Ésquilo, Sete contra Tebas

O fim da Casa de Édipo

Giovanni Batistti Tiepolo 1696-1770

A peça teatral Sete contra Tebas foi escrita por Ésquilo, considerado o pai da tragédia grega, que viveu entre 525 a.C. a 455 a.C. Esta é uma obra mais expositiva que dramática, narrando os eventos ocorridos após o exílio de Édipo da cidade de Tebas, para quem os próprios filhos viraram as costas e foram amaldiçoados a acabar matando um ao outro. Assim, a história se desenrola sob a visão de Etéocles que baniu o próprio irmão Polinices para governar sozinho a cidade de Tebas. No entanto, a vingança de Polinices ocorre ao reunir sete exércitos para reconquistar a cidade sob a liderança de Anfiarau, Capaneu, Hipómedon, Partenopeu, Tideu e do próprio Polinices. O lamento de Etéocles começa quando esses sete generais chegam defronte aos portões de Tebas.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por Evandro Luis Salvador.

 

Os Sete contra Tebas

Personagens

Etéocles,
Antígona
Ismene
Mensageiro-Espião
Arauto da Cidade
Coro (Mulheres de Tebas)

Cenário: Etéocles está na cidade de Tebas em frente a um altar com a imagem de vários deuses, onde há uma grande multidão esperando seu rei Etéocles lhes falar.

Etéocles

Cidadãos da Cadmeia, é preciso falar sobre a manobra oportuna: àquele que acompanha a situação, na popa da cidade, com o leme na mão, não se permite adormecer. Se, pois, a nau bem conduzirmos, a responsabilidade é divina; do contrário – queira que não aconteça – uma desgraça sucedesse, só o nome de Etéocles, de um extremo a outro da cidade, seria muito celebrado por seus concidadãos com hinos graves e cantos lancinantes dos quais Zeus, o protetor, possa ele, pela força de seu nome, afastá-los da cidade dos Cadmeus.

Agora é necessário a vós, aos que perderam o vigor jovial  e aos que adentraram a idade da adolescência, cada qual dispondo do que lhe é adequado à idade, e muito nutrindo a seiva do corpo, socorrer a cidade e os templos dos deuses desta terra, para que jamais sejam manchadas as honras; socorrer os filhos e a Terra mãe, nossa mais querida nutriz. Pois em seu solo benevolente os jovens engatinharam; sob seus cuidados, a tarefa de educação das crianças, tendo formado os habitantes portadores de escudos, para que se tornem dignos neste momento de necessidade.

Até agora, a divindade nos é favorável: depois de longos dias em que defendemos as torres, pelos deuses estamos em vantagem. Agora, como diz o profeta, o que observa o voo dos pássaros, analisando os signos proféticos não com a ajuda do fogo, mas pela orelha e pelo espírito, com uma arte que não engana, esse profeta, senhor dos augúrios, diz ele que um imenso ataque dos argivos foi decidido, em assembléia noturna, para hostilizar a cidade.

Então, lançai-vos todos para as ameias e portas dos fortes; precipitai-vos todos com armadura completa; ocupai os manteletes e guarnecei os terraços; e permanecendo nas portas de saídas das torres, com os pés firmes, tende confiança; não temei em demasia a tropa invasora: deus nos favorece. Da minha parte, mensageiros e espiões, para a linha inimiga, enviei e estou convencido que eles caminham seguramente; e ouvindo seus relatos, espero com isso não ser surpreendido.

Mensageiro

Etéocles, o mais bravo rei dos Cadmeus, venho da linha inimiga trazendo notícia fidedigna. Pois sou, em pessoa, o observador dos acontecimentos. Sete homens, comandantes impetuosos, degolando um touro sobre um escudo negro, e tocando com as mãos no sangue desse touro, juraram por Ares, Ênio e pelo sanguinário Fobos isto: ou transformar Tebas em ruínas, devastando a cidade dos Cadmeus pela força; ou manchar esta terra com o sangue de seus corpos.

E com lembranças para os parentes que ficaram em casa, o carro de Adrasto cingiam com suas mãos vertendo lágrimas, mas nenhuma lamentação havia na boca. Pois o ânimo de ferro, sobressaltando pela bravura, bufava como leões faiscando Ares pelos olhos. E a confirmação desse juramento não vai demorar: parti enquanto sorteavam contra quais portas cada um dos sete comandará a tropa de homens armados.

Por isso, rápido, na direção das portas de saídas das torres, designe os melhores guerreiros escolhidos da cidade. pois, munidos de todas as armas, levantando poeira, os argivos se aproximam e uma espuma branca, da baba expelida dos pulmões dos corcéis, toma o campo. Tu, de tal sorte comandante prudente da nau, protege a cidade antes que chegue o sopro violento de Ares. Pois os gritos dos inimigos caminham sobre solo firme.

Toma, então, a ocasião que é a mais aguda. Quanto a mim, fiel observador, no decorrer da jornada, observarei os agressores das portas e, claramente, conhecendo o que eles conversam, ficarás ileso.

Etéocles

Ó Zeus, Terra e deuses protetores de Tebas, Maldição, Erínias poderosas de Édipo, não extirpeis da Hélade, de suas raízes, pelo menos a cidade, completamente tomada pelos inimigos, assaltando as riquezas e os altares domésticos. A terra livre e a cidade de Cadmo jamais estejam sob jugos escravos, tornai-vos nossa pujança – creio que o interesse é comum: uma cidade bem sucedida honra seus deuses.

(As mulheres de Tebas chegam em Coro, fazendo orações à guerra)

 

Coro 

Lamento-me pelo temor e pela amargura imensos. O exército deixou o acampamento e aproxima-se: eis que avança, numerosa, a torrente de cavaleiros. O pó brilhante, suspenso no ar, me convence, Mensageiro seguro, verdadeiro, porém mudo. O estridor das armas e os corpos no solo de Tebas. Chega aos meus ouvidos o grito de dor: arrancado e ribombado como a torrente, invencível, que bate no flanco da montanha. Oh, deuses e deusas, afastai de Tebas o flagelo que se levanta. Há um brado por sobre os muros: o exército do escudo branco, glorioso, contra Tebas se levanta apertando o passo. Quem, então, dentre os deuses e deusas, protegerá a nós e salvará a cidade? Devo, então, como de costume, ajoelhar-me diante das estátuas dos deuses?

