Eurípedes, Medeia

A mais Chocante das Tragédias

Anselm Feuerbach 1829–1880

A peça teatral Medeia foi escrita por Eurípides que viveu entre os anos de 480 a.C e 406 a.C. e mostra um retrato psicológico de uma mulher carregada de amor e ódio num só tempo. É uma mulher que durante a viagem dos Argonautas abandonou seus pais e matou o seu irmão para ficar ao lado do marido Jasão, mas no fim acabou rejeitada por esse mesmo marido e se tornou uma estrangeira entre um povo que não a respeita . Ela assim se rebela contra o mundo que a rodeia, sendo tomada por uma fúria que a leva às últimas consequências num crime além da redenção que choca todo o mundo grego.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por J. B. de Mello e Souza.

 

Medeia

Personagens

Ama
Creonte
Filhos de Medeia
Pedagogo
Jasão
Egeu
Medeia
Mensageiro
Coro (das Mulheres de Corinto)

Cenário: A Ama está sozinha, em frente à casa de Medeia.

Ama

Quem dera que a nau de Argos1, quando seguia para a terra da Cólquida, nunca tivesse batido as asas2 através das negras Simplégades3, e que nas florestas do Pélion4 não houvesse tombado o pinheiro abatido, nem ele tivesse dado os remos aos braços dos homens valentes, que buscaram o velo de ouro para Pélias. Assim não teria Medeia, a minha senhora, navegado para as fortalezas da terra de Iolcos, ferida no seu peito pelo amor de Jasão5. Nem depois de convencer as filhas de Pélias a matar o pai6, habitaria esta terra de Corinto com o marido e os filhos, alegrando com a sua fuga os cidadãos a cujo país chegara7, em tudo concorde com Jasão. Porque é essa certamente a maior segurança, que a mulher não discorde do marido.

Agora tudo lhe é odioso, e aborrece-a o que mais ama. Traindo a minha senhora e os seus próprios filhos, Jasão repousa no tálamo régio, tendo desposado a filha de Creonte8, que manda nestas terras; e Medeia, desgraçada e desprezada, clama pelos juramentos, invoca as mãos que se apertaram9, esse penhor máximo, e toma os deuses por testemunhas da recompensa que recebe de Jasão. Jaz sem comer, o corpo abandonado à dor, consumindo nas lágrimas todo o tempo, desde que se sentiu injuriada pelo marido, sem erguer os olhos, sem desviar o rosto do chão. Como uma rocha ou uma onda do mar, assim escutas os amigos, quando a aconselham. A não ser quando alguma vez, volvendo o colo alvinitente, de si para si lamenta o pai querido, a terra e a casa que traiu para vir com o homem que agora a desprezou. Sabe a infeliz,, oprimida pela desgraça,, o que é não abandonar a casa paterna. Abomina os filhos e nem se alegra com vê-los. Temo que ela medite nalguma nova resolução10. É que ela é terrível, e que a desafiar como inimiga não alcançará facilmente vitória.

Mas eis que os filhos, acabadas as corridas, se aproximam, sem nada saber da desgraça da mãe; é que a mente juvenil não gosta de sofrer.

(Entra o Pedagogo com os filhos de Medeia.)

Pedagogo

Ó velha guardiã da casa da minha senhora, porque estás aqui à porta, nesta solidão, a gritar alto a tua dor? Medeia, como quer que a deixes só?

Ama

Velho companheiro dos filhos de Jasão, aos escravos fiéis atinge-os duramente a desgraça de seus amos, e do seu coração se apodera. A tal ponto chegou a minha dor, que me veio o desejo de vir aqui clamar à terra e ao céu a sorte da minha senhora.

Pedagogo

Ainda a pobre não cessou de gemer?

Ama

Invejo-te; o mal está no começo, não vai ainda em meio.

Pedagogo

Pobre louca – se dos amos é lícito dizê-lo – que nada sabe de males mais recentes.

Ama

Que é, ó ancião? Não te negues a dizê-lo.

Pedagogo

Nada. Arrependo-me até do que já disse.

Ama

Não faças segredo, por quem és11, de uma companheira de servidão; sobre isso manterei o silêncio, se tanto for preciso.

 

Pedagogo

A alguém ouvi dizer, sem parecer estar à escuta, quando passava no lugar dos jogos dos dados12, onde afluem os anciãos, junto da linfa sagrada de Pirene13, que Creonte, senhor destas terras, queria expulsar do país de Corinto estas crianças com a mãe. Se o que se disse é verdade, ainda não sei; quisera que o não fosse.

Ama

E Jasão, apesar da dissensão com a mãe, há de consentir que os filhos sofram tal?

Pedagogo

O antigo parentesco cede ao novo, e ele não é amigo desta casa.

Ama

Estamos perdidos, se ao mal antigo juntamos um novo, antes de aquele ter murchado.

Pedagogo

Mas tu fica quieta e guarda silêncio, que não é o momento de a senhora saber.

Ama

Ó filhos, ouvis como é para vós o vosso pai? Não lhe desejo a morte – é o meu senhor. Mas a sua falsidade é a perdição dos seus.

Pedagogo

E quem não é assim dentre os mortais? Ainda agora é que sabes coo cada um se ama mais a si do que ao próximo14, ao ver que é por causa de novas núpcias que o pai os não estremece…

Ama

Ide, ó filhos, para dentro de casa, que lá tudo estará bem. E tu conserva-os à parte o mais que for possível, e não te aproximes da mãe em delírio; que eu já a vi olhá-los com os olhos bravos de um toiro que vai fazer algo de terrível; nem cessará a sua cólera, eu bem o sei, sem se abater sobre alguém. Que ao menos recaia sobre os inimigos, não sobre os amigos.

Medeia (de dentro)

Ai!

Desgraçada de mim e dos meu males.

Ai, ai de mim, que fim será o meu?

Ama

Vedes, caros filhos; a vossa mãe o peito se lhe agita e move a ira. Correi depressa para dentro do palácio, e não vos acerqueis da sua vista, nem vos aproximeis, mas defendei-vos do caráter selvagem, temeroso

de um ânimo indomável. Ide, então, correi céleres para dentro.

(Os filhos de Medeia entram no palácio.)

É bem claro, em breve com maior paixão inflamará a nuvem de gemidos que começa a surgir; e que fará,

tão malferida, e inaplacável uma alma mordida pela desgraça?

Medeia

Ai! Ai!

Sofri, desgraçada, sofri males muito para lamentar. Ó filhos malditos de mãe odiosa, perecei com vosso pai, e a casa caia toda em ruínas.

Ama

Ai ai de mim, desgraçada! Por que entram as crianças na culpa que é do pai? por que os odeias? Ai, filhos, como eu temo que algo sofrais. Duro é dos soberanos o querer e, pouco mandados, podendo muito, dificilmente mudam suas iras. Melhor é o costume de viver na igualdade; a mim me seja dada velhice tranqüila e sem grandezas. Da moderação, vale nome mais que tudo. Dela usar é bem melhor para os mortais; aos homens de nada serve passar tal medida. Maior a pena da desgraça que sofrem, quando em fúria o demônio anda em casa.

Párodo

(Entra o Coro, formado por quinze mulheres de Corinto.)

Coro

Ouvi, ouvi a voz e o clamor da Cólquida infeliz e sem sossego. Mas fala, ó anciã, que já à minha porta e dentro do palácio ouvi um gemido; e eu não folgo, ó mulher,, com as dores desta casa, de quem fiquei amiga.

Ama

Casa – já não é; isso já lá vai, que a um detém-no o leito dos reis, ela consome no tálamo a vida, a senhora, sem que falas amigas conforte o seu peito.

Medeia

Ai! Ai! O fogo do céu me trespasse a cabeça. De que vale ainda viver? Ai, ai! Quem me dera deixar a vida odiosa, pela morte libertada!

Coro

Estrofe

Ouvis, Ó Zeus ó terra, ó luz, que grito agora soltou essa esposa desgraçada? Que desejo é esse das núpcias que deves evitar15, ó louca? Acaso tens pressa de chegar ao termo da morte? Não peças isso. Se o teu esposo faz honra a novo leito, isso é comum; não te exasperes, Zeus te fará justiça. Não te consumas, lamentando demais teu companheiro.

Medeia

Ó grande Témis16, Ártemis venerável, vedes o que eu sofro, eu que prendi a mim, com grandes juras17, o esposo maldito! Que eu um dia o veja a arder com a própria casa, ele e a sua noiva, que primeiro ousou injuriar-me. Ó meu pai, ó minha terra que eu deixei, matando com opróbrio meu irmão18!

Ama

Ouvis como fala e grita por Témis, patrona dos votos, e por Zeus, que vale como guardião das juras para os mortais19 Não é com pouco que a minha senhora acalmará a ira.

Coro

Antístrofe

Como poderia ela vir à nossa vista, receber das nossas palavras o som, a ver se a pesada ira e capricho abandonava Porque, dos amigos, o nosso zelo não estará longe. Mas anda, vai dentro de casa e leva-lhe estas palavras amigas. Apressa-te já, antes que o mal chegue aos que lá moram; que a dor já cresce, desmedida.

Ama

Assim farei; mas temo não convencer a minha senhora; mas este penoso favor eu te concedo, apesar de o seu olhar de leoa que pariu ser bravo como um touro para os servos, quando algum, para falar-lhe, se aproxima. Se disseres inábeis e ignaros os antigos mortais20, não erras; eles que para festas, banquetes e ceias acharam da vida suaves acentos, compondo hinos. Mas entre os mortais, nem um descobriu como fazer cessar com a musa e o canto multíssino, o hórrido desgosto, donde sai a morte e o fado terrível que as casas. E contudo era bom sarar com cantos os mortais. Onde há lautos banquetes para que em vão levantam clamores? Lá esta a abundância do banquete que em si tem deleite para os mortais.

(A ama retira-se.)

Coro

Um grito ouvi pleno de lamentos, e agudos gritos de dor clamam pelo esposo infiel ao seu leito. A que sofreu o mal invoca a filha de Zeus, dos juramentos guardiã, Témis21, a que a trouxe à Hélade fronteira22, através do mar escuro da noite, para a entrada marinha do Ponto sem limites23.

Primeiro Episódio

(Entra Medeia.)

Medeia

Saí de casa, ó mulheres de Corinto, para que nada me censurei. Porque eu sei que muitos dentre os mortais são arrogantes, uns longe da vista, outros à porta de casa; outros, atravessando a vida com passo tranqüilo, hostil fama ganharam de vileza. Porque não há justiça aos olhos dos mortais, se alguém antes de bem conhecer o íntimo do homem, o odeia só de o ver, sem ter sido ofendido. Força é que o estrangeiro se adapte à nação; tampouco louvo do cidadão que é acerbo para os outros, por falta de sensibilidade.

Sobre mim este feito inesperado se abateu, que a minha alma destruiu. Fiquei perdida e tenho de abandonar as graças desta vida para morrer,, amigas. Aquele que era tudo para mim (ele bem o sabe) no pior dos homens se tornou – o meu esposo.

De quanto há aí dotado de alma e de razão, somos nós, mulheres, a mais mísera criatura. Nós, que primeiro temos de comprar, à força de riqueza24, um marido e de tomar um déspota do nosso corpo – dói mais ainda um mal do que o outro. E nisso vai o maior risco, se o tomamos bom ou mau. Pois a separação para a mulher é inglória, e não pode repudiar o marido.

