Ésquilo, Oresteia

Uma Peça sobre Vingança, Lei e Justiça 

Carl Rahl 1812–1865

A Oresteia é um conjunto de três peças teatrais chamadas Agamenom, Coéforas e Eumênides que foram escritas por Ésquilo, que viveu entre 525 a.C. a 455 a.C e escreveu setenta e nove obras durante sua vida embora só sete chegaram aos dias atuais. Esta trilogia conta a busca por vingança de Orestes pelo assassinato do seu pai Agamenon, rei de Micenas. A primeira peça descreve a morte do rei logo que este chegou de sua vitória na Guerra de Troia. A segunda peça mostra a vingança de Orestes propriamente dia. E a terceira peça encena o julgamento do protagonista pelos atos que cometeu para alcançar sua vingança.

A três obras oferecidas a seguir foram traduzidas por Lobo Vilela.

ÌNDICE

1) Agamemnon
2) Coéforas
3) Eumênides

 

Agamemnon

Personagens

Agamemnon
Clintemnestra
Egisto
Cassandra
Arauto
Sentinela
Coro e Corifeu (Anciãos de Argos)

Cenário: espaço em frente ao palácio de Agamêmnon em Argos, com um altar dedicado a Zeus no centro e vários altares de outras divindades nos lados. Em um terraço está a Sentinela. É noite.

Sentinela

Aqui no alto do palácio dos Atridas aos deuses todos peço há muitos, longos anos que me liberem da vigília cansativa. Firmado em meu braço dobrado, sempre atento, igual ao cão fiel, de tanto olhar o céu noite após noite agora sei reconhecer a multidão inumerável das estrelas, senhoras lúcidas do firmamento etéreo, indicadoras dos invernos e verões em seu giro constante pela imensidão. Espreito a todo instante o fogo sinaleiro que nos dará notícia da queda de Tróia; são ordens da mulher de ânimo viril, rainha nossa, persistente na esperança. Sempre que faço por aqui meu leito duro e deito molhado de orvalho, sem dormir e abandonado pelos sonhos de outros tempos (em vez de sono tenho medo, grande medo que afasta sempre minhas pálpebras pesadas), tento cantarolar, dizer alguma coisa que me desperte do torpor e me estimule, mas são soluços que me saem da garganta, pois choro as muitas desventuras desta casa outrora tão feliz, tão infeliz agora! Que venha, venha logo o protelado termo de minhas incontáveis atuais fadigas com a mensagem clara inda não recebida!

(Silêncio; a Sentinela permanece atenta; subitamente aparece ao longe uma luz tênue a princípio e depois mais forte; a Sentinela ergue-se e fala com emoção.)

É o sinal! É o sinal! Meus próprios olhos vêem! Eis a noturna luz que mudará decerto a treva em pleno dia! Logo vamos ter em Argos muitas danças e sonoros cantos! Fala alto e forte para que me escute bem a esposa de Agamêmnon em seu leito régio e faça reboar pelo palácio todo um grito estrepitoso de contentamento se é verdadeira esta revelação das chamas e finalmente Tróia forte foi vencida. Começarei eu mesmo a festa; estou dançando! A sorte de meus amos é também a minha e a mensagem da chama vista de tão longe é o lance mais feliz de toda a minha vida! Volte o senhor deste palácio são e salvo e possa eu estreitar-lhe a mão bem-vinda! Quanto ao demais, silêncio! Um peso muito grande prende-me a língua mas a sua própria casa, se possuísse voz, revelaria fatos conhecidíssimos por muitos dos argivos; hão de entender-lhe claramente os que já sabem; não saberão os outros; quando quero, esqueço.

(A Sentinela retira-se do terraço. Gritos de vitória são ouvidos dentro e fora do palácio, de onde saem criadas portando archotes, com os quais acendem chamas votivas e queimam incenso nos altares. No meio das criadas vê-se Clitemnestra, que se prosterna diante do altar central em atitude de prece. Entram em cena, vindo da outra extremidade do palco, os Anciãos, componentes do Coro, encaminhando-se para a frente do palco. Surge o dia.)

Coro

Partiram há dez anos desta terra mandando em mil navios belicosos e tripulados por todos os argivos – apoio marcial a seus anseios – rei Menelau, que detestava Príamo, e seu valente irmão, rei Agamêmnon, Atridas fortes e destemerosos, dois tronos e dois cetros dons de Zeus. Um grito de batalha aterrador repercutiu nos céus vindo de peitos amargurados por justo rancor como o das águias donas das alturas que em solitário, negro desespero ao verem mortos os filhotes frágeis batem os ares com as asas enormes chorando os vãos desvelos com seu ninho que ao regressar acharam destruído.

Porém alguns dos deuses lá do alto – Apolo, ou Pan, ou mesmo o grande Zeus – escuta as queixas das magoadas aves, valentes habitantes do seu reino, e contra quem lhes fez tamanho mal envia pelas Fúrias vingadoras castigo certo e duro, embora tardo. Assim agiu o grande Zeus fortíssimo sempre zeloso da hospitalidade mandando contra Párias os Atridas. Por uma dama, por Helena bela de muitos homens, gregos e troianos travaram mil batalhas ferocíssimas em que no chão se dobram os joelhos e lanças partem-se aos primeiros ímpetos.

Os fatos passam-se conforme devem; caminha tudo para o fim marcado e nem a lenha de lustral fogueira nem abundantes libações e lágrimas tornam propícias oferendas ímpias. Ficamos nós aqui, por sermos velhos já incapazes para pugnas bélicas, firmando nestes sólidos bastões os nossos passos débeis, infantis; a feitos marciais não aspiramos. É igual ao nosso ardor dos peitos jovens mas Ares não nos quer em seu cortejo; a nossa vida já durou demais e temos todos os cabelos brancos; as pernas trôpegas não nos ajudam, como crianças nos primeiros passos; apesar de acordados já sonhamos.

(Aproximando-se do altar central, vêem Clitemnestra orando.)

Mas tu, filha de Tíndaro, o grande, rainha Clitemnestra, vem, responde, informa-nos depressa do que houve; quais as notícias que te transmitiram? Que novas ou rumores te fizeram realizar com desusada pressa tais cerimônias propiciatórias? Os deuses do alto e os das profundezas, os numes do santuários e das ruas ostentam todos os altares cheios de inumeráveis, ricas oferendas; aqui e ali as chamas sobem lépidas levando ao céu o incenso lisonjeiro até nos mais recônditos recantos. Explica-nos, então, qual o motivo de tanto movimento inesperado; transmite-nos o que pode ser dito; desfaze as dúvidas de nossa mente atônita, que desespera às vezes, às vezes se alvoroça de esperança que as chamas dos altares iluminam ao dissipar a dúvida mortal destruidora do ânimo mais forte.

(Clitemnestra, absorta diante do altar, parece ignorar os Anciãos, que voltam à posição anterior. Um deles avança.)

Falar ainda posso, ainda lembro o dia da partida e julgo ver de novo o alegre augúrio de triunfo que se mostrou aos bravos combatentes (as divindades deixam-nos intacta ao menos uma força na velhice: o dom dos doces cantos convincentes).

(Mais musical.)

Os dois valentes reis Aqueus de mente unânime levaram para Tróia a gente grega portando as lanças ansiosas por vingança, tocados por presságio favorável: de súbito surgiram antes os reis, senhores de tantas naus e homens, duas águias rainhas das alturas; uma, toda negra, a outra quase (tinha o dorso branco), voando nas proximidades do palácio, cortando os ares nítidos do lado da mão que brande as armas; ambas atacavam, terríveis, ávidas, pejada lebre; a vítima, desesperada, contorcia-se na luta por fugir daquelas garras, da morte próxima que logo acabaria com as céleres carreiras e com tudo; mas foi em vão; as duas águias devoraram-na e os filhos inda ocultos em seu ventre.

Coro

Tristezas, canta tristezas, e possa o bem triunfar.

Ancião

Então o sábio adivinho dos exércitos, olhando os dois Atridas marciais, equiparou-os às soberbas águias ávidas, devoradoras de indefesas lebres, e disse interpretando o portento que vira: “No tempo próprio, eles, que ora partem, conquistarão por certo a terra do rei Príamo; e quando as altas torres da cidade caírem, as riquezas de uma raça toda serão tomadas; o destino quer. Mas aconselho-vos o máximo cuidado! Pode algum deus zeloso arrebatar de vossas mãos aflitas por poder impô-lo o jugo duro feito para Tróia! A casta Ártemis em sua piedade está irada com os alados cães de Zeus seu pai, que devoraram frágil presa e suas crias inda por nascer; ela maldiz o bárbaro festim das águias.”

Coro

Tristezas, canta tristezas, mas possa o bem triunfar.

Ancião

“Mas basta de falar; é quanto me permite dizer a bela deusa benfazeja que se diverte com os ferozes leõezinhos ainda frágeis e com as tenras crias das feras todas habitantes das florestas, se quero interpretar algum presságio – portento auspicioso ou(quem sabe?) funesto – no voo velocíssimo das aves. Invoco Apolo e peço a sua intercessão; não prenda Ártemis as naves gregas com ventos fortes insuflados contra elas impondo mais um sacrifício ímpio, adverso às leis, incompatível com o júbilo, artífice de lutas em família, amargo fim da reverência conjugal. Já antevejo a cólera bem próxima, terrível, inapaziguável, sem remédio, guardiã insidiosa desta casa, alerta sempre, sempre ansiosa por vingar com crueldade a vítima inocente.” Tais foram as palavras do profeta Calcas diante da mansão de nossos reis, presságio de terríveis males e de bens enormes que ditaram os augúrios no dia da partida; e em seguida a eles…

Coro

Tristezas, canta tristezas, mas possa o bem triunfar. Ancião Zeus! Seja Zeus quem for! Que a minha invocação se lhe aprouver, tenha boa acolhida! Depois de muito ponderar, somente em Zeus diviso o fim de minha angústia enorme. Um deus havia antigamente, poderoso e ousado para todos os combates (seu nome no futuro nem será lembrado); surgiu depois um outro deus mais forte mas foi também vencido e desapareceu. Agora os homens que convictamente vêem no grande Zeus o vencedor final desfrutam o conceito de mais sábios, pois Zeus sem dúvida foi quem levou os homens pelos caminhos da sabedoria e decretou a regra para sempre certa: “o sofrimento é a melhor lição”.

Da mesma forma que durante o sono, quando somente o coração está desperto, antigas penas nossas voltam à memória, assim os homens vem, malgrado seu, a sapiência; esse constrangimento bom é comunhão da graça procedente dos deuses entronados em augustas sedes. Aconteceu o mesmo ao condutor das naves gregas – o mais velho dos Atridas – que, sem Ter dúvidas quanto às palavras do vate iluminado, aceitou logo os golpes impiedosos da fortuna adversa naquela hora em que a ardorosa gente grega permanecia inerte frente a Cálcis (lá onde as águas de Áulis sobem e recuam), retida por ventos desfavoráveis enquanto as poucas provisões se consumiam nas naus imóveis com as velas descidas.

As brisas que sopravam rápidas do Strímon trazendo o desastroso ócio, fome, perigos, dispersão dos homens, fim das naves havia tanto tempo ali nas paradas, ceifavam o melhor da juventude grega naquela espera longa, interminável; na hora em que o profeta, interpretando Ártemis, anunciando aos chefes dos Aqueus a contingência inexorável, mais cruel que aquela espera desalentadora, os dois filhos de Atreu golpearam a terra com os cetros e tiveram de chorar. “Será atroz o meu destino se resisto”. falou o mais idoso dos dois reis; “será atroz, também, matar a minha filha, minha Ifigênia muito, muito amada, adorno, encantamento do palácio meu, manchando minhas mãos de pai com o sangue do sacrifício de uma virgem inocente. Qual dos caminhos me trará agora mágoa menor? Será possível nesta hora abandonar de vez a expedição traindo tantos e tão prestes aliados?

De certo está com eles a justiça se querem decididamente o sacrifício capaz de os ventos nos trazer, propícios, embora tenha de jorrar o sangue puro! Que seja tudo para o nosso bem!” Depois de aceito o jugo da necessidade o rei fez sua escolha e admitiu o sacrifício, vilania inominável; a decisão foi obra de um instante; iria consumar-se a máxima ousadia. A decepção funesta arrasta os homens a insólitos extremos de temeridade; é conselheira péssima e é fonte inesgotável de amargura e sofrimentos.

Pois Agamêmnon não se atreveria ao holocausto de Ifigênia, sua filha, a fim de que pudessem ir as naus de mar afora resgatar Helena bela? As súplicas da vítima, seus gritos pungentes pelo pai, a idade virginal em nada comoveram os guerreiros ansiosos por saciar a sede de combates. Depois da invocação aos deuses todos, Mandou o pai que subjugassem a sua filha; usando as vestes para proteger-se, tentava a virgem frágil resistir lutando desesperadamente, mas em vão: como se fosse um débil cordeiro indefeso, puseram-na no altar do sacrifício; brutal mordaça comprimia rudemente seus lindos lábios trêmulos de medo e sufocava imprecações; quando caíram por terra as vestes de formosas cores, a cada um de seus verdugos impassíveis volveu os eloqüentes olhos súplices – tão expressivos como se pintura fossem – desesperada por falar mas muda, ela, que tantas vezes nas festivas salas do senhoril palácio de Agamêmnon cantava com a voz doce de donzela tímida os hinos em louvor ao pai amado!

O que depois aconteceu não pude ver e mesmo que pudesse não diria. A arte do profeta Calcas não mentiu; por da justiça os sofredores se tornam dóceis e o porvir há de mostrar-se no tempo prefixado fatalmente; até que venha é inútil a preocupação (por que chorar se a hora não soou?). Chegando o dia tudo se revelará.

(Clitemnestra, finda a prece e depostas as oferendas, afasta-se do altar central, marchando juntamente com as criadas para onde estão os Anciãos do Coro.)

Coro (percebendo Clitenmestra que se aproxima.)

Agora só devemos esperar, em face da incerteza do futuro, que o fim de tudo seja favorável, tal qual deseja quem nos traz aqui – Segunda apenas diante de Agamêmnon e no momento protetora única da terra de Ápis, Argos gloriosa.

Corifeu (dirigindo-se a Clitemnestra.)

Obedecendo, Clitemnestra, a teu poder, vim para ouvir-te; é justo reverenciar em frente ao trono tanto tempo desusado aquela que com o rei é nossa governante. Se as novas que conheces são boas ou más ou se nos mandas propiciar os deuses bons movida e animada só pela esperança – suave mensageira -, ouvir-te-ei solícito; e não me queixarei se nada me disseres.

Clitemnestra

Desejo que do seio maternal da noite desponte cheio de venturas este dia. Terás de mim notícias mais que favoráveis, além da mais risonha das expectativas: as forças gregas conquistaram Tróia toda!

Corifeu

Repete, por favor, pois não entendi bem!

Clitemnestra

Os gregos capturaram Tróia! Ouviste agora?

Corifeu

O júbilo me vence e até me faz chorar!…

Clitemnestra

Teus olhos falam bem de tua lealdade.

Corifeu

Que provas tens? Há garantias de verdade?

Clitemnestra

Se os deuses não quiseram enganar-me, há.

Corifeu

Terás acreditado em sonhos convincentes?

Clitemnestra

Não creio nas visões da mente adormecida.

Corifeu

Algum rumor sutil passou por teus anseios?

Clitemnestra

Igualas o meu pensamento ao das crianças?

Corifeu

Revelas, então, quando a cidade foi tomada!

Clitemnestra

Na noite antecedente a este mesmo dia.

Corifeu

Que mensageiro chegaria tão depressa?

Clitemnestra

Hefesto, que mandou dos píncaros do Ida a sua chama lúcida, vista em seguida lá dos penhascos de Hermes, na famosa Lemnos; de lá o fogo forte foi comunicado ao monte Atos, onde Zeus se refugia; vencendo o interminável mar que vem depois, levou nova fogueira a rápida mensagem às incansáveis sentinelas do Macisto; novo sinal de chamas foi aceso logo, muito distante das águas do Euripo; a luz, igual à de outro sol, foi vista do Messápio por gente alerta que depressa transmitiu a nítida mensagem vinda de tão longe por toda a infindável planície do Asopo; nas culminâncias do Citéron nova chama luziu como se fora lua fulgurante; ali se iluminou a fogueira seguinte, capaz de ser notada ainda mais longe e seu clarão intenso atravessou o Gorgópis; tendo atingido, infatigável, o Egiplancto, seguiu a chama o rumo predeterminado e a mais brilhante das fogueiras e maior pôde ser vista para lá do promontório que protege a saída do golfo Sarônico; dali partiu nova mensagem luminosa e chegou logo à outra meta desejada – o alto monte Aracne, penúltima etapa, posto avançado atento de Argos -; finalmente, daqui pudemos ver a luz alvissareira, vinda diretamente da primeira chama. Não foi em vão que transmiti as minhas ordens aos homens postos no percurso da mensagem e a glória deste feito é igualmente deles. Eis a evidência que te posso oferecer; Veio de Tróia, mandada por meu senhor.

Corifeu

Rainha, agora eu posso agradecer aos deuses, mas gostaria de escutar-te novamente pois meu espanto ainda não está desfeito.

Clitemnestra

Agora os soldados Aqueus dominam Tróia. Na praça capturada certamente ouve-se o burburinho de mil vozes bem distintas. Derrame-se vinagre e azeite num só vaso; os dois não se misturarão de modo algum, como se fossem inimigos acirrados. Da mesma forma, os brados dos vitoriosos e os dos vencidos são de todo inconfundíveis; separa-os diferença enorme de fortunas. Mulheres desvairadas tentam descobrir os corpos dos irmãos e dos esposos mortos; sobre os cadáveres dos pais crianças choram (são lábios antes livres lamentando males). Mas os felizes vencedores, já refeitos dos sobressaltos e fadigas e perigos da derradeira luta nas noturnas trevas, reúnem-se famintos junto aos poucos víveres ainda restantes na cidade saqueada para a primeira refeição provada em paz. Não haverá depois deveres marciais; repousarão nas casas da vencida Tróia que lhes couberem na partilha por sorteio, livres do orvalho na vigília sem abrigo; desfrutarão enfim o sono sem cuidados com que nas tréguas dos combates mal sonhavam. Se cultuarem os bons deuses como devem e os santuários da cidade subjugada, de vencedores não se tornarão vencidos.

Dominem os conquistadores a soberba e não se deixem arrastar pela cobiça a temerárias, a sacrílegas pilhagens! A luta não termina com a vitória; falta a volta, que é metade de um longo caminho. Ainda que regressem todos de mãos limpas, sem máculas de excessos e de impiedades, o ultraje aos numerosos inimigos mortos se não causou ainda amargas decepções mais tarde pode provocar rancor divino. Ouviste simples pensamentos de mulher; que sejam um prenúncio de ventura e paz e finalmente possa o bem prevalecer.

Corifeu

Procede como se homem fosses e prudente, e tua fala clara me persuadiu. Irei levar aos deuses minha gratidão, pois para tantas provações e tão cruéis teremos recompensas em medida igual.

(Clitemnestra retorna ao palácio seguida pelas criadas.)

Coro

Saúdo Zeus supremo que nos deu imensa glória; salve, noite amiga que acobertaste a cilada fatal aos altos muros da orgulhosa Tróia onde morreram grandes e pequenos, vítimas todos do destino duro. Venero, sim, o hospitaleiro Zeus, o deus que tudo fez, irresistível, e preparou durante muito tempo o inelutável arco da vingança para que as setas dele disparadas em direção a Páris não caíssem aquém do alvo nem se extraviassem num vôo vão além dos astros claros.

Foi Zeus quem dirigiu a punição, pois é inconfundível o sinal que deixa em sua obra a mão divina. Pensar é para Zeus é igual a agir. Afirmam uns que os deuses não vigiam os descuidosos de dever sagrado; são pensamentos atrevidos, ímpios! A ruína é punição inexorável da pretensão sem termo e sem medida e das extravagâncias da opulência. O dom supremo é ter comedimento; queiramos só os bens inofensivos, suficientes quando há bom senso, pois a prosperidade nunca serve aos que se sobrepõem à justiça.

Transtorna-os a sinistra Tentação, insidiosa filha do Delírio: o mal, então, se torna irremediável; não se disfarça mais, todos o vêem – sinistra, inocultável evidência. Iguais a moedas falsificadas enegrecidas por pedra de toque, revelam os perversos a maldade como crianças que perseguem pássaros, manchando os seus com nódoa inapagável.

Os deuses não escutam suas súplicas; a ruína é o fim de todos os culpados. Assim agiu outrora o belo Páris; bem acolhido pelos dos Atridas, ignobilmente desonrou um lar raptando uma mulher presa por núpcias! Ela, deixando ao povo atrás de si o estrépito de lanças e de escudos, guerreiras naus e o aparato bélico, levou a Tróia o luto em vez de dote quando transpôs as portas da cidade, ousando o que jamais ninguém ousara.

Naquele instante os vates inspirados disseram em gemidos incontidos: “Ai do palácio! Ai, palácio e príncipes!… Ai do vazio leito do marido marcado ainda pelo corpo amado!… Silencioso é só, entregue à dor, ferido em seu orgulho um homem sofre, aniquilado, sem poder queixar-se. Sente saudade atroz, angustiante, da esposa que se foi de mar afora; a imagem dela inda povoa a casa; a própria graça dos adornos belos agora se afigura detestável; foi-se com ela o atrativo deles.

Em sonhos o marido solitário é visitado por visões fugazes que só lhe trazem alegrias vãs, pois mal se mostram já se desvanecem fugindo fluidas de seus dedos ávidos como asas agitadas pelo sono. Apenas a saudade permanece em seu palácio, ali junto à lareira, constante e cada vez mais forte.” Por toda a parte, em cada casa triste de onde partiu algum guerreiro Aqueu, o desencanto reina angustiando os corações e tudo é inquietação; todos se lembram bem dos que partiram e pressentem que ao lar de cada um em vez dos homens idos voltarão apenas urnas fúnebres e cinzas.

Ares sangrento, mercador de morte, decide o resultado das batalhas e a quem espera manda lá de Tróia o pó que as fogueiras crepitantes num instante reduziram tantos gregos, ainda quente e úmido de lágrimas. Louvores se misturam a gemidos: “Como era destemido este guerreiro!” “Aquele ali tombou valentemente na luta rude!” “Por esposa alheia”, alguém sussurra fazendo segredo. E doloroso descontentamento brota furtivamente e se difunde visando aos dois Atridas vingadores.

Em Tróia, todavia, bem distante, ao longo das muralhas da cidade jazem por terra muitos gregos mortos na época mais bela da existência, conquistadores, sim, mas engolidos na hora extrema pelo chão vencido! É perigosa a voz de uma cidade magoada, a maldição de muita gente. Prevejo, temeroso, tenebrosos, terríveis fatos, pois os deuses guardam a nítida visão de tantas mortes; com o tempo as negras Fúrias vingadoras envolvem irremediavelmente os maus injustamente venturosos e o máximo poder reduz-se a nada; e desse fim sem sombra de esperança ninguém, ninguém jamais escapará!

A glória imensa pode ser fatal pois Zeus com seus irresistíveis raios atinge facilmente as culminâncias. Prosperidade que não cause inveja, eis meu desejo; não me move a idéia de conquistar e destruir cidades, nem quero ver um dia minha vida nas mãos de impiedosos vencedores. Anunciada por clarão intenso, mensagem célere percorre Argos; se é verdadeira ou nada mais que engodo armado pelos deuses, quem garante?

Seria pueril ou insensato dar crédito a esperanças despertadas por incomuns mensagens flamejantes que podem resultar em desenganos; a decepção sucede à esperança. É próprio das mulheres acolher com avidez rumores agradáveis sem guardar a prova da verdade; se rápida a certeza se insinua na mente das mulheres, mais depressa desfaz-se a feminina convicção.

(Alguns dias depois; mesmo cenário; os Anciãos do Coro estão novamente reunidos.)

Corifeu

Em breve saberemos se o revezamento de chamas claras e fogueiras sinaleiras nos transmitiu um fato, ou se foi sonho apenas essa visão de luz, engano dos sentidos; caminha em nossa direção, vindo da praia, veloz recém-desembarcado mensageiro com folhas de oliveira em volta da cabeça, todo coberto de poeira, irmã do lodo; e bem se vê que não irá ficar calado nem acender fogueiras no alto das montanhas – sinais equívocos de chama e de fumaça -; deve trazer-nos com palavras categóricas jamais sentidas alegrias, ou então…

(causa-me horror esta segunda alternativa…).

Que às perspectivas agradáveis, já sabidas, venham juntar-se razões novas de alegria! E quem tiver agora pensamentos outros ou maus desejos relativamente ao povo há de o castigo receber que bem merece!

(Entra o Arauto, ofegante.)

Arauto

Saúdo o solo de Argos, terra de meus pais! Dez anos se passaram, mas enfim retorno! Vi numerosas esperanças fracassarem mas uma realizou-se: nem sequem em sonhos imaginava vir morrer em minha terra e ter aqui a pretendida sepultura! Seja este chão bendito e seja abençoada a luz do sol, e Zeus bendito nas alturas!

Saúdo Apolo Pítio (não nos atravessem jamais as tuas setas!). Temos suportado durante muito tempo a tua hostilidade lá longe às margens do Escamandro; sê agora o nosso protetor e guarda, santo Apolo!

