Ésquilo, Prometeu

O verdadeiro deus dos homens

Carl Rahl 1812–1865

A peça teatral Prometeu Acorrentado foi escrita por Ésquilo, considerado o pai da tragédia grega, que viveu entre 525 a.C. a 455 a.C. Ela se inicia no momento em que Hefesto acorrenta o titã Prometeu para seu martírio mesmo não querendo realizar tal ação. No entanto, a ordem de Zeus na peça representada pelo personagem Poder é irrevogável e portanto sob a vistoria da Violência. O titã acorrentado recebe visitas do titã Oceano e suas filhas, da bela Io e do deus Hermes com quem ele trava importantes diálogos sobre liberdade, opressão, inveja, ira, arrependimento e lealdade.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por J. B. de Mello e Souza.

 

Prometeu Acorrentado

Personagens

O Poder
A Violência, personagem mudo
Hefesto
Prometeu
Oceano
Io, Filha de Ínaco
Hermes
Coro (filhas do Oceano)

– O Crime –

No alto de uma montanha, nos rochedos da longínqua Cítia, ambos o Poder e a Violência observam o deus Hefesto aprisionar o titã Prometeu por seus crimes

Poder

Eis-nos chegados aos confins da terra, à longínqua região da Cítia, solitária e inacessível! Cumpre-te agora, ó Hefesto, pensar nas ordens que recebeste de teu pai, e acorrentar este malfeitor, com indestrutíveis cadeias de aço, a estas rochas escarpadas. Ele roubou o fogo, — teu atributo, precioso fator das criações do gênio, para transmiti-lo aos mortais! Terá, pois, que expiar este crime perante os deuses, para que aprenda a respeitar a potestade de Zeus, e a renunciar a seu amor pela Humanidade.

Hefesto

Para vós, Poder e Violência, — a ordem de Zeus está cumprida; nada mais resta a fazer. Quanto a mim, sinto-me sem coragem para acorrentar pela força a um deus, meu parente, sobre esta penedia, exposto à fúria das tempestades! Vejo-me, no entanto, coagido a fazê-lo, pois seria perigoso esquecer as ordens de meu pai. Preclaro filho da sábia Têmis, é bem contra minha vontade, e a tua, que te vou prender por indissolúveis cadeias, a este inóspito rochedo, de onde não ouvirás a voz, nem verás o semblante de um único mortal; e onde, queimado lentamente pelos raios ofuscantes do sol, terás adusta a epiderme; onde a noite estrelada tardará a poupar-te à luz intensa, assim como o sol tardará em secar o orvalho matinal. Oprimir-te-á o peso de uma dor perene, pois ainda não nasceu, sequer, o teu libertador. Eis a conseqüência de tua dedicação pelos humanos; como deus, que tu és, fizeste aos mortais uma dádiva tal, que ultrapassou todas as prerrogativas possíveis. Como castigo por essa temeridade, ficarás sobre esta rocha terrífica, em pé, sem sono e sem repouso; debalde farás ouvir suspiros e clamores dolorosos; o coração de Zeus é inexorável… Um novo senhor é sempre severo!…

Poder

E então? Por que tardas ainda? De que vale esta vã piedade? Pois quê?… por acaso não detestas a uma divindade inimiga dos demais deuses, visto que transmitiu aos homens as honras que eram teu privilégio?

Hefesto

É que… os laços do sangue, e os da amizade, são poderosos!

Poder

Sem dúvida! Mas como desobedecer às ordens de teu pai? Não o temes, por acaso?

Hefesto

Tu serás sempre, ó Poder, destituído de piedade, e capaz de tudo!

Poder

Certamente! De que serve lamentar a sorte deste criminoso, uma vez que não há remédio possível para seu mal? Não te canses, pois, na busca de um socorro inútil.

Hefesto

Oh!… Como abomino o ofício a que me consagrei!

Poder

Por quê? Esse ofício não é a causa, nem a origem, dos males que aqui vemos presentes.

Hefesto

Quem me dera um companheiro, que comigo partilhasse deste sacrifício!…

Poder

Muito podem os deuses, na verdade, porém dependem de um poder supremo; só Zeus é onipotente.

Hefesto

Realmente assim é… Tudo o que vemos o prova; nada tenho a objetar.

Poder

Nesse caso, por que não cumpres tua missão, a fim de que teu pai não te veja negligente?

Hefesto

Os elos para os braços, ei-los aqui: podes vê-los.

Poder

Vamos! Passa-lhos pelas mãos!… agora, prende-os ao rochedo por fortes marretadas.

Hefesto

Já o fiz, e meu trabalho não será em vão.

Poder

Bate ainda mais! Aperta! Não deixes afrouxar a corrente, pois ele é habilidoso, e capaz de se libertar de nós inextricáveis!

Hefesto

Este braço em caso algum se poderá desprender…

Poder

Pois acorrenta agora o outro, de tal sorte que ele sinta, embora engenhoso, que é inferior a Zeus.

Hefesto

Eis aí! Como o fiz, ninguém poderá censurar, exceto Prometeu.

Poder

Prende agora com toda a força este gancho de aço, atravessando-lhe o peito.

Hefesto

Ai de ti, Prometeu! Como me penaliza tua desgraça!

Poder

Eis-te de novo hesitante, com pena dos inimigos de Zeus! Cuidado, Hefesto: que também um dia virás a sofrer!

Hefesto

Vê! Oue horrendo espetáculo!

Poder

Vejo apenas um audacioso convenientemente castigado. Vamos! Passa estas correntes em torno de seus quadris!

Hefesto

Sei o que me cumpre fazer! Tuas ordens são supérfluas!

Poder

Não importa! Minhas ordens e meus gritos não deixarão de te apressar! Desce um pouco agora; prende-lhe as pernas por fortes elos.

Hefesto

Já o fiz, sem grande dificuldade.

Poder

Prende agora os pés por meio destes cravos. Quem vai julgar teu trabalho é severo; não o esqueças!

Hefesto

Como tuas palavras correspondem bem a teu interior!

Poder

Apiada-te de quem quiseres, mas não censures minha audácia, nem a dureza de meu coração!

Hefesto

Retiremo-nos! Seus membros já estão bem acorrentados!

Poder

Insulta agora daqui os deuses, ó Prometeu! Rouba-lhes as honras divinas, para dá-las a seres que não viverão mais que um dia! Poderão, por acaso, os mortais, minorar teu suplício? Em vão te deram os deuses o nome de Prometeu [que se traduz como “aquele que prevê”]. Tu, sim! — precisas de um Prometeu que te liberte!