Entrada numa raça e em lei novas, tem de ser adivinha, sem ter aprendido em casa, de como deve tratar o companheiro de leito. E quando o conseguimos com os nossos esforços, invejável é a vida com um esposo que não leva o jugo à força; de outro modo antes a morte. O homem, quando o enfadam os da casa, saindo, liberta o coração do desgostos25. Para nós, força é que contemplemos uma só pessoa. Dizem: como nós vivemos em casa uma vida sem risco, e ele a combater com a lança. Insensatos! Como eu preferiria mil vezes estar na linha de batalha26 a ser uma só vez mãe!

Mas a vós e a mim não serve a mesma argumentação. Vós tendes aqui a vossa cidade e a casa paterna, a posse do bem-estar e a companhia dos amigos. E eu, sozinha, sem pátria, sou ultrajada pelo marido, raptada duma terra bárbara, sem ter mãe, nem irmão, nem parente, para me acolher desta desgraça.

Apenas isto de vós quero obter: se alguma solução ou processo eu encontrar para fazer pagar ao meu marido a pena deste ultraje27, guardai silêncio. Aliás, cheia de medo é a mulher, e vil perante a força e à vista do ferro. Mas quando no leito a ofensa sentir, não há aí outro espírito que penda mais para o sangue.

Coro

Assim farei. Com justiça castigarás o teu marido, ó Medeia. Não me admiro que deplores a tua sorte.

Mas vejo também Creonte, o príncipe desta terra,, que se aproxima, mensageiro de novas deliberações.

(Entra Creonte, acompanhado pelos seus guardas.)

Creonte

A ti, ó Medeia de olhar turvo, com teu esposo irada, eu digo que saias como exilada deste país, levando contigo os teus dois filhos. E não hesites. Que eu sou de tal ordem o árbitro, e não voltarei para minha casa antes de te expulsar dos confins desta terra.

Medeia

Ai! Ai! Desgraçada, que de todo estou perdida. O navio inimigo avança a todo pano, e não há saída deste mal, que seja fácil de abordar28. Mas, na minha desgraça,, mesmo assim te pergunto: porque me mandas embora desta terra, ó Creonte?

Creonte

Eu temo – não vale a pena dissimular as palavras – que faças à minha filha algum mal irreparável. Motivos de temor há-os de sobra. Tu és por natureza astuta e sabedora de muitos artifícios, e torturas-te por estares privada do tálamo conjugal. Ouço dizer – e anunciam-mo – que algo ameaças fazer ao que dá em casamento, ao esposo e à desposada. Disto me guardo, antes de o sofrer. Melhor é para mim mostrar-me agora odioso, ó mulher, do que gemer depois de enfranquecido.

Medeia

Ai! Ai! Não é agora a primeira vez, ó Creonte, mas já muitas vezes a fama me foi nociva e me causou grandes males. Que jamais alguém, que seja por natureza astuto, instrua os filhos mais do que o preciso, fazendo deles sábios. Porque, além da mancha da inércia, que têm, ganharão malevolente inveja dos seus concidadãos. É que, para a multidão ignara, quem for o portador de uma nova sabedoria, passará por inútil,, e não por sábio. E quem, na cidade, for julgado melhor do que aqueles que aparentam saber muitas coisas será tido como indesejável29.

De tal sorte também eu mesma participo. A minha ciência faz com que eu para uns seja invejada30 para outros ainda desagradável. E, contudo, não sou muito sábia. E então tu tens medo de mim? Medo de sofreres algo desagradável? Não estou na disposição – ai! não temas Creonte – de me tornar culpada contra quem governa. Pois tu que mal me fizeste? Deste a tua filha a quem a alma te indicava. Ao meu esposo, e esse é que eu detesto. Tu – creio eu – procedeste assim com sensatez. E agora, eu não invejo o teu bem-estar. Casai, sede felizes. Mas deixem-me habitar neste país. Mesmo ultrajadas, calar-nos-emos, vencidas pelos ais poderosos.

Creonte

Dizes palavras brandas ao ouvidos, mas dentro da tua alma tenho o temor de que premedites algum mal para mim, e tanto mais que antes acreditei em ti. Porque a uma mulher irascível, tal como a um homem, é mais fácil guardá-la do que a um sábio silencioso. Mas sai o mais depressa possível, não discutas. É assim que convém, e não terás artes de ficar junto de nós, tendo más intenções contra mim.

Medeia

Não, suplico-te31 pela tua filha há pouco desposada.

Creonte

Estás a gastar palavras; nunca me convencerias.

 

Medeia

Expulsas-me então e não te amerceias das minhas preces?

Creonte

Não te amo mais a ti do que à minha casa.

Medeia

Ó minha pátria, como eu agora me lembro de ti!

Creonte

Depois dos filhos, nada me é mais caro.

Medeia

Ai! Ai! Que grande mal é o amor para os mortais!

Creonte

Conforme a fortuna, ao que me parece.

Medeia

Zeus, não vos escape o causador desta desgraça!

Creonte

Vai-te, ó louca, e livra-me de trabalhos.

Medeia

Trabalhos serão os nossos e de mais não precisamos.

Creonte

Em breve serás levada à força, nos braços dos escravos.

Medeia

Isso, ao menos, não, suplico-te, Creonte.

Creonte

Tu causarás dificuldades, ao que parece, ó mulher.

Medeia

Fugiremos; mas não era esse o objeto da minha súplica.

Creonte

E então por que insistes e não te afastas desta terra?

Medeia

Este dia só consente que eu fique, a pensar na maneira de nos irmos e na direção que hão de tomar os meus filhos, já que o pai nada se importa com o que há de arranjar para eles. Tem pena deles. Que tu também és um pai com filhos. É natural que tenhas benevolência. Pelo que me diz respeito, não tenho cuidados, quando nos formos, mas choro-os a eles, pela desgraça que os atingiu.

Creonte

A minha vontade e nada é a de um déspota; mas muitas vezes arruinei a situação, por ser compassivo. E agora eu vejo que erro, ó mulher, mas, mesmo assim, ser-te-á concedido. Mas previno-te, se a luz do sol32 que há de surgir te vir e às crianças dentro dos confins desta terra, morrerás; está é sentença iniludível. E agora, se é preciso ficares,, fica por um dia; que não farás nada do mal que eu temo.

(Sai Creonte.)

Coro

Pobre mulher,

Ai de ti! infeliz pela desgraça,

para onde hás de voltar-te? que hospitalidade33,

que casa, que país salva teus males?

Como um deus te conduziu, ó Medeia,

por um mar sem fim de calamidades.

Medeia

De todos os lados a desgraça. Quem contestará? Mas ainda não fica assim, não suponhais. Ainda há lutas para os noivos de há pouco; para os sogros, não pequenos trabalhos. Ou pensais que, se o lisonjeei, não era para ganhar ou tramar alguma coisa? Nem lhe falava nem lhe tocava com as minhas mãos35… E ele a tal loucura chegou que, sendo-lhe dado tolher os meus planos, expulsando-me do país, concedeu-me ficar este dia, em que dos meu inimigos farei três cadáveres: o pai e a donzela e o marido – mas o meu. Dispondo de muitos caminhos, para lhes dar a morte, não sei, amigas, qual ensaiar primeiro. Se hei de deitar fogo à casa nupcial ou enterrar no coração36 uma espada afiada, entrando silenciosa no palácio no palácio, onde está armado o leito. Mas uma só coisa me é adversa: se sou apanhada ao entrar em casa e ao preparar o ardil, a minha morte dará motivo ao escárnio dos meus inimigos. O melhor é pela via ais direta, na qual somos mais sábias, suprimi-los com veneno. Seja. Eles estão mortos. E que cidade me receberá? Quem, oferecendo uma terra imune de ofensa e uma casa fidedigna, salvará o meu corpo com a sua hospitalidade37? Não há ninguém. Espero então ainda algum tempo, a ver se aparece algum baluarte seguro38, e com o dolo e o silêncio executo este crime. E, se uma sorte irreparável me atingir, eu mesma empunharei a espada, ainda quando tenha de morrer, e os matarei, e seguirei os caminhos violentos da ousadia. Porque, pela minha Senhora, a quem presto culto acima de todos, e que escolhi para me ajudar, por Hécate39, a que habita no recesso do meu lar, nenhum deles torturará incólume o meu coração. Amargos e funestos lhes farei os esponsais,, amarga a aliança e a minha fuga destas terras. Coragem, Medeia, não te poupes a nada do que sabes,, agora que já deliberaste e arranjaste um expediente. Avança para esse fim terrível; agora é a luta dos ânimos fortes. Tu vês o que sofres. Não deves oferecer motivos de escárnio por causa destas núpcias entre a raça de Sísifo40 e Jasão, t que descendes de um pai nobre e do Sol41. Bem o sabes. Além de que nascemos mulheres, para as ações nobres incapacíssimas, mas de todos os males artífices sapientíssimas.

Primeiro Estásimo

Estrofe

Coro

Para trás volvem as águas dos rios sagrados42, ao contrário andam justiça e o mais; nos homens, fraudulentas sentenças; nos deuses não mais temos confiança. A fama mudará, trazendo à minha vida glória; a honra virá para a raça das mulheres e fama inglória não mais nos manchará.

Antístrofe

Dos velhos aedos as musas cessarão de celebrar do eu sexo a infidelidade43. O canto inspirado da lira,, não o quis Febo, senhor dos sons44, em nossa mente infundir45; que, se o fizera, eu comporia um canto contra os homens. Deles e de nós tem que dizer o longo Tempo.

Estrofe

Tu da casa paterna navegaste, coração tresloucado, separando do mar os dois escolhos46; em terra estranha habitas, o tálamo deserto, infeliz, para o exílio, sem honra, te atirarão.

Antístrofe

Do juramento partiu a lealdade; na Grécia magna a vergonha nos ares se evolou. Tu, coitada, a pátria casa não tens, para refúgio das penas, mas outra mais potente reinará em teu lar.

 

2.º Episódio

 

(Entra Jasão)

Jasão

não é esta a primeira vez, mas já muitas eu vi como a cólera violenta é um mal irremediável. Era-te permitido estar neste país e nesta casa, se suportasses bem os desígnios dos mais poderosos, mas pelas ,tuas palavras estultas serás expulsas desta terra. Eu não tenho nada a ver com isso. não cessarás nunca de dizer que Jasão é o pior dos homens? Mas, quando ao que disseste contra os soberanos, fica sabendo que é para ti grande lucro ser a fuga o teu castigo. E eu sempre a tentar dissipar as iras dos reis enfurecidos, e a querer que tu ficasses: e tu sem desistires da tua insensatez, sempre a dizer mal dos soberanos; por isso serás expulsa desta terra. Venho, não obstante, depois disto, sem me negar aos amigos, olhando pela tua sorte, ó mulher, para que não vás daqui para fora com as crianças, indigente ou necessitada. Muitos males carrega consigo o exílio. E, ainda que tu me odeies, jamais eu seria capaz de te querer mal.

Medeia

Ó grande malvado – que está é a pior injúria que a minha língua tem para a tua covardia – tu vieste ter conosco, tu vieste, odiosa criatura?47 Isto já não é atrevimento, isto já não é ousadia – olhar de frente para os amigos a quem se faz mal – mas a maior de todas as enfermidades humanas, a falta de vergonha. Mas fizeste bem em vir. Porque eu, injuriando-te, aliviarei a minha alma, e tu, ouvindo-me, passarás pela tortura.

Pelo princípio principiarei a dizer. Fui eu quem te salvou, como sabem os Helenos quantos embarcaram na mesma nau de Argos, quando te mandaram por o jugo aos touros ignispirantes e semear o campo mortífero. E o dragão, que, envolvendo o velo de ouro, enrolado em espiral, o guardava insone, matei-o levando à tua frente a luz da salvação.