Oh! Felizes os que repousam sobre tronos seguros. Eis que chega a hora de abraçar as estátuas: Por que, gementes, nos demoramos? Ouvis ou não ouvis o estrépito dos escudos? Se não agora, quando iremos oferecer, de grinaldas e de túnicas, a prece suplicante? Eu temo o estrondo: não é choque de uma só lança. O que irás fazer, Ares, habitante de Tebas, trairás a tua própria terra? Oh! Deus do elmo de ouro, fita os olhos, mira-os para a cidade que em outros tempos depositaste tua predileção.

Deuses protetores da cidade, vinde, vinde todos. Contemplai a multidão de virgens suplicantes que esperam fugir da escravidão. A tormenta de guerreiros de elmos ao vento inflama-se ao redor da cidade, conduzida pelo sopro de Ares. Mas Oh, Zeus, pai de tudo o que existe, impede completamente a conquista da cidade pelos invasores. Pois, a cidade de Cadmo, os argivos  estão cercando: temo as armaduras de guerra.

Certamente, entre os maxilares dos corcéis, os freios comprimidos anunciam a carnificina. Sete varões, distinguindo-se do exército, suas lanças brandindo, na direção das sete portas, dirigem-se após serem escolhidos por sorteio. E tu, poder nascido de Zeus, amante da batalha, sê a protetora de nossa cidade – Palas Atena; e tu, senhor do mar e dos cavalos – Poseidon; que com o tridente fisga o peixe com engenhosidade, livrando-nos dos terrores, dá-nos a liberdade!

E tu, Ares, Oh! A cidade que leva o nome de Cadmo claramente custodie e preocupe-te com ela; Cípris, antiga genitora de nossa estirpe, salve-nos, pois de teu sangue nascemos, com súplicas que invocam os deuses aproximamo-nos e acercamo-nos de ti.

E tu, senhor dos lobos – Apolo: sê como um lobo contra o exército inimigo e lhes dê o clamor dos lamentos:  E tu, jovem guerreira, filha de Leto [Ártemis], tem em boa mira o teu arco.

Seção estrófica

Ah!Ah!Ah!Ah! estrofe a

Ouço, em torno da cidade, o estrondo das carruagens. Oh! Venerável Hera: Os eixos das rodas estalam de excessivo peso. Ártemis adorada: O ar brandido pelas lanças se enfurece. Porque nossa cidade sofre? O que acontecerá? Até onde a divindade conduzirá seus desígnios?

Ah!Ah!Ah!Ah! antístrofe a

De longe lançadas, as pedras encontram as ameias. Oh! Amigo Apolo: nas portas, o estrondo dos escudos revestidos de bronze. Filho de Zeus, cujo desígnio sagrado é definir o combate numa guerra; e tu, senhora afortunada Onca [Atena], na defesa da cidade, ampare esta terra que tem sete portas.

Oh! Deuses poderosos. estrofe b

Oh! Divindades que conduzem ao fim os acontecimentos, sejam guardiões das torres desta terra; Não entregueis uma cidade atormentada pela lança a um exército que fala uma outra língua. Escutai as virgens, escutai com toda justiça as preces oferecidas de mãos estendidas.

Oh! Divindades amigas, antístrofe b

Que já salvastes a cidade dos perigos, 175  revelai o amor que tendes pela cidade; assenhorai-vos dos santuários públicos, e, depois de ocupá-los, defendei-nos. Lembrai-vos, para mim, das cerimônias sacrificatórias da cidade. 

Etéocles

Indago a vós, criaturas insuportáveis, se estas atitudes são valentes e salvam a cidade, animam os cidadãos na defesa de nossas torres, estando ajoelhadas nos templos dos deuses tutelares, a chorar e a gritar, causando repulsa dentre os prudentes? Nem nas desgraças, nem nas prosperidades tenha eu, como companheira de teto, alguém da estirpe feminina! Pois podendo, não tem habilidade no comércio; temendo, seja em casa ou na cidade, a desgraça é plena.

Neste momento os cidadãos fogem pelas vielas estreitas, acovardados pelos vossos clamores desmedidos. Assim a situação dos forasteiros sobeja de bravura, enquanto que nós, aqui de dentro, estamos nos destruindo. Tais coisas ganharias convivendo com as mulheres. Pois bem, se alguém não ouvir as minhas ordens, seja homem, mulher ou o ser que ficou no meio do caminho, sentença de morte será deliberada contra ele, e ninguém escapará do destino da lapidação popular. Diz respeito ao homem – que a mulher não palpite – os assuntos externos: esteja em casa e não atrapalhe! Compreendeis ou não compreendeis? Ou falo a uma surda?

Coro (estrofe a)

 Óh filho querido de Édipo, invadiu-me o medo ao ouvir o estrépito das carruagens, quando do voltear dos eixos e das rodas e o cavaleiro retinindo as rédeas dos corcéis de freios forjados a fogo.

Etéocles

Por isso temes então? É correndo da popa até a proa que o comandante encontra a manobra de salvação de uma nau que está sendo castigada pelas ondas?

Coro (antíestrofe a)

Mas só fui até as antigas estátuas, para professar fé nos deuses da cidade, quando a destruidora avalanche golpeou as portas. Por isso, amedrontada, fui suplicar aos bem-aventurados, a fim de que assegurassem a proteção da cidade.

Etéocles

Orai para que a lança inimiga esbarre nas fortificações! Acaso não será isso a vontade dos deuses? Pela tradição, eles abandonam uma cidade sitiada.

Coro (estrofe b)

Jamais, ao longo de minha existência, abandone-nos essa assembléia divina, tampouco possa presenciar o saque e a queda de Tebas pelo fogo devastador do exército forasteiro.

Etéocles

Não te comporte equivocadamente ao invocar os deuses. A Obediência é mãe da Boa-Fortuna e companheira da Salvação: Eis a verdade!

Coro (antíestrofe b)

Sim, mas a pujança divina é ainda mais suprema: com freqüência, em meio aos males insolúveis, diante da penúria, quando uma nuvem paira sobre seus olhos, a pujança é capaz de erguê-lo.

Etéocles

Concerne aos homens o ritual de sacrifício, em honra aos deuses, nos trabalhos de guerra; compete a ti o calar e o permanecer em casa.

Coro (estrofe c)

Pela graça divina habitamos uma cidade indômita, em que as torres protegem contra a hostilidade estrangeira. Qual nêmesis ameaça essa nossa condição?

Etéocles

Em verdade não nego a ti honrar a estirpe divina. Mas, para que não semeies a covardia dentre os cidadãos, tranquilize-te e não tema em excesso.

Coro (antíestrofe c)

Ao mesmo tempo em que ouvi o estrondo repentino, com temor excessivo, para a acrópolis, venerada seja, eu comecei a correr.

