Apolodoro, Biblioteca

Um dos Principais Compêndios sobre a Mitologia Grega

Jean-Marc Nattier (1685–1766)

Biblioteca é um grande sumário da mitologia grega cuejo autor “Apolodoro” foi por séculos erroneamente identificado com Apolodoro de Atenas, que nasceu em 180 a.C. No entanto, como cita um autor romano, Castor de Rodes, do século I a.C,  este Apolodoro não poderia ter escrito o livro. Assim, por convenção, o autor deste livro é chamado Pseudo-Apolodoro. A obra original não possuía divisões, mas convencionalmente foi dividida em quatro livros. Infelizmente, somente três destes livros chegaram aos dias atuais, com o terceiro livro acabando bruscamente na história de Teseu.

Esta versão em português por Pedro Cavalcanti foi traduzida da versão inglesa inglês de James George Frazer (1854-1941).

Livro Primeiro: 1) Filhos do Céu; 2) Guerra contra os Titãs; 3) Deuses Olimpianos; 4) Apolo e Ártemis; 5) Rapto de Perséfone; 6) Gigantomaquia e o Tifão; 7) Dilúvio de Zeus; 8) Caçada na Calidônia; 9.a) Família de Éolo; 9.b) Família de Melampo; 9.c) Viagem dos Argonautas; e 9.d) Crimes de Medeia.

Livro Segundo: 1.a) Suplício de Io; 1.b) Dánao e as Danaídes; 2) Acrísio e Préto; 3) Belerofonte e a Quimera; 4.a) Perseu e sua família; 4.b) Anfitrião e o nascimento de Hércules; 5) Hércules e os doze Trabalhos; 6) Hércules no Leste; 7.a) Exército de Hércules; 7.b) Morte de Hércules; 8.a) Perseguição aos Filhos de Hércules; e 8.b) Heráclidas conquistam o Peloponeso.

Livro Terceiro (Parte 1): 1) Europa e Minos; 2) Catreu; 3) Glauco; 4) Cadmo, fundador de Tebas; 5) Lista de Reis de Tebas; 6) Sete contra Tebas; 7) Epigone. – EM BREVE.

Livro Terceiro (Parte 2): 1) Licaão e Calisto; 2) Auge e Atalanta; 3) Plêiades, Hermes, Coronis, Leda e os Pretendentes de Helena; 4) Castor e Polux; 5) Dardano, Ilo, Príamo, Eco e Têlamo; 6) Peleu e Tetís; 7) Cécropes, Adônis, Tereu, Procne e Erecteu; 8) Céfalo, Emolpo e Egeu; 9; Teseu. – EM BREVE.

Livro 1

Dos Filhos do Céu à Viagem dos Argonautas

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Os Filhos do Céu

[1.1.1] O Céu foi o primeiro que governou por todo o mundo e, tendo casado com a Terra, gerou primeiro os Hecantochires, como são nomeados Briareu, Gies e Coto, que eram insuperáveis em tamanho e poder, cada um deles tendo cem braços e cinquenta cabeças.

[1.1.2] Após estes, Terra gerou os Ciclopes, a saber, Arges, Esteropes e Brontes, dos quais cada tinha um olho na testa. Mas o Céu os aprisionou e os lançou ao Tártaro , um lugar sombrio no Hades tão distantes da Terra quanto a Terra está distante do Céu.

[1.1.3] E novamente o Céu gerou crias na Terra, a saber, os Titãs como são nomeados Oceano, Céos, Hipérion, Crio, Jápeto e o mais jovem de todos, Cronos; também as filhas, as Titanides como são chamadas: Tétis, Reia, Têmis, Mnemosine, Febe, Dione, Thia.

[1.1.4] Mas a Terra, em luto pela destruição dos seus filhos, que tinham sido lançados no Tártaro, persuadiu os Titãs para atacar seu pai, dando a Cronos uma foice de Adamantina. Todos eles, exceto o oceano, atacaram o pai e Cronos cortou seus  genitais, jogando-os ao mar.  Das gotas do sangue escorrido nasceram as Fúrias, a saber: Alecto, Tisífone e Megera. E, tendo destronado o pai deles, os Titãs trouxeram seus irmãos que tinham sido arremessados abaixo ao Tártaro, que se comprometeram ao governo de Cronos.

[1.1.5] Mas Cronos novamente os prendeu e os lançou ao Tártaro. Ele se casou com sua irmã Reia; mas porque a Terra e o Céu previram que Cronos iria ser destronado por seu próprio filho, ele passou a engolir sua prole no nascimento. Sua primogênita Héstia, ele engoliu. Em seguida, foram Deméter e Hera. Depois, Plutão e Poseidon.

[1.1.6] Furiosa com isto, Reia viajou à Creta quando ela pariu Zeus e o levou para uma caverna de Dicte. Deu-lhe aos Curetes e às ninfas Adrástia e Ida, filhas de Melisseu, para ser cuidado.

[1.1.7] Essas ninfas alimentaram a criança com o leite da Amalteia e os armados Curetes a guardaram na caverna batendo suas lanças sobre os escudos para que Cronos não ouvisse o choro de bebê. Reia então envolveu uma pedra em panos e deu a Cronos para a engolir, como se fosse o filho recém-nascido.

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A Batalha contra os Titãs

[1.2.1] Quando Zeus se tornou adulto, ele levou Métis, filha de oceano, para ajudá-lo, e ela deu a Cronos uma droga de engolir, que o forçou a regurgitar primeiro a pedra e, em seguida, as crianças quem ele havia engolido. Com auxílio dos irmãos, Zeus travou a guerra contra Cronos e os Titãs. Eles lutaram por dez anos até a Terra profetizar a vitória de Zeus caso tivesse como aliados aqueles que tinham sido arremessados abaixo ao Tártaro. Assim, Zeus matou a criatura sem mandíbula Campe e soltou as amarras dos tios. Os ciclopes lhe deram o trovão, o relâmpago e o trovão; para Plutão, eles concederam um elmo; e, para Poseidon, um tridente. Empunhando estas armas, estes deuses venceram os Titãs, os jogaram no Tártaro e nomearam os Hecantochires como seus guardas. Eles então partilharam entre si seus reinos, ficando a Zeus atribuído a supremacia do Céu, a Poseidon o domínio do Mar e a Plutão a controle do Hades.

[1.2.2] Então, do Titãs nasceram descendentes. Do Oceano e Tétis, nasceram as Oceanidas, a saber, Ásia, Estige, Electra, Dóris, Eurínome, Amfitrite e Metis. De Céos e Febe, nasceram Asteria e Leto. De Hiperião e Thia, nasceram o Amanhecer [Eos], o Sol [Hélio] e a Lua [Selene]. De Crios e Euríbia, filha do Mar [Ponto], nasceram o Crepúsculo [Astreu], o Combate [Palas] e a Destruição [Perses].

[1.2.3] De Jápeto e Ásia, nasceram Atlas, que tem o céu em seus ombros, Prometeu, Epimeteu e Menécio, ele quem Zeus na batalha com os Titãs feriu com um raio e arremessou ao Tártaro.

[1.2.4] De Cronos e Filira, nasceu Quíron, um centauro de forma dupla. Do Eos (Amanhecer) e Astreu (Crepúsculo), nasceram os Ventos e as Estrelas. De Perses [Destruição] e Astéria [Desconhecido], nasceu a Magia [Hécate]. E de Palas [Combate] e Estige, nasceram a Vitória [Nike], a Violência [Kratos], a Grandeza [Zelo] e o Poder [Bia].

[1.2.5] Zeus ordenou que juramentos fossem feitos às águas do Estige, que flui de uma rocha no Hades, concedendo esta honra porque nelas, Estige e seus filhos haviam lutado ao seu lado  contra os Titãs.

[1.2.6] E, do Mar [Ponto] e Terra, nasceram Fórcis, Taumas, Nereu, Euríbia e Ceto. De Taumas e Electra, nasceram Íris e as harpias Elo e Ocipete. De Fórcis e Ceto, nasceu as Fórcidas e as Górgonas, de quem devemos falar quando tratarmos de Perseu.

[1.2.7] De Nereus e Dóris, nasceram as Nereidas, cujos nomes são Cymothoe, Spio, Glauconome, Nausithoe, Halie, Erato, Sao, Amphitrite, Eunice, Thetis, Eulimene, Agave, Eudore, Doto, Pherusa, Galatea, Actaea, Pontomedusa, Hippothoe, Lysianassa, Cymo, Eione, Halimede, Plexaure, Eucrante, Proto, Calypso, Panope, Cranto, Neomeris, Hipponoe, Ianira, Polynome, Autonoe, Melite, Dione, Nesaea, Dero, Evagore, Psâmate, Eumolpe, Ione, Dynamene, Ceto e Limnoria.

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Os Deuses Olimpianos

[1.3.1] Então, Zeus se casou com Hera e gerou Hebe, Ilítia e Ares, mas ele teve relações com muitas mulheres, tanto mortais e imortais. Por Têmis, filha do Céu, ele teve filhas: as estações do ano, a saber, Paz, Ordem e Justiça; e também as irmãs do destino, a saber, Cloto, Láquesis e Atropo. De Dione, teve Afrodite. Por Eurínome, filha de oceano, ele teve as Graças, a saber, Aglaia, Eufrósine e Tália. De Estige, teve Perséfone [NOTA:: o relato mais comum é de Perséfone ser filha de Deméter. Fonte: Hesíodo]. E, de Mnemosyne [Memória], ele teve as musas: Caliope primeiro, então Clio, Melpômene, Euterpe, Erato, Terpsícore, Urânia, Tália e Polímnia

[1.3.2] Caliope gerou com Éagro, ou nominalmente com Apolo, um filho chamado Lino, quem Hércules matou, e outro filho, chamado Orfeu, que cantava e movia pedras e árvores com suas canções. Quando sua esposa Eurídice morreu, mordida por uma cobra, Orfeu desceu ao Hades com o desejo de trazê-la de volta. Ele assim persuadiu Plutão que a mandasse subir. O Deus prometeu fazê-lo, se Orfeu não olhasse para trás até que estivesse de volta à sua casa. No entanto, ele desobedeceu e se virou para olhar a esposa, o que fez ela voltar ao Hades. Orfeu também inventou os mistérios de Dionísio e tendo sido rasgado em pedaços pelas Mênades foi enterrado em Piéria.

[1.3.3] Clio se apaixonou por Piero, filho de Magnes, em consequência da ira de Afrodite, a quem Clio criticou por amar Adônis. Clio deu a luz a um filho, Jacinto, por quem Tamíris, filho de Fílamon e da ninfa Argíope, se apaixonou, sendo este assim o primeiro homem a e apaixonar por outros homens. No entanto, depois Apolo amou Jacinto e o matou involuntariamente num jogo de argolas. E Tamíris, que se sobressaiu na beleza e na música, se envolveu num concurso musical com as musas. O acordo era que, se ele ganhasse, ele poderia desfrutar de todas elas. No entanto, se fosse derrotado, ele seria desprovido de seus talentos. Então, as musas levaram a melhor sobre ele e lhe despojaram dos olhos e de sua música.

[1.3.4] Euterpe teve com o rio Estrimão um filho chamado Reso, que matou o Diomedes em Troia; mas alguns dizem que sua mãe era Caliope. Tália tinha por Apolo, os Coríbantes. E Melpômene teve por Aquelôo as sirenes, de quem falaremos no tratamento de Ulisses. [NOTA: Apolodoro se contradiz em 1.7.10 ao mencionar que a mãe das sirenes era Asterope.]

[1.3.5] Hera deu à luz a Hefesto sem relações sexuais com o sexo oposto, mas de acordo com Homero, ele foi um dos seus filhos por Zeus. Ele foi expulso do Céu por Zeus porque ele veio ao resgate de Hera em seus grilhões, pois, quando Hércules tomou Troia para si  e estava ao mar, Hera enviou uma tempestade contra ele; o que fez Zeus pendurá-la no Olimpo. Hefesto caiu em Lemnos e ficou coxo das pernas, mas Tétis o salvou.

[1.3.6] Zeus teve relações com Metis, que transformou-se em muitas formas para evitar seus abraços. Quando ela estava grávida, agindo rapidamente, Zeus a engoliu, porque a Terra disse que, após dar à luz à donzela que estava então no seu ventre, Metis produziria um filho que seria o Senhor do céu. Esse medo foi a razão de a ter engolido, pois quando chegou o momento do nascimento, Prometeu, outros dizem Hefesto, feriu a cabeça de Zeus com um machado e Atena, armada, saltou de dentro de sua cabeça acima no Rio Tritão.

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Apolo e Ártemis

[1.4.1]Das filhas de Céos, Astéria, à semelhança de uma codorna, atirou-se no mar, a fim de escapar os avanços amorosos de Zeus e uma cidade foi anteriormente batizada em seu nome Astéria, mas depois foi renomeada Delos. Depois, Leto, por sua intriga com Zeus foi caçada por Hera sobre toda a terra, até que chegar em Delos, onde pariu primeiro Ártemis com o auxílio a mesma obstetra que depois fez o parto de Apolo.

Ártemis dedicou-se à caça e permaneceu uma donzela, mas Apollo aprendeu a arte da profecia através de Pan, o filho de Zeus e Híbris. Ele foi a Delfos, onde Têmis naquela época costumava entregar oráculos. Assim, quando a cobra Pítão, que guardava o oráculo, lhe impediria de se aproximar do abismo, Apolo a matou e assumiu o oráculo. Não muito tempo depois ele também matou Títios, que era filho de Zeus e Elare, filha de Orcômeno, a quem Zeus por tê-la sujeitado a escondeu debaixo da terra por medo de Hera. A moça trouxe à luz o filho de Títios, de tamanho monstruoso , quem ela tinha suportado em seu ventre. Quando Leto veio Píto, Tityus a contemplou e a dominou pela luxúria que sentiu por ela, mas Leto chamou seus filhos em seu auxílio que o abateram com suas flechas. Ele foi punido mesmo depois da morte; para os urubus comerem seu coração no Hades.

[1.4.2] Apolo também matou Mársias, filho de Olimpo, pois tendo este encontrado os flautas que Atena jogara fora por lhe haverem desfigurado o rosto durante um concurso musical com Apolo. Eles concordaram que os vitoriosos sobrepujariam sua vontade sobre os vencidos, e quando o julgamento ocorreu Apolo transformou sua lira de cabeça para baixo na competição e ordenou a Mársias fazer o mesmo. No entanto, Mársias não podia, então Apolo foi julgado o vencedor e puniu Mársias a ficar pendurado num pinheiro alto e ter sua pele removida.

[1.4.3] Ártemis matou Orion em Delos. Dizem que ele era de estatura gigantesca e nasceu da terra; mas Ferecides diz que ele era filho de Poseidon e Euríale. Poseidon lhe concedeu o poder de caminhar através do mar. Casou-se primeiro com Side, quem Hera lançou ao Hades, porque ela se rivalizava em beleza. Depois ele foi Quios e cortejou Mérope, filha de Enopião. Mas Enopião o embebedou, arrancou fora seus olhos enquanto ele dormia e o lançou à praia. Orion foi à forja de Hefesto, que pegou o rapaz e o colocou em seus ombros, oferecendo levá-lo até o nascer do sol. Chegando lá, seus olhos foram curados pelos raios do sol e ele recuperou a visão, logo se apressando com a toda a velocidade para vingar-se de Enopião.

[1.4.4] Para ele, Poseidon tinha preparado uma casa debaixo da terra, que fora construída por Hefesto, mas o Amanhecer se apaixonou por Orion e o carregou a Delos, pois Afrodite deixou Amanhecer eternamente por ele como punição por ter ido para cama com Ares.

[1.4.5] No entanto, Orion foi morto, como dizem alguns, por desafiar Ártemis numa competição de arremesso. Outros dizem que ele foi flechado por Ártemis, por oferecer violência a Ópis, dentre as donzelas que vieram os Hiperbóreos. De Poseidon com Anfitrite, filha de oceano, nasceram Tritão e Rhode, que era casada com o Sol.

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O Rapto de Perséfone

[1.5.1] Plutão se apaixonou por Perséfone e com a ajuda de Zeus a abduziu em segredo. Deméter então a procurou por toda a terra com tochas de noite e dia. Ela descobriu  com o povo de Hermião que Plutão houvera a levado. Indignada com os deuses, ela abandonou os céus e veio   na forma de uma mulher até Elêusis. Ela primeiro se sentou sobre uma rocha que foi nomeada Sem-Sorriso por sua causa, ao lado do que é chamado o Poço das Justas Danças. Ela então fez seu caminho para Celeus, que naquele tempo reinava sobre a Eleusianos. Algumas mulheres estavam na casa e quando eles ofereceram a Deméter um assenti ao lado deles, uma certa velha, Iambe, brincou com a deusa e a fez sorrir. Por esse motivo eles dizem que as mulheres são brincalhonas na Tesmofória. Mas Metanira, esposa de Celeus, teve um filho e Deméter o recebeu aos seus cuidados. Desejando torná-lo imortal a deusa incendiou o bebê durante a noite e arrancou sua carne mortal. Mesmo assim, Demofonte – como era o nome da criança. – cresceu maravilhosamente a cada dia. No entanto, Praxiteia descobriu e o observou sendo consumido pelas chamas de forma que o bebê foi consumido pelo fogo e a deusa se revelou-se.

[1.5.2] Para Triptólemo, o mais velho dos filhos de Metanira, a deusa fez uma carruagem de dragões alados e lhe deu trigo, com o qual ele voava através do céu para semear toda as terras habitadas. No entanto, Paníasis afirma que Triptólemo era filho de Elêusis, pois ele diz que Deméter veio até ele. Ferecides, por outro lado, diz que ele era um filho do Oceano e da Terra.

[1.5.3] Quando Zeus ordenou Plutão para mandar a donzela abduzida, Plutão lhe deu uma semente de uma romã para comer para que ela não demorasse muito tempo com sua mãe e não prevendo as consequências, Perséfone a engoliu. Como Ascálafo, filho de Aqueronte e Gorgira, testemunhou contra ela, Deméter colocou uma pesada rocha sobre ele no Hades. No fim, Perséfone foi obrigada a permanecer um terço do ano com o Plutão e o resto do tempo com os deuses. Essa é a lenda de Deméter.

