpo!Nutriu-te em vão meu seio generoso, filho!Foram inúteis os desvelos, vãs as penas em que me extenuei por tanto tempo!Agora beija pela derradeira veza mãe que te deu vida! Abraça-me, meu filho!Enlaça teus bracinhos pelo meu pescoço e por instantes une teus lábios aos meus!Ah! Gregos, inventores de suplícios bárbaros!Por que matais esta criança inofensiva?E tu não és filha do grande Zeus, Helena!És filha de diversos pais, não tenho dúvidas:do Ódio, da Perversidade, Crime e Morte e todas as calamidades deste mundo!Nunca, jamais terei a audácia de dizer que tu tiveste Zeus por pai! Jamais, demônio funesto a tantos bárbaros e gregos! Morre!Sim! Morre, tu, que foste com teus belos olhos a causa do aviltante fim de nossa Tróia!

(Dirigindo-se a Taltíbio e aos soldados que o acompanham)

Pois seja assim! Arrebatai-me esta criança,levai-a já de mim, lançai-a das alturas se vos apraz! Fartai-vos desta carne tenra!Os deuses decretaram nossa perdição e não posso impedir a morte de meu filho!…

(Andrômaca entrega Astíanax a Taltíbio e prossegue).

Levai-me a algum lugar recôndito; levai meu desgraçado corpo à nau de meu senhor!É para belas bodas que navegarei após haver perdido assim meu filho amado!

(O carro parte levando Andrômaca)

Segundo Corifeu

Infortunada Tróia! Quantas, quantas vítimas fez uma só mulher com seu odioso amor!

Taltíbio

Vamos, menino. Eis-te arrancado agora ao carinhoso abraço maternal.Temos de caminhar até as ameias das elevadas torres da cidade que teus antepassados construíram.O duro mandamento determina que morras atirado lá de cima.

(Dirigindo-se aos soldados da escolta)

Levai-o! Para transmitir tais ordens  somente serviria frio arauto destituído de qualquer piedade e sem o sentimento que inda tenho.

(Taltíbio afasta-se em seguida à sua escolta)

Hécuba

Minha criança! Filho de meu filho!Meu pobre neto! Violência iníqua!Tiram-te à vida, à tua mãe, a mim!Que está por vir? Que posso eu agora fazer por ti, vencida pela sorte?Oferecer-te os golpes com que firo meu rosto e meu mortificado peito?É pouco, eu sei, e é tudo quanto posso!…Adeus, cidade minha! Adeus, criança!Que poderemos esperar ainda?Que pode ainda haver neste desastre para que nossa ruína se complete?

Coro

Em Salamina de muitas abelhas,rei Telamon, moravas entre as ondas,na ilha em frente às colinas sagradas onde mostrou primeiro a santa Palas um ramo de oliveira sempre verde,coroa augusta da brilhante Atenas.Vieste acrescentar o teu valor ao do filho de Alcmena, o bravo archeiro ansioso por destruir a nossa Tróianos idos tempos em que aqui chegaste vindo da Hélade. E tu trazias a flor dos filhos da distante pátria,sentindo-te ultrajado com a recusados prometidos céleres corcéis.Na larga embocadura do Simóis tu detiveste o ímpeto dos remos,prendeste a popa de teu barco láe empunhaste o teu arco infalível para matar o rei Laomedon. As pedras regulares da muralha velhíssima, que o próprio Apolo erguera,desmoronaram num clamor de chama se caiu Tróia pela vez primeira.Assim, em dois ataques, duas vezes a lança ensangüentada destruiu os muros de Dardânia imemorável.Foi em vão, filho de Laomedon,que em passos lânguidos, com jarras de ouro foste exercer no Olimpo o ofício honroso de encher a taça esplêndida de Zeus.O fogo consumiu a tua terra.O mar bramindo se lançava às praias. Dir-se-ia que, pairando sobre os ninhos,queixam-se grandes pássaros; um chora o companheiro, outro chora os filhos,pranteia outro a velha mão perdida.Os banhos cujas águas apreciavas,tão frescas, e teus campos de corridas tiveram fim; mas tu, que apenas cuidas de sempre ser o pajem favorito ao pé do trono de Zeus soberano manténs serenamente belo o rosto enquanto rui o império do rei Príamo aniquilado pelas lanças gregas.Amor, Amor que visitaste outrora o palácio de Dárdano insistindo em despertar paixões até no céu,a que soberba posição fizeste erguer-se Tróia em aliança insólita que a aproximou ainda mais dos deuses!De Zeus e de seus atos reprováveis nada mais vou dizer, pois não é lícito.Hoje, porém, a Aurora de asas róseas,a claridade cara à espécie humana,vê nossa terra inteira destruídae vê a antiga Pérgamo arrasada.No entanto, o pai de seus formosos filhos,o esposo que em seu tálamo se deita,nasceu aqui em Tróia; uma quadriga ornada de ouro o transportou aos céus deixando a sua pátria esperançosa,mas Ílion já não tem os atrativos capazes de encantar as divindades.