Etéocles

Ainda que reconhecêsseis os moribundos ou os feridos, não vos lanceis às lamentações. Pois Ares se apazígua com sangue humano.

Coro

De fato, ouço o relinchar dos corcéis

Etéocles

Ouve, mas sem ouvir em excesso.

Coro

A cidade reclama de seu solo pisoteado por eles.

Etéocles

Então não me é suficiente deliberar a respeito deles?

Coro

Que medo: o estrondo nas portas amplifica-se!

Etéocles

Tu não cessarás de falar do que acontece pela cidade?

Coro

Óh panteão divino, não abandoneis as fortificações tebanas!

Etéocles

Infeliz! Não ficarás quieta e guardará isso para ti?

Coro

Deuses da cidade: que o acaso não me torne escrava!

Etéocles

Tu mesma te escravizas, a mim e a toda uma cidade.

Coro

Ó Zeus poderoso, aponte teus dardos para os inimigos!

Etéocles

Ó Zeus, que raça de mulheres nos deste!

Coro

Infortunada…como homens quando a cidade deles é tomada.

Etéocles

Mais uma vez apelas abraçando as estátuas dos deuses?

Coro

Pois, desolada, o medo arrebata as palavras.

Etéocles

Eis o que quero saber: darias uma ligeira trégua?

Coro

Digas o mais depressa possível que tão logo examinarei.

Etéocles

Fique quieta, ó miserável, e não aterrorize os nossos.

Coro

Calo-me: junto às demais, resignar-me-ei perante o destino.

Etéocles

Diante daquelas outras, é essa promessa que escolho. E ademais: uma vez separada das estátuas dos deuses, reze para que eles nos auxiliem no combate. Depois de ouvir as minhas súplicas e, mais calmamente, então, entoe o cântico sagrado de vitória, costume grego do brado que acompanha o sacrifício e que encoraja os guerreiros e desfaz o temor ao inimigo. Da minha parte, aos deuses protetores desta terra, que habitam a planície e velam pela Ágora, nas fontes de Dirce e do Ismeno anuncio: Se os acontecimentos nos favorecerem e a cidade estiver salva, verterei sangue de animais nos altares dos deuses – imolando touros para honrá-los, assim eu prometo. Colocarei, a título de troféu, as vestes dos inimigos e os seus despojos fulminados pela lança, nos templos sagrados. Coroarei os templos com as vestes dos inimigos.

Desta feita, não te dirija aos deuses com estes gemidos, nem com suspiros vãos e selvagens. Agindo assim não há de fugires mais do destino. No que me diz respeito, vou às saídas das sete muralhas, onde posicionarei seis guerreiros –comigo o sétimo – para enfrentar os agressores de maneira grandiosa, antes que nos surpreenda o rumor arrebatador e inflame-nos a chama da urgente necessidade.

Coro

(estrofe a)

Quero obedecer, mas o medo não adormece o coração. Pois aproxima-se dele, como fogo flamejante, o pavor dos guerreiros sitiadores, a consumi-lo, como a pomba trêmula, que por suas criaturas, teme as serpentes destruidoras de ninhos. Nosso povo, em direção às torres, como tropa compacta avança: o que vai acontecer comigo? Os inimigos, envolventes, lançam contra nossos cidadãos uma chuva de pedras pontiagudas. De todo modo, filhos de Zeus, a cidade de Tebas e o nosso povo, o povo de Cadmo, salvai!

(antíestrofe a)

Por qual solo mais próspero do que o tebano trocareis, se, aos inimigos, esta gleba profunda abandonais, e a fonte de Dirce, a mais substancial dentre as águas, que lançam Poseidon -que cuida da terra- e os filhos da deusa Tétis? Assim, ó deuses tutelares, aos que estão do lado de fora das torres enviando a covardia funesta aos homens e a insanidade que depõe as armas, semeai a glória para estes nossos cidadãos! E sede os defensores da cidade, permanecendo em vossos santuários por nossas súplicas de agudos cantos.

(estrofe b)

É lamentável que uma cidade tão antiga seja baixada ao Hades, sendo alvo da lança, submissa, entre cinzas friáveis, humilhada e devastada indignamente pelos Aqueus auxiliados pelos deuses; as mulheres sendo aprisionadas, tanto as jovens quanto as anciãs, arrastadas pelas melenas como se fossem éguas, com suas túnicas rasgados em redor: e grita a cidade que se esvazia enquanto que o povo cativo se desespera. Estremeço ante o avanço de tão pesado fardo.

(antístrofe b)

É deplorável ver as jovens donzelas, antes mesmo dos ritos habituais da maturidade, atravessarem o átrio para percorrerem caminho doloroso. É melhor sucumbir do que estas desgraças presenciar. Pois muitos infortúnios sucedem-se quando uma cidade é subjugada Um homem conduz o outro, mata; depois incendeia as coisas: e a cidade inteira se enegrece com a fumaça. E, enlouquecido, manchando de sangue a piedade, o domador de povos – Ares – sopra com violência.

(estrofe c)

Tumulto de guerra invade Tebas: aprisionada em suas próprias torres: guerreiro contra guerreiro pela lança sucumbe. Gritos ensanguentados das crianças nos seios maternos, que ainda mamam, ressoam. Saques, parentes das indas e vindas: os que possuem algo, cruzam com os que algo possuem; os de mãos vazias, chamam os que de mãos vazias estão, querendo ter o seu quinhão: nem menor, nem igual. Qual destas coisas pode imaginar o cabeça?

(antístrofe c)

Depois de ter caído no chão o fruto de toda sorte entristece a casa que recebeu pungentes serviçais: Muitas, em confusão, dádivas da terra, são arrastadas em ondas sem valor. Jovens experimentam a dor desconhecida da escravidão; esperam pacientemente o leito do homem que tiver sorte: o inimigo é superior. A esperança é a chegada da noite para mitigar todas as suas dores.

Coro

Certamente o espião do exército, como parece, traz alguma notícia nova para nós, amigas, conduzindo-a diligentemente a passos largos. Eis que vem o rei em pessoa, filho de Édipo, oportunamente saber o que ele tem a dizer: A sua pressa não se ajusta a seus passos.

(o mensageiro chega com informações do exército inimigo)

 

Mensangeiro

Posso relatar as notícias dos inimigos – pois bem as conheço – bem como em quais portas cada guerreiro teve sua sorte lançada. Neste instante brada Tideu contra a porta Proitide, mas o profeta não o permite atravessar o Ismeno, pois os sacrifícios não se tornam propícios.