 

– Aflição –

O titã Prometeu lamenta sozinho o seu destino quando é  interrompido pela chegada das filhas do titã Oceano que fazem seu coro

Prometeu

Ó divino éter! ó sopro alado dos ventos! Regatos e rios. ondas inumeráveis, que agitais a superfície dos mares! Ó Terra, mãe de todos os viventes, e tu, ó Sol, cujos olhares aquecem a natureza! Eu vos invoco!… Vede que sofrimento recebe um deus dos outros deuses! Vede a que suplício ficarei sujeito durante milhares de anos! E que hediondas cadeias o novo senhor dos imortais mandou forjar para mim! Oh! eis-me a gemer pelos males presentes e pelos males futuros!

Quando virá o termo de meu suplício? Mas… que digo eu? O futuro não tem segredos para mim; nenhuma desgraça imprevista me pode acontecer. A sorte que me coube em partilha, é preciso que eu a suporte com resignação. Não sei eu, por acaso, que é inútil lutar contra a força da fatalidade? Não me posso calar, nem protestar contra a sorte que me esmaga! Ai de mim! Os benefícios que fiz aos mortais atraíram-me este rigor.

Apoderei-me do fogo, em sua fonte primitiva; ocultei-o no cabo de uma férula e ele tornou-se para os homens a fonte de todas as artes e um recurso fecundo… Eis o crime para cuja expiação fui acorrentado a este penedo, onde estou exposto a todas as injúrias! Oh! Ai de mim! Que rumor será este? Que estranho perfume vem para mim? Será de origem divina ou mortal? Ou de uma e de outra ao mesmo tempo? Quem quer que seja, virá apenas contemplar meu sofrimento ou que outro motivo o traz?

Vede, eis aqui, coberto de correntes, um deus desgraçado, incurso na cólera de Zeus, odioso a todas as divindades que frequentam seu palácio, tudo isso porque amei os mortais… Mas… que ouço agora? Será um rumor de aves que se aproximam? O ar se agita a um bater de asas… Seja o que for, tudo me apavora!

Coro

Nada temas! É um bando amigo que, trazido pelas asas ligeiras, veio ter a este rochedo depois de haver obtido, a custo, o assentimento paterno. Ventos propícios conduziram-nos a esta montanha. O tinir do martelo chegou a nossas grutas e fez com que, vencendo nossos temores, viéssemos descalças, em nosso carro alado.

Prometeu

Ai de mim, fecundas filhas de Tétis e do pai Oceano, cujas águas circundam a terra, com suas ondas em perenal movimento. Olhai! e vede, os laços por que estou acorrentado a este íngreme rochedo, onde ficarei de sentinela, bem a meu pesar, pelos tempos afora!

Coro

Nós o vemos, ó Prometeu; e uma nuvem de terror, cheia de lágrimas, caiu sobre nossos olhos quando contemplamos teu corpo a arder, preso a este penedo, por essas aviltantes cadeias de ferro. Tudo isso porque novos senhores dominam agora o Olimpo: Zeus reina de fato por novas e iníquas leis, e procura destruir tudo o que era outrora digno de veneração.

Prometeu

Melhor fora que me precipitassem sob a terra, nos abismos impenetráveis do Tártaro, do próprio inferno de Plutão, destinado aos mortos, prendendo-me por indestrutíveis e cruéis cadeias, lá, onde nem os deuses nem os mortais se pudessem alegrar com isso… Mas aqui, exposto ao ar, eu sofro, miserável, suplícios que são motivos de júbilo para meus inimigos!

Coro

Oh! Qual dos deuses terá um coração tão duro, que se possa alegrar com tal espetáculo? Qual deles, exceto Zeus, deixaria de se condoer de teu sofrimento? Irritado sempre e inflexível, ele não deixará de saciar sua crueldade sobre a raça celeste, até que um esforço feliz lhe arranque um poder infelizmente agora sólido demais!

Prometeu

Certamente, embora acabrunhado pelo peso esmagador destas duras correntes, o senhor dos imortais será coagido a recorrer a mim para saber em tempo qual a nova conspiração que lhe há de arrebatar o cetro e as honrarias. Mas em vão há de empregar as mais terríveis ameaças; não lhe revelarei tal segredo enquanto não houver rompido estas correntes e consentido em reparar minha injúria.

Coro

Sempre a mesma altivez! Tu não cedes, Prometeu, mesmo no cúmulo da desgraça! Tua voz nada respeita. O terror nos perturba; nós trememos por ti. Receamos que jamais possas ver o termo de teus suplícios. A alma do filho do Céu é impenetrável, e seu coração inflexível.

Prometeu

Zeus é rígido, bem o sei; sua vontade somente é, para ele, a justiça. No entanto, na iminência de imprevistos golpes, sua cólera indomável há de se aplacar; e, com tanta solicitude como eu próprio teria, há de procurar meu socorro e minha amizade.

Coro

Dize, porém, sem nada ocultar, por que ofensa tua Zeus ordenou que sofresses tão bárbaro tratamento? Qual foi teu crime? Fala, se é que isso não venha aumentar o teu sofrer.

Prometeu

Ai de mim! Doloroso será, para mim, vou o contar, mas não menos doloroso silenciar; tudo agrava a minha angústia. O ódio acabara de romper entre os deuses em dissídio. Uns queriam, expulsando Céu, dar o cetro a Zeus; outros, ao contrário, esforçavam-se por afastá-lo do trono. Em vão procurei dar os mais prudentes conselhos aos filhos do Céu e da Terra, os Titãs; sua audácia desprezava todo o artifício, toda a habilidade; eles supunham triunfar sem esforço graças a seu próprio poder.

Quanto a mim, Têmis, minha mãe, e a própria Terra, adorada sob tantos nomes diversos, me tinham profetizado que, no combate prestes a travar-se, a força e a violência de nada valeriam; o ardil, tão somente, decidiria da vitória. Quando lhes anunciei este oráculo, mal consentiram em ouvir-me! Em tal emergência, pareceu-me prudente, acompanhando minha mãe, adotar o partido de Zeus, que insistia comigo para que o apoiasse.

Graças a mim e a meus conselhos, foi-lhe possível precipitar nos negros e profundos abismos do Tártaro, o venerando Céu e todos os seus defensores. Após tamanho serviço, eis o prêmio ignóbil com que me recompensou o tirano do céu! Tal é a prática freqüente da tirania: a ingratidão para com seus amigos… Mas o que tanto quereis saber: a causa do meu suplício, eu vou dizer agora.

Logo que se instalou no trono de seu pai, distribuindo por todos os deuses honras e recompensas, ele tratou de fortificar seu império. Quanto aos mortais, porém, não só lhes recusou qualquer de seus dons, mas pensou em aniquilá-los, criando em seu lugar uma raça nova. Ninguém se opôs a tal projeto, exceto eu. Eu, tão somente, impedi que, destruídos pelo raio, eles fossem povoar o Hades.

Eis a causa dos rigores que me oprimem, deste suplício doloroso, cuja simples vista causa pavor. Porque me apiedei dos mortais, ninguém tem pena de mim! No entanto, tratado sem piedade eu sirvo de eterna censura à prepotência de Zeus.