E fui eu que, traindo o meu pai e a minha casa, contigo vim para Iolcos do Pélion, com mais paixão do que sensatez. E matei Pélias, da maneira mais dolorosa, às mãos das suas filhas, e toda a casa destruí. E depois de teres recebido tais benefícios da nossa parte, tu, o mais celerado dos homens, atraiçoaste-nos e contraíste novas núpcias, havendo filhos; se ainda ao menos não tivesses descendência, seria perdoável teres-te enamorado de um novo tálamo. Desvaneceu-se a fé nos juramentos, nem sei se crês que os deuses de então já não governam, ou que há novas leis agora para os homens, já que ao menos tens consciência de não teres sido fiel ao juramento que me fizeste. Ai, minha mão direita, que tantas vezes apertaste, e este joelhos, como em vão se agarrou neles, como suplicante48, um homem malvado! Como não realizamos as nossas esperanças.

Mas vamos; conversarei contigo, como se meu amigo foras. Supondo que algum bem me virá da tua parte? seja como for. Sujeito a um interrogatório, mas infame parecerás. E, agora, para onde hei de voltar-me? para a casa paterna e para a minha pátria, que traí por amor de ti, vindo para este país? Ou junto das desgraçadas filhas de Pélias? Sem dúvida, elas haviam de receber-me bem na casa onde lhes matei o pai… É assim mesmo. Aos da minha casa, que me eram caros, me tornei odiosa e, naqueles a quem não devia fazer mal, criei inimigos, para te favorecer a ti. Foi assim que, em troca de tudo isto, me fizeste feliz aos olhos das mulheres gregas; admirável é o marido que eu tenho – e fiel – desgraçada de mim! Se me expulsarem e eu fugir desta terra, privada de amigos, sozinha, com os filhos, sozinhos, bela honra para o recém-casado, que vão errantes, como mendigos, os teus filhos e eu – a que te salvei. Porque seria, ó Zeus, que do ouro falso deste à humanidade indício claro, e para conhecer nos homens a maldade não há contraste49 no corpo, que os distinga?

Coro

Terrível é a ira, e insanável, quando amigos contra amigos lançam a discórdia.

Jasão

Força é, ao que parece, que eu não seja mau orador, mas, qual timoneiro de uma nau valente, com os extremos das velas me furte à tua loquacidade temerária, ó mulher. Eu, por mim, já que tanto exaltas o teu favor, creio que, dentre os homens e deuses, foi Cípria a única salvadora da minha viagem. Tu tens o espírito sutil, mas te é desagradável explicar como Eros te forçou com armas iniludíveis a salvar a minha pessoa. Mas não vou insistir por demais nesse argumento. Fosse qual fosse a tua ajuda, não está mal. Recebeste mais do que deste para me salvar, como te vou demonstrar. Em, primeiro lugar, habitas na terra dos Helenos, em vez da dos bárbaros, conheces a justiça e sabes usar das leis, sem recorrer à força50. Todos os gregos perceberam que eras sábia e tornaste-te famosa; se habitasses nos confins da terra, não se falaria de ti. Que eu não tivesse o oiro em casa, nem cantasse uma melodia mais bela que a de Orfeu51, se a fortuna insigne me não tocasse.

Tal é o que eu tenho para dizer dos meus trabalhos, já que tu preferiste uma luta de palavras. Quanto ao que me censuraste sobre as núpcias reais, nisso te mostrarei primeiro que fui sensato depois que fui esperto, depois que fui esperto, depois ainda que fui um grande amigo, para ti e para os meus filhos. Mas está quieta52. Desde que da terra dos Iolcos para aqui passei, transportando muitas desgraças irreparáveis, que solução podia achar mais acertada do que esta, de desposar a filha do rei, sendo um exilado? não da maneira pungente que supões, por abominar o teu leito, ou tomado pelo desejo de outra noiva, nem com a aspiração de rivalizar com os que têm muita descendência. Bastam os que nasceram, nada tenho a censurar. Mas – o que é mais importante, para pudéssemos viver bem, e não sofrêssemos privações, sabendo que todos os amigos fogem de quem é pobre… e para criar os filhos como é devido à minha linhagem, dando-lhes irmão, às crianças de ti nascidas… para os colocar no mesmo grau e, aliando a raça, sermos felizes. Pois tu para que precisa dos filhos? A mim importa com os que hão de vir ser útil aos que já existem. Acaso pensei mal? Não eras tu que o dirias, se não te dilacerasse o novo tálamo. Mas a tal ponto chegastes que, estando o consórcio em boa ordem, vós, mulheres, supondes ter tudo; se, porém, surge algum contratempo no matrimônio, das melhores e mais belas relações fazem as mais hostis. Deviam os mortais gerar os filhos de outra maneira, e não existir o sexo feminino. E assim não haveria mal para os homens.

Coro

Bem enfeitaste, ó Jasão, tuas palavras; mas a mim se me afigura, se bem que contra a tua opinião fale, que, traindo tua esposa, não fizeste justiça.

Medeia

É verdade que em muitas coisas sou diferente da maioria dos mortais. Para mim, quem, sendo injusto, é hábil no dizer, merece muito maior castigo53. Com uma língua artificiosa se gaba de enfeitar a injustiça e ousa cometer o mal; mas ele não é tão destro como isso. Agora vais mostrar que não és hábil para mim, nem eloqüente; porque uma só palavra te abaterá! Era preciso, se não fosses malvado, que fizesses esse casamento depois de me teres convencido, e não a ocultas dos que te amam.

Jasão

Belamente terias favorecido tal proposta, bem o creio, se eu te houvesse falado do casamento que nem agora te afoitas a depor a grande ira do teu coração.

Medeia

Não foi isso o que te deteve, mas é que não te pareceu que, na velhice, um tálamo bárbaro te seria glorioso.

Jasão

Pois fica a saber duma vez para sempre: Não foi por amor de uma mulher que eu fiz esta aliança com o leito real que agora tenho, mas, como já disse, com o desejo de te salvar e de gerar filhos régios, da mesma origem dos mais, que sejam o sustentáculo da casa.

Medeia

Que não me caiba em sorte essa próspera vida de dor, nem essa felicidade, que dilacera o meu espírito!

Jasão

Tu sabes como hás de mudar e mostrar-te mais sensata. Um dia o que é útil não te parecerá doloroso, nem te julgarás infeliz, sendo afortunada.

Medeia

Mostra-te insolente, tu que tens refúgio, que eu sozinha hei de evadir-me desta terra.

Jasão

Tu mesma escolheste; não acuses mais ninguém.

Medeia

Fazendo o quê? Casando, por ventura, e atraiçoando-te?

Jasão

Lançando maldições molestas aos soberanos.

Medeia

Sim, também para a tua casa eu sou uma fonte de maldições.

Jasão

Não continuemos a questionar sobre isto. Mas, se algum auxílio queres dos meus haveres, para os filhos ou para a tua partida, fala, que eu estou pronto a dar com mão liberal, e a mandar senhas aos amigos54 que, te hão de receber bem. E, se o não quisesses, é loucura, ó mulher – cessando a tua cólera, ganharás mais.

Medeia

Da hospitalidade dos teus amigos não carecerei; nem receberei coisa alguma, nem no-la dês; que a dádiva de um celerado não tem utilidade.

Jasão

Mas eu tomo os numes por testemunha de que quero fazer todo o bem, a ti e às crianças. A ti não te agrada o que é bom, mas por orgulho rejeitas os amigos; tanto mais há de doer-te.

Medeia

Corre. Tomar-te-á a saudade da donzela recém desposada, se te demoras fora de casa, longe da sua vista. Celebras as tuas núpcias; que ainda pode ser que, com o auxílio do deus, se diga que casarás de maneira a renegares o casamento.

(Sai Jasão.)

2.º Estásimo

Estrofe

O amor quando é forte55 nem renome nem virtude dá aos homens. Ai! mas Vênus, quando é branda, não há deusa mais graciosa! Contra mim, nunca, senhora, tu lances do arco doirado a seta inevitável ungida de paixão.

Antístrofe

Seja eu antes sensata, é dos deuses dom mais belo; nunca, ferida a minha alma pela ira adversa e discórdia insaciável, Vênus terrível me dê outro leito; antes honrando uma união tranquila, a distinga das outras.

Estrofe

Ó pátria, ó meu lar, nunca eu de vós seja privada, tendo na frente uma vida impossível de viver, misérrima em seus males. A morte, a morte me vença antes de chegar esse dia. Dentre as penas maior não há que ser da pátria arrancado.

Antístrofe

Nós vimos, não soubemos por outros o que nós pensamos. Nem cidade nem amigo do teu mal se condoeu, que é dos males o pior. Possa como ingrato perecer quem não honra os amigos, depois de dar da alma pura as chaves. Para mim não é amigo.

3.º Episódio

(Entra Egeu.)

Egeu

Medeia, salve: que não há prelúdio mais belo do que este, para nos dirigirmos a um amigo56.

Medeia

Salve tu também, ó filho do sábio Pandíon, Egeu57. Donde vens para o solo desta terra?

 

Egeu

De Febo deixei o oráculo vetusto58.

Medeia

E porque ao centro da terra59 fatídico chegaste?

Egeu

Buscando ter dos filhos a geração.

Medeia

Ó deuses! Sem filhos chegaste até aqui?

Egeu

Sem filhos somos, pelo fado de algum deus.

Medeia

Tendo mulher, ou sendo estranho ao tálamo?

Egeu

Não somos livres do leito nupcial.

Medeia

E que te disse Febo sobre filhos?

Egeu

Palavras demasiado sábias para um homem entender.

Egeu

Claro, tanto mais que ele pede um espírito sutil.

Medeia

Que oráculo deu então? Diz, se é lícito ouvir.

Egeu

Que do ventre eu não solte a parte proeminente…

 

Medeia

Antes de fazer o quê ou de chegar a que terras?

Egeu

Antes de voltar a entrar no lar paterno

Medeia

E com que necessidade navegaste para esta terra60?

Egeu

Há um homem chamado Piteu, senhor da terra de Trezeno…

Medeia

Filho, ao que dizem, muito piedoso, de Pélops61.

Egeu

Com ele quero conversar sobre a ordem divina.

Medeia

Sábio é o varão e experimentado no assunto.

Egeu

E a mim o mais caro de todos os companheiros de armas.

Medeia

Que sejas bem sucedido e consigas o que desejas!

Egeu

Mas porque tens esse olhar e essa cor62?

Medeia

Egeu, de todos os maridos, o meu é o pior.

Egeu

Que dizes? Conta-me claramente as tuas aflições.

Medeia

Jasão me ultraja, sem que eu nada lhe tivesse feito.

Egeu

E que fez ele? Explica-me com mais clareza.

Medeia

Uma mulher está agora acima de nós, como senhora da casa.

Egeu

Mas ele não ousou cometer esse feito vergonhoso?

Medeia

Pois fica a saber que sim; desonrada está quem dantes era sua amiga.

Egeu

Mas ele apaixonou-se ou aborreceu o seu leito?

Medeia

Uma grande paixão – e não é fiel aos amigos.

Egeu

Deixá-lo ir, se é um malvado, como dizes!

Medeia

O seu desejo foi apoderar-se da glória de mandar.

Egeu

E há alguém que lha dê? Completa a tua história.

Medeia

Creonte, que é quem manda nesta terra de Corinto.

Egeu

Compreensível era, ó mulher, a tua aflição.

Medeia

Estou perdida. E além disso sou expulsa do país.