Saúdo as divindades todas da cidade, principalmente meu patrono e guia, Hermes, Arauto-mor pelos Arautos venerado! E vós, também, heróis que protegeis as naus, sede benévolos com todos os guerreiros que as lanças não exterminaram nas batalhas!

Salve, palácio de meus reis, seguro abrigo! Salve, sacrários! Salve, deuses poderosos que o sol clareia! Como em dias já passados, mostrai semblante acolhedor ao nosso rei depois dos anos infindáveis dessa ausência! Trazendo luz às trevas Agamêmnon volta por vossa graça e para o bem de todos nós.

É justo recebê-lo com festas sem par, pois ele destruiu a terra dos troianos, onde não foi deixada pedra sobre pedra, com as armas que lhe pôs nas mãos Zeus vingador; até os santuários foram arrasados e o solo revolvido; Tróia outrora altiva suporta hoje o jugo degradante e duro imposto por nosso senhor recém-chegado, o filho mais idoso e mais feliz Atreu, digno mais que ninguém de grandes homenagens. Findou a presunção de Páris e de Tróia; o sofrimento foi maior que o benefício. Herói de rapto e de rapina, viu perdido o fruto de seu crime e apenas malefícios causou à sua gente e a todo o povo seu; coube uma pena dupla aos filhos do rei Príamo.

Corifeu

Arauto das hostes argivas, rejubila-te!

Arauto

Seria bom morrer agora, junto aos meus!…

Corifeu

Atormentavam-te as saudades desta terra?

Arauto

De tal maneira que já não contenho as lágrimas!

Corifeu

não era, então, apenas nossa essa tristeza…

Arauto

Que dizes? Sê explícito, pois não te entendo.

Corifeu

Sofríeis por voltar e nós por vossa volta.

Arauto

Eram saudades dos nossos combatentes?

Corifeu

Muitos soluços transbordavam de meu peito.

Arauto

Qual era a causa da tua melancolia?

Corifeu

Há muito tempo meu remédio é não falar…

Arauto

Na ausência de teu rei alguém te amedrontava?

Corifeu

“Seria bom morrer agora”, tu disseste…

Arauto

Porque se concretizam hoje meus desejos. Dão certo alguns projetos nossos, outros não; somente os deuses são imunes a fracassos. Se eu pretendesse descrever as provações, o desconforto, os incontáveis sofrimentos de nossa expedição, palavras comovidas diria relembrando tantos dias tristes. Desembarcados, inda padecemos mais, premidos contra as fortalezas inimigas; caía chuva lá do céu, caía orvalho e as vestes dos soldados não os abrigavam.  Se fosse eu falar do frio intolerável que até matava os pássaros no alto Ida… E dos verões, quando ao torpor do meio-dia o mar imóvel e sem brisas dormitava… Mas não repetirei lamentos.

Nossas penas estão passadas; terminaram as dos mortos, que nunca, nunca mais conseguirão erguer-se. Por que enumerar os desaparecidos, afligindo os sobreviventes, mais felizes, com a rememoração de alheias desventuras? Conforta-nos bastante o derradeiro adeus que nos disseram os passados infortúnios; nós, os remanescentes das hostes argivas tivemos afinal mais ganhos do que perdas; depois de tantos mares percorrer e terras é muito justo proclamar altivamente diante do fulgor do sol: no fim da luta as forças vencedoras da arrogante Tróia ofereceram os troféus lá conquistados aos deuses bons de toda a Grécia, que revêem, glorificando seus altares veneráveis. E quem ouvir depois a história desses feitos terá de enaltecer a Hélade e seus chefes; também será lembrada a ajuda de Zeus pai que tudo fez. Termina aqui a minha fala.

Corifeu

Teus ditos me venceram, não posso negar; é sempre tempo de render-me à evidência.

(Vendo Clitemnestra chegar à porta do palácio.)

Pertencem mais a esta casa as novidades e a Clitemnestra; a mim me coube muito delas.

(Entra em cena Clitemnestra, vinda do palácio.)

Clitemnestra

Faz muito tempo que se ouviu meu grito alegre de triunfo, quando o fogo nítido nas trevas primeiro deu a conhecer o fim de Tróia apregoando a sua ruína e rendição. Houve entre nós quem murmurasse, quem dissesse: “a chama das fogueiras é tão convincente que julgas consumada a perdição de Tróia? O coração engana às vezes as mulheres”. Fui censurada, fui havida por demente, mas nem por isso descuidei de prescrever os sacrifícios rituais granulatórios. Por minha vontade só firme de mulher, em todos os recantos da cidade alegre soaram alto as merecidas louvações aos deuses; sobre seus altares recendeu incenso forte consumido pelas chamas.

Qual o valor, então, de repetir as novas já conhecidas? Ouvirei do próprio rei a história toda; por enquanto quero apenas cuidar depressa de cumprir a minha parte, tratando como devo o meu senhor que volta. não há para a mulher satisfação maior que a de mandar abrir as portas ao marido salvo da morte pelos deuses nas batalhas. “Retorne sem demora!” Nada mais desejo, pois a cidade é dele e o quer de volta já.

Que venha ao lar e veja a companheira honesta como a deixou, zelosa, igual a cão fiel, maior amiga dele e inimiga máxima dos que lhe querem mal, a mesma esposa em tudo, durante tanto tempo guardiã atenta de quantos bens ficaram sob o seu cuidado. não conheci prazeres vindos de outros homens e nada sei de intrigas e maledicência (tais coisas são para mim totalmente estranhas).

Arauto

Numa mulher tão nobre não chega a chocar essa altivez onde tudo é pura verdade.

(Clitemnestra volta ao palácio.)

Corifeu (dirigindo-se ao Arauto.)

São para tua informação essas palavras, mas quem as ouve e as interpreta retamente conclui depressa que elas são todas malévolas. Conta-nos algo agora sobre Menelau: também voltou o chefe amigo desta terra convosco são e salvo: quero ouvir de ti.

Arauto

Seria vão tentar passar relatos falsos por verdadeiros; durariam pouco tempo.

Corifeu

Preferiríamos notícias agradáveis mas que exprimissem simultaneamente os fatos; as falsas alegrias logo se desfazem.

Arauto

De Menelau e suas naus, infelizmente não há na armada quem saiba dizer. Não minto.

Corifeu

Terá deixado Tróia antes dos outros gregos? Ou uma tempestade – perdição de todos – causou a dispersão das naus e desgarrou-as?

Arauto

Foste direto ao alvo, igual a bom archeiro; poucas palavras mostram o desastre enorme.

Corifeu

Conheces a impressão dos outros navegantes? É de que esteja vivo, ou o consideram morto?

Arauto

Não há quem saiba com certeza; só o Sol que vivifica a terra poderá dizer.

Corifeu

Serás capaz de relatar a tempestade mandada pelo céu por sobre as nossas naus e tudo que ocorreu, e mesmo o fim de tudo?

Arauto

Palavras tristes não condizem com momentos de bons augúrios; seja honrado cada deus em sua vez. Se um mensageiro, consternado, relata ao povo a destruição de tantas naus – terrível golpe imposto a toda uma cidade -, de muitos lares em que vítimas sem número ceifou impiedoso o duplo açoite de Ares – dobrada maldição, parelha sanguinária -, quando as notícias vêm repletas de desgraças,

o Arauto pode entoar com propriedade, então, o canto lamentoso e lúgubre das Fúrias. Mas se transmito a uma cidade jubilosa notícias boas de vitória e salvação, por que misturarei desgraças e venturas falando-vos de desastrosas tempestades, prenúncio da divina ira contra nós? Pois mar e fogo, antes ferozes inimigos, em aliança se juntaram e a selaram despedaçando as infelizes naus argivas! Em plena noite os vagalhões nos açoitavam.

As naus se entrechocavam todas, impelidas irresistivelmente pelos ventos trácios e proas destruíam proas com fragor em meio à fúria da procela; golpeadas sem trégua pelas fortes chuvas, nossas naus desarvoravam, desgarravam-se, perdiam-se, joguetes da tormenta grávida de males. E quando a luz do sol apareceu radiosa o mar Egeu surgiu florido de cadáveres de gregos e destroços do desastre náutico.

No entanto nós, e nossa nau com o bojo intacto, fomos poupados por alguma divindade que ocultamente pôs mão forte no timão. Quis a fortuna salvadora acomodar-se em nossa proa e felizmente nos livrou de enormes ondas e de escolhos traiçoeiros. Assim salvamo-nos da morte no oceano, mal crendo ainda em nossa sorte favorável. Pensamos ansiosos, quando veio o dia, em nossos infortúnios e na frota aniquilada pela negra tempestade.

Agora, se qualquer dos nossos inda vive, há de sem dúvida pensar que nós estamos perdidos (e por que não pensaria assim se o mesmo imaginamos a respeito deles?). Mas praza aos céus que o fim de tudo seja bom. Mais do que tudo espero Menelau de volta. Se sol onividente o descobrir um dia com vida e bem por proteção do grande Zeus que ainda não intenta destruir de todo a nobre estirpe oriunda do famoso Atreu, há esperanças de que volte um dia a nós. São verdadeiras as palavras que escutaste.

(Retira-se o Arauto.)

Coro

Quem terá dado nome tão correto a Helena bela, essa esposa de espadas, envolta em desavenças, dor e ruínas, nascida para destruir armadas e perdição dos homens e cidades? De certo alguma oculta potestade que em nossos lábios pôs a voz dos fados. Deixando atrás de si faustosa vida fugiu de mar afora, impulsionada por Zéfiro gigante com seu sopro.

Seguiram-na incontáveis caçadores armados e vestidos de guerreiros no encalço do sinal fugaz dos remos até as margens verdes dos Simóis, por obra e causa da discórdia rubra. A cólera de rígidos desígnios mandou a Tróia bodas lutuosas, cobrando o grande Zeus hospitaleiro na hora certa o preço da desonra daqueles que, com voz harmoniosa, cantavam hinos de louvor da noiva e seus parentes no himeneu solene.

A célebre cidade do rei Príamo inteira conheceu um canto lúgubre que agora entoa em soluçada voz entrecortada de lamentações; maldizem Páris, o funesto noivo, e choram sob o fardo insuportável da vida muito mais que desgraçada, repleta de terrível amargura de verem mortos tantos filhos seus. Acolhe alguém um leãozinho em casa, tirando ainda tenro da leoa e desejoso apenas de seu leite; é inofensivo nos primeiros dias; dócil, diverte-se com os meninos e delicia mesmo os mais idosos, em cujos braços deixa-se ficar como se também fosse uma criança submissa ao ventre e grata, no momento, à generosa mão que a alimenta.

Mas chega o dia em que, depois de grande, revela a própria natureza bruta: em troca dos cuidados e desvelos devora ovelhas e destrói rebanhos num trágico banquete sem convite. A casa é poluída pelo sangue e seus senhores choram desolados diante da carnificina enorme; foi um ministro de desgraça e dor que alimentaram por ordem divina.

Da mesma forma, penso, veio a Tróia assemelhando-se antes a prenúncio de tempos calmos, de tranqüilidade, um frágil ornamento de beleza, suave seta que vulnera os olhos ou flor de amor que fere corações. Mas num instante tudo transmudou-se e a esposa recém-vinda converteu-se na perdição de um lar, de todo um povo, por decisão de Zeus hospitaleiro, mandante das lacrimogêneas Fúrias.

Repetem os mortais há muito tempo velhíssimo provérbio: “da fortuna imensa de um mortal germinam logo males inda maiores para os seus”. É diferente o meu entendimento: ações iníquas geram fatalmente iniquidades umas sobre as outras, idênticas em tudo à sua origem; porém nas casas onde houver justiça jamais filhos perfeitos faltarão.

Uma arrogância mais antiga gera nova arrogância em meio a gente má e ao se formar, a vida perpetua a audácia ímpia como a sua estirpe, destino negro de mil gerações. Nos lares mais discretos, todavia, pode a justiça cintilar constante enaltecendo a existência simples; dos palácios dourados onde existem mãos impuras ela se retira rápida, olhando para onde houver pureza, indiferente à força da riqueza e às suas glórias feitas de ilusões. E guia tudo para o termo certo.

(À frente de um grande cortejo aparece Agamêmnon, num carro aberto puxado por soldados; atrás, num carro menor, também de pé, vê-se Cassandra. Quando os carros param, os Anciãos do Coro se curvam reverentemente.)

Coro

Salve meu rei, filho de Atreu, herói de Tróia! Nas homenagens justas que te rendo procuro resistir à tentação de excessos mas não desejo aparentar frieza. Alguns mortais apenas cuidam de aparências e não se cingem à conveniência. Dirigem quase todos os infortunados olhares de piedade simulada, mas o aguilhão do verdadeiro sentimento não chega ao coração; porém se a hora é de compartilhar honestas alegrias fingem sentir um júbilo real impondo ao rosto indiferente falso riso.

Ao homem mais vivido, todavia, conhecedor de sua grei, de seus amigos, jamais iludirão as aparências; verá nos corações forçadamente alegres a hipocrisia da afeição fictícia. Em tempos já passados, quando organizavas a expedição para buscar Helena, não nego que me pareceste um insensato e tíbio no timão de tua mente, disposto a imolar guerreiros valorosos na tentativa de recuperar aquela criatura sem pudor algum!

Hoje, porém, falo com o coração e como amigo verdadeiro eu ofereço aos vencedores meu devotamento. Se quiseres saber descobrirás com o tempo quem foi leal contigo ou desleal entre os argivos que ficaram por aqui.

(Abrem-se as portas do palácio e aparece Clitemnestra, seguida por numerosas criadas, detendo-se nos degraus da escada.)

Agamêmnon (Ainda de pé no carro.)

Dirijo minha saudação inicial à terra argiva e aos benevolentes deuses aos quais sou devedor da graça do regresso, e por me terem permitido impor a Tróia a justa punição de uma total derrota. Indiferentes às arengas arrastadas e à réplica pouco sincera dos culpados, em gesto unânime os deuses depositaram seu veredicto na urna sanguinolenta: “pereça Ílion, seja destruída Ílion”!

A urna do perdão permaneceu vazia; os votos da esperança não apareceram. Até agora o negro fumo dos incêndios é testemunha da destruição de Tróia; ainda sopram as rajadas do castigo, e sobe aos céus, das brasas meio consumidas, o odor de uma opulência reduzida a cinzas. Por esses fatos temos de testemunhar contritamente nossa gratidão aos deuses.

Levamos à cidade as penas da vingança; a luta por uma mulher lhe trouxe a ruína vinda do monstro argivo, do cavalo enorme em cujo bojo estavam os soldados prontos, irresistíveis no ataque final a Tróia quando as brilhantes Plêiades já declinavam; buscando carne humana em todos os redutos o régio leão saciou-se de sangue.

(Voltando-se para o Ancião que o saudara.)

Foi para as divindades esse longo exórdio. E quanto à tua observação, que ouvi de ti e guardo na memória, concordo contigo e tens em mim um defensor; há poucos homens capazes de encarar com naturalidade a boa sorte de um amigo, sem inveja, pois o veneno da malevolência vence e toma posse da alma e dobra as amarguras dos torturados pelo sórdido despeito diante da visão da ventura dos outros em nítido contraste com a má sorte própria.

Sei distinguir uma amizade verdadeira da falsa, e chamo de simulação de sombras a hipocrisia dos amigos na aparência. Apenas Odisseu, que nos acompanhou a contragosto, tendo de enfrentar a luta mostrou-se companheiro certo e dedicado; esteja ele vivo ou morto, foi assim. Quanto ao restante, a respeito desta cidade e dos bons deuses, anunciem-se assembléias e logo delibere-se em debates públicos.

Se tudo corre bem devemos ter cuidado a fim de que tenha seqüência a boa sorte, mas onde houver necessidade de remédio livremo-nos das conseqüências da doença cauterizando e extirpando o que vai mal. Em breve transporei os sólidos umbrais de meu palácio e lar, prestando de antemão tributo aos deuses que me trazem de regresso guiando-me de muito longe. E que a vitória permaneça comigo para todo o sempre!

(Clitemnestra retoma a marcha em direção a Agamêmnon, seguida por criadas trazendo longas passadeiras cor de púrpura. Para a certa distância de Agamêmnon.)

Clitemnestra

Concidadãos argivos venerabilíssimos aqui presentes, não me sinto envergonhada de confessar em vossa varonil presença minha amorosa impaciência muito longa; desfaz-se a timidez com o perpassar do tempo. Por própria e dura experiência falarei de minha insuportável vida solitária durante a estada interminável deste homem aos pés do altos muros de Tróia antiquíssima. Primeiro, é um angústia desesperadora permanecer a esposa desacompanhada no lar vazio, separada do marido, ouvindo maus prognósticos seguidamente e recebendo, apreensiva, informações reveladoras de reveses repetidos, que tem de transmitir ao povo receoso.

Houvesse esse homem sido mesmo vítima dos ferimentos todos que nos relataram mais furos haveria em seu corpo forte que malhas numa grande rede; tivesse ele morrido tantas vezes quanto me disseram, então, sem exagero, ele teria tido três corpos como Geríon e poderia vangloriar-se de seu corpo recoberto por manto tríplice de terra, muita terra – morte distinta para cada um dos corpos. Tais eram os rumores maus, exasperantes, que me traziam desespero (muitas vezes servas atentas afrouxaram de meu colo sinistros, tensos laços de cordas pendentes). Por isso e nada mais Orestes, nosso filho, depositário de nossa esperança única, não se acha mais comigo, como fora próprio.

Não te pareça estranha sua ausência agora; amigo certo cuida dele com desvelo – o bom foceu Estrófio, que me pôs a par perspectivas duplamente perigosas -: os riscos teus na longa luta lá em Tróia e a presumível rebeldia aqui do povo, capaz de pôr abaixo um dia o fiel Conselho que sustentava o teu prestígio, pois bem sabes que os homens tripudiam sobre os derrotados. Tais previsões me pareceram verossímeis. Falando agora um pouco mais de minhas mágoas, secou a fonte copiosa de meu pranto e não me resta uma só lágrima a chorar.

Ardiam os olhos em intermináveis vigílias lamentosas, na dilacerante expectativa de não ver aparecerem lá no horizonte tantas vezes contemplado as chamas das fogueiras que não se acendiam. E muitas vezes o zumbido malsoante de algum mosquito despertava-me de sonhos repletos de terríveis sofrimentos teus, demasiados para sono tão fugaz. Hoje, porém, com o coração aliviado enfim de tanta e tão cruel ansiedade, saúdo neste homem o mastim fiel que guarda bem o seu rebanho; o arrimo firme, a salvação das naves; a coluna mestra, o sustentáculo do teto alto e sólido; o filho único de pai muito querente; a terra firme divisada pelo nauta desesperado e ansioso por salvar-se; aurora límpida após noite tormentosa e fonte fresca para o viajar sedento (é doce ver-nos livres de males ingentes…).

São merecidos todos esses elogios. Fique o despeito amargo bem distanciado, pois muitos sofrimentos suportamos antes. Agora, criatura amada, sai depressa Do carro em que vieste; não, não deves por No chão os mesmos pés que devastaram Tróia!

(Dirigindo-se às criadas.)

Qual é a razão de tal demora, servas lerdas? Pois não mandei atapetar o chão ao longo da via que meu rei vai percorrer agora? Depressa! Quero ver imediatamente em seu percurso bela trilha cor de púrpura! A justa mão dos deuses vai encaminhá-lo à casa que tão cedo não pensava ver. Do resto cuidará, com o favor divino, um ânimo que não se entrega nem ao sono, obediente às leis exatas do destino.

(As criadas estendem o tapete cor de púrpura desde o carro em que está Agamêmnon até os degraus de acesso ao palácio real.)

Agamêmnon (Ainda no carro)

Filha de Lêda, guardiã da minha casa! A tua fala se assemelha à minha ausência: quiseste-a excessivamente prolongada. Os elogios, mesmo quando merecidos, a outros convirá dizê-los, não a vós. Ainda mais: não quero que me envolvas hoje em luxos próprios de mulheres, nem me acolhas prostrada e boquiaberta como me apareces pois não estás diante de algum ser exótico; não deves pôr ressentimento em meu caminho ornando-o com tapeçaria suntuosas. Tais honrarias cabem só a divindades; sendo mortal, não vou poder pisar agora tapetes requintados sem justos receios. Deves honrar em mim um homem, não um deus. Tecidos luxuosos e tapetes simples são coisas diferentes desde o próprio nome e o dom do céu mais precioso é a prudência. Só é feliz de fato o homem cuja vida transcorre até o fim serenamente próspera. Enquanto assim pensar.

Clitemnestra

Revela francamente os teus reais propósitos.

Agamêmnon

Os meus propósitos já foram revelados.

Clitemnestra

Juraste aos deuses, em perigo, ser modesto?

Agamêmnon

Se agi assim, moveu-me boa inspiração.

Clitemnestra

Se vencedor, que pensas que faria Príamo?

Agamêmnon

Decerto marcharia sobre teus tapetes

Clitemnestra

Não deves, pois, temer que os homens te censurem.

Agamêmnon

É muito forte o julgamento popular.

Clitemnestra

Só não existe inveja se não há valor.

Agamêmnon

As mulheres não devem sustentar querelas!

Clitemnestra

Também os fortes podem dar-se por vencidos…

Agamêmnon

Desejas ser a vencedora no debate?

Clitemnestra

Confia em mim e condescende na vitória!…

Agamêmnon

Se pensas desse modo manda então, depressa, alguém para tirar-me estas sandálias, servas da marcha de meus pés; durante meu trajeto por cima deste rico adorno cor de púrpura não vá olhar de algum dos deuses, ressentido, notar-me lá do alto; não desejo a ruína desta casa pela vaidade de ter calçado sob os pés suntuosos panos. E basta quanto a isso.

(Apontando Cassandra, de pé no carro atrás de Agamêmnon.)

Cuida gentilmente, daquela jovem estrangeira no palácio; os deuses todo-poderosos das alturas são mais benévolos com o vencedor magnânimo. Ninguém aceita o cativeiro de bom grado. A mais formosa flor entre as troianas todas faz parte do meu séquito; foi um presente oferecido por todos os meus guerreiros. Já que depois de ouvir-te resolvi ceder a teu pedido, vou entrar em meu palácio pisando em púrpura, se isso te contenta.

(Avançam duas criadas que tiram as sandálias de Agamêmnon.)

Clitemnestra

Existe o mar inesgotável produzindo ininterruptamente a preciosa púrpura com que se poderão tingir outros tapetes de que dispomos, meu senhor, em quantidade; palácios não admitem vis limitações. Teria oferecido em minhas longas preces muitíssimos estofos para por-te aos pés se me mandassem os oráculos fatais em tua ausência, quando de qualquer maneira pedia a graça de te ver chegar com vida. Sabia eu que enquanto há seiva na raiz renascem folhas abundantes, que protegem a casa da canícula com sua sombra. Por isso, quando voltas para a intimidade do lar, comparas-te ao retorno do verão em pleno inverno; nesses dias em que Zeus nos dá o vinho feito das uvas mais ácidas, se o ar se torna ameno repentinamente é que o senhor, o tipo acabado de homem, retorna e vê findarem os seus sofrimentos. Zeus! Zeus perfeito! Quero que perfaças hoje os meus desígnios! Cuida, então, com todo o empenho da obra em curso se pretendes perfazê-la!

(Agamêmnon desce do carro e começa a caminhar sobre a passadeira que as criadas haviam colocado no percurso desde o carro até os degraus de acesso ao palácio. Clitemnestra segue-o juntamente com as criadas. Todos se prosternam à passagem do rei. Após a entrada de Agamêmnon, de Clitemnestra e das criadas, fecham-se as portas do palácio. Cassandra permanece de pé, imóvel, absorta, no carro em que estava)

Coro

Por que volteja tanto esse terror em torno de meu coração profético? Por que insiste assim em vaticínios meu canto inevitável, espontâneo? Por que não vem a desejada paz confortadora e não ocupa logo o trono vacilante de meu ânimo, livrando-o desse inexplicável pânico? Passou o longo tempo em que as amarras das naves se cobriam de poeira nas vizinhanças da difícil Tróia.

Meus próprios olhos vêem o regresso e deles não iria duvidar, mas inda assim minha alma em sobressalto e transbordante inspiração, mesmo sem lira entoa o hino lúgubre das Fúrias vingadoras e descrê da tranquilizadora expectativa. Motivos haverá para que eu sinta o coração a palpitar frenético, quase saltando, delirantemente, no peito onde há o instinto da justiça e o dom divino dos presságios certos? Desejo que jamais se concretize a minha desvairada apreensão.

Saúde exuberante não perdura indefinidamente; uma doença, vizinha atenta, aguarda sua hora. Da mesma forma a fortuna dos homens em sua marcha cega, inexorável, choca-se um dia contra oculta rocha; somente se em manobra sábia um pouco da carga preciosa é posta fora a nau é salva, salva-se uma parte (a casa não soçobra inteiramente, embora carregada de aflições). Os muitos generosos dons de Zeus e as sementeiras ânuas sempre vencem a fome; se, porém, o sangue negro – sinal veraz de morte violenta – um dia se derrama e molha a terra, nem mesmo com magia da mais forte poder-se-á fazê-lo reverter.

