Agostinho, Cidade de Deus

Cidade_de_Deus_Agostinho.

CAPÍTULO I
Acerca dos inimigos do nome de Cristo que,
por causa de Cristo, os bárbaros pouparam
durante a devastação de Roma.

I – Capítulo

É desta Cidade da Terra que surgem os inimigos dos quais tem que ser defendida a cidade de Deus. Muitos deles, afastando-se dos seus erros de impiedade, tornaram-se cidadãos bastante idóneos da Cidade de Deus. Mas muitos outros ardem em tamanho ódio contra ela e são tão ingratos aos manifestos benefícios do Redentor, que hoje não moveriam contra Ele a sua língua senão porque encontraram nos seus lugares sagrados, ao fugirem das armas inimigas, a salvação da vida de que agora tanto se orgulham. Não são na verdade estes romanos encarniçados contra o nome de Cristo aqueles a quem os bárbaros pouparam a vida por amor de Cristo? Disto dão testemunho os santuários dos mártires e as basílicas dos Apóstolos que acolheram quantos aí se refugiaram, tanto cristãos como estranhos, durante a devastação da Urbe. Ali se apaziguava o encarniçado inimigo; aí findava o seu furor de extermínio; para ali conduziam os invasores tocados de compaixão, aos que, fora daqueles lugares, tinham poupado a vida, pondo-os a salvo das mãos dos que não tinham igual compaixão. Aqueles mesmos que, noutros sítios, como inimigos que eram, realizavam crudelíssimas chacinas, — quando se aproximavam destes lugares em que lhes estava vedado o que, por direito de guerra, se permite noutras partes, refreavam a sua sanha bélica e renunciavam ao desejo de fazer cativos. Foi assim que escaparam muitos dos que agora desacreditam o Cristianismo e imputam a Cristo as desgraças que a cidade teve que suportar. Não atribuem porém ao nosso Cristo mas ao destino, o beneficio de se lhes ter poupado a vida por amor de Cristo. Deveriam antes, se o avaliassem judiciosamente, atribuir os sofrimentos e durezas que os inimigos lhes infligiram à divina Providência que costuma, com guerras, purificar e castigar os costumes corrompidos dos homens. É a divina Providência que põe à prova a vida justa e louvável dos mortais com tais aflições, para, uma vez provada, ou a transferir para uma vida melhor ou a reter nesta Terra para outros fins. Mas de facto os ferozes bárbaros pouparam-lhes a vida contra os costumes normais das guerras, por amor ao nome de Cristo, quer em outros lugares quaisquer, quer nos recintos consagrados ao seu culto, e, para que a compaixão se tornasse mais extensiva, escolheram os mais amplos destinados a recolher multidões. Deviam atribuir isto ao Cristianismo. Era a ocasição propícia para que dessem graças a Deus e recorressem ao seu nome com sinceridàde, evitando assim as penas do fogo eterno, aqueles que em grande número escaparam às presentes calamidades usando hipocritamente desse mesmo nome. Porque muitos dos que vês agora insultar com petulância e sem vergonha os servos de Cristo, não teriam escapado àquela carnificina e àquele flagelo se não tivessem fingido que eram servidores de Cristo. E agora — ingrata soberba e ímpia loucura! — de coração perverso resistem ao seu nome; ao qual se recolheram um dia para gozarem da vida temporal, tornando-se réus das trevas eternas.

 

CAPÍTULO II

Nunca, numa guerra, os vencedores pouparam os vencidos por amor aos seus deuses. São muitos os feitos guerreiros consignados por escrito, uns anteriores à fundação de Roma, outros ocorridos desde que esta nasceu até ao apogeu do Império. Leiam-nos e digam-nos se, no assédio de alguma cidade por estrangeiros, os vencedores pouparam assim os que se refugiavam nos templos dos seus próprios deuses; ou se um chefe bárbaro deu quiçá ordem alguma para que, após o assalto da cidade, não se ferisse quem quer que fosse encontrado neste ou naquele templo. Não foi Eneias quem viu Príamo entre os altares profanando com o seu sangue os fogos que ele próprio tinha consagrado? 1 E Diomedes e Ulisses que depois de degolarem os guardas da cidadela, roubaram a sagrada imagem, e ousaram pôr as mãos sangrentas sobre as virginais faixas da deusa?2

E todavia o que segue não é exacto: Desde aquele momento, a esperança dos Gregos começou a afrouxar e a desvanecer-se3. Na verdade, foi depois disto que ficaram vitoriosos; foi depois disto que destruíram Tróia a ferro e fogo; foi depois disto que degolaram Príamo, refugiado junto dos altares. Tróia não caiu, portanto, por ter perdido Minerva. E a própria Minerva, que é que ela tinha perdido para perecer? Teriam sido por acaso os seus guardiãos? Sim, isto é verdade: de facto, só pôde ser roubada depois de estes terem sido degolados. O certo é que o ídolo era defendido pelos guardiãos, em vez de serem eles defendidos pelo ídolo. Como é possível que se preste culto, — para que guardasse a pátria e os cidadãos — , àquela que não fora capaz de guardar os seus guardas?

 

III

CAPÍTULO III
Quão imprudentemente os Romanos
acreditaram que os deuses Penates
impotentes para guardarem Tróia,
os haviam de proteger
Eis a que deuses se compraziam os Romanos de entregarem a defesa da Urbe!. Que lamentável erro! E ardem em cólera contra nós quando dizemos estas coisas dos seus deuses! Todavia, não se enfurecem contra os seus escritores e até pagam, para os estudarem, a professores que consideram dignos de honras e estipêndio público. Precisamente segundo Vergílio — que, como o maior
e o mais brilhante de todos os poetas, lêem desde crianças, para que o espírito ainda tenro delas fique dele impregnado
de forma a não mais poder ser esquecido, conforme os
versos de Horácio:
A vasilha que recentemente se impregnou de perfume,
largo tempo o conservará1.
Precisamente, segundo Vergílio, Juno aparece cheia de
ódio aos Troianos, açulando Éolo, rei dos ventos, contra
eles, dizendo:
Um povo meu inimigo vai sulcando as ondas do
Tirreno; leva consigo, para Itália, ílio e os Penates vencidos2.