Egeu

Por quem? Estás a falar de outros males ainda.

Medeia

Creonte me expulsa, exilando-me da terra de Corinto.

Egeu

E Jasão consente? Também não o louvarei.

Medeia

não o diz com palavras; porém, a sua vontade é consentir. Mas imploro-te pelas tuas barbas e pelos teus joelhos, como tua suplicante, compadece-te de mim que sou uma desgraçada, e não olhes com indiferença a minha queda e o meu abandono, mas recebe-me no teu lar, no teu país, na tua casa. Assim o desejo de ter filhos seja atendido pelos deuses e tu morras feliz! Tu não sabes achado fizeste. Farei com que deixes de ser um homem sem descendência e far-te-ei gerar filhos. Eu conheço esses remédios.

Egeu

Por muitos motivos estou pronto a conceder-te essa graça, ó mulher, primeiro por respeito aos deuses, depois pelos filhos cuja procriação anuncias. Que eu para isso já de todo estou sem forças. mas será assim: vindo tu ao meu país, tentarei dar-te hospitalidade, segundo a justiça. Aqui tens, contudo, mulher, os avisos que te dou: eu desta terra não quero levar-te, mas tu é que, se fores por tua vontade para minha casa, ficarás livre de ofensas, e não tenhas medo que a alguém te abandone. Por ti mesma sairás desta terra; pois até para os que me deram a hospitalidade quero ser ileso de culpas63.

Medeia

Seja assim. Mas se eu tivesse disso a fé, em tudo estaria de bem contigo.

Egeu

Acaso não confias em mim? Ou que dificuldades existe?

Medeia

Confio. Mas inimiga é para mim a casa de Pélias64, e Creonte.

Ligado por estes juramentos, ainda quando quiserem levar-me à força da tua terra, não me abandonarias. Ao passo que, sendo o nosso acordo sé em palavras, e sem juramento à face dos deuses, tornar-te-ias num amigo, que logo obedeceria às proclamações do arauto65. Débil é o meu estado; para eles há felicidade e uma casa reinante.

 

Egeu

Grande prudência mostram as tuas palavras. Mas, se assim te parece, não me negarei a fazê-lo. Para mim é mais seguro mostrar aos inimigos que tenho um pretexto, e a tua situação ficará mais firme. Nomeia tu primeiro os deuses.

Medeia

Jura pelo solo da Terra e pelo Sol66, pai do meu pai, e associando dos deuses toda a raça.

Egeu

E o que é preciso fazer ou não fazer? Diz.

Medeia

Que jamais me expulsarás do teu país, espontaneamente, nem me abandonarás com vida, por tua livre vontade, se algum dos meus inimigos desejar levar-me.

Egeu

Juro pela Terra e pela luz brilhante do Sol e por todos os deuses manter-me fiel ao que de ti ouvi.

Medeia

Basta. E se não mantiveres o juramento, que terás de sofrer?

Egeu

A sorte dos ímpios.

Medeia

Podes ir-te em paz. Está tudo bem. Eu chegarei à tua cidade, o mais depressa que puder, depois de ter feito o que pretendo e de ter conseguido o que quero!

(Sai Egeu.)

Coro

Possa o filho de Maia67, o deus que guia as gentes, a casa levar-te, e assim se cumpram os teus desejos, ó Egeu, tu, que homem tão nobre nos pareces.

Medeia

Ó Zeus, ó Justiça, filha de Zeus, e luz do Sol68, vitoriosos estamos agora, ó amigas, sobre os nossos inimigos, e entramos já no caminho. Agora há esperança de fazer justiça sobre os nossos inimigos. Porque este homem, quando penávamos na maior aflição, apareceu como um porto de abrigo das minhas decisões. A eles prenderemos as amarras da popa69, dirigindo-nos para a fortaleza e cidade de Palas70. Os meus planos, já tos vou dizer todos. Mas não recebas as minhas palavras a título de deleite.

A Jasão alguém mandarei, dentre os meus servidores, pedindo-lhe que compareça à minha presença. E, quando ele chegar, dir-lhe-ei palavras brandas, de como também eu sou desse parecer, que estão bem as núpcias reais, que traindo-me, ele celebra, e que belo é o partido e bem calculado. Pedirei que os meus filhos fiquem , não para os deixar em terra hostil, a fim de serem mal tratados pelos inimigos, mas para tratar ardilosamente a filha do rei. Mandá-los-ei então com presentes nas mãos71, um peplos sutil e uma coroa de ouro lavrado. E quando ela pegar nesses enfeites e os cingir ao seu corpo, terá uma morte horrorosa, assim como todo aquele que tocar na donzela. Tais serão os venenos com que eu hei de ungir os presentes. Mas neste ponto eu suspendo as minhas palavras. Gemo ao pensar na ação que em seguida tenho de praticar. Porque eu vou matar os meus filhos. Não há quem os possa livrar. E, depois de ter derrubado toda a casa de Jasão, saio do país, fugindo do assassínio dos meus filhos adorados, eu, que ousei a mais ímpia das ações. É que não se pode tolerar que os inimigos escarneçam de nós, ó amigas.

Vamos. De que me vale viver? não tenho pátria, não tenho casa, não tenho refúgio para esta calamidade. Errei uma vez, quando abandonei a casa paterna, confiada nas palavras de um grego, que, com a ajuda do deus, sofrerá a nossa justiça. Porque não tornará a ver com vida, daqui por diante, os filhos que de mim teve, nem gerará nenhum da noiva recém casada, porque será forçoso que essa má tenha má sorte com os meus venenos. Ninguém me suponha fraca ou débil, nem sossegada; outro é o meu caráter: dura para os inimigos, benévola para os amigos. Porque de tais pessoas a vida é gloriosíssima72.

Coro

Já que tais desígnios nos comunicaste, nós, no desejo de te ajudar, e de acordo com as leis dos mortais, não te aconselhamos a que cometas essa ação.

Medeia

Não pode ser de outra maneira. Tu tens desculpa de assim falar, tu que não sofreste, como eu, duramente.

Coro

Mas tu hás de atrever-te a matar a tua descendência, ó mulher?

Medeia

Nada morderá mais rijo no coração de meu marido.

Coro

E tu virás a ser, por certo, a mais desventurada das mulheres.

Medeia

Vamos. Supérfluos são todos os argumentos que se meterem de permeio.

(Para uma aia.)

Mas, anda73, corre a trazer Jasão, já que de ti nos servimos para todas a missões de confiança. Nada digas das minhas decisões, se na verdade queres bem aos teus amos e és mulher.

3.º Estásimo

Estrofe

Coro

Felizes são de há muito os Erectidas74, filhos dos deuses bem-aventurados, os da sagrada terra inviolada, que da mais ilustre ciência75 se nutrem, e pelo ar do mais belo fulgor movem seu passo leve, onde uma vez as Musas puras, as nove Piérides, criaram – é fama – a loura Harmonia76.

Antístrofe

E dizem que Cípria77 ao pé do Cefiso78 das belas águas que ela faz brotar, largou sobre o país as brisas suaves dos ventos moderados79; de róseas flores as comas com grinaldas odoríferas enfeitadas, como é do seu costume, à Ciência mandou, para a acompanharem, os Eros que da Arte80 são estímulo.

Estrofe

Mas dos rios sagrados a cidade, ou de amigos a terra hospitaleira, como há de receber a mãe que mata os filhos, ímpia entre os demais? Olha o golpe nos filhos, olha o crime que fazes! Nós te suplicamos e te imploramos: Não mates os teus filhos!

Antístrofe

Onde a coragem na alma e na mão terás, dos filhos contra o coração, com audácia tremenda? Como, volvendo os olhos, a teus filhos, sem lágrimas, darás sorte fatal? Quando eles caírem, súplices, não poderás tingir mão homicida com ânimo constante.

 

4.º Episódio

(Entra Jasão.)

Jasão

Ao tenho chamamento venho. Apesar da tua hostilidade, não deixarás certamente de ser servida. Mas quero ouvir o que pretendes de novo da minha parte, ó mulher.

Medeia

Rogo-te, Jasão, que perdoes as minhas palavras. É natural que suportes as minhas iras, dadas as muitas provas de amor que trocamos. Eu entrei em discussão comigo mesma, a mim me censurei. Miserável, que insânia é esta, e que hostilidade para com quem me quer bem? E estou, como uma inimiga, contra os soberanos do país e contra o marido, que fez o que havia de mais conveniente para nós, desposando uma rainha e gerando irmãos para meus filhos? não hei de eu libertar-me desta ira? Que me pode acontecer se os deuses dão providências desta maneira? não tenho eu os filhos e não sei que temos que abandonar esta terra e que são escassos os amigos? Nisto refletindo, compreendi que fora estulta e em vão me enfurecera. Agora eu louvo-te e pareces-me sensato em nos arranjar este parentesco, e eu insensata, eu que devia tomar parte nestas decisões e ajudar a levá-las a bom termo, e estar ao lado do teu tálamo e regozijar-me por prestar à noiva e a ti os meus cuidados. Mas nós somos, não direis más, mas mulheres; mas não deves igualar-te na maldade, nem a uma loucura responder com outra. Pedimos-te este favor e admitimos que erramos há pouco, mas agora pensávamos melhor.

(Medeia vai à porta da casa chamar os filhos.)

Ó filhos, filhos, vinde cá, deixai a nossa casa.

(Os filhos entram.)

Saí, vinde beijar o vosso pai e dizer-lhe adeus comigo e, ao mesmo tempo, abandonai a antiga aversão contra os inimigos, tal como a vossa mãe. Porque tréguas já fizemos e a ira aplacamos. Tomai-lhe a mão direita. Ai de mim, como eu penso nos males dissimulados! Ó filhos meus, ainda por muito tempo podereis assim estender os braços caros? Desgraçada de mim, como estou propensa às lágrimas e a cheia de temor! Agora, enfim, que erradiquei a inimizade ao pai, esta cena de ternura encheu-me os olhos de lágrimas.

Coro

Também a mim aos olhos vem um pranto vivo. Oxalá o mal não avance mais do que agora.

Jasão

Isso louvo, ó mulher, e aquilo não censuro. Porque é natural que o sexo feminino se enfureça contra os maridos, quando eles contraem núpcias estranhas. Mas o teu ânimo mudou para melhor e, embora só com o tempo, reconheceste a decisão que prevaleceu. Esse procedimento é de uma mulher sensata. Para vós, ó filhos, conseguiu vosso pai, não sem cuidados e com o auxílio dos deuses, perfeita segurança. Penso, na verdade, que haveis de ser ainda, com vossos irmãos, os primeiros nesta terra de Corinto. Crescei, que o resto vos arranjará vosso pai e quem dos deuses vos for propício. Possa eu ver-vos chegar florescentes ao termo da juventude, superiores aos meus inimigos!

Mas tu, porque de lágrimas abundantes banhas teus olhos, volvendo para o lado o branco rosto81, e sem prazer recebes as minhas palavras?

Medeia

Não é nada. Pensava nestas crianças.

Jasão

Está descansada. Eu velarei por elas.

Medeia

Assim farei. Nem eu desconfiarei da tua palavra. Frágil é a mulher e nascida para as lágrimas.

Jasão

Mas por que tanto gemes por estes filhos?

Medeia

Eu lhes dei o ser. E, quando tu fazias votos para que os pequenos vivessem, invadiu-me um sentimento de piedade, se assim viria a acontecer…

Quanto aos motivos que te trouxeram a falar comigo, uns já foram ditos, dos outros vou fazer menção. Já que aos soberanos parece conveniente mandar-me embora do país e que é melhor para mim – reconheço-o bem – que eu não habite demasiado perto de ti e dos senhores desta terra, pois que me consideram maléfica para a casa deles, nós nos retiraremos destes lugares; mas as crianças, pede a Creonte que sejam educadas por tuas mãos e que não sejam daqui exiladas.