Tideu está furioso e deseja vorazmente o combate como a serpente que urra sob o sol do meio-dia. Ultraja o sábio profeta filho de Ecleu dizendo: “o covarde bajula o destino e o combate”. Vitupérios à parte, agita três plumas sombreadas na crista de seu elmo e em seu escudo, os sinos feitos de bronze anunciam o terror, em cuja superfície tem um orgulhoso emblema talhado: um céu com estrelas resplandescentes e uma Lua brilhante, o mais respeitável dos astros, olho da noite, em seu centro fulgura.

Ensandecido a tal ponto com suas armas insolentes, berra à margem do rio ávido de pelejar, bufando como o corcel domado pelos freios. E aguarda o sinal da trombeta para atacar. Quem destacarás contra Tideu? Uma vez aberta, quem tem qualidade para defender a porta Proitide?

Etéocles

Nenhum ornato de guerreiro me é possível temer, tampouco os emblemas que fazem feridas: sem a ajuda da lança as plumas e os sinos não ferem. Dizes que tal noite, na superfície do escudo, encontra-se resplandescente com estrelas no céu. Prontamente a loucura pode ser profetiza para alguém. Se a noite cai sobre os olhos moribundos, aquele que ostenta tal emblema portentoso correta e justamente poderia mudar seu nome, já que contra si mesmo advinha a desmesura.

O corajoso filho de Astaco, frente a Tideu, colocarei para defender esta porta. Muito bem nascido, respeita o trono da Honra, como também abomina palavras orgulhosas: não conhece as vilanias e detesta a covardia. Dos homens disseminados que Ares poupou a semente tem brotado – e está enraizada em Tebas: Melanipo – Ares escolhe, nos dados, o combate. A justiça impulsiona adiante a irmã de sangue  para desviar a lança inimiga da mãe que a criou.

Coro  (estrofe a)

Que o Olimpo conduza ao êxito o nosso campeão, já que ele tem justos méritos para defender Tebas. Tremo só de imaginar o destino sangrento daqueles que morrem por seu povo.

Mensageiro

Que o Olimpo, então, conduza-o à vitória. Capaneu foi o escolhido para a porta Electra. Esse outro gigante – excessivamente jactante – orgulha-se de não pensar como os mortais. Que a sorte não concretize suas terríveis ameaças. Ele disse que há de devastar a cidade, consentindo o Olimpo ou não, nem se o raio de Zeus cair sobre o solo o impedirá. Os relâmpagos e os raios flamejantes ele os comparou ao mormaço do meio-dia.

O brasão tem um homem nu porta-fogo, uma tocha flameja, pronta, em suas mãos, e com áureas letras proclama: “queimarei a cidade!”. Contra este homem-fogo – chama – mas quem virá? Quem permanece inabalável diante deste jactante?

Etéocles

A esse jactante responde uma outra vantagem: a linguagem espontânea denuncia os espíritos frívolos dentre os mortais. Capaneu preparou-se para agir só com ameaças: menosprezando os deuses e exagerando na fala com pérolas arrogantes, sendo um mortal, para o Olimpo vocifera contra Zeus. Tenho a confiança que, para ele, justamente, há de vir o raio flamejante em nada parecido com os raios do sol do meio-dia. Contra ele, notadamente muito fanfarrão, foi designado o forte Polifonte, de ímpeto ardente, condutor das garantias de Ártemis protetora, junto aos outros deuses benevolentes. Dize o outro e em qual porta teve a sorte lançada.

Coro (antístrofe a)

Que morra aquele que pragueja contra Tebas! Que sobre ele caia o raio fulminante antes que ele invada a minha morada com sua lança arrogante profane meu leito virginal.

Mensageiro

O sorteado, que está já na próxima porta, direi: do brônzeo elmo emborcado o terceiro dado apontou para Etéoclo  para conduzir a tropa contra a porta Neista. Com as rédeas ele rodopia os corcéis relinchantes, querendo coicear a porta. Os bocais plenamente assovia um canto bárbaro e resfolegante. A aparência de seu escudo não é modesta: um hoplita, com uma escada, galga a torre inimiga para superá-la. E ele também vocifera palavras que nem mesmo Ares o derrubaria das torres. Contra este guerreiro envia o que seja capaz de afastar o jugo escravo desta cidade.

Etéocles

Poderia enviá-lo neste instante, mas por sorte já foi enviado, ostentando nos punhos o alarido, Megareu, seiva de Creonte, da raça dos Espartas: não é guerreiro de ser assustado pelos relinchos altivos dos corcéis e arredar o pé de nossa porta. Mas ou pagará, com sua morte, sua dívida com a terra nutriz, ou dominando os dois guerreiros e a cidade sobre o escudo adornará a casa paterna com os espólios do inimigo. Dize a jactância do próximo, sem economizar nas palavras.

Coro (estrofe b)

Rezo para o teu triunfo, oh!  defensor de meu lar e, para os outros, a desgraça. Como pronunciam bravatas contra a cidade, ensandecidos no espírito, possa Zeus vingador mirá-los com olhos rancorosos.

Mensageiro

O quarto guerreiro, na porta Atenas Onca, aproximando-se com seus urros, está a forma gigantesca de Hipomedonte. Grande disco – refiro-me à esfera do escudo – estremeci quando ele girou – não falo em vão. Pois o talhador de emblemas não era vulgar, o que na superfície do escudo fez esta obra: um Tifão, exalando pela boca incandescente, fuligem negra, irmã agitada do fogo; a concavidade deste escudo está gravada com espirais de serpentes. Ele lançou um brado de guerra – inspirado por Ares – como as bacantes poderosas, mirando o terror. É necessário bom guerreiro contra esse gigante, pois Fobos já urra contra a porta Onca.

Etéocles

Primeiro Palas Onca, que está perto de Tebas e guarda nossa porta, odeia o excesso do guerreiro e o expulsará do ninho como a uma serpente terrível. Depois Hipérbio, filho prudente de Énopo, é o herói escolhido para enfrentá-lo e descobrir a moira pelas mãos da sorte. Nem aparência, nem temperamento, nem expressão do escudo será condenável. Hermes, propriamente, confrontou: de fato inimigo lutará contra inimigo e reunirá deuses hostis na superfície dos escudos. O adversário, pois, porta o Tifão de ígneo sopro; por sua vez, no escudo de Hipérbio, Zeus-pai, em pé, ostenta o raio flamejante na mão. Nunca ninguém soube de alguma derrota de Zeus. Tal gentileza, de fato, pertence aos deuses: estamos do lado dos vencedores e eles, dos perdedores. É razoável dispor os guerreiros como adversários. Se Zeus, no combate, é superior ao Tifão. E de acordo com o emblema sobre o escudo possa agir Zeus, o salvador, para a vitória de Hipérbio.

