Ésquilo, As Danaides

A Origem da Casa de Perseu

Edwin Long (1829–1891)

A peça teatral As Suplicantes foi escrita por Ésquilo, considerado o pai da tragédia grega, que viveu entre 525 a.C. a 455 a.C. Ela conta a história das filhas de Dánao que foram forçadas ao casamento com seus primos, príncipes do Egito. Junto com o pai, essas mulheres abandonam suas terras e vão suplicar asilo na cidade de Argo. Esta peça se torna assim  uma interessante descrição da lei na Grécia mitológica, com o Rei Pelasgo respondendo perante a decisão do povo argivo, em favor das suplicantes.

A obra oferecida a seguir foi traduzida por  Anita Guimarães e Isa Kopelman.

 

As Suplicantes

Personagens

Dánao
Rei Pelasgo
Mensageiro
Coro e Corifeu (filhas de Dánao)
Acompanhantes (mulheres do palácio)

Cenário: Um navio leva Dánao e suas filhas fugitivas do Egito, no rio Nilo rumo à cidade de Argos nas terras gregas de Ápis, pois essas mulheres são descendentes dessa terra por sua ancestral chamada Io, cujo o romance com Zeus muitas gerações antes a obrigou a fugir de Hera até o Egito.

Corifeu.

Zeus Suplicante lance um olhar favorável sobre esse bando vagabundo, cuja nave partiu das bocas de areia fina do Nilo. Longe do solo de Zeus, nos confins da Síria nós erramos banidas. Não que tenhamos sido condenadas ao exílio por causa de sangue derramado; mas plenas de um horror inato pelo homem, nós detestamos o matrimônio com os filhos do Egito e sua demência sacrílega. E Dánao, o pai que inspira todos os nossos desígnios e também nossa revolta, pesou todos os golpes, e, dentre as dores , escolheu aquela que ao menos salvasse nossa glória: A fuga desvairada pelas ondas dos mares e a travessia desnorteada pelos rios da Argólida, berço de nossa raça, raça que se orgulha de ter vindo ao mundo da novilha atordoada pelo vôo do moscardo sob o toque e o sopro de Zeus. Que lugar melhor que esse para oferecer com braços suplicantes esses ramos cingidos de lã?

Ah! Possa essa terra, seu solo, essas águas límpidas; possam os deuses do céu e os deuses subterrâneos de pesadas vinganças, e seus heróis nas tumbas; possa Zeus Salvador, aquele que guarda a morada dos justos, acolher esse bando de mulheres suplicantes, nessa terra tocada pelo sopro de piedade; e antes que em enxame apressado os machos insolentes das entranhas do Egito tenham fincado o pé neste solo lamacento, deuses! com sua nave veloz, devolvam-nos ao alto mar ; e que em meio a uma tormenta de rajadas fustigantes, entre raios e trovões, em meio a aguaceiros, sejam abatidos pelo mar bravio e pereçam, antes de terem submetido essa filha de tio paterno, assaltando os leitos daquelas que não os querem!

Coro

Mas antes, minha voz longínqua chamará meu protetor, o jovem touro nascido de Zeus e da novilha que se viu pastar flores aqui; sob o sopro de Zeus, sob o toque de Zeus se consumou o tempo das Parcas : Io pôs no mundo Épafo. Invocando esse nome, relembrando hoje, nos lugares mesmo onde outrora pastava minha avó ancestral, suas desgraças de outro tempo, eu mostrarei os indícios de meu nascimento, que por mais surpreendentes, não são menos dignos de crédito: ver-se-á bem, se se quiser me escutar.

E se alguém que saiba interpretar o canto dos pássaros ouvir meu lamento, pensará ouvir a voz da esposa de Tereu, digna de piedade em seus remorsos, na voz do rouxinol perseguido pelo gavião. Expulsa de casa, ela pranteia dolorosamente seu lar desfeito, narrando a morte do filho, que sucumbiu por sua mão, sob seus próprios golpes, vítima de um furor de mãe desnaturada.

É assim que me comprazo em gemer no modo jônico, a dilacerar minha face macia curtida pelo sol do Nilo, e meu coração virgem de lágrimas. Coroas de soluços falam de meu terror: encontrarei aqui irmãos dispostos a me acolher em exílio, distante da Terra Brumosa ?

Eia! autores divinos que presidem o nascimento, atendei às súplicas! Se o destino não quiser que o Direito se realize, ao menos golpeai com cólera essa  desmesura, podeis ser justos diante do casamento. Mesmo aos fugitivos mortificados pela guerra, o altar, onde habita a majestade dos deuses, é um abrigo contra os males.

Ah! Se o desenlace pudesse corresponder a nossos votos ! O desejo de Zeus é inescrutável. Mas quando se manifesta, relampeja de repente, às vezes em plenas trevas, aos olhos dos homens efêmeros, acompanhado de um negro castigo. Zeus cai em pé. O pensamento de Zeus se manifesta por sombras espessas que nenhum olhar consegue penetrar .

Zeus precipita os mortais do alto de sua soberba esperança no nada, sem esforço. Não existe esforço para um deus. Seu pensamento paira nas alturas e de lá ele atinge seus desígnios, sem deixar seu trono sagrado. Que ele lance pois , seu olhar sobre a desmesura humana, encarnada nessa raça que para possuir meu hímen, desabrocha em funestos e loucos pensamentos ! Um sentimento nascido do delírio dardeja e, renegando seu passado, ei-la presa da armadilha de Até.

Tais são as tristes dores que meus gritos agudos cantam, meus soluços surdos, minhas torrentes de lágrimas, e até, ai de mim, os clamores que distinguem os cantos fúnebres; viva, eu conduzo meu próprio luto. Seja-nos propícia, terra montanhosa de Apis! Terra, tu me ouves, apesar de minha pronúncia bárbara?

—E sem cessar minha mão se abate, para rasgar meu linho, sobre meu véu de Sidon. Quando a morte ameaça, elevam-se ao céu juras, votos de graças. Vamos, vamos, ventos incertos, para onde nos levará esta onda? Seja-nos propícia, terra montanhosa de Apis! Terra, tu me ouves, apesar de minha pronúncia bárbara?

—E sem cessar minha mão se abate, para rasgar meu linho, sobre meu véu de Sídon.  O remo, a nave de tábuas cingidas de cordas que resiste ao ataque das ondas me conduziram até aqui sem tempestade, com a ajuda das brisas. Não me queixo pois de minha sorte. Mas aquilo que espero, digne-se o Pai que tudo vê me conceder em sua bondade!