Jasão

Não sei se o convencerei; é preciso tentar.

Medeia

Mas, ao menos, manda a tua esposa pedir ao pai que as crianças não saiam do país.

Jasão

Sim, imagino que, a ela, sempre a poderei convencer.

Medeia

Com certeza, se ela é uma mulher como as outras. Mas também nessa diligência eu te ajudarei. Vou-lhe mandar uns presentes, que em beleza excederão em muito o que se usa, creio eu82, e que serão levados pelas crianças.

(Chamando para dentro de casa.)

É preciso que um dos criados traga aqui o adereço a toda a pressa83. E ela será feliz não uma, mas mil vezes, por lhe ter cabido em sorte por companheiro um homem excelente, como tu, e por possuir um adereço que outrora o pai do meu pai, o Sol, deu aos seus descendentes.

(Um servo traz o adereço e retira-se.)

Tomai estes dons nupciais em vossas mãos, ó filhos, levai-os para os dardes à feliz noiva real, que não receberá dádiva desprezível.

Jasão

Insensata! Para que deixas tuas mãos vazias desses bens? Julgas que o palácio real é escasso em peplos, escasso em ouro? Guarda essas coisas; não as dês. Se, na verdade, alguma consideração tem por nós a esposa, colocar-nos-á acima dos dons, eu bem o sei.

 

Medeia

Não me digas isso. Há um provérbio que diz que os presentes até aos deuses convencem. O ouro é para os mortais mais potente do que mil argumentos. Dela é o gênio protetor, é ela que o deus dá agora a prosperidade, é jovem e é soberana. E o exílio dos meus filhos, por ele eu dava a vida, que não ouro apenas. Ó filhos, entrai os dois no rico palácio e suplicai à nova esposa de vosso pai, e minha senhora, implorai-lhe que não vos expulse desta terra, e dai-lhe o adereço, porque o mais necessário é que estes dons sejam recebidos pelas próprias mãos dela. Ide o mais depressa que puderdes. Sede bem recebidos, para serdes para a vossa mãe os arautos da boa nova, que ela anseia por que aconteça.

(Saem Jasão e os filhos.)

4.º Estásimo

Estrofe

Coro

Não mais tenho, não mais esperança que vivam as crianças: para a morte já caminham. Dos adereços de ouro a noiva mal o recebe. Oh! Recebe! E na loira cabeça com as próprias mãos o enfeite mortal colocará.

Antístrofe

A beleza esplendente e a graça divina lhe farão por o peplos e a coroa dourada; sob a terra em breve noivará. Desgraçada, tal a rede fatal, onde ela há de cair. E não pode fugir a tal desgraça.

Estrofe

E tu, ó desgraçado, mal casado, genro do soberano, sem saberes, morte funesta, horrível, aos filhos, à mulher, a ti preparas. Ilusão, infeliz, é teu destino.

Antístrofe

Contigo gemo ainda a tua dor, mãe desgraçada de filhos, que matas, por causa de um noivado, que celebra teu marido, vivendo com uma companheira, contra a lei.

Êxodo

(Entra o Pedagogo com as crianças.)

Pedagogo

Senhora, teus filhos escaparam ao exílio e a noiva real com prazer recebeu os presentes em suas mãos; daquele lado haverá paz para as crianças. Mas então? Como estás perturbada, quando tudo corre bem?

Medeia

Ai! Ai!

Pedagogo

Os lamentos não estão de acordo com tão boas notícias.

Medeia

Ai! Ai! Digo eu ainda.

Pedagogo

Acaso anunciei uma desgraça sem saber, e me enganei, julgando trazer boas novas?

Medeia

O dito está dito; não te censuro.

Pedagogo

Fortes razões eu tenho, ó ancião; porquanto os deuses e eu pensamos mal; quando planejei este ato84.

 

Pedagogo

Tem confiança; ainda um dia hás de partir para junto de teus filhos.

Medeia

Antes disso, outros farei partir85, coitada de mim!

Pedagogo

não és só tu que te separas dos filhos. E quem é mortal tem de suportar melhor a desgraça.

Medeia

Assim farei. Mas tu vai dentro de casa e prepara aquilo de que as crianças necessitam todos os dias86.

(O Pedagogo retira-se.)

Ó filhos, filhos, vós tendes país e tendes morada, na qual, depois de terdes abandonado esta desgraçada, habitareis, para sempre privados da vossa mãe. Eu tenho de partir para o exílio, para outra terra, antes de ter gozado a vossa companhia e de vos ter visto felizes, antes de ter adornado o leito, e a noiva, e o tálamo, e de ter pegado nos fachos nupciais87.

Oh! Desventurada que eu sou, por ser tão indomável! Não era para isto que eu vos tinha criado, ó filhos, não foi para isto que eu sofri trabalhos e passei torturas, suportando as dores agudas de dar à luz.

Coitada de mim, que em tempos tive tanta esperança em vós, que havíeis de amparar-me na velhice, e que, depois de morta, me havíeis de arranjar por vossas mãos, piedosamente, causando inveja aos homens; e agora se foi o doce pensamento. Porque, privada de vós, eu levarei uma vida amarga, e para mim dolorosa. E vós nem sequer ao menos vereis a vossa mãe com esses queridos olhos, porque tereis passado a outro gênero de vida88.

Ai! Ai! Porque fitais em mim os olhos, ó filhos? Porque sorrides pela última vez? Ai! Ai! Que hei de eu fazer? O ânimo fugiu-me, mulheres, desde que vi o olhar límpido dos meus filhos. não, eu não seria capaz. Deixá-las ir, as minhas decisões anteriores. Levarei desta terra os filhos, que são meus. Para que hei de eu, para afligir o pai deles com a sua desgraça, infligir a mim duas vezes os mesmos males? Não, eu não, por certo. Deixá-las ir, as minhas decisões.

E contudo, que se passa em mim? Quero provocar o escárnio dos meus inimigos, deixando-os de castigo? Tenho de me atrever. Ah! Mas que vileza a minha, ter sequer admitido pensamentos de brandura no meu espírito! Ide, ó filhos, para casa89. A quem não agradar assistir aos meus sacrifícios, é consigo. O meu braço não estará enfraquecido. Ai! Ai!

Mas não, meu coração, tu, ao menos, não farás isso. Deixa-os, ó desgraçada, poupa as crianças. Vivendo lá conosco, eles serão a tua alegria.

Juro pelos gênios da vingança, que estão no Hades90, nunca acontecerá que eu entregue os meus filhos aos inimigos para lhes sofrerem as insolências91. É assim, absolutamente, e não há que fugir-lhe. E é certo que com a coroa na cabeça, envolta no peplos, a noiva perecerá, eu bem o sei. Mas eu sigo pelo caminho mais desgraçado, e a estes vou mandá-los por um ainda pior! Quero dizer adeus aos meus filhos. Deixai-me, ó filhos, deixai à vossa mãe apertar a vossa mão direita.

Ó mão tão querida, ó boca mais cara de todas, e figura e rosto nobre dos meus filhos, gozai de felicidade, mas lá; que a daqui vosso pai vo-la tirou. Ó doce abraço, ó terno corpo e sopro suavíssimo dos meus filhos!

Ide, ide.

(Os filhos retiram-se.)

Já não estou em estado de olhar mais para nós, que sou dominada pelo mal. E compreendo bem o crime que vou perpetrar mas, mais potente do que a minha vontade, é a paixão, que é a causa dos maiores males para os mortais.

Coro

Muitas vezes já, tenho usado de razões mais sutis e entrado em disputas mais altas do que é dado ao sexo das mulheres. Mas também para nós há uma Musa, conosco anda para nos ensinar. Mas não com todas. Talvez entre muitas, poder-se-á alguma encontrar, não estranha às Musas.

Dentre os mortais, quem filhos nunca teve nem experimentou, digo eu que está no melhor caminho da felicidade, mais que quem os teve. Quem não tem filhos nem experimentou, seja isso um bem, seja isso um mal para os mortais – não tendo descendência, muita dor evitam. Mas aqueles para quem dos filhos em casa existe o doce rebento, eu vejo o tempo em tormento passar. Como criá-los da melhor maneira, depois, da vida deixar-lhes os meios. Depois, se para o bem, se para o mal os criam, e para isso se esforçam, até isso é incerto. De todos os males, guardei para agora um só que é pior para todos os homens. Na vida acharam bem-estar bastante, à flor da juventude eles já chegaram, e nobres são; mas a sorte o decide, os tira do caminho e a morte lhes leva dos filhos para o Hades os corpos belos. Para que serve então aos homens os deuses, além dos outros males, um desgosto mais forte que todos, por causa de ter filhos, lhe acrescentem?

Medeia

Amigas, há muito que eu aguardo os acontecimentos, com ânimo atento ao que há de vir de acolá. Mas eis que vejo um dos criados de Jasão aproximar-se. A sua respiração arquejante indica que vai anunciar uma nova desgraça.

(Entra o Mensageiro.)

Mensageiro

Ó tu, que cometeste uma ação terrível e fora da lei, ó Medeia, foge, foge, não desprezes navio que te leve ou carro que ande sobre o solo!

Medeia

Que acontece que exija a minha fuga?

Mensageiro

Morreu há pouco a princesa e Creonte, que a gerou, por causa dos teus venenos.

Medeia

Disseste as palavras mais belas e entre os benfeitores e amigos meus para sempre te contarei.

Mensageiro

Que dizes? Estarás no teu juízo, ou estarás louca, ó mulher, tu que, depois de arruinar a casa dos soberanos, te comprazes em ouvi-lo e não te atemorizas?

Medeia

Também tenho algo para responder às tuas palavras. Mas não tenho pressa, amigo, conta. Como morreram? Porque nos deleitarás duplamente, se eles morreram na maior aflição.

Mensageiro

Depois que os teus dois filhos chegaram com seu pai e entraram nos aposentos nupciais, regozijamo-nos , nós, escravos, que com teus males nos havíamos afligido. Logo se murmurava com insistência que tu e teu marido vos tínheis reconciliado da vossa prévia dissensão. Beija um a mão, outro a loira cabeça das crianças. Eu mesmo, era tal o prazer, que segui com elas para os aposentos das mulheres.

A senhora que agora nós veneramos na tua vez, antes de fitar os teus dois filhos, tinha o olhar ardente preso em Jasão. Depois, cobriu os olhos e voltou para o lado a face branca, tocada pela aversão que lhe causara o ingresso das crianças. Porém o teu marido dissipa as iras e a fúria da donzela, dizendo-lhe assim: – Não sejas hostil a quem me é caro, aplaca a tua ira, torna a volver o rosto, e tem por amigos aqueles que o são para o teu esposo; recebe estes presentes e roga a teu pai que perdoe o exílio a estas crianças, por amor de mim.

E ela, ao ver o adereço, não resistiu, e deu ao marido o seu consentimento para tudo. E, mal se tinham afastado de casa o pai e os filhos, pegou no peplos matizado e vestiu-o e, colocando a áurea coroa sobre os anéis do cabelo, compõe o penteado a um espelho brilhante, sorrindo à imagem inanimada do seu corpo. E depois, levantando-se do trono, passeia pela casa, caminhando leve, com seus alvos pés, muito feliz com as dádivas e, muitas e muitas vezes, retesando a perna, olhava para trás, a ver se caía bem.