(Entra Menelau escoltado por soldados gregos)

Menelau

Como estás fulgurante, luz do sol, no dia em que irei rever Helena, minha esposa!Depois de tantas provações estou aqui,eu, Menelau, tendo comigo as tropas gregas.Não foi uma mulher a causa — reitero —de nossa expedição a Tróia; foi um homem,odiado e detestado como nenhum outro,que arrebatou de meu palácio Helena bela.Depois de muito tempo os deuses castigaram o criminoso e seu país desmoronou com ele, derrotado por nossos soldados.Quanto à lacônia (não me agrada repetir seu nome), vim somente para capturá-la pois sei que está no acampamento das cativas,à semelhança das demais, como troiana.Já me outorgaram os guerreiros pertinazes,cessada a luta, a incumbência de matá-la,a menos que, poupando-a, eu ache melhor reconduzi-la à terra de Argos. Decidi que a sorte dela não será ditada aqui.Meus remadores a transportarão comigo até a Grécia; lá tirar-lhe-ão a vida aqueles que têm de vingar entes queridos sacrificados nas batalhas desta guerra.Avante, meus soldados! Penetrai na tenda!Trazei-a, segurando-a, se for preciso,por sua longa cabeleira ensangüentada!E quando os ventos se mostrarem favoráveis uma de nossas naus levá-la-á de volta.

(Ouvindo as palavras de Menelau, Hécuba levanta-se lentamente)

Hécuba (Erguendo as mãos para o céu)

Ah! Sustentáculo da terra, que tens nela teu trono eterno, sejas tu quem fores, Zeus,enigma indecifrável, lei inexorável da natureza, inteligência dos mortais,eu te venero! Percorrendo sem alarde a tua via, vais guiando sempre os passos das criaturas todas dentro da Justiça!

Menelau

Que ouço? Eis uma prece singular aos deuses!

Hécuba

Aprovo, Menelau, a tua decisão agora manifesta de matar Helena,mas inda tens receios de enfrentá-la e vê-la temendo que te volte o louco amor por ela.Helena atrai o olhar dos homens e os cativa,arruína povos e países, incendeia,tantos e tais são os encantos que possui.Tu mesmo e eu e suas numerosas vítimas a conhecemos bem pelo mal que nos fez!

(Helena aparece, trazida para fora de uma das tendas por soldados de Menelau. Está cuidadosamente vestida e arranjada)

Helena

Eis uma encenação bem-feita, Menelau,para assustar-me; vejo-me agarrada assim por teus soldados e arrastada rudemente de minha tenda afora. Já não tenho dúvidas de que me odeias, mas desejo perguntar-te:que pensas tu de minha vida? E teus soldados?

Menelau

Não houve ainda tempo de pensarmos nisso.A tropa unânime deixou a meu critério,como ofendido, o encargo de tirar-te a vida.

Helena

Terei ao menos permissão para expressar minhas razões e demonstrar que minha morte seria uma injustiça inesperada em ti?

Menelau

Não venho debater, Helena, mas matar-te.

Hécuba

Deves ouvi-la, Menelau, antes da morte;é sua última vontade. Ao mesmo tempoconcede-me a palavra para refutá-la.Expondo os malefícios que ela trouxe a Tróia,talvez inconscientemente minha fala será condenação sem indulgência à morte.

Menelau

É perda vã de tempo esse favor. Enfim,Helena poderá falar, se lhe aprouver,mas é para poder ouvir-te, saiba ela,que lhe concedo este direito. De outro modo,jamais eu lhe daria tal satisfação.