Comenta-se que em tempos remotíssimos havia quem ressuscitasse os mortos, mas Zeus com seu poder exterminou-o deixando os homens sem vãs esperanças. Se a cada fado não contrapusessem os deuses outro fado, o coração me obrigaria a ser mais eloquente, pois ele agora freme na penumbra, amargurado, desesperançado de ver surgir na mente incendiada qualquer ideia mais esclarecida.

(Reabrem-se as portas do palácio; reaparece Clitemnestra que, dos degraus, se dirige a Cassandra, ainda imóvel no carro.)

Clitemnestra

Vem logo para dentro, tu também, Cassandra – ordeno, pois o todo-poderoso Zeus mandou-te compartir sem mágoa e sem rancor a água purificadora desta casa, na qual tu poderás morar em convivência com muitos servos, não longe do altar dos deuses, guardiães fiéis de nossos incontáveis bens.

(Cassandra continua imóvel no carro.)

Não sejas orgulhosa! Desce já do carro! O próprio filho da divina Alcmene – sabes – em tempos idos foi vendido como escravo e teve de comer o pão do cativeiro. Se tal destino alguém tiver de suportar, não é pequena a graça de ficar submisso a nobres donos, de fortuna muito antiga; os novos ricos são cruéis com seus escravos, em tudo, sempre e sem qualquer comedimento. Terás de nós o habitual nessa emergência.

(Cassandra permanece no carro, em silêncio, como se não tivesse ouvido Clitemnestra.)

Corifeu (dirigindo-se a Cassandra)

São para ti, Cassandra, essas palavras claras que ela termina de dizer. Se te marcou destino amargo, só te resta obedecer, se sabes ser obediente (mas duvido e creio mesmo que não obedecerás).

Clitemnestra

Se ela não fala em sua terra língua exótica como a dos bárbaros, vou tentar expressar-me de acordo com seu ânimo e a tornarei obediente aos mandamentos da razão.

(Cassandra continua silenciosa.)

Corifeu

Vai logo! Já não tens o direito de escolher; o que ela diz é mais conveniente e certo. Atende e desce prontamente onde estás.

Clitemnestra

Não vou desperdiçar meu tempo aqui com ela. Estão lá dentro, junto ao fogo aceso, as vítimas selecionadas, prontas para o sacrifício (já não contávamos com a graça do retorno); e tu, se queres ter a tua parte nele, procura andar depressa; se não és capaz de compreender-me e não dás conta do que digo, faze com as mãos exóticas um simples gesto!

Corifeu

Parece que a estrangeira tem necessidade de algum intérprete, e bastante perspicaz; comporta-se a infeliz como animal selvagem recém-cativo, inconformado com as amarras.

Clitemnestra (exasperada)

Não é apenas isso! Parece demente e desvairada, sem perceber o que é: troféu de guerra, vinda de terra vencida há pouco e saqueada, relutante ao jugo até que exale junta com sangrenta espuma toda a sua indocilidade impertinente!

(Clitemnestra afasta-se precipitadamente e volta ao palácio.)

Corifeu

Eu, todavia, não me sinto exasperado, pois tenho pena dela. Vai, desventurada! Apeia deste carro! Cede ao teu destino! Recebe pela vez primeira o jugo duro!

(Cassandra desce do carro e, entre soluços, fala em tom lastimoso a princípio e depois exaltado, como se estivesse em transe.)

Cassandra

Ai! Apolo! Apolo!

Corifeu

Por que invocas entre lagrimas Apolo?

Cassandra

Ai! Apolo! Apolo!

Corifeu

Invocas outra vez, no mesmo tom sinistro, o deus que nada tem a ver com pranto e dor.

Cassandra

Apolo! Apolo dos caminhos! Perco-me! Perdeste-me, cruel, mais uma vez!

Corifeu

Ela parece adivinhar os próprios males; é certo que os cativos tem o dom profético.

Cassandra

Apolo! Apolo dos caminhos! Perco-me! Por onde me encaminhas? A que lar?

Corifeu

À casa dos Atridas; se não percebeste, é hora de saber; e não dirás que minto.

Cassandra

Sim, detestada pelos deuses, cúmplice de numerosas decapitações, de fratricídios estarrecedores, ensangüentado matadouro de homens!

Corifeu

Essa estrangeira mais parece um cão de caça a farejar; a trilha há de levá-la a mortes.

Cassandra (Apontando e olhando fixamente o chão.)

Aqui está uma evidência tétrica! Crianças choram, os cutelos matam-nas e o próprio pai devora-lhes as carnes!

Corifeu

É difundida a fama de teus vaticínios, mas não necessitamos de qualquer profeta.

Cassandra

Ai! Ai de mim! Que se prepara agora? Que insólitos, enormes sofrimentos, e enormes males se tramam aqui, insuportáveis para meus amigos? E como ainda está distante a ajuda…

Corifeu

Não decifrei as derradeiras profecias, mas entendi as expressões iniciais, assunto invariável de toda a cidade.

Cassandra

Ah! Miserável! Até isso ousas? Banhando teu esposo e companheiro… (não posso… como descrever o fim?). Veremos logo; e mão ajuda mão a levantar-se, pronta para o golpe.

Corifeu

Não posso ainda perceber, pois dos enigmas descambas para ditos dúbios e sombrios e fico pasmo sem saber o que pensar.

Cassandra

Oh! Que visão é essa? Uma mortalha?

Não! Não! O véu fatal que julgo ver vem dela, companheira de seu leito e cúmplice do crime. Vocifera o bando furioso que persegue ainda e sempre essa eminente raça; com gritos rituais festeja o feito que só a mais severa pena pune!

Corifeu

Por que lembrar agora as Fúrias vingadoras? Tuas palavras deixam-me sobressaltado.

Coro

Sobe de súbito ao meu coração o sangue já sem cor, como se fora de golpe por onde se esvai a vida na hora de chegar a morte célere.

Cassandra

Ah! Vede! Vede! A vaca vence o touro! Envolve-o em seu véu insidioso e pelos cornos negros o domina! Descrevo a traição mortal de um banho!

Corifeu

Embora não me julgue intérprete atilado de profecias, nestas antevejo males.

Coro

Jamais as profecias comunicam mensagens agradáveis aos mortais; os palavrosos dons oraculares sugerem desventura e causam medo.

Cassandra

Ai! Infeliz de mim! Destino atroz! É a torrente de meu sofrimento que soluçando ponho nas palavras! Por que me conduziste até aqui? Para morrermos juntos? Ai!… Por quê?

Coro

Estás alucinada e certamente alguma divindade te domina; entoas um canto desencantado, tal como o pardo rouxinol tristonho chorando interminavelmente “Ítis”, “Ítis”, por toda a desolada vida.

Cassandra

Destino do sonoro rouxinol! Deram-lhe os deuses o dom de voar; a vida não lhe pesa, nem o pranto; e a mim me espera a espada de dois gumes que sinto já em volta do pescoço.

Coro

Não cessam as lamentações proféticas, às vezes ditas com suavidade, às vezes proferidas entre gritos. Por que a trilha de teus vaticínios é cheia de sinistras previsões?

Cassandra

Ah!.. Bodas… Bodas trágicas de Páris, completa perdição de todo um povo!… Ah!… Escamandro onde bebia Tróia… Em teus barrancos (infeliz de mim!…) outrora fui criada com desvelo, e agora? Irei cantar daqui a pouco as minhas profecias verdadeiras ao longo do Cocito e do Aqueronte!

Coro

É claro o teu oráculo; percebo-o (até crianças o decifrariam); imensa dor e pena me comovem ao discernir o teu destino adverso; teus gritos ferem-me profundamente.

Cassandra

Ah!… Penas… Penas de minha cidade definitivamente destruída!… Meu pai! Ah!… Quantas vezes receberam os deuses generosas oferendas de muitas reses que sacrificavas em seus altares!… Tudo foi inútil e Tróia pereceu da mesma forma; eu mesma vejo, em delírio febril, chegar a hora de cair por terra.

Coro

Enquadra-se nos outros vaticínios a predição do fado que te espera. Decerto algum espírito maligno desceu pesadamente sobre ti e te constrange a derramar as lágrimas predecessoras da terrível morte.

Cassandra (Em tom mais sereno.)

Agora basta. Vamos! Minha profecia não mais se mostrará envolta em véus sutis, como aparecem as recém-casadas tímidas, mas clara qual rajada fresca, sussurrante, na madrugada quando vem surgindo o sol – onda diáfana aspirando a envolvê-lo. Vai atingir-me agora o mal maior de todos. Não mais vos estarrecerei com meus enigmas e sabereis que, recuando nos caminhos, farejo as marcas de homicídios antiquíssimos.

De baixo deste teto nunca se afastou um Coro uníssono mas não harmonioso: em tudo que ele canta nada há de bom. Provando sangue humano, que o torna pior, um bando ruidoso ronda este palácio ininterruptamente: são as rubras Fúrias, as implacáveis sanguessugas desta raça. Enraizadas em recônditos recessos, estão cantando o canto do primeiro crime; depois amaldiçoam o leito fraterno lançando imprecações a quem o maculou.

Estou errada, ou como archeiro competente plantei certeira flecha no visado alvo? Sou falsa profetisa, das que vão bradando de porta em porta?

(Dirigindo-se ao Corifeu)

Jura! Quero que confirmes as minhas alusões aos crimes desta casa!

Corifeu

A afirmação do juramento mais solene poderia curar tantos, tão grandes males? É de pasmar, porém, que vinda de tão longe, lá do outro lado do oceano imenso, saibas tão bem de certos velhos fatos ocorridos em um país remoto como quem os viu.

Cassandra

Apoio, deus-profeta, deu-me a sua força.

Corifeu

Então o deus te desejou, a ti, mortal?

Cassandra

Até agora tive pejo de dizê-lo.

CORIFEU

Nos dias venturosos somos susceptíveis.

Cassandra

Não foi sem luta que me conquistou o deus

resfolegante de incontido, ardente amor.

Corifeu

Os ritos amorosos foram praticados?

Cassandra

Não, muito embora eu prometesse ao deus.

Corifeu

Antes exercitaste esse teu dom profético?

Cassandra

Vaticinei a meus concidadãos troianos os males e desastres que os arruinariam.

Corifeu

E não te perseguiu a cólera de Apoio?

Cassandra

Depois que o enganei, fugindo a seus desejos, não mais se dava crédito a meus vaticínios.

Corifeu

Mas tuas profecias já nos convenceram.

CASSANDRA (Novamente agitada.)

Ai! Ai de mim! Desgraça! Torna a dominar-me o torvo turbilhão dos ímpetos proféticos alucinando-me com seu refrão horrível! Estais também agora vendo junto à porta frágeis figuras infantis fantasmagóricas iguais a formas espectrais em pesadelos? Parecem criancinhas mortas por aqueles que deveriam dedicar-lhes todo o amor! As mãos repletas de sanguinolenta carne – da própria carne (ai! confrangedora carga…) -, entranhas, vísceras que um monstruoso pai ousou, infame, aproximar de sua boca!

Prevejo e vos declaro que um leão covarde lá dentro premedita, no seu próprio leito, vingança insidiosa contra meu senhor que volta (ai de mim… lerei de suportar por toda a vida o jugo da subserviência…). O comandante de incontáveis naus guerreiras, destruidor de Ílion, não percebe ainda os golpes assassinos que a cadela odiosa sordidamente lhe prepara, bajulando-o, com língua hipócrita e contentamento falso – flagelo traiçoeiro com desígnios torpes que o fado inelutável torna realidade.

Audácia enorme! A fêmea mata o próprio macho! A que bifronte monstro repugnante, víbora ou Cila moradora em rochedos ocultos, desolação de infortunados marinheiros, irei pedir o mais horripilante nome, conforme a essa mãe do inferno, furiosa, resfolegando a destruição de sua gente? E o grito de triunfo da mais que atrevida, como se fosse a vencedora de um combate! Fingindo júbilo diante do regresso! Se me dão crédito, ou se não, é indiferente. Que importa? O que tiver de acontecer virá.

(Dirigindo-se ao Corifeu.)

Tu mesmo, aqui presente, dentro de momentos, hás de reconhecer em mim, horrorizado, a profetisa verdadeira até demais!

Corifeu

Sei que falaste do banquete de Tieste e estremeci ouvindo a verdade total; domina-me o terror que disfarçar não posso; mas quanto às outras alusões estou em dúvida; não consegui acompanhar-te em teu caminho.

Cassandra

Verás – confirmo agora – a morte de Agamêmnon.

Corifeu

Ah! Infeliz!… Ou fala bem, ou cerra os lábios!

Cassandra

Não há remédio para as minhas predições.

Corifeu

Se for destino, mas desejo que não seja.

Cassandra

Formulas preces; outros cuidam de matar.

Corifeu

Que homem se dispõe a praticar o crime?

Cassandra

Sem dúvida te foge a minha profecia!

Corifeu

Decerto; não percebo planos criminosos.

Cassandra

Eu, todavia, falo bem a língua helênica.

Corifeu

Também a pitonisa, que ninguém entende.

Cassandra

Ah! Quanto fogo (quanto!) avança para mim! Meu Deus! Apoio Lício! Ai!… E eu? E eu? Pois a leoa de dois pés, unida ao lobo na ausência do leão feroz, matar-me-á. Ai! Infeliz de mim! Na taça de veneno que manipula já está a minha parte. Com o pérfido punhal que afia vai vingar-se do esposo inerme apenas por me haver trazido com ele, misturada aos seus troféus de guerra. Por que razão conservo ainda este meu cetro e em volta do pescoço este colar profético? Por que escarnecer agora de mim mesma?

(Cassandra parte o cetro e arranca o colar de seu pescoço.)

Ao menos isso não me sobreviverá! Desapareçam! Vingo-me despedaçando-os! Sirvam a outros tais insígnias, não a mim! Não estais vendo? Apolo me despoja hoje de meu profético aparato, agora inútil; vestida nessas mesmas roupas, humilhada, escarnecida por amigos e inimigos unânimes, igual a charlatã sem rumo sou maltratada qual mendiga maltrapilha! E quantas outras provações já suportei…

A morte é o desenlace a que o deus profeta destina a profetisa que antes inspirou. Em vez do altar de meu augusto pai, aguarda-me um cepo de patíbulo todo vermelho do sangue borbulhante de outros sacrifícios. Mas não há morte sem vingança de algum deus. Virá um dia mais um vingador – o nosso – nascido para exterminar a própria mãe e castigar a morte inglória de seu pai. Um exilado errante, expulso desta terra, regressará para assentar a pedra última neste edifício das inúmeras desgraças impostas a esta raça antigamente próspera.

Um juramento foi solenemente feito e confirmado pelos deuses inflexíveis: há de o paterno apelo ingente, cedo ou tarde, fazê-lo retornar inevitavelmente. Por que fazer ouvir ainda a minha voz pungentemente lamentosa? Vi primeiro o fim de minha Tróia, toda destruída, e agora seus captores, por divino mando, estão chegando a esse desenlace triste. Aceitarei o meu destino com firmeza; serei valente ao enfrentar a morte certa! Jorre o meu sangue de certeiro golpe, e rápido, e a doce morte, sem espasmos e agonia, venha fechar-me os olhos na hora final!

Corifeu

Falaste longamente, mulher infeliz, e foste bem sensata; mas se na verdade a própria morte já prevês, por que enfrentas o sacrifício com tanta resignação que mais pareces dócil, plácida novilha votada como de costume ao holocausto?

Cassandra

Não vejo salvação… Estrangeiros, é tempo…

Corifeu

Mas vale muito, creio, a hora derradeira.

Cassandra

Chegou a hora… Lutas não me salvarão…

Corifeu

És corajosa! Não te abate a desventura.

Cassandra

Tais elogios não ouve quem é feliz…

Corifeu

Mas é um mérito enfrentar assim a morte.

Cassandra

Pobre de ti, meu pai, e de teus nobres filhos!…

(Cassandra faz menção de entrar no palácio, mas recua com uma expressão de horror.)

Corifeu

Que há? Por que recuas aterrorizada?

Cassandra

Ai!… Ai!…

Corifeu

Por que gemidos? Só se há em tua mente alguma imagem monstruosa que não vemos.

Cassandra

Odor de sangue e morte sai deste palácio!

Corifeu

São vítimas sacrificadas nos altares…

Cassandra

Parecem as exalações de sepulturas!

Corifeu

Não sabes que em palácios há incensos sírios?

Cassandra

É meu destino… Vou, então, chorar lá dentro por mim, por Agamêmnon… Basta desta vida!

(Cassandra encaminha-se novamente para o palácio, mas torna a recuar.)

Ai, estrangeiros!… Não recuo sem motivos como se fosse frágil pássaro medroso. Apenas peço-vos que após meu triste fim testemunheis no dia predeterminado a morte aqui por mim, mulher, de outra mulher e o mesmo fim de um homem para desagravo de outro homem morto agora pela própria esposa. É esta a minha súplica na hora extrema.

Corifeu

Ah! Infeliz!… Lamento a sina que prevês…

Cassandra

É meu desejo ainda declarar-vos algo. Não vou agora começar um canto fúnebre; imploro ao Sol, diante desta luz mortiça, que dê aos inimigos fim igual ao meu, aos assassinos de uma escrava, presa fácil. É triste e sem remédio a sorte dos mortais… Esboça-se a ventura em traços imprecisos; os males chegam logo, como esponja úmida, e num instante apagam para sempre o quadro.

(Entrando no palácio.)

É isso que me faz sofrer ainda mais!

Coro

Ninguém se cansa da prosperidade. Não lhe resistem nunca as criaturas nem se adiantam a fechar-lhe as portas bradando, o dedo em riste: “Não penetres!” Os deuses concederam a Agamêmnon apoderar-se da famosa Tróia e regressar honrado pelos céus; mas se hoje deverá pagar o sangue por outros antes dele derramado e pelos mortos hoje vai morrer acarretando mortes no futuro, qual dos mortais, diante destes fatos, pode gabar-se de ter vindo ao mundo com um destino isento de tristezas?

(Ouve-se um grito no interior do palácio.)

Agamêmnon (de dentro do palácio.)

Ai que me matam!… Fui ferido mortalmente!

Corifeu

Silêncio! Quem grita, ferido por golpe mortal?

Agamêmnon

Ai! Novamente! Ferem-me mais uma vez!

Corifeu

Consuma-se o crime! Distingo os soluços do rei; unamo-nos todos, amigos, e deliberemos!

(Os anciãos do Coro opinam sucessivamente.)

1.º Ancião

Num átimo vos digo a minha opinião: chamemos já povo e vamos ao palácio!

2.º Ancião

Ajamos neste instante! Ataquemos agora enquanto alguém empunha a espada ensangüentada!

3.º Ancião

É esta justamente a minha convicção; não temos tempo para vãs divagações!

4.º Ancião

Vejamos; pode ser apenas o prenúncio de planos que nos levarão à tirania…

5.º Ancião

… porque estamos indecisos! Eles agem e não se dão ao luxo tolo de hesitar!

6.º Ancião

Não sei o que fazer em tal situação, mas antes de atuar convém deliberar.

7.º Ancião

Essa também é minha idéia, pois os mortos não podem ser ressuscitados com palavras.

8.º Ancião

O quê? Apenas por cuidar de nossas vidas cedemos ante a usurpação abominável?

9.º Ancião

De modo algum! Melhor seria então morrer! A tirania é mal pior que a própria morte!

10.º Ancião

E nós aqui, apenas por ouvir gemidos iremos afirmar que há um homem morto?

11.º Ancião

Devemos ter certeza antes de revoltar-nos; conjecturar e ver são coisas diferentes.

12.º Ancião

Meu voto é a favor desta ponderação; certifiquemo-nos da sorte de Agamêmnon.

(Os anciãos fazem menção de marchar em direção ao palácio. Abrem-se as portas. Os anciãos param. Vêem-se no interior os corpos de Agamêmnon e de Cassandra, estirados no chão e cobertos com panos. Ao lado dos cadáveres, em pé, Clitemnestra, com o rosto e as mãos manchados de sangue. Os anciãos entram no palácio, para cujo vestíbulo, onde estão os cadáveres, a cena se transfere.)

Clitemnestra (Dirigindo-se aos anciãos.)

Palavras numerosas disse-vos há pouco, ditadas obviamente pelas circunstâncias, e não me pejo de contradizer-me agora; de outra maneira, como poderia alguém, premeditando destruir um inimigo e tendo de fingir desnorteante apreço, dissimular o véu diáfano, envolvente, de uma cilada certa, sem qualquer salda, mantendo-o bem distante de olhos indiscretos?

Contemplo enfim o resultado favorável de planos pacientemente preparados. Estou aqui exatamente no lugar em que seguida e firmemente o golpeei no cumprimento de missão apenas minha. Os fatos foram estes, não irei negá-los: a fim de obstar qualquer defesa ou reação em tentativa de fugir ao seu destino, emaranhei-o numa rede indestrutível igual às manejadas pelos pescadores, mas para ele um manto fértil em desgraças; então feri-o duas vezes e seus membros depois de dois gemidos imobilizaram-se.

Embora o visse já tombado, inanimado, ainda o golpeei pela terceira vez, em oferenda ao grande Zeus das profundezas, senhor dos mortos; estendido ali no chão, a vida se lhe foi no último suspiro cortado por golfadas de sangue abundante que me molhou com suas gotas cor de púrpura, mais agradáveis para mim que a própria chuva mandada pelos deuses para a terra ávida na época em que as flores todas desabrocham. Argivos veneráveis, tudo vos foi dito; se ainda tendes alegria, alegrai-vos.

Exulto com meu ato, se quereis saber, e se me parecesse até conveniente naquele instante derramar sobre o cadáver sagradas libações, seria muito justo, justíssimo seria meu procedimento; se este homem fez a taça transbordar das maldições inumeráveis desta casa, é natural que a sorva hoje de um só trago!

Corifeu

É de pasmar essa linguagem afrontosa! Vangloriar-se de matar o próprio esposo!…

Clitemnestra 

Pretendes pôr à prova os sentimentos meus como se eu fosse uma mulher desatinada; estou falando claro, o coração impávido; entenda-me quem for capaz; e quanto a ti, se me censuras ou me louvas tanto faz. Quem jaz aí é Agamêmnon, meu esposo, morto por obra desta minha mão direita, guiada só pela justiça; tenho dito.

Coro

Mulher! Que erva má terás provado, criada pela terra, ou beberagem das ondas agitadas te infundiu tanta ousadia para tal delito e para fazer frente à maldição pronunciada pela gente argiva? Tu o traíste, tu o golpeaste! Serás banida, viverás sem pátria, alvo do ódio unânime do povo!

Clitemnestra

Agora me condenam ao amargo exílio, ao ódio da cidade, à maldição do povo, mas contra este homem nada foi falado. No entanto ele, sem escrúpulos, sem dó, indiferentemente, como se lidasse com algum irracional (e havia numerosos em seus velosos, cuidadíssimos rebanhos), sacrificou a sua própria filha – e minha -, a mais querida que saiu deste meu ventre, apenas para bajular os ventos trácios! Não era esse pai cruel quem merecia ter sido desterrado, expulso deste solo em retribuição ao crime inominável? Comigo sois severos; quero prevenir-vos diante das presentes ameaças vossas: se fordes vencedores não hesitarei em submeter-me humildemente às vossas mãos. Mas se o contrário for mandado pelos deuses embora tarde aprendereis a ser prudentes!

Coro

És arrogante em todas as palavras e vociferas insensatamente. Tão desvairado esta o teu espírito que ostentas como se fosse um adorno o sangue que te mancha ainda o rosto! Repudiada até pelos amigos, terás o fim que deste a teu esposo!

Clitemnestra

Ouvi também a minha decisão jurada: pela justiça feita em nome de uma filha, pelo Destino, pelas Fúrias vingadoras a quem dedico o sacrifício deste homem, minha esperança não dará lugar ao medo enquanto o fogo for aceso neste lar por meu amigo Egisto , o mais fiel de todos; escudo frágil para mim não será ele! Aí está por terra o homem que humilhou a própria esposa entregue à triste solidão mas foi o encanto das Criseidas lá em Tróia.

Pois junto ao dele está o corpo inanimado de sua escrava, sua amante, profetisa, capaz vidente, companheira de seu leito, frequentadora das barracas dos soldados. Não foi imerecida a sorte que tiveram. Morreu calado o homem, e ela, como um cisne, cantou, morrendo, o seu lamento derradeiro, caindo ternamente ao lado de Agamêmnon. Ele por certo a trouxe para seu deleite mas foi o meu triunfo que ela ornamentou!

Coro

Por que não temos logo um fim tranqüilo, sem lentas agonias? Quero agora o sono sem remédio, interminável, pois está morto o nosso protetor. Uma mulher tirou-lhe aqui a vida que expôs por causa de outra tantas vezes!

Ah! Louca Helena!… Foste a causa única da destruição de muitas, muitas vidas ao pé dos muros da arrogante Tróia! Deste a teu feito o último retoque, inesquecível e desesperado desse indelével sangue derramado! A surda desavença entrando em casa levou um homem a terrível morte.

Clitemnestra (agora na mesma entonação do Coro)

Não há porque chamar agora a morte se vos abate um golpe insuportável. Por que lançar inteiro sobre Helena rancor tão grande? Não deveis tampouco atribuir-lhe a perdição dos gregos, como se ela tivesse destruído tão numerosas vidas e causado em tantos corpos chagas incuráveis.