Coro (antístrofe b)

Persuadida estou ostentando odioso adversário de Zeus no escudo, a figura do deus ctônio, imagem hostil não só dentre os mortais como também dentre os deuses eternos, há de esfacelar a cabeça diante da porta.

Mensageiro

Que assim seja! Anuncio que o quinto chefe na quinta porta – a Bóreas – foi designado ao lado do sepulcro de Anfião Diógenes. Jura que tem uma lança e está persuadido de venera-la mais do que os deuses e acima de seus olhos destruirá a cidade de Cadmo a despeito de Zeus. Ele vocifera que nasceu de mãe montanhesa, de bela face e, por isso, é um homem-criança: já tem em seu rosto a pelugem, esboço da primavera, crescendo em fios espessos. Mas com espírito rude, em nada parecido à virgem que o nomeia, e com olhar severo, ele avança. Sem modéstia alguma detém-se diante da porta Bóreas. No escudo forjado em bronze, circular defesa de seu corpo, está o insulto à cidade: a Esfinge que come carne viva, fixada em pregos, magnífica figura em relevo, condensada. Tem sob suas garras um guerreiro cadmeu para lançar contra ele o maior número de dardos. Parece que veio não para barganhar na batalha, mas para não desonrar seu largo caminho: esse guerreiro é Partenopeu, o Arcádio. meteco, pois quita com Argos a sua boa educação, ameaça terrivelmente nossas torres, e que deus não a realize.

Etéocles

Se os deuses realizassem o que eles pensam e sentem com aquelas jactâncias ímpias, certamente seriam aniquilados miseravelmente. Há também contra o Arcádio que tu descreves um guerreiro modesto, mas capaz de cumprir a tarefa: Actor, irmão do guerreiro mencionado anteriormente. Ele não permitirá que o linguajar das ações flua por nossas portas para multiplicar os infortúnios, tampouco que a nocividade do monstro odioso, imagem estampada no escudo de guerra, atravesse as muralhas: a ruína aguardará seu portador, ao pé da cidade, quando a sorte produzir estrépitos pungentes. Pelos deuses, que essa seja a verdade que sai da minha boca.

Coro (estrofe c)

Atravessa o meu peito a sua fala e a trança de cabelos erige-se quando ouço tamanhas insolências de homens arrogantes: que os deuses os façam perecer nesta terra!

Mensageiro

Posso falar sobre o sexto guerreiro – o mais prudente – valoroso profeta, o poderoso Anfiarau. Colocado diante da porta Omoloide malevolamente ofende muito ao forte Tideu: que é homicida, que aterroriza sua cidade, supremo maestro dos infortúnios de Argos, invocador das Erínias, servo de Fobo, e ministro dos atuais infortúnios de Adrasto. E ainda contra o quinhão de teu irmão, volvendo o nome do valente Polinices, e por fim, dividindo seu nome em duas partes ele o chama e as palavras que saem de sua boca são estas: “que bela obra e querida pelos deuses, digna de ouvir e contar para as gerações seguintes, a cidade paterna e os deuses autóctones destruir, lançando sobre eles um exército estrangeiro!

Que tipo de justiça secará a fonte materna? A terra paterna, pelo furor da tua lança  conquistada, deve servir-te como causa? Da minha parte enriquecerei este solo, um profeta enterrado em Tebas inimiga. lutemos: não espero destino desonroso”. Estas coisas o adivinho, manuseando calmamente o escudo todo bronze, dizia. E não havia emblema nele. Pois não desejava parecer valoroso, mas sê-lo, profundo sulco em sua mente carpindo para dele germinar decisões prudentes. Contra ele adversários prudentes e nobres aconselho a enviar: temível é aquele que honra aos deuses.

Etéocles

Maldito presságio que conseguiu associar um homem justo com os mais ímpios mortais! Em toda relação nada é mais funesto do que a má-companhia: o seu fruto não deve ser colhido (a terra lavrada da Desgraça frutifica a morte). Ou um homem pio que embarca na companhia de marinheiros ávidos de alguma vilania está morto junto com a raça desprezada pela divindade; ou, embora justo, na companhia de concidadãos hostis aos estrangeiros e relegados pelos deuses, tendo injustamente encontrado a mesma cilada, pela calamidade divina que fere a todos, ele está dominado.

Assim, pois, o adivinho, refiro-me ao filho de Ecleu, homem sábio, justo, nobre e pio, grande profeta, misturado contra sua vontade a homens ímpios e de palavras arrogantes, engajados em ir por um caminho cujo retorno é longo, será arrastado junto com eles pelo desejo de Zeus. Parece-me que ele, então, não vai investir contra a porta 615  não por falta de coragem nem por má-vontade, mas porque sabe que o seu destino é morrer na batalha, se é verdade que dá fruto o oráculo de Lóxias (pois ele ama o silêncio ou diz coisas oportunas). Todavia, contra ele, a força de Lástenes hostil ao estrangeiro, enviaremos como guardião da porta, de mente experiente e corpo jovem, a mirada tem pés ágeis, com a mão não se demora em atingir com a lança o flanco desnudado ao lado do escudo. É dádiva divina aos mortais ter boa fortuna.

Coro (antístrofe c)

Que os deuses atendam nossas justas orações para que a cidade tenha boa fortuna, desviando os males causados pela lança na direção dos invasores de Tebas: para fora das torres lançando, que Zeus os fulmine com seu raio.

Mensageiro

Enfim direi o nome do sétimo guerreiro apostado diante da porta Sétima: teu próprio irmão. Contra Tebas lança toda sorte de imprecações e maldições e, após escalar as muralhas será proclamado senhor de Tebas, entoando um cântico de conquista. Almeja o duelo contigo e matando-o quer morrer ao teu lado, ou deixando vivo o homem que o baniu e o desonrou, no desterro o fará pagar na mesma moeda. Estas coisas ele brada e os deuses tutelares, vigilantes da terra pátria, invoca para que cumpram completamente as suas orações: o valente Polinices. Ele porta um escudo bem redondo, recentemente forjado, onde está gravado um duplo emblema. Vê-se um guerreiro armado, burilado a ouro, e uma mulher o conduz de maneira prudente: afirma ser a Justiça, conforme expressam as letras: “conduzirei este homem, e a cidade reaverá e retornará à casa paterna”. Tal é o significado de seu escudo, tu já deves conhecer alguém para enviar, assim jamais serás surpreendido por este homem. Só tu deves saber como conduzir a nave da cidade.