Helena

Talvez não queiras aceitar minhas razões sem meditar se elas são boas ou são másapenas porque vês em mim uma inimiga.Adivinhando, todavia, quais seriam teus argumentos se comigo debatesses,vou contrapor minhas acusações às tuas.

(Dirigindo-se a Hécuba)

Para principiar, tu foste a causadora de nossas desventuras, pois gerando Páris trouxeste ao mundo a fonte de nossas desgraças.Depois de ti, o autor da perdição de Tróia e minha foi o velho servidor de Príamo,que não matou o teu recém-nascido filhos imbolizado em sonho angustioso outrora por lenho ardente. O infante Páris foi poupado e veio a ser mais tarde o árbitro escolhido pelas três deusas. Palas logo ofereceu-lhe a Grécia, que ele e as forças frígias venceriam.A oferta de Hera foi a Ásia e mais ainda o extremo da Europa muito cobiçado se Páris lhe outorgasse o prêmio da beleza.Elogiando as maravilhas de meu corpo,anunciou-me Cípris como recompensa se fosse ela a vencedora do concurso.Pondera nos efeitos desse julgamento: Cípris foi proclamada a deusa mais formosa e eu fui entregue a Páris; graças a tais núpcias os gregos não caíram sob o jugo bárbaro,salvando-se das lanças e da tirania.Perdeu-me, todavia, a salvação da Grécia.Custou-me caro a minha singular beleza e sofro ultrajes aviltantes até hoje com fatos que com mais justiça me fariam merecedora de ostentar uma coroa.

(Dirigindo-se a Menelau)

Não quererás agora que eu também descreva como escapei furtivamente de teu lar?É que o demônio nascido desta mulher,quer o chamemos de Alexandre, quer de Páris,veio mandado pela deusa irresistível.E tu, esposo indigno, que fizeste, então?Tu o deixaste em nossa casa e te ausentaste de Esparta para ir em tuas naus a Creta!Não é a ti, mas a mim mesma que pergunto:em que pensei para seguir um estrangeiro abandonando minha pátria e meu palácio? Castiga Cípris, mostra-te maior que Zeus,senhor dos outros deuses mas escravo dela!A mim, porém, perdoa-me; não sou culpada.

(Silêncio geral durante alguns instantes. Depois Helena continua)

Agora poderias contrapor aos meus um argumento capcioso: quando Páris morreu e foi para os infernos, desfizeram-se as núpcias inspiradas pela deusa e eu teria obrigação de abandonar-lhe a casae retornar sem mais demora às naus argivas.Foi isso exatamente o que tentei fazer.Recorro ao testemunho dos guardiães das torres e sentinelas dos bastiões; vezes sem número surpreenderam-me pendente de uma corda em tentativas de fugir pelas ameias. Deífobo, porém, queria desposar-me à força e contra os sentimentos dos troianos.Com que direito, esposo meu, com que justiça queres tirar-me a vida se meu casamento me foi imposto fatalmente pelo céu e a ele devo em vez de prêmios e vitórias a escravidão cruel? Se queres sobrepor-te aos deuses, tua pretensão é temerária.

Segundo Corifeu (Dirigindo-se a Hécuba)

Defende os filhos teus, rainha, e tua pátria!Desfaze logo os diabólicos efeitos de sua justificação persuasiva,pois ela fala bem demais para quem age tão mal e isso é extremamente perigoso!