Coro

Gênio do mal que cais sobre esta casa e tombas sobre a fronte dos Tantálidas! Teus trunfos neste jogo em que triunfas despedaçando os nossos corações são damas de almas gêmeas na aparência! Corvo maligno espezinhando um morto, ei-la cantando cheia de arrogância o hino apropriado aos vencedores!

Clitemnestra

Agora corrigistes as palavras de vossas bocas, pois vos referistes ao gênio insaciável que persegue inexoravelmente esta família. A sede atroz de sangue nos vem dele, enraizada em nosso próprio ser; não foi curada ainda a chaga antiga e já feridas novas aparecem.

Coro

O gênio de que falas certamente é poderoso e cheio de rancor. Ah! Dolorosa, triste evocação de tanto horror contido num destino!… Foi Zeus, que tudo faz e causa tudo!… Nada acontece a nós, mortais, sem Zeus. Que pode haver sem o querer divino? Meu rei! Meu rei! Como chorar por ti? Que te dirá meu coração amigo? O corpo envolto na teia de aranha, exalas o suspiro derradeiro colhido por impiedosa morte! É doloroso ver-te assim caído em leito ignóbil, traiçoeiramente ferido por espada de dois gumes brandida pela mão da própria esposa!

Clitemnestra

Ousais então dizer que este feito somente a mim se há de atribuir? Não deveis mesmo acreditar que eu seja a esposa de Agamêmnon; sob a forma da companheira deste homem morto foi na verdade o gênio vingador acerbo e antiquíssimo de Atreu, do anfitrião cruel, que se quitou do sacrifício ímpio de crianças ao imolar agora este guerreiro.

Coro

Que testemunho irás oferecer de que estás inocente deste crime? De que maneira? Sim! De que maneira? Mas pode a maldição de antigas eras ter sido realmente a tua cúmplice. Se o negro Ares faz correr o sangue é para que justiça seja feita às inocentes pequeninas vitimas outrora devoradas aos pedaços. Meu rei! Meu rei! Como chorar por ti? Que te dirá meu coração amigo? O corpo envolto na teia de aranha, exalas o suspiro derradeiro colhido por impiedosa morte! E doloroso ver-te assim caído em leito ignóbil, traiçoeiramente ferido por espada de dois gumes brandida pela mão da própria esposa!

Clitemnestra

Não considero inglório seu destino; não trouxe ele para sua casa a morte insidiosa, impiedosa? Tendo sofrido pelo mal causado à minha filha e dele – a Ifigênia tão infeliz – (tal feito, tal castigo), não há de ter motivos lá no Hades para jactar-se; digo sem remorso: tombando morto sob a espada aguda ele pagou pelo que fez primeiro!

Coro

Não posso mais guiar meus pensamentos; não sei sequer qual será meu caminho ao ver desmoronar-se este palácio. Domina-me desmesurado medo da chuva próxima de sangue humano que já abala as bases desta casa; e não se trata mais de simples gotas! Já o destino as armas da justiça afia para nova punição! Ah! Terra! Terra! Tu não me tragaste apenas para que eu visse este corpo jazendo neste féretro rasteiro bordado de ornamentos prateados! Quem há de conduzi-lo ã sepultura? Quem cantará os hinos lamentosos?

(Voltando-se para Clitemnestra.)

Ou tu, que assassinaste o próprio esposo, tu o farás, terás o atrevimento de completar entre muitos soluços o teu nefando, abominável crime com atos de fingida piedade endereçados ao espectro dele, com a intenção agora manifesta de minorar esta injustiça enorme? E quem há de fazer-lhe nesta hora um elogio fúnebre adequado, chorando o grande herói com fáceis lágrimas e o coração sinceramente triste?

Clitemnestra

Nenhum destes cuidados te compete. Fui eu quem o feriu, quem o matou; eu mesma o levarei á sepultura, mas sem que seus parentes o lamentem. Sua filha infeliz (triste Ifigênia!) irá solícita ao encontro dele no rio célere das aflições e ternamente há de beijar-lhe as mãos.

Coro

Baixeza vem juntar-se a mais baixezas! Julgar é tão difícil!… É levado quem quer levar e quem mata é punido. Enquanto o grande Zeus mandar no mundo terá valor um mandamento seu: “quem for culpado há de sofrer castigo”. Que mão será capaz de remover daqui a origem de tamanhos males? A raça está atada á perdição!

Clitemnestra

São verdadeiras essas expressões. Eu mesma vou jurar neste momento diante do pernicioso espírito dos Plistenidas que estou sossegada e satisfeita com minha proeza, por mais insuportável que pareça. Afaste-se com ele para sempre de nós e deste lar e vá ligar-se a outra raça essa fatalidade de tantos crimes entre a mesma gente! Escassos bens me bastarão se apenas puder livrar de vez a minha casa desse delírio de extermínio mútuo!

(Aparece Egisto , vindo do interior do palácio, seguido de guardas armados.)

Egisto

Animadora luz do dia da justiça! Chegou enfim a hora de dizer que os deuses, cuja missão mais certa é castigar os homens, vigiam lá do alto os crimes cá na terra, pois neste instante para meu contentamento diviso esta criatura morta, o corpo envolto num véu tecido pelas Fúrias vingadoras, pagando plenamente os crimes de seu pai. De fato, Atreu, senhor de todo este país e pai deste homem, expulsou o bom Tiestes – meu pai e seu irmão, para falar mais claro – do próprio lar e da cidade onde vivia, imaginando o seu poder ameaçado.

Voltando um dia como simples forasteiro, Tiestes, o infeliz, foi recebido bem (não o mataram logo e naquele momento seu sangue nobre não manchou o solo pátrio). Atreu, pai deste homem ímpio, simulou acolhimento falsamente cordial e pretextando assinalar condignamente um dia de holocausto, regalou meu pai com os corpos retalhados de seus pobres filhos. No prato enorme, embaixo foram postos antes os pés e as mãos e por cima, para escondê-los, outros pedaços das crianças desmembradas.

O prato foi dado a meu pai, conviva único; sem distinguir de pronto a trágica verdade meu pai comia, sem saber, uma iguaria fatal à sua raça, mas ao perceber tardiamente o que até então comera, ergueu-se, recuou e entre gritos horríveis e vomitando alguns pedaços que engolira lançou tremenda maldição sobre os Pelópidas. Desfez a pontapés a mesa do banquete e repetiu alucinado a imprecação: “assim pereça a raça inteira de Plistenes!”

(Dirigindo-se ao Corifeu.)

Por isso vês agora este homem morto aqui. Eu, por direito, deveria planejar a morte dele, pois após o crime hediondo fui desterrado com meu pai, de quem eu era terceiro filho, frágil criança inocente; chegado à juventude, a pertinaz justiça mandou-me de retorno para essa vingança e embora me encontrasse longe de Agamêmnon foi-me possível finalmente exterminá-lo, tecendo a trama toda que o levou à morte. Neste momento, até morrer seria bom, pois o castigo o envolveu em suas malhas

Corifeu

Detesto, Egisto , o atrevimento dos perversos! Afirmas que, por tua deliberação, exterminaste este homem e tramaste só o crime deplorável e te ufanas dele! Pois bem: garanto que na hora do castigo tua cabeça não escapará ao ódio do povo e tu serás maldito, apedrejado!

Egisto

Não reconheces teu lugar inferior e ousas apresentar-te desta forma insólita aos detentores do poder, a teus senhores? És velho mas é sempre tempo de aprender a falta que ainda te faz a precaução. Grilhões e fome são dois médicos magníficos e podem conseguir a cura até de velhos. Se não enxergas isso, para que tens olhos? Jamais invistas contra os aguilhões em riste, pois do contrário hás de sofrer a cada embate.

Corifeu

Mulher! Tu és mulher, tu, que permaneceste refestelado em casa, apenas esperando os homens empenhados em combates árduos! Enquanto desonravas um leito de herói, covardemente meditavas o assassínio de um corajoso comandante de guerreiros!

Egisto

Mais lágrimas farão brotar tuas palavras! A voz de Orfeu não era em nada igual à tua: enquanto aquele subjugava os seres todos com a sedução de sua voz irresistível, a tua vociferação te perderá. Logo hás de ver-te dominado pela força!

Corifeu

Procedes como se pudesses vir a ser o rei da numerosa e brava gente argiva, tu, que tramaste apenas, tu, que não ousaste executar com tuas próprias mãos o crime!…

Egisto

Por sermos inimigos eu era suspeito; só a mulher havia de enganá-lo, é óbvio. Agora, com seus preciosos bens, já posso tentar sem mais demora dominar o povo; os insubmissos ao inevitável jugo serão todos dobrados implacavelmente e não terão o tratamento cuidadoso oferecido aos potros de primeira linha; hão de domá-los as trevas e a fome amargas.

Corifeu

Por que, então, vencendo tua covardia, não mataste o herói com tuas próprias mãos? Por que deixaste urna mulher assassiná-lo, flagelo de nossa cidade e de seus deuses? Ah! Praza aos céus que Orestes veja ainda a luz e volte, conduzido pelos fados bons, e dê a esses dois a morte merecida!…

Egisto

Se pensas que tolerarei indefinidamente os teus insultos enganas-te! Avante, meus soldados! A tarefa não findou!

Corifeu (dirigindo-se aos demais anciãos.)

Avante vós também! Espadas preparadas! Prontos para a luta!

Egisto

Também a minha mão está em gualda! Não receio a própria morte!

Corifeu

Morrer agora te parece natural e isso é bom augúrio!

(Os anciãos, soltando os bastões, empunham as espadas que traziam na cintura)

Clitemnestra (dirigindo-se primeiro a Egisto  e depois aos anciãos.)

Não, por favor, amado meu! Não desencadeemos mais desastres! São excessivas as desgraças ocorridas (dolorosa messe!). Estamos fartos de aflições. Já basta o muito sangue derramado. Ilustres anciãos! Deveis agora retornar aos vossos lares; deveis curvar-vos antes que vos cheguem males novos e maiores. Era fatal o que fizemos; aceitemos resignadamente as muitas atribulações passadas, golpes quase insuportáveis que algum espírito funesto desferiu, seguidos, sobre nós. Palavras de mulher também são dignas de atenção; ouvi-as, pois!

Egisto

Mas eles continuarão lançando contra mim palavras ásperas e vomitando imprecações que lhes trarão maiores sofrimentos. Perderam a medida da prudência e mesmo ultrajam seus senhores!

Corifeu

Não é da natureza dos argivos adular os homens vis!

Egisto

Verei chegar em breve o dia de vingar-me deste atrevimento!

Corifeu

Não verás esse dia! Um deus há de guiar Orestes para cá!

Egisto

Sei bem que os exilados se alimentam de esperanças ilusórias.

Corifeu

Prossegue! Adorna com sarcasmo, enquanto podes, teus nefandos

crimes!

Egisto

Serás sem falta castigado pelas insolências ora ditas!

Corifeu

Ostenta força alheia, galo presunçoso perto da galinha!

Clitemnestra (dirigindo-se a Egisto  e levando-o para o palácio.)

Não dês valor a tais latidos. Eu e tu, senhores do palácio, teremos o poder bastante para pôr em ordem tudo e todos.

FIM

Coéforas

Personagens

Orestes
Electra
Servente
Clitemnestra
Pílado
Cilissa
Egisto
Porteiro
Coro (Escravos do Palácio)

Cenário: Orestes está de cabelos cortados em luto, frente ao túmulo paterno no palácio real de Micenas, lamentando sua morte pelas mãos da sua própria mãe

Orestes — Ó tu, a quem teu pai confiou a guarda dos mortos, Hermes subterrâneo, sê meu protetor e meu amparo: volto finalmente à minha pátria, após um longo exílio. Junto deste túmulo, eu invoco-te, meu pai: escuta-me! Vê estes cabelos que eu corto pela segunda vez e dos quais Ínaco recebeu outrora as primícias, como prêmio do alimento que me deu na minha infância; é a ti que os consagro; são a oferenda da amargura… Que vejo eu? Quem são aquelas mulheres vestidas de luto? Que devo pensar? Alguma nova desgraça aflige este palácio? Serão libações que elas trazem para apaziguar os manes de meu pai? Sim, sem dúvida… Ah! é Electra, é minha irmã; reconheço-a pela sua profunda tristeza. Ó Zeus, faz que eu possa vingar a morte de meu pai! vem em meu auxílio! Pílado, retiremo-nos; observemos o fito desta cerimônia fúnebre.

Electra. — Enviada pelos senhores deste palácio, trago libações; bato no peito repetidas vezes; as minhas faces escorrem sangue dos sulcos que as minhas unhas rasgam nelas. Meu coração alimenta-se de suspiros. Estes tecidos rasgados, estes véus em farrapos sobre o meu seio desnudo, anunciam o sofrimento e o triste infortúnio. O Terror, com os cabelos eriçados, filho profético dos sonhos, anunciando a vingança no meio do sono, entrou no aposento das mulheres, ao fundo deste palácio, e quebrou o silêncio da noite com o seu grito. Os áugures têm afirmado, por parte dos deuses, que os manes em cólera erguer-se-iam contra os seus assassinos. Ó terra, ó terra, é para afastar estas ameaças que uma esposa (ouso eu pronunciar este nome!), que uma esposa ímpia te envia esta oferenda! Oferenda demasiado inútil! Como resgatar o sangue que ela verteu? Ó lar infeliz!… deplorável habitação! Mais sol para ti! Desde a morte do meu senhor envolvem-te odiosas trevas. Já não existe aquele soberano poderoso, invencível, cuja majestade submetia todos os corações. O temor reina hoje ali. Todo aquele que é feliz é um deus, e mais que um deus para os mortais. Mas a justiça visita sempre os culpados. Ela fustiga-os, quer em pleno dia, quer um pouco mais tarde, à luz do crepúsculo ou na obscuridade da noite. A terra fecunda bebeu o sangue; a morte vingadora germinou; ela deve desabrochar. O crime é, para o seu autor, a fonte dos males mais cruéis; não há perdão para quem profana o santuário do himeneu. Ainda que se reunissem todos os rios do universo, eles não poderiam lavar um odioso parricídio. Eu, a quem os deuses envolveram na ruína da minha pátria, a quem arrebataram da casa paterna e reduziram à escravidão, recalcando o ódio amargo do meu coração, vejo-me obrigada a acatar as ordens, justas ou injustas, do imperioso tirano que hoje dispõe da minha vida. Mas secretamente, devorando os meus suspiros, choro o triste destino do meu rei.

Electra. — Fiéis escravas, já que me acompanhais nesta cerimônia triste, ajudai-me com os vossos conselhos. Que desejos exprimirei, que votos farei a meu pai, quando espalhar estas libações fúnebres sobre o seu túmulo? Dir-lhe-ei que trago estes presentes da parte de minha mãe, da parte duma esposa querida, ao esposo que ela estremecia? Não, não terei essa coragem. Que palavras posso proferir então, regando o túmulo de meu pai? Pedir-lhe-ei que envie, como é justo, a digna recompensa dos seus audaciosos crimes àqueles que lhe enviam estes presentes? Ou antes, visto que meu pai foi vítima dum crime, devo espalhar em silêncio este licor sagrado e, como nos sacrifícios expiatórios, arremessando este vaso para trás de mim, fugir sem volver os olhos? Queridas amigas, aconselhem-me; porque, sem dúvida, compartilhais do meu ódio. Abri-me, sem receio, o vosso coração. Ah! senhores, escravos, todos estamos igualmente à mercê do Destino. Se tendes alguma opinião melhor, desejo que ma comuniqueis.

Coro. — Já que o ordenais, explicar-me-ei sem rodeios: atesto-o por este túmulo, tão sagrado para mim como um altar.

Electra. — Dizei, pois respeitais o túmulo de meu pai.

Coro. — Quando regardes o seu túmulo pedi-lhe pelos que o amavam.

Electra. — E que amigos poderei nomear?

Coro. — Vós, em primeiro lugar e todos os inimigos de Egisto.

Electra. — Mas então pedirei apenas por vós e por mim?

Coro. — É a vós que pertence pensar nisso, é a vós que cabe dizê-lo.

Electra. — E quem mais poderemos associar a nós?

Coro. — Oh! lembrai-vos de Orestes, embora esteja ausente.

Electra. — Sim, vós iluminais o meu coração.

Coro. — Depois, recordando o crime, desejai aos seus autores…

Electra. — O quê?… livrai-me da minha incerteza…

Coro. — Que venha um deus ou um mortal…

Electra. — Julgá-los ou puni-los?…

Coro. — Dizei ousadamente, matar os assassinos.

Electra. — Não será impiedade dirigir aos deuses semelhantes votos?

Coro. — Porquê? é restituir aos vossos inimigos o mal que vos fizeram.

Electra. — Hermes subterrâneo, faze-me perceber que os meus votos aprazem às divindades infernais que reinam onde meu pai habita, e à própria terra que gera, alimenta e recupera tudo. Derramando estas fúnebres libações, eu invoco-te, meu pai: lança um olhar de piedade para mim e para o teu querido Orestes; faze-nos entrar no teu palácio. Agora andamos errantes, traídos por aquela de quem nascemos. Ela ofereceu o teu leito a Egisto, o cúmplice na tua morte. Eu, sou escrava; Orestes, indigente e fugitivo; ao passo que os culpados, no meio dos prazeres, gozam insolentemente o fruto dos teus trabalhos. Faze que Orestes volte e triunfe nestes lugares. Escuta a minha voz, meu pai! permite que eu tenha um coração mais casto e mãos mais puras que minha mãe. Eis os meus votos para teus filhos. Quanto aos teus inimigos, apresenta-te a seus olhos armado da vingança. Vem matá-los, como eles te mataram. Tais são as maldições que eu junto às minhas preces. Sê-nos propício. Que os deuses, a terra e a justiça vingadora se juntem a ti! Com os meus votos, recebe as minhas libações.

(Dizendo estas palavras rega o túmulo; em seguida, volta-se para o coro).

Electra. — Fazei ouvir os vossos lamentos, entoai o hino fúnebre, como é costume.

Coro. — Derramemos uma torrente de lágrimas por um senhor desventurado; que elas reguem o seu túmulo; que se misturem às libações; que umas e outras sirvam para afastar os nossos males, para abater os nossos inimigos. Ó meu senhor, ó meu rei, escuta-nos do seio das trevas! Ai! Ai! quem te vingará? Quem salvará teus filhos? Que o deus dos citas, que o próprio Marte lance os dardos dilacerantes, os dardos fulminantes que levam a toda a parte uma inevitável morte.

Electra. — Está tudo pronto; meu pai recebeu as libações. Divino mensageiro do Olimpo e dos infernos…

(Dizendo estas palavras, repara nos cabelos que Orestes tinha deposto sobre o túmulo. Corre em seguida para junto do coro).

Electra. — Queridas amigas, compartilhai da minha surpresa.

Coro. — Dizei, meu coração palpita de temor.

Electra. — Encontrei, sobre o túmulo, esta madeixa de cabelos…

Coro. — De quem são? Que homem ou mulher os depôs ali?

Electra. — Não é difícil conjecturá-lo.

Coro. — Como? Embora mais jovem, informai-me.

Electra. — Sou eu aqui a única que posso oferecer esta oferenda a meu pai…

Coro. — Aqueles que lhe deviam tal oferenda são seus inimigos.

Electra. — No entanto, estes cabelos são perfeitamente semelhantes…

Coro. — A quais?… estou ansiosa por sabê-lo…

Electra. — Aos meus; parecem ser os mesmos.

Coro. — Seria um presente feito secretamente por Orestes?

Electra. — É muito verosímil, porque estes cabelos são dele.

Coro. — Como ousou ele vir a estes sítios?

Electra. — Terá enviado esta oferenda a seu pai.

Coro. — É um novo motivo de lágrimas, se anuncia que ele não mais regressará à sua pátria.

Electra. — Ah! meu coração foi assaltado por ondas de tristeza; um dardo pungente me trespassou. Contemplando estes cabelos, meus olhos inundam-se de amaríssimas lágrimas. A qual dos argianos poderiam eles pertencer? Não certamente àquela que assassinou o esposo, a minha mãe, cujo ódio sacrílego pelos filhos desmente um nome tão terno. Mas como assegurar-me de que eles sejam uma oferenda de Orestes, o mais querido mortal? Todavia a esperança acaricia-me… Ai! Porque é que estes cabelos não falam e dissipam a minha dúvida cruel? Porque é que eles me não dizem se devo repeli-los com indignação, por terem sido cortados numa cabeça inimiga, ou se, provindo de meu irmão, como legítima oferenda da sua angústia, que é também a minha, são um digno ornamento do túmulo paterno? Deuses que o sabeis, eu vos invoco!… Que tempestade agita a minha alma!… Se me espera a salvação, que este fraco gérmen lance, pois, uma profunda raiz!… Mais outro indício… vestígios de passos, idênticos aos meus… Vejo pegadas diferentes… Umas são de Orestes; outras de algum amigo que o tenha seguido… O contorno dos pés, os tacões, são semelhantes aos meus… Ai! tudo aumenta a minha perturbação e a minha mágoa.

Orestes. — Suplicai aos deuses que realizem também o resto dos vossos desejos.

Coro. — E que obtive eu até agora?

Orestes. — Vedes aquele que há muito tempo desejais.

Electra. — Quem me ouvistes, pois, lamentar?

Orestes. — Conheço os vossos votos ardentes por Orestes.

Electra. — Pois bem! em que é que eles foram atendidos?

Orestes. — Ei-lo, não procures nenhum outro, nem quem mais vos ame.

Electra. — Estrangeiro, quereis armar-me alguma cilada…

Orestes. — Só se for para eu próprio cair nela…

Electra. — Quereis insultar os meus desgostos…

Orestes. — Os vossos desgostos? dizei também os meus…

Electra. — Quê? sois Orestes? é com ele que falo?

Orestes. — Estou diante de vós e não me reconheceis! vós que pelo simples aspecto destes cabelos oferecidos a meu pai, ficastes embriagada de esperança; que observando os vestígios dos meus passos julgastes ver-me logo. Pegai nessa madeixa, aproximai-a dos meus cabelos, semelhantes aos vossos, reconhecei o sítio donde foi cortada; reparai neste véu, feito pelas vossas mãos; vede se não foram os vossos dedos que fizeram este tecido, que traçaram estes desenhos… Dominai-vos; moderai a vossa alegria: os que mais deviam querer-nos tornaram-se nossos inimigos.

Electra. — Querido objeto das queixas de tua família, esperança da minha vida, tu por por quem tenho chorado! ah! a tua coragem restituir-te-á o cetro de teu pai. Doce objeto que reúne todas as afeições da minha alma! porque já não posso defender-me; sim, tudo quanto devia de amor a meu pai, a uma mãe que devo odiar, a uma irmã cruelmente sacrificada, tudo se reuniu para ti, carinhoso irmão, que vais fazer a minha felicidade e a minha glória. Assim a vitória, a vingança e, sobretudo, o soberano dos deuses venham em nosso auxílio!

Orestes. — Ó Zeus! Zeus! contempla o estado a que nos encontramos reduzidos; vê os filhos duma águia generosa que uma horrorosa serpente asfixiou nas suas espiras; como órfãos infelizes, acossados por uma fome cruel, demasiado fracos para trazerem para o ninho o alimento habitual, assim está Orestes assim está Electra, filhos que perderam o pai e ambos banidos do seu palácio. Se deixas perecer os rebentos do rei que outrora te honrou e ofereceu tão magificentes sacrifícios, de que mão receberás semelhantes oferendas? Se a raça da águia se extingue, que ave levará os teus augúrios aos mortais? Se esta árvore sagrada seca até à raiz, jamais cobrirá os teus altares, nos dias das sagradas hecatombes. Protege-nos. É fácil para ti o libertares da humilhação e reanimares esta casa que parece aniquilada.

Coro. — Filhos salvadores dos lares paternos, não levanteis a voz; receai trair-vos e que algum vil delator previna aqueles que reinam ainda. Ah! Que eu possa vê-los consumidos pelo fogo!

Orestes — O oráculo do poderoso Apolo não me trairá. Ele ordena-me que empreenda tudo e a sua voz ecoou no íntimo do meu coração. Anuncia-me horríveis desgraças se não persigo os assassinos de meu pai; quer(*) que os fira como eles o feriram. As suas insistentes ameaças ainda me arripiam. Se não obedeço, males sem conto vingarão em mim uma sombra que me deve ser querida. Aquele que ensina os mortais a acalmarem os manes irritados disse-me que uma cruel moléstia, invadindo as minhas carnes, a lepra, havia de corroer o princípio da minha vida com os seus dentes afiados; que os meus cabelos branqueariam antes de tempo. Falou de temíveis Fúrias que nasceriam do sangue de meu pai, dum espectro cujos olhares veria brilhar de noite. Porque a seta que lançam, do seio das trevas, aqueles a quem uma mão parricida pôs termo à vida, o pavor noturno e a raiva armada dum látego de bronze, dilaceram, perturbam e perseguem de cidade em cidade, o desgraçado que os não vinga. Neste estado, nenhuma comparticipação nos sacrifícios, nas libações; nenhum lugar nos altares; nenhuma hospitalidade ou convivência com o objeto visível da cólera dum pai. Aborrecido, desprezado por toda a gente, sofre-se uma morte lenta, em penosos tormentos. Devo acreditar, sem dúvida, em tais oráculos; e ainda que não acreditasse neles, nem por isso corria menos à vingança. Um conjunto de motivos me impele: a ordem do céu, a morte deplorável dum pai, a miséria que me oprime, finalmente a vergonha de ver submetidos a duas mulheres os corajosos e célebres cidadãos que destruíram Ílion; porque Egisto tem o coração duma mulher; veremos, em breve, se me engano.