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A Gigantomaquia e a Luta contra Tifão

[1.6.1] A Terra, irritada por causa dos Titãs, trouxe consigo os gigantes, que eram filhos dela com o Céu. Estes eram incomparáveis no volume de seus corpos e invencíveis em seu poder. Eram terríveis no aspecto, com suas longas madeixas que se inclinavam da cabeça ao queixo e com as escamas dos dragões no lugar dos pés. Nasceram, como alguns dizem, em Flegre, mas de acordo com os outros em Palene. Eles arremessavam rochas e carvalhos ardentes que alcançavam os céus. Acima de todos, estavam Porfírio e Alcioneu, que eram imortais contanto estivessem lutando nas terras do seu nascimento. Eles também afugentaram as vacas do Sol da Erítia. Os deuses sabiam de uma profecia que nenhum dos gigantes poderiam perecer nas mãos dos deuses, mas que com a ajuda de um mortal eles poderiam encontrar seu fim. Aprendendo isso, a Terra buscou um meio de impedir que os gigantes fossem destruídos mesmo que por um mortal, mas Zeus proibiu o Amanhecer, Lua e Sol de brilhar. Assim, antes que mais alguém pudesse descobrir, ele preveniu o meio  com Atena convocando o auxílio de Hércules. Hércules matou primeiro Alcioneu com uma flecha, mas quando o gigante caiu no chão ele reviveu um pouco. No entanto, por conselho de Atena, Hércules o arrastou fora Palene para que o gigante pudesse morrer.

[1.6.2] Durante a batalha Porfírio atacou Hércules e Hera. No entanto, Zeus inspirou a luxúria por Hera no gigante para que rasgasse as suas vestes e tentasse se forçar sobre ela. Quando ela chamou por ajuda, Zeus o castigou com um raio e Hércules atiraram nele com uma flecha. Quanto aos outros gigantes, Efialtes foi alvejado por Apolo, com uma flecha no olho esquerdo e por Hércules em seu direito; Eurito foi morto por Dionísio com um Tirso; Clício por Hecate com tochas; e Mimas por Hefesto com mísseis de metal em brasa. Encélado fugiu, mas Athena atirou nele em sua fuga da ilha da Sicília. Ela também esfolou Pallas e usou sua pele para proteger seu próprio corpo na luta. Políbotes foi perseguido através do mar por Poseidon e veio para Cos onde Poseidon quebrou o pedaço da ilha que é chamada Nisyrum para jogar nele. Hermes, usando o capacete de Hades, matou Hipólito na luta. Ártemis matou Gratião. E as Fúrias, lutando com clavas de bronze, mataram Agrius e Thoas. Os outros gigantes Zeus castigou e destruiu com raios enquanto Hércules disparava suas flechas contra todos eles para os matar.

[1.6.3] Quando os deuses sobrepujaram os Gigantes, a Terra ficou ainda mais enfurecida e teve relações com Tártaro para gerar o Tifão na Cilícia, que era um híbrido entre homem e besta. Em tamanho e força, este ser superou todos os descendentes da Terra. Até as coxas, tinha uma forma humana com tão prodigiosa massa que ultrapassava a altura das montanhas e sua cabeça tocava as estrelas. Uma de suas mãos se estendia ao horizonte Oeste enquanto a outra se estendia ao Leste, a partir do seu corpo se projetava cem  cabeças de dragões. Das coxas para baixo, ele tinha enormes caudas de víboras que, quando esticadas, atingiam acima de sua cabeça e emitiam um alto sibilo. Seu corpo era todo alado; seus cabelos revoavam quando o vento atingia sua cabeça e bochechas; e seus olhos faiscavam como fogo. Tal e tão grande era o Tifão que, quando arremessava rochas cintilantes, elas alcançavam o céu com muitos sibilos, gritos e baforadas de fogo vindas de suas bocas. Quando os deuses o observaram vindo em direção ao céu, eles voaram em fuga ao Egito e mudaram suas formas para de animais. No entanto, Zeus disparou contra o Tifão à distância com raios e de perto golpeou-o com a foice de Adamantina.  Como este recuou até o Monte Casius na Síria, perseguido de perto por Zeus, lá o deus encontrou o monstro dolorido ferido e o agarrou. No entanto, o Tifão se retorceu sobre o deus e se apoderou dele em seu enroscado, arrancando sua foice e cortando seus tendões das mãos e pés. Ele levantou Zeus sobre seus ombros e o levou através do mar a Cilícia, onde o depositou na caverna Coriciana. Da mesma forma, prendeu os tendões lá também, escondido em uma pele de urso e armou a dracaína Delfine, meio-besta, meio-mulher, para vigiá-los.

[1.6.4] Hermes e Egipan roubaram os tendões e os devolveram para Zeus. Assim, quando recuperou sua força, Zeus surgiu do Céu, montado numa carruagem de cavalos alados e arremessando raios contra o Tifão. Ele perseguiu o monstro até a montanha chamada Nisa, onde o destino enganou o fugitivo, pois este comeu os frutos efêmeros que pensou serem capazes de renovar sua força. A perseguição continuou até a Trácia e, em combate no Monte Haemus, Zeus ergueu montanhas inteiras. No entanto, quando estas caíram sobre o Tifão pelo poder dos raio, um jorro de sangue voou para fora da montanha. Dizem que desde esse evento, a montanha foi chamada Haemus (Nota do tradutor: “haema” significa “sangue”). Enfim, quando Tifão começou a fugir através do mar da Sicília, Zeus o arremessou até o Monte Etna na Sicília. Esta é uma montanha enorme, que até hoje dizem que explosões de fogo são gerados pelos raios arremessados deste evento.

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O Dilúvio de Zeus

[1.7.1] Prometeu moldou os homens de água e terra e deu-lhes também o fogo, que, sem o conhecimento de Zeus, ele havia escondido em um tronco de funcho. [Nota do tradutor: diferente do relato mais comum, Prometeu é o criador da humanidade, não seu benfeitor]. Quando Zeus soube disso, ordenou a Hefesto para pregar seu corpo ao Monte Cáucaso, que é uma montanha da Citia. Nele, Prometeu foi pregado e se manteve agrilhoado por muitos anos. Todos os dias uma águia voava sobre ele e devorava os lóbulos do fígado, que se regenerava durante a noite. Essa foi a grande penalidade que Prometeu pagou pelo roubo do fogo até que Hércules depois o libertou, como mostraremos ao falar com Hércules.

[1.7.2] Prometeu tinha um filho chamado Deucalião. Este reinou nas regiões sobre Fítia e casou Pirra, filha de Epimeteu e Pandora, a primeira mulher criada pelos deuses. Quando Zeus destruiu os homens da idade do Bronze, Deucalião escutou conselhos de Prometeu para construir uma arca. Ele armazenou provisões e embarcou nela junto Pirra. Então, Zeus fez cair um grande dilúvio dos céus que inundou a maior parte da Grécia, para que todos os homens fossem destruídos, exceto alguns que fugiram para as montanhas altas da região. Foi então que se separaram as montanhas da Tessália e que todo o mundo fora do Istmo e do Peloponeso foi acometido. Deucalião flutuou na arca sobre o mar por nove dias e muitas noites, à deriva ao Parnaso. Enfim, quando a chuva cessou, ele desembarcou e realizou seu sacrifício a Zeus, que também é o deus da sobrevivência. Zeus enviou Hermes até Deucalião e lhe permitiu escolher o que fazer. Este decidiu que precisaria de pessoas. Sob o comando de Zeus, ele assim pegou as pedras e jogou-as para trás. As pedras que Deucalião jogou se tornaram homens e as pedras que Pirra jogou se tornaram mulheres. Portanto, as pessoas eram chamadas metaforicamente povo (laos) de laas, “uma pedra”. Deucalião teve filhos por Pirra, primeiro Heleno, cujo pai, alguns dizem que era Zeus e segundo Anfictião, que reinou sobre Attica após Cranau; e o terceiro uma filha Protogenia, que se tornou a mãe de Éthlio por Zeus.

[1.7.3] Heleno teve Éolo, Dorus e Xuto por uma ninfa chamada Orseide. Aqueles que foram chamados gregos Helenos deu seu próprio nome e dividiu o país entre seus filhos. Xuto recebeu o Peloponeso, tendo gerado Aqueu e íon por Creusa, filha de Erecteu, e de Aqueu e Íon, os aqueus e os jônios derivam seus nomes. Dorus recebeu o país do outro lado do Peloponeso e chamou seus colonos de dóricos por seu nome. Éolo reinou sobre as regiões da Tessália, por isso, seus habitantes são chamados eólios. Este se casou com Enarete, filha de Deimaco, e gerou sete filhos Creteu, Sísifo, Átamas, Salmoneu, Deion, Magnes, Perieres e cinco filhas, Cânace, Alcione, Pisidice, Calice, Perimede. Esta Perimede teve os filhos Hippodamas e Orestes por Achelous; e Pisidice tinha Antifo e ator por Myrmidon.

[1.7.4] Alcione se casou com Ceix, filho de Lúcifer [Hesperos]. Estes pereceram em virtude de seu orgulho, pois ele disse que sua esposa era a própria deusa Hera e ela disse que o marido dela era o próprio Zeus. Eles foram transformados em pássaros por Zeus. Ela se fez um martim-pescador (alcione) e ele um ganso-patola (ceix).

Cânace teve por Poseidon os filhos Hopelus, Nireu, Epopeu, Aloeu e Tríope. Aloeu se casou com Ifimédia, filha de Tríope, mas se apaixonou por Poseidon. Assim, muitas vezes indo ao mar ela segurava as ondas com as mãos e despejava suas águas no colo. Poseidon a sujeitou e gerou dois filhos nela: Oto e Efialtes, que são chamados de Aloades. Ano após ano, estes cresciam um côvado de largura e uma braça de altura, assim, quando eles tinham nove anos de idade, com nove cúbitos amplos e tamanho de nove braças, eles confrontaram os próprios deuses e colocar Ossa sobre o Olimpo; E, já tendo colocado Pelion sobre Ossa, ameaçaram através destas montanhas ascender ao Céu. Disseram que, enchendo o mar com o montanhas, transformariam a terra em mar e o mar em terra. Efialtes cortejou Hera e Otus cortejou Ártemis. Além disso, colocaram Ares em grilhões. No entanto, Hermes resgatou Ares furtivamente e Ártemis matou os Aloades em Naxos com um estratagema. Ela se transformou numa gazela e saltou entre eles, assim, na sua ânsia de abater seu alvo, eles atiraram seus dardos um no outro.

[1.7.5] Calice e Ethlio tiveram um filho chamado Endimião que liderou eólios da Tessália e fundou a cidade de Elis embora alguns digam que ele era filho de Zeus. Como Endimião era de grande beleza, a Lua se apaixonou por ele e Zeus lhe permitiu escolher o que fazer. Ele escolheu dormir para sempre, permanecendo imutável e imortal.

[1.7.6] Endimião teve por uma ninfa filha do Oceano, alguns dizem por Ifianissa, um filho chamado Étolo, quem matou Apis, filho de Foroneu e fugiu para o país dos Curetes. Lá, ele matou seus anfitriões, Dorus e Ládoco e Polipetes, filhos de Fítia e Apolo, chamando o país de Etolia por sua causa.

[1.7.7] Étolo e Pronoe, filha de Forbo, tiveram os filhos: Pleuron e Calidão, cujas cidades na Etolia foram nomeadas. Pleuron se casou Xantipe, filha de Doro, e gerou um filho chamado Agenor e filhas chamadas Estéropes e Estratonice e Laophonte. Calidão e Éolia, filha de Neleu, tiveram as filhas Epicaste e Protogenia. Esta teve o filho Óxilo pelo deus Ares. E Agenor, filho de Pleuron, casou-se com Epicaste, filha de Calidão, para gerar Porthaon e Demonice, que teve os filhos Éveno, Molo, Pilus e Téstio pelo deis Ares.

[1.7.8] Eveno gerou Marpessa, que foi cortejada por Apolo, mas Idas, filho de Afareu, carregou-a em uma carruagem alada que ele recebeu de Poseidon. 124 Perseguindo-o em uma carruagem, Éveno chegou ao Rio Licormas, mas, como não foi capaz de os alcançar, ele se atirou no rio que é chamado de Éveno por causa dele.

[1.7.9] Idas chegou até Messênia, onde Apolo o derrubou e desejou lhe roubar a donzela para si. Como eles lutaram pela mão da moça, Zeus os apartou e permitiu que a donzela escolhesse com qual dos dois ela desejava se casar. Ela escolheu Idas como marido por temer que Apolo a abandonaria quando a velhice a acometesse.

[1.7.10] Téstio tinha filhas e filhos de Eurítemis, filha de Cleobea. As filhas foram Alteia, Leda, Hipermnestra e os filhos foram Íficlo, Évipo, Pléxipo, e Eurípilo. Porthaon e Eurite, filha de Hipodamas, tiveram os  filhos, Oneu, Ágrio, Alcatos, Melas, Leucopeu e uma filha Asterope, que é dito ter sido a mãe das sereias por Aqueloo.

 —– 8 —–
A Caçada na Calidônia

[1.8.1] Reinando sobre Calidão, Oneu foi o primeiro que recebeu uma videira de Dionísio. Ele se casou Alteia, filha de Téstio, gerando Toxeu, quem ele matou com suas próprias mãos porque saltar sobre o fosso. Além de Toxeu, ele teve os filhos Tireu e Climeno e uma filha Gorge, quem se casou com Andremon. A outra filha chamada Dejanira, que é dito ter sido gerada em Alteia por Dionísio, conduziu uma carruagem e praticou a arte da guerra; e Hércules lutou por sua mão contra Aqueloo.

[1.8.2] Alteia também teve com Oneu um filho chamado Meleagro embora dizem que este foi gerado pelo deus Ares. Diz-se que, quando ele tinha sete dias de idade, o destino veio e declarou que Meleagro devia morrer quando a madeira da lareira fosse totalmente consumida. Escutando isso, Alteia pegou a madeira e a depositou num baú. Meleagro cresceu para ser um homem invulnerável e galante, mas encontrou seu fim da seguinte maneira. Ao sacrificar os primeiros frutos da colheita anual do seu país aos deuses, Oneu esqueceu de Ártemis. Ela, furiosa, enviou um javali de extraordinário tamanho e força, que impediu que a terra fosse semeada e destruiu o gado e as pessoas. Para atacar este javali, Oneu convocou todos os homens mais nobres da Grécia e prometeu àquele que matasse a fera receberia seu couro. Os homens que se reuniram para caçar o javali eram os seguintes: Meleagro, filho de Oneu, e Drias, filho de Ares, que eram ambos de Calidão; também Idas e Linceu, filhos de Afareu, da Messênia; Castor e Pólux, filhos de Zeus e Leda, da Lacedemônia; Teseu, filho de Egeu, de Atenas; Admeto, filho de Feres, de Feres; Anceus e Cefeus, filhos de Licurgo, da Arcádia; Jasão, filho de Esão, de Iolco; Íficles, filho de anfitrião, de Tebas; Pirítoo, filho de Íxion, da Larissa; Peleu, filho de Éaco, de Fítia; Télamon, filho de Éaco, de Salamina; Euritião, filho do Actor, de Fíthia; Atalanta, filha de Esqueneu, da Arcádia; Anfiarau, filho de Oicles, de Argos. Com eles vieram também os filhos de Téstio. E quando estavam todos reunidos, Oneu lhes deu entretenimento durante nove dias; mas, no décimo, quando Cefeus e Anceus e alguns outros desprezaram irem caçar com uma mulher, Meleagro obrigou-os a seguir ao a caçada com ela, pois ele desejava ter um filho com Atalanta apesar de ter uma esposa chamada Cleópatra, filha de Idas e Marpessa. Quando enfim o javali estava cercado, Hileu e Anceus foram mortos pelo monstro enquanto Peleu por acidente atingiu Euritião com sua lança. Foi Atalanta quem primeiro a atingiu o javali nas costas com uma flecha enquanto Anfiarau o atingiu no olho. E, embora tenha sido Meleagro quem o matou com uma punhalada no flanco, este deu o couro  do animal à Atalanta. Não obstante, os filhos de Téstio sentiram escárnio só de pensar que uma mulher pudesse receber o prêmio no lugar de homens. Assim, eles furtaram o couro dela, alegando que lhes pertencia por direito de nascença caso Meleagro não quisesse ficar com ele.

[1.8.3] No entanto, Meleagro, enfurecido, matou os filhos de Téstio e deu o couro de volta à Atalanta. No entanto, do luto em razão do abate de seus irmãos, Alteia acendeu o tronco e a vida de Meleagro expirou imediatamente. Outros dizem que Meleagro não morreu dessa forma, mas que, quando filhos de Téstio reclamaram o couro para si,  Íficlo quem declarou guerra entre Curetes e Calidonianos por ter sido ele o primeiro a atingir o javali.  Meleagro avançou e matou alguns dos filhos de Téstio, o que fez Alteia o amaldiçoar enfurecidamente. Ela permaneceu em sua casa, mas, quando o inimigo se aproximou das muralhas e os cidadãos suplicaram à Meleagro por ajuda. Este relutantemente cedeu à esposa e atacou os inimigos. Por fim, Meleagro matou o resto dos filhos de Téstio, mas também acabou morrendo em batalha. Depois da sua morte , Alteia e Cleópatra se enforcaram enquanto as mulheres que lamentaram sua morte foram transformadas em pássaros.

[1.8.4] Depois da morte de Alteia, Oneu se casou com Periboa, filha de Hipônoo. O autor da Tebaida diz que, quando a cidade de Oleno foi saqueada, Oneu recebeu Periboa como um presente de honra, mas Hesíodo diz que ela foi seduzida por Hipostrato, filho de Amarinceu, e que o pai dela, o Hipônoo, a mandou para longe de Oleno na Acaia para Oneu, porque ele morava longe da Grécia, com um mandato para matá-la.

[1.8.5] No entanto, alguns dizem que Hipônoo descobriu que sua filha tinha sido devassada por Oneu, portanto, a mandando embora com ele por ela estar grávida. Ela gerou o filho Tideu. Pisander diz que a mãe de Tideu foi Gorge, pois foi desejo de Zeus que Oneu se apaixonasse por sua própria filha.

Depois de crescer como homem galante, Tideu foi exilado pelo assassinato matar, como alguns dizem, de Alcatos, irmão de Oneu. No entanto, de acordo com o autor do Alcmeônida, suas vítimas foram os filhos de Melas que tinham conspirado contra Oneu, cujos nomes eram Feneu, Euríalo , Hiperlau, Antíoco, Eumedes, Esternopes, Xantipo Estenelau. Há ainda o relato de Ferecides de Tideus matar o próprio irmão Olenias. Sendo acusado por Agrio, ele fugiu para Argos e veio a Adrasto, com cuja filha Deipile ele se casou e gerou Diomedes.

Tideu marchou contra Tebas com Adrasto e morreu de um ferimento que ele recebeu das mãos de Melanipo.