Coro

Que coração de granito ou de ferro, deixará de partilhar de teu sofrimento, ó Prometeu? Nós, que o vimos, temos o coração transpassado pela dor.

Prometeu

Sem dúvida, meus amigos se condoerão de mim.

Coro

Mas… nada mais fizeste, além disso?

Prometeu

Graças a mim, os homens não mais desejam a morte.

Coro

Que remédio lhes deste contra o desespero?

Prometeu

Dei-lhes uma esperança infinita no futuro.

Coro

Oh! que dom valioso fizeste aos mortais!

Prometeu

Além disso, consegui que eles participem do fogo celeste.

Coro

O fogo?!… Então os mortais já possuem esse tesouro?

Prometeu

Sim; e desse mestre aprenderão muitas ciências e artes.

Coro

E por isso é que Zeus te castiga tão cruelmente? Não terás, por acaso, um repouso sequer? Virá, um dia, o termo de teus males?

Prometeu

Nenhum fim, senão o que ele quiser.

Coro

E acaso quererá ele, um dia? Não sentes o teu crime? Censurá-lo, porém, não nos causa prazer e agrava tuas dores. Silenciemos, pois, e trata de te libertar.

Prometeu

É fácil, para quem está no porto, excitar e aconselhar a quem se acha em plena tormenta! Eu havia previsto tudo… Eu quis cometer o meu crime! eu o quis, conscientemente, não o nego! Para acudir aos mortais, causei minha própria perdição, mas nunca supus que me veria assim consumido sobre estes rochedos, no cume deserto de montanha inabitável.

Não vos limiteis, porém, em deplorar minha atual desgraça; descei junto a mim, vinde saber qual a sorte que me está reservada; investigai todo o meu destino; não recuseis o que vos peço; tende piedade de um infeliz. Ai de mim! O infortúnio esvoaça por sobre nós, e ameaça todas as cabeças…

Coro

Tu nos convences sem demora, ó Prometeu! Desceremos, ligeiras, deste rápido carro e deixando as rotas aéreas e puras dos pássaros, viremos ter junto desse rochedo escarpado; nós saberemos de bom grado a história de tuas desgraças…

 

– Orgulho –

O titã Oceano entra para mostrar sua comiseração ao titã acorrentado

Oceano

Chego, finalmente, perto de ti, Prometeu, depois de haver percorrido países imensos, sobre este monstro alado que minha vontade conduz sem o concurso de freio. Partilho de tuas dores, certamente, o sangue que nos une assim o quer, expressamente. Mas, ainda que fosses um estranho, ninguém me seria mais caro que tu. Não sei mentir, nem bajular: tu o verás desde logo. Fala e me diz como eu te posso socorrer: o Oceano será sempre teu amigo fiel.

Prometeu

Quê? Tu também, Oceano, queres ser testemunha de minha desgraça? Ousas deixar os mares que usam teu nome e teus abismos profundos, abertos pela natureza, para galgar estas montanhas que nada contêm senão o ferro? Será a curiosidade ou a compaixão, o que te conduz até aqui? Vê este espetáculo, vê que tratamento eu suporto, eu, o amigo de Zeus, que o ajudei, sozinho, a subir ao trono.

Oceano

Eu o vejo, Prometeu… E, seja qual for tua sagacidade, eu te darei um conselho. Concentra-te em ti mesmo; um novo Senhor domina os deuses; convém que tomes, pois, outros sentimentos. Se te mantiveres nestes protestos injuriosos, do alto do Olimpo Zeus há de te ouvir e brevemente teus males, agravados, farão com que tenhas saudade da condição atual. Abafa, ó infeliz, tua cólera impotente; procura alcançar o perdão.

Talvez este conselho te pareça de um velho; mas tu sabes que males pode atrair um discurso insolente. Nada te pode humilhar, nada te pode abater… mas tu procuras redobrar teu sofrimento. Crê-me; curva-te sob o jugo: pensa que, atualmente, reina um senhor severo e supremo! Vou procurá-lo e tentarei obter tua liberdade. Modera-te, pois; não soltes tua língua irreverente! Esclarecido, como és, acaso ignoras que a punição é a conseqüência certa de tuas palavras imprudentes?

Prometeu

Admira-me que tu não hajas sido tratado como criminoso, visto que foste meu cúmplice e meu ajudante… Mas, basta! Abandona esses inúteis cuidados; tu não me farás ceder. Cuidado! Não te cause esta visita alguma desgraça!

Oceano

Sabes aconselhar aos outros bem melhor do que a ti mesmo… Disso estás dando a prova… Não queiras, porém, impedir minha zelosa intervenção; orgulho-me em dizer que hei-de obter o perdão de Zeus, que te libertará desse suplício.

Prometeu

Reconheço tua boa vontade e te serei por isso eternamente grato: sei que tua amizade não se cansa. Mas não te esforces por me valer, pois tudo o que tentasses seria baldado. Trata de procurar repouso e abrigo. Se eu sou desgraçado, não quero arrastar comigo a quem quer que seja, ao abismo da desgraça.

Oceano

Não! Hei de lamentar sempre tua sorte e a de teu irmão Atlas, que, curvado para as portas do ocidente, sustém sobre o dorso as colunas do Céu e da Terra, fardo que suporta com sacrifício! Não! Não verei nunca sem comiseração, o habitante dos abismos da Cilícia, o filho da Terra, esse gigante prodigioso, o audacioso Tifão, de cem cabeças, dominado por um braço vingador, ele, que desafiava a todos os deuses! Suas horrendas bocas exalavam a morte; faíscas fulminantes jorravam-lhe dos olhos.

Ele deveria subverter o império de Zeus. Mas a arma terrífica de Zeus, o raio, que nunca dorme, precipita-se e o atinge; suas ameaças são aniquiladas! Ferido pelo raio, ele é pulverizado até nas entranhas, sua força destruída, e agora, cadáver inútil, jaz ao longo do mar, junto ao estreito, na vasta fornalha que crepita nos subterrâneos do Etna, em cujos topos Hefesto forja o ferro ardente. Um dia, de lá jorrarão rios de brasa, cuja vaga destruirá as planícies da formosa Sicília.

Tudo porque Tifão, exalando seu ódio, embora calcinado pelo raio, fará surgirem ondas ardentes de uma tempestade de fogo que nunca mais se apagará.

Prometeu

Tua sabedoria, Oceano, prescinde de meus conselhos… Deixa-me suportar minha sorte, até que a cólera de Zeus se abrande.

Oceano

Ignoras por acaso, ó Prometeu, que um discurso pode minorar a mais terrível cólera?

Prometeu

Sim, quando se espera o momento oportuno; não se se choca violentamente um espírito irritado.

Oceano

Que perigo vês tu, em que eu o deseje e o tente conseguir?

Prometeu

Será esforço inútil, loucura e simplicidade.

Oceano

Consinto em sofrer desses males. O sábio que se faz de ingênuo, muita vez realiza melhor seus propósitos.