Coro — Ó poderosas Parcas! que Zeus faça brilhar a sua justiça! que o ultraje seja punido pelo ultraje! A equidade grita bem alto e reclama os seus direitos. Que o crime seja vingado pelo crime! que o que fere seja ferido! é a mais antiga das leis(11).

Orestes. — Ó meu pai, meu desventurado pai! vindo do exílio para junto do teu leito fúnebre, que hei-de dizer, que hei-de fazer para conseguir que o dia suceda, aqui, à noite? Ai! a pompa do luto é o único tributo que a antiga casa dos Átridas recebe!

Coro. — Meu filho, os dentes devoradores do fogo não destroem o sentimento entre os mortos. A sua cólera manifesta-se ainda depois. Os manes têm-se lamentado, o vingador apareceu. O pai e os filhos confundem as lágrimas e imploram justiça.

Electra. — Escuta agora, meu pai! as minhas lamentosas queixas. Teus filhos choram sobre este sepulcro, ambos suplicantes, ambos fugitivos. Qual foi o bem que lhes ficou? O que é que eles não têm sofrido? Mas os seus males não são irremediáveis.

Coro. — Os deuses, se quiserem, transformarão estes queixumes em gritos de alegria; em vez destas lamentações fúnebres, os cantos de vitória reconduzirão ao seu palácio este irmão que veio juntar-se-vos de novo.

Electra. — Porque não morreste tu, meu pai, ao ferro dos Lícios, nos muros de Tróia, deixando o teu palácio coberto de glória e os teus filhos com uma vida honrosa assegurada! Numa terra estranha terias encontrado um soberbo túmulo; morrendo com os amigos que morreram generosamente por ti, serias grande até mesmo entre as Sombras, príncipe sempre augusto e venerado pelos temíveis senhores dos infernos, porque foste rei durante a vida e o Destino tinha deposto nas tuas mãos o cetro e o poderio. Mas ai! não morreste em Ílion e não foste enterrado nas margens do Escamandro, com todos esses gregos imolados pelo ferro. Quê? prouvesse ao céu que tivessem perecido desse modo aqueles que te assassinaram, e, isento dos males que sofreste, soubesses de longe do seu trespasse.

Coro. — Esse destino, ó minha, filha, tinha sido extremamente belo! pedis um favor mais precioso que todos os favores da sorte mais próspera… Sucumbis à dor… mas a fortuna atingiu-vos com um duplo golpe. Os vossos defensores já não existem; e as mãos dos nossos odiosos tiranos nada respeitam. Infelizes crianças, sois vós que principalmente o experimentais!. ..

Electra. — Cruel pensamento! dardo que dilacera meu coração! Zeus, Zeus, faze sair, enfim, dos infernos a merecida punição dos culpados e parricidas mortais! Quando me rigozijarei com as lágrimas amargas destes indignos esposos, no seu último suspiro? É minha mãe… Ah! bem o sei… Mas porque constranger-me?… O deus da vingança adeja à minha volta. A cólera e o ódio incendeiam-me o rosto, abrasam-me o coração… Zeus, que deténs o teu braço poderoso, fere, fere as cabeças criminosas e dá-te a conhecer pelos teus golpes. Imploro justiça para esses injustos mortais… Deusa que vingais os mortos, escuta-me: o sangue vertido pede sangue; assim o quer(*) a lei: as Fúrias chamam a morte para vingar infortunados manes… Divindades do inferno, onde estais? Imprecações dos moribundos, onde está o vosso poder? Vede os infortunados descendentes dos Átridas, vergonhosamente expulsos do seu palácio. Zeus, onde poderemos refugiar-nos?

Coro. — Meu coração estremece quando oiço estas queixas lamentosas. Ora os vossos gemidos me lançam num terrível desespero, ora a vossa audácia, que se anima, suspende a minha dor e me restitui a esperança.

Electra. — Que direi eu? recordarei todos os males que minha mãe me fez sofrer?… Irei lisonjeá-la?… nada pode enternecê-la. Qual lobo cruel, sua alma feroz não pode ser amansada. Mais bárbara que uma cissiana(12), vibrou um golpe terrível… Redobrou; e dentro em pouco não podem contar-se as feridas. Infortunada!… na minha cabeça retine ainda o ruído destes golpes funestos!… Ó minha mãe… ó mulher ímpia!… ousaste sepultar um rei sem o concurso do povo, um esposo sem lágrimas nem lamentos!

Orestes. — Ah! céus! de quantos ultrajes me informais! Os deuses e este braço, far-lhos-ão pagar bem caro(**). Que eu possa morrer depois de me ter vingado!

Electra. — Mal expirou, cortaram-lhe as extremidades do corpo(13)… e sepultaram-no depois de o terem tratado assim… Ela supunha entregar-vos ao infortúnio… Ouvis o horrível insulto feito a vosso pai…

Orestes. — Quê!? foi esse o seu destino?

Electra. — E eu, amarfanhada pelo desprezo, por indignidades, afastada do palácio como um animal perigoso, estranha à alegria, não conhecendo mais do que lágrimas, não tive outra felicidade que não fosse a de ocultar os meus suspiros e as minhas lágrimas. Que esta narrativa se vos grave no coração, que os ouvidos vo-la transmitam à alma. Eis o que eles fizeram; eis o que pretendíeis saber: que o vosso coração seja inflexível! E tu, meu pai, vem juntar-te a teus filhos. Invoco-te chorando, e todos que aqui estão se me associam. Escuta-nos; volta a ver a luz do dia: ajuda-nos contra os teus inimigos. A força vai lutar com a força; a vingança com a vingança: deuses, secundai a justiça!

Coro. — Eu tremo ao ouvir esta súplica. A sentença está lavrada há muito; que os nossos votos lhe apressem a execução! Ó fatal série de desventuras! ó golpes sanguinários, golpes sacrílegos da vingança! ó luto funesto! ó males sem remédio, enraizados na casa dos Átridas! Não é nunca por mãos estranhas, é sempre pelas mãos mais queridas que eles perdem a vida. Deusa dos infernos, deusa do sangue, escutai o hino que vos é consagrado! Deuses subterrâneos, escutai as nossas preces; prestai auxílio a estas crianças e fazei-as triunfar!

Orestes. — Ó meu pai, caíste varado por indignos golpes! dá-me o cetro e o teu poder.

Electra. — Também eu, meu pai, tenho necessidade do teu auxílio para enganar Egisto e matá-lo. Então os humanos prestar-te-ão as honras a que tens direito; e, nos dias consagrados aos manes, não serás privado, vergonhosamente, de oferendas e sacrifícios. Então, instalada de novo no teu palácio, de posse dos meus bens, nos dias do meu himeneu levar-te-ei libações e o teu túmulo será o primeiro objeto do meu culto.

Orestes. — Terra! abre-te; que meu pai veja este combate!

Electra — Ó Proserpina, concede-nos uma vitória brilhante!

Orestes. — Meu pai, recorda-te do banho em que perdeste a vida!

Electra — Recorda-te destes lagos onde encontraste a morte!

Orestes — Foste envolvido em vergonhosas cadeias!

Electra — Foste surpreendido numa infame armadilha!

Orestes — Desperta com a recordação destes ultrajes!

Electra — Ergue, ergue a cabeça veneranda; manda a vingança em socorro de teus filhos; ou antes, restitui, tu mesmo, os golpes que te vibraram se queres vencer como foste vencido. Escuta esta última prece, ó meu pai! Vês dois órfãos junto deste túmulo; tem piedade de teu filho e de tua filha; não deixes perecer, com eles, a raça de Pélops. Por eles sobreviverás a ti mesmo; A glória de seus filhos ressuscita um pai, à semelhança da cortica que sustenta a rede e impede que se perca no fundo das águas. Escuta-nos! é sobre ti que nós choramos. Salvar-te-ás a ti próprio exalçando os nossos votos, estas justas homenagens devidas ao teu túmulo e às tuas cinzas, mal honradas até agora. (A Orestes). O projeto está amadurecido, é tempo de o executar; é tempo de experimentar os deuses.

Orestes — Corro a fazê-lo… Todavia, dizei-me, antes de mais nada, porque enviou ela estas oferendas? Que a levou a tentar reparar hoje um mal irreparável? Honras tardias prestadas a cinzas insensíveis! Que pode ela esperar destes presentes? Eles estão muito abaixo do seu malefício. Todas as libações juntas, não expiariam o sangue de um só homem: tal é a lei. No entanto, informai-me, se puderdes.

Coro — Posso, ó meu filho! porque estava presente. Aterrorizada com um sonho e visões noturnas, essa mulher ímpia ordenou estes sacrifícios.

Orestes — Sabeis que sonho foi?

Coro — Ela julgou, disse-nos, ter dado à luz uma serpente.

Orestes — E como acabou essa visão?

Coro — O monstro recém-nascido, como uma criança de cueiros, aproximou-se à procura de alimento; e, no sonho, ela deu-lhe o seio.

Orestes —Essa odiosa serpente feriu-o, sem dúvida…

Coro — Ela sugou, a longos goles, o sangue com o leite.

Orestes — Ah! esse sonho realizar-se-á!

Coro — Apoderada de terror, ela desperta, grita; imediatamente as lâmpadas extintas recomeçaram a brilhar no palácio. Ordenou, em seguida, estas libações fúnebres, na esperança de prevenir assim os males que a ameaçam.

Orestes — Ó terra! ó túmulo de meu pai! possa eu realizar esse sonho! Parece ter uma perfeita relação comigo. A serpente nasceu do ventre que me concebeu: envolvida nos cueiros, sugou o seio que me alimentou, mas fez correr o sangue com o leite. De dor e de receio, a mãe gemeu; o horrível monstro que ela amamentava é o presságio da sua morte. Eu serei a serpente; arrebatar-lhe-ei a vida; justificarei o sonho. E vós não o interpretais assim?

Coro. — Ah! assim mesmo! Mas instruí os vossos amigos. Quem deve agir? quem deve ficar?

Orestes. — Diz-se em poucas palavras. Electra deve voltar e ocultar cuidadosamente os meus projetos. Eles imolaram um herói pela fraude; pela fraude e numa armadilha, morrerão por sua vez. Assim o predisse o deus dos oráculos, Apolo, profeta que até agora nunca mentiu. Quanto a mim, sob a aparência dum viajante, apresentar-me-ei com Pílado à porta do palácio, como hóspede e amigo de guerra desta família. Imitaremos a linguagem empregada próximo do Parnaso e o sotaque da Fócida. Certamente ninguém nos acolherá no palácio, porque ali tudo respira violência. Esperaremos que alguém que passe nos veja e lhes diga: “Porque repelem estes estrangeiros? Egisto não está? não sabe que eles estão ali?” Uma vez que eu transponha o limiar da porta, quer o encontre sentado no trono de meu pai, quer ele venha ao meu encontro para me falar e atender, não duvideis, antes que tenha tempo de me preguntar: “Estrangeiro, quem és?” — estendo-o morto a meus pés, com um golpe fulminante; e, bem depressa, um sangue mais precioso dessedentará, pela terceira vez, a Fúria que a morte não deixa de acompanhar aqui. Portanto vós, Electra, fazei que no palácio tudo concorra para a execução dos meus desígnios. (Ao Coro). E vós, fazei votos; sabei falar e calar-vos a propósito. Pílado vigiará o resto e assegurar-me-á o êxito deste combate sangrento.

Coro. — O ar está povoado de aves cruéis e temíveis: os antros do mar estão cheios de monstros, inimigos dos mortais; as tempestades nas nuvens formam-se com os vapores da terra; aves, monstros, tempestades, podem conhecer-se, pode prevenir-se-lhes a cólera. Mas quem sabe até onde vai a audácia dos humanos, o arrebatamento das mulheres, o transporte do amor, sempre vizinho da desgraça, e a raiva das paixões? O odioso amor, no coração duma mulher, é mais feroz que o homem e o bruto. Serve de testemunho, sem nos elevarmos a pensamentos mais altos, o projeto concebido por uma mãe bárbara, a infeliz Altéa(14), de inflamar o fatal tição ao qual as Parcas tinham ligado a vida de seu filho, no momento em que ele tinha visto o dia e soltado os seus primeiros vagidos. É testemunho disso a sangüinária e detestável Scila(15) que sacrificou a seus inimigos o mortal mais querido. Seduzida pelos colares brilhantes dos cretenses, pelos presentes de Minos, a ímpia! corta, sem hesitar, o imortal cabelo de seu pai adormecido, e subitamente Niso desce ao reino das Sombras. Visto que lembramos estas tristes histórias, recordemos, embora com desgosto, um odioso himeneu, funesto a uma família inteira, e a traição duma esposa a um esposo valente e corajoso. Que um homem se vingue dos inimigos, é essa a sua glória: a honra duma mulher está em dirigir em paz a sua casa; que ela nunca ouse armar o seu braço! Mas tudo fica a perder de vista ante o crime de Lemnos: crime execrável, que todos repudiam. Que malefício se lhe pode comparar? Também a raça inteira, que se tinha manchado num odioso sacrilégio, desapareceu da terra, exposta ao desprezo dos humanos: nenhum deles respeita o que os deuses odeiam. Que devo eu augurar de tal exemplo? O gládio cortante da vingança brilha sobre as cabeças dos culpados. Não é impunemente que se calcam aos pés todas as leis. A majestade de Zeus foi ultrajada; mas os fundamentos da sua justiça são inabaláveis. A Parca aguça o ferro e reconduz o filho a esta casa. Erinis, a quem nada escapa, vem pedir contas do sangue derramado há tanto tempo.

(Coro, Orestes e Pílado, bateM à porta do palácio)

Orestes. — Escravos, respondei-me. .. (Bate segunda vez). Não há ninguém neste palácio?… (Bate terceira vez). Pela terceira vez, eu pregunto a quem deve receber os estrangeiros se Egisto conhece a hospitalidade.

Porteiro. — Aqui estou. Estrangeiros, quem sois?

Orestes. — Ide anunciar-me a vossos amos, é a eles que eu procuro: trago-lhes notícias que lhes interessam. Apressai-vos. O carro tenebroso da noite aproxima-se; é altura dos viajantes se recolherem em casa de hospedeiros amáveis. Que a dona da casa, que a senhora venha… ou antes, trazei aqui o patrão, para lhe poder falar sem constrangimento; um homem, em presença doutro homem explica-se livremente e sem rodeios.

(O porteiro volta acompanhado por Clitemnestra).

Clitemnestra. — Estrangeiros, dizei-nos, que pretendeis? Encontrareis aqui o que tendes o direito de esperar, banhos, leitos para vos refazerdes da fadiga e corações cheios de afabilidade; se algum assunto mais importante vos traz, isso diz respeito a meu marido e eu dar-lhe-ei parte.

Orestes. — Eu sou fócio, de Daulis. Vinha para Argos trazendo comigo, como vedes, a minha bagagem. Encontrei no caminho um homem que não conhecia, mas que me disse ser Estrófio o fócio. Preguntou-me onde ia e ensinou-me o caminho. “Estrangeiro, acrescentou ele, já que ides a Argos, lembrai-vos de dizer aos parentes de Orestes que ele morreu, não vos esqueçais disso; quando voltardes, dir-me-eis se eles querem que o seu corpo seja levado para Argos ou preferem que fique sepultado para sempre na terra estranha em que tinha encontrado hospitalidade; por enquanto, as suas cinzas, justamente honradas com as nossas lágrimas, estão encerradas numa urna de bronze”. Reproduzo o que ele me disse, mas ignoro se falo àqueles a quem tal notícia interessa; é necessário, porém, que a mãe de Orestes seja informada.

Electra. — Ó desgraçada, estou irremediavelmente perdida! Irresistível Destino que persegues a nossa raça! nada te escapa: privas-me de todos os entes que me eram queridos; os teus dardos inevitáveis atingem até os que estavam mais afastados. Orestes conservava-se prudentemente num porto abrigado da tempestade; mas hoje destróis com ele a consoladora esperança que nos restava de voltar a ter dias de alegria.

Orestes. — Era trazendo notícias felizes que eu desejaria apresentar-me a tão respeitáveis hospedeiros e merecer o seu acolhimento: quem mais que um hóspede deseja bem aos seus hospedeiros? mas, depois da minha promessa, seria um crime não informar deste acontecimento as pessoas generosas de quem recebo hospitalidade.

Clitemnestra. — Não sereis, por isso, menos dignamente tratado, nem menos amigo desta casa. Cedo ou tarde, qualquer outra voz nos traria a notícia. Mas é tempo já, para viajantes fatigados duma longa jornada, de saborear algum repouso. Escravo, condu-lo, com aqueles que o acompanham, aos aposentos dos hóspedes; que eles encontrem ali tudo aquilo de que precisam. Encarrego-te disso e dar-me-ás contas do que fizeres. Nós vamos transmitir a notícia ao senhor desta casa; temos amigos e resolveremos com eles o que há a fazer.

Coro. — Guardemos, queridas companheiras, guardemos bem o segredo de Orestes. Ó terra venerável! ó túmulo respeitável que guarda as cinzas dum rei que outrora comandou mil navios, escutai os nossos votos, protegei Orestes! Chegou o momento em que a fraude deve servi-lo; que o deus das sombras, Hermes subterrâneo, o conduza pelas suas mãos neste sangrento combate.

(Avistam alguém que sai do palácio e mudam imediatamente de assunto).

Este estrangeiro não trouxe aqui senão luto… Vejo a ama de Orestes banhada em lágrimas. Gilissa, o que é que vos faz transpor assim as portas do palácio? A dor que vos acompanha transparece, embora o não queirais.

Gilissa. — Aquela que recebe estes estrangeiros, ordenou-me que procurasse Egisto, sem demora, a fim de que possa ouvir da boca deles, com certeza, a notícia que trouxeram. Diante das escravas, ela escondeu, sob uma máscara triste, a alegria que este acontecimento lhe causou. Estes hóspedes acumularam a sua ventura e a desgraça desta família. Certamente Egisto poderá abandonar-se à alegria ao ouvir tal notícia. Ah! desgraçada! os terríves males acumulados há tanto tempo no palácio dos Átridas, tinham já afligido bastante o meu coração; mas ainda não tinha sofrido uma dor assim. A minha coragem permitiu-me suportar tudo; mas, o meu querido Orestes… a afeição da minha alma… quem eu amamentara quando saiu do ventre materno… cujos gritos tantas vezes me chamaram de noite!… Quantas penas e fadigas perdidas! pois não são necessárias mil precauções para criar uma criança desprovida de razão como o bruto? Envolvida nos cueiros não pode exprimir-se embora esteja atormentada pela fome, pela sede, ou por quaisquer outras necessidades. O fraco instinto a que obedece, é tudo quanto a guia. Ai de mim; ama e governante, uma e outra foram bem ludibriadas nos seus cuidados! uma e outra receberam o mesmo prêmio. Esta dupla função foi-me confiada quando recebi Orestes das mãos de seu pai; e agora, infortunado! sei que já não existe… Mas tenho que ir à procura daquele que causou todas as nossas desgraças. Com que prazer ele vai escutar-me!

Coro. — Mas como ordenou ela que ele viesse?

Gilissa. — Como?… Explicai-vos, não vos compreendo.

Coro. — Ela disse que viesse só, ou com guardas?

Gilissa. — Com o séquito armado que o acompanha.

Coro.—É isso que é preciso não dizer a esse senhor odiento; dizei-lhe que venha só, e sem receio, saber a notícia. Transmiti prontamente essa mensagem com alegria: a vossa felicidade, sem que o saibais, depende disso.

Gilissa. — Parece-vos? Depois desta notícia?…

Coro — Mas se Zeus, finalmente, afastasse os nossos males…

Gilissa. — Como? Orestes morreu e a nossa esperança com ele.

Coro. — Ainda não: quem ler bem no futuro julgará de outro modo.

Gilissa. — Que dizeis? Estareis melhor informadas que nós?

Coro. — Ide, cumpri as ordens que vos deram; deixai ao céu o cuidado de realizar os seus desígnios.

Gilissa. — Vou, pois, e obedeço-vos. Possam os deuses olhar-nos favoravelmente!

(Gilissa sai)

Coro — Agora, pai dos deuses do Olimpo, exalça meus votos! faze que os meus justos desejos se realizem plenamente! Tu sabes porque eu te imploro, ó Zeus! vela por ele, deus poderoso; permite que nesta casa ele vença os seus inimigos. Se lhe prestas o teu invencível apoio, ele far-lhes-á sentir todo o peso da sua vingança. Vês o filho dum homem que estremeceste jungido ao carro do infortúnio; modera o excesso das suas penas. Poderá ele levar ao fim a sua penosa carreira? Vê-lo-emos, finalmente, chegar ao desejado termo de seus males? E vós, habitantes destes veneráveis lares, deuses benfeitores, escutai-nos! chegou o vosso dia; vingai aqueles cujo sangue foi vertido outrora.

Mas que a morte não volte a gerar a morte. Estes últimos golpes serão justos. Habitante do antro profético! que Orestes entre de novo no seu palácio; que os nossos olhos o vejam livre e saia das trevas que o envolvem! Que o filho de Maia(16) lhe preste, contigo, um justo auxílio e secunde os seus projetos! Muitas vezes os teus oráculos são obscuros, e as tuas palavras inexplicáveis envolvem-se duma noite que nenhum dia dissipa. Mas, se lhe concedes a vitória, te faremos presente das mais ricas oferendas, honrando com as nossas lágrimas o túmulo do nosso rei. O êxito de Orestes fará a nossa felicidade e será o termo dos males duma família que estimamos. E tu, querido príncipe, fortalece a tua coragem; no momento de vibrares o golpe, se ela te disser: “Meu filho, é tua mãe que te implora”, lembra-te do que ela ousou contra teu pai, leva até o fim uma vingança terrível; tomando um coração de Perseu(17), restituí à sombra que te é querida, aos vivos a quem odeias, o que a tua cólera lhes deve, faze correr o sangue, imola os culpados assassinos.

(Egisto chega)

Egisto. — Foram procurar-me e vim imediatamente. Soube que uns estrangeiros aqui chegados propalam a notícia da morte deplorável de Orestes. Anunciá-la no palácio, seria acrescentar um doloroso peso ao crime cuja recordação pungente ulcerou já os corações. Mas como assegurar-me da veracidade de semelhante informação? Não será apenas um boato aceite de ânimo leve por mulheres tímidas e que depressa se desfaz? Estais bem informada dessa notícia?

Gilissa. — Ouvi contá-la: mas entrai, interrogai esses estrangeiros. As informações não têm importância quando nos podemos elucidar por nós mesmos.

Egisto. — Sim, quero vê-los e saber se eles próprios foram tesmunhas da sua morte ou se é um boato com pouco fundamento. Eles não poderão iludir a minha perspicácia.

(Entra com Gilissa).

 

Coro.— Ó Zeus! que hei-de eu dizer? por onde hei-de começar as minhas preces e as minhas súplicas? como exprimir todos os meus desejos? Em breve o ferro assassino, tinto de sangue, aniquilará, para sempre, a raça de Agamémnon ou restituir-lhe-á o brilho, a liberdade, o cetro e os bens da sua antiga herança. Tal é o combate que Orestes vai travar sozinho com dois sacrílegos assassinos. Que ele possa alcançar a vitória!

Egisto (detrás da cena). — Ai! Ai! Ah deuses!

Coro. — Bate, redobra… (Vêem alguém que sai do palácio). O que há? que se passa no palácio?… (À parte). Está tudo feito; afastemo-nos, a fim de que pareça que não tomámos nisso nenhuma parte.

 (Coro, Escravo ou Oficial, que sai do lado por onde entrou Egisto e vai bater à porta dos aposentos da rainha, o qual tem ainda outra porta além daquela por onde entrou Egisto)

Escravo. — Ah! desgraçado, desgraçado! o meu senhor está morto!… Ah! três vezes desgraçado! Egisto já não existe!… Mas abri depressa, abri a porta dos aposentos das mulheres… Despachai-vos… não para socorrer Egisto… ai! já não é tempo… Abri… Ninguém responde… Parece que dormem… os meus gritos são inúteis… Onde está Clitemnestra? que faz ela? Ah! em breve a sua cabeça vai tombar também sob o gládio da vingança.

Clitemnestra. — Que é? donde vêm estes gritos?

Escravo. — Aqueles que se dizia estarem mortos, mataram os vivos.

Clitemnestra. — Ah! deuses, percebo este enigma. A astúcia perde-nos como nos tinha servido… Dêem-me depressa um machado, qualquer arma… Já que sou forçada a isso, veremos a quem cabe a vitória.

(Orestes com uma espada na mão).

Orestes. — É a vós que eu procuro; Egisto recebeu o seu salário.

Clitemnestra — Ah! desgraçada! querido Egisto, já não existes!

Orestes — Amai-lo? pois bem ! compartilhareis do seu túmulo; sede-lhe fiel até depois da morte. (Ele agarra-a e quere matá-la).