Etéocles

Ah! Enlouquecida e grandemente abominada pelos deuses! Ah! raça de Édipo – a minha – muito miserável. Ai de mim, pois as maldições de um pai chegam a seu termo. Mas convém não chorar nem lamentar-me para que não se crie gemido intolerável. E com nome muito justo – falo de Polinices , prontamente saberemos até onde o emblema se cumprirá, se as inscrições em ouro que abundam em seu escudo vão conduzi-lo junto com sua confusão mental. Se a donzela, a Justiça, filha de Zeus o assistisse em seus atos e no coração, até que poderia ser. Mas nem quando saiu do sombrio ventre materno, nem quando criança, nem na puberdade, tampouco quando cresceu-lhe a barba, a Justiça o contemplou ou o honrou: seguramente nem nos infortúnios da terra paterna, no presente momento, acho que ela está do seu lado. Sim, a Justiça teria absolutamente um nome falso  ao se envolver com um homem capaz de tudo. Com isto estou convencido e eu mesmo me engajarei: existe algum outro com mais direito? Arconte contra arconte, irmão contra irmã, inimigo junto a inimigo, me colocarei. Rápido, então, traga-me as grevas, protetoras de lança e das pedras.

Coro

Óh, mais querido dentre os homens, filho de Édipo, não te tornes, pelo ódio, semelhante ao que infâmias profere. Já é suficiente o número de homens Cadmeus que vão lutar contra os argivos, pois é sangue que se purifica. Mas a morte de dois irmãos por recíproco homicídio para esse miasma não existe envelhecimento.

Etéocles

Se algum homem deve suportar um infortúnio, exceto a vergonha, seja! É a única vantagem dentre os mortos. Mas dentre os males e as injúrias nenhuma reputação dirás.

Coro (estrofe a)

O que estás dizendo, filho? Que nenhuma Desgraça encha teu coração de fúria e voracidade pela lança: extirpe de ti o início deste desejo ruim.

Etéocles

Já que um deus deflagra intensamente este evento, que seja levada pelo vento, ao sabor da sorte, para a tempestade do Cócito, toda a extirpe de Laio, odiada por Febo.

Coro  (antístrofe a)

O desejo mordaz em demasia excita-te a buscar o fruto amargo do homicídio de sangue entre si.

Etéocles

Pois a maldição de meu amado pai, hostil a mim, cumpre-se,  sem lágrimas em seu olhar seco, a me rodear, dizendo que é melhor agora do que um destino tardio.

Coro (estrofe b)

Mas não te entregues. Não serás taxado de covarde por ter bem preservado a vida: as Erínias de égide negra sairão de tua casa quando os deuses receberem de tuas mãos um sacrifício.

Etéocles

Já não somos, de certo modo, objeto de atenção dos deuses. A oferenda de nossa morte é objeto de veneração? Então porque ainda adularíamos o destino funesto?

Coro  (Antístrofe b)

Agora que está disposto para ti, já que o daimon transformador do espírito, com mudanças tardias, talvez venha com o vento mais fecundo: pois ainda está em ebulição!

Etéocles

A imprecação de Édipo deflagrou a ebulição: demasiadamente verdadeiras são as visões, nos sonhos, dos fantasmas que repartiam os bens paternos.

Coro

Obedeça às mulheres, mesmo não suportando…

Etéocles

Pode falar desde que seja algo realizável: não se alongue.

Coro

Não te encaminhes para a sétima porta.

Etéocles

Não enfraquecerás com teu conselho um homem afiado. 715

Coro

A divindade honra a vitória ainda que sem glória.

Etéocles

Esse preceito não é aceitável a um hoplita.

Coro

Mas queres colher o sangue de teu próprio irmão?

Etéocles

Não se pode fugir dos males que os deuses enviam.

(Etéocles parte para liderar a guerra nos portões da cidade)

 

Coro 

(estrofe a)

Estou espantada que a destruidora de lares, essa deusa não semelhante aos deuses, a profetisa mui verídica da desgraça, Erínia legada pelo pai, venha cumprir as imprecações violentas de um Édipo ensandecido: pois esta discórdia que mata os filhos a excita.

(Antístrofe a)

Um estrangeiro distribui os lotes, Calibo emigrante da Cítia, que reparte as riquezas, severo, o ferro cruel,  a sortear o tanto de terra que os mortos devem ocupar, excluídos dos vastos campos.

(estrofe b)

Uma vez consumado o fratricídio, um ao outro dilacerados na morte, a poeira, a terra, que beba o sangue negro e coagulado. Quem poderia realizar os ritos de purificação? Quem poderia dissolvê-los? Oh! pesares recentes da casa misturados a males antigos.

(Antístrofe b)

Menciono, pois, a linhagem antiga a transgressão rapidamente vingada, até a terceira geração perdura, quando Laio rebelde a Apolo, que o fez saber por três vezes pelo oráculo Pítico, centro do mundo, que deveria morrer sem descendência para salvar a cidade.

(estrofe c)

Mas foi dominado pela insensatez amorosa engendrou seu próprio destino, o Édipo parricida, aquele que no sagrado solo materno – onde foi nutrido – ousou semear uma raiz sangrenta : um desvario que arruína o espírito conjugou os jovens noivos.

(Antístrofe c)

Tal qual o mar que traz uma onda de desgraças, uma cai, mas outra se levanta três vezes mais forte, justamente a que em torno da popa da cidade rebenta. Entre ela e nós, esta proteção, o muro que se estende pouco em largura. Temo que, junto com seus reis, a cidade sucumba.

(Estrofe d)

Pois concluem-se as antigas maldições, dolorosas reconciliações: os aconteceres que trazem a aniquilação não desviam. A prosperidade acrescida em demasia alija a carga da proa do navio Para os mortais.

(Antístrofe d)

Pois quem dentre os homens tanto admiraram os deuses habitantes dos santuários de Tebas e  que dentre os mortais muito frequentou a assembléia, tanto quanto naquela época honravam Édipo quando a devoradora de homens, a Esfinge, ele alijou desta terra?

(Estrofe e)

Mas quando a consciência aflorou, infeliz de tristes bodas, suportando a dor, o coração enlouquecendo, dupla desgraça executou: com as mãos que assassinara a Laio turvou os olhos mais caros do que os filhos,

(Antístrofe e)

E contra os filhos proferiu com rancor do miserável alimento, ai, ai, palavras amargas de maldições. E, um dia, os dois com ferro em punho partilharão pela sorte os seus bens. Agora tremo de medo que as Erínias velozes cumprirão isso tudo.