Prometeu

Mas essa falsa tentativa me será atribuída.

Oceano

Queres, então, que eu volte a meus domínios?

Prometeu

Sim! Tua piedade por mim só te pode granjear um inimigo.

Oceano

Quem? O novo senhor do Céu?

Prometeu

Ele mesmo. Evita desagradar-lhe.

Oceano

Tua desgraça, sem dúvida, vale por uma terrível lição…

Prometeu

Pois bem: não o esqueças nunca. Apressa-te em partir!

Oceano

Eu creio… e sigo teu conselho. Já esta alimária ligeira agita, com suas asas, as vastas regiões do ar! Ela quer voltar, o mais breve possível, à sua habitação.

 

– Indignação –

O titã Oceano deixa o local em meio ao choro de suas filhas para o condenado. 

Coro

Ó Prometeu! Como deploramos o teu infeliz destino! De nossos olhos comovidos correm rios de lágrimas; nossas faces estão umedecidas pelo pranto. De que terrível poder dispõe Zeus! Com sua arma poderosa, ameaça aos próprios deuses outrora venerados! Tudo, nestas tristes paragens, sofre com teus gemidos.

Chora-se a tua glória, deplora-se a perda de tuas antigas honras, e das de teus irmãos. Sim, todas as nações, todos os povos do continente sagrado da Ásia partilham de tuas penas: as mulheres valorosas nos combates, que habitam a Cólquida; as tribos citas espalhadas pelos confins do mundo, ocupantes do escarpado Cáucaso, guerreiros ferozes, armados em suas lanças agudas.

Atlas, — esse outro titã, era o único dos deuses que víamos em cadeias de dor, martirizado pelo sofrimento: Atlas que, sem repouso, sustém sobre os ombros o peso enorme, a calota do céu. Sorte miseranda! Rugem as ondas, quebrando-se a seus pés: geme o abismo, freme o antro sombrio de Plutão, e até as límpidas fontes murmuram.

Prometeu

Se me calo, não é por orgulho, ou desprezo; mas o furor devora minha alma quando me vejo preso a esta rocha. No entanto, a quem mais, senão a mim, devem os novos deuses as honras que desfrutam? Não falemos mais nisso; seria repetir o que já sabeis.

Ouvi, somente, quais eram os males humanos, e como, de estúpidos que eram, eu os tornei inventivos e engenhosos. Eu vos direi, não para me queixar deles, mas para vos expor todos os meus benefícios.

Antes de mim, eles viam, mas viam mal; e ouviam, mas não compreendiam. Tais como os fantasmas que vemos em sonhos, viviam eles, séculos a fio, confundindo tudo. Não sabendo utilizar tijolos, nem madeira, habitavam como as próvidas formigas, cavernas escuras cavadas na terra.

Não distinguiam a estação invernosa da época das flores, das frutas, e da ceifa. Sem raciocinar, agiam ao acaso, até o momento em que eu lhes chamei a atenção para o nascimento e ocaso dos astros. Inventei para eles a mais bela ciência, a dos números; formei o sistema do alfabeto, e fixei a memória, a mãe das ciências, a alma da vida.

Fui eu o primeiro que prendi os animais sob o jugo, a fim de que, submissos à vontade dos homens, lhes servissem nos trabalhos pesados. Por mim foram os cavalos habituados ao freio e moveram os carros para as pompas do luxo opulento.

Ninguém mais, senão eu, inventou esses navios que singram os mares, veículos alados dos marinheiros. Pobre de mim! Depois de tantas invenções, em benefício dos mortais, não posso descobrir um só meio para pôr fim aos males que me torturam.

Coro

Agiste sem discernimento e sofres por isso uma pena incrível! Médico incapaz para curar teus próprios males, perdes a esperança e não descobres o remédio que há de te salvar.

Prometeu

Ouvi o resto e ainda mais admirareis o valor das artes e indústrias que dei aos mortais. Antes de mim, — e este foi meu maior benefício — quando atacados por qualquer enfermidade, nenhum socorro para eles havia, quer em alimento, quer em poções, bálsamos ou medicamentos: eles pereciam. Hoje, graças às salutares composições que lhes ensinei, todos os males são curáveis.

Elucidei-lhes todos os gêneros de adivinhações; fui o primeiro a distinguir, entre os sonhos, as visões reveladoras da verdade; expliquei-lhes os prognósticos difíceis, bem como os prognósticos fortuitos ou transitórios. Interpretei precisamente o voo das aves de rapina, bem como os augúrios, felizes ou sinistros, que provêm de outros animais.

Fiz ver quando reina entre eles o ódio, ou a concórdia e a união: enfim, o que pode haver nas entranhas das vítimas, de agradável dos deuses, no aspecto e na cor; na beleza das formas do fel e do fígado. Estendendo sobre o fogo, num envoltório de gordura, as partes internas e os membro dos animais, iniciei os mortais numa ciência difícil, dando-lhes a conhecer signos até então ignotos.

E não é tudo: a prata e o ouro, quem se orgulhará de os ter descoberto, antes de mim? Ninguém, a menos que se trate de um impostor. Em suma: todas as artes e conhecimentos que os homens possuem são devidos a Prometeu.

Coro

Depois de haver prestado tamanhos benefícios aos mortais, não te abandones à desgraça. Estamos persuadidas de que poderias, liberto dessas cadeias, ser tão poderoso quanto Zeus…

Prometeu

Não!… Não foi assim que dispôs o destino inexorável. Só depois de haver sofrido penas e torturas infinitas é que sairei desta férrea prisão. A inteligência nada pode contra a fatalidade.

Coro

E a fatalidade, quem a dirige?

Prometeu

As três Parcas e as Fúrias, que nada perdoam.

Coro

Será Zeus, acaso, menos poderoso que essas divindades?

Prometeu

Sim, ele próprio não poderá eximir-se a seu destino.

Coro

Seu destino? Qual será seu destino, senão o de reinar para sempre?

Prometeu

Nada mais pergunteis; convém cessar vossa insistência.

Coro

Tão terrível é, pois, o segredo que tu guardas?

Prometeu

Façamos ponto aí… ainda não é tempo de revelar esse mistério. Que ele permaneça mais oculto que nunca; de minha discrição dependem a minha liberdade e o fim de meu sofrimento.

Coro

Que nunca Zeus, o onipotente, queira usar a sua força em oposição a nossos desejos! Que nunca sejamos negligentes no culto devido aos deuses por hecatombes sagradas, junto às fontes eternas do Oceano, o nosso pai! Que jamais façamos o mal com as nossas palavras!

Fiquem estas máximas indelevelmente gravadas em nosso espírito, para que nunca mais desapareçam! É doce passar uma vida imortal na segurança mais perfeita, nutrindo a alma com os mais puros prazeres do espírito… Nós estremecemos de horror ao ver-te assim oprimido por tantas desgraças!