Que as filhas de uma augusta mãe escapem dos abraços dos homens, livres do matrimônio, livres do jugo! E que Artemis, a casta filha de Zeus, clemente com quem implora sua clemência, estenda seu olhar austero sobre mim, assegurando minha salvação! E com todo seu poder, indignada com tal perseguição, virgem, ela salve uma virgem!

Que as filhas de uma augusta mãe escapem dos abraços dos homens, livres do matrimônio, livres do jugo! Se não, com nossas peles curtidas pelos raios do sol, nós iremos, nossos ramos suplicantes nas mãos, rogar a Zeus dos infernos, Zeus hospitaleiro dos mortos: nós nos enforcaremos, já que nossas vozes não puderam alcançar os deuses olímpicos.

Zeus, é Io, ai de mim, que é perseguida por uma ira divina: eu reconheço o ciúme de uma esposa, que triunfa em todo o céu. Ele é ávido, vem uma borrasca de vento difícil!

Então, Zeus será mostrado em relatos que contarão sua injustiça, já que ele desprezou o filho da novilha, por ele mesmo engendrado e do qual se afastou na hora das súplicas. Ah, que ele, do alto dos céus, atenda àquelas que lhe suplicam!

Zeus, é Io, ai de mim, que é perseguida por uma ira divina: eu reconheço o ciúme de uma esposa, que triunfa em todo o céu. Ele é ávido, vem uma borrasca de vento difícil!

Dánao

A prudência, minhas filhas, deve ser nossa lei: é como piloto prudente que vos tem conduzido o velho pai em quem vós confiais. E agora, em terra, recomendo que ainda sejais prudentes. Vejo uma nuvem de pó, mensageira muda de um exército. As rodas dos carros rangem, enquanto giram nos eixos.

Percebo um bando com escudos e armado de lanças. Serão os chefes dessa cidade que, avisados vêm nos ver. Que venham sem intenção maldosa. Mas se tomados por instintos cruéis, é melhor nos prevenirmos, minhas filhas.  Refugiai-vos nessa colina consagrada aos deuses da cidade. Melhor que uma muralha, um altar é um escudo impenetrável. Apressai-vos, e, com os ramos de guirlandas brancas como atributo de Zeus Suplicante, seguros no braço esquerdo com reverência, respondei aos estrangeiros com expressões de súplica, de comoção e banhadas em lágrimas, como convém àquelas que chegam, declarando claramente que vosso exílio não está manchado de sangue.

Que nenhuma soberba sustente vossa voz, que nenhuma afronta transpareça em vosso olhar e se leia em vossa face. Enfim , não vos apresseis em tomar a palavra nem faleis por tempo demasiado; as pessoas daqui são irritáveis. Sabei ceder. Sois estrangeiras, exiladas na aflição: uma linguagem muito segura não convém aos fracos.

Corifeu

Pai, tu falas de prudência a filhas prudentes: cuidarei de me lembrar de teus sábios conselhos. Mas que Zeus nosso avô, lance um olhar sobre nós!

Dánao

Sim, que ele nos olhe aqui com olhar clemente!

Corifeu

Que ele vele somente e tudo terminará bem.

Dánao

Então não tardes mais, segue meu conselho. (tratamento)

Corifeu

Eu gostaria de ficar sentada a teu lado. Oh, Zeus, tem piedade de nossas penas antes que sucumbamos.

Dánao

Invocai também o filho de Zeus que aí está.

Corifeu

Saúdo os raios salvadores do sol.

Dánao

Que é também o casto Apolo, um deus outrora exilado.

Corifeu

Então ele deve ter compaixão de nós, mais ainda.

Dánao

Que ele se compadeça e nos assista em sua bondade.

Corifeu

Que divindades devo invocar ainda?

Dánao

Vejo lá um tridente, atributo de um deus.

Corifeu

Poseidon. Assim como ele nos conduziu para cá, que se digne também nos acolher.

Dánao

E eis ainda um Hermes grego.

Corifeu

Ah, que ele seja para nós uma doce mensagem de liberdade.

Dánao 

De todo modo, a todos os senhores desse altar dirigi vossas homenagens. Depois sentai-vos no santuário como um bando de pombas fugindo dos gaviões – vossos irmãos. Irmãos transformados em inimigos, que querem se manchar com um crime contra a própria raça. A ave que devora outra ave permanece pura? Como ficará aquele que possuir uma mulher apesar dela, apesar de seu pai? Mesmo no Hades ele não escaparia se tal fosse sua conduta. E lá ainda dizem que existe um outro Zeus que julga os mortos com sentenças supremas. Rogai desse modo se quiserdes ver triunfar vossa causa.

Rei Pelasgo

De onde vem esse bando coberto de véus e túnicas bárbaras tão distante do modo grego? Com quem falo aqui? Estas não são as vestes de Argos, nem de nenhuma cidade grega. E ousadas! Chegastes até aqui sem mensageiros nem guias. Vejo convosco, é verdade, ramos suplicantes depositados ritualmente diante dos deuses da cidade: só por isso suponho que viestes da Grécia.. Mas, estáis aí, e para vos explicardes, tendes a palavra.

Corifeu

Não te enganaste sobre nossa aparência. Mas, a quem me dirijo, a um cidadão, a um mensageiro portador de um caduceu protetor, ao chefe da cidade?

Rei Pelasgo

Podes me responder e falar com toda segurança. Sou filho de Palaichton, dessa terra; sou Pelasgos, chefe supremo deste lugar; e o povo que cultiva este solo, naturalmente tomou o nome de seu rei. Sou senhor de todas as terras que atravessam o sagrado Estrimon, desde sua margem ocidental. São minhas as terras dos Perrebos e aquelas além do Pindo, vizinhas dos Peônios, e também das extensões dos montes de Dodona até os mares. Esse lado todo me pertence.

Essa terra homenageia Apis, um profeta médico, filho de Apolo, que veio outrora das terras vizinhas de Naupacto, para limpar nossos campos de monstros homicidas – serpentes pululantes, companheiras cruéis – um flagelo lançado pela Terra, furiosa com a cadeia antiga de crimes cometidos. Apis livrou esse lugar com seus medicamentos decisivos, livrando essa região dos males aflitivos. Seu nome entra na oração dos Argivos.  Agora tu me conheces. Conta-me da tua raça, diga-me tudo, mas não te esqueças que não gostamos de discursos longos.

Corifeu

Serei breve e clara. Nós nos orgulhamos de ser do povo argivo e de descender de uma novilha fecunda. Isso é verdade e se puder falar, eu demonstrarei.