Clitemnestra — Detém-te, ó meu filho! Respeita o seio em que repousaste tantas vezes, onde sugaste o leite que te alimentou.

Orestes (Detém-se e volta-se para Pílado). — Pílado, que hei-de fazer!? Posso eu, sem estremecer, apunhalar minha mãe?

Pílado. — Que é feito dos oráculos de Pitos? Que é feito dos teus juramentos? Não temos outros inimigos a não ser os deuses.

Orestes (depois duma pausa). — …Tu vences, são justos os teus conselhos… (a Clitemnestra, arrastando-a). Segui-me, é junto dele (mostrando, detrás da cena, o local onde se deve supor que ele matou Egisto) que eu quero imolar-vos. Em vida, preferistê-lo a meu pai; que a morte vos una ainda com ele, a vós, a amante desse traidor, a vós, inimiga de vosso esposo!…

Clitemnestra. — Amamentei a tua infância, poupa a minha velhice.

Orestes. — Matastes meu pai, poderia eu viver convosco?

Clitemnestra. — Foi o Destino, meu filho, que fez tudo.

Orestes. — É também o Destino que vos vai dar a morte.

Clitemnestra. — Meu filho, teme as imprecações de tua mãe!

Orestes — Minha mãe?… vós, que me abandonastes ao infortúnio!?

Clitemnestra.— Confiei-te a fiéis hospedeiros.

Orestes. — Vendestes-me, a mim, filho dum pai livre.

Clitemnestra. — E onde está o prêmio que recebi?

Orestes. — O prêmio! coraria de o dizer…

Clitemnestra. — Di-lo, mas dize também as infidelidades de teu pai.

Orestes. — Éreis vós, sentada neste palácio, que acusáveis um herói distante?

Clitemnestra. — Meu filho, a ausência do marido é penosa para sua mulher.

Orestes. — Mas o marido ausente só para ela trabalha.

Clitemnestra. — Meu filho, queres então matar tua mãe?

Orestes. — Não sou eu, sois vós que vos condenais.

Clitemnestra. — Pensa nisto: cães devoradores vingarão tua mãe.

Orestes. — Não vingarão eles meu pai, se eu o esqueço?

Clitemnestra. — Em vão eu choro à beira do túmulo…

Orestes. — O destino de meu pai decidiu da vossa sorte.

Clitemnestra. — Ai de mim! eu gerei e amamentei esta serpente! Horrendo sonho, como eras verdadeiro!

Orestes. — Culpada dum assassínio, um assassino vos pune.

(Arrasta Clitemnestra para fora da cena).

Coro. — Lamentemo-los a um e outro: mas se o infeliz Orestes é constrangido a derramar tanto sangue, desejemos, ao menos, que o facho desta raça jamais se extinga! O tempo vingou Príamo e os seus súditos. Dois guerreiros, dois leões, entraram em casa de Agamémnon. Instruído pelo oráculo de Apolo, o herói exilado tudo realizou. Enviado por determinação do céu, que ele triunfe no seu palácio. Encontrou o termo de suas penas, retoma a posse de seus bens, que dois torpes assassinos tinham usurpado. Os que venceram pela traição são punidos pela astúcia. A excelente filha de Zeus empunhou o gládio; mortais, com razão nós lhe chamamos justiça. A sua cólera exterminadora soprou sobre os seus inimigos; o profeta do Parnaso, que habita um antro profundo neste monte, tinha-o predito abertatamente; ela visita, enfim, na sua vingança, a mulher pérfida que a ultrajara. A divindade é como forçada a não servir nunca os maus. Adoremos, como é justo, a potestade que reina nos céus.

(Orestes aparece neste momento; as portas do palácio estão abertas; vêem-se, a distância, os corpos de Egisto e de Clitemnestra. Trazem, ao mesmo tempo, o véu em que Agamémnon se encontrara envolvido quando fora assassinado ao sair do banho).

Coro. — Finalmente alvorece o dia: o nosso pesado jugo despedaçou-se. Receámos, por muito tempo, ver-vos adormecer para sempre na noite da desventura, mas em breve o tempo, que tudo faz, mudará a face deste palácio quando as vossas expiações lhe tiverem lavado as máculas. A fortuna, mais risonha, escutará os nossos votos. Os destinos desta família tomarão outro curso: finalmente brilha o dia.

Orestes. — Vede estes dois tiranos de Argos (aponta os dois corpos), estes assassinos destruidores da minha casa, outrora sentados orgulhosamente no trono, unidos pelo amor, e agora ainda, como pode ver-se, fiéis a seus juramentos. Ambos tinham jurado matar meu desditoso pai e morrer juntos; cumpriram tudo. Vede, vós que tantas vezes os ouvistes falar, vede este tecido artificioso de que o infortunado não pôde desembaraçar-se, este liame em que os seus membros se encontraram enleados. (Aos escravos que seguram o véu de que ele fala). Desdobrai e mostrai este vestuário fatal. Que o pai, não o de Orestes, mas de toda a natureza, o sol, veja a obra ímpia duma esposa. Um dia, se me acusarem, ele testemunhará com que justiça eu matei, não digo Egisto porque sofreu a sorte devida a um vil adúltero, mas minha mãe… Pois quê!? aquela que concebeu tanto ódio contra o marido cujo amor tinha gerado filhos no seu ventre, penhores da sua ternura, antigamente queridos, hoje funestos, é assim que eu lhe devo chamar? Não é uma hidra, uma víbora, cujo contato, por si só, mesmo sem mordedura, envenena? Este laço, esta rede, este pérfido véu, é uma armadilha destinada aos hóspedes dos bosques, ou vestuário de morte, uma mortalha sepulcral? Invenção infame, digna dum salteador que, pérfido para com os seus hospedeiros, vivendo apenas de roubos, com o auxílio deste tecido nos seus assassinatos, facilmente acumularia crimes. Grandes deuses! que jamais habite convosco semelhante esposa! Antes eu morra sem posteridade!

Coro (observando os dois corpos). — Ah! deplorável espetáculo!… (Contempla particularmente o corpo de Clitemnestra). Esta morte é horrível… (Vê Orestes que, de olhos fixos no corpo da mãe começa a perturbar-se). Quanto mais ele demora a examiná-la, tanto mais a sua dor aumenta.

Orestes. — Foi ela inocente ou culpada?… Ah! tenho a prova neste vestuário que o punhal de Egisto tingiu dum sangue cujas manchas se não desvaneceram com o tempo. À vista deste tecido, fatal a meu pai, ora me vanglorio, ora me lamento. Choro o seu crime, a sua punição, esta raça toda… A minha vitória é horrorosa e desonra as minhas mãos!

Coro (vê a perturbação de Orestes que aumenta pouco a pouco). — Nenhum mortal se torna criminoso impunemente. Todos são castigados, mais cedo ou mais tarde.

Orestes. — Seja como for, sei a sorte que me espera. Como corcéis fogosos que se evadem, os meus sentidos desvairados me arrastam contra minha vontade. O meu coração suspira de ternura e palpita de raiva. Enquanto conservo ainda a razão, queridas amigas, eu repito que não foi injustamente que matei minha mãe, manchada com o sangue de meu pai e detestada pelos deuses. O profeta de Pitos, afirmo-o, incitou-me também. Os seus oráculos asseguraram-me que esta ação não seria, de nenhum modo, considerada um crime. Se a não tivesse praticado, anunciava-me ele uma punição que nem sequer direi, pois nenhum traço lhe pintaria o horror. Irei, portanto, com esta coroa e este ramo, irei ao seu santuário, centro(18) da terra, onde arde uma chama incorruptível: ali expiarei o meu matricídio. Ele proibiu-me que abraçasse outros altares. Vós, argianos, sede testemunhas, um dia, se eu mereci estes males: quanto a mim, para o futuro, errante, vagabundo, exilado, eis o renome que deixarei em morrendo.

Coro. — A vossa vingança foi legítima. Não vos acuseis a vós mesmo, não pressagieis desgraças. Libertastes a cidade de Argos, justamente por terdes abatido dois monstros.

Orestes (torna-se furioso). — Ah! queridas amigas!… vejo-as a estas negras Górgonas(19)… cercadas de inúmeras serpentes… Não posso livrar-me.

Coro. — Que fantasmas vos perturbam? Ó príncipe tão fiel a vosso pai, que receais?

Orestes. — Não são fantasmas, são cães devoradores, as Fúrias que vingam uma mãe.

Coro — As vossas mãos estão ainda tintas de sangue; eis a causa da vossa perturbação.

Orestes — Poderoso Apolo!… o seu número aumenta… o sangue distila dos seus olhos!

Coro. — Há expiações: ide implorar Apolo, que ele vos livrará dos vossos males.

Orestes. — Vós não as vedes… mas eu vejo-as… Elas perseguem-me, não posso livrar-me.

(Sai).

Coro. — Que possais ser feliz, que um deus benfazejo se digne velar por vós! Três vezes a tempestade açoitou este palácio. Aqui se viu o deplorável Tiesto devorar os seus próprios filhos; viu-se o maior dos reis, o chefe da Grécia, massacrado num banho. Agora veio Orestes reparar, ou, di-lo-ei? acumular estas desgraças. Quando lhes chegará o termo? onde acabará esta cadeia de crime e de vingança?

FIM

Notas

(1) – Em Janeiro celebravam-se as festas Lenaias; em Fevereiro, as Antestérias; em Março, as grandes Dionísias; e em Dezembro, as pequenas Dionísias.

(2) – Tragédia deriva de tragos (bode) e ode (canto).

(3) – Aristófanes, Rãs.

(4) – Ésquilo reproduzia alguns passos desta peça na sua tragédia Persas.

(5) – Ateneu descreve um banquete que ele teve com Sófocles quando este ia tomar o comando da expedição de Samos.

(6) – Aristófanes considera-o um “célebre poeta trágico” (Festas de Demeter; Rãs) e põe-o em cena na comédia Festas de Demeter.

(7) – Aristófanes alude à dureza dos seus versos (Vespas, v. 462; Festas de Demeter) e acusa-o de plagiar Sófocles na peça Tereu (Aves, v. 281).

(8) – Aristófanes, Nuvens.

(9) – Eliano, IV, II, 8.

(10) – Supõe-se que este epitáfio tenha sido deixado pelo próprio Ésquilo.

(11) – Esta lei era chamada pelos gregos lei de Radamanto. Aristóteles (Ética, liv. V, cap. 8) enuncia-a: “Que a pena seja considerada justa se o culpado sofre o mesmo mal que fez”. Moisés estabelecera a mesma lei entre os judeus: olho por olho, dente por dente. Sólon aplicou-a em Atenas de modo mais severo, pois quem vazasse um olho a um cidadão, ficaria com os dois vazados.

(12) – Povo persa dos arredores de Susa.

(13) – Os antigos supunham que cortando os braços e as pernas ao corpo de um homem assassinado, impediam que o morto suscitasse as suas fúrias contra os assassinos.

(14) – Mãe de Meleagre.

(15) – Segundo Ovidio (Metamorfoses, liv. VIII) Scila cortou o fatal cabelo de que dependia a vida de Niso, levada apenas pela sua paixão por Minos.

(16) – Mãe de Hermes.

(17) – Perseu, filho de Zeus e de Danae, cortou a cabeça de Medusa e libertou Andrômeda.

(18) – Delfos era para os gregos, o centro da terra. No famoso templo conservava-se o fogo sagrado, que não devia deixar extinguir-se; e as sacerdotisas encarregadas de conservá-lo eram viúvas e não virgens como sucedia em Roma com as Vestais (Plutarco, Vida de Numa Pompílio, 13).

(19) – Monstros terríveis cujos cabelos eram serpentes.

Eumênides

Personagens

Orestes,
Apolo
Atena
Fantasma de Clitemnestra
Profetisa Pítia, já idosa
Coro e Corifeu (Fúrias)
Escolta
Hermes

Cenário: Em Delfos, diante do templo de Apolo. A Profetisa entra em cena e se encaminha para a porta fechada do templo. Antes de entrar, detém-se e se inclina reverentemente diante da trípode onde se sentava para profetizar.

Profetisa

Dou nesta prece inicial a precedência entre todos os deuses à sagrada Terra, a mais antiga de todas as Profetisas; depois invoco Têmis1, a segunda deusa a ter assento no trono de sua mãe, de acordo com alguns relatos; em seguida, com o consentimento da divina Têmis e sem qualquer preterição, subiu ao trono outra filha da Terra – a Titanide Febe -; esta o passou depois a Febo2, como dádiva para marcar o dia de seu nascimento. Febo, que deve a Febe seu sagrado epíteto, abandonando o lago e os montes de Delos, depois de conhecer o litoral de Palas, apreciado pelas naus, chegou a Delfos, junto ao Parnasso, sua nova residência. os filhos de Hefesto3 o homenagearam com toda a reverência, abrindo-lhe caminhos para a conquista do território indomado. O povo todo e Delfos, timoneiro e rei daquela região, instituíram logo o culto solene de Febo Apolo e Zeus4, dando a Febo imortal a ciência divina5, e decidindo pô-lo neste augusto assento para ser desde então o seu quarto profeta; aqui Apolo6 é o porta-voz de Zeus, seu pai. São estes os deuses que invoco em minhas preces.

(Voltando-se primeiro para a imagem de Atena, e sucessivamente para as imagens dos outros deuses que invoca.)

Atena7 tem também um lugar destacado em minha fala; menciono ainda as Ninfas que moram na caverna da rocha Corícia, onde vão deleitar-se os pássaros e um deus; naquela região o rei divino é Brômio8 (jamais o esqueceria!) desde que saiu à frente do longo cortejo das Bacantes e fez Penteu9 morrer como se fosse lebre. Também invoco as águas do sagrado Pleisto10, a força enorme do divino Poseidon e Zeus onipotente antes de me sentar como sacerdotisa no meu próprio trono. Bendigam eles hoje mais que noutros dias minha presença no lugar santificado. Se aqui se encontram quaisquer peregrinos gregos, devem aproximar-se como de costume na ordem predeterminada pela sorte; de minha parte profetizarei agora tudo que me for inspirado pele deus.

(A Profetisa entra no templo e logo depois sai horrorizada, apoiando-se na porta e nas colunas do templo.)

Ah! Não consigo descrever um espetáculo cuja simples visão me deixa transtornada e me força a deixar o templo de Loxias, de tal maneira horrível que perdi o ânimo e não consigo, embora queira, estar de pé. Tenho de me valer das mãos para mover-me, pois minhas pernas trôpegas não me sustentam. Qual a valia de uma velha estarrecida? Nenhuma; é como se ela fosse uma criança. Eu caminhava em direção ao santo altar repleto de oferendas, e meus olhos viram junto à pedra central do templo um ser humano marcado pela maldição das divindades; ele estava sentado como suplicante e com as mãos ensangüentadas segurava um punhal retirado havia pouco tempo de um ferimento; em suas mãos ainda estava um longo ramo de oliveira recoberto devotamente por uma camada espessa de alva lã – serei mais clara se disser que aquilo parecia a pele de um carneiro. Em frente ao homem há um grupo de mulheres de aspecto estranho adormecidas nos assentos. Falei que são mulheres? Devo dizer Górgonas! Talvez não seja boa esta comparação; não é a Górgonas que devo referir-me. Lembro-me bem de ter visto em pintura um dia as Hárpias11 no justo momento em que tiravam furtivamente os alimentos de Fineu. Estas daqui, porém, parecem não ter asas; o seu aspecto é tenebroso e repelente; enquanto falam não se suporta seu hálito e de seus olhos sai um corrimento pútrido; seus trajes são inteiramente inadequados a quem está diante dos augustos deuses ou mesmo em casa de criaturas humanas. Nunca e em parte alguma vi seres assim e não consigo imaginar que algum lugar possa tê-las criado sem se arrepender e lamentar amargamente esse castigo. Quanto ao que ainda está por vir, tudo depende do deus senhor deste recinto consagrado – Loxias poderoso -; ele cura as pessoas graças a seus oráculos sempre verazes, é um intérprete infalível de portentos e purifica os lares de todos os homens.

(A Profetisa afasta-se: abre-se a porta do templo; vê-se Orestes sentado na pedra que marca o centro do templo; Apolo está de pé a seu lado. As Fúrias estão adormecidas nos assentos do templo.)

Apolo

Jamais te trairei, Orestes! Serei até o fim teu guardião fiel, quer esteja a teu lado, quer nos separem distâncias intermináveis, e em tempo algum protegerei teus inimigos. Já podes ver as Fúrias todas dominadas; vencidas por pesado sono, ei-las imóveis, estas virgens malditas, filhas antiquíssimas de um passado remoto; nunca as possuíram quaisquer dos deuses, homens e nem mesmo feras. Nascidas para o mal, coube-lhes em partilha a treva deletéria do profundo Tártaro12, criaturas malditas por todos os homens e pelos deuses que se reúnem no Olimpo. Deves, porém, fugir daqui e ter cuidado. Elas querem continuar a perseguir-te e te procurarão por todos os lugares, tentando sempre te expulsar de onde estiveres em tuas longas caminhadas sem destino, além do mar e das cidades que ele cerca. E não te deixes dominar pelo cansaço enquanto pastoreias tuas desventuras; mas, quando perceberes que afinal chegaste à nobre cidade de Palas13, ajoelha-te e abraça a imagem antiquíssima da deusa. Na mesma ocasião, diante de juizes e com palavras adequadas ao momento descobriremos a maneira de livrar-te definitivamente de teu sofrimento, pois fui eu mesmo, e mais ninguém, que te induzi a ferir mortalmente a tua própria mãe.

Orestes

Sabes ser justo, Apoio rei, quando te apraz; cumpre-te ainda estar atento até o fim, pois teu poder de fazer bem e proteger-me é minha garantia de sucesso pleno.

(Entra Hermes..)

Apolo

Lembra-te, Orestes! Não permitas que o temor domine a tua mente! E tu, Hermes divino14, meu caro irmão, em cujas veias corre o sangue de um deus que é nosso pai, zela também por ele! Justifica teu nome e cuida de guiar como um pastor fiel este meu suplicante! Não podes ignorar o respeito de Zeus pelos proscritos em circunstâncias iguais às deste que te entrego para ser levado ao julgamento dos mortais sem mais delongas, com recomendações de sorte favorável.

(Sai Apolo. Orestes parte conduzido por HERMES. Aparece o fantasma de Clitemnestra, que se dirige ao Coro das Fúrias adormecidas.)

Fantasma de Clitemnestra

Dormis profundamente! Qual a serventia de sonolentas como vós? Por vossa causa sou vilipendiada no mundo dos mortos, que não cessam de me humilhar qualificando-me injuriosamente de assassina, lá, vagando envergonhada em meio a tantas sombras! Sou acusada nas profundezas do inferno de um crime bárbaro e como se não bastasse, após a minha morte nas mãos de meu filho (destino atroz!) nenhum dos deuses se revolta e mostra sua cólera a favor da mãe! Vede com vossos corações estas feridas, pois quando adormecida a mente é iluminada e seus olhos são muitos, mas à luz do dia nosso destino é totalmente imprevisível. Ah! Quantas vezes viestes sugar em bandos as minhas oferendas generosas, as apaziguadoras libações sem vinho, e vos propiciei banquetes numerosos durante as noites sacrossantas nos altares iluminados pelas chamas crepitantes em horas execradas pelos outros deuses15! E vós calcastes tudo isso sob os pés! Ele escapou e desapareceu daqui como se fosse alguma corça ainda nova livrando-se num salto ágil da armadilha e zombando de vós com um riso sarcástico! De pé, deusas das profundezas infernais! Como num sonho invoco-vos, eu, Clitemnestra!

(Ouvem-se uivos do Coro das Fúrias. O fantasma de Clitemnestra dirige-se ao Coro.)

Uivai! Uivai! O homem desapareceu, fugindo para longe! Ele tem seus amigos e eu – pobre de mim! – não tenho um sequer!

(Ouvem-se novos uivos do Coro.)

Continuais dormindo e não vos comoveis com meu enorme sofrimento! O criminoso, o matricida Orestes, desapareceu!

(Ouvem-se gemidos do Coro.)

Gemeis, dormis… Não vos levantareis depressa? Tendes outra função além de fazer mal?

(Ouvem-se novos gemidos do Coro.)

O sono e a fadiga, invictos conjurados, consumiram as forças dos dragões terríveis!

Coro

(Entre uivos estridentes.)

Pegai! Pegai! Pegai! Tende cuidado!

Fantasma de Clitemnestra (dirigindo-se ao Corifeu.)

Agora persegues a fera em sonho e gritas como esses cães que nunca deixam seu canil para atacar a caça! Dize-me: que fazes? Vamos! Levanta-te! Não te deixes vencer pela fadiga a ponto de esquecer ofensas! Incita o coração com justas reprimendas, pois elas estimulam as pessoas sábias! Exala sobre Orestes teu sangrento hálito! Trata de ressecá-lo com o vapor de fogo que sai insuportável de tuas entranhas! Deve extenuá-lo até tirar-lhe o fôlego numa perseguição feroz e implacável!

(Desaparece o fantasma de Clitemnestra; as Fúrias incitadas pelo Corifeu, despertam uma após outra.)

Corifeu

Desperta, e tu, desperta outra companheira, como já fiz contigo! Ainda estás dormindo? Ergue-te e afasta já o sono de teus membros! Não nos deixemos iludir ao persegui-lo!

Coro

Ai! Ai! Como temos sofrido, amigas! Uma das Fúrias Sofri demais e tudo foi inútil!

Coro

Sofremos tanto! Insuportáveis penas! Rompendo a rede, a fera foi embora! Outra Fúria Perdi a presa! O sono me venceu!

Coro

Ages como um ladrão, filho de Zeus!16 Sim! Tu, Apolo, um jovem deus, superas idosas deusas! Só por piedade proteges um indigno suplicante, homem sem deus, cruel com sua mãe! És deus, e nos roubas um matricida! Quem pode ver justiça em tudo isto?

(Outra Fúria)

Do fundo de meus sonhos uma afronta, brutal como o aguilhão que algum cocheiro empunha firmemente, vem ferir-me o coração e até minhas entranhas. Sinto passar por mim um calafrio mortificante, similar ao látego do mais impiedoso dos verdugos.

Coro

Assim procedem os deuses mais novos, ávidos de poder sobre este mundo e descuidosos da santa justiça, num trono maculado pelo sangue desde seus pés até a cabeceira.

(Outra Fúria)

Tenho a impressão de ver com os próprios olhos o centro deste mundo, poluído17

Coro

Apolo, deus-profeta, conspurcou seu próprio lar sem qualquer compulsão, e sem ser provocado transgrediu as sacras leis; por um simples mortal o deus rasgou o pacto muito antigo18

(Outra Fúria)

Agindo assim ele ganhou meu ódio sem conseguir salvar seu protegido. Ainda que se oculte sob a terra Orestes não se livrará de nós. Culpado de assassínio, onde ele for encontrará por certo um vingador disposto a golpeá-lo na cabeça.

Apolo

(saindo de seu templo com um arco nas mãos, pronto para ser usado.)

Abandonai agora mesmo a minha casa! Ordeno-vos! Deixai em paz o santuário onde proclamo profecias verdadeiras; se não obedecerdes sereis atingidas pelas serpentes sibilantes de asas brancas19 que, saltando da corda de meu arco áureo, vos forçarão a vomitar entre estertores a negra espuma que deveis a tantos homens e a expelir o sangue que sugastes deles! Esta casa, de fato, não é adequada à vossa companhia. Não! Vosso lugar é lá onde há sentenças de degolamento e olhos a ser arrancados, ou então onde gargantas são abertas, ou ainda onde, para extinguir toda a virilidade, meninos são castrados, onde se mutila, onde seres humanos morrem lapidados, onde vitimas empaladas, gemebundas, esvaem-se numa agonia interminável! Ouvistes, monstros odiados pelos deuses, a relação de vossas festas preferidas? E vosso aspecto é condizente com tal gosto! Deveríeis viver em antros de leões sorvedores de sangue, em vez de poluir os muitos visitantes do templo profético! Ide pastar sem um pastor longe daqui, pois deus nenhum desejaria tal rebanho!

Corifeu

Ouve-me, Apoio rei; dá-me a palavra agora. Não és um simples cúmplice; é toda tua, de mais ninguém, a culpa neste crime horrível.

Apolo

Mas como? Fala apenas para responder!

Corifeu

Teu santo oráculo ordenou ao suplicante que assassinasse a própria mãe com suas mãos.

Apolo

O oráculo ordenou-lhe que vingasse o pai.

Corifeu

E prometeste proteção ao assassino, embora ainda houvesse sangue em suas mãos!

Apolo

Mandei-o vir aqui para expiar o crime.

Corifeu

Por que, então, deténs suas perseguidoras?

Apolo

Porque neste lugar elas não são bem-vindas.

Corifeu

Queremos simplesmente cumprir um dever.

Apolo

Mas, que dever? Exalta essas prerrogativas!

Corifeu

Cumpre-nos expelir do lar os matricidas!

Apolo

E que fazes quando a mulher mata o marido?

Corifeu

Não se derrama o mesmo sangue nesse crime.