[1.8.6] Os filhos de Agrio, a saber, eram Térsites, Onquesto, Prôtoo, Celeutor, Lícopeu, Melanipo. Eles tomaram o reino de Oneu e deram a seu pai; e mais do que isso eles aprisionaram Oneu e o torturaram por toda a vida. No entanto, Diomedes depois veio secretamente com Alcmeão de Argos e condenou à morte todos os filhos de Agrio, exceto Onquesto e Térsites, que escaparam a tempo até Peloponeso. Como Oneu estava velho, Diomedes deu o Reino Andraemon, que havia se casado a filha de Oneu, mas ele acabou levando Oneu consigo até Peloponeso. Porém, os filhos fugidos de Agrio se colocaram à espera do ancião no centro de Télefo em Arcadia e o mataram. Diomedes transportou o cadáver até a cidade de Argos e o enterrou no lugar onde agora há uma cidade chamada de Onoe por causa dele. Depois, tendo se casado com Aegialia, filha de Adrasto, ou, como dizem alguns, de Aegialeus, Diomedes foi para a guerra contra Tebas e Troia.

 —– 9.a —–
A Família de Éolo

[1.9.1] Dos filhos de Éolo, Átamas governou a Beócia e gerou um filho Frixo e uma filha Hele por Nefele. Ele se casou com uma segunda esposa, Ino, por quem ele teve Learco e Melicertes. No entanto, Ino conspirou contra os filhos de Nefele, convencendo as mulheres a lhe vender seu trigo seco; cuja origem os homens não tiveram conhecimento. Assim, sendo semeada com trigo seco, a terra não deu suas culturas anuais. Então Átamas enviou mensageiros para inquirir a Delfi sobre como ele poderia ser livrar da escassez. Ino convenceu os mensageiros a dizer que foi profetizado que a infertilidade da terra cessaria se Frixo fosse sacrificados a Zeus. Quando Átamas ouviu isso, ele foi forçado pelos habitantes da terra a levar Frixo ao altar, mas Nefele pegou ele e a filha, dando-lhes uma ovelha com um velo de ouro, que ela recebera de Hermes. A ovelha os carregou através do céu de forma que eles atravessaram a terra e o mar. No entanto, sobre o mar que fica entre o Sigeum e o Quersonese, Hele escorregou e se afogou. Esse mar assim foi chamado Helesponto por causa dela. Frixo chegou aos Cólquidas, cujo rei era Eetes, filho do Sol e de Perseis e irmão de Circe e Pasiphae, com quem Minos casou. Ele recebeu Frixo e deu-lhe uma de suas filhas: Calcíope. Frixo sacrificou a ovelha com o velo de ouro a Zeus, o Deus da fuga, dando a lã para Eetes, que o colocou num carvalho do bosque de Ares. E Frixo teve filhos com Calcíope, a saber, Argo, Melas, Frontis e Citissoro.

[1.9.2] Depois Átamas foi despojado também dos filhos de Ino em razão da ira de Hera; pois enfurecidamente ele atirou uma flecha em Learco e jogou ambos Ino e Melicertes ao mar. Ele foi assim banido da Beócia e consultou os deuses para saber onde poderia habitar. Recebendo de um oráculo que ele deveria habitar um lugar onde fosse entretido por feras selvagens, ele percorreu o uma grande extensão do seu país até que se viu entre lobos, que devoravam pedaços de ovelhas. Quando os lobos o viram, abandonaram suas presas e fugiram. Átamas se estabeleceu no local e o chamou de Atamântia em razão do seu nome. Ele então se casou com Temisto, filha de Hipseu, e gerou Leucon, Erítrio, Esqueneu e Ptoo.

[1.9.3] Sísifo, filho de Éolo, fundou Éfira, que agora é chamada de Corinto, e se casou com Mérope, filha de Atlas. Eles tiveram um filho, Glauco, que tinha por Eurímede um filho Belerofonte, que matou a Quimera cospe-fogo. Mas Sísifo foi punido no Hades a rolar uma pedra com as mãos e a cabeça no esforço para levá-la ao morro acima; mas não importa o quanto empurre, a rocha sempre volta para trás. Ele sofre este castigo por causa de Egina, filha de Asopo, quem Zeus levou secretamente, mas Sísifo traiu o deus revelando o segredo para Asopo, que estava à procura da filha.

[1.9.4] Deioneu reinou sobre Fócis e se casou com Diomedes, filha de Xuto; e lá nasceu-lhe uma filha Asterodia e os filhos, Éneto, Actor, Fílaco e Céfalo, que se casou com Prócris, filha de Erecteu. Mas depois Amanhecer se apaixonou por  ele e o levou embora.

[1.9.5] Perieres tomou posse de Messênia e casou-se com Gorgófone, filha de Perseu, de quem teve filhos, a saber: Afareu, Leucipo, Tíndaro e  Icário. Mas muitos dizem que Perieres não era o filho de Éolo, mas de Cinorta, filho de Amiclas; então nós devemos narrar a história dos descendentes de Perieres quando lidarmos com a família de Atlas.

[1.9.6] Magnes casou-se com uma ninfa filha de oceano e filhos nasceram dele foram Polidecto e Díctis, que colonizaram Sérifo.

[1.9.7] Salmoneu primeiro habitou na Tessália, mas depois ele veio a Élis, onde fundou uma cidade. Ele era arrogante e desejoso de se colocar em uma igualdade com Zeus, mas foi punido por sua impiedade; pois disse ser o próprio Zeus. Ele levou consigo os sacrifícios aos deuses e ordenou que estes fossem oferecidos a si mesmo. Ele arrastou peles secas com tacho de bronze em sua carruagem, dizendo ser o Trovão. Ele arremessou tochas acesas ao céu, dizendo que era o Relâmpago. Então, Zeus golpeou-o com um raio e eliminou a cidade que ele fundou com todos os seus habitantes.

[1.9.8] Tiro, filha de Salmoneu e Alcidice, foi entregue a Creteu, irmão de Salmoneu. Ela concebeu uma paixão para o rio Enipeu e muitas vezes ia até suas águas correndo para expressar seus lamentos a ele. Mas Poseidon, à semelhança do Enipeu, se deitou com ela. Ela secretamente deu à luz filhos gêmeos, que ela abandonou. Como os bebês estavam desamparados, uma égua, pertencentes a alguns estribeiros de passagem, chutou com seu casco uma das duas crianças e deixou uma marca lívida em seu rosto. O estribeiro pegou ambas as crianças e os criou. Aquele com a marca lívida [pelion], ele chamou de Pélias e o outro Neleu. Quando eles cresceram, eles descobriram que sua mãe e matou sua madrasta Sidero. Por saber que sua mãe era explorada por essa madrasta, eles a atacaram, mas antes que pudessem pegá-la ela teria se refugiado num santuário de Hera. No entanto, Pélias a degolou embaixo dos seus altares e sempre continuou a tratar a deusa Hera erroneamente.

[1.9.9] Depois, os irmãos se apartaram com Neleu sendo banido e indo a Messênia. Ele fundou a cidade de Pilo e se casou com Clóris, filha de Anfião, de quem teve uma filha Pero e os filhos Tauro, Astério, Pilaão, Deimaco, Euríbio, Epilau, Frásio, Eurímenes, Evágoras, Alastor, Nestor e Poriclimeno, quem Poseidon concedeu o poder de mudar de forma. Quando Hércules estava devastando Pilo, na luta contra Poriclimeno, este se transformou em leão, cobra e abelha, mas foi morto por Hércules junto com os outros filhos de Neleu. Nestor foi o único que se manteve vivo, porque ele foi criado entre o Gerenianos. Ele se casou com Anaxíbia, filha de Cratieu,e gerou as filhas Pisidice e Polícaste e os filhos, Perseu, Strático, Areto, Equefrão, Pisistrato, Antíloco e Trasimedes.

[1.9.10] Pélias habitou a Tessália e se casou com Anaxíbia, filha de Bias. Mas, de acordo com alguns, sua esposa era Filomace, filha de Anfião. Ele gerou o filho Acasto e filhas Pisidice, Pelópia, Hippothoe e Alcestis.

 —– 9.b —–
A Família de Melampo

[1.9.11] Creteu fundou Iolco e se casou com Tiro, filha de Salmoneu, por quem teve os filhos, Esão, Amitaão e Feres. Neleu habitou em Pilo e se casou com Idomene, filha de Feres e lá nasceram-lhe dois filhos: Bias e Melampo. Este último vivia no campo e antes de sua casa lá era um carvalho, na qual havia um covil de cobras. Seus servos mataram as cobras, mas Melampo juntou lenha e queimou os répteis adultos e criou os mais jovens. Quando estes estavam totalmente crescidos, ficaram ao lado dele em cada um dos seus ombros enquanto ele dormia e purificaram seus ouvidos com as línguas. Melampo se assustou no início, mas passou a entender as vozes dos pássaros voando sobre sua cabeça. Desta forma, ele escutou revelações aos homens sobre as coisas que ainda que ocorreriam. Ele também adquiriu a arte dos auspícios e, tendo encontrado Apolo em Alfeus, sempre foi um excelente adivinho.

[1.9.12] Bias cortejou Pero, filha de Neleu, mas como haviam muitos pretendentes para a mão da filha, Neleu disse que a daria àquele que trouxesse o gado de Fílaco. Estas estavam em Fílace e eram guardados por um cão que nem homem nem besta podia chegar perto. Incapaz de roubar essas vacas, Bias convidou seu irmão para ajudá-lo. Melampo prometeu fazê-lo, predizendo que ele deveria ser descoberto no ato de roubá-las e só conseguiria o gado após ficar aprisionado por um ano. Depois de fazer essa promessa, Melampo foi à Fílace e, tal como fora previsto, foi detectado no roubo e mantido prisioneiro numa cela. Quando o ano quase acabou, ele ouviu os vermes na parte oculta do telhado. Um deles perguntou quanto da viga já havia sido roída e os outros responderam que muito pouco havia dela. Imediatamente, Melampo solicitou que fosse transferido para outra cela e, não muito tempo depois, a cela anterior desabou. Fílaco ficou maravilhado ao perceber que ele era um excelente adivinho, por isso o libertou e o convidou para perguntar como seu filho Íficlo poderia ter filhos. Melampo só prometeu contar-lhe se o gado lhe fosse entregue. Ele então sacrificou dois touros e, lhes cortando em pedaços, convocou os pássaros. Quando veio um abutre, este lhe revelou que, quando Fílaco estava castrando carneiros, ele colocou sua faca, ainda sangrenta, ao lado de Íficlo, o que assustou a criança. Este fugiu com a faca e a enfiou num carvalho sagrado, cuja casca cresceu e a escondeu. Ele disse, por conseguinte, que se a faca fosse encontrada e sua ferrugem for raspada, esta deveria ser dada a Íficlo para a beber por dez dias para assim gerar um filho. Tendo aprendido essas coisas do abutre, Melampo encontrou a faca, raspou a ferrugem e deu para Íficlo beber, e assim nasceu seu um filho Podarces. Melampo assim conduziu o gado até Pilos e recebeu a filha de Neleu, dando-lhe a seu irmão. Por um tempo, ele continuou a habitar em Messênia, mas quando Dionísio enlouqueceu as mulheres de Argos, ele as curou na condição de receber parte do Reino e lá se estabeleceu com Bias.

[1.9.13] Bias e Pero tiveram um filho Talau, que se casou com Lisímaca, filha de Abas, filho de Melampo, com quem teve os filhos Adrasto, Partenopeu, Pronax, Mecisteu, Aristômaco e Erifile, que se casou com Anfiarau. Partenopeu teve um filho Promachus, que marchou com os Epígonos contra Tebas. Mecisteu teve um filho Euríalo, que foi a Troia. Pronax teve um filho Licurgo. E Adrasto tever por Anfitheia, filha de Pronax, três filhas: Argia, Deipile e Egiália, e dois filhos: Egialeu e Cianipo.

[1.9.14] Feres, filho de Creteu, fundou Ferae na Tessália e gerou os filhos Admeto e Licurgo. Licurgo assumiu a sua residência em Nemea e se casou com Eurídice, ou, como dizem alguns, Anfiteia, gerando Ofeltes, depois chamado Arquemoro.

[1.9.15] Quando Admeto reinou sobre Ferae, Apolo lhe serviu como seu escravo no tempo que ele cortejava Alcestis, filha de Pélias. Já Pélias prometeu entregar sua filha àquele quem prendesse um leão e um javali num jugo de carroça. Foi Apolo quem os prendeu na carroça e deu a Admeto, que os levou a Pélias para conseguir Alcestis. No entanto, ao oferecer um sacrifício ao seu casamento, ele esqueceu de honrar a deusa Ártemis; portanto, quando ele abriu a câmara nupcial, a encontrou cheia de cobras venenosas. Apolo se ofereceu para apaziguar a deusa e obteve como favor das Irmãs do Destino que Admeto soubesse qual seria o dia de sua morte e que ele poderia evitar esta morte se se alguém escolhesse voluntariamente morrer por ele. Quando chegou o dia de sua morte, nem seu pai nem sua mãe aceitaram morrer por ele, mas Alcestis morreu em seu lugar. Mas a Dama [Perséfone] a enviou de volta, ou, como dizem alguns, foi Hércules quem lutou com Hades para que a retornasse a Admeto.

 —– 9c —–
A Viagem dos Argonautas

[1.9.16] Esão, filho de Creteu, teve um filho chamado Jasão, por Polimede, filha de Autólico. Este Jasão habitou na Iolcos em que Pélias foi rei após Creteu. Mas, quando Pélias consultou o Oráculo sobre o seu Reino, os deuses o avisaram para ele ter cuidado com um homem de uma só sandália. De início, o rei não compreendeu o oráculo, mas depois veio a compreender. Pois, quando estava oferecendo um sacrifício ao mar para Poseidon, ele enviou Jasão, com muitos outros, a participar nele. Como Jasão amava a criação de animais e por isso habitava o campo, ele se apressou para participar do sacrifício, mas  ao atravessar o rio Anauros perdeu uma sandália na correnteza e desembarcou em Iolcos com apenas uma. Quando Pélias o viu, ele meditou sobre o Oráculo e foi até o Jasão perguntar-lhe: “supondo que tivesse o poder, o que faria se recebesse o oráculo de que seria morto por um dos seus cidadãos?”. Jasão, talvez  sem intenção, talvez instigado pela enfurecida Hera desejosa que Medeia lançasse uma maldição contra Pélias, que não a honrava, respondeu: “eu iria mandá-lo trazer o Tosão de ouro”. Logo que ouviu isso, Pélias ordenou que Jasão fosse buscar o tal tosão, que estava em Cólquida, num bosque de Ares, pendurado em um carvalho e vigiada por um dragão insone.

Enviado para buscar o velo, Jasão chamou pela ajuda de Argo, filho de Frixo; que construiu um navio de cinquenta remos com as orientações da deusa, que recebeu o nome de Argo em razão do seu construtor.  Na proa, Atena montou em um carvalho falante que veio de Dodona. Quando o navio foi construído, ele consultou o oráculo e os deuses lhe deram licença para convocar os nobres da Grécia e partir. Os convocados foram os seguintes: Tífis, filho de Hagnias, que velejou a embarcação; Orfeu, filho de Éagro; Zetes e Calais, filhos de Bóreas; Castor e Pólux, filhos de Zeus; Têlamon e Peleu, filhos de Éaco; Hércules, filho de Zeus; Teseu, filho de Egeu; Idas e Linceu, filhos de Afareu; Anfiarau, filho de Oicles; Ceneu, filho de Corono; Palemon, filho de Hefesto ou de Étolo; Cefeu, filho de Aleu; Laertes, dilho de Arcésio; Autólico, filho de Hermes; Atalanta, filha de Esqueneu; Menécio, filho do ator; Ator, filho de Hípaso; Admeto, filho de Feres; Acasto, filho de Pélias; Eurito, filho de Hermes; Meleagro, filho de Oneu; Anceu, filho de Licurgo; Eufemo, filho de Poseidon; Peante, filho de Táumaco; Butes, filho de Teleão; Fano e Estáfilo, filhos de Dionísio; Ergino, filho de Poseidon; Poriclimeno, filho de Neleu; Augeas, filho do Sol; Íficlo, filho de Téstio; Argo, filho de Frixo; Euríalus, filho de Mecisteu; Peneleu, filho de Hipalmo; Leito, filho de Alector; Ífito, filho de Náubolo; Ascálafo e Ialmeno, filhos de Ares; Astério, filho de Cometes; Polifemo, filho de Élato.

[1.9.17] Estes, tendo Jasão como almirante, navegaram pelo mar até chegar na ilha de Lemnos. Naquela época, por acaso,  Lemnos estava desprovida de homens e era governada por uma rainha chamada Hipsipile, filha de Toas, pelo seguinte motivo. As mulheres de Lemos não honraram a Afrodite, assim, a deusa visitou essas mulheres com um cheiro maligna; o que levou seus maridos a buscar escravas no país vizinho da Trácia para suas camas. Desonradas, as mulheres de Lemos assassinaram seus pais e maridos, com exceção de Hipsipile que manteve seu pai a salvo por escondê-lo. Assim, chendo em Lemnos, no tempo do governo feminino, os Argonautas tiveram relações com as mulheres, incluindo Hipsipile que foi para cama com Jasão e lhe deu os filhos Euneu e Nebrófono.

[1.9.18] Depois de Lemnos, os Argonautas desembarcaram entre os Doliones, dos quais Cízico era rei e os recebeu gentilmente. Mas, tendo embarcado ao mar pela noite e tendo encontrado ventos contrários, eles se perderam suas orientações e desembarcaram novamente entre os Doliones. No entanto, os Doliones, os confundindo com um exército de Pelasgo, por quem eles eram constantemente assediados, entraram em batalha por desconhecimento mútuo uns dos outros. Os Argonautas mataram muitos, entre eles, Cízico. Com a chegada do novo dia, percebendo o que haviam feito, eles choraram cortaram seus cabelos e deram a Cízico um elevado funeral. E, após o enterro, eles navegaram para longe até chegar na Mísia.

[1.9.19] Neste local, eles deixaram Hércules e Polifemo, pois Hilas, filho de Tiodamas e companheiro de Hércules, foi mandado buscar água mas acabou violado por ninfas por causa de sua beleza. Polifemo o ouviu gritar e empunhou sua espada na crença de que ele estava sendo levado por ladrões. Encontrando Hércules, ele contou o ocorrido de forma que, enquanto os dois procuravam Hilas, o navio partiu ao mar. No fim, Polifemo fundou a cidade Cius na Mísia e reinou no local enquanto Hércules retornou a Argos. No entanto, Heródoto diz que Hércules não navegou para lugar algum, mas sim serviu escravo na corte de Ônfale. Outro relato, de Ferecides, diz que ele foi deixado para trás bem antes, em Afetes, na Tessália, pois declarou-se em voz humana que o navio Argo não era capaz suportar seu peso. No entanto, Demarato gravou aquele Hércules partiu para Cólquida, pois Dionísio até afirma que ele era o verdadeiro líder dos Argonautas.