Mísero Prometeu! Tu não temeste a Zeus: por uma inclinação natural fizeste demasiado bem aos humanos. Onde está o fruto dessa dedicação inútil? Dize, infeliz, — que socorro, que conforto te podem trazer essas criaturas efêmeras?

Não sabes, por acaso, em que consiste essa vida transitória, semelhante aos sonhos, que iludem os pobres seres humanos? Não sabes que seus esforços jamais conseguirão prevalecer contra a vontade de Zeus?

Tua sorte funesta vale por uma lição para nós, ó Prometeu! Ai de ti! Como doravante serão nossos hinos diferentes dos que cantávamos em torno de teu banho e de teu leito no dia ditoso em que, vencida por teus dons, nossa irmã Hesíone se tornou tua esposa!

 

– O Desagravo-

A bela Io, antiga amante de Zeus, após também sofrer a ira e as arbitrariedades dos novos deuses que governam a criação, encontra o titã acorrentado.

Io

Que país será este? Quem o habita? A quem vejo ali, acorrentado àqueles rochedos gelados? Por que crime está sendo assim punido? Dize-me: aonde me trouxe, neste momento, meu triste fado? Ó céus! Ó deuses! Como sou desgraçada!

Já o moscardo me fere de novo! Ó terra! Afasta para longe esta sombra de Argos, teu filho: causa-me horror o aspecto deste monstro de cem olhos, que me persegue com seus pérfidos olhares! Nem a morte o faz parar!

Pobre de mim! Ele sai dos infernos para me perseguir, para me obrigar a fugir, faminta, por estas plagas sem fim! Debalde esta flauta, cujos tubos ainda prende a cera, faz ouvir algumas dolentes melodias…

Deuses imortais, onde estarei eu? A que região do mundo me trouxe esta carreira sem descanso? Filho do Céu, de que crime fui culpada, para sofrer tão triste sorte? Por que motivo queres assim torturar uma infeliz que perdeu a própria consciência?

Quero que me aniquile o teu raio, que a terra me esmague, ou que me devorem os monstros marinhos! Por que não atendes a esta minha súplica, ó deus poderoso!? Assaz já tenho sofrido nesta corrida infinita e penosa!… Poderei saber um dia quando esta desgraça terá fim?

Coro

Ouves tu, Prometeu, a voz desta jovem?

Prometeu

Sim… Ouço a voz da infeliz a quem persegue um inseto cruel: é a filha de Ínaco, por quem Zeus está apaixonado, e a quem Juno, ciumenta, obriga a fugir, sem repouso, numa corrida louca, por este mundo afora.

Io

Como podes saber o nome de meu pai? Responde a esta infeliz!… Quem és tu? Se tu mesmo não passas de um desgraçado, como conheces tão bem os meus males? Tu bem sabes o que é este flagelo aéreo que me consome e me despedaça com seu ferrão cruel.

Esfaimada, corri até aqui, aos saltos; uma força inimiga me oprime! Que míseras criaturas foram jamais atormentadas como eu? Dize, pois: que calamidades terei ainda a sofrer? Há remédio para meu mal? Se conheces algum, ensina-me, por piedade; não há jovem que tenha sofrido tanto como eu, nesta carreira errante!

Prometeu

Eu te direi claramente o que desejas saber; eu te direi sem enigmas, com toda a simplicidade, como se deve falar a um amigo. Vês aqui aquele que deu o fogo aos mortais: Prometeu!

Io

Ó benfeitor da Humanidade! Infeliz Prometeu! Como mereceste um tal suplício?

Prometeu

Há pouco eu acabara esta lamentável história…

Io

Dize-me, porém, por favor…

Prometeu

De mim tudo poderás saber!…

Io

Quem te acorrentou a este rochedo escarpado?

Prometeu

A ordem de Zeus e a mão de Hefesto.

Io

E de que crime és acusado?

Prometeu

Já disse o que devia: é o que te deve bastar.

Io

Mas dize-me ao menos isto: qual será o fim desta minha carreira dolorosa?

Prometeu

Bem melhor será que o ignores, do que conhecê-lo.

Io

Oh! Não me ocultes coisa alguma do que me resta ainda sofrer!

Prometeu

Visto que tanto empenho mostras, penso que devo satisfazer teu desejo.

Io

Pois bem… que mais esperas? Acaso invejas a minha sorte?

Prometeu

Não… receio apenas despedaçar teu coração.

Io

Não me poupes mais do que eu me pouparia…

Prometeu

Tu insistes… Devo, pois, falar… Ouve!

Coro

Espera um momento, Prometeu! Nós partilhamos de tua comiseração. Convém, primeiramente, que ouçamos dela própria, a história de seu tormento e do infortúnio que a persegue. Dirás, em seguida, o futuro que a ela está reservado.

Prometeu

Io, estas são irmãs de teu pai; tu deves atender a seus apelos. É sempre um conforto revelar nossas dores àqueles que nos ouvem condoídos e nos comovem com suas lágrimas.

Io

Como poderia eu deixar de cumprir vosso desejo? Ouvi, pois, a história que tanto desejais conhecer, embora muito me custe recordar a causa do flagelo com que o céu me oprime e da horrível transformação que tenho sofrido.

Quando, no recesso de meu retiro virginal, ainda os sonhos me deleitavam, uma voz insidiosa me dizia: “Ó ninfa ditosa, por que insistes em conservar tua virgindade, se podes realizar o mais glorioso matrimônio?”

“Por ti arde Zeus na chama do desejo; contigo ele quer fruir os prazeres do amor. Filha de Ínaco, não desprezes o amor de Zeus. Corre às plagas de Lerna, àquelas campinas irrigadas por teu pai, e cede ao olhar amoroso de um deus que te adora.”

Pobre de mim! Tais eram os sonhos que me perseguiam todas as noites. Resolvi, finalmente, cientificar meu pai do que se passava. Ele enviou mensageiros a Pitos e a Dodona, a fim de indagar o que era mister para agradar aos deuses.

Por algum tempo não obteve senão respostas ambíguas, cujo sentido se ocultava sob a mais impenetrável obscuridade. Deram-lhe, por último, uma decisão oracular determinando que eu fosse expulsa, de minha casa e de minha pátria, e condenada a vagar sem rumo aos confins do mundo.

Se meu pai não obedecesse, Zeus desfecharia raios fulminantes, que destruiriam totalmente a nossa raça. Cumprindo esse oráculo de Apolo, meu pai obrigou-me a partir para longe, em doloroso exílio. Ele assim agiu, eu bem sei, contra a sua e a minha vontade; mas o poder de Zeus o forçou a praticar tamanha violência.

Desde logo minha razão e meus traços fisionômicos se alteraram: apontam estes chifres em minha fronte; um moscardo me fere com seu ferrão agudo… Aos saltos, numa corrida louca, atirei-me à corrente benéfica do Cencreia e procurei a fonte mais alta do Lerna.