Hécuba

Alio-me primeiro às deusas. Vou mostrar quanta injustiça existe nas palavras dela.Ninguém de boa-fé creria que Hera e Palas pudessem comportar-se com baixeza tala ponto de em conluio Hera prometer que venderia aos bárbaros a terra argiva,e Palas que daria Atenas aos troianos,submissa ao jugo frígio. Essa competição das deusas junto ao Ida certamente foi uma frivolidade ou entretenimento.Por que razão Hera divina nutriria desejo tão insano de ser a mais bela?Seria para conquistar melhor esposo que Zeus onipotente? Quereria Palas credenciar-se a esposa de qualquer dos deuses,ela, que obteve de seu pai o privilégio de ser eternamente virgem, pois as núpcias lhe repugnavam? Não procures disfarçara tua perversão atribuindo às deusas tamanha insensatez. Pessoas ponderadas jamais irão acreditar em tua história.E quanto a Cípris, tu nos fazes rir, e muito,dizendo que ela foi com Páris ao palácio de Menelau, como se a deusa, mesmo estando tranqüilamente em seu celestial assento,não tivesse poder para levar-te a Ílion com toda a cidade de Amiclas facilmente!Meu filho era dotado de beleza rara e foi teu próprio espírito que ao contemplá-lo criou a impressão de Cípris. As loucuras de amor, que os homens consideram diferente se imputam a Afrodite, são iguais às outras.A imagem de meu filho em sua roupa exótica,bordada de ouro fulgurante, transtornou-te a alma; em Argos tua vida era medíocre;trocando Esparta pela rica terra frígia,por onde corre um rio de ouro, imaginavas que aqui terias bens em superabundância.O palácio de Menelau já não bastava às tuas exigências de excessivo luxo.Senão, vejamos! Foi à força que meu filho— segundo dizes — teve de levar-te a Tróia. Em toda Esparta ninguém viu a violência?Gritaste apavorada? Mas Castor, tão bravo,estava lá com Polideuces, teus irmãos,os gêmeos que depois seriam astros ígneos!Chegaste então a Tróia, os gregos perseguiram-te e começou a luta das lanças mortíferas.Naquela época as notícias de vitórias de Menelau causavam elogios teus apenas destinados a mortificar meu filho em face da grandeza do rival que disputava teu amor. Mas se, ao contrário,a sorte fosse favorável aos troianos,nada de ti se ouvia sobre Menelau. Assim, atenta apenas à fortuna incerta,tratavas de estar sempre com os eleitos dela,indiferente aos mandamentos da virtude.Somente agora vens falar-me dessas cordas com que amarravas o teu corpo para fugas e alegas que eras coagida a estar aqui.Alguém te surpreendeu alguma vez tentando dependurar-te em laços de cordas suspensas ou afiando algum punhal, como convinha a uma mulher de sentimentos mais honestos,saudosa do primeiro esposo? E todavia em quantas ocasiões eu mesma te adverti:“Vai, minha filha! Parte! Páris casará com outra e eu te ajudarei até chegares às naus dos gregos para que termine a guerra!”Mas as minhas palavras não te convenceram.Convinha mais a teu orgulho enorme o luxo em que vivias no palácio de meu filho e a adoração dos bárbaros, tão ao teu gosto.Causaste tanto mal e ajeitas teus adornos,sais e te atreves a mirar o mesmo céu que teu esposo vê! És repugnante, Helena!Devias vir aqui humilde e compungida,coberta por andrajos, trêmula de medo e com esses cabelos aparados rentes!Por teu passado tenebroso deverias ter muito mais modéstia e menos impudência!Eis ao que leva a minha fala, Menelau: adorna a Grécia com a coroa mais sublime matando esta mulher segundo a imposição de tua honra e firmarás para as demais a regra de que a morte punirá um dia a esposa descuidosa da fidelidade!

Segundo Corifeu

Sê digno, Menelau, de teus antepassados,de teu palácio! Pune tua esposa! Evita que toda a Grécia te censure a tibieza depois de haveres demonstrado nas batalhas bravura incomparável diante do inimigo!

Menelau

Eu também penso que ela por vontade própria abandonou meu lar para atirar-se ao leito de um estrangeiro. É por desfaçatez, Helena,que envolves Cípris em teus feitos vergonhosos!Vai ao encontro dos que te apedrejarão!Irás pagar num instante os longos sofrimentos de inúmeros aqueus. Aprenderás morrendo que não devias desonrar o teu esposo!

Helena (Lançando-se aos pés de Menelau)

Por teus joelhos que ora abraço, não me punas por erros inspirados todos pelos deuses!Não! Não me faças perecer! Peço perdão!

Hécuba

Não traias, Menelau, teus muitos companheiros mortos por causa desta pérfida mulher! Imploro-te por eles! Peço por meus filhos!

Menelau

Basta, anciã. As súplicas desta mulher não me comovem. Determino a meus soldados que a levem logo para a nau em cuja popa será reconduzida à força para a Grécia!

Hécuba

Não seja a nau a mesma que te levará!

Menelau

Por quê? Hoje ela é mais pesada do que antes?