[1.9.20] Da Mísia, todos partiram para a terra da Bebrícia, que era governada pelo rei Amico, filho de Poseidon com uma ninfa da Bitínia. Por ser um homem destemido, este rei  obrigava os estranhos que desembarcavam em sua terra para uma luta de boxe e assim fez com os heróis. Indo ao Argo como de costume, Amico desafiou o melhor homem da tripulação para uma luta de boxe. Polux comprometeu-se a lutar contra ele e o matou com um golpe no cotovelo. Quando os bebrícios os atacaram, os heróis pegaram suas armas e os colocaram em fuga com grande matança.

[1.9.21] Daí, eles se puseram ao mar e chegaram à terra de Salmídesso na Trácia, onde habitou Fineu, um vidente que havia perdido a visão de ambos os olhos. Alguns dizem que ele era um filho de Agenor. Outros dizem que ele era um filho de Poseidon. Ele também é acusado de ter sido cegado pelos deuses após revelar o futuro aos  homens. Ou por Bóreas e pelos Argonautas porque ele cegou seus próprios filhos por motivação de sua madrasta. Ou por Poseidon porque ele revelou aos filhos de Frixo como eles poderiam navegar da Cólquida à Grécia. Os deuses também enviaram as harpias contra ele. Estas eram criaturas fêmeas aladas para, quando uma refeição fosse colocada para Fineu, elas viessem do céu lhe arrebatando a maior parte da comida e o que restava ficava tão fedido que ninguém conseguia tocá-la.

Quando os Argonautas o consultaram sobre a viagem, Fineu disse que iria aconselhá-los sobre isso se eles o livrassem das harpias. Então, os Argonautas preparam um banquete ao lado dele. As harpias, com um grito repentino, desceram do céu e arrebataram a comida. Quando Zetes e Calais, os filhos de Boreas, as viram, eles desembainharam suas suas espadas e as perseguiu por terem asas através do ar. Como foi predestinado que as harpias morreriam pelos filhos de Bóreas e que os filhos de Boreas deveriam morrer se não alcançassem um fugitivo, as harpias foram perseguidas, tendo uma caído no rio Tigres no Peloponeso. O rio que agora é chamado de Harpis em razão dela. Alguns a chamam de Nicote, outros de Élopo. Alguns ainda a chamam de Ocípete e outros, Ocíte; embora Hesíodo a chame de Ocípode. A outra fugiu até o  Propontis até chegar nas ilhas de Equinadianas, que agora são chamados de Estrófades por causa dela; pois quando esta harpia chegou nas ilhas, ela se virou [estraphe] e caiu na costa em razão do cansaço com seu perseguidor. Mas Apolônio no Argonautica diz que as harpias foram perseguidas para as ilhas de Strophades e não sofreram nenhum dano, tendo um juramento que elas não mais causariam mal a Fineu.

[1.9.22] Depois que se livrou das harpias, Fineu revelou aos Argonautas o curso de sua viagem e os aconselhou sobre as Rochas que se Batem no mar. Estes eram enormes penhascos, que, encostadas uma contra a outra pela força dos ventos, fechavam a passagem do mar. Grossa foi a névoa que os envolveu e alto era o barulho da colisão;  era impossível que até aos pássaros passarem entre elas. Então Fineu disse-lhes para deixar uma pomba voar entre as rochas, e, se eles a vissem passar segura, poderiam remar com a mente tranquila; mas se a visem perecer, não deveriam forçar a passagem. Quando ouviram isso, eles se colocaram ao mar e, em chegando próximo as rochas, deixaram a pomba voar desde a proa. Ela voou com o encontro das rochas arrancando a ponta de sua cauda. Então, logo que as rochas recuaram novamente, com um forte remar e a ajuda de Hera, eles passaram com a extremidade ornamentada do navio sendo tosquiada bem atrás. Neste momento, as Rochas que Batem ficaram imóveis; pois era predestinado que, tão cedo quanto um navio conseguisse as atravessas, elas deveriam descansar completamente.

[1.9.23] Os Argonautas chegaram agora entre os povos de miriandine, onde o rei Lico os recebeu amavelmente. Lá morreu o vidente Ídmon de uma ferida infligida por um javali e também morreu Tífis, de forma que Anceu se comprometeu a pilotar o navio.

Depois, tendo navegado através do Térmodon e do Cáucaso, eles chegaram ao rio Fásis, que está na terra de Cólquida. Quando o navio foi levado para o porto, Jasão se apresentou à Eetes e explicou a ordem dada por Pélias para que este desse o Velo de Ouro. O rei prometeu dar-lhe o que desejava se ele sozinho conseguisse colocar um jugo nos touros de cascos-bronze. Estes eram dois touros selvagens, de enorme tamanho, que lhe foi presentado por Hefesto. Eles tinham os cascos de bronze e lançavam baforadas de fogo por suas bocas. A ordem de Eetes era os colocar em jugo e depois semear os dentes do dragão; pois ele tinha recebido da Atena metade dos dentes do dragão que Cadmo semeou em Tebas.

Jasão tentava deduzir como poderia colocar esse jugo nos touros, Medeia concebeu uma paixão por ele. Esta era uma feiticeira, filha de Eetes e da oceanida Idyia. Temendo que Jasão fosse destruído pelos touros, escondida do pai, ela prometeu ajudá-lo a colocar o jugo nos touros e entregar-lhe o velo se ele prometesse que tê-la como esposa e a levá-la na viagem de volta à Grécia. Quando Jasão prometeu fazê-lo, ela lhe deu uma droga com a qual ela ungiu seu corpo, sua lança e seu escudo antes dele se lançar contra os touros. Ela disse que, aquele que fosse ungido com isso, por um único dia, não poderia ser ferido por fogo ou ferro.

Ela também o revelou que, quando os dentes fossem semeados, homens armados surgiriam do chão contra ele, mas, quando ele visse um nó deles, um pedra deveria ser jogada no meio deles, o que faria com que eles lutassem um contra os outros e permitiria que fossem mortos. Escutando isso, Jasão se ungiu com a droga e foi até o bosque do templo a procura dos touros, e, mesmo sendo atingido pelas baforadas de fogo, conseguiu colocar o jugo neles. Depois os dentes foram semeados, fazendo surgir homens armados do solo. Quando viu vários deles juntos, ele arremessou pedras de forma escondida e fez com que lutassem uns contra os outros, permitindo que ele se aproximasse e os matasse. Embora tenha colocado o jugo nos touros, Eetes não lhe deu o velo; ordenando que queimassem o Argo e matassem sua tripulação. Mas, antes que pudessem fazê-lo, Medeia levou Jasão até o velo durante a noite. E, tendo embalado para dormir com suas drogas o dragão que o guardava, ela tomou o Tosão para si e foi até o Argo na companhia de Jasão. Ela contou com a presença também do seu irmão Absirto e, junto com os Argonautas, eles partiram pelo mar durante a noite.

 —– 9.d —–
Os Crimes de Medeia

[1.9.24] Quando Eetes descobriu sobre os ousados feitos de Medeia, ele iniciou a perseguição ao navio; mas, ao se aproximar, Medeia assassinou seu irmão e o esquartejou, membro por membro, jogando os pedaços nas águas profundas. Recolhendo os membros da sua criança, Eetes foi ficando para trás em sua perseguição; de forma que retornou  ele voltou e enterrou os membros resgatados de seu filho, chamando o lugar de Tomi [cortado]. Ele enviou muitos guerreiros cólquidas para procurar o Argo, ameaçando que, se eles não trouxessem Medeia, eles sofreriam o castigo no lugar dela.  Eles assem se separaram e continuaram a busca em diversos lugares.

Quando os Argonautas passavam pelo rio Eridano, Zeus enviou uma tempestade furiosa sobre eles e os dirigiu fora de seu curso, porque ele estava zangado com o assassinato de Absirto. Assim, ao atravessarem as ilhas Absírtidas, o navio falou, dizendo que a ira de Zeus não cessaria a menos que eles viajassem à Ausônia e fossem purificados por Circe pelo assassinato de Absirto. Eles navegaram pelas nações Ligúrica e Céltica; depois, atravessaram o mar da Sardenha, contornaram a Tirrênia e chegaram em Eea, onde suplicaram à Circe e foram purificados.

[1.9.25] Enquanto navegavam pelas Sirenes, Orfeu deteve os Argonautas ao entoar uma melodia contrária. Só Butes nadou na direção das sereias, mas Afrodite o levou embora e o estabeleceu em Lilibeu.

Passadas as sirenes, o navio encontrou Caríbdis e Cila e as rochas vagantes, acima das quais uma grande chama e fumaça foram vistas subindo. Mas Tétis, acompanhada das Nereidas, conduziu o navio através delas graças a convocação de Hera.

Tendo passado pela ilha de Trinácria, onde está o gado do sol, eles foram à Córcira, a ilha dos feácios, dos qual Alcínoo era rei. Mas, quando os cólquidas não mais puderam localizar o navio, alguns deles se estabeleceram nas montanhas Ceraunianas e outros viajaram a Ilíria para colonizar as ilhas de Absírtidas. Alguns foram até os feácios e encontraram o Argo lá, onde exigiram de Alcínoo que entregasse Medeia. Ele respondeu que, se ela já conhecesse Jasão, daria ela a ele, mas, se ela ainda fosse uma virgem, ele a mandaria embora para o pai dela. No entanto, Arete, esposa de Alcínoo, antecipou questões ao casar Medeia e Jasão; assim, os cólquidas se estabeleceram entre os feácios e os Argonautas partiram ao mar com Medeia.

[1.9.26] Velejando pela noite, eles se depararam com uma violenta tempestade e com Apolo que, tomando sua posição sobre as rochas melantianas, fulgurou um relâmpago abaixo, atirando um raio ao mar. Então, se percebeu uma ilha próxima, onde ancoraram e chamaram de Ánafe, porque ela surgiu inesperadamente [anaphanenai = surgir] . Lá se fundou um altar ao Apolo Radiante e tendo oferecido sacrifício, todos banquetearam. Doze servas, quem Arete tinha dado a Medeia, brincaram alegremente com os líderes; pois era ainda habitual para as mulheres se divertiram durante os sacrifícios.

De lá, se colocaram ao mar, onde foram impedidos de tocar em Creta por Talos. Alguns dizem que ele era um homem da raça de bronze. Outros, que ele foi dado para Minos por Hefesto. Ele era um homem de bronze, mas alguns dizem que ele era um touro. Ele tinha uma veia única, estendendo-se do pescoço até os tornozelos, e um prego de bronze foi abalroado ao fim da veia. Este Talos mantinha a guarda, correndo em volta da ilha três vezes diariamente; portanto, quando ele viu o Argo na costa, ele atirou pedras como era seu costume. Sua morte foi provocada pela astúcia de Medeia, que, segundo uns, o enlouqueceu com venenos, ou, segundo outros,  prometeu fazê-lo imortal e então retirou seu prego, de forma que o Ikor jorrou e ele morreu. Mas alguns dizem que foi Peante quem atirou no seu tornozelo o matando.

Depois de ficarem uma única noite lá, eles foram até Egina para tirar água, quando surgiu uma disputa entre eles sobre o desenho da água. Dali eles navegaram entre Eubeia e Lócrida até Iolco, tendo completado a viagem toda em quatro meses.

[1.9.27] Pélias, em desespero com o retorno dos Argonautas, teria matado Esão, mas este pediu para tirar sua própria vida. assim, após ofertar um sacrifício, ele livremente bebeu o sangue de touro e morreu. A mãe de Jasão amaldiçoou Pélias e se enforcou, deixando para trás um filho recém-nascido Prómaco; mas Pélias matou este mesmo o filho que foi deixado para trás. Em seu retorno, Jasão entregou o tosão, mas, embora ansiasse vingança, antes desejou ganhar seu tempo. Neste tempo, ele navegou com os líderes para o istmo e dedicou o navio a Poseidon, mas depois ele exortou Medeia de conceber como punir Pélias. Ela então foi até o palácio de Pélias e persuadiu suas filhas a fazer carne moída do seu pai e fervê-lo, prometendo que suas poções o fariam jovem novamente. Para ganhar a confiança delas, ela cortou um carneiro e o transformou em cordeiro após fervê-lo. Então, acreditando em Medeas, as filhas fizeram carne moída do seu pai e o ferveram. Mas Acasto enterrou seu pai com a ajuda dos habitantes de Iolco e expulsou Jasão e Medeia de Iolco.

[1.9.28] Eles foram para Corinto e viveram lá felizes por dez anos, até [Pólibo] Creonte, rei de Corinto, prometeu sua filha Glauce a Jasão, que se divorciou de Medeia para se casar com ela. Mas Medeia invocou os deuses por quem Jasão tinha feito seus votos e, após censurá-lo por sua ingratidão, enviou à sua noiva um manto embebido em veneno, que, quando Glauce colocou, foi consumida pelo fogo feroz juntamente com seu pai, que tentou salvá-la. Também Mérmero e Feres, os filhos que Medeia tinha por Jasão, foram mortos por ela, que recebeu do Sol uma carruagem de dragões e fugiu nele para Atenas. Outra tradição dez que, no seu voo, Medeia deixou para trás seus filhos, que ainda eram crianças, definindo-os como suplicantes no altar de Hera da Altura; mas o Coríntios os retiraram de lá e os feriram  até a morte.

Medeia foi até Atenas onde se casou com Egeu e lhe deu um filho Medo. Depois, no entanto, a conspirar contra Teseu, ela foi impulsionada um fugitivo de Atenas com seu filho. Este conquistou muitos povos bárbaros e chamou todo o país sob seu comando de Média, mas, marchando contra os indianos, ele encontrou a morte. Medeia foi secretamente até Cólquida e descobrindo que Eetes havia sido deposto por seu irmão Perses, ela matou Perses e restaurou o Reino de volta ao seu pai.

Livro 2

Da fundação das primeiras cidades aos doze trabalhos de Hércules

 —– 1a —–
O Suplício de Io: de Argos ao Egito

[2.1.1] Tendo passado pela família de Deucalião, falaremos agora de Ínaco. O Oceano e Tétis tiveram juntos um filho chamado Ínaco, que nomeou um rio de Argos de mesmo nome. Esse Ínaco e Mélia, também oceanida, tiverem dois filhos: Foroneu e Egialeu.  Egialeu morreu sem produzir filhos e seu país inteiro foi chamado Egiália [depois renomeada de Sicião] e Foroneu reinou sobre toda a terra que ficou conhecida como Peloponeso e gerou os filhos Ápis e Niobe por uma ninfa Teledice. Ápis converteu seu poder em uma tirania e nomeou o Peloponeso como o próprio nome: Ápia; mas sendo um tirano severo, ele sofreu uma conspiração e foi morto por Télxion e Télquis. Ele não deixou descendentes e passou a ser considerado um deus chamado Sarapis [o deus-touro do Egito]. Mas Niobe teve um filho por Zeus, sendo esta a primeira mulher mortal com quem Zeus se relacionou, cujo nome era Argo. No entanto, diz Acusilau, que ela teve outro filho chamado Pelasgo, de cujo nome os habitantes do Peloponeso são chamados de Pelasgianos, embora Hesíodo diga que Pelasgo era filho do solo. Sobre Pelasgo, falarei posteriormente [ver 3: 8.1].

[2.1.2] Argo recebeu o reino [de Foroneu], renomeando-o de Peloponeso para Argos em sua homenagem; e tendo casado com Evadne, filha do [rio] Estrímon e de Neera, ele gerou Écbaso, Piras, Epidauro e Críaso, que o sucederam ao reino. Écbaso tinha um filho Agenor, e Agenor tinha um filho Argo, que é chamado “Aquele que tudo vê”. Este Argo tinha olhos em todo o seu corpo e, sendo extremamente forte, matou o touro que devastou Arcádia e se vestiu com sua pele. Quando um sátiro feriu os arcadianos e roubou-lhes o gado, Argo o confrontou e o matou. Diz-se também que Equidna, filha do Tártaro e da Terra, que costumava arrebatar os transeuntes, foi pega no sono e morta por Argo. Ele também vingou o assassinato de Ápis, punindo os culpados com a morte.

[2.1.3] Este Argo, junto Ismene, filha de Ásopo, teve um filho Íaso, que dizem ter sido o pai de Io. No entanto, o analista Castor e a grande maioria dos trágicos alegam que Io era filha de Ínaco [NOTA: essa versão mais simples, a qual Io é filha de Ínaco, é a mais aceita por todos os escritores clássicos] embora ambos Hesíodo e Acusilau digam que Io era filha de Pireno.

Zeus seduziu Io enquanto ela possuía o sacerdócio de Hera, mas sendo descoberta pela deusa, Io foi transformada numa vaca branca pelo toque de Zeus que jurou nunca a ter conhecido; portanto, Hesíodo observa que os juramentos dos amantes não diminuem a ira dos deuses. Hera solicitou a vaca de Zeus para si e colocou Argo, “Aquele que tudo vê”, para vigiá-la [NOTA: Este é o Argo, o filho de Agenor, previamente descrito]. No entanto, Ferecides diz que este Argo era filho de Arestor; Asclepíades diz que era um filho de Ínaco; Cércopes diz que era um filho de Argo e Ismene, filha de Ásopo; e Acusilau diz que ele nasceu da própria Terra.

Argo [Aquele que tudo vê] amarrou Io a uma oliveira que ficava no bosque dos micênicos, mas Zeus ordenou a Hermes que roubasse a vaca. Como Hermes não conseguiu fazê-lo secretamente porque Hierax gritou com sua presença, ele matou Argo com uma pedra que arremessou contra ele. Esse é o motivo pelo qual o deus Hermes é chamado de o “Argifonte” [Matador de Argo]. Hera em seguida enviou uma mosca para molestar a vaca e o animal veio primeiro ao mar Iônico, cujo nome é em sua homenagem. Então, ela viajou pela Ilíria, atravessou o Monte Hemo, cruzou os antes chamados Estreito da Trácia, que hoje é conhecido como Bósforo [Passagem da Vaca]. E, tendo ido embora para a Cítia e as terras da Ciméria, perambulou por grandes extensões de terra e nadou extensos trechos. de mar, tanto na Europa como na Ásia, até que finalmente chegar ao Egito, onde recuperou sua forma original e deu à luz um filho Épafo ao lado do rio Nilo. Contra este filho, Hera manipulou os Curetes para que eles o perseguissem e assim eles fizeram. Quando Zeus soube disso, ele matou os Curetes; mas Io partiu em busca da criança. Ela vagou por toda a Síria, porque lá lhe foi revelado que a esposa do rei de Biblo cuidava de seu filho; e tendo encontrado Épafo, ela veio ao Egito e se casou com Telégono, que então reinava sobre os egípcios. Io estabeleceu uma imagem de Deméter, a quem os egípcios chamavam de Ísis e da mesma forma Io recebeu o nome de Ísis.