 

(O mensageiro chega trazendo notícias da guerra)

Mensageiro

Coragem filhas criadas por mães! Tebas, enfim, escapou do jugo escravo. As jactâncias dos inimigos violentos sucumbiram. A cidade está em paz e não deixou o mar entrar, apesar das múltiplas investidas da onda. As fortificações tebanas protegem e defendemos as portas com guerreiros aptos ao combate singular. Tudo perfeito temos nas seis portas. Mas o senhor do Sete, o soberano Apolo, a sétima porta reservou para si, a fim de cobrar da raça de Édipo os antigos desvarios de Laio.

Coro

Que novo acontecimento interessa à cidade?

Mensageiro

A cidade está salva: mas os reis consanguíneos morreram de mãos recíprocas.

Coro

Quais? O que dizes? Deliro pelo medo de tua fala.

Mensageiro

Recupera-te e agora ouve: os mortos são os filhos de Édipo.

Coro

Ai de mim, infeliz, sou profetisa das desgraças.

Mensageiro

Fato é que estão estendidos no solo.

Coro

Ali jazem? É duro de suportar, mas explica.

Mensageiro

Mataram-se, ao mesmo tempo, com mãos fraternas. O daimon comum a ambos pertencia demasiadamente e ele vai fazer perecer a extirpe amaldiçoada. Chora-se e alegra-se pelo mesmo fato: enquanto que a cidade prospera, os soberanos, os dois comandantes, repartiram pelo ferro compacto a plena propriedade herdada do pai. Desfrutarão no sepulcro esta terra, precipitados pelas imprecações malditas de um pai. A cidade está salva: mas, dos dois reis consanguíneos, a terra bebeu o sangue na morte.

Coro

Oh, grande Zeus e daimones protetores da cidade, que estas muralhas de Cadmo defendeis, devo alegrar-me e cantar em louvor ao salvador de minha cidade, ou aos desgraçados e infortunados, sem descendentes, comandantes devo chorar. Eles que, conforme seus nomes: Etéocles – verdadeiramente glorioso – e Polinices – homens de muitas discódias -, pereceram pela demência ímpia?

(estrofe a)

Oh! Maldição sombria e destruidora da estirpe de Édipo. Um calafrio terrível me envolve o coração. Compus uma melodia no sepulcro, de um delírio báquico, quando ouvi os cadáveres ensanguentados, mortos miseravelmente: é funesto esse concerto de lança.

(antístrofe a)

Cumpriu-se sem falta o dito de execração de um pai: os ímpios desejos de Laio subsistiram. Uma angústia envolve a cidade. Os vaticínios não se extinguem. Oh! Infortunados, cumpriu-se tal incredulidade, pois as desgraças lamentáveis chegam não através de palavras. Estas coisas se auto revelam: eis o que relatou o mensageiro. Duas angústias, dois guerreiros infortunados, fratricidas, duplo destino, dores consumadas. Que dizer?  Que outra coisa que dor nasce das dores desta casa”?

Mas dos gemidos – oh amigas – pelo sopro do vento batei as duas mãos ao redor da cabeça no ritmo do remo, que sempre pelo Aqueronte faz passar o pesado e negro véu da nau, não pisada por Apolo, não exposta ao sol, até a terra que acolhe a todos e não se deixa ver. Mas já chegam para o amargo dever Antígona e Ismene: o canto fúnebre dos dois irmãos – creio – da profundidade do peito que o amor desperta elas farão brotar a justa dor.

A nós é justo, como ouvimos a notícia primeiro, fazer ressonar o hino das Erínias e de Hades entoar o cântico hostil. Ah! As mais desgraçadas de todas as irmãs que rodeiam com o cinto as vestes. Choro, gemido, sem fingimentos brota do meu peito um clamor justo.

(A coro de mulheres se divide)

 

Semi coro A  (estrofe a)

Oh, oh, insanos descrentes dos amigos e impiedosos ante os males, os que se apropriaram da casa paterna, Infelizes com armas nas mãos.

Semi coro B

Certamente são infelizes os que infelizes mortes Encontraram junto com a ruína da casa.

Semi coro A  (Antístrofe a)

Oh, oh, da própria casa derrubaram as muralhas e uma realeza amarga contemplaram: neste momento estão dilacerados pelo ferro.

Semi coro B

Muito verdadeiras as maldições de Édipo a soberana Erínia cumpriu.

Semi coro A (estrofe b)

 Dos flancos esquerdos feridos, sim, feridos dos mesmos flancos fraternais. Ai, Ai, miseráveis. Ai, Ai, maldições que vingam a morte com a morte.

Semi coro B

Referes ao que, de parte a parte, falas de uma ferida à casa e os corpos golpeia simultaneamente, indizível permanece pela maldição de um pai não pela morte predestinada.

Semi coro A (antístrofe b)

Um gemido atravessa a cidade: as torres gemem, geme o solo que amava os guerreiros. Restam as riquezas para as gerações futuras por causa dos malfadados, por causa da querela e do seu fim letal.

Semi coro B

Repartiram com violência no coração as propriedades de igual maneira. Ao mediador não falta censura aos queridos, nem o agradável Ares.

Semi coro A (estrofe c)

Por um lado se encontram feridos pelo ferro. Por outro, feridos pelo ferro eles permanecem – até que prontamente alguém pergunte “quem são?” Lotes do sepulcro paternal.

Semi coro B

 Rápido, do palácio, um clamor para eles é enviado. É um gemido desgarrador, que por si mesmo geme e sofre, que aflige o ânimo, não simpático à alegria, verdadeiramente lágrimas do coração, que me debilitam por causa destes dois reis.

Semi coro A (antístrofe c)

É lícito dizer sobre os infortunados que ambos causaram muitas coisas aos cidadãos e dizimaram muitas fileiras inimigas no combate.

Semi coro B

Infeliz é aquela que pariu os dois, entre todas as mulheres que recebem o nome de mãe: a seu filho como seu próprio esposo aceitou a eles dois, e eles hoje alcançaram o fim pelos golpes recíprocos de seus braços consanguíneos.

Semi coro A (estrofe d)

De fato consanguíneos e completamente aniquilados por um quinhão odioso por uma disputa enlouquecida, no final da luta.

Semi coro B

 A hostilidade está quieta, pois na terra inundada de sangue, a vida está misturada: sim, os mesmos sangues, juiz cruel das desavenças é Pontios, o estrangeiro saído do fogo, o agudo ferro; também cruel é o partilhador de bens, Ares,  já que realizou a Maldição paterna.