Hécuba

Haverá sempre amor no coração do amante!…

Menelau

Se quem amamos nos amou com força igual.Mas tudo se fará segundo teus desejos:não subirá Helena agora à minha nau.É bom o teu conselho. Em Argos esta infame terá a morte merecida e seu castigo levará as mulheres a ter mais recato,por mais difícil que lhes seja. Seu suplício inspirará maior decência às desbriadas e sensatez até às mais despudoradas.

(Menelau afasta-se com parte de sua escolta. Alguns de seus soldados seguram Helena e levam-na presa)

Primeiro Semicoro

Por fim abandonaste aos gregos, Zeus,o templo de Ílion e seu grande altar,o perfumado incenso, o fogo sacro,a mirra que em volutas ia ao céu,Pérgamo santa, do alto Ida os vales cobertos sempre de hera e as torrentes de gélidas e cristalinas águas e os píncaros que vêem cedo o sol,refúgio fulgurante caro aos deuses.Findaram para ti os sacrifícios,os coros e os concertos de louvor.Não haverá mais festas para os deuses nas noites penumbrosas, nem imagens bem esculpidas em madeira e ouro;não mais sagradas, ricas oferendas!Ah! Se pudéssemos acreditar,senhor, que nas alturas, em teu trono,te ocupas da infelicidade nossa e vês ainda os vívidos lampejos do incêndio que destrói nossa cidade!

Segundo Semicoro

Ah! Queridos esposos! Vossas sombras vagueiam nos caminhos dos finados sem sepultura e sem os ritos fúnebres!E a nau, com o ímpeto de suas asas,levar-nos-á por sobre as altas ondas para bem longe, nas planuras de Argos onde os cavalos pastam e as muralhas erguidas pelos Cíclopes se elevam.Nas portas se comprimem as crianças em multidão e todas choram, gemem,agarram-se às aflitas mães. Escutam-se gritos confrangedores: “Minha mãe!Ai de mim! Estou só! Levam-me os gregos para confins distantes de teus olhos em negra nau que os ventos tangerão no mar até a sagrada Salamina,o promontório que separa os mares ou mesmo o Istmo, onde estão as portas de Pêlops!” Quando a nau do rei argivo atravessar o mar Egeu, que a fira um tortuoso raio fulminante mandado pelos deuses no momento em que chorarmos abundantes lágrimas por termos de deixar a pátria amada para viver o fado de cativas na Grécia, enquanto espelhos claros de ouro— delícia das donzelas vaidosas —refletirão a filha do bom Zeus.Queiram os céus que Menelau jamais volte à Lacônia e reveja Pítane,nem chegue ao lar de seus antepassados e às portas brônzeas do templo da deusa,depois de receber de volta a esposa,desdouro da altaneira Grécia e ruína das plácidas ribeiras do Simóis!

(Reaparece  Taltíbio com soldados, trazendo o cadáver de Astíanax sobre o escudo de Heitor)

Primeiro Semicoro

Ai! Golpes sobre golpes se sucedem!Eis que às calamidades desta terraagora vêm juntar-se novos males!Mulheres infelizes dos troianos!Olhai o corpo lívido de Astiânax,lançado ao solo do alto das muralhaspara morrer por decisão dos gregos.

Taltíbio

Uma só nau com os remadores prontos, Hécuba,ainda permanece aqui; levando o restodos despojos entregues ao filho de Aquiles,ela vai navegar para a costa de Ftia.Já Neoptólemo saiu de mar aforaciente da expulsão do velho avô Peleude seus domínios pelo filho de Pelias.Por isso sem maior demora ele se foilevando Andrômaca; não reprimi as lágrimasna hora da partida, ao vê-la separar-sede seu país, chorando a pátria que perdiaem lamentoso adeus ao túmulo de Heitor.Ela implorava a Neoptólemo o favorde um sepulcro para o filho recém-morto,que deu o último suspiro — infortunado! —ao pé das altaneiras muralhas de Tróia.E o terror dos aqueus, este escudo de bronzecom que teu filho protegia sempre os flancos,não mais será levado à casa de Peleunem para a alcova nupcial em que Andrômaca,mulher de outro, vê-lo-ia com tristeza.Seu ataúde não será todo de cedroemparedado num jazigo só de pedra:o féretro deste meninozinho mortoserá o escudo de seu valoroso pai.Deponho, Hécuba, em teus braços, o cadáverpara que o vistas e o adornes de coroasse for possível nestas tristes circunstâncias,pois a mãe dele teve de partir há pouco sem que lhe permitisse a pressa de seu dono dar sepultura ao filho cruelmente morto.E quando achares que o cadáver está pronto depois de o recobrirmos com terra bastante levantaremos âncora e retornaremos.Cumpre depressa, então, esses deveres fúnebres.De um sofrimento ao menos pude aliviar-te:quando passava pelas águas do Escamandro,no meio do caminho, já limpei o corpo e até lavei os incontáveis ferimentos;só falta abrir a cova para sepultá-lo.Se formos expeditos em nossas tarefa sem pouco tempo a nau restante partirá.