Rei Pelasgo

Não consigo acreditar no que ouço, estrangeiras. De onde viria tal origem? Vós lembrais mais as Líbias que as Argivas. O Nilo ainda, poderia nutrir plantas semelhantes. Vós vos pareceis também a mulheres de maridos Cipriotas. Ouvi falar também de Indianas nômades que cavalgam na corcova de camelos, em selas, pelas regiões vizinhas da Etiópia. Se tivésseis arcos eu poderia tomá-las por Amazonas virgens carniceiras! Mas dizei-me para que eu possa compreender melhor como vossa origem pode ser argiva.

Corifeu

Não se conta que outrora havia aqui, em Argólida, uma guardiã do Templo de Hera, Io?

Rei Pelasgo

Sim, sem dúvida, a tradição conta isso.

Corifeu

Uma história não diz também que Zeus a amava apesar de ser ela simples mortal?

Rei Pelasgo

E seus encontros não escaparam da vigilância de Hera.

Corifeu

E como terminou a briga real?

Rei Pelasgo

A deusa de Argos transformou a mulher em novilha.

Corifeu

E Zeus aproximou-se ainda da novilha cingida de cornos?

Rei Pelasgo

Sim, dizem que sob a forma de um touro no cio.

Corifeu

O que fez então a obstinada esposa de Zeus?

Rei Pelasgo

Ela enviou à novilha um guardião que tudo via.

Corifeu

Quem era esse guardião que tudo via agarrado à única novilha?

Rei Pelasgo

Argos, dos cem olhos, filho da Terra, que foi morto por Hermes.

Corifeu

Que forjou Hera então para a pobre novilha?

Rei Pelasgo

Um inseto enlouquecedor que persegue os bovinos.

Corifeu

Nas terras do Nilo chamam de “varejeira” esse moscardo.

Rei Pelasgo

Assim, ela foi caçada desde Argos, por caminhos sem fim.

Corifeu

É assim mesmo a minha história, como a tua.

Rei Pelasgo

E ela chega enfim a Canopo e Mênfis.

Corifeu

Onde Zeus a toca com a mão e funda assim sua raça.

Rei Pelasgo

Que touro, filho de Zeus, se orgulha de ter por mãe uma novilha?

Corifeu

Épafos, cujo nome verídico fala do parto de Io.

Rei Pelasgo

E de Épafos, então, quem nasceu?

Corifeu

Líbia, que possui a parte maior do mundo.

Rei Pelasgo

Que outro descendente saído dela conheces?

Corifeu

Belos, que teve dois filhos e foi pai de meu pai.

Rei Pelasgo

E quem é ele, dize-me seu nome.

Corifeu

Dánao, e ele tem um irmão, pai de cinquenta filhos.

Rei Pelasgo

Dize-me o nome do irmão também; não me recuses nada.

Corifeu

Egito. Conheces agora minha origem: trata como Argivas estas que estão diante de ti.

Rei Pelasgo

Parece que tendes elos ancestrais com esse lugar. Mas como ousastes deixar vossa pátria? Que destino se abateu sobre vós?

Corifeu

Rei de Pelasgos, a infelicidade dos homens se manifesta de várias maneiras; quem poderia imaginar que esse exílio inesperado reconduziria até Argos uma raça irmã da vossa, por causa do horror ao leito conjugal?

Rei Pelasgo

O que é que suplicas então aos deuses deste lugar, com estes ramos recém-cortados e com tiras brancas?

Corifeu

Não ser escrava dos filhos de Egito.

Rei Pelasgo

É uma questão de ódio – ou dizes que eles te oferecem uma sina infame?

Corifeu

Quem amaria um amo a quem se deve pagar?

Rei Pelasgo

É assim que se reforça o poder dos mortais.

Corifeu

E também que se encontra um remédio fácil para a miséria.

Rei Pelasgo

O que posso fazer por vós, que satisfaça à lei dos deuses?

Corifeu

Não me entregues aos filhos de Egito, se eles me reclamarem.

Rei Pelasgo

Palavras terríveis. Isso seria desencadear uma guerra incerta.

Corifeu

A justiça combate com quem a defende.

Rei Pelasgo

Sim, se desde o princípio ela estiver convosco.

Corifeu

Respeita a nave da cidade assim coroada.

Rei Pelasgo

Eu estremeço de ver nossos altares sombreados com essas ramagens.

Corifeu

Reconhece: é terrível a cólera de Zeus Suplicante!

Coro

Ó filho de Palaichton, Príncipe dos Pelasgos, empresta-me um coração benevolente. Vês aqui uma suplicante, uma fugitiva errante que se parece à novilha perseguida pelo lobo, que busca refúgio nas rochas escarpadas e depois, mugindo, conta a seu pastor a história de seu tormento.

Rei Pelasgo

Vejo na sombra desses ramos frescos estranhas devotas diante dos deuses de minha cidade. Que a causa dessas cidadãs estrangeiras não arraste maldições! Que isso não resulte em disputa imprevista para Argos: Argos não necessita disso.

Coro

Para que nosso exílio não arraste maldições, digne-se Themis Suplicante, filha de Zeus, repartidora dos destinos, lançar um olhar sobre nós. Aprende com alguém mais jovem: a prosperidade irá para quem respeita o suplicante; os templos divinos abertos às oferendas <não recebem favoravelmente senão aquilo que vem dos mortais sem mácula>.

Rei Pelasgo

Não estais sentadas no lar da minha casa: se a mácula atingir a cidade de Argos, que todo o povo se ocupe em descobrir o remédio. De minha parte, não posso prometer nada sem ter comunicado os fatos a todos os argivos.

Coro

Tu és a cidade, tu és o Conselho; chefe sem controle, tu és o senhor do altar, do lar dessa terra; não há outros votos senão os sinais de tua fronte, outro cetro senão o teu; tu sozinho decides tudo: defende- te de uma mácula.

Rei Pelasgo

Que a mácula recaia sobre meus inimigos! Mas eu não posso socorrê-las sem prejuízo. E entretanto também me é difícil desdenhar vossas súplicas. Não sei o que fazer, a angústia me aprisiona. Devo afrontar o Destino?

Coro

Olha para aquele que do alto tudo observa, o protetor das mortais dolorosas que, ajoelhadas diante de seus irmãos, não recebem o direito que a lei lhes concede. Medita bem: a ira de Zeus Suplicante alcança todos aqueles que  permanecem insensíveis aos lamentos de quem sofre.