Um cão pastor, filho da Terra, o impiedoso Argos, seguia-me por toda parte, observando-me com seus inúmeros olhos. Inesperado golpe privou-o, de repente, da vida; mas o terrível inseto, flagelo divino, continuou a perseguir-me, expulsando-me de um país para o outro.

Eis o que tem sido minha sorte até o presente momento; visto que sabes o que ainda me resta a sofrer, dize-me: eu te peço! Não me iludas com uma mentira… Trair a verdade é o mais vergonhoso dos vícios.

Coro

Cessa! Cessa! Já é demais… Nunca ouvimos tão sinistra narrativa, nem vimos tão clamorosas desgraças! Um duplo golpe feriu nossas almas… Ó cruel destino! A sorte de Io nos enche de terror!

Prometeu

Não choreis prematuramente; esperai até que tenhais de tudo pleno conhecimento.

Coro

Fala, Prometeu! Mesmo no infortúnio é um consolo saber o que se deve ainda sofrer.

Prometeu

Obtivestes de mim facilmente a satisfação de vosso primeiro pedido; quisestes ouvir dela própria a história de seus males; ouvi agora o que Juno prepara ainda para amargurar esta desgraçada. E tu, filha de Ínaco, conserva na lembrança o que te vou dizer; minhas palavras te instruirão quanto ao fim de tua carreira.

Ao saíres destes lugares, dirige teus passos para as portas do Oriente. Cortando o deserto que o arado nunca sulcou, chegarás ao país dos Cítias nômades, povos armados de flechas, que por única vivenda têm cabanas de juncos, armadas sobre carros. Evita-os, e para atravessar seu país, procura as praias rochosas do mar sussurrante.

À tua esquerda estão os Calibes, forjadores do ferro; convém evitá-los, também: são ferozes e pouco hospitaleiros. Atingirás as margens do rio orgulhoso, que não desmente seu nome. Não tentes atravessá-lo: a passagem só é possível junto ao Cáucaso, a mais alta dessas serranias, de cujos flancos se forma torrente impetuosa.

O cume do Cáucaso avizinha-se das nuvens: será forçoso transpô-lo e descer para o sul. Lá encontrarás as Amazonas, mulheres guerreiras, que detestam os homens, e que se fixarão um dia em Temiscira, perto do Térmodon, no ponto onde penetram no mar saliências da rocha Salmideia, madrasta dos navios, hospedeira detestada pelos pilotos.

As Amazonas te conduzirão com prazer. Chegarás, assim, ao istmo dos Cimérios, junto às gargantas estreitas do pântano Meótido. Ali, deixa com coragem a terra e atravessa o mar: os mortais guardarão, para sempre, a memória de tua passagem: esse estreito, daí por diante, será chamado Bósforo. Então, não estarás mais na Europa, mas sim na Ásia.

Então? Que dizes tu? Não é violento, esse tirano dos céus? Porque pretende conquistar teus favores — um deus, a uma simples mortal! – ele a condena a tão penosa viagem. Funesto amante, ó minha filha, a sorte maldosa te reservou! E o que ouviste não é, sequer, o simples prelúdio de tuas desgraças.

Io

Céus! Como sou infeliz!

Prometeu

Tu suspiras e gemes… Que farás, então, quando souberes de tudo?

Io

Para que me serve a vida? Por que não me precipito desta rocha escarpada? A pedra que me esmagasse seria minha salvação… Melhor será morrer uma vez, do que penar por todos os meus dias.

Prometeu

Como suportarias, então, os tormentos que padeço eu, que estou impossibilitado de morrer! A morte ser-te-á, ao menos, o fim de teus sofrimentos, ao passo que minhas dores só terão fim quando Zeus for despojado de seu poder.

Io

Que dizes? Perderá Zeus, um dia, o seu império? Ah! Como eu folgaria se pudesse testemunhar esse fato! Nem poderia desejar outra coisa eu, a quem ele trata com tanta crueldade!

Prometeu

Ele o perderá, fica certa.

Io

E quem lhe arrancará o tirânico cetro?

Prometeu

Ele próprio, em conseqüência de sua louca temeridade.

Io

Como? Explica-te, se nisso não há perigo.

Prometeu

Para seu mal, ele tomará uma esposa que o fará arrepender-se!

Io

Será deusa ou mortal? Dize-o, se puderes.

Prometeu

Que te importa saber? A tal respeito guardarei segredo.

Io

Será ela própria, quem o há-de expulsar do trono?

Prometeu

Ela dará a luz um filho mais forte que seu pai.

Io

E Zeus não poderá evitar esse golpe?

Prometeu

Não… Antes que isso aconteça, eu estarei livre destas correntes.

Io

E quem te virá libertar, contra a vontade de Zeus?

Prometeu

Um de teus descendentes… É o que terá de acontecer.

Io

Que dizes tu? Um de meus filhos virá dar fim a teus sofrimentos?

Prometeu

Sim: o terceiro que nascer, depois de dez gerações.

Io

Como este oráculo é difícil de se entender!

Prometeu

Não tentes pesquisar mais, nem conhecer os pormenores de teu futuro!

Io

Tu me deste um prazer; não me retires mais.

Prometeu

De dois vaticínios, eu só te concederei um.

Io

Quais são eles? Dize-me e dá-me o direito de escolher.

Prometeu

Escolhe, pois: ou sabes o que te resta a sofrer ainda ou o nome de meu libertador.

Coro

Ó Prometeu, concede a ela uma dessas graças e a nós a outra. Não recuses atenção a nossa súplica… Que Io saiba por onde terá de vaguear ainda; e nós, o nome de teu libertador. Estamos desejosas de sabê-lo.

Prometeu

Vós assim exigis, e eu nada vos posso negar! Io, vou descrever-te tua dolorosa carreira: grava-a profundamente na memória.

Logo que transpuseres as águas agitadas do estreito que separa os dois continentes, caminharás para as portas inflamadas do sol, até os campos dos Gorgônios de Cistínia, onde vivem as três velhas, filhas de Fórcis, as três irmãs com aspecto de cisne, com só um dente e um só olho em comum, e que jamais verão os raios do sol, nem o astro da noite.

Não estarão longe as três outras irmãs, as aladas Górgonas, monstros execrados pelos humanos; suas cabeças estão eriçadas de serpentes: quem as contemplar, morrerá imediatamente; ficas avisada do perigo. Mais adiante verás outro espetáculo tremendo: os grifos, de longo pescoço, os cães mudos de Zeus. Foge deles o quanto puderes!

Evita, também, os guerreiros que só têm um olho, os Arimaspos, sempre cavalgando, habitantes das margens de Plutão, que rola o ouro em suas ondas. De lá passarás a um país longínquo, de um povo negro, fixado nos limites do Oriente, no sítio de onde sai o rio da Etiópia.