(Taltíbio e alguns soldados começam a cavar a cova a certa distância.Os soldados que seguram o escudo de Heitor, onde vai o cadáver de Astíanax, permanecem onde estavam Hécuba)

Pousai no chão o escudo de meu filho, guardas!

(Os soldados põem no chão o escudo de HEITOR. Hécuba prossegue)

Ah! Como seus adornos são agora tristes e sem encantos para os olhos meus! Ah! Gregos,tão vaidosos de vossas proezas bélicas!Mas não vos orgulheis de vossa inteligência após este assassínio insólito! Que tínheis a recear desta criança? Que ela um dia fizesse Tróia ressurgir de suas ruínas?De pouca monta, então, é vosso antigo mérito!Nem os feitos de Heitor nos ásperos combates nem outros braços numerosos impediram que Tróia fosse derrotada, e quando os frígios jaziam todos, finalmente aniquilados,tivestes medo de uma frágil criancinha!Merecem só desprezo as almas pusilânimes que não ponderam as razões de seus temores.Ah! Bem-amado! Como foi triste o teu fim!Se ao menos tivesses morrido pela pátria após haver gozado a mocidade, as núpcias e a realeza que nos faz iguais aos deuses,terias sido mais feliz, se pode haver felicidade para os homens nesta vida!Nem mesmo te foi concedido desfrutar dos bens acumulados por teus ancestrais.Tão novo, não tiveste consciência deles e morto não os apreciarás jamais!Pobre cabeça! Como estás ferida! Como!Nossas muralhas construídas por Apolo para teus ascendentes foram crudelíssimas,pois arrancaram quase todos os cabelos que tua mãe se comprazia em pentear caídos sobre a testa e que beijava tanto!…E o belo rosto, deformado, ensangüentado…Não posso terminar!… Que horror! Quero afastar de minha vista este espetáculo pungente!Ah! Mãos em que eu gostava tanto de encontrara semelhança das mãos nobres de teu pai!…Agora estão assim, inertes, mutiladas…Queridos lábios de onde tantas vezes vinha malardes infantis, vejo-vos mortos hoje!…Mentias — coitadinho! — quando prometias pulando em cima de meu leito: “Hei de cortar,avó, quando morreres, meus cabelos crespos,e quando for com todos os meus companheiros dizer-te enternecido adeus jogá-los-ei em teu sepulcro.” Mas não choraste por mim!Sou eu, a tua avó, sem pátria, sem seus filhos,quem levará ao túmulo teu tenro corpo tão maltratado!… Ai! Infeliz! Quantas carícias,meigos cuidados, intermináveis vigília sem que te contemplava!… Tudo está perdido!E que palavras um poeta escreveria na lápide de teu sepulcro diminuto?“Aqui repousa uma criança trucidada pelos gregos vitoriosos que a temiam”.Que enorme opróbrio para a Grécia essa inscrição!…Enfim, estás herdando de teu pai apenas o escudo brônzeo que te servirá de féretro!…Escudo, que já protegeste o braço forte de Heitor, perdeste o teu valente guardião!…Ainda vejo emocionada em tua alça a forma que deixou seu braço… No contorno de sua copa ainda está a marca nítida do suor que nas lutas duras e constantes corria sem cessar do rosto de meu filho quando ele repousava o queixo sobre ti…Entrai, mulheres, e trazei, se ainda houver,alguns adornos; quero preparar o morto.