Então um espetáculo terrível se pôde ver: a cor se lhe muda, e avança cambaleante, os membros trementes, e a custo consegue deixar-se cair sobre o trono, antes de tombar por terra.

Uma das criadas antigas, crendo que vinham aí as iras de Pan92 ou de algum dos deuses, soltou um grito, antes mesmo de ver pela boca golfar alva espuma, as meninas dos olhos reviradas e o corpo exangue. Então um grande lamento em contrário respondeu àquele grito. Logo uma se precipitou para a casa do pai, outra para o esposo de há pouco, a contar a fatalidade da noiva. E toda a casa ressoava com o ruído das correrias apressadas.

Já então um corredor veloz, movendo-se num dos lados de uma liça de seis pletros, teria tocado na meta93. E ela, no meio do seu silêncio e de olhos semicerrados, despertou, pobre donzela, com um gemido. Uma dupla aflição a atacava: o diadema de ouro, colocado na cabeça, a largar uma torrente mágica de fogo omnívoro, e o peplos, e o peplos sutil, dádiva dos teus filhos, lacerava as brancas carnes da desventurada.

Do trono se ergue, em chamas, agitando o cabelo e a cabeça em toas as direções, querendo arrancar a coroa. Mas, solidamente, o ouro retinha a sua pressa, e o fogo, depois de ela sacudir a cabeça, brilhava com outro tanto fulgor. Cai no solo, vencida pela desgraça, perfeitamente irreconhecível, exceto a quem a gerara. Pois já bem dos olhos era visível a bela forma, nem a nobreza do seu rosto, mas sangue à mistura com fogo lhe gotejava do alto da cabeça, e dos ossos as carnes lhe escorriam, tal a lágrima que cai do pinheiro, consumidas pelas fauces ocultas dos venenos – um espetáculo pavoroso! Todos tinham medo de tocar no cadáver. A sorte fora a nossa mestra.

Mas eis que o infeliz pai, da desgraça ignaro, entra de súbito em casa e cai sobre o cadáver. Logo um grito soltou, e cingindo-a com os braços, beija-a, exclamando: – Ó desventurada filha, quem dos deuses te perdeu desta forma ignominiosa? Quem priva de ti este velho, ao pé da sepultura? Ai de mim! Possa eu, ó filha, contigo sucumbir!

Depois que cessou gemidos e lamentações, querendo erguer o velho corpo, ficava aderente ao peplos sutil, como a hera aos ramos do loureiro, e era uma luta temerosa. Ele tentava levantar o joelho, e ela retinha-o. E cada vez qie fizesse força, separava dos ossos as suas velhas carnes. Por fim, desistiu e exalou, o infeliz, o seu espírito, pois já não era superior ao mal. Jazem os cadáveres ao pé um do outro, o da filha e o do velho pai, uma desgraça que clama pelas lágrimas.

E, para mim, o teu caso está fora de discussão. Tu mesma descobrirás a maneira de te subtraíres ao castigo. As coisas dos mortais, não é agora a primeira vez que as tenho por uma sombra, nem sinto temor de dizer que aqueles dentre os homens que têm fama de sábios e de artificiosos nos seus discursos, esses mesmos merecem o maior dos castigos. Dos mortais, não há um só homem que seja feliz. Pode, se sobrevier a prosperidade, ser um mais bem sucedido do que o outro, mas, feliz, não é nenhum94.

(Sai o Mensageiro.)

Coro

Parece que muitos foram os males que com justiça o nume infligiu a Jasão neste dia95.

Medeia

Amigas, decidida está a minha ação: matar os filhos o mais depressa que puder e evadir-me desta terra, não vá acontecer que, ficando eu ociosa, abandone as crianças, para serem mortas com mão mais hostil. É absoluta a necessidade de as matar, e, já que é forçoso, matá-las-emos nós, nós que as geramos. Mas vamos, arma-te, coração. Por que hesitamos e não executamos os males terríveis, mas necessários? Anda, ó minha desventurada mão, empunha a espada, empunha-a, move-te para a meta96 dolorosa da vida, não te deixes dominar pela cobardia, nem pela lembrança dos teus filhos, de como eles te são caros, de como os geraste. Mas por este breve dia, ao menos, olvida, que depois os chorarás. Porque, mesmo matando-os, eles te são sempre caros e eu – que desgraçada mulher que eu sou97!

(Medeia entra em casa.)

Coro

Estrofe

Ó terra, ó raios do Sol coruscantes98, vede, oh! vede esta mulher perdida, antes que com mão suicida99 ela ataque os próprios filhos. Da tua dourada estirpe ela procede; e os mortais temem derramar o sangue de um deus. Detém-te tu, ó luz, filha de Zeus! Desta casa arranca o crime infeliz e a vingança da Erínia100!

Antístrofe

Em vão o trabalho dos filhos, em vão a descendência cara tu geraste. Tu, que sem medo passaste das Simplégades o estreito com as suas rochas negras. Por quê, desgraçada, a ira pesada na alma te cai e o crime hostil vem? Mancha que não se redime em casas genocidas, onde cai dos deuses a maldição.

Filhos (dentro.)

Ai de mim!

Coro

Estrofe

Ouves este grito? Ouves as crianças? Ai que desgraçada, Mulher de má sorte!

Filhos

Ai, que farei? Para onde fugir à mãe?

Não sei, querido irmão, perdidos estamos.

Coro

Entramos? Salvemos do crime estas crianças.

Filhos

Sim, pelos deuses, salvai-nos, precisamos. Como a ponta da espada já está perto!

Coro

Desgraçada, eras de pedra ou de ferro, tu que os filhos, esses frutos que geraras, com a própria mão mataste!

Antístrofe

Uma só mulher uma só até agora ouvi, que para os filhos levantaste a mão. Foi Ino101 que os deuses enlouqueceram, quando Hera102 de casa a quis expulsar. No mar cai a pobre, pelo ímpio crime dos próprios filhos, estendendo o pé para além da margem, morre, consigo os dois filhos levando. Que horror pode vir ainda? Ó tálamo feminil, causa de tantos trabalhos, que mal tens feito aos mortais!

(Entra Jasão.)

Jasão

Mulheres, que estai junto destes tetos, por ventura ainda se encontra nesta casa a autora de tantos horrores, Medeia, ou conseguiu ela fugir? Pois força é que ela se oculte debaixo da terra ou que asas lhe levantem o corpo para o ar profundo, se não quer pagar a pena à casa real. Estará ela convencida de que, lhe será dado fugir incólume desta casa? Mas não venho tanto por cuidado nela, como nas crianças. Aquela que fez mal, o pagará com a desgraça. Eu vim para salvar a vida dos meus filhos, não vão os parentes fazer-lhes alguma coisa para vingar o ímpio crime materno.

Coro

Ó desgraçado, que não sabes a que ponto chegaram teus males, Jasão! Se não, não proferirias tais palavras.

Jasão

Que é? Acaso também quer matar-me, a mim?

Coro

Teus filhos estão mortos pela mão de sua mãe.

Jasão

Ai de mim, que dizes? Como tu me deitaste a perder, mulher!

Coro

Pensa em teus filhos, como seres que já não existem.

Jasão

Onde os matou então? Dentro ou fora de casa?

Coro

Abre essas portas, verás os teus filhos assassinados.

Jasão

Correi já as fechaduras103, ó servos, soltai estas trancas, para eu ver a dupla desgraça, os que morreram… e aquela a quem eu farei pagar as culpas.

(Medeia aparece em plano mais elevado, no carro do Sol, com os cadáveres dos filhos.)

Medeia

Para que abalas e tentas destrancar essas portas104, procurando os cadáveres e a mim, autora dessa obra? Cessa esse trabalho. Se precisas de mim, fala, se quiseres, que com a mão nunca me tocarás. O Sol, pai de meu pai, me deu este carro como meio de defesa contra mão inimigas.

Jasão

Ó abominada, ó mais que todas odiosa mulher, para os deuses e para mim e para toda a raça humana, tu que quiseste enterrar a espada nos filhos que geraras, e me deitaste a perder, deixando-me sem descendência! E depois de fazer isto, ainda contemplas a luz do sol e a terra, tendo executado a mais ímpia das ações?

Pudesses tu perecer! Vejo agora o que estão não via, quando de uma casa e de um país bárbaro te trouxe para um lar helênico a ti, grande flagelo, que atraiçoaste o pai e a terra, que te criara105. O teu gênio da vingança, os deuses o assestaram contra mim106. Depois de teres matado o teu irmão junto do próprio lar, embarcaste na nau de Argos, de bela proa.

Tais foram os teus princípios. Casando com este homem, e gerando-me filhos, às núpcias, ao leito os imolaste. não há mulher alguma na Grécia que queira jamais fazer tal, essas às quais eu te dei preferência como esposa, contraindo uma aliança odiosa e funesta, para mim, tu, que és leoa, não mulher, dotada duma natureza mais selvagem do que a Cila Tirrênica107.

Mas a ti nem mil impropérios seria capazes de morder. Tal é o impudor inato que possuis. Desaparece, desavergonhada assassina de teus filhos. A mim cabe-me em sorte lamentar-me, a mim, que nem gozarei de novo leito nupcial, nem me é dado dizer adeus ainda em vida aos filhos que gerei e criei, pois que os perdi.

Medeia

Podia alongar-me muito a refutar os teus argumentos, se o pai Zeus não soubesse o que de mim sofreste, o que de mim ganhaste. Tu não havias de gozar uma doce vida, depois de teres desprezado o meu tálamo, escarnecendo de mim. Nem a soberana, nem o que te propôs o casamento, Creonte, de expulsar-me incólume desta terra. Depois disto, chama-se leoa, se quiseres, chama-me Cila, a que habita o rochedo tirrênico, que o teu coração, eu atingi como cumpria.

 

Jasão

Mas também sofres esta tortura e participas da desgraça.

Medeia

Sabe-o bem. A dor se esvai, desde que não podes rir-te de mim.

Jasão

Ó filhos, que mãe perversa vos coube em sorte!

Medeia

Ó filhos, como a loucura paterna vos perdeu!

Jasão

Não foi contudo a minha destra que os imolou.

Medeia

Mas a tua insolência e as tuas novas núpcias.

Jasão

E por causa do tálamo entendeste dar-lhes a morte?

Medeia

Crês que isso é pequena calamidade para uma mulher?

Jasão

Se for sensata; mas para ti é tudo perverso.

Medeia

Eles já não existem. É o que há de te pungir.

Jasão

Eles existem, ai de mim, como gênios da vingança sobre a tua cabeça.

Medeia

Sabem os deuses quem deu início às calamidades.

Jasão

Sabem sem dúvida como a tua mente é execranda.

Medeia

Odeia-me. Também eu detesto o azedume da tua voz.

Jasão

E eu o da tua. Mas é fácil a separação.

Medeia

Como assim? Que tenho a fazer? Também eu a desejo ardentemente.

Jasão

Que me concedas dar sepultura a estes cadáveres e chorá-los.

Medeia

Isso não, que eu mesma com minhas mãos lhes darei sepultura, levando-os para o templo da deusa Hera Acraia108, para que nenhum inimigo os profane, revolvendo os túmulos. E nesta terra de Sísifo109 instituiremos uma festa e ritos sagrados para sempre, em compensação deste crime ímpio. Quanto a mim, vou para a terra de Erecteu110, habitar com Egeu, filho de Pandíon. E tu, como é natural, mau, de má sorte acabarás, ferido na cabeça por um fragmento da nau de Argos111, depois de ter visto das minhas núpcias o amargo fim.