 —– 1.b —–
Dánao e as Danaídes

[2.1.4] Reinando sobre os egípcios Épafo se casou com Mênfis, filha do Nilo, fundou e nomeou a cidade de Mênfis em sua homenagem. Ele gerou uma filha Líbia, depois da qual a região da Líbia foi chamada. A Líbia tinha filhos gêmeos de Poseidon: Agenor e Belo. Agenor partiu para a Fenícia e reinou ali, se tornando o ancestral do grande rebanho; portanto, nós adiaremos nossa conta dele [ver livro 3]. Belo permaneceu no Egito, reinou sobre o país e se casou com Anquinoe, filha do Nilo, por quem ele teve filhos gêmeos, Egito e Dánao, 24 mas de acordo com Eurípides, ele também teve Cefeu e Fineu. Enviado à Líbia por Belo, Dánao colonizou a Líbia enquanto Egito foi à Arábia; mas o Egito subjugou o país dos Melampodas e nomeou-o Egito, em sua homenagem. Ambos tiveram filhos de muitas esposas; Egito teve cinquenta filhos e Dánao teve cinquenta filhas. Como eles depois discutiram sobre o reino, Dánao temeu os filhos de Egito, e pelo conselho de Atena ele construiu um navio, sendo o primeiro a fazê-lo, e tendo colocado suas filhas a bordo, ele fugiu. Desembarcando em Rodes, ele estabeleceu a imagem de Athena da Líndia. Daí ele veio a Argos cujo regente, o rei Gelanor, entregou o reino a ele; e tendo se tornado senhor do país, ele chamou os habitantes de Danaios, em sua homenagem. Mas o país estava sem água, porque Poseidon havia secado até mesmo as fontes em razão de sua fúria contra Ínaco para testemunhar que a terra pertencia a Hera. Assim, Dánao enviou suas filhas para tirar água. Um deles, Amímone, em sua busca por água jogou um dardo em um cervo e bateu em um sátiro adormecido, e ele, excitado, desejou forçá-la; mas Poseidon aparecendo na cena, afugentou o sátiro e deitou-se com Amímone. O deus então revelou a elas sobre as fontes em Lerna.

[2.1.5] Mas os filhos de Egito chegaram a Argos e exortaram Dánao a pôr de lado a sua inimizade, implorando para se casarem com as suas filhas. No entanto, Dánao desconfiava de suas intenções e sentia rancor por causa de seu exílio. De qualquer forma, ele consentiu no casamento e distribuiu as donzelas entre eles. Primeiro, eles escolheram Hipermnestra como a mais velha para ser a esposa de Linceu; Gorgófone para ser a esposa de Proteus; pois Linceu e Proteu nasceram de Egito por uma mulher de sangue real: Argífia. Os filhos Búsiris, Encelado, Lico e Daifronte receberam por sorteio as filhas de Dánao nascidas na Europa, a saber, Autômate, Amímone, Agave e Escea. Estas filhas foram levadas a Dánao por uma rainha local enquanto Gorgófone e Hipermnestra nasceram de Elefantina.

Os outros casais foram: Istro e Hipodamia; Chalcodonte e Ródia; Agenor e Cleópatra; Chaeto e Astéria; Diocoristes e hipodamia; Alces e Glauce; Alcmenor e Hipomedusa; Hipotoo e Gorge; Euquenor e Ifimedusa; Hipólito e Rode. Esses dez filhos foram gerados por uma mulher árabe; mas as donzelas foram nascidas da ninfas Hhamadríade, algumas sendo filhas da Atlântia e outras de Febe.

Agaptolemo e Pirene; Cercetes e Dorium; Euridamas e Fártis; Égio e Mnestra; Árgio e Evipe; Arquelau eAnaxíbia; Menêmaco e Nelo. Estes sete filhos foram gerados em uma mulher fenícia e as donzelas de uma mulher etíope.

Os filhos de Egito, por Tíria, receberam como esposas as filhas de Dánao, por Mênfis, em virtude da semelhança de seus nomes; assim: Clito e Clite; Estenelo e Estenele; Crísipo e Crísipe.

Os doze filhos de Egito, pela naiade Caliadne, receberam por sorteio as filhas de Dánao pela naiade Polixo: os filhos eram Euríloco, Fantes, Peristenes, Hermo, Drias, Potamonte, Cisseu, Lixo, Imbro, Brômio, Polictor, Ctônio; e as donzelas eram Autonoe, Teano, Electra, Cleópatra, Eurídice, Glaucipe, Antélia, Cleodore, Evipe, Erato, Stigne e Brice.

Os filhos de Egito, por Gorgo, receberam por sorteio as filhas de Dánao, por Pieria: Perifas e Actea; Oneu e Podarce; Egito e Dioxipe; Menalces e Adite; Lampo e Ocípete; Idmon e Pílarge. Os filhos mais novos de Egito eram estes: Idas e Hipodice; Daifron e Adiante, cuja mãe que deu à luz estas donzelas era Herse; Pandion e Calidice; Arbelo e Oeme; Hipérbio e Celeno; Hipocoristes e Hiperipe. A mãe desses homens era Hefestina e a mãe dessas donzelas era Crino.

Quando eles receberam suas noivas por sorteio, Dánao fez uma festa e deu adagas às suas filhas. Elas mataram seus noivos enquanto eles dormiam, todos menos Hipermnestra; pois ela poupou Linceu por este havia respeitado sua virgindade: o que fez Dánao a prender e a manter sob custódia. As outras filhas de Dánao enterraram as cabeças de seus noivos em Lerna e pagaram honras fúnebres a seus corpos em frente à cidade; e Atena e Hermes as purificaram pelo comando de Zeus. Dánao depois uniu Hipermnestra a Lynceus; e deu suas outras filhas aos vencedores em um concurso de atletismo.

Amímone teve um filho Náuplio por Poseidon. Este Náuplio viveu até uma idade avançada, pois velejava ao mar com faróis de luz para atrair morte, como de fato aconteceu. E aconteceu, portanto, que ele próprio morreu essa morte. Mas antes de sua morte ele se casou com uma esposa; de acordo com os trágicos poetas, ela era Clímene, filha de Catreus; mas de acordo com o autor de Os Retornos ela era Filira; e de acordo com Cércopes ela era Hesione. Por ela, ele teve Palamedes, Oax e Nausimedonte.

 —– 2 —–
A Guerra dos Gêmeos: Acrísio e Préto

 [2.2.1] Linceu reinou sobre Argos depois de Dánao e gerou um filho Abas por Hipermnestra; e Abas teve filhos gêmeos Acrísio e Préto por Aglaia, filha de Mantineu. Esses dois brigaram entre si enquanto ainda estavam no ventre materno e, quando cresceram, travaram guerra pelo reino. Eles, no decorrer dessa guerra, foram os primeiros a inventar escudos. Acrísio ganhou o domínio e expulsou Préto de Argos e este fugiu para a Lícia até a corte de Iobates ou, como alguns dizem, de Anfianax, casando-se com sua filha, que Homero chama de Antia, mas os poetas trágicos a chamam de Esteneboa. Seus sogros o restauraram à sua própria terra com um exército de lícios e ele ocupou Tírinto, que os Ciclopes haviam fortificado para ele. Eles dividiram todo o território argivo entre si e se estabeleceram nele, Acrísio reinando sobre Argos e Préto sobre Tírinto.

[2.2.2] Acrísio teve uma filha chamada Danaã por Eurídice, filha de Lacedemon, e Préto teve filhas chamadas Lísipe, Ifinoe, e Ifianassa, por Esteneboa. Quando essas donzelas cresceram, enlouqueceram, segundo Hesíodo, porque não aceitariam os ritos de Dionísio, mas segundo Acusilau, porque depreciam uma imagem de madeira de Hera. Em sua loucura, percorreram toda a terra argiva e, depois, passando por Arcádia e Peloponeso, correram pelo deserto da maneira mais desordenada. Mas Melampo, filho de Amitaão por Idomene, filha de Abas, sendo um vidente e o primeiro a conceber a cura por meio de drogas e purificações, prometeu curar as donzelas se ele recebesse a terceira parte da soberania de Tírinto. Quando Prétus se recusou a pagar uma taxa tão alta pela cura, as donzelas alucinaram mais do que nunca e junto com mais outras mulheres; pois todas também abandonaram suas casas, destruíram seus próprios filhos e correram para o deserto. Só quando o mal chegou numa situação crítica, Préto consentiu em pagar a taxa estipulada. Melampo alcançar a cura se seu irmão Bias recebesse tanta terra quanto ele próprio. Temendo que, se a cura fosse adiada, ainda mais seria exigido dele, Préto concordou em deixar o médico proceder nestes termos. Assim, Melampo, levando com ele o mais robusto dos jovens, perseguiu as mulheres em um bando das montanhas para Sicião com gritos e uma espécie de dança frenética. Na perseguição, Ifinoe, a mais velha das filhas, faleceu; mas os outras mulheres tiveram a sorte de serem purificados e, assim, recuperaram o juízo. Préto prometeu suas filhas em casamento a Melampo e Bias, que depois gerou um filho, Megapente.

 —– 3 —–
Belerofonte e a Quimera

[2.3.1] Belerofonte, filho de Glauco, filho de Sísifo, tendo acidentalmente matado seu irmão Deliades ou, como dizem alguns, Pireno, ou, como outros o terão, Alcimenes, veio a Préto e foi purificado. Mas Esteneboa se apaixonou por ele e lhe enviou propostas de encontro. Quando ele a rejeitou, ela disse a Préto que fora Belerofonte quem havia lhe enviado a proposta indecente. Préto acreditou nela, e deu-lhe uma carta para levar a Iobates, na qual estava escrito que ele deveria matar Belerofonte. Tendo lido a carta, Iobates ordenou que ele matasse a Quimera, acreditando que ele seria destruído pela besta, que já matara muitos, quanto mais um único homem. Ela tinha a parte dianteira de um leão, a cauda de um dragão e sua terceira cabeça, a do meio, era a de uma cabra, através da qual lançava baforadas flamejantes. Ela devastou o país e atormentou o gado; pois era uma criatura única com o poder de três bestas. Diz-se também que esta Quimera foi criada por Amisodaro, como também afirma Homero, e que foi gerada por Tifão por Equidna, como diz Hesíodo.

[2.3.2] Assim Belerofonte montou seu corcel alado, Pégaso, filho de Medusa e Poseidon, e sobrevoando disparou mortalmente contra a Quimera desde a altura. Depois dessa competição, Iobates ordenou que ele lutasse contra os Solimis, e quando ele terminou essa tarefa, ordenou que combatesse as Amazonas. E quando ele também as matou , ele escolheu o mais valente dos lícios e ordenou que eles fizessem uma emboscada e o matassem. Enfim, quando Belerofonte sozinho os matou, Iobates, em admiração por sua coragem, mostrou-lhe a carta de Préto e implorou para ficar ao lado dele; além disso entregou sua filha Philonoe em casamento para que, quando morresse, Belerofonte o sucedesse no trono.

—– 4.a —–
Perseu e seus família

[2.4.1] Quando Acrísio perguntou ao oráculo como ele poderia ter filhos do sexo masculino, o deus disse que sua filha daria à luz um filho que o mataria. Temendo isso, Acrísio construiu uma câmara de bronze sob o solo e lá guardou Danaã. No entanto, ela foi seduzida, como alguns dizem, por Préto, de onde surgiu a briga entre eles; mas alguns dizem que Zeus teve relações sexuais com ela na forma de uma corrente de ouro que derramou através do telhado no colo de Danaã. Quando Acrísio depois soube que ela gerou um filho Perseu, ele não acreditou que ela tivesse sido seduzida por Zeus, e colocando sua filha com a criança em um baú, ele a jogou no mar. O baú foi levado em terra em Sérifo, onde Dictis assumiu o menino e o criou.

[2.4.2] Polidectes, irmão de Dictis, era então rei de Sérifo e se apaixonou por Danaã, mas não pôde apoderar-se dela, porque Perseu cresceu no homem da casa. Então o rei convocou seus amigos, incluindo Perseu, sob o pretexto de coletar contribuições para um presente que o permitisse aspirar um casamento com Hipodâmia, filha de Enomau. Mas Perseu, tendo declarado que iria aderir mesmo que por uma cabeça de Górgona, Polidectes exigiu que todos lhe fornecessem cavalos. No entanto, por Perseu não ter conseguido os cavalos, o rei ordenou que ele trouxesse a cabeça da Górgona. Assim, sob a orientação de Hermes e Atena, ele seguiu para as filhas de Fórcis, a saber: Ênio, Pefredo e Dino; que Fórcis gerou por Ceto, assim elas eram irmãs das Górgonas e mulheres idosas desde o nascimento. As três tinham apenas um olho e um dente, que elas passavam de uma para a outra. Perseu tomou posse do olho e do dente, e quando elas ordenaram que os devolvesse, ele disse que os jogaria fora se eles lhe mostrassem o caminho para as ninfas. Essas ninfas possuíam sandálias aladas e o kibisis, que dizem ser uma sacola. Mas Pindar e Hesíodo em O Escudo dizem de Perseu que: “Por suas costas todas, ele possuía a cabeça de um monstro terrível [a górgona], que era coberta pelo kibisis.” O kibisis era assim chamados porque vestes e comida são depositados nele. Perseu também tinham o elmo [de Hades].

Quando as filhas de Fórcis lhe mostraram o caminho, ele devolveu o dente e o olho e, chegando às ninfas, conseguiu o que queria. Então ele colocou a sacola (kibisis) sobre ele, colocou as sandálias nos tornozelos e colocou o elmo na cabeça. Vestindo-o, ele viu quem ele desejava, mas não foi visto por outros. E tendo recebido também de Hermes uma foice adamantina, ele voou para o oceano e pegou as Górgonas dormindo. Eles eram Esteno, Euríale e Medusa, das quais apenas Medusa era mortal; por essa razão, Perseu foi enviado para buscar sua cabeça. Mas as Górgonas tinham as cabeças entrelaçadas com escamas de dragões e grandes presas como as de um javali, mãos de bronze, asas douradas, com as quais voavam, e transformavam em pedra quem as vissem. Então, Perseu ficou de pé sobre elas enquanto dormiam e enquanto Atena guiava sua mão e ele olhava pelo reflexo do seu escudo de bronze, no qual ele viu a imagem da Górgona e a decapitou. Quando sua cabeça foi cortada, surgiu da Górgona o cavalo alado Pégaso e Crisaor, o pai de Gerião, que ela teve por Poseidon.  Então Perseu colocou a cabeça de Medusa na sacola (kibisis) e retornou; mas as Górgonas saíram do sono e perseguiram Perseu embora não conseguissem vê-lo por causa do seu elmo, que o deixou oculto.

[2.4.3] Tendo chegado à Etiópia, da qual Cefeu era rei, ele encontrou a filha do rei, Andrômeda, que seria sacrificada para um monstro marinho. Pois Cassiopeia, a esposa de Cefeu, competiu com as Nereidas em beleza e se gabou de ser melhor do que elas. todos; daí as Nereidas estavam com raiva, e Poseidon, compartilhando sua ira, enviou uma inundação e um monstro para invadir a terra. Mas Amon previu o fim da calamidade se a filha de Cassiopeia, Andromeda, fosse entregue como um sacrifício ao monstro. Assim, Cefeu foi obrigado pelos etíopes a fazê-lo, amarrando amarrou sua filha a uma pedra. Quando Perseu a viu, ele se apaixonou por ela e prometeu a Cefeu que ele mataria o monstro se ele lhe desse a donzela resgatada. Estes termos, tendo sido jurados, Perseu resistiu, matou o monstro e libertou Andrômeda. No entanto, Fineu, que era irmão de Cefeu e a quem Andrômeda fora o primeiro prometido, conspirou contra ele; mas Perseu descobriu o enredo e, mostrando-lhe a Górgona, transformou ele e seus companheiros conspiradores em pedra.

Depois, tendo chegado a Sérifo, Perseu descobriu que sua mãe e Dictis tinham se refugiado nos altares por conta da violência de Polidectes; então ele entrou no palácio, onde Polidectes reuniu seus amigos e, com o rosto virado, mostrou a cabeça da Górgona. Todos os que a viram foram transformados em pedra, cada um na atitude que ele, por acaso, havia atingido. Tendo nomeado Dictis rei de Sérifo, ele devolveu as sandálias, o kibisis e o elmo para Hermes, mas a cabeça da Górgona deu a Atena. Hermes devolveu as coisas citadas às ninfas e Atena colocou a cabeça da Górgona no meio do escudo. Mas é alegado por alguns que a Medusa foi decapitada por causa de Atena; e eles dizem que a Górgona foi capaz de se igualar à deusa mesmo em beleza.

[2.4.4] Perseu levou Danaã e Andrômeda para Argos com a finalidade de contemplar Acrísio. Mas o avô, sabendo disto e temendo o oráculo, abandonou Argos e partiu para a terra pelasgiana. Nesse tempo, Teutamides, rei de Larissa, estava realizando jogos de atletismo em homenagem ao falecido pai e Perseu foi competir neles. Ele se empenhou no pentatlo, mas, ao atirar o disco, golpeou Acrísio no pé e o matou instantaneamente. Percebendo que o oráculo havia se cumprido, Perseu enterrou Acrísio fora da cidade e, com vergonha de retornar a Argos para reivindicar a herança de um homem que tinha morrido por sua mão, ele foi para Megapente, filho de Préto, em Tírinto, e efetuou uma troca com ele, entregando Argos em suas mãos. Então Megapente reinou sobre os Argivas e Perseu reinou sobre Tírinto, depois de fortificar também Midea e Micenas.

[2.4.5] Perseu teve filhos com Andrômeda antes de chegar à Grécia.  Ele teve Perses, a quem ele deixou para trás com Cefeu e dele é dito que os reis da Pérsia são descendentes; e em Micenas teve Alceus, Estenelo, Heleu, Mestor, Eléctrio, e uma filha Gorgófone, com quem Perieres se casou.

Alceus teve um filho Anfitrião e uma filha Anaxo por Astidâmia, filha de Pélopes; mas alguns dizem que ele os tinha por Laonome, filha de Guneu e outros que ele tinha por Hiponama, filha de Meneceu. Mestor teve Hipote por Lisidice, filha de Pélopes. Esta Hipote foi levado por Poseidon, que a trouxe para as ilhas Equinidas, com quem teve relações sexuais, gerando Táfio, que colonizou Tafos e chamou o povo Teleboas, porque estava longe de sua terra natal. E Táfio teve um filho Pterelau, a quem Poseidon fez imortal implantando um cabelo dourado em sua cabeça. E para Pterelau nasceram filhos, a saber, Crômio, Tirano, Antíoco, Chersidamas, Mestor e Everes.