Apolo

Degradas, reduzindo a pouco mais que nada, um pacto cujos fiadores principais são Hera20, padroeira das núpcias legítimas, e o próprio Zeus; tuas palavras inda aviltam Afrodite21 divina, de quem tantos homens recebem suas alegrias mais queridas. O leito nupcial onde o destino une o homem e a mulher, recebe a proteção de um direito divino, cuja força enorme excede a que garante os santos juramentos. Se para aqueles que se matam uns aos outros és a tal ponto complacente que te esqueces e não os punes nem os marcas com teu ódio, declaro iníqua essa perseguição a Orestes. Percebo que teu coração quer castigar apenas um dos crimes, enquanto se omite da maneira mais clara em relação ao outro. Palas, porém, irá pesar devidamente os direitos das duas partes em litígio.

CORIFEU

Jamais permitirei que Orestes fique impune!

Apolo

Vai persegui-lo, então! Sofrerás mais por isso!

Corifeu

Não me tiras os privilégios com palavras!

Apolo

Não me interessam privilégios como os teus!

Corifeu

Dizem que teu poder junto ao trono de Zeus é muito grande; quanto a mim, sou impelida pelo sangue de uma desventurada mãe e continuarei a perseguir Orestes como se eu fosse um cão de caça em sua pista!

Apolo

Serei então perseverante na defesa e salvação de quem me implora que o proteja. É insuportável para os deuses e os mortais a ira de um desesperado suplicante contra quem o traiu depois de o apoiar.

(O Coro retira-se lentamente. Fecha-se a porta do templo de Apoio. O cenário muda para a Acrópole de Atenas, diante do templo de Palas Atena, à frente do qual se vê uma imagem da deusa. Entra Hermes conduzindo Orestes, que abraça a imagem.)

Orestes

Estou chegando aqui por ordem de Loxias, Atena soberana; acolhe com clemência um homem amaldiçoado. Já não sou um suplicante cujas mãos estão impuras; a minha mácula gastou-se e desbotou na convivência amável com seres humanos que me hospedaram em seus lares respeitáveis enquanto eu vagueava por terras e mares. Obediente ao mandamento de Loxias em seu sagrado oráculo, chego afinal ao pé de tua imagem e a teu templo, deusa! Aqui aguardo o veredicto da Justiça!

(As Fúrias do Coro entram em cena, dispersas, seguindo as pegadas de Orestes.)

Corifeu

Ah! Muito bem! Já vejo rastros dele, e nítidos! Sigamos a evidência de um delator mudo. Como velozes cães de caça atrás de um cervo recém-ferido, assim eu sigo a trilha dele pelas gotas do sangue que ainda o macula. Meu coração fraqueja de cansaço e penas, pois percorri a terra toda procurando-o com minhas companheiras; afinal chegamos, após vencer o mar e suas altas ondas, voando sem ter asas e muito mais rápidas que as naus velozes em suas longas viagens. Agora Orestes deve estar acocorado em um lugar qualquer pelas proximidades. O odor de sangue humano faz-me gargalhar!

(O Coro dirige-se primeiro ao Corifeu; depois as várias Fúrias dirigem-se umas as outras.)

Coro

Abre teus olhos, esquadrinha tudo para que o matador de sua mãe não fuja astutamente e fique impune!

(Uma das Fúrias percebendo Orestes.)

Já posso vê-lo em sua tentativa de proteger-se ainda desta vez. Cingindo firmemente com seus braços

a santa imagem de Palas Atena, ele afinal deseja ser julgado pelo crime brutal de suas mãos.

(Outra Fúria)

Isto não pode acontecer! Não pode! O sangue maternal, se derramado, nunca, jamais poderá refluir! Após correr e se entranhar na terra, está perdido para todo o sempre!

(Outra Fúria)

Para aplacar a minha sede, Orestes, enquanto vives deixa-me sugar de tuas veias, em compensação, essa bebida horrível que é o sangue como se fosse uma oferenda rubra!

(Outra Fúria)

Esgotarei a tua força toda e te transportarei ainda vivo para os abismos mais fundos da terra, onde afinal possas pagar o preço que um matricida deve à sua mãe.

(Outra Fúria)

Lá te serão mostrados os sacrílegos que ousaram ofender as divindades, seus hóspedes ou seus progenitores, sofrendo cada um a punição imposta pela impávida justiça.

(Outra Fúria)

Hades22, nas profundezas infernais, cobra sem compaixão alguma as dívidas das criaturas cujas faltas guarda com zelo sua alma onividente.

Orestes

A desventura me ensinou muitas maneiras de purificação, e também aprendi a distinguir a hora de silenciar da hora em que se tem direito de falar. Em relação às circunstâncias atuais, um mestre sábio me deu ordens peremptórias para manifestar-me decididamente. O sangue em minhas mãos está adormecido e desbotou; a mácula do matricida está lavada; ainda fresca em minha pele ela foi removida por um deus – por Febo – em seu altar, após a purificação propiciada pela imolação de um porco. Seria uma história longa mencionar desde o princípio todas as pessoas que visitei e não perderam a pureza diante de minha presença e companhia, com o perpassar do tempo tudo se desfaz.

Agora, então, posso invocar com lábios puros e sem risco de cometer sacrilégio a deusa soberana desta região: que Atena venha socorrer-me, e assim fazendo sem recorrer às armas me conquistará e além de mim a minha terra insigne, Argos, e todos os seus numerosos habitantes que passarão a ser desde hoje e para sempre seus aliados mais leais e valorosos. Ainda que esteja na distante Líbia23, na região do rio Tríton, cujas margens puderam vê-la na hora do nascimento, seja em repouso, seja numa ação de guerra levando a salvação à sua gente amada, ou se estiver à frente de bravos soldados comandando a defesa dos campos de Flegra24 – mesmo de longe os deuses ouvem os apelos -, que venha a mim para salvar-me deste bando!

Corifeu

Assim como não te salvou o próprio ApoIo, Atena também não te ajudará, Orestes! Perecerás na mais completa solidão, com tua alma abandonada para sempre pela alegria – sombra privada do sangue sugado pelas potestades infernais!

(Orestes cospe na direção do Corifeu.)

Não me respondes e te atreves a cuspir sobre minhas palavras, tu, mísera vítima, nutrida para ser sacrificada a mim! Ainda vivo, sem sequer ser imolado, serás a iguaria de nosso banquete! Escuta o canto que te imobilizará!

(As Fúrias do Coro aproximam-se de Orestes dançando com as mãos dadas.)

Coro

Fechemos este círculo dançante! Cantemos este pavoroso hino anunciando como nosso bando reparte a sorte entre todos os homens! Consideramo-nos as portadoras da justiça inflexível; se um mortal nos mostra suas mãos imaculadas, nunca o atingirá nosso rancor e sua vida inteira passará isenta de todos os sofrimentos. Mas quando um celerado igual a este oculta suas mãos ensangüentadas, chegamos para proteger os mortos testemunhando contra o criminoso, e nos apresentamos implacáveis, para cobrar-lhe a dívida de sangue!

Corifeu

Ah! Noite, minha mãe que me pariste para dar o castigo inelutável tanto a todas as criaturas vivas como às que já não podem ver a luz, escuta-me! O deus filho de Leto25 quer humilhar-me salvando esta presa cujo destino é expiar morrendo um crime sem perdão – o matricídio!

Coro

Em frente à nossa vitima cantamos um hino dedicado às sacras Fúrias, vertiginoso e delirante, a ponto de provocar nos homens a loucura e de lhes imobilizar a mente, canto sem os acordes de uma lira que os horroriza e os seca de medo. O ofício que o destino inexorável fixou e nos impôs eternamente é perseguir todas as criaturas lançadas por sua própria demência na via tortuosa do homicídio até descerem ao profundo inferno; nem mesmo a morte as livrará da pena. Quando nascemos foi-nos confiada esta prerrogativa; os imortais não podem estender as suas mãos para usurpá-la, nem aparecer como convivas em nossos banquetes, mas, em compensação, nunca vestimos roupas imaculadamente brancas; nossa incumbência é destruir as casas onde a Discórdia26, sem ser convidada, vem instalar-se perto da lareira e causa a morte de um ente querido. Por mais potente que seja o culpado erguemo-nos imediatamente e iniciamos a perseguição até matá-lo na poça do sangue ainda fresco da mísera vitima. Aqui estamos e nosso propósito é evitar que divindades novas tenham de arcar com essa obrigação; também queremos afirmar agora que falta a qualquer deus autoridade para afastar-nos de nosso dever; então Orestes não pode sequer ser conduzido à presença de um deles em busca da divina decisão. Zeus considera indigna de seu cetro a vizinhança dessa gente impura ainda maculada pelo sangue. As glórias mais prezadas pelos homens que vivem sob o céu se desintegram e perdem-se aviltadas cá na terra tangidas por nossos véus tenebrosos e pelos malefícios oriundos de nossos passos numa dança tétrica. Saltamos com nossos pés vigorosos para pisotear pesadamente até os corredores mais velozes.

Em sua insanidade Orestes cai, sem perceber, num delírio que o perde (é impenetravelmente negra a noite que sua mácula envolvente estende sobre seus olhos, como se o cegasse), enquanto uma nuvem sombria desce e encobre todo o palácio paterno de acordo com rumores aflitivos. Eis-nos aqui; lentas para pensar mas decididas para executar, nunca esquecendo os crimes praticados, nós, as temíveis, temos o poder de bem cumprir nossa missão, humildes e desprezadas, distantes dos deuses num pântano sem sol, intolerável para quem já morreu e para os vivos. Então, qual o mortal que pode ouvir sem reverência e sem grande temor a lei que nos impôs outrora a Parca, ratificada por todos os deuses? Ainda é nosso um apanágio antigo e não nos faltam altas honrarias, embora moremos num negro abismo onde jamais entrou a luz do sol.

(Entra Atena.)

Atena

Ouvi de muito longe um estridente apelo enquanto andava às margens do Escamandro27; lá eu tomava posse da terra pujante que os reis e comandantes dos aqueus28 valentes me consagraram como o dom mais valioso dos ricos despojos de guerra, e cujo solo agora me pertence para todo o sempre como o quinhão mais precioso oferecido aos bravos filhos de Teseu29. Venho de lá trazida por meus ágeis pés infatigáveis, impulsionando aos ventos como se asa fosse a minha sacra égide enfunada, à guisa de carro a que se atrelam céleres corcéis. Agora, vendo à minha frente um bando insólito de visitantes, não me sinto temerosa, porém há em meus olhos natural espanto.

(Dirigindo-se às Fúrias do Coro.)

Quem sois, então? Estou falando a todos vós: ao estrangeiro piamente acocorado aos pés de minha imagem, e também a vós, cuja figura estranha em nada se assemelha a criatura alguma (os deuses não vos contam entre os numes celestes e vossas feições em nada lembram as dos homens e mulheres). Mas insultar quem não nos deu qualquer motivo para ser denegrido ou mesmo censurado, além de ser injusto é contra a equidade.

Corifeu

Irás saber de tudo resumidamente, filha de Zeus: somos as tristes descendentes da negra Noite; nas profundezas da terra, onde moramos, chamam-nos de Maldições.

Atena

Agora sei quem sois e o nome que vos dão.

Corifeu

Logo conhecerás nossas prerrogativas.

Atena

Se me falardes claramente, saberei.

Corifeu

Fomos buscar em sua casa um assassino,

Atena

E para onde o leva essa perseguição?

Corifeu

Para um lugar onde ninguém se sente alegre.

Atena

E o maldizeis com gritos quando ele vos foge?

Corifeu

É, sim, pois ele ousou matar a própria mãe.

Atena

Alguém o constrangeu a cometer o crime, ou ele tinha medo de alguma vingança?

Corifeu

Mas, pode a compulsão levar ao matricídio?

Atena

Estão aqui neste momento duas partes e ouvi apenas a metade dessa história.

Corifeu

Mas, ele não jurou, nem quis que nós jurássemos…30

Atena

Quereis parecer justas, mas não estais sendo.

Corifeu

Que pretendes dizer? Explica-te melhor, pois bem se vê que não és pobre em sapiência.

Atena

Digo que os juramentos não têm o poder de transformar uma injustiça em ato justo.

Corifeu

Então, depois de ouvi-lo julga retamente.

Atena

Pretendeis confiar-me a decisão da causa?

Corifeu

E por que não? Assim seremos reverentes a quem é digna de nossa veneração.

Atena

(dirigindo-se a Orestes.)

Agora é tua vez; responde-me, estrangeiro. Primeiro fala-me da terra onde nasceste, de tua raça e também de teus infortúnios, antes de dar respostas às acusações. Se tens de fato confiança na justiça, tu, que procuras proteção junto ao meu templo e envolves minha santa imagem com teus braços, como se fosses piedoso suplicante igual ao celebrado Ixíon31, esclarece-me sobre os reais motivos da perseguição.

Orestes

Atena soberana! Devo começar por tuas últimas palavras, pois assim desfaço logo tuas preocupações. Não sou um ser maldito, nem estou aqui ao pé de tua imagem com mãos maculadas, e disso posso dar-te uma prova cabal. A lei aqui impõe silêncio ao criminoso até o dia em que um purificador do sangue derramado esparja sobre ele o sangue de um animalzinho degolado.

Há muito tempo me livrei de minha mácula nos lares por onde passei e nas viagens que fiz por tantas terras e através dos mares. Tira de tua mente, então, os teus cuidados. Quanto ao meu nascimento, logo saberás: Argos é minha pátria; o nome de meu pai (tu o conheces muito bem) é Agamêmnon, comandante de homens e naus; com tua ajuda ele fez Tróia desaparecer da terra. Esse famoso rei morreu ingloriamente no dia em que, depois de terminada a guerra, voltou vitorioso ao lar. A minha mãe, levando a termo seus desígnios tenebrosos, atreveu-se a matá-lo depois de envolvê-lo numa rede tecida em cores variadas, que ainda existe para ser um testemunho do crime pérfido dentro de uma banheira.

Após um longo exílio regressei à pátria e matei minha mãe – não negarei o fato – para punir a morte de meu pai querido. Tão responsável quanto eu pelo homicídio é o próprio Apolo, cujo oráculo veraz para incitar meu coração mostrou-me as penas que eu sofreria se não quisesse cumprir as suas ordens para punir os culpados. Decide tu se meu ato foi justo ou não; estou em tuas mãos; haja o que houver comigo aceito resignadamente o veredicto.

Atena

Se se considerar que o caso é muito grave para ser decidido por simples mortais, tampouco lerei permissão para julgar os criminosos motivados em seus atos pelo desejo rancoroso de vingança; sob outro aspecto, chegas como suplicante, purificado pelos ritos pertinentes e inofensivo para o meu sagrado altar. Por isso minha decisão é acolher-te, pois tua vinda não ofende esta cidade. Mas estas criaturas que te perseguiram sem dúvida são detentoras de direitos merecedores de toda a nossa atenção; se lhes negarmos a vitória em sua causa todo o veneno do seu ódio cairá sobre esta terra como um mal intolerável trazendo-nos intermináveis amarguras.

Nesta situação, quer eu lhes dê ouvidos, quer não as favoreça, terei de sofrer inevitáveis dissabores. Entretanto, já que a questão chegou a meu conhecimento indicarei juizes de crimes sangrentos, todos comprometidos por um juramento, e o alto tribunal assim constituído terá perpetuamente essa atribuição32. Apresentai, então, vós que estais em litígio, testemunhas e provas – indícios jurados bastante para reforçar vossas razões. Retornarei depois de escolher os melhores entre todos os cidadãos de minha Atenas, para que julguem esta causa retamente, fiéis ao juramento de não decidirem contrariamente aos mandamentos da justiça.

(Sai Atena.)

Coro

Prognosticamos para muito breve o advento de uma grave subversão devida a novas leis, se triunfar a causa torpe deste matricida! Logo seu crime justificará o desrespeito de todos os homens, e talhos incontáveis de punhais licitamente dados pelos filhos serão a recompensa de seus pais antes de se passarem muitos anos! Isso acontecerá porque as Fúrias, cuja incumbência é vigiar os homens, terão cessado displicentemente de provocar rancor contra assassinos.

A partir deste dia soltaremos os freios que até hoje contiveram os homicidas de todos os tipos. Os homens perguntar-se-ão atônitos (cada um deles prestes a contar as desventuras de seus semelhantes) quando terminarão suas desditas ou quando poderão ter uma trégua, mas seu único alivio – ah! infelizes! será trocar conselhos e remédios inúteis para a cura de seus males! E quando algum mortal for atingido pelo infortúnio, não nos peça ajuda nem nos invoque desvairadamente: “Ah! Fúrias em seus tronos! Ah! Justiça!” Talvez esses gemidos tristes venham de um pai ou de uma transtornada mãe, vitimas novas de um destino insólito, pois a justiça neste dia vê que seu reduto está desmoronando!

Às vezes o temor é bom e deve, como se fosse um guardião da mente, manter-se vigilante em seu lugar. É útil aprender sabedoria tendo por mestre o próprio sofrimento. Quem não refreia o coração com o medo – tanto as cidades como os habitantes – não é capaz de curvar-se à justiça. Não deveis submeter-vos nesta vida nem à anarquia nem ao despotismo. Sempre a prudência é vitoriosa pois deram-lhe os deuses o privilégio de limitar até os seus poderes. Cabem aqui palavras oportunas: a insolência é filha predileta da falta de respeito às divindades; ao contrário, a felicidade nasce da sã razão, e todos os mortais clamam por ela em suas orações.

Pensando em tudo isso repetimos: a lei suprema impõe que se venere o altar santificado da justiça em vez de com pás ímpios ultrajá-lo cedendo à sedução de uma vantagem; o castigo virá e ao desenlace nenhuma criatura escapará.  Então, elevem-se acima de tudo o respeito sempre devido aos pais e a hospitalidade a quem a pede. Quem por si mesmo e sem constrangimento sabe ser justo, será venturoso e nunca estará totalmente morto. Mas o contestador audacioso curvado ao peso de muitas riquezas amontoadas de qualquer maneira e contra os mandamentos da justiça, será forçado no devido tempo – isso eu garanto! – a recolher as velas quando a tormenta de castigos duros cair com violência sobre a nau partindo o mastro que lhe foge às mãos; ele faz preces que ninguém escuta e luta inutilmente pela vida sob o açoite das vagas revoltas.

Os céus riem ao ver o insolente que não pôde prever a hora trágica e agora desespera ao enfrentar tamanha desventura sem remédio, incapaz de vencer os vagalhões. No choque violento e irresistível contra os escolhos da justiça atenta o infeliz vê naufragar, perdido, sua prosperidade anterior e sem uma lamentação sequer perece para ser logo esquecido.

(Atena reaparece seguida por um arauto que apresenta os juízes. Estes sentam-se de frente para o público, enquanto o Coro das Fúrias se agrupa em um dos lados do proscênio. Orestes obedecendo a um gesto dos juízes, fica de pé em frente ao Coro.)

Atena

Dá um sinal, arauto, impondo ao povo a ordem e faze com que repercuta até o céu a tua estrídula trombeta da Tirrênia33, levando até os ouvidos desta multidão a tua voz aguda. Enquanto o tribunal estiver reunido, faça-se silêncio, pois a cidade terá de escutar as leis que aqui e agora crio para persistirem até o fim dos séculos; graças a elas estes juízes poderão fazer justiça.

(Entra Apolo.)

Corifeu

Limita a tua força, Apolo, a teus domínios! Dize, senhor: que tens a ver com esta causa?

Apolo

Estou chegando aqui para testemunhar.

(Apontando para Orestes)

Este mortal, de acordo com os sacros ritos, além de ser meu suplicante é um fiel sempre bem-vindo junto ao meu altar; fui eu quem o purificou do sangue derramado; estou aqui também como seu defensor e, mais ainda, como responsável máximo pelo crime de morte contra sua mãe.

(Dirigindo-se a Atena.)

Abre o debate e passa a conduzir a causa sempre de acordo com a tua sapiência.

Atena

(dirigindo-se as Fúrias do Coro.)

Quero dizer-vos que a palavra agora é vossa e declarar que estão abertos os debates. Falando em primeiro lugar, o acusador deve instruir-nos claramente sobre os fatos.

Corifeu

Embora sendo muitas, falaremos pouco.

(Dirigindo-se a Orestes.)

Dá a cada pergunta uma resposta lúcida; dize primeiro se mataste a tua mãe.

Orestes

Matei-a, sim, e não posso negar o fato.

Corifeu

Já nos é favorável uma das três quedas34.

Orestes

Ainda não caí; por que te vanglorias?

Corifeu

Revela, então, como te atreveste a matá-la.

Orestes

Direi: com minha espada cortei-lhe a garganta.

Corifeu

Quem te persuadiu? Que conselhos te deram?

Orestes (apontando para Apolo.)

Foi este deus que agora é minha testemunha.

Corifeu

O deus-profeta comandou o matricídio?

Orestes

Foi ele, e não me queixarei de meu destino.

Corifeu

Não pensarás assim após o veredicto!

Orestes

Tenho fé em meu pai; ele me ajudará!

Corifeu

Tu, que mataste a tua mãe, tens fé nos mortos?

Orestes

Ela se maculou em dois assassinatos.

Corifeu

Mas, como? Explica-te diante dos juízes!

Orestes

Matando seu marido, ela matou meu pai!

Corifeu

Mas vives, e ela já se redimiu morrendo.

Orestes

E por que não a perseguiste e a puniste com o doloroso exílio enquanto ela viveu?

Corifeu

Em suas veias não corria o mesmo sangue daquele homem cuja vida ela tirou.

Orestes

Pensas que eu e ela somos consangüíneos?

Corifeu

Quem senão ela te nutriu no próprio ventre? Renegas, assassino, o precioso vínculo que é o mesmo sangue unindo mãe e filho?

Orestes

Dá-nos agora, Apolo, teu depoimento: explica claramente se quando a matei agi de acordo com os ditames da justiça. Não vou negar a prática do ato em si, mas desejo saber se em tua opinião este homicídio pode ser justificado; desfaze as minhas dúvidas e as dos juizes!

Apolo

Falar-vos-ei, membros do egrégio tribunal recém-instituído pela deusa Atena, seguindo os retos mandamentos da justiça (sendo profeta, não posso dizer mentiras). Do alto de meu santo trono oracular jamais pronunciei uma simples palavra falando a homens ou mulheres ou cidades, que não fosse inspirada pelo próprio Zeus, pai dos deuses olímpicos. Ficai atentos à minha ponderosa justificação; exorto-vos a prestar-lhe toda a atenção e a ser submissos à vontade de meu pai; juramento nenhum deve prevalecer sobre os desígnios de Zeus todo-poderoso.

Corifeu

Veio de Zeus, segundo tu mesmo disseste, a determinação oracular a Orestes para vingar o assassinato de seu pai sem nada impor em relação à sua mãe?

Apolo

Sim, veio, pois é totalmente diferente a morte de um herói ilustre, respeitado por ser o detentor do cetro instituído graças à vontade divina; mais ainda: ele foi atingido por uma mulher não com um arco excepcional de longo alcance, desses usados pelas bravas amazonas, e sim da forma insidiosa que ouvireis, tu, Palas, e vós, os juízes impolutos, sentados nesta corte para decidir com vossos votos a questão em julgamento. O marido voltava de uma guerra longa, depois de vencer quase todas as batalhas; sua mulher o recebeu com falso amor, e levou-o a banhar-se; quando ele saía da banheira sinistra, ela o envolveu num longo manto e num instante o abateu, preso naquele pano cheio de bordados como se fosse uma armadilha sem salda. Foi este o fim ignóbil de um herói sem par, o comandante-em-chefe de naus incontáveis. Minha intenção falando assim é despertar a justa indignação das pessoas presentes das quais depende agora a decisão da causa.

Corifeu

Levando em consideração tuas palavras, Zeus tem especial estima pelos pais; ele, porém, acorrentou seu próprio pai, o antigo Cronos; como conciliarás tua argumentação com a conduta dele?35

(Dirigindo-se aos juízes.)

Conclamo-vos a prestar atenção a isto.

Apolo

Ah! Monstros execrados por todos os seres, e detestados pelos deuses imortais! Zeus sabe desatar correntes e conhece remédios para todas as situações e numerosos meios para resolvê-las; mas quando morre um homem e seu sangue quente encharca a terra, nada o traz de volta á vida. Meu pai não tem contra esse mal recurso algum, ele que pode derribar ou levantar todas as coisas sem a mínima fadiga.

Corifeu

Atenta, então, ao modo pelo qual defendes a inocência dele: deverá Orestes, que derramou no chão o sangue maternal, morar em Argos, no palácio de seu pai? A que altares públicos de sua pátria ele terá acesso para sacrifícios? Que confraria lhe dará consentimento para purificar-se com água lustral?

Apolo

Responderei também a isso e saberás que todos os meus argumentos são corretos. Aquele que se costuma chamar de filho não é gerado pela mãe – ela somente é a nutriz do germe nela semeado -; de fato, o criador é o homem que a fecunda; ela, como uma estranha, apenas salvaguarda o nascituro quando os deuses não o atingem. Oferecer-te-ei uma prova cabal de que alguém pode ser pai sem haver mãe. Eis uma testemunha aqui, perto de nós – Palas, filha do soberano Zeus olímpico -, que não cresceu nas trevas do ventre materno; alguma deusa poderia por si mesma ter produzido uma criança semelhante36?