Jasão

Dos filhos a Erínia e a Justiça, que vinga os crimes, te façam perecer.

Medeia

Quem te ouvirá, dos deuses ou demônios, a ti que és perjuro e falso aos hóspedes112?

Jasão

Ai, execranda assassina dos filhos!

Medeia

Vai para casa enterrar a tua esposa.

Jasão

Vou, mas privado de ambos os meus filhos.

 

Medeia

Não chores ainda; aguardes a velhice…

Jasão

Ó filhos tão queridos!

Medeia

À mãe, não a ti.

Jasão

Que depois mataste?

Medeia

Para te castigar.

Jasão

Ai de mim, que a boca querida dos filhos eu queria, desgraçado, agora beijar.

Medeia

Agora lhes falavas, e os beijavas, então expulsaste-os.

Jasão

Dá-me pelos deuses, que eu toque dos filhos no tenro corpo.

Medeia

Não pode ser; em vão gastas palavras.

Jasão

Ouvis isto, ó Zeus, como nos afastam, o que nós sofremos desta execranda infanticida, não mulher, mas leoa? Ah! Mas até onde é dado e eu posso, hei de lamentar-me, invocando os deuses. Os numes tomarei por testemunhas de como tu me impedes de tocar, de sepultar os filhos de mataste, os filhos que quem dera eu não gerasse e nunca os mortos por ti visse.

Coro

De muita coisa é Zeus no Olimpo o Senhor, e muita coisa os deuses fazem sem contar. Vimos o que se esperava não realizar, para o que não se sabia o deus achar caminho.

Assim vistes o drama terminar.

 

1 Argos era o nome da nau em que navegaram Jasão e os outros heróis (por isso chamados Argonautas) até à Cólquida,, onde, por ordem de Pélias, rei de Iolcos na Tessália, iam conquistar o velo de ouro.

2 Metáfora náutica para sugerir o erguer e baixar rítmico dos remos de um e de outro lado da embarcação.

3 As Simplégades eram rochas à entrada do Ponto Euxino (hoje Mar Negro). Segundo a lenda,, eram a principio móveis e embatiam uma contra a outra,, característica que transparece na etimologia do seu nome. Depois da passagem de Argos – o primeiro navio que conseguiu transpô-las (feito que já consta da Odisséia, XII. 69-70) – tornaram-se fixas.

4 Montanha na Tessália, onde a nau foi construída.

5 Medeia, filha de Eetes, rei da Cólquida, tendo-se apaixonado por Jasão,, ajudou-o, com as suas artes mágicas, a vencer a prova que seu pai lhe impusera para poder levar o velo de ouro – lavrar a terra com touros ignispirantes – e ainda a escapar ao dragão sempre vigilante que o guardava. Em seguida, fugiu com Jasão, depois de matar o irmão, Apsirto, e de espalhar os seus restos mortais, a fim de que o pai, ao colhê-los se atrasasse na perseguição que movia ao par fugitivo.

6 Chegada a Iolcos, Medeia convenceu as filhas do rei Pélias a cozerem o pai num caldeirão, com ervas mágicas, para que ele recuperasse a juventude. Por mais este crime, viu-se na necessidade de fugir para Corinto. Sobre aquele tema, compôs Eurípides a tragédia perdida As Pelíades.

7 Segundo o escoliasta Píndaro, Olímpicas, XIII. 74, Medeia pôs termo à fome que lavrava em Corinto.

8 Eurípides não dá nome à princesa de Corinto,, embora já o argumento antigo da peça lhe chama Glauce, apelativo que se conserva na tradição local como o de uma fonte da cidade a cujas águas ela se atirou,, em busca de antídoto para os venenos de Medeia (Pausânias, II. 3.6). A par desse nome os autores tardios designam-na também por Creúsa. O krater-de-volutas de Munique ao ilustrar este tema, chama-lhe Creonteia, o que significa igualmente “filha de Creonte”.

9 O juntar das mãos era parte do cerimonial da promessa de fidelidade.

10 Omitimos aqui os versos 38-43, que são em parte uma antecipação do desenrolar dos acontecimentos, feita com frases que ocorrem mais adiante no lugar próprio (assim, 40-41 = 379-380): “É que o seu espírito é perigoso, e não suportará o sofrimento. Conheço o seu caráter, e temo que enterre no coração uma espada afiada, entrando silenciosa no palácio, onde está armado o leito; ou que mate o rei e o esposo, e em seguida sofra alguma desgraça maior.”

11 O texto diz exatamente “pelo teu queixo”, modo de implorar em relação com a atitude clássica do suplicante: tocar com a direita na barba ou no queixo, e com a esquerda nos joelhos (cf. Ilíada 1500-501, e o quadro de Ingres, no Museu do Louvre, que ilustra esse passo).

12 É duvidoso se se tratava de um jogo de dados ou das damas, pois a dificuldade em distingui-los data já do texto de Homero (Odisséia, I. 107). O segundo, que tem larga representação em vasos gregos,, vinha já dos tempos micênicos, e inclinar-nos-íamos para ele sem reservas, se não fosse a nota do escoliasta a este passo, que o identifica com o primeiro.

13 A mais famosa fonte de Corinto, que, tal como a mencionada na nota 8, ainda hoje se conserva.

14 Já o escoliasta antigo notou que era supérfluo o v. 87, que omitimos: “uns justamente, outros por causa do lucro”. Do mesmo modo pensou Brunck, seguido por quase todos os editores modernos.

15 Alusão ao leito fúnebre.

16 Témis é a deusa da Justiça, qualificada logo adiante pela ama como “patrona dos votos” e como “guardiã dos juramentos”. A invocação seguinte, a Ártemis, é mais difícil de explicar, razão porque alguns comentadores têm proposto emendas ao texto. Torna-se clara, se admitirmos que já se deu o sincretismo com Hécate, deusa das artes mágicas, pela qual Medeia muito propriamente jura adiante.

17 Ver nota 9.

18 Primeira referência explícita ao assassinato de Apsirto.

19 Desde a Ilíada (III. 276-280 e XIX. 258-260) se afirmara a noção de que Zeus castiga os perjuros.

20 Uma alusão aos antigos aedos, que durante os banquetes entretinham os convivas com os seus cantos.

21 Em Hesíodo, Teogonia, 901-906, Témis é esposa de Zeus, mãe das Horas e das Parcas. Ésquilo, no Prometeu Acorrentado, 209-210, dá-a como mãe de Prometeu, identificando-a assim com a Terra. Confiada no juramento de que a deusa era guardiã, é que Medeia abandonara a Cólquida e viera para a Hélade.

22 Já em Ésquilo, Persas, 66-67, a Europa é dada como fronteira à Ásia. Aqui a oposição é mais vaga, pois se refere aos dois lados separados pelo Helesponto.

23 Ver notas 2 e 3.

24 Referência ao dote.

25 Segue-se um verso interpolado, que já Wilamowitz condenou: “ou voltando-se para u amigo, ou para um companheiro”.

26 Literalmente “colocar-me ao lado do escudo”. Os escudos dispunham-se em combate de maneira a formar uma linha contínua.

27 Segue-se um verso interpolado: “e o que lhe deu a filha que ele desposou”.

28 Uma das muitas metáforas náuticas da tragédia grega.

29 Este famoso passo, de 292 a 301, tem sido considerado como uma defesa do próprio poeta. Aliás, Eurípides, retomou várias vezes o tema dos inconvenientes da sophia.

30 O verso que se segue, 304, é interpolado: “para uns sou uma pessoa tranqüila, para outros ainda é outro o meu caráter”.

31 Literalmente: “suplico-te pelos teus joelhos e pela tua filha há pouco desposada”.

32 Literalmente: “o facho do deus” – perífrase para designar o Sol, dando maior solenidade ao decreto que Creonte está a proclamar.

33 O Grego exilado, pensava, em primeiro lugar, em recorrer àqueles a quem estava ligado pelo vínculo da hospitalidade. Efetivamente, quem acolhia alguém sob o seu teto, dando-lhe assim proteção tinha direito a esperar retribuição de favores, se um dia as posições se invertessem. Esta norma de etiqueta social, já bem definida nos Poemas Homricos, informa o ideal aristocrático de felicidade de Sólon: “Feliz o que tem filhos caros, cavalos monodáctilos, cães de caça, e um hóspede em terra alheia”. A salvação de Medeia virá, de fato, da hospitalidade que Egeu lhe prometerá, no terceiro episódio.

35 Alusão a uma atitude de suplicante.

36 O texto diz “no fígado”. Entre os gregos “coração” e “fígado” empregam-se indiferentemente para designar a sede da vida ou das emoções.

37 Medeia retoma e analisa as dúvidas do coro.

38 Insere-se aqui a motivação dramática da cena de Egeu – cena cuja relevância para a tragédia tem sido objeto de larga discussão.

39 O juramento por Hécate, deusa das artes mágicas, é especialmente apropriado a este monólogo, em que Medeia prepara o seu plano de vingança por meio de venenos.

40 Sísifo era o fundador da casa real de Corinto, à qual pertencia a noiva de Jasão.

41 O pai de Medeia, o rei Eetes, era filho de Hélios (o Sol.)

42 Partindo de uma expressão proverbial para sublinhar a alteração da ordem natural das coisas, o Coro significa o seu espanto perante a inversão de valores na ordem moral. Doravante, os homens, e não as mulheres, serão acusados de infidelidade.

43 As objurgatórias anti-feministas surgem em vários passos de Hesíodo e têm a sua expressão mais violenta na chamada “Sátira contra as Mulheres”, composta no século VI a.C. por Semónides de Amorgo.

O próprio Eurípides era acusado de misoginia pelas suas contemporâneas, como o prova a esfuziante paródia de Aristófanes na comédia As Mulheres que Celebram as Tesmofórias. É certo que muitas das peças conservadas (nomeadamente, Andrômaca, Hécuba,, Hipólito) abundam em tiradas anti-feministas; mas, por outro lado, a Medeia, embora inclua algumas (veja-se, por exemplo, o final do monólogo que termina o primeiro episódio), toma freqüentemente a defesa dos direitos da mulher, a ponto de os seus versos terem sido cantados, no século XIX pelas inglesas participantes no chamado movimento sufragista. Todos esses fatos servem para nos advertir do perigo de confundir a verdade dramática com a verdade do autor.

44 Já na Ilíada Febo Apolo era deus do canto e da música.

45 A literatura grega registra uma série de nomes que invalidam a afirmação destes versos, sobre a incapacidade poética da mulher. Porém, anteriormente a Eurípides, só duas alcançaram notoriedade, Safo e Corina (se é que esta última não é mais tardia). Compare-se com a restrição feita adiante.

46 Nova referência a travessia das Simplégades, mencionada no começo do drama.

47 A seguir a este verso, figura o 468: “para os deuses e para mim e para toda a raça humana” que os editores, a partir de Brunck, omitem, como sendo antecipação do verso 1324.

48 Jasão fora suplicante de Medeia, mas esta agora não recebia a paga da sua generosidade.

49 Metáfora tirada da cunhagem das moedas.

50 Depois de afirmar que Medeia se limitara a obedecer à sua paixão – simbolizada aqui por Cípria ou Afrodite – Jasão aponta como primeiro benefício o tê-la trazido para a Grécia. O tema da oposição entre os bárbaros e helenos, posto em voga pelo sofista Antifonte, era corrente na 2.ª metade do século V a.C., e quase um lugar comum nas tragédias de Eurípides. Geralmente, o contraste definia-se a favor da superioridade grega, atribuída ao conhecimento da justiça – como aqui. Note-se, no entanto, a ironia dramática resultante do fato de essas palavras serem postas na boca de Jasão.