Rei Pelasgo

Se os filhos de Egito têm poder sobre ti, quem poderia contestá-los? É preciso pleitear que vossas leis não lhes deem tua tutela.

Coro

Ah, que eu não caia jamais sob o poder dos noivos vencedores. Fugir sem guia, a não ser as estrelas, eis a parte que me toca para me preservar de um matrimônio odioso. Vai, faze uma aliança com a Justiça : toma uma decisão que primeiramente respeite os deuses.

Rei Pelasgo

Decidir aqui não é tão fácil. Já te disse: qualquer que seja meu poder, não poderia fazer nada sem meu povo. E que o céu me poupe de ouvir Argos me dizer um dia se tal desgraça acontecer: “Perdeste a cidade para honrar as mulheres estrangeiras.”

Coro

O autor comum das duas raças contempla esse debate, Zeus imparcial, que segundo seus méritos trata os maus como culpados, como justos os corações direitos. Se tudo se pesa em estrita equidade, como ter escrúpulos de seguir a Justiça?

Rei Pelasgo

Sim, necessito de um pensamento profundo que nos salve, e que tal como um mergulhador, desça às profundezas, o olhar claro, sem a perturbação causada pelo vinho, para que o caso não traga problemas para nossa cidade e que também termine do melhor modo para mim; quero dizer : para que Argos escape às esperas de uma guerra de represálias; e para que eu mesmo não vá, ao livrar-vos assim ajoelhadas aos pés de nossos deuses, ligar-me ao deus de ruína, o gênio vingador que, mesmo no Hades, não libera o morto. Dizei, não tenho eu necessidade de uma ideia salvadora?

Coro

Pensa então e torna-te um aliado piedoso. Não expulses a fugitiva que um exílio ímpio lançou de tão longe a estas margens. Recusa-te a ver-me escorraçada desse santuário consagrado a tantos deuses, ó mestre supremo de Argos. Entende a desmesura desses noivos; previne-te da cólera que já conheces!

Não consintas em ver a suplicante, a despeito da justiça, arrastada por suas tiras, para longe do altar, como uma égua, e mãos agarrando a trama cerrada de seus véus. Saiba que o que quer que faças, teus filhos e tua casa deverão um dia pagar a Ares a recompensa estrita. Reflete bem: o reino de Zeus é o da Justiça.

Rei Pelasgo

Minhas reflexões estão feitas: meu barco atracou; estou condenado a travar uma guerra penosa, seja contra estes ou aqueles; e nos escolhos, ei-lo imobilizado como se içado por cabrestantes marinhos. Nenhuma solução é isenta de dor! Se riquezas são arrancadas de uma casa, outras a ela podem retornar, as vezes em valor maior que a perda inicial, pelo favor de Zeus, protetor dos bens. Se tua língua lança dardos que destroem cruelmente um coração, as palavras também conseguem acalmar os sofrimentos que as palavras causaram.

Mas quando se trata do sangue de nossos irmãos, para poupá-lo, é preciso sacrificar, oferecer aos deuses, a todos eles, todas as vítimas capazes de remediar tal infelicidade – ou eu me engano sobre a natureza do debate que se anuncia. Mas eu preferiria ser um mau profeta, a ser um profeta de infortúnios. Que tudo termine bem contra minhas previsões.

Corifeu

Já empreguei muitas palavras suplicantes: escuta a última.

Rei Pelasgo

Dize-me; eu escuto.

Corifeu

Tenho as tiras como cintos de minhas vestes.

Rei Pelasgo

São sem dúvida, ornamentos adequados às mulheres?

Corifeu 

É deles que eu espero um socorro maravilhoso.

Rei Pelasgo

Que palavras, dize-me, tu pronunciarás?

Corifeu

Se tu não deres a esse grupo uma promessa leal…

Rei Pelasgo

Que socorro esperas enfim desses cintos?

Corifeu

O de decorar as estátuas que vês com oferendas insólitas.

Rei Pelasgo

Fórmula enigmática, fala sem divagações.

Corifeu

De nos enforcarmos agora nos deuses que aí estão.

Rei Pelasgo

Ouço palavras que flagelam meu coração.

Corifeu

Tu compreendeste; eu te fiz ver mais claramente as coisas.

Rei Pelasgo

Sim, e de todos os lados preocupações invencíveis! Uma massa de sofrimentos me atinge como um rio e eis-me ao largo de um mar de dores, mar sem fundo, duro de vencer⎯e nada de porto aberto a minha desgraça! Se não atendo a vossa súplica, a mácula que evocais ultrapassa o alcance do espírito.

Se, ao contrário, contra teus primos, os filhos de Egito, de pé diante de nossas muralhas, eu me curvo à decisão de um combate, não será esta uma perda amarga como aquela do sangue dos noivos derramado pelas mulheres? E no entanto, estou constrito a respeitar a ira de Zeus Suplicante: não é para os mortais o mais alto objeto de pavor?

Assim então, meu velho, pai destas virgens, rápido, recolhe em teus braços as ramas e vai depositá-las em outros altares de nossos deuses nacionais, para que todos os cidadãos vejam esse insigne suplicante e não rejeitem as proposições que lhes vierem de mim⎯o populacho ama procurar motivos contra seus senhores! A compaixão sem dúvida nascerá da visão da desmesura da tropa de noivos, que horrorizará nosso povo, e ele se sentirá mais a vosso favor. É sempre aos fracos que vai a boa vontade.

Dánao

Para nós é um grande prêmio ter um aliado respeitoso com o suplicante. Mas faze-me também escoltar por guardas, guias locais para me auxiliar na busca dos altares aos deuses da cidade e suas moradas hospitaleiras e para garantir nossa segurança ao atravessarmos a cidade. A natureza nos deu traços diferentes; o Nilo e o Ínaco não criaram raças semelhantes. Guardemo-nos do excesso de confiança: mais de um já matou um amigo por não havê-lo reconhecido.

Rei Pelasgo

Ide, guardas, o estrangeiro tem razão; conduzi-o aos altares da cidade, morada de nossos deuses; e dizei a todos , sem tagarelice, que vós servis de guia a um marinheiro, suplicante de nossos deuses.

 

(Danaos sai, acompanhado de alguns guardas.)

 

Corifeu

Tu lhe deste tuas instruções: que ele parta com elas! Mas eu, que devo fazer? Onde, em tua opinião, estarei em segurança?

Rei Pelasgo

Deixa teus ramos, símbolo de tua pena.

Corifeu

Eis aí: eu os deixo sob a guarda de teu braço e de tua palavra.