Eléctrio, casado Anaxo, filha de Alceus, gerou uma filha Alcmena e filhos, a saber, Estratobates, Gorgófono, Filonomo, Celaneu, Amfimaco, Lisinomo, Quirimaco, Anactor e Arquelau; e depois disso ele também teve um filho bastardo, Licímno, de uma mulher frígia chamada Midea.

Estenelo teve filhas, Alcíone e Medusa, por Nicipe, filha de Pelopes; e ele teve depois um filho Euristeu, que reinou também sobre Micenas. Pois quando Hércules estava prestes a nascer, Zeus declarou entre os deuses que um descendente de Perseu estava prestes a nascer e reinaria sobre Micenas. Hera, por inveja, persuadiu os Ilírios a retardar o parto de Alcmena e fez com que Euristeu, filho de Estenelo, nascesse de sete meses.

 —– 4.b —–
Anfitrião e o nascimento de Hércules

[2,4.6] Quando Eléctrio reinou sobre Micenas, os filhos de Pterelau vieram com alguns Táfios e reivindicaram o reino de Mestor, seu avô materno, e como Eléctrio ignorou atenção à alegação, eles roubaram seu gado. Os filhos de Eléctrio se levantaram em defesa dele e os desafiaram, matando uns aos outros. Dos filhos de Eléctrio, apenas  Licímno, que ainda era jovem, sobreviveu; e, dos filhos de Pterelau, apenas Everes, que guardava os navios, sobreviveu. Os Táfios sobreviventes partiram, levando consigo o gado que haviam roubado e o confiaram a Políxeno, rei dos Eléios; mas Anfitrião os recuperou de Políxeno e os trouxe de volta a Micenas. Desejando vingar a morte de seus filhos, Eléctrio propôs guerrear com os Teleboas e prometeu o reino a Anfitrião junto com sua filha Alcmena, desde que fizesse o juramento de mantê-la virgem até o seu retorno. No entanto, ao receber o gado de volta, um dos bois atacou Anfitrião, que jogou uma clava que tinha nas mãos contra o animal. Infelizmente, a clava ricocheteou nos chifres do animal e atingiu a cabeça de Eléctrion causando sua morte. Assim, Estenelo agarrou esse pretexto para banir Anfitrião de toda Argos, enquanto ele mesmo tomava o trono de Micenas e Tírinto. Ele confiou Midea a Atreu e Tiestes, os filhos de Pélopes, a quem ele havia enviado.

Anfitrião foi com Alcmena e Licímno para Tebas e foi purificado por Creonte ao entregar sua irmã Perimede para Licímno. Como Alcmena disse que só se casaria com ele quando ele vingasse a morte de seus irmãos, Anfitrião se comprometeu a fazê-lo, e empreendeu uma expedição contra os Teleboas, convidando Creonte para ajudá-lo. Creonte disse que se juntaria à expedição se Anfitrião primeiro livrasse a Cadmea da raposa [Teumessa]; pois essa fera estava devastando a Cadmea. Mas, embora Anfitrião tenha assumido a tarefa, estava profetizado que ninguém seria capaz de a capturar.

[2.4.7] À medida que o país sofria com isso, os tebanos expunham mensalmente um filho de um dos cidadãos para a fera, caso contrário, muitos mais seriam levados por ela. Assim, Anfitrião foi até Céfalo, filho de Deioneu, em Atenas, e o persuadiu a trocar parte dos despojos dos Teleboas pelo cão [Lélapes] que Procris trouxera de Creta como presente de Minos; pois este cachorro estava destinado a sempre capturar suas caças. Então, quando a raposa foi perseguida pelo cão, Zeus transformou os dois em pedra. Apoiado por seus aliados, a saber, Céfalo de Tórico na Ática, Panopeu de Fócida, Heleu, filho de Perseu, de Helos em Argolis, e Creonte de Tebas, Anfitrião devastou as ilhas dos Táfios. No entanto, enquanto Pterelau vivesse, ele não poderia subjugar Táfios; mas Cometo, filha de Pterelau, se apaixonou por Anfitrião e arrancou o cabelos dourado da cabeça de seu pai. Pterelau assim morreu e Anfitrião subjugou todas as ilhas. Ele matou Cometo e navegou com o saque para Tebas e deu as ilhas a Heleu e Céfalo que fundaram cidades nomeadas com seus nomes e nelas habitaram.

[2.4.8] Antes de Anfitrião chegar a Tebas, Zeus veio de noite e prolongou a noite em três vezes. Ele assumiu a aparência de Anfitrião e se deitou com Alcmena, relatando o que havia acontecido com relação aos Teleboas. Quando Anfitrião chegou e viu que ele não foi bem recebido por sua esposa, ele perguntou a causa; e quando ela disse que ele já tinha vindo na noite anterior e dormiu com ela, ele aprendeu com Tirésias como Zeus tinha se afeiçoado dela. Alcmena teve dois filhos, a saber: Hércules, que teve por Zeus e que era o mais velho por uma noite, e Íficles, que ela teve por Anfitrião. Quando a criança tinha oito meses de idade, Hera desejou a morte do bebê e enviou duas enormes serpentes para sua cama. Alcmena chamou Anfitrião para ajudá-la, mas Hércules se levantou e matou as serpentes estrangulando-as com as duas mãos. No entanto, Ferecides diz que foi Anfitrião quem colocou as serpentes na cama, porque ele saberia qual das duas crianças era sua e quando Íficles fugiu e Hércules se manteve firme, ele soube que os Íficles fora gerados por seu corpo.

[2.4.9] Hércules foi ensinado a dirigir carruagens por Anfitrião, a lutar por Autolico, a atirar com o arco por Eurito, a esgrimar por Castor e a tocar lira por Lino. Esse Lino era irmão de Orfeu, que chegou a Tebas e se tornou um tebano, mas foi morto por Hércules com um golpe da lira; pois, tendo levado palmadas do professor por seus erros, Hércules ficou furioso e o matou. Quando foi julgado por homicídio, Hércules citou uma lei de Radamanto para determinar que quem se defende de um agressor injusto será libertado; e assim ele foi absolvido. Mas temendo que ele repetisse o ato, Anfitrião o enviou a uma fazenda de gado; e lá ele foi nutrido e superou todos em estatura e força. Mesmo pela sua aparência, era evidente que ele era filho de Zeus; porque o seu corpo media quatro côvados e ele possuía um brilho ígneo em seus olhos; além disso, ele nunca foi derrotado nem com o arco nem com a lança.

[2.4.10] Enquanto ele estava com os rebanhos e havia chegado ao décimo oitavo ano de vida, Hércules matou o leão de Cíteron, pois este animal, emanando de Cíteron, assaltou o gado de Anfitrião e de Téspio. Esse Téspio era rei da Téspia e Hércules foi até ele quando desejava capturar o leão. O rei o entreteve por cinquenta dias, e cada noite, quando Hércules saía à caça, Téspio levava uma de suas filhas para ele; sendo as cinquenta filhas nascidas dele por Megamede, filha de Arneu. O rei estava ansioso para que todas elas tivessem filhos de Hércules. Assim, Hércules, embora pensasse que sua companheira de cama era sempre a mesma, manteve relações com todos ela e, tendo vencido o leão, vestiu-se na sua pele e usou seu couro cabeludo como elmo.

[2.4.11] Ao voltar da caçada, Hércules se encontrou com os arautos enviados por Ergino para receber o tributo dos tebanos. Os tebanos prestavam homenagem a Ergino pela seguinte razão: Clímeno, rei da Mínia, foi ferido por uma pedra arremessada pelo cocheiro de Meneceu, chamado Perieres, em um recinto de Poseidon em Onquesto. Sendo carregado à beira da morte Orcomeno, em seu último suspiro, encarregou seu filho Ergino de vingar sua morte. Assim, Ergino marchou contra Tebas e, tendo abatido muitos dos tebanos, firmou um tratado com eles, confirmado por juramentos, de que estes deveriam enviar-lhe tributo durante vinte anos: cem vacas a cada ano. Confrontando esses arautos no caminho de Tebas para exigir esse tributo, Hércules os ultrajou; pois cortou as orelhas, os narizes e as mãos, e tendo prendido as cordas de seus pescoços, disse-lhes que levassem aquele tributo a Ergino e aos Minianos. Indignado com esse ultraje, Ergino marchou contra Tebas. Mas Hércules, tendo recebido armas de Atena e assumido o comando, matou Ergino, colocou os minianos em fuga e obrigou-os a pagar o dobro do tributo aos tebanos. E aconteceu que na luta Anfitrião caiu lutando bravamente. E Hércules recebeu de Creonte sua filha mais velha, Megara, como um prêmio, com quem teve três filhos: Terimaco, Creontíades e Deicoon. No entanto, Creonte deu sua filha mais nova a Iphicles, que já tinha um filho Iolaus de Automedusa, filha de Alcateu. Rhadamanto, filho de Zeus, casou-se com Alcmena após a morte de Anfitrião e habitou como exilado em Ocaleia, na Beócia.

Tendo aprendido primeiro com Eurito a arte do arco e flecha, Hércules recebeu uma espada de Hermes, um arco e flechas de Apolo, 95 um peitoral de ouro de Hefesto e um manto de Atena; porque ele próprio tinha cortado um clube em Nemea.

[2.4,12] Ora, aconteceu que após a batalha com os Mínios, Hércules foi levado à loucura pela inveja de Hera, atacando seus próprios filhos, que tinha por Mégara, e dois filhos de Íficles no fogo. Ele então condenou a si mesmo ao exílio e foi purificado por Téspio, e reparando em Delfos, perguntou ao deus onde ele deveria morar. A sacerdotisa pitoniana primeiro o chamou de Hércules, pois até então ele se chamava Alcides. E ela disse que morasse em Tírinto e servisse Euristeu por doze anos para executar os dez trabalhos que lhe foram impostos. Ela, por fim disse que, quando as tarefas fossem cumpridas, ele se tornaria imortal.

 —– 5 —–
Os Doze Trabalhos

[2.5.1] Quando Hércules ouviu isso, ele foi para Tírinto e fez o proposto por Euristeu. Primeiro, Euristeus ordenou que ele trouxesse a pele do leão de Nemeia. Essa era uma besta invulnerável gerada por Tifão. A caminho de atacar o leão, ele foi a Cleone e se alojou na casa de um trabalhador, Molorco; e quando seu anfitrião ofereceu uma vítima em sacrifício, Hércules lhe disse que esperasse por trinta dias, e então, se ele tivesse retornado a salvo da caça o sacrifício seria ao Zeus Salvador, mas se ele estivesse morto,  o sacrifício seria a ele como um herói. E tendo chegado a Nemea e rastreado o leão, ele primeiro atirou uma flecha nele, mas quando percebeu que a besta era invulnerável, ele levantou sua clava e o perseguiu. Quando o leão se refugiou numa caverna com duas bocas, Hércules fechou uma das entradas e foi atrás da besta pela outra, e colocando o braço em volta do pescoço a segurou com força até que a sufocou; Carregando-a nos ombros, ele a levou para Cleone. E encontrando Molorco no último dos trinta dias prestes a sacrificar a vítima a ele como a um homem morto, ele sacrificou a  Zeus Salvador, trazendo o leão para Micenas. Espantado com a sua hombridade, Eurystheus proibiu-o a partir de então de entrar na cidade e ordenou-lhe que exibisse os frutos do seu trabalho diante dos portões. Dizem até que, por sua covardia, Euristeu tinha uma jarra de bronze feita para se esconder debaixo da terra e que enviava as ordens dos trabalhos por intermédio de um arauto, Copreu, filho de Pélope de Élis. Este Copreu tinha matado Ífito e fugiu para Micenas, onde ele foi purificado por Euristeu e lá assumiu a sua morada.

[2.5.2] Como segundo trabalho, Euristeu ordenou que Hércules matasse a hidra de Lerna. Era uma criatura, criada no pântano de Lerna, que costumava ir para a planície devastar o gado e o campo. A hidra tinha um corpo enorme, com nove cabeças, sendo oito mortais e a do meio imortal. Então, montando numa carruagem conduzida por Iolau, ele chegou a Lerna e, tendo parado seus cavalos, descobriu a Hidra em uma colina ao lado das nascentes do Amímone, onde ficava seu covil. Atacando-a com flechas de fogo, forçou-a a sair e, ao fazê-lo, agarrou-a e segurou-a com rapidez. Mas a hidra se enrolou em um dos pés e o agarrou. Ele também não podia efetuar qualquer coisa esmagando suas cabeças com a clava, pois tão rápido uma cabeça era destruída, outras duas cresciam em seu lugar. Um enorme caranguejo também veio em auxílio da hidra, mordendo seu pé. Então Hércules a matou com ajuda de Iolau que, incendiando um pedaço da floresta vizinha, cauterizava o coto das cabeças. impedindo que novas brotassem na cicatriz. Tendo derrotado as cabeças que brotavam, Hércules cortou a cabeça imortal e a enterrou, colocando uma pedra pesada sobre ela, ao lado da estrada que leva através de Lerna até Eleo. Mas o corpo da hidra ele cortou e mergulhou suas flechas no fel. No entanto, Euristeu disse que esse trabalho não deveria ser considerado entre os dez, porque ele não venceu a hidra sozinho, mas com a ajuda de Iolau.

[2.5.3] Como terceiro trabalho, Euristeu lhe ordenou- que levasse a corsa da Cerineia para Micenas, que estava em Ene. Ela tinha chifres de ouro e era sagrado para Ártemis. Não desejando nem matá-la nem feri-la, Hércules a perseguiu por um ano inteiro. Quando cansada da perseguição, a besta se refugiou na montanha chamada Artemísia e daí passou para o rio Ladon. Hércules atirou nela quando estava prestes a atravessar o rio e a colocou em seus ombros. Ele se apressou em levá-la através da Arcádia, mas Ártemis com Apolo o encontrou e o teria combatido, repreendendo-o por tentar matar seu animal sagrado. Contudo, alegando a necessidade e colocando a culpa em Euristeu, Hércules aplacou a ira da deusa e carregou o animal a criatura ainda viva para Micenas.

[2.5.4] Como quarto trabalho, Euristeu lhe ordenou que trouxesse vivo o javali da Erimântia. Esse animal devastou Psofis, saltando de uma montanha que eles chamam de Erimantos. Assim, passando por Foloe, Hércules foi entretido pelo centauro Folo, um filho de Sileno por uma ninfa da Mélia. Ele colocou carne assada diante de Hércules enquanto ele comia sua carne crua. Quando Hércules pediu vinho, ele disse que temia abrir o jarro que pertencia aos centauros de Comono. Mas Hércules, demandando coragem dele, abriu o jarro e, pouco tempo depois, sentindo o cheiro, os centauros chegaram à caverna de Folo, armados com rochas e paus. Os primeiros que ousaram entrar, Ánquio e Ágrio, foram repelidos por Hércules com uma chuva de setas e contra o resto continuou atirando, perseguindo-os até Malea. De lá eles se refugiaram em Quíron, que, afastado pelos Lápites do Monte Pélion, se estabeleceu em Malea. Quando os centauros se esconderam com Quíron, Hércules atirou uma flecha neles, que, passando pelo braço de Élato, ficou preso no joelho de Quíron. Angustiado com isso, Hércules correu até ele, tirou o cabo e aplicou um remédio que Quíron lhe deu. Mas a ferida se provou incurável. Quíron se retirou para a caverna e lá desejou morrer, mas não pôde, pois era imortal. No entanto, Prometeu se ofereceu a Zeus para ser imortal em seu lugar, e assim Quíron morreu. O resto dos centauros fugiu em direções diferentes, e alguns chegaram ao Monte Malea, Euritião a Foloe e Nesso ao rio Eveno. Alguns deles Poseidon recebeu em Elêusis e os escondeu em uma montanha. Mas Folo, puxando a flecha de um dos cadáveres, se perguntou como tão pouca coisa poderia matar tão grandes companheiros; entretanto, a flecha escorregou de sua mão e caiu no seu pé, o matando no mesmo instante. Assim, quando Hércules retornou a Foloe, ele viu Folo morto; e o enterrou antes de começar a caçada ao javali. E quando ele perseguiu o javali com gritos por um certo matagal, ele levou o animal exausto para a neve profunda, prende-o e carregou-o para Micenas.

[2.5.5] O quinto trabalho que Euristeu colocou foi para limpar o esterco do gado de Augeas em um único dia. Esse Augeas era rei de Elis; alguns dizem que ele era filho do Sol, outros que ele era filho de Poseidon e outros que ele era filho de Forbas. Ele tinha muitos rebanhos de gado e Hércules abordou-o e, sem revelar o comando de Eurystheus, dizendo que ele limparia todo o esterco em um dia, se Áugeas lhe desse o décimo do seu gado. Augeas ficou incrédulo, por isso, aceitou a promessa. Tendo levado o filho de Áugeas, Fileu, para testemunhar, Hércules fez uma brecha nas fundações do pátio do gado, e então, desviando os cursos dos [rios] Alfeu e Peneu, que corriam perto um do outro, ele os desviou até o pátio, tendo feito primeiro um saída para a água através de outra abertura. Quando Áugeas soube que o ação veio do comando de Euristeu, ele disse que não pagaria a recompensa; mais ainda, negou ter prometido pagá-lo e, nesse ponto, se declarou pronto para se submeter a julgamento. Tendo os juízes tomado seus lugares, Fileu foi chamado por Hércules e deu um testemunho contra seu pai, afirmando que este havia concordado em lhe dar uma recompensa. Em fúria, Áugeas, antes da votação, ordenou que ambos Fileu e Hércules saíssem de Elis. Assim, Fileu foi para Dulíquio e lá residiu. Hércules se dirigiu a Dexâmeno em Oleno, onde o encontrou a ponto de entregar sua filha Mnesimache ao centauro Euritião. Sendo chamado por para ajudar, Hércules matou Euritião quando o centauro veio buscar sua noiva. Mas Euristeu não admitiu esse trabalho entre os dez, alegando que ele havia sido feito por dinheiro.

[2.5.6] O sexto trabalho que Euristeu ordenou foi afugentar as aves Estinfalianas. Na cidade de Stínfalos, em Arcádia, estava o lago chamado Stinfaliano, no interior de um bosque escuro. Para isso incontáveis aves haviam se refugiado nele, temendo serem atacadas pelos lobos. Assim, quando Hércules ficou sem saber como expulsar os pássaros da floresta, Atena lhe deu castanholas de bronze, que ela recebera de Hefesto. Ao colidir estas castanholas em uma certa montanha que pairava sobre o lago, ele assustou os pássaros. Eles não conseguiam suportar o som e se agitaram assustados, tornando possível Hércules atirar neles.