51 Orfeu era um cantor mítico, que com a sua arte subjugava até a natureza. O fato de ele ter sido um dos membros da expedição dos Argonautas não é certamente o motivo desta referência, por trás da qual sentimos o ideal artístico do próprio.

52 Medeia faz um gesto de indignação, que Jasão acalma.

53 Tópico muito versado por Eurípides, principalmente na Hécuba, 1187-1194. Os perigos resultantes da ausência de ligação entre a eloqüência e a ética eram já apontadas pelos inimigos dos Sofistas, aos quais tal relação era indiferente.

54 O texto diz “aos hospedeiros”. Jasão promete à Medeia que gozará da mesma hospitalidade a que ele teria direito, segundo a etiqueta já mencionada em notas anteriores. Esta “transferência” da hospitalidade equivale, a grosso modo, à nossa moderna “carta de apresentação”.

55 No primeiro par de estrofes, o Coro faz votos por que lhe seja concedida uma união tranqüila, livre da ira, da discórdia, do adultério; que Afrodite não perturbe os casamentos felizes! O segundo par de estrofes evoca as amarguras do exílio (tema que Eurípides retomará mais tarde, nas Fenícias, por exemplo) e censura veladamente a ingratidão de Jasão.

56 Com as últimas afirmações do Coro, de censura ao amigo ingrato, forma contraste a intervenção de Egeu. O fato evidencia-se logo na saudação, que repete a palavra “amigo”.

57 Egeu, filho de Pandíon e pai de Teseu, era um dos reis míticos de Atenas, a quem, por tradição, estava ligada a figura de Medeia. Eurípides compôs uma tragédia intitulada Egeu, que não se conserva.

58 O oráculo de Delfos, o mais famoso da Grécia.

59 Os gregos acreditavam que o omphalos (literalmente: “umbigo”) do santuário de Delfos assinalava o centro da terra. Diziam que essa pedra cônica era a que Cronos engolira, supondo ser o seu filho Zeus, e depois fora obrigado a vomitar; atribuíam-lhe, portanto, origem celeste. Os modernos pensam que se trata de um meteorito.

 

60 O acesso a Delfos, ainda hoje difícil, devido às altas montanhas em cujas encostas se situa, faziam-no geralmente os antigos através do porto de Itea. Aí embarcara Egeu, para efetuar a travessia do Golfo de Corinto, até o Istmo. Daí seguirá para Trezeno, que fica a nordeste do Peloponeso.

61 Pélops, filho de Tântalo, era o herói epómino de toda a Península (“Peloponeso” é a “ilha de Pélops”), antepassado dos Atridas, e primeiro vencedor dos jogos olímpicos.

62 Só neste momento Egeu repara na expressão de sofrimento de Medeia, que certamente a máscara traduzia.

63 Enquanto se encontra no território de Corinto, Egeu é hóspede de Creonte, motivo por que não pode desrespeitar as suas ordens, sem faltar à lealdade que lhe deve.

64 A casa reinante da Tessália.

65 O arauto que, em nome do rei de Corinto, iria reclamar a entrega de Medeia.

66 A Terra e o Sol costumavam ser invocados em primeiro lugar, para garantir os juramentos. Assim na Ilíada, III. 276-280, e XIX. 258-260.

67 O filho de Maia (e Zeus) é Hermes, o deus dos viajantes.

68 Medeia invoca os deuses que protegem os juramentos, Zeus e Dike (a Justiça) – aqui sinônima de Témis – e ainda o Sol, seu antepassado.

69 Outra metáfora náutica. Os navios gregos tinham, além das âncoras, amarras de popa, para os prenderem à praia.

70 Atenas, cidade cuja divindade protetora era Palas Atena.

71 Omitimos aqui o verso 785, que é um arranjo de 950, 940 e 943: “para os levarem à noiva, e não saírem desta terra”.

72 Era a doutrina corrente entre os antigos, não só em espíritos vulgares, como Arquíloco ou Teógnis, como num homem a muitos títulos superior, como era Sólon. A primeira derrogação a esta lei de Talião encontra-se no Críton de Platão, posta na boca de Sócrates.

73 Esta ordem é dada a uma das aias de Medeia. As palavras que se seguem sugerem que a encarregada do recado seja a ama. Neste caso, seria a sua única presença em cena, depois do párodo. Anteriormente, no verso 774, Medeia anunciara vagamente que mandaria a Jasão algum dentes os seus servidores.

74 O Coro cana o elogio de Atenas, a hospitaleira metrópole das artes e da ciência, onde Medeia vai habitar.

Os atenienses intitulavam-se Erectidas, como descendentes de Erecteu, fundador mítico da sua cidade, o qual nascera da Terra. O conhecido templo da Acrópole dedicado a Erecteu só acabou de se construir em 409 a.C., vinte e dois anos depois de estreada a peça.

75 Aqui “ciência” traduz o grego sophia, que designa o conhecimento das letras e das artes.

76 A união das Nove Musas, patronas de todas as formas de sophia, produz a harmonia.

77 Um dos nomes de Afrodite, por ter abordado primeiro a ilha de Chipre, quando nasceu das águas do mar (outra versão da lenda refere o mesmo com relação a Citera, donde o epíteto Citereia.)

78 O Cefiso era um dos rios de Atenas. No verso 846 alude-se de novo a ele, bem como ao Ilisso.

79 Exaltação do clima de Atenas, como causa da sua excelência.

80 Afirma-se nestes versos que Afrodite mandou os Amores, bem como a Ciência (Sophia), pois todos juntos levam à excelência na poesia, na música, na filosofia. É essa superioridade (em grego, arete) que, por esse motivo, aqui traduzimos por “arte”.

81 As lágrimas de Medeia, só agora são notadas por Jasão. Na ausência do jogo fisionômico no teatro grego (impossibilitado pelas máscaras), os sinais externos de emoção Te6m de ser dados pelo próprio texto.

82 Omite-se aqui o verso 949, que é a repetição do verso 786: “um peplos sutil e uma coroa de ouro lavrado.”

83 A ordem dada aqui por Medeia é prontamente realizada, pois cinco versos adiante já ela faz entrega das dádivas aos filhos. Como a protagonista nunca sai de cena até ao verso 1250, não ficou oportunidade para as ungir com venenos, conforme anunciara no verso 789. É, sem dúvida uma pequena inconseqüência do dramaturgo.

84 A responsabilidade dos seus atos é suficientemente nítida para Medeia, para a levar a este aparente anacoluto de usar a 1.ª pessoa do singular, depois de ter principiado por falar dos deuses como sujeito da ação.

85 Jogo de palavras sinistro sobre o sentido de “partir”.

86 Medeia manda o Pedagogo sair para cumprir a sua tarefa diária de tratar das coisas das crianças – tarefa que ela sabe não mais será necessária.

87 Série de cerimônias nupciais que pertencia à mãe do noivo executar.

88 Novamente um jogo de palavras que alude ao destino das crianças.

89 Alguns entendem que os filhos saem de cena neste ponto e regressam, chamados pelos servos, no verso 1069. Outros ainda supõem que as crianças hesitam, mas não chegam a retirar-se, em 1053.

90 O inferno grego.

91 Omitem-se aqui os versos 1062-1063, que são iguais a 1240-1241: “é absoluta a necessidade de os matar, e, já que é forçoso matá-los-emos nós, que os geramos.”

92 O escoliasta explica: “Antigamente os homens supunham que quem sucumbia de repente era porque o seu espírito fora atingido por Pan, sobretudo, e por Hécate”. Algo desta noção prevalece ainda nas expressões modernas “medo pânico” ou “ser tomado de pânico”.

93 Texto pouco seguro, mas no qual se percebe claramente a metáfora tirada das corridas, para sugerir o breve lapso de tempo decorrido. Um pletro equivalia a pouco mais de 30 m. Portanto, o corredor teria percorrido um dos lados do estádio, ou seja, pouco mais de 90 m.

94 Depois de verberar os perigos da sabedoria e da eloqüência e de lamentar a triste condição do homem, o Mensageiro abandona a cena.

95 Os manuscritos apresentam aqui três versos (1233-1235): “Ó desgraçada, como lamentamos a tua desventura, ó filha de Creonte, que partiste para a mansão do Hades, por causa das núpcias de Jasão.”

96 Outra metáfora tirada das corridas.

97 Medeia sai por algum tempo de cena, onde se tinha mantido sem interrupção desde a primeira entrada, ao começar o 1.º episódio.

98 As mesmas invocações do verso 148.

99 “Mão suicida”, porque, destruindo a sua descendência, se aniquilava também a si.

100 As Erínias eram divindades subterrâneas, que vingavam os crimes cometidos contra pessoas do mesmo sangue.

101 Segundo a versão mais corrente, Ino, filha de Cadmo, lançou-se ao mar com seu filho Melicertes, fugindo à perseguição de seu marido, o rei Atamante, que, tendo enlouquecido, matara já o outro filho, Learco. Ino foi depois divinizada, com o nome de Leucoteia, e outro tanto aconteceu a Melicertes, que mudou o nome para Palémon. Aqui, é Ino que, tomada de loucura, matou os dois filhos e saltou para o mar. Provavelmente seria esta a versão adotada por Eurípides na sua tragédia perdida, Ino.

102 O texto diz precisamente “a esposa de Zeus”, que, por conveniência métrica, substituímos por “Hera”.

103 Medeia tinha fechado e trancado as portas, razão porque o Coro estava fisicamente impossibilitado de intervir. Agora, Jasão tem de chamar pelos servos, para abrirem a casa. não é, portanto, aos criados que o acompanhavam que ele dá esta ordem.

104 Enquanto Jasão tenta forçar a porta, Medeia aparece na mechane (maquinismo que colocava em cena as figuras num nível mais elevado). Vem no carro do Sol, que, segundo os comentadores antigos, era puxado por serpentes.

105 Regressa aqui a antinomia gregos e bárbaros, mas agora sem ironia.

106 A vingança divina, que devia ser exercida sobre Medeia, atingiu o próprio Jasão.

107 Cila era um grande escolho marinho, em frente a outro mais temível ainda, Caribdes. Segundo a Odisséia (XII. 85-94), era um monstro horrível, com doze pés disformes, seis pescoços compridos, cada um com sua cabeça, e três filas serradas de dentes; até meio corpo, estava metida numa caverna, e apenas deitava de fora as cabeças, ladrando de maneira temível. Nunca os navios passavam por ela incólumes, pois Cila arrebatava-os e devorava a tripulação. Assim fez a seis dos companheiros de Ulisses, que viu então a cena mais lamentável de toda a sua viagem de regresso.

Como todos os sítios homéricos, este também veio a ser localizado. Era o estreito de Messina, que dá acesso ao Mar Tirrênico. Daí viria talvez o qualificativo do texto, que já o escoliasta explicava como vindo do Mar Tirrênico (os dos etruscos). É provável que, como sugerem alguns comentadores, houvesse aqui também uma alusão aos atos de pirataria do povo etrusco, conhecidos do próprio Eurípides.

108 O templo de Hera Acraia ou “Hera do promontório” seria o que ficava num cabo em frente a Sícon, próximo de Corinto, segundo Elsmley; ou o que existiria na acrópole de Corinto, segundo o escoliasta.

109 Corinto.

110 Atenas.

111 Devia tratar-se de um fragmento da nau, que Jasão consagrou em um templo.

112 Mais uma vez, Medeia insiste na gravidade dos crimes de Jasão: violação de juramento e das leis da hospitalidade. Jasão fora hóspede da casa de Medeia na Cólquida.