Rei Pelasgo

Passa agora para a parte plana do santuário.

Corifeu

Que proteção me oferece o santuário, aberto a todos?

Rei Pelasgo

Não temas: não pretendo te lançar aos corvos..

Corifeu

Sim, mas a monstros mais cruéis que a mais cruel serpente?

Rei Pelasgo

A quem te diz : “Confiança”! responde com palavras confiantes.

Corifeu

Não te espantes se meu coração assustado se mostra impaciente.

Rei Pelasgo

Jamais um rei sentiu medo.

Corifeu

Cabe a ti reconfortar- me com atos, além das palavras.

Rei Pelasgo

Vai, teu pai não te deixará muito tempo sozinha. Convocarei o povo deste país para influenciar a opinião pública a teu favor; depois ensinarei a teu pai o discurso que ele deve empregar. Fica aqui então e que tuas rezas peçam aos deuses da cidade o que desejas, e irei arrumar tudo. Que a Persuasão me acompanhe e a Sorte aconteça.

 

(O rei sai com sua tropa. O coro desce para a orquestra).

 

Coro

Senhor do senhores, Bem-aventurado entre os bem-aventurados, Poder soberano entre os poderes, do alto de tua felicidade, Zeus, escuta-nos! Afasta da tua raça a desmesura masculina, digno objeto de teu ódio, e no escuro mar mergulha o barco negro que nos traz a infelicidade. Favorável à causa das mulheres, veja a antiguidade de sua raça, sua avó outrora te foi cara: renova a lenda de tua bondade. Lembra-te, tu, cuja mão tocou Io! Somos filhas de Zeus, e foi deste riacho que partiu nossa colônia.

Uma pista antiga me leva hoje aos lugares onde à vista de um guardião outrora pastava minha mãe. É lá a pradaria que alimentou as novilhas, de onde Io, perseguida pelo moscardo, foge um dia, o espírito perdido, atravessa cem povoados, e cruzando a passagem encapelada, sob a ordem do destino, ultrapassa o limite dos dois continentes separados pelo estreito.

Ela se lança através da Ásia, corta pela Frígia dos criadores de carneiro, chega à cidade de Teutras na Mísia, depois, pelos pequenos vales da Lídia, para além dos montes da Cilícia e Panfília, aos rios que nunca secam, aos países de opulência, ao torrão natal glorioso de Afrodite rico em trigais.

(Animando-se pouco a pouco).

Mas, sempre picada pelo ferrão do pastor alado ela atinge a terra sagrada de Zeus, onde nascem todos os frutos, a pradaria fertilizada pela água da neve derretida pelo vento abrasador do deserto, o furor de Tifão, até o Nilo de águas inviolavelmente sãs ⎯ endoidecida por humilhantes penas, sofrimentos com os quais a aguilhoa Hera, a delirante!

E eis que os mortais habitantes da região de repente sentiram seus corações cheios de pálido assombro diante de um espetáculo desconhecido: a seus olhos se oferecia, repelente, um animal parte humano, parte novilha, parte mulher, e diante deste prodígio ficaram estupidificados. Mas, então, que mágico vem curar a errante e miserável Io, enlouquecida pelo voo do moscardo?

Zeus, chefe de tempo ininterrupto , < Zeus a libera de seus males>: Com força benfazeja e sopros divinos, ele põe termo a eles; lentamente, correm as lágrimas de seu pudor doloroso. Mas o germe colocado por Zeus, diz uma história que não mente, cria um filho perfeito, um filho cuja felicidade preencheu longos dias! Também a Terra inteira o proclama: “Esse filho, fonte de vida é bem de Zeus, na verdade!”

Quem poderia, aliás apaziguar um delírio de Hera? A obra é de Zeus, e quem diz ser em seguida essa raça filha de Épafo diz ainda a verdade. Que deus então mais designado por seus atos posso eu razoavelmente invocar? Nosso senhor e nosso pai, esse que com suas mãos plantou esta cepa, o antigo e poderoso autor de minha raça, é o remédio para todo mal, o deus dos sopros propícios, Zeus.

Nenhum poder se encontra acima do seu. Sua lei não obedece a uma lei mais forte. Nenhum trono mais alto que o seu deve ser adorado por nós. Ele pode agir tão rápido quanto a palavra para realizar na hora o que lhe pede o Conselho de Juízes.

 

(Entra Danaos).

 

Dánao

Tranquilizai-vos, minhas filhas : tudo vai bem pela parte de Argos; o povo se pronunciou unanimemente em um decreto decisivo.

Corifeu

Saudações, meu velho, portador de tão doces notícias! Diga-nos qual foi a decisão tomada segundo a lei do escrutínio popular, onde prevalece a maioria.

Dánao

Argos se pronunciou em voz unânime, e meu velho coração se sentiu remoçado. O povo todo ratificou que teremos “a residência nesse país, livres e protegidos de qualquer retomada, pelo direito de asilo reconhecido; nenhum habitante ou estrangeiro poderá deter-nos. Se usada violência, todo aquele que não nos ajudar perderá seus direitos e será banido pelo povo.”

Tal foi a proposta defendida pelo rei Pelasgos, convidando a cidade a não estocar alimentos para os dias que se seguiriam à terrível cólera de Zeus Suplicante, e evocando a dupla mácula, nacional e estrangeira, que recairia sobre a cidade. A essas palavras, as mãos do povo argivo, sem esperar pelo apelo do mensageiro, pronunciaram-se a favor. A nação pelasga se rendeu aos argumentos dessa fala; mas Zeus é o autor da decisão definitiva.

Corifeu

Vamos, que nossas vozes clamem para Argos os bens que pagarão por suas boas ações, e que Zeus Hospitaleiro cuide para que se realizem plenamente as homenagens que lhe prestam suas hóspedes.

Coro

Eis a hora de os deuses, filhos de Zeus prestarem-nos ouvidos, enquanto espalhamos nossas vozes aqui nesse lugar. Que a terra dos pelasgos não seja vítima do fogo ardente de Ares, cujo grito suspende as danças e colhe os homens nos campos que para ele não amadurecem!

Eles tiveram piedade de nós, eles nos ofereceram um voto de bondade, eles respeitam as suplicantes de Zeus, nessa tropa lastimosa. Eles não desprezaram a causa da mulher, votando a favor daqueles noivos; eles entreviram a vingança vigilante de Zeus, contra a qual não há luta possível e que nenhuma casa poderia afastar, quando, para marcar seu teto, ela aí se abate com um peso irresistível.