[2.5.7] O sétimo trabalho que Euristeu ordenou foi trazer o touro cretense. Acusilau diz que este foi o touro que transportou Europa para Zeus; mas alguns dizem que foi o touro que Poseidon enviado do mar para ser sacrificado por Minos. Estes dizem que, quando viu a beleza do touro, Minos mandou-o para os rebanhos e sacrificou outro a Poseidon; o que enfureceu deus e fez o touro selvagem. Para atacar este touro, Hércules veio a Creta e, ao pedir de ajuda a Minos, que lhe disse para ele mesmo combater e pegar o touro. Hércules o pegou e o levou para Euristeu, que após ver o touro, deixou depois que ficasse livre. No entanto, o touro percorreu Esparta e toda a Arcádia e, atravessando o istmo, chegou a Maratona, na Ática, onde atacou os habitantes.

[2.5.8] O oitavo trabalho que Euristeu ordenou foi trazer as éguas do trácio Diomedes para Micenas. Este Diomedes era um filho de Ares e Cirene, e era rei dos Bistones, um povo trácio muito guerreiro. Ele possuía éguas comedoras de gente. Assim, Hércules navegou com um bando de voluntários e, tendo dominado os cocheiros que estavam nos currais, ele levou as éguas para o mar. Quando os Bistones com suas armas foram resgatá-los, ele entregou as éguas à tutela de Abdero, filho de Hermes, natural de Opus em Lócris e servo de Hércules; mas as éguas o mataram após arrastá-lo. Mas Hércules lutou contra os Bistones, matou Diomedes e obrigou o resto a fugir. Hércules então fundou a cidade Abdera ao lado do túmulo de Abdero que ele fizera após sua morte e, trazendo as éguas, ele as deu para Euristeu. Mas Euristeu as deixou ir e elas chegaram ao Monte Olimpo, como é chamado, e lá foram destruídas pelos animais selvagens.

[2.5.9] O nono trabalho que Euristeu ordenou a Hércules foi trazer o cinturão de Hipólita. Ela era a rainha das Amazonas, que habitavam sobre o rio Termodon. Era um povo poderoso na guerra; pois cultivavam as virtudes masculinas e, se alguma vez davam à luz após relações com o sexo oposto, elas criavam as fêmeas. Elas também arrancavam os seios direitos para não as atrapalhar no arco e flecha, mas mantinham os seios esquerdos, para que pudessem amamentar. Hipólita tinha o cinturão de Ares em sinal de sua superioridade sobre todas. Hércules foi enviado para buscar este cinturão porque Admete, filha de Euristeu, desejava obtê-lo. Então, levando com ele grupo de voluntários em um único navio, partiu para a ilha de Paros, que era habitada pelos filhos de Minos, a saber, Eurimedão, Crises, Nefalião e Filolau. Aconteceu que dois companheiros dos que estavam no navio chegaram e foram mortos por estes filhos de Minos. Indignado, Hércules matou os filhos de Minos no local e sitiou os outros, até que estes enviaram uma proposta de paz em troca dele escolher e levar dois homens consigo. Então Hércules levantou o cerco, levando a bordo os filhos de Androgeu, filho de Minos, a saber, Alceu e Estenelo. Ele foi até a Mísia, para a corte de Lico, filho de Dáscilo, que o recebeu. Numa batalha entre ele e o rei dos Bebrícia, Hércules tomou o partido de Lico e matou muitos, entre outros, o rei Mígdon, irmão de Amico. E ele tomou muita terra dos Bebrícios e deu a Lico, que chamou tudo de Heraclea.

Tendo entrado no porto de Temiscira, ele recebeu uma visita de Hipólita, que o perguntou por que ele havia vindo e prometeu lhe dar o cinturão. Mas Hera, à semelhança de uma amazona, subia e descia a multidão, dizendo que os estranhos que haviam chegado estavam carregando a rainha. Então as Amazonas em armas atacaram o navio em seus cavalos. Mas quando Hércules as viu em armas, suspeitou de traição, matou Hipólita e lhe tirou o cinto. Depois de lutar contra as outras, ele partiu e desembarcou em Tróia.

Por acaso, a cidade estava então aflita por causa da ira de Apolo e Poseidon. Os deuses, desejando colocar a perversidade de Laomedonte à prova, assumiram a semelhança de homens e se comprometeram a fortificar Pérgamo por salários. No entanto, ao fim do trabalho, eles não foram pagos. Por esse motivo, Apolo enviou uma pestilência e Poseidon, um monstro marinho, que, levado por uma inundação, arrebatou o povo da planície. Mas, como os oráculos prediziam a libertação dessas calamidades se Laomedonte expusesse sua filha Hesíone para ser devorada pelo monstro marinho, ele assim o fez, acorrentando-a às rochas perto do mar. Vendo-a exposta, Hércules prometeu salvá-la na condição de receber de Laomedonte as éguas que Zeus dera em compensação pelo estupro de Ganimedes. Ao Laomedonte realizar essa promessa, Hércules matou o monstro e salvou Hesíone. No entanto, Laomedonte não entregou a recompensa prometida e Hércules foi para o mar depois de ameaçar fazer guerra contra Troia.

Hércules chegou em Enos, onde foi entretido por Poltis. Ao partir, ele atirou e matou na praia dos um sujeito lascivo dentre os Enianos: Sarpedão, filho de Poseidon e irmão de Poltis. Depois, tendo chegado a Tasos e subjugado os trácios que habitavam a ilha, ele deu a região aos filhos de Androgeu para habitarem. De Tasos, ele seguiu para Torone e lá, sendo desafiado a lutar por Polígono e Telégono, filhos de Proteu, filho de Poseidon, ele os matou no combate de luta livre E, levando o cinturão para Micenas, deu-o a Euristeu.

[2.5.10] Como um décimo trabalho ele foi ordenado a buscar os rebanhos de Geryon de Eritia.129 Agora Eritia era uma ilha perto do oceano; agora se chama Gadira.130 Esta ilha era habitada por Geryon, filho de Chrysaor por Callirrhoe, filha de Ocean. Ele tinha o corpo de três homens que cresceram juntos e uniram-se em um na cintura, mas se separaram em três dos flancos e coxas.131 Ele possuía vacas vermelhas, das quais Eurytion era o pastor e Orthus, o cão de duas cabeças, gerado por Typhon em Echidna, era o cão de guarda. Assim, viajando pela Europa para buscar os rebanhos de Geryon, ele destruiu muitas feras selvagens e pisou na Líbia, 133 e, seguindo para Tartessus, ergueu como sinais de sua jornada dois pilares um contra o outro nas fronteiras da Europa e da Líbia. aquecido pelo Sol em sua jornada, ele inclinou seu arco para o deus que, em admiração por sua dureza, lhe deu uma taça de ouro na qual ele cruzou o oceano.135 E tendo alcançado Eritia, ele se alojou no monte Abas. No entanto, o cachorro, percebendo-o, correu para ele; mas ele a feriu com seu porrete e, quando o pastor Eurytion veio em socorro do cachorro, Hércules também o matou. Mas Menoetes, que estava lá pastoreando o gado de Hades, relatou a Geryon o que havia ocorrido, e ele, chegando com Hércules ao lado do rio Antêmio, enquanto estava afastando as vacas, se juntou à batalha com ele e foi morto a tiros. E Hércules, embarcando as vacas na taça e navegando até Tartessus, devolveu a taça ao sol.

E, passando por Abderia, chegou a Liguria, 138 onde Ialebion e Dercynus, filhos de Poseidon, tentaram roubar-lhe as vacas, mas ele as matou e seguiu seu caminho pela Tirrênia. Mas, em Rhegium, um touro se afastou rapidamente e, precipitando-se apressadamente no mar, nadou até a Sicília, e tendo atravessado o país vizinho desde então chamado Itália, para os tirreno chamarem o touro de itálio, 141 chegou à planície de Eryx, que reinou sobre o Elymi.142 Agora Eryx era um filho de Poseidon, e ele misturou o touro com seus próprios rebanhos. Então Hércules confiou o gado a Hefesto e saiu apressado em busca do touro. Ele encontrou nas manadas de Eryx, e quando o rei se recusou a rendê-lo, a menos que Hércules o vencesse em uma luta, Hércules o espancou três vezes, o matou na luta, e levar o touro o levou com o resto do rebanho para o Mar Jônico. Mas quando ele chegou aos riachos do mar, Hera afligiu as vacas com um gafanhoto, e eles se dispersaram entre as saias das montanhas da Trácia. Hércules foi em perseguição e, tendo apanhado alguns, levou-os ao Helesponto; mas o restante foi a partir de então selvagem.143 Tendo arrecadado com dificuldade as vacas, Hércules culpou o rio Strymon e, embora tivesse sido navegável antes, tornou-o inavegável ao enchê-lo de pedras; e ele transmitiu as vacas e as deu a Euristeu, que as sacrificou para Hera.

[2.5.10] Como décimo trabalho, Hércules foi ordenado a buscar os rebanhos de Gerião na Erítria. Esta era uma ilha perto do oceano, que agora se chama Gadira [Cádiz] e era habitada por Gerião, filho de Crisaor por Calirroe, filha de Oceano. Ele tinha o corpo de três homens que cresceram juntos e se uniam na cintura, mas se separaram abaixo em três flancos e coxas. Ele possuía vacas vermelhas, das quais Euritião era seu vaqueiro e Orto, o cão de duas cabeças, gerado por Tifão em Equidna, era seu cão de guarda. Assim, viajando pela Europa para buscar os rebanhos de Gerião, Hércules destruiu muitas feras selvagens e pisou na Líbia. Seguindo para Tartesso, ele ergueu, como símbolo de sua jornada, dois pilares um de frente ao outro nas fronteiras entre a Europa e a Líbia. Aquecido pelo Sol em sua jornada, ele inclinou seu arco para este deus que, em admiração por sua dureza, lhe deu uma nave de ouro na qual ele cruzou o oceano. Tendo alcançado Erítria, ele se alojou no monte Abas. No entanto, o cachorro, percebendo-o, correu em sua direção; mas Hércules o feriu com sua clava. E, quando o vaqueiro Euritião veio em socorro do cachorro, Hércules também o matou. Mas Menetes, que estava lá pastoreando o gado de Hades, relatou a Gerião o que havia ocorrido. Chegando até Hércules, ao lado do rio Antêmio, enquanto estava afastando as vacas, Gerião o confrontou, mas foi morto a flechadas. E Hércules, embarcando as vacas na nave e navegando até Tartesso, devolveu a nave ao sol.

Passando por Abdéria, Hércules chegou a Ligúria, onde Ialebião e Dercino, filhos de Poseidon, tentaram lhe roubar as vacas, mas ele os matou e seguiu seu caminho pela Tirrênia. Mas, em Regium, um touro se afastou rapidamente e, precipitando-se apressadamente no mar, nadou até a Sicília, e tendo atravessado o país vizinho desde então chamado Itália, pois os tirrenos chamam os touros de “itálios”. Hércules chegou à planície de Erix, que reinou sobre o Elimi. Este Erix era um filho de Poseidon e ele misturou o touro com seus próprios rebanhos. Então Hércules confiou o gado a Hefesto e saiu apressado em busca do touro desgarrado. Ele o encontrou nas manadas de Erix, mas quando o rei recusou entregá-lo a menos que Hércules o vencesse em uma luta, Hércules o espancou três vezes, o matou na luta e levou o touro com o resto do rebanho para o Mar Jônico. Quando depois chegou aos riachos do mar, Hera afligiu as vacas com um gafanhoto e elas se dispersaram entre os vales das montanhas da Trácia. Hércules as perseguiu e, tendo apanhado algumas, levou-as ao Helesponto; mas o restante a partir de então se tornou selvagem. Tendo agrupado  as vacas com muita dificuldade, Hércules culpou o rio Estrimão e, embora tivesse sido navegável antes, tornou-o inavegável ao enchê-lo de pedras. Enfim, Hércules conduziu as vacas e as deu a Euristeu, que as sacrificou para Hera.

[2.5.11] Quando os trabalhos foram realizados em oito anos e um mês [Nota: as penas por homicídio na mitologia duravam oito ou nove anos, geralmente demandando algum exílio e servidão a terceiros por parte do condenado], Euristeu ordenou que Hércules, como décimo-primeiro trabalho, buscasse as maçãs de ouro das Hespérides, visto que ele não reconheceu o trabalho do gado de Augeas nem o da Hidra. Essas maçãs não estava na Líbia, como alguns disseram, mas no Atlas entre os Hiperbóreos. Elas foram presentes da Terra para Zeus por seu casamento com Hera, e guardadas por um dragão imortal com cem cabeças, descendentes de Tifão. e Equidna, que emitia muitos e diversos tipos de vozes. Com ele, as Hespérides [as Damas da Tarde] também estavam as guardavam, a saber, eram Egle, Erítia, Hespéria e Aretusa. Assim Hércules viajou para o rio Equedoro, onde Cicno, filho de Ares e Pírene, o desafiou em combate sozinho. Ares aceitou o desafio de Cicno e organizou o combate, mas um raio foi arremessado entre os dois, separando ambos os combatentes. Atravessando a pé a Ilíria e se apressando para o rio Eridano, ele chegou às ninfas, as filhas de Zeus e Themis. Eles lhe revelaram Nereu, que Hércules prendeu enquanto dormia, e embora o deus se transformasse em todos os tipos de formas, o herói o amarrava e não o liberou até que ele lhe revelasse onde estavam as maçãs e as Hespérides. Com essa informação, Hécules  atravessou a Líbia, que  era então governado por Anteu, filho de Poseidon, que costumava matar estrangeiros, forçando-os a lutar. Sendo forçado a lutar com ele, Hércules o abraçou, levantou-o ao alto e o quebrou, causando-lhe a morte; pois, quando ele tocava a terra, se tornava mais forte, pois alguns dizem que ele era um filho da Terra.

Depois da Líbia, ele atravessou o Egito. Esse país foi governado então por Busiris, um filho de Poseidon por Lisianassa, filha de Épafo. Este Busiris costumava sacrificar estranhos em um altar de Zeus de acordo com um certo oráculo, porque o Egito sofreu com uma escassez de nove anos, e Frásio, um vidente sábio que veio de Chipre, disse que a escassez cessaria se eles abatessem um estranho homem em homenagem a Zeus a cada ano. Busiris começou matando o próprio vidente e continuou a abater os estranhos que chegavam. Então Hércules também foi preso e arrojado aos altares, mas rompeu suas amarras e matou tanto Busiris quanto seu filho Anfidamas.

Percorrendo a Ásia, Hércules se instalou em Termidra, o porto dos lindianos. E, depois de soltar um dos novilhos da carroça de um vaqueiro, ele o sacrificou e festejou. Mas o vaqueiro, incapaz de se proteger, estava em certa montanha e o amaldiçoou. Portanto, até hoje, quando eles sacrificam para Hércules, eles fazem isso com maldições.

Atravessando pela Arábia, ele matou Ematião, filho de Titônio, e viajando pela Líbia para o mar exterior recebeu a nave do Sol. Depois, tendo atravessado para o continente oposto, no Cáucaso, disparou suas flechas contra a águia, descendência de Equidna e Tifão, que devorava o fígado de Prometeu, e libertou o titã, depois de escolher para si uma coroa de oliveira, e a Zeus apresentou Quíron, que, embora imortal, consentiu morrer em seu lugar.

Prometeu aconselhou Hércules a não ir atrás das maçãs, mas que enviasse Atlas, primeiro aliviando-o do fardo da esfera; então quando ele foi para Atlas na terra dos hiperbóreos, ele aceitou o conselho e aliviou Atlas. Mas quando Atlas recebeu três maçãs das Hespérides, ele foi a Hércules e, não querendo apoiar a esfera, disse que levaria as maçãs para Euristeu, ordenando que Hércules segurasse o céu em seu lugar. Hércules aceitou fazê-lo, mas tramou para entregá-lo de volta a Atlas. Sob o conselho de Prometeu, implorou a Atlas que erguesse o céu até que ele pusesse uma almofada na cabeça. Quando Atlas ouviu isso, ele colocou as maçãs no chão e pegou a esfera de Hércules. E assim Hércules pegou as maçãs e partiu. Mas alguns dizem que Hércules não os obteve as maçãs por Atlas, mas que ele mesmo arrancou as maçãs depois de matar a cobra guardiã. E tendo trazido as maçãs, deu-as a Euristeu. Mas ele, ao recebê-las, as entregou a Hércules, de quem Atena as recebeu e as levou de volta; pois não era lícito que elas fossem colocados em qualquer lugar.

[2.5,12] O décimo-segundo trabalho imposto sobre Hércules foi trazer Cérbero do Hades. Ora, este Cérbero tinha três cabeças de cães, a cauda de um dragão e, nas costas, haviam cabeças de todos os tipos de cobras. Quando Hércules estava prestes a partir para buscá-lo, ele foi até Eumolpo em Elêusis, desejando ser iniciado [nos mistérios Eleusianos que homenageavam Deméter]. No entanto, não era lícito a estrangeiros serem iniciados: por isso foi proposto que ele fosse iniciado como o filho adotivo de Pílio. No entanto, não podendo ver os mistérios por não estar purificado do massacre contra os centauros, Eumolpo o purificou e depois o iniciou.

Depois, tendo chegado a Taenarum na Lacônia, onde está a entrada para o Hades, Hércules desceu por ela. Mas, quando as almas o viram, fugiram, exceto Meleagro e a górgona Medusa. Hércules desembainhou a espada contra o górgona, como se ela estivesse viva, mas ele aprendeu com Hermes que ela era apenas um fantasma vazio. E, chegando perto dos portões do Hades, ele encontrou Teseu e Pirítoo, o homem que cortejava a mão de Perséfone em casamento. e foi, portanto, rapidamente aprisionado. Quando viram Hércules, estenderam as mãos como se fossem ressuscitados dos mortos por sua força. Teseu, de fato, pegou a sua mão e e foi ressuscitado, mas, ao tentar segurar Pirítoo, a terra tremeu e ele teve que soltá-lo.

Hércules também rolou a pedra de Ascalafo e desejando prover as almas com sangue, ele abateu uma das vacas do Hades. No entanto, Menetes, filho de Ceutônimo, que servia ao rei, desafiou Hércules numa luta e, sendo agarrado ao meio, teve suas costelas quebradas; No entanto, ele foi salvo a pedido de Perséfone. Quando Hércules pediu o Cérbero a Plutão, este ordenou que ele levasse o animal, desde que o dominasse sem o uso das armas que carregava. Hércules o encontrou nos portões de Aqueronte e, envolto em sua couraça e coberto pela pele do leão, ele jogou os braços ao redor da cabeça do animal. Embora o dragão em sua cauda o mordesse, ele nunca relaxou seu aperto e pressão. até que a criatura se rendeu. Assim, ele a carregou e subiu em Trezena. Mas Deméter transformou Ascalafo em uma coruja de orelhas curtas e Hércules, depois de mostrar Cérbero a Euristeu, levou-o de volta a Hades.