Acompanharás a corrente do Nilo até o passo onde, do alto dos montes de Bíblis, ele precipita suas águas majestosas e salutares. Seu curso levar-te-á à ilha triangular do Egito. Nesse lugar, ó Io, é que uma numerosa geração sairá de ti, e de teus filhos. Minha predição parece-te obscura e incompreensível? Faze tuas perguntas, porque posso tudo esclarecer; para isso, bem contra a minha vontade, tenho tempo de sobra.

Coro

Se ainda houver dolorosas corridas a predizer, que tu esqueceste, termina; se já disseste tudo, concede-nos a nossa vez, a graça que te pedimos, não te esqueças!

Prometeu

Io já sabe qual será o termo de sua viagem; mas para garantir-lhe que minha predição não falha, dir-lhe-ei o que tem sofrido até vir aqui. Isto será uma prova de minha infalibilidade. Omitirei numerosas circunstâncias, para aludir somente a suas mais recentes peregrinações. Quando chegaste aos campos Molóssios, junto da alta Dodona, onde permanece a profetisa do [Zeus] deus dos Tésprotas, e onde existem — incrível prodígio! — os carvalhos que falam.

Estes, em linguagem clara, sem enigmas, saudaram-te como “futura esposa de Zeus”, – se é que esse título te agrada ainda – novo acesso te arrebatou, e correste ao longo das praias até o vasto golfo de Reia, de onde retrocedeste ao ponto de partida. O nome de Jônio ali ficou, sem dúvida, como um eterno monumento de tua viagem, ao longo daquele golfo. Por aí tu vês que meu espírito alcança além do tempo presente. Ouvi, agora, todas vós, o que ainda tenho a revelar: retomarei minha primeira predição.

Em terras do Egito, nos próprios areais que o Nilo banha, está a cidade de Canopo. Ali, acariciando-te, Zeus há-de restituir-te a razão. Terás um filho, o escuro Épafo, cujo nome recordará a aproximação dessa divindade. Épafo cultivará extensa planície que o rio alaga em suas cheias. Cinco gerações depois dele, cinqüenta irmãs, para evitar um criminoso consórcio, com os filhos de seu tio, refugiar-se-ão em Argos.

Os noivos, porém, levados pela paixão, como a ave de rapina que persegue a tímida pomba, irão em busca de um casamento que não deveriam ter procurado. O céu, invejoso, vai puni-los. A terra pelágia receberá os corpos desses infelizes, imolados pelo ferro assassino das mulheres, que assim agiam nas trevas da noite. Cada esposa (que Vênus faça o mesmo a meus inimigos!) — mergulhando um punhal de afiado gume no peito do esposo, privou-o da vida.

Uma única, induzida pelo amor, não dará a morte ao companheiro… Faltou-lhe o ânimo… Forçada a escolher, preferiu que a chamassem de covarde, a ser assassina. Dela nascerá uma família real em Argos. Para contar passo a passo a história dessa dinastia preciso fora um longo discurso. Dessa estirpe nascerá o herói famoso que, com suas flechas, dará fim ao meu tormento.

Tal é o oráculo que a antiga Titânide, Têmis, minha mãe, me revelou. Dizer-te como, e quando isso acontecerá, eis o que exigiria demasiado tempo, e tu nada lucrarás em ouvir.

Io

Céus! Um novo acesso, um novo furor me inflama! O moscardo fere-me de novo com seu ferrão ardente; meu coração bate-me, agitado pelo terror, no peito. Meus olhos já se perturbam e vejo tudo girar em torno de mim. Arrebata-me a loucura… a língua já se recusa a obedecer e… a razão luta em vão contra um odioso vendaval de insânia…

(Io sai)

Coro

Foi um sábio, sem dúvida, aquele que teve a primazia em afirmar que cada qual se deve unir a seu igual, pois quem vive de seu trabalho não deve ambicionar a aliança nem do rico efeminado, nem do nobre orgulhoso. Jamais, ó Parcas, nos destineis ao amor de Zeus, nem de qualquer outro habitante do Olimpo.

Trememos de terror ao ver a pobre Io virgem ainda, evitando o amor de Zeus, e, apesar disso, forçada por Juno a esta corrida exaustiva. Não há perigo numa união bem proporcionada? e ninguém a deve temer, mas… ó Amor, fazei que nunca um Deus poderoso nos veja e nos cobice… A luta seria em extremo desigual, cheia de esforços inúteis. Que seria de nós? Como fugiríamos a Zeus?

Prometeu

Embora orgulhoso, Zeus será humilhado um dia. Tal o fruto do enlace que ele deseja, e que será a causa da ruína de seu trono, e de seu poderio. Realizar-se-á, então, integralmente, a maldição que contra ele lançou Céu quando foi expulso da antiga sede de seu império. De todos os deuses, só eu poderia ensinar-lhe como evitar essa desgraça; só de mim se poderia obter essa revelação.

Nesse dia, em vão ele se porá do alto das nuvens, agitando nas mãos os seus dardos inflamados: nada o salvará de uma queda ignominiosa. Eu vejo como ele próprio está criando o seu inimigo, o prodigioso atleta, difícil de vencer, que lançará fogos mais ardentes que o raio, fará rumores mais fortes que o trovão, e quebrará o tridente de Netuno, esse flagelo marítimo que abala a terra. Naufragando nesse baixio, Zeus aprenderá, então, o quão diferente servir é de dominar.

Coro

Teu desejo é que faz a predição!

Prometeu

Sim… Eu prenuncio… e o que eu desejo é o que acontecerá.

Coro

Será possível que Zeus venha a ter, um dia, um senhor?

Prometeu

Sim! E não será a última de suas desditas.

Coro

E tu não tremes pronunciando tais palavras?

Prometeu

Que posso eu temer? O destino me fez imortal!

Coro

Mas Zeus pode agravar teus tormentos…

Prometeu

Que seja! Estou preparado para tudo.

Coro

É um sábio aquele que teme a Adrasteu [Zeus].

Prometeu

Respeitai, implorai, venerai eternamente esse déspota: para mim Zeus é o que mais desprezo. Exerça ele contra mim, como quiser, o seu poder transitório: ele não há-de reinar muito tempo sobre os deuses. Mas… vejo que se aproxima o seu mensageiro, o ministro desse moderno tirano… sem dúvida vem comunicar-me alguma nova decisão,..

 

– A Determinação –

Io se afasta ao longe rumo às terras do Egito logo chegando o mensageiro dos deuses Hermes para questionar o titã acorrentado sobre as suas revelações.

 

Hermes

É a ti, espírito subtil, vaso de amargura, inimigo confesso dos deuses, benfeitor dos mortais, roubador do fogo celeste, é a ti que eu falo! Declara — é meu pai que ordena! — Qual é o matrimônio de que te comprazes em falar, que lhe há de custar o império? Nada de enigmas ou de velados mistérios: urge que tudo reveles! Prometeu! Não me obrigues a trazer-te uma segunda mensagem. Não é pela revolta, — tu bem o sabes! — que se alcança a complacência de Zeus.