Eles honram as consanguineas nessas suplicantes de Zeus santificado; por isso satisfarão aos deuses em altares puros. É assim, à sombra dos ramos piedosos, que nossos lábios emitem votos apaixonados em sua glória. Que a peste jamais esvazie essa cidade de seus homens; que o estrangeiro não contamine seu solo com o sangue de seus filhos imolados! Mas que a flor de sua juventude permaneça em sua descendência e que o amante assassino de Afrodite, Ares, não ceife a esperança!

Que os velhos encham as salas onde se reúnem em torno do fogo; que assim prospere a cidade no respeito a Zeus Poderoso, Zeus Hospitaleiro, sobretudo, cuja lei encanecida regula o destino! Além disso, que novos nascimentos, se o Céu ouvir minha voz, venham sem cessar dar chefes a este país; e que Ártemis Hécate vele pelos leitos de suas mulheres!

Que nenhuma epidemia mortífera venha destruir esta cidade, armando Ares, deus das lágrimas, terror dos coros e das cítaras, despertando o clamor das guerras civis! Que o enxame doloroso das doenças pouse longe dos Argivos; e que Apolo Lúcio seja propício a todos os seus filhos! Que Zeus enfim faça como nunca esta terra fértil em todas as estações!

Que os carneiros que pastam nos campos sejam fecundos! Que a prosperidade desabroche sob o favor dos deuses! Que diante de seus altares os poetas façam ecoar seus piedosos versos; e que dos lábios virginais um canto se eleve junto ao som da cítara!

Que o Conselho que comanda essa cidade mantenha sem problemas suas honrarias, poder de premonição que pensa para o bem de todos! Que se deem aos estrangeiros, em vez de guerras, tratados! E que aos deuses que receberam esta terra em partilha rendamos, a fronte cingida de louros, o culto das hecatombes, transmitido pelos ancestrais!

Que também se mantenha o respeito aos pais, a terceira lei inscrita no livro da Justiça, para quem vai a suprema homenagem.

 

(Danaos sobe novamente sobre o outeiro, de onde ele observa o mar. Ele se volta para suas filhas).

 

Dánao

Eu não posso senão aprovar estes sábios votos, minhas filhas; mas vós mesmas, não vos assusteis se vosso pai vos anuncia de novo um imprevisto. Dessa vigia que abriga as suplicantes eu vejo a nave. Consigo distinguir o arranjo de suas velas, as trincheiras e a proa de onde o olhar observa a nave avançando dócil ao leme que a dirige⎯muito dócil para aqueles que não desembarcam como amigos.

Vejo a tripulação de membros negros, surgindo com suas túnicas brancas. E eis o resto da frota e toda a armada bem à vista! A nave de frente já na costa, recolhe suas velas e rema a golpes apressados. Vamos, é preciso encarar isso com calma e prudência e se agarrar a esses deuses.

Enquanto isso, vou procurar defensores e advogados. Pode ser que um mensageiro, uma embaixada venha aqui para vos levar e tomá-las como direito de garantia. Mas nada disso acontecerá: não vos assusteis! Seria bom, entretanto, se tardarmos a vos colocar em segurança, que não esqueçamos nenhum instante deste asilo. Tenhais confiança: com o tempo, no dia aprazado, todo mortal que despreza os deuses recebe seu castigo.

Corifeu

Pai, tenho medo. As naves de voo rápido já estão lá; não há mais tempo.

Coro

Sinto uma ansiedade apavorante: será que valeu a pena fugir por todos os caminhos? Pai, estou morta de medo.

Dánao

Os argivos emitiram um voto sem apelação, minha filha: tem confiança, eles combaterão por ti, tenho certeza, vai.

Corifeu

Malditos! Eis a vingança devoradora de Egito ⎯ insaciáveis por combates: tu o sabes tão bem quanto eu.

Coro

Em suas naves, de amarras apertadas, de aspecto azul sombrio, eles vieram aqui, a sorte ajudando seu rancor, com sua numerosa armada negra!

Dánao

Mas aqueles que eles encontrarão aqui, os braços polidos pelo ardor das tardes, também são numerosos.

Corifeu

Ó pai, eu te suplico, não me deixes só! O que é uma mulher sozinha? Ares não habita nela.

Coro

Eles, plenos de pensamentos criminosos, desígnios pérfidos, no fundo de seus corações impuros, eles, não mais que os corvos, respeitam os altares.

Dánao

Seria favorável se eles se fizessem odiar pelos deuses tanto quanto tu os odeias.

Corifeu

Ah, não será o temor destes tridentes, destas majestades divinas que os manterão longe de nós, ó pai.

Coro

Orgulhosos, devorados pela audácia ímpia, como cães sem vergonha, eles são surdos à voz dos deuses.

Dánao

Bem, um ditado não diz que os lobos vencem os cães? E entre os frutos da terra não é o fruto do papiro que vence a espiga?

Corifeu

Dizemos mais: seus instintos são os das bestas luxuriosas e sacrílegas. Ah, que eles não nos comandem jamais.

Dánao

Uma armada não fica pronta tão cedo. Mesmo a atracação é demorada; é preciso levar à terra as amarras protetoras; e mesmo a âncora tendo sido jogada, os guias da frota não ficam em terra, sem medo, sobretudo quando chegam em um país sem porto na hora do crepúsculo: a noite é mãe da angústia para o piloto prevenido. Nenhum desembarque será feito do jeito certo se a nave não estiver bem atracada. Entretanto, se tens medo, recorre aos deuses e eu procurarei socorro. Argos não terá o que reclamar do mensageiro: se ele é velho, seu espírito é jovem e sabe usar as palavras necessárias.

 

(Ele sai).

 

Coro – Terra montanhosa, justo objeto de meu culto, em que me tornarei? Para onde fugir? A terra de Ápis será para mim um refúgio sombrio. Ah! Gostaria de ser o negro vapor que se avizinha das nuvens de Zeus, para desaparecer inteira e como a poeira, que, sem asas, voa e se esvai, morrer!

Minha alma treme sem cessar; meu coração, agora negro, palpita. O que meu pai viu da guarita me tomou: estou morta de medo. Ah! Eu gostaria de, pendida, encontrar a morte, antes que um marido execrado colocasse as mãos sobre meu corpo. Melhor seria, na morte, ter por mestre Hades!

(Mais vivo).

Que eu possa me aninhar no seio do éter, lá onde a água das nuvens se transforma em neve! Ou encontrar ao menos uma rocha escarpada, abandonada pelas cabras, inacessível aos olhos, alta e solitária, suspensa no vazio, ninho do abutre, que me garanta uma queda profunda, antes que eu me submeta, contra minha vontade, ao matrimônio com o predador!