De minha parte, Palas, sábio como sou, darei glória a teu povo e à tua cidade; quanto a Orestes, que chegou até aqui como teu suplicante, fui seu condutor até a frente de teu templo e tua imagem; ele te traz a sua eterna devoção e a segurança de que terás nele mesmo e em todos os seus descendentes no porvir os aliados mais fiéis aos juramentos.

Atena

(dirigindo-se ao Coro das Fúrias.)

Devo chamar, então, os juízes presentes para depositarem no fundo da urna seus votos conscientes e bastante justos, já que tudo foi ponderado e dito aqui?

Corifeu

Já disparamos todas as flechas que tínhamos; agora só nos interessa o veredicto.

 

Atena

(dirigindo-se a Apolo e a Orestes.)

Em relação a vós, que me cumpre fazer para não merecer vossa reprovação?

Apolo

(dirigindo-se aos juízes.)

Ouvistes o que ouvistes; ao votar, amigos, lembrai-vos do que vosso coração jurou.

Atena

Prestai toda a atenção ao que instauro aqui, atenienses, convocados por mim mesma para julgar pela primeira vez um homem, autor de um crime em que foi derramado sangue. A partir deste dia e para todo o sempre o povo que já teve como rei Egeu37 terá a incumbência de manter intactas as normas adotadas neste tribunal na colina de Ares38, onde as Amazonas, iradas com Teseu39, instalaram seus tronos e ergueram suas tendas quando aqui chegaram na tentativa de conquistar a cidade; em frente à fortaleza dos atenienses elas ergueram as muralhas altaneiras da nova cidadela; nas proximidades fizeram santos sacrifícios ao deus Ares, dando por isso à elevação rochosa o nome preservado de Colina de Ares. Sobre esta elevação digo que a Reverência e o Temor, seu irmão, seja durante o dia, seja de noite, evitarão que os cidadãos cometam crimes, a não ser que eles prefiram aniquilar as leis feitas para seu bem (quem poluir com lodo ou com eflúvios turvos as fontes claras, não terá onde beber). Nem opressão, nem anarquia: eis o lema que os cidadãos devem seguir e respeitar.

Não lhes convém tampouco expulsar da cidade todo o Temor; se nada tiver a temer, que homem cumprirá aqui os seus deveres? Se fordes reverentes ao poder legítimo, nele tereis um baluarte inexpugnável de vosso território e de vossa cidade, como nenhum povo possui nem lá na Cítia40, nem mesmo na famosa pátria do herói Pêlops41. Proclamo instituído aqui um tribunal incorruptível, venerável, inflexível, para guardar, eternamente vigilante, esta cidade, dando-lhe um sono tranqüilo. Eis a mensagem que vos quero transmitir, atenienses, pensando em vosso futuro. Levantai-vos agora de onde estais, juizes, e decidi com vossos votos esta causa.

(Os juízes levantam-se um de cada vez para depositar os votos na urna, enquanto Apolo e o Corifeu altercam.)

Corifeu

Nossa presença pesará sobre esta terra se tentares privar-nos de nossos direitos!

Apolo

De minha parte, exorto-vos a respeitar as profecias que não são apenas minhas, pois vêm de Zeus também! Não mateis os seus frutos!

Corifeu

Estás intrometendo-te em crimes sangrentos, que nada têm a ver com tuas profecias; se persistires não terás os lábios puros para exercer tuas funções oraculares.

Apolo

Então meu pai estava errado quando Ixíon42, o primeiro assassino, aproximou-se dele pedindo proteção como seu suplicante?

Corifeu

Disseste estas palavras! Se nos derrotares, nossa presença trará males para Atenas!

Apolo

Sois desprezadas tanto pelos deuses novos como pelos antigos! Vereis meu triunfo!

Corifeu

No palácio de Feres43 já agiste assim, persuadindo as Parcas a dar vida eterna a criaturas destinadas a morrer.

Apolo

Não pensais que é justo ser benevolente com quem nos dirige uma prece reverente, ainda mais quando precisa de socorro?

Corifeu

Anulas a partilha feita há muito tempo e enganas com teu vinho antigas divindades!

Apolo

Desgosta-vos a decisão a ser tomada e apenas cuspireis sobre quem vos enfrenta um veneno de agora em diante inofensivo.

Corifeu

Sentes prazer em humilhar nossa velhice, deus novo; espero ouvir o veredicto aqui, freando a minha ira contra esta cidade.

Atena

Serei a última a pronunciar o voto e o somarei aos favoráveis a Orestes44. Nasci sem ter passado por ventre materno; meu ânimo sempre foi a favor dos homens, à exceção do casamento; apóio o pai. Logo, não tenho preocupação maior com uma esposa que matou o seu marido, o guardião do lar; para que Orestes vença, basta que os votos se dividam igualmente.

(Dirigindo-se aos juízes.)

Depositai depressa os votos nesta urna, juízes incumbidos de uma decisão.

(Os juízes depositam e pouco depois tiram os votos da urna e os separam diante de Atena.)

Orestes

Ah! Febo Apolo! Qual será o veredicto?

Corifeu

Ah! Noite negra, nossa mãe! Vês tudo isto?

Orestes

Degolam-me ou inda verei a luz do dia?

Corifeu

E para nós a ruína, ou conservar ainda nossas prerrogativas imemoriais?

Apolo

(dirigindo-se aos juízes.)

Contai exatamente os votos, meus amigos; ao separá-los evitai erros ou fraude. Um voto a menos pode provocar desastres e um voto a mais pode ressuscitar um lar.

(Os votos são mostrados a Atena.)

Atena

(apontando para Orestes.)

Ele foi absolvido de um crime de morte! Os votos dividiram-se em somas iguais.

(Sai Apolo.)

Orestes

Atena, deusa salvadora de meu lar! Depois de expulso até da terra de meus pais, graças a ti ela me será devolvida! Ah! Finalmente poderei ouvir dos gregos: “Orestes hoje volta a ser um dos argivos e o dono do palácio em que seu pai morou!” Graças a Palas e a Loxias, e também graças a Zeus, o meu terceiro salvador, que sempre ressentido por causa da morte de meu querido pai e vendo a insistência das Fúrias em querer vingar a minha mãe, neste momento me concede a salvação!

(Dirigindo-se a Atena)

Quero fazer o juramento mais solene, eternamente válido, em tua cidade e na presença de teu povo generoso neste momento em que recupero meu lar: jamais um homem investido no poder em Argos, que é meu reino, empunhará as armas contra tua cidade; eu mesmo, de meu túmulo, provocarei a perdição dos transgressores do santo juramento feito neste instante, lançando sobre eles males sem remédio, tirando-lhes o ânimo durante a marcha e pondo em sua rota lúgubres presságios, levando-os a desistirem de seus planos.

Se, ao contrário, houver o devido respeito às minhas palavras juradas e os argivos honrarem para sempre a cidade de Palas, e a socorrerem como fiéis aliados, hei de favorecê-los por todos os séculos.45 Digo-te adeus agora e também me despeço de teu valente povo! Habitantes de Atenas! Desejo que nas lutas contra os inimigos nenhum destes se salve, e vossas investidas vos tragam salvação e vitória na guerra!

(Sai Orestes.)

Coro

Ah! Deuses novos! Como espezinhais as leis antigas, pois arrebatais de nossas mãos o que sempre foi nosso! E nós, infortunadas e menosprezadas, faremos com que este solo sinta o peso todo de nosso rancor! Ai! Ai de nós! Nosso mortal veneno vai ser a arma de cruel vingança! As gotas, destiladas uma a uma por nossos corações, custarão caro a este povo e à sua cidade; uma praga mortal sairá delas, fatal a todos os frutos da terra e aos vossos filhos!  Ah! Nossa vingança! Caindo sobre vosso chão, a praga será a ruína deste território! Gememos sem saber o que fazer! Ah! Nós, filhas da tenebrosa Noite, sofremos a maior humilhação!

Atena

Ouvi-me: basta de soluços aflitivos! Não vos considereis vencidas, pois da urna saiu uma sentença ambígua, cujo efeito é pura e simplesmente dar força à verdade mas sem vos humilhar. Zeus todo-poderoso mandou sinais capazes de causar espanto, anunciando ao próprio Orestes que seu ato não acarretaria castigos divinos. Vossa vontade é derramar sobre esta terra a vossa ira; peço-vos que reflitais em vez de agir obedecendo aos vossos ímpetos; não insistais em tornar este solo estéril deixando transbordar de vossos lábios sacros uma espuma raivosa que destruiria todos os germes produtores de alimentos. Desejo oferecer-vos de maneira justa asilo e proteção nesta cidade; aqui, no trono de vossos altares reluzentes, tereis assento e o respeito de meu povo.

Coro

Ah! Deuses novos! Reduzis a nada as leis antigas, pois estais tirando de nossas mãos o que sempre foi nosso! E nós, infortunadas e aviltadas, faremos com que este solo sinta o peso todo de nosso rancor! Ai! Ai de nós! Nosso mortal veneno vai ser a arma de cruel vingança! As gotas, destiladas uma a uma por nossos corações, custarão caro a este povo e à sua cidade; uma praga mortal sairá delas, fatal a todos os frutos da terra e aos vossos filhos! Ah! Nossa vingança! Caindo sobre vosso chão, a praga será a ruína deste território! Gememos sem saber o que fazer! Ah! Nós, filhas da tenebrosa Noite, sofremos a maior humilhação!

Atena

Não fostes humilhadas; deveis evitar que vossa imensa cólera vos estimule a perseguir encarniçadamente os homens! Deixai que a terra escute as preces deles, deusas! Mas meu apoio é Zeus e – por que não dizer? – apenas eu entre todas as divindades sei a maneira de abrir o compartimento onde os raios divinos estio encerrados (aqui, porém, eles não nos são necessários). Exorto-vos a crer sinceramente em mim! Que vossas bocas furiosas nunca mais lancem sobre este solo fértil maldições capazes de matar tudo que existe aqui! Deixai adormecer o lacerante ímpeto dessa torrente de rancor e recebei as honrarias que vos cabem por direito! Vinde viver comigo aqui e neste solo; a partir deste dia todas as primícias, as oferendas todas pelos nascimentos e pelos himeneus vos serão reservadas! Ouvi-me e sempre louvareis o meu conselho!

Coro

Nós, deusas muito antigas, não queremos ter esta sorte e residir aqui como seres impuros e malditos! Não! Todas nós estamos respirando a mais intensa cólera e vingança! Ah! Terra e céu! Ah! Quanto sofrimento invade agora nossos corações! Ouve-nos, Noite! Ouve-nos, nossa mãe! Deuses maliciosos e perversos despojam-nos de nossas honrarias, nunca negadas e hoje suprimidas!

Atena

Perdoarei a vossa cólera incontida, pois já vivestes realmente muito tempo. Mas, se vosso conhecimento excede o meu, Zeus me dotou também de alguma sapiência. Se preferirdes ir para terras distantes, lamentareis por não terdes ficado aqui. Agora ireis ouvir a minha profecia: o tempo, em seu fluxo incessante, há de trazer glórias inda maiores para minha Atenas, e vós, de vosso trono em solo esplendoroso, ao lado da morada do rei Erecteu46 vereis chegarem numerosas procissões de homens e mulheres para vos trazerem presentes que em outros lugares não teríeis. Mas, quanto a vós, quero pedir-vos um favor: não empunheis esses sangrentos aguilhões que dilaceram peitos jovens, e sem vinho os embriagam em furores delirantes.

Também espero que não seja vosso intuito exacerbar, como se os homens fossem galos, a cólera no coração dos cidadãos e neles instilar a sede de homicídios que lança irmãos insanamente contra irmãos até levá-los ao extermínio recíproco; deixai que eles preservem sua valentia para lutar contra inimigos estrangeiros, sempre ao alcance de quem traz no coração um desejo febril de glória verdadeira, mas não queremos ter noticia em tempo algum de pássaros lutando na mesma gaiola. Aqui está o que podeis obter de mim: fazer e receber o bem e ser benditas e veneradas numa terra mais que todas querida pelos deuses, da qual vós sereis desde este dia distinguidas cidadãs.

Coro

Nós, deusas muito antigas, não queremos ter esta sorte e residir aqui como seres impuros e malditos. Não! Todas nós estamos respirando a mais intensa cólera e vingança! Ah! Terra e céu! Ah! Quanto sofrimento invade agora nossos corações! Ouve-nos, Noite! Ouve-nos, nossa mãe! Deuses maliciosos e perversos despojam-nos de nossas honrarias, nunca negadas e hoje suprimidas!

Atena

Jamais me cansarei de tentar convencer-vos de que vos convém aceitar minhas promessas; não quero que penseis que eu, deusa mais nova, e os muitos habitantes de minha cidade, tivemos a intenção de expulsar desta terra deusas antigas em vez de homenageá-las. Se venerais a sagrada Persuasão, que faz minhas palavras parecerem mágicas e cheias de doçura, concordai comigo e sede para todo o sempre minhas hóspedes. Mas, se não concordardes, sereis certamente iníquas, deixando cair sobre a cidade ódio, rancor e males contra os habitantes, pois tendes minha permissão para gozar de todos os direitos de cidadania, glorificadas entre nós eternamente.

Corifeu

Mas, onde moraremos, soberana Atena?

Atena

Num lugar onde não há penas; aceitai-o!

Corifeu

Se o aceitarmos, como nos distinguirão?

Atena

Sem vossa benção, nenhum lar prosperará.

Corifeu

Teremos com certeza todo este poder?

Atena

Só terão minha proteção vossos devotos.

Corifeu

E manterás tua palavra para sempre?

Atena

Nada me obriga a prometer o que não quero.

Corifeu

Abrandas meu rancor e renuncio ao ódio.

Atena

Ficando aqui, conquistareis novos amigos.

Corifeu

Que bênçãos deveremos invocar agora para tua cidade em nossos hinos? Dize!

Atena

Aquelas que trazem vitórias sem tristeza. Que soprem sobre esta cidade brisas calmas vindas da terra, do profundo mar, do céu, sob os raios propícios do brilhante sol! Que o solo rico e os rebanhos nunca deixem de dar prosperidade ao povo ateniense! Que a semente dos homens seja protegida! Que os descuidosos da veneração dos deuses sejam ceifados sem nenhuma piedade, pois como um jardineiro sempre cuidadoso gosto de ver os mortais justos prosperarem como uma plantação livre de ervas daninhas. Ai estão as bênçãos que vós nos trareis. Quanto às lides guerreiras, cuidarei eu mesma de que elas sempre glorifiquem a cidade proporcionando-lhe vitórias de seus homens.

Coro

Então queremos conviver com Palas e nunca aviltaremos a cidade que ela e Zeus onipotente e Ares exaltam como invicta fortaleza, brilhante baluarte dos altares santificados por todos os deuses! Alçamos nossos votos fervorosos e nossas profecias mais propicias para que o vivido esplendor do sol faça brotar da terra generosa, em transbordante e eterna plenitude, as bênçãos que tornam feliz a vida!

Atena

Levada pelo amor a este povo, deixo com ele as deusas poderosas mas de trato difícil; seu encargo é dirigir a vida dos mortais. Quem não pautar a conduta na vida pelos ditames destas divindades temíveis por seu poder inconteste, não poderá compreender a origem dos golpes que recebe em sua vida. Por causa dos pecados de seus pais, os homens são levados a enfrentá-las e a morte muda, embora suas vítimas tentem detê-las com palavras ásperas, destrói-as em obediência apenas ao rancor implacável destas deusas.

Coro

Que nunca os ventos cheios de miasmas soprem para matar as vossas plantas! Graças a nós o fogo irresistível, cujo calor consome a floração, nunca ultrapassará vossas fronteiras e o triste mal destruidor das frutas não se aproximará de vossas árvores! Que os campos generosos sempre aumentem as vistosas ovelhas fecundadas para terem belos cordeiros gêmeos quando chegar a hora prefixada! E praza aos céus que as riquezas guardadas no solo cheio de grandes tesouros vos permitam retribuir aos deuses as dádivas do ganho inesperado!

Atena

Ouvistes, guardiães desta cidade, o que elas deverão fazer por vós? Grande poder têm as augustas Fúrias junto aos deuses do Olimpo e mais ainda às divindades do profundo inferno. Para os mortais são elas que, sem dúvida e plenamente, dão a uns razões para cantar e a outros para o pranto.

Coro

Livramo-vos da morte prematura que ceifa impiedosamente os jovens. Vós, que determinais a vida humana, divinas Parcas47, filhas como nós da negra Noite, distribuidoras da equidade, vós que sois os árbitros da sorte de todas as criaturas, proporcionai às virgens a ventura de ter um dia esposos a seu lado! Vós, que tendes lugares exclusivos nos lares, confirmai vossa presença de paladinas da sacra justiça, deusas mais respeitadas neste mundo!

Atena

Alegra-me que com bons sentimentos vós concordeis em confirmar as bênçãos para minha cidade; manifesto-me grata à Persuasão, cujos olhares guiaram minha voz e os lábios meus em face de vossa feroz recusa. Prevaleceu a vontade de Zeus, inspirador de todas as palavras, e minha pertinácia benfazeja triunfa para toda a eternidade.

Coro

Jamais possa a discórdia insaciável vociferar possessa na cidade, e o pó da terra nunca mais absorva o sangue escuro de seus próprios filhos por causa de paixões inspiradoras de lutas fratricidas oriundas da ânsia irresistível de vingança que leva os homens à destruição! Possam as criaturas, ao contrário, trazer contentamento umas às outras, unânimes no amor e no rancor! Esta é a cura de males sem número que afligem a existência dos mortais.

Atena

Poder-se-á dizer que descobristes a via dos desejos amistosos? Vossos rostos esquálidos prometem grandes vantagens para este povo. Se vosso amor responde ao seu amor e fordes veneradas para sempre, mostrar-vos-eis unânimes ao mundo, levando minha terra – esta cidade – pelos caminhos retos da justiça.

Coro

Sede felizes na posse dos bens abençoados da prosperidade! Sede felizes, cidadãos de Atenas, sentados perto da Virgem de Zeus48, prestando-lhe as devidas homenagens enquanto aprendeis a sabedoria a cada dia; quem é protegido pelas asas de Palas, terá sempre a consideração de Zeus, seu pai.

ATENA

Sede também felizes! Marcharei à vossa frente para vos mostrar vossa morada, sob as santas luzes da procissão que deverá seguir-nos; levai convosco pias oferendas, descei para as profundezas da terra, retende longe de nós todo mal e mandai-nos de lá muita ventura, para o triunfo constante de Atenas! E vós, senhores de minha cidade, filhos de Crânaos49, mostrai a rota a estas recém-vindas habitantes. Que os cidadãos, para seu beneficio, tenham somente pensamentos bons!

Coro

Tornamos a dizer: sede felizes, vós todos que morais nesta cidade, mortais ou deuses; ela é de Palas; pedimos-lhe que seja reverente já que nos outorgou cidadania; e vós em tempo algum vos queixareis da sorte que o destino vos reserva!

Atena

Merece aplausos vossa invocação e vos conduzirei á luz brilhante de tochas até vossa residência nas entranhas da terra, em companhia de minhas seguidoras, guardiãs de minha imagem consagrada. Os olhos da terra de Teseu50 irão conosco – cortejo glorioso de matronas, de virgens e mulheres veneráveis. Adornai-vos com vestidos de púrpura e destacai o fogo destas tochas para que a companhia generosa das novas cidadãs nos traga sempre a bênção de excelentes gerações.

Procissão

Marchai á frente, divindades fortes, filhas sem filhos da fecunda Noite, sedentas de homenagens, ombreando com um cortejo composto de amigos até chegar à gruta subterrânea.

– Pronunciai bons votos, habitantes! – Lá vos esperam santas oferendas e sereis cultuadas como deusas. – Pronunciai bons votos, habitantes!

– Propícias e leais a esta terra, segui vosso caminho, augustas deusas; rejubilai-vos com a luz das tochas que, afogueadas, indicam a rota.

– Gritai agora, obedecendo aos ritos, numa resposta ao nosso canto estridulo!

(Grito prolongado.)

O povo preferido por Atena acaba de ganhar a paz aqui para a felicidade de seus lares, e assim vemos selar-se a união entre as Parcas e Zeus onividente!

– Gritai agora, obedecendo aos ritos, numa resposta ao nosso canto estrídulo!

(Grito prolongado.)

 

FIM

 

1 Têmis: filha da Terra, uma das mulheres legítimas de Zeus, deusa das leis eternas e da justiça. Atribuíase

a Têmis a invenção dos oráculos, e ela teria sido a instrutora de Apolo na arte oracular.

2 Febo: um dos epítetos de Apolo, significando “luminoso”.

3 Filhos de Hefesto: os atenienses, cujo rei mítico – Erictônio – era filho de Hefesto, o deus do fogo.

4 Febo Apolo: Veja a nota 2

5 “Ciência Divina”: o dom da profecia.

6 Apolo: no original está Lóxias, um dos epítetos do deus significando “oblíquo”, numa alusão à

obscuridade dos oráculos.

7 Atena: no orginal está Palas Pronaia, um epíteto duplo da deusa. O epíteto mais usado de Atena é Palas.

8 Brômio: um dos epítetos do deus Diôniso, significando “fremente”, “retumbante”.

9 Penteu: rei de Tebas, morto por sua própria mãe Agave, inspirada pelas Bacantes, por desprezar e

combater o culto orgiástico de Diôniso.

10 Pleisto: rio situado na Focis. Poseidon é o deus das águas em geral, dos rios e dos mares.

11 Hárpias: monstros femininos alados, que roubavam diariamente os alimentos de Fineu, rei-profeta de

Salmideso, na Trácia.

12 Tártaro: a parte mais profunda do inferno, onde eram confinados os piores criminosos.

13 Cidade de Palas: Atenas.

14 Hermes: filho de Zeus e de Maia na mitologia grega, mensageiro de seu pai e deus incumbido de levar as almas dos mortos aos infernos.

15 “Outros deuses”: os deuses infernais, os únicos que recebiam sacrifícios noturnos.

16 “Como um ladrão”: alusão a Hermes, deus famoso por sua habilidade para roubar.

pelo sangue de um bárbaro homicídio!

17 “Centro deste mundo”: Delfos, onde ficava o oráculo mais famoso de Apolo, era tida como o centro do

mundo (no original “umbigo” em vez de “centro”.

18 “O pacto muito antigo”: o pacto pelo qual os deuses estabeleceram as respectivas atribuições junto aos

mortais.

19 “Serpentes sibilantes de asas brancas”: metáfora significando flechas.

20 Hera: mulher legítima de Zeus, deus maior da mitologia grega.

21 Afrodite: deusa do amor na mitologia grega.

22 Hades: deus supremo do inferno na mitologia grega.

23 Líbia: na antigüidade o Norte de África. Triton era um rio da Líbia que desaguava no Mediterrâneo.

24 Flegra: local do campo de batalha mítico onde os deuses olímpicos derrotaram os gigantes.

25 “Deus filho de Leto”: Apolo.

26 “Discórdia”: no texto grego Ares, deus da guerra, da destruição e da discórdia.

27 Escamandro: rio da região de Tróia

28 “Aqueus”: em sentido estrito, “habitantes de Acaia”, e em sentido amplo os gregos em geral na época

da guerra de Tróia.

29 Teseu: o herói mais importante de Atenas, e rei da Ática.

30 “Mas ele não jurou…”: não jurou que diria a verdade nem pediu o juramento das Fúrias de que seriam verazes.

31 Ixíon: rei dos Iapitas, habitantes de parte da Tessália, famoso por sua arrogância e crueldade, que certa vez se apresentou a Zeus como seu suplicante após cometer um homicídio.

32 “Alto tribunal”: o Areópago, principal tribunal de Atenas.

33 “Tirrênia”: nome antigo da Etrúria, onde se fabricavam as trombetas mais famosas na antiguidade grega.

34 “Uma das três quedas”: somente após derribar três vezes o adversário um atleta era considerado vencedor na luta livre.

35 Cronos: antigo rei dos deuses, sucessor de Urano e predecessor de Zeus; este último declarou guerra a

seu pai e o destronou, substituindo-o como deus supremo.

36 Zeus engoliu Métis, sua primeira mulher divina, que estava grávida de Atena, e quando sentiu chegar a hora do nascimento desta última ordenou a Hefesto, deus do fogo, que lhe fendesse a cabeça; de lá saiu Atena, já crescida e armada.

37 Egeu: rei mítico de Atenas.

38 “Colina de Ares”: em grego Areôpagos, origem do nome do tribunal famoso.

39 Teseu: veja-se a nota 29

40 Cítia: nome de grande parte da atual Rússia ocidental na antiguidade.

41 “Pátria do herói Pêlops”: Peloponeso.

42 Ixíon: veja-se a nota 31.

43 Feres: fundador e rei da cidade de Feras, situada na Tessália.

44 Esta é a origem da expressão “voto de Minerva” (a deusa da mitologia romana equivalente a Atena).

45 Os heróis, mesmo depois de mortos, podiam favorecer o seu povo, principalmente em feitos marciais.

46 Erecteu: antigo rei de Atenas.

47 Parcas: em grego Môirai, divindades responsáveis pelo destino de cada mortal. As Parcas eram três: Átropos, Clotó e Láquesis; eram filhas da Noite, como as Fúrias.

48 “Virgem de Zeus”: Atena

49 Crânaos: segundo rei de Atenas.

50 Veja-se a nota 29.