Prometeu

Que discurso arrogante e soberbo! E como fica bem ao ministro dos deuses! Novos senhores de um novo império, vós acreditais habitar palácios inacessíveis às desgraças… Pois bem! Por acaso não vi eu caírem dois tiranos? Verei a queda do terceiro: será a mais rápida e a mais vergonhosa. Pensas porventura que me acovarde, e que me submeta a esses novos deuses? Longe disto estou, Hermes! Podes ir-te embora! Volta sem tardança ao lugar de onde vieste: nada mais saberás por mim.

Hermes

Eis o invencível orgulho que tantas desgraças já te causou!

Prometeu

Sabe que eu não consentiria em trocar minha miséria por tua escravidão. Prefiro, sim! prefiro jazer acorrentado a este penedo, a ser o mensageiro e confidente de teu pai. Eis aí como podemos ferir àqueles que nos maltratam.

Hermes

Sem dúvida, estás, presentemente, numa situação deliciosa!

Prometeu

Minhas delícias… ah! — por elas hão de passar meus inimigos e tu em primeiro lugar!

Hermes

Oh! Porventura tu me atribues a tua desgraça?

Prometeu

Só tenho uma palavra: odeio a todos os deuses que, depois de receber meus benefícios, me ferem injustamente.

Hermes

Tens a razão conturbada, bem se vê; o mal é violento…

Prometeu

Pois que ele se agrave ainda, se é um mal detestar seus inimigos!

Hermes

Como serias insuportável se dominasses um dia!…

Prometeu

Ai de mim!

Hermes

Eis aí uma exclamação que Zeus não conhece!

Prometeu

Pois há-de aprendê-la, com o tempo que tudo amadurece e transforma.

Hermes

No entanto, não te fez mais prudente, como deveria ter acontecido.

Prometeu

Enganas-te! E a prova é que nada te revelarei, vil escravo!

Hermes

Nada dirás, então, do que meu pai te ordena?

Prometeu

Devo-lhe tantos benefícios, que, como vês, tenho obrigação de retribuir!…

Hermes

Prometeu, tu zombas de mim e tratas-me como a uma criança!

Prometeu

Por acaso não é uma infantilidade o pretenderes arrancar de mim uma revelação? Não há tormentos, nem artifícios que me forcem a elucidar esse mistério a Zeus enquanto não forem rompidas as correntes que me prendem! — assim tenho dito! Agora, quando os cintilantes coriscos caem com estrondo e os fogos subterrâneos se confundem com a neve que branqueia as alturas, revolucionando a natureza, nada me fará ceder e eu não revelarei o nome daquele que o há de derrubar do trono.

Hermes

Dize, porém: de que te serve essa obstinação?

Prometeu

Tudo já está por mim previsto: há muito tempo que esta minha resolução está tomada!

Hermes

Insensato! Por que não hás de aprender, ao cabo de tanta desgraça, a agir com sabedoria?

Prometeu

Insistes em vão, Hermes! Para tuas palavras sou surdo como uma onda. Não penses que, temendo os desígnios de Zeus, medroso como uma donzela, eu erga as mãos e implore a piedade àquele que é objeto de todo o meu rancor, para que me liberte destas cadeias. Disso bem longe estou.

Hermes

Vejo que meu apelo é inútil e que meus conselhos não conseguiram convencer-te. Tal qual um cavalo indomável, não afeito ao jugo, mordes o freio e resistes. Mas teu redobrado furor nada vale, afinal. Nada mais impotente do que o orgulho dos insensatos. Visto que não logrei persuadir-te, pensa, ao menos, na tempestade de novas desgraças que hão-de cair sobre ti.

Zeus, por meio de raios, espedaçará este rochedo escarpado; teu corpo permanecerá esmagado sob os fragmentos da montanha. Ao cabo de longo tempo, reaparecerás um dia… Então, um abutre insaciável, — o cão alado de Zeus — virá arrancar de teu corpo enormes pedaços e, — comensal não desejado — voltará todos os dias para se nutrir de teu fígado negro e sangrento. Desse tremendo suplício não esperes ver o fim, salvo se algum deus quiser ficar em teu lugar, a descer aos antros do invisível Plutão, nos redutos sombrios do Tártaro.

Pensa, pois, eu te conjuro! — o que digo não é uma série de vãs ameaças; é uma sentença inapelável. A boca de Zeus não mente nunca; o que ele diz, realiza-se inexoravelmente. Pensa e pondera, Prometeu; a teimosia não vale tanto como a prudência.

Coro

Hermes quer que abandones esse orgulho e adotes uma decisão sensata, ó Prometeu. O que ele diz, afigura-se-nos razoável… Crê! Para o sábio é uma vergonha perseverar no erro cometido.

Prometeu

Eu já sabia tudo, tudo, o que ele acaba de me anunciar! Que um inimigo sofra todo mal que lhe pode fazer o outro, nada mais natural. Pois que caiam sobre mim os raios fulminantes; que os ventos furiosos inflamem os céus; que a tempestade, agitando a terra em seus fundamentos, abale o mundo; que flagelos sem exemplo confundam as vagas do oceano com as estrelas da abóbada celeste; que Zeus, usando seu invencível poder, precipite meu corpo nos abismos do Tártaro; faça ele o que fizer. Eu hei-de viver!

Hermes

Palavras tais não são de um insensato? Que mais falta para esse delírio? Se a sorte o ajudasse, onde cessaria, jamais, o seu vesânico furor? Mas vós, ninfas do mar, vós que tendes pena da vítima de tantos horrores, afastai-vos destes sítios: o horrendo fragor do trovão pode abalar demais os vossos puros espíritos.

Coro

Oh! Dá-nos conselhos a que possamos obedecer. Não podemos nos conformar com tão sinistros ditames. Queres, por acaso, arrastar-nos à ignomínia? Não! Nós partilharemos de tudo o que ele tiver de sofrer! Detestamos a traição… de todos os vícios, é o que mais nos causa horror.

Hermes

Lembrai-vos, ao menos, do que vos preveni!… Se a calamidade que se aproxima vos atingir, não acuseis a sorte… nem digais que Zeus vos feriu com imprevistos golpes de violência. De vós, tão somente, será a culpa… Fostes em tempo avisadas! Não será, pois, por falta de luzes, ou de tempo, que sereis imprudentemente arrastadas pela rede das desgraças.

 

– A Aceitação –

Prometeu

Com efeito, não foi uma ameaça, apenas: a terra põe-se a tremer… O soturno ronco já se faz ouvir… Turbilhões de poeira se erguem… Todos os furacões desencadeados… Parece que estão contra mim! Contra mim, é que Zeus desfecha tão horrendo cataclismo.

Ó minha augusta mãe: ó tu, divino éter que cercais o universo de luz eterna… vede que injustos tormentos me fazem sofrer!

 

FIM