Depois, que façam de mim a presa dos cães, o festim dos pássaros dos arredores. Quem morre liberta-se de lágrimas e dores. Que a morte venha então a mim antes do leito nupcial. Existirá uma outra saída que eu possa encontrar ainda para escapar do matrimônio?

(Animando-se ainda).

Que teus cantos lancem votos ao céu para os deuses e deusas! Mas como serão eles cumpridos? Ah! Volta então para nós, pai, olhos que nos prometem a libertação, mesmo a preço de combates! E sobre a violência lança um olhar de cólera; é ele que lhes é devido.

Zeus todo-poderoso, senhor de Argos, respeita em nós tuas suplicantes. Pois os filhos de Egito ⎯ intolerável desmesura ⎯ noivos à caça sobre meus passos vão pressionando a fugitiva de seus lúbricos clamores e pretendem tê-la à força! Mas o fiel da balança, somente tu o tens: não existe nada entre os mortais que possa ser realizado sem ti?

(Elas percebem ao longe uma tropa de egípcios. Muito agitadas).

Ah! Ah! Oh! Oh! O raptor está lá….Ah! Pereça o raptor!…….Grito aflita. Eis o prelúdio das violências que me aguardam! Ah! Ah! Socorro! O terror triunfa intolerável, perpassando terra e mar! Senhor desse país, protegei-nos!

 

(Elas se precipitam para o altar. Entra um mensageiro egípcio, guiando uma tropa em armas).

 

Mensageiro

Andando, andando para a galeota, com toda pressa de tuas pernas! Ou então ver-se-ão cabelos arrancados, sim, arrancados, corpos marcados a ferro, cabeças cortadas, num massacre onde golfadas de sangue jorrarão. Andando, andando…

Coro

Por que não perecestes nas ondas inúmeras da rota marinha, com a desmesura de teus senhores e seu barco de fortes cravelhas!

Mensageiro

Vamos, deixa o altar e caminha para a nave.

Coro

Não, não quero mais rever as águas fecundantes, que na terra dos homens fazem nascer e multiplicar o sangue portador da vida.

Mensageiro

Vais subir na nave sim, quer queiras, quer não.

Coro

Ah! Ah! Pudesses tu perecer de uma morte brutal, envolto nas águas santas do mar, depois de ter errado ao sabor dos ventos celestes em torno da tumba, onde na areia, dorme Sarpedão!

Mensageiro

Grita, debate-te, apela aos deuses: uma vez dentro da nave egípcia, não haverá saída.

Coro

Ai de mim, ai de mim! Que o possante Nilo que te observa acabe com tua espantosa desmesura!

Mensageiro

Eu te convido a entrar na galera de flancos curvos, e rapidamente, sem demora! Quando se arrasta uma rebelde, não se poupam seus cabelos.

 

(O mensageiro e sua tropa sobem no outeiro e procuram agarrar as Danaides).

 

Coro

Ai de mim! Pai, a proteção dos altares seria então minha perdição? Mas sim, ele me envolve como uma aranha, passo a passo, o fantasma, o fantasma negro! Ai de mim, três vezes ai de mim! Terra mãe, afasta de mim esse terror! Ó pai, Zeus, filho da Terra!

Mensageiro

Vai, eu não temo os deuses deste país: eles não me criaram na infância, nem me alimentaram na velhice.

Coro

Ela salta sobre mim, a serpente de dois pés. Semelhante a uma víbora (…………) Ai de mim, três vezes ai de mim! Terra mãe, afasta de mim esse terror! Ó pai, Zeus, filho da Terra!

Mensageiro

Se não te resignas a entrar na nave, tua túnica trabalhada será dilacerada sem piedade.

Coro

Estamos perdidas. Senhor! Somos submetidas a um tratamento ímpio.

Mensageiro

Senhores, vós os tereis logo ⎯ inúmeros: os filhos de Egito. Não temei, não vos queixareis da falta de amos.

Coro

Ah! Chefes, príncipes deste país, estou sendo forçada!

Mensageiro

Parece que terei que arrastar-vos pelos cabelos, pois estais surdas a minha voz!

 

(Entra o rei Pelasgos).

 

Rei Pelasgo

Ei, o que fazes? Que soberba te induziu a desprezar assim a terra dos Pelasgos? Crês desembarcar num Estado de mulheres? Para um bárbaro demonstras insolência demais para com os gregos! É cometer muitas faltas e usar de bem pouco senso.

Mensageiro

Que falta cometi aqui contra o Direito?

Rei Pelasgo

Antes de mais nada, ignoras os deveres de um estrangeiro.

Mensageiro

Em que? Apenas resgato aquilo que havia perdido.

Rei Pelasgo

A quem te dirigiste?

Mensageiro

A Hermes, deus de todos aqueles que procuram.

Rei Pelasgo

Tu te diriges aos deuses e não lhes demonstras nenhum respeito.

Mensageiro

Minha adoração vai para os deuses do Nilo.

Rei Pelasgo

E os daqui então não significam nada para ti: ouvi isso de tua boca.

Mensageiro

Levarei essas mulheres a menos que me impeçam.

Rei Pelasgo

Não te atrevas! Em pouco tempo serias queimado!

Mensageiro

Ouço aqui palavras pouco hospitaleiras.

Rei Pelasgo

Não vejo hóspedes naqueles que desprezam os deuses!

Mensageiro

Direi isso aos filhos de Egito.

Rei Pelasgo

Esse cuidado não me inquieta o coração!

Mensageiro

Mas, para que meu relatório seja exato e preciso ⎯ pois é necessário que um mensageiro preste contas de tudo ⎯ como devo expressar-me? Quem devo dizer que me tomou o bando de primas sem as quais eu retorno? Estes debates, Ares só os julga com testemunhas; jamais uma disputa como esta seria resolvida com indenizações em dinheiro. É preciso primeiro que centenas de guerreiros tombem e percam a vida em combate.

Rei Pelasgo

Por que te dar meu nome? Sabereis com o tempo, tu e teus companheiros. Essas mulheres, tu as levarás se elas consentirem de bom grado, quando tiveres encontrado piedosas razões para convencê-las. Por votação unânime, o povo argivo proclamou sem apelação: ele jamais abandonará à violência um grupo de mulheres. É um ponto tão firmemente estabelecido, que ninguém jamais poderá mudá-lo. Não se trata de palavras inscritas em tabuletas nem seladas em rolos de papiro: ouves aqui a clara linguagem de uma voz livre. Rápido, sai de minha vista!