(Algumas mulheres dirigem-se à tenda mais próxima. Hécuba prossegue)

Não nos deixou a desventura em condições de te prestar condignas homenagens fúnebres;receberás, porém, o que inda nos resta.É insensata a criatura que se alegra com um momento de felicidade e o julga interminável, pois a sorte, sempre incerta,é igual ao homem delirante que em seus transes cai para um lado agora, depois para o outro.Quem poderá dizer que sempre foi feliz?

As mulheres voltam da tenda com adornos fúnebres).

Primeiro Corifeu

Retornam as cativas tendo em suas mãos os restos miseráveis da opulência frígia que servirão de adorno ao pequeno cadáver.

Hécuba

Em tua vida breve não tiveste tempo,minha criança, de vencer teus companheiros nas provas hípicas ou no manejo do arco;pois a mãe de teu pai depõe sobre um cadáver os galardões que um dia tu conquistarias se Helena detestada não houvesse antes roubado a tua vida e destruído tudo!…

Coro

Quanta dor! Ah! Palavras pungentes!Desejávamos que te tornasses o monarca maior desta terra!

Hécuba

Os paramentos que deverias usar nas festas de teu casamento com a mais nobre de todas as princesas da Ásia vão cobrira penas um cadáver, belos trajes frígios!…E tu, escudo triunfante, proteção de Heitor, conquistador de inúmeros troféus,recebe esta coroa; segues um defunto;é como se estivesses igualmente morto.Ainda mais que as armas de Odisseu perverso e fértil em ardis, mereces honrarias.

Coro

Ai de nós! Ai de nós, criancinha!Esta terra já vai recobrir-te! Chora e geme, anciã desditosa!

Hécuba

Ai de mim! Como sou infeliz!

Coro

Entoamos o hino dos mortos!

Hécuba

Quanta dor! Ai de mim! Quanta dor!

Coro

Sim, rainha; sentimos por ti!São terríveis os teus sofrimentos!

Hécuba (Mais serena)

Ocultarei com faixas os teus ferimentos(sou um funesto médico que nada cura).Teu pai te espera lá onde os mortos se encontrame terá os cuidados que não pude ter.

Coro

Mortifica com as mãos a cabeça,elevando-as e depois baixando-as!

Hécuba

Minhas queridas companheiras, escutai-me!…

Coro

Fala, Hécuba, às tuas amigas,confidentes leais; em que pensas?

Hécuba

Os deuses, em verdade, impõem-me tormentos ininterruptamente e detestavam Tróia mais que qualquer outra cidade; foi em vão que lhes oferecemos tantos sacrifícios.Se, todavia, eles não nos escolhesse me se morrêssemos na mediocridade,tragados pela terra sem deixar vestígios,jamais as doces Musas nos celebrariam nem os poetas no porvir nos cantariam.Depositai, então, o corpo no sepulcro envolto nestes trajes próprios de defuntos.Em minha opinião aos mortos pouco importamo fausto e o valor das oferendas fúnebres;elas apenas alimentam a vaidade dos vivos, sempre cuidadosos de gloríolas.Os soldados afastam-se levando o corpo de Astíanax

Coro

Desgraça! Tua infortunada mãe viu perecer contigo a esperança de sua vida. Todos exaltavam a tua sorte por haver nascido de raça tão ilustre; vais embora tão novo e tua morte foi tristíssima!

(Vêem-se soldados à distância agitando archotes).

Que aconteceu? Que mãos pelos altares de Ílion portam tochas flamejantes?Que novos males ameaçam Tróia?

(Taltíbio aproxima-se, seguido por soldados)

Taltíbio

Ordeno aos homens incumbidos dos incêndios:não deixeis descansar em vossas mãos as tochas.O fogo deve consumir toda a cidade,até que ela esteja reduzida a cinzas,pois só assim começaremos a viagem de volta à Hélade com os corações contentes.E vós, filhas de Tróia — é dupla a minha ordem —tereis de dirigir-vos ao embarcadouro logo que soem os clarins dos comandantes dando o sinal definitivo da partida. E tu, idosa Hécuba, segue estes homens;vieram conduzir-te a mando de Odisseu.Serás escrava dele como quis a sorte,em terra estranha, longe da vencida Tróia.