Semi coro A (antístrofe d)

 Obtiveram pela sorte a Moira, oh desgraçados, os sofrimentos enviados por Zeus: debaixo dos corpos, o tesouro sem fundo de terra.

Semi coro B

 Oh! Os que entremearam com numerosos sofrimentos a raça. Por fim entoaram as maldições o canto cortante, totalmente arruinada a raça posta em fuga: o troféu da Desgraça foi erigido na porta em que eles se feriram, e na vitória de ambos o daimon se deteve.

 

(Cada uma das irmãs Antígona e Ismene, também filhas de édipo, chegam em Tebas para velar seus irmãos mortos)

 

Antígona

Feriste e foste ferido.

Ismene

Matando tu morrestes.

Antígona

Com a lança matastes.

Ismene

Com a lança morreste.

Antígona

Dores causastes.

Ismene

Dores sofrestes.

Antígona

Após ter matado.

Ismene

Após ter morrido

Antígona

Flua, meu gemido!

Ismene

Fluam, minhas lágrimas!

 

Antígona e Ismene (estrofe a)

Eê! Eê! Minha alma está enlouquecida pelo gemido. Meu coração geme por dentro. Oh! Oh! Tu totalmente lamentável.  Tu também todo infortunado.  Sucumbiu por um irmão.  E um irmão matastes. Falar dos dois. Contemplar os dois. De tais aflições estas se acercam, as irmãs dos irmãos ao lado estão;

Coro

Oh! Moira distribuidora de desgraças, soberana sombra de Édipo, tu, negra Erínia, de fato poderosíssima.

Antígona e Ismene (antístrofe a)

Eê!  Eê! Pesares difíceis de contemplar. Voltaram do exílio para mim. Apenas chegaram e morreram Quando se precipitou o sopro vital, se foi. De fato ele se foi. E um matou o outro. Família desgraçada. Padecer desgraçado. Sentimentos lamentáveis de igual nome. Lacrimosos de triplas dores. É desolador de dizer. É desolador de olhar.

Coro

Oh! Moira distribuidora de desgraças, soberana sombra de Édipo, tu, negra Erínia, de fato poderosíssima.

Antígona e Ismene (epodo)

Tu a conheces, de certo, uma vez que a experimentou. E tu não tardastes em conhecê-la. Depois que regressastes à cidade. Da lança contra o adversário. É desolador de dizer. É desolador de olhar. Oh! Sofrimentos. Oh! males. Para esta casa. Para esta cidade. Sobretudo para mim. E para mim também.  Oh! Senhor dos infortúnios.

Oh! Multipesarosos dentre todos. Oh! Extraviados pelos daimones. Oh! Onde enterraremos os dois? Oh! Onde receberão mais honra. Oh! Pesar que jaz ao lado do pai.

 

(Entra um arauto)

Arauto

Devo anunciar o que foi julgado e decidido pelos conselheiros do povo desta cidade cadméia. Foi decidido que Etéocles, por seu desvelo à cidade, terá sepultura com amorosas terras. Pois combatendo os inimigos escolheu morrer aqui. E por ser devoto dos santuários paternos, sem censura, está morto onde é belo morrer pelos jovens. Assim, em relação a ele, digo o que me comunicaram. Já seu irmão, o cadáver de Polinices, para além das muralhas deve ser levado, insepulto, para servir de alimento aos cães, já que teria devastado a terra de Cadmo se algum deus não tivesse se colocado frente à sua lança. Mesmo morto será conservado seu crime diante dos deuses pátrios, os quais ultrajou quando lançou um exército contra a cidade para destruí-la.

A decisão é: este homem, por obra dos pássaros alados, terá sua sepultura desonrosa como castigo, e nenhuma mão deve derramar libações à sua tumba, nem reverenciarem-no com lamentações e gemidos. Será privado do cortejo de seus parentes. Essas são as decisões dos conselheiros Cadmeus.

Antígona

E eu digo isto aos conselheiros Cadmeus: ainda que alguém não queira ajudar-me a sepultá-lo, eu o sepultarei, e estou disposta a enfrentar o perigo por haver dado sepultura a meu irmão. Não me envergonho por esta infiel insubordinação contra a cidade.  Terrível o que saiu da entranha comum de uma mãe sofredora e de um pai desgraçado; pois quis participar das desgraças, involuntariamente, a alma, ao viver por um morto, de entranhas consanguíneas.

Da carne dele, nem os lobos esfomeados degustarão: que ninguém se atreva a isso. Pois, sepultura para ele e funerais, eu mesmo sendo mulher planejarei para ele, levando-o na prega da túnica de linho fino. E eu mesma o encobrirei: que ninguém duvide disso. Com audácia a eficácia do plano é possível.

Arauto

Invoco-te a não violentar a cidade fazendo isso.

Antígona

Invoco-te a não prescrever o supérfluo para mim.

Arauto

O povo é implacável depois de ter escapado dos infortúnios.

Antígona

Que seja! Mas meu irmão não ficará insepulto.

Arauto

Mas tu honrarás com sepultura aquele que a cidade execra?

Antígona

As ações de Polinices não foram julgadas pelos deuses.

Arauto

Não antes de ter lançado esta terra aos perigos.

Antígona

Respondeu com ultrajes porque sofreu ultrajes.

Arauto

A sua expedição foi contra todos e não contra um só.

Antígona

A discórdia é a última que cumpre a palavra dos deuses: eu o sepultarei e não insista.

Arauto 

Pode ser essa a tua vontade, mas eu te proíbo.

(Chega o coro das mulheres de Tebas)

 

Coro

Ai, Ai! Oh! Orgulhosas e de raças destruidoras, Erínias funestas, que assim a linhagem de Édipo que arruinaram desde a sua popa. O que sofrerei? O que farei? O que inventarei? Como suportarei não chorar-te nem acompanhá-lo até a sepultura? Mas temo e quero repelir a ira dos cidadãos. Tu muitos lamentos produzirás, mas este outro desgraçado, não chorado, só terá o único canto de uma irmã. Quem, então, aceitaria isso?

(A coro de mulheres se divide)

 

Semi coro A 

Que a cidade puna ou não os que choram Polinices. Pois nós iremos e o enterraremos, os que seguem o cortejo fúnebre. Com efeito esta dor é comum à raça, e a cidade celebra o justo às vezes de uma maneira ou de outra.

Semi coro B

Nós também vamos com ele, pois a cidade e a lei juntamente aprovam, junto dos afortunados e do poder de Zeus, o qual impediu que a cidade dos Cadmeus fosse exterminada e pela onda de guerreiros estrangeiros fosse submersa implacavelmente.

 

FIM