Mensageiro

Sabeis desde já que declarais uma guerra incerta. A vitória e a conquista sejam dos homens!

Rei Pelasgo

Homens, vós os encontrareis também neste país, e que não bebem vinho feito de cevada!

 

(O mensageiro se retira.

 

Rei Pelasgo (em direção ao Coro).

Quanto a vós, retomai confiança, e todas, com suas acompanhantes, entrai em nossa cidade cercada por muralhas. O Estado aí possui numerosas pousadas; eu mesmo possuo várias casas . Os alojamentos estão disponíveis, se quiserdes morar com outros. Sois livres também, se quiserdes ocupar as habitações sozinhas. Escolhei ⎯ vós sois livres ⎯ o que vos parecer mais vantajoso e agradável. Como fiadores tereis o Rei e todos os cidadãos : que podereis esperar de melhor?

Corifeu

Que benefícios sem fim surjam em tua vida, rei venerado entre os Pelasgos! E que tua bondade traga de volta nosso pai, o cioso Dánao, que pensa e deseja por nós. Cabe a ele decidir onde nos alojaremos. Qualquer um está pronto a lançar calúnias contra os estrangeiros: esperemos que tudo saia pelo melhor!

(O Rei sai).

Para nosso bom nome, para que as pessoas deste lugar nos respeitem, arrumai-vos, cativas, do modo como Dánao designou, para cada uma, o dote servil.

 

(Entra Danaos, escoltado pelos guardas).

 

Dánao

Minhas filhas, é preciso que ofereçais aos argivos rezas, sacrifícios e libações, como a deuses do Olimpo; pois sem distinção todos foram nossos salvadores. Foi assim que eles ouviram minha história com a simpatia devida aos próximos, a cólera que merecem vossos primos, e que deram a mim essa escolta, esses homens de armas, primeiro como um privilégio que me honra, em seguida para nos guardar, a mim, do golpe imprevisto e mortal que me atingiria de surpresa e que para este país seria um fardo eterno, e a vós, de um rapto brutal.

Em troca de tais benefícios nós lhes devemos, se nossa alma é um bom guia, a homenagem de uma gratidão que os honra mais do que nunca.⎯ E agora, às numerosas lições de modéstia inscritas em vós por vosso pai, acrescentaríeis essa: um grupo desconhecido não se faz apreciar senão com o tempo; quando se trata de um estrangeiro, cada um tem de prontidão palavras más, e nada vem mais rápido aos lábios do que uma proposta suja.

Eu vos convido então a não me cobrirdes de vergonha, pois possuís aquela juventude que atrai os olhos dos homens. O tenro fruto maduro não é fácil de proteger: os animais o atacam tanto quanto os homens, vós o sabeis, os pássaros como os quadrúpedes. Também, para os corpos plenos de vigor a própria Cípria [Afrodite] vai proclamando o preço, convidando o amor a colher a flor da juventude. Também todos os passantes, sucumbindo ao desejo, lançam sobre a delicada beleza das virgens o caminho encantador do olhar.

Não tenhamos um tal destino, pois que para dele fugir, nós tanto sofremos e percorremos uma grande extensão de mar; não criemos desonra para nós mesmos, alegria para nossos inimigos. Alojamento não nos faltará, dois nos são oferecidos, um por Pelasgos, o outro pela cidade ⎯ que podemos usar de graça: tornam-nos tudo fácil. Mas lembrai-vos bem das lições paternas: colocai a modéstia mais alto que a vida.

Corifeu

Reservemos outros votos para os deuses do Olimpo; se se tratar de minha virgindade, podes ficar despreocupado, meu pai: a menos que o Céu tenha planos totalmente novos, não me desviarei da rota que até agora minha alma seguiu.

 

(Danaos sai, com o cortejo das Danaides se preparando para segui-lo).

Coro

Vamos, celebremos os Bem-aventurados, senhores de Argos, deuses urbanos e deuses ribeirinhos das águas de Erasinos antigo. ⎯ E vós acompanhantes, respondei a nosso canto. ⎯ Que nossos louvores cantem a cidade de Pelasgos! O Nilo e suas bocas não terão mais a homenagem de nossos hinos. E sim os rios que por este país vertem suas ondas mansas onde se saciam e se multiplicam em riachos fecundantes para amolecer a terra argiva. E que a casta Ártemis lance sobre esse bando um olhar piedoso para que nenhum hímen nos faça cair sob o jugo da Cípria [Afrodite] ! Àquele que eu odeio seja reservado o castigo!

Acompanhantes

Cípria [Afrodite], minha cantiga piedosa não saberia esquecê-la. Aliada de Hera, ela atinge quase o poder de Zeus, e então a deusa de sutis pensamentos recebe as honrarias devidas a suas obras santas. A seu lado, para ajudar sua mãe, eis Desejo e Persuasão, a sedutora, que jamais recebeu uma recusa; Harmonia também, no séquito de Afrodite, como também Eros de alegre tagarelice.

Para as fugitivas eu temo ventos contrários: dores cruéis e guerras sangrentas. Por que tiveram eles do Céu brisas favoráveis a sua perseguição? O que o Destino fixou tem grande chance de se cumprir ⎯ nada ocorre fora dos desígnios de Zeus, augusto e insondável ⎯ e como com milhares de mulheres antes de ti, esse casamento pode bem ser a parte que te cabe.

Coro

Ah! que Zeus Augusto afaste de mim o casamento com os filhos de Egito!

Acompanhantes

Entretanto, talvez isso fosse o melhor.

Coro

Vai, podes acalmar uma intratável.

Acompanhantes

Vai, não sabes o futuro.

Coro

Posso eu pretender contemplar o pensamento de Zeus, mergulhar minha vida no abismo?

Acompanhantes

Formula então um voto mais comedido.

Coro

Que lição de comedimento pretendes me dar?

Acompanhantes

“Nada em excesso”, principalmente com os deuses!

Coro

Não! que Zeus me poupe de um matrimônio cruel com um esposo odiado! Foi ele quem liberou Io, aboliu sua pena com uma mão de cura, e fez com que ela sentisse seu doce poder. Que ele dê a vitória às mulheres ⎯ eu me resigno ao menor mal e a dois terços de felicidade ⎯ e que uma sentença justa venha ao apelo da justiça, se minha prece for ouvida, pelas vias libertadoras da Divindade!

As Danaides se afastam com as Acompanhantes.

FIM