Hécuba

Ah! Infeliz de mim! Agora vejo o cúmulo de minha desventura; deixo a minha pátria,minha cidade toda está envolta em chamas!Coragem, pobre velha! Num esforço extremo dize o adeus final à tua terra infausta!Ah! Tróia, que sobressaías orgulhosa entre as cidades habitadas pelos bárbaros!Perdes num átimo teu nome glorioso.Destroem-te com fogo e levam-me cativa!Ah! Deuses! (Mas, qual a valia de invocá-los?Já no passado não ouviram meus apelos…)Seja o que for! Precipitemo-nos nas chamas!Minha glória maior será morrer aqui nesta fogueira que reduz a cinzas Tróia!

(Hécuba tenta correr, trôpega, em direção às labaredas no fundo da cena)

Taltíbio

Estás fora de ti, desventurada Hécuba,em conseqüência de teus muitos infortúnios.

(Dirigindo-se aos soldados)

Depressa! Segurai-a! Não quero perdê-la!Teremos de entregá-la viva a Odisseu,que espera a escrava conquistada no sorteio.

(Os soldados seguram Hécuba, que se debate)

Hécuba (Entre soluços)

Quanta tristeza! Quanta desgraça!Filho de Cronos, senhor da Frígia,pai desta raça, vês a desdita,a sorte inglória que atinge agora a descendência do antigo Dárdano?

Coro

Ele a vê, mas a nossa cidadeacabou; Tróia, a grande, acabou!

Hécuba

Ai de mim! Desgraçada! Infeliz!Minha Tróia é somente um clarão.Sobe o fogo dos tetos de Pérgamo,da cidade e de seus baluartes!

Coro

Como o fumo que as asas do vento num momento dissipam no céu,a cidade se esvai, pois as lanças a venceram nos duros embates.Os incêndios e as armas adversas arrasaram os nossos palácios.

(Hécuba ajoelha-se e bate no chão com as mãos fechadas)

Hécuba

Terra-mãe que nutriste meus filhos!

Coro

Ai de nós!

Hécuba

Ai! Meus filhos! Ouvi vossa mãe!Escutai o chamado, meus filhos!

Coro

Teu lamento soturno os invoca lá no mundo remoto dos mortos!

Hécuba

Aproximo do chão meus joelhos doloridos e golpeio a terra com as mãos antes fortes fechadas!

Primeiro Semicoro

Nós também, de joelhos no chão evocamos no fundo da terra os esposos que a guerra matou!

Hécuba

Já nos levam!…

Segundo Semicoro

Quanta dor! Quantos gritos de dor!

Hécuba

Seremos escravas…

Primeiro Semicoro

… muito longe de nosso país!

Hécuba

Meu rei Príamo, agora finados em sepulcro e sem um amigo para perpetuar-te a memória,não percebes a minha desgraça?

Primeiro Semicoro

Negra noite fechou os seus olhos,triste prova da morte cruel!

(Ouvem-se estrondos de desmoronamentos, ainda isolados. Levantam-se as mulheres do segundo Semicoro. Todas se voltam para a cidade em chamas)

Hécuba

Templos todos de Tróia querida…,

Coro

Ai de nós!

Hécuba

… desabais na voragem das chamas.Veio a morte na ponta das lanças!

Coro

Sereis ruínas sem nome bem cedo na cidade querida dos frígios!

Hécuba

Logo as cinzas que seguem as chamas cobrirão inda quentes as ruínas do palácio até ontem tão belo…

Coro

Mesmo o nome de nossa cidade deixará de existir. Há destroços crepitando por todos os lados!

(Ouve-se o estrondo maior da cidadela de Pérgamo desmoronando)

Hécuba

Percebestes? Ouvistes, amigas?

Coro

É o estrondo de Pérgamo antigadesfazendo-se em ruínas! É o fim!

Hécuba

Um tremor já percorre a cidade…

Coro

… e se estende como enorme vaga!

(Ouve-se o toque dos clarins chamando as mulheres para o embarque)

Hécuba

Membros meus muito frágeis! Levai-me,conduzi-me na marcha forçada.Comecemos a triste jornada até nosso cruel cativeiro!

Coro

Ai! Adeus, minha triste cidade!Caminhemos, forcemos os pés a marchar para as naus dos aqueus!…

(As mulheres do Coro, com Hécuba à frente, saem marchando em cadência lenta na direção das naus).

FIM