—– 6 —–
Hércules no Leste

[2.6.1] Depois de seus trabalhos Hércules foi a Tebas e deu Mégara a Iolau. Depois, desejando se casar, ele averiguou que Eurito, príncipe de Ecália, havia proposto a mão de sua filha Iole como um prêmio para aquele que o derrotasse e a seus filhos numa disputa de arco e flecha. Assim, ele chegou a Ecália e, embora se mostrasse melhor do que no arco e flecha, ainda assim não conseguiu a noiva; porque, embora Ífito, o mais velho dos filhos de Eurito, dissesse que Iole deveria ser dado a Hércules, Eurito e os outros se recusaram. Eles disseram temer que, se Hércules tivesse mais filhos, ele mataria novamente sua prole.

[2,6,2] Não muito tempo depois, alguns bovinos foram roubados de Eubeia por Autolico, e Eurito supôs que foi feito por Hércules; mas Ífito não acreditou nisso  e foi até Hércules. Encontrando-o, quando ele veio de Feres, depois de salvar Alceste da morte para Admeto, o convidou para que juntos fossem buscar o gado. Hércules prometeu fazê-lo e o entreteve; mas enlouquecendo de novo, ele o arremessou Ífito das muralhas de Tírinto. Desejando ser purificado do assassinato, ele se dirigiu a Neleu, que era o príncipe de Pilos. Quando Neleu rejeitou seu pedido em razão de sua amizade com Eurito, Hércules foi para Amicla, onde foi purificado por Deifobo, filho de Hipólito. Mas, afligido por uma terrível doença por causa do assassinato de Ífito, ele foi a Delfos para perguntar: como ele pode se livrar da doença. Como a sacerdotisa pitoniana não lhe respondeu por oráculos, ele desejou saquear o templo, carregando o trípode, para instituir um oráculo próprio, Mas Apolo lutou contra ele, e Zeus lançou um raio entre os dois. Quando assim se separaram, Hércules recebeu um oráculo, que declarou que o remédio para sua doença era se vender e servir por três anos como compensação pelo assassinato de Ífito.

[2,6.3] Após receber esse oráculo, Hermes vendeu Hércules e ele foi comprado por Ônfale, filha de Iardanes, rainha de Lídia, a quem seu finado marido Tmolo legou o governo. Eurito não aceitou a compensação quando lhe foi apresentado, mas Hércules serviu Ônfale como um escravo. No curso de sua servidão, ele agarrou e aprisionou os [dois malfeitores] Cércopes em Éfeso; e quanto a Sileu em Aulis, que obrigava os estranhos que passavam a cavar, Hércules o matou com sua filha Xenodoce, depois de queimar as videiras com as raízes. Depois de entrar na ilha de Doliche, viu o corpo de Ícaro levado para terra firme e o enterrou. Ele chamou a ilha de Ícaria, em vez de Doliche. Em retribuição, Dédalo fez uma estátua com a imagem de Hércules em Pisa, que eke confundiu à noite com uma pessoa, jogando uma pedra e batendo nela. Durante o tempo de sua servidão com Ônfale é dito que ocorreram a viagem [dos Argonautas] a Cólquida e a caça do javali de Calidão, e que Teseu a caminho de Trezena limpou o istmo de malfeitores.

[2.6.4] Depois de sua servidão, livrando-se de sua doença, Hércules reuniu um exército de nobres voluntários e navegou para Ilium com dezoito navios de cinquenta remos cada. Tendo chegado ao porto em Ilium, ele deixou a guarda dos navios para Oicles e, com o resto dos campeões, atacou a cidade. Mas Laomedonte marchou contra os navios com seu exército e matou Oicles em batalha. Depois, sendo repelido pelas tropas de Hércules, ele foi sitiado. Com o cerco posto, Têlamon foi o primeiro a romper a muralha e entrar na cidade. Depois dele, foi Hércules. Mas quando ele viu que Têlamon havia entrado primeiro, ele desembainhou a espada e correu até o companheiro, relutante de que alguém pudesse ser considerado um homem melhor que ele. Percebendo isso, Têlamon coletou pedras à mão e, quando Hércules perguntou a razão desse ato, ele disse que estava construindo um altar para Hércules, o Glorioso Vencedor. Hércules agradeceu, e quando ele tomou a cidade e derrubou Laomedonte e seus filhos, com exceção de Podarces, ele designou a filha de Laomedonte, Hesíone, como um prêmio para Têlamon, permitindo que ele a levasse com qualquer outro cativo que ela quisesse. Quando ela escolheu seu irmão Podarces, Hércules disse que ele deve primeiro ser um escravo e depois ser resgatado por ela. Então, quando ele estava sendo vendido, ela pegou o véu de sua cabeça e deu-o como um resgate; daí Podarces foi chamado Príamo [o “comprado”].

—– 7.a —–
O Exército de Hércules

[2.7.1] Quando Hércules estava navegando de Troia, Hera enviou fortes tormentas, o que irritou tanto Zeus que ele a deixou pendurada no Olimpo. Hércules partiu para Cos e os Coanos, acreditando ser uma esquadra pirata, se esforçaram para impedir o seu desembarque arremessando uma chuva de pedras. Mas Hércules forçou o seu caminho e tomou a cidade à noite, e matou o rei Eurípilo, filho de Poseidon por Astipaleia. E Hércules foi ferido na batalha por Calcedão; mas Zeus arrebatou-o, para que não sofresse dano algum. Após destruir Cos, Hércules passou passa Flegra com a diligência de Atena e ficou do lado dos deuses em sua guerra vitoriosa contra os gigantes.

[2.7.2] Pouco tempo depois, ele reuniu um exército arcádico e, ao se juntar a voluntários dos primeiros homens da Grécia, marchou contra Augeas. Mas Augeas, ouvindo falar da guerra que Hércules estava impondo, nomeou Eurito e Cteato como generais do Império de Élis. Eram dois homens unidos em um, que superaram toda aquela geração em força e eram filhos de Actor por Molione, embora se dissesse que seu pai era Poseidon; sendo Actor um irmão de Áugeas. Mas aconteceu que, na expedição Hércules adoeceu; daí ele negociou uma trégua com os Molionides. Mas depois, sendo informado de sua doença, eles atacaram o exército e mataram muitos. Naquela ocasião, portanto, Hércules bateu em retirada; mas depois, na celebração do terceiro festival no Istmo, quando os Eleanos enviaram os Molionides para participar dos sacrifícios, Hércules os perseguiu e os matou em Cleone, e marchando sobre Elis tomou a cidade. Tendo matado Áugeas e seus filhos, ele restaurou Fileu e lhe concedeu o reino. Ele também celebrou os jogos olímpicos, fundou o altar de Pélope, e construiu seis altares dos doze deuses.

[2.7.3] Depois da captura de Elis, Hércules marchou contra Pilo, e tendo tomado a cidade, ele matou Periclimeno, o mais valente dos filhos de Neleu, que costumava mudar de forma em batalha. E ele matou Neleu e seus filhos, exceto por Nestor; porque era jovem e estava sendo criado entre os gerenianos. Na luta ele também feriu Hades, que estava do lado de Pilos.

Tendo tomado Pilos, ele marchou contra Lacedemônia [Esparta], desejando punir os filhos de Hipocoonte, enfurecido com eles, por terem lutado com Neleus. Estava ainda mais furiosos porque eles haviam assassinado o filho de Licímno, pois quando este estava olhando para o palácio de Hippocoonte, um cão da raça Molossiana, deixou o local e correu em sua direção. Ele jogou uma pedra e acertou o cachorro, o que fez os filhos de Hipocoonte revidarem o ataque com golpes de seus porretes. Para vingar essa morte, Hércules reuniu um exército contra os lacedemônios. E tendo chegado a Arcádia, implorou a Cefeu que se juntasse a ele com seus filhos, dos quais ele tinha vinte. Mas temendo que, se ele deixasse Tegea, os Argivos marchassem contra sua cidade, Cefeu se recusou a participar da expedição. Hércules recebeu de Atena uma mecha do cabelo da Górgona num jarro de bronze e deu a Esterope, filha de Cefeu, dizendo que se um exército avançasse contra a cidade, ela deveria segurar três vezes a mecha de cabelo sobre as muralhas, e que, contanto que não olhasse diante dela, o inimigo seria levado. Sendo assim, Cefeu e seus filhos entraram em campo e, na batalha, ele e seus filhos morreram. Além deles, Íficles, irmão de Hércules. Tendo matado Hippocoonte e seus filhos e subjugado a cidade, Hércules restaurou Tíndaro e confiou o reino a ele.

[2,7,4] Passando por Tegea, Hércules seduziu Auge, não sabendo que ela seja uma filha de Aleu. Ela gerou um bebê em segredo. que depositou no recinto de Atena. Mas sendo o país devastado por uma peste, Aleu entrou no recinto e na investigação descobriu a maternidade de sua filha. Então ele abandonou o bebê para a morte no Monte Partênio mas, pela providência dos deuses, foi preservado: pois uma corça que acabara de dar cria a amamentou e depois os pastores o encontraram, chamando-o de Télefo. O pai de Auge a deu para Náuplio, filho de Poseidon, para vender longe em uma terra estrangeira; e Náuplio deu a ela a Teutras, o príncipe de Teutrânia, que fez dela sua esposa.

—– 7.b —–
A Morte de Hércules

[2.7.5] Tendo chegado a Calidônia, Hércules cortejou Dejanira, filha do rei Oneu. Ele lutou pela mão dela com Aqueloo, que assumiu a semelhança de um touro. Hércules quebrou um de seus chifres e se casou com Dejanira. Aqueloo recuperou seu chifre dando o chifre de Amalteia em seu lugar. Ora, Amalteia era filha de Hemônio e tinha um chifre de boi que, conforme Ferecides, tinha o poder de suprir comida e bebida em abundância se seu portador assim desejasse.

[2.7.6] Hércules marchou com os calidonianos contra a Tesprótia e, tendo tomado a cidade de Éfira, de que Filas era rei, ele teve relações sexuais com a filha do rei, chamada Astíoque e assim se tornou o pai de Tlepolemo. Enquanto permaneceu entre eles, Hércules mandou que Téspio guardasse sete de seus filhos, mandasse três para Tebas e enviasse os quarenta restantes para a ilha da Sardenha, para fundar uma colônia. Depois desses acontecimentos, enquanto se banqueteava com Oneu, Hércules matou com um golpe de seus punhos o filho de Arquíteles quando o menino estava derramando água em suas mãos. O rapaz era parente de Oneu, mas, vendo ter sido um acidente, o pai do rapaz perdoou Hércules; mas Hércules desejou, de acordo com a lei, sofrer a punição do exílio e resolver partir para Ceix em Tráquis, levando Dejanira consigo. Ele chegou ao rio Eveno, onde o centauro Nesso sentava e transportava passageiros por dinheiro, alegando que havia recebido dos deuses uma balsa por sua honestidade. Assim, Hércules atravessou o rio sozinho, mas, confiou que Nesso levasse Dejanira. Ao transportá-la, Nesso tentou violá-la. Ela gritou e Hércules, a ouvindo, disparou contra o peito de Nesso quando ele emergiu do rio. Estando à beira da morte, Nesso chamou Dejanira e disse que tinha um poção do amor para enfeitiçar em Hércules. Ela deveria misturar a semente que ele havia jogado no chão com o sangue que fluía da ferida infligida nele pela flecha. Ela fez isso e manteve a poção com ela.

[2.7.7] Atravessando o país dos Dríopes e estando com falta de comida, Hércules encontrou Tiodamas conduzindo um par de bois; então ele desatou e matou um dos novilhos e festejou. Quando viajou até o rei Ceix em Tráquis, ele conquistou a Dríopia quando lutou numa aliança com Egímio, rei dos Dórios, pois os Lápites, comandados por Corono, guerrearam contra ele numa disputa sobre as fronteiras do país. E, estando sitiado, ele chamou a ajuda de Hércules, oferecendo-lhe uma parte do país. Assim, Hércules veio em sua ajuda e matou Corono e outros. Depois, entregou o país inteiro para Egímio sem solicitar o pagamento. Ele matou também Laógoras, rei dos Dríopes, com seus filhos, por banquetear num templo de Apolo; pois o rei era um sujeito perverso e um aliado dos Lápites.

Em seguida, quando passou por Ítono, ele foi desafiado a um único combate por Cicno, filho de Ares e Pelópia; e, em combate, Hércules o matou. Quando chegou a Orímnio, o rei Amintor tomou-lhe armas e o proibiu de marchar através de sua cidade; mas, ao tentar impedi-lo, Hércules o matou também. Em sua chegada a Tráquis, Hércules reuniu um exército para atacar Ecália, desejando punir Eurito. Sendo acompanhado por Arcádios, melianos de Trachis e Epicnemidianos de Locris, ele matou Eurito e seus filhos, tomando a cidade. Depois de enterrar os seus companheiros caídos, a saber, Hípaso, filho de Ceix, e Árgius e Melas, os filhos de Licímnio, eles saquearam a cidade e levaram Iole cativa.

Chegando em Cenaeum, um promontório de Eubeia, ele construiu um altar de Zeus dos Cenaeanos. Com a intenção de oferecer sacrifícios, enviou o arauto Licas a Tráquis para buscar belas vestes. Deste arauto, Dejanira descobriu da cativa Iole e temeu que Hércules pudesse amar aquela donzela mais do a ela. Ela supôs que o sangue derramado de Nesso era na verdade um poção de amor e, por isso, manchou a túnica do esposo com ela. No entanto, quando Hércules a vestiu e começou a oferecer sacrifícios, tão logo a túnica se aqueceu, o veneno da hidra começou a corroer sua pele; e sobre isso ele ergueu Licas pelos pés e o atirou promontório abaixo. Ele então arrancou a túnica de seu corpo, de modo que sua carne foi arrancada junto com ela. Em uma situação tão triste, ele foi levado em um navio até Tráquis; e Dejanira, ao saber o que havia acontecido, se enforcou. Hércules cobrou de Hilo, seu filho mais velho por Dejanira, para se casar com Iole quando atingisse a maioridade e, no Monte Oeta, no território trácio, construiu uma pira, a montou e deu ordens para acendê-la. Quando ninguém o faria, Peas, que estava de passagem procurando por seus rebanhos, a acendeu. Hércules segurava seu arco enquanto a pira ardia. Diz-se que uma nuvem passou sob Hércules e com um trovão o transportou ao céu. Depois disso, ele obteve a imortalidade e, se reconciliando com Hera, casou-se com a filha Hebe, por quem teve os filhos Alexiares e Aniceto.

[2.7.8] Das filhas de Théspio, ele teve os seguintes filhos: por Procris, teve Antileão e Hipeu (pois a filha mais velha lhe deu gêmeos); por Panope, teve Trépsipas; por Lise, teve Eumedes; , Por … [nome ilegível], teve Creonte; por Epilais, teve Astianax; por Certe, teve Iobes; por Euríbia, teve Polilau; por Patro, teve Arquémaco; por Meline, teve Laomedonte; por Clítipe, teve Euricapis; por Eubote, teve Eurípilo; por Aglaia, teve Antiades; por Críseis, teve Onesipo; por Oriahe, teve Laomenes; por Lisidice, teve Teles; por Menipis, teve Entelides; por Antipe, teve Hipódromo; por Eury […], teve Teleutágoras; por Hipo, teve Capilo; por Eubeia, teve Olimpo; por Nice, teve Nicodromo; por Argele, teve Cleolau; por Exole, teve Eritras; por Xantis, teve Homolipo; por Estratonice, teve Átromo; por Ífis, teve Celeustanor; por Laotoe, teve Antifo; por Antíope, teve Alópio; por Calametis, teve Astibies; por Fileis, teve Tigasis, por Escreis, teve Leucones; por Anthea, teve … [nome ilegível]; por Euripile, teve Arquédico; por Erato, teve Dínastes; por Asopis, teve Mentor; por Eone, teve Améstrio; por Tifise, teve Linceu; por Olímpusa, teve Halocrates; por Heliconis, teve Fálias; pela Hesíquia, teve Estrobles; por Terpsicrate, teve Euríopes; por Eláquia, teve Buleu; por Nicipe, teve Antímaco; por Piripehe, teve Pátroclo; por Praxiteia, teve Nefo; por Lísipe, teve Erásipo; por Toxicrate, teve Licurgo; por Marse, teve Búcolo; por Eurítele, teve Leucipo; por Hipocrate, teve Hipozigo. Estes ele teve pelas filhas de Téspio.

Ele também teve filhos de outras mulheres: por Dejanira, filha de Oneu, teve Hilo, Ctésipo, Gleno e Onites; por Megara, filha de Creonte, teve Terímaco, Deicoonte e Creontíades; por Omphale, teve Agelau, de quem descendia a família de Creso, por Calcíope, filha de Euripilo, teve Tétalo; por Epicaste, filha de Augeas, teve Téstalo; por Partênope, filha de Stínfalo, ele teve Everes; por Auge, filha de Aleu, teve Télefo; por Astíoque, filha de Filas, teve Tlepolemo; por Astidâmia, filha de Amintor, teve Ctesipo; e, por Autonoe, filha de Pireu, teve Palemon.

—– 8.a —–
A Perseguição aos Filhos de Hércules

[2.8.1] Quando Hércules ascendeu como um deuses, seus filhos fugiram de Euristeu e foram para Ceix. Mas quando Euristeu exigiu sua rendição e ameaçou a guerra, eles ficaram com medo e deixaram Tráquis, fugindo pela Grécia. Eles foram perseguidos até Atenas, onde sentados no altar da Misericórdia reivindicaram proteção. Recusando-se a entregá-los, os atenienses resistiram ao peso da guerra com Euristeu e mataram os seus filhos: Alexandre, Ifimedão, Euríbio, Mentor e Perimedes. . O próprio Euristeu fugiu em uma carruagem, mas foi perseguido e morto por Hilo assim que ele estava passando pelos penhascos de Ésciron. Hilo lhe cortou a cabeça e a deu para Alcmena; e ela arrancou os olhos com alfinetes de tecer.

[2.8.2] Após a morte de Euristeu, os filhos de Hércules [Heráclidas] chegaram a atacar o Peloponeso e capturaram todas as cidades. Quando se passou um ano do retorno deles, uma praga atingiu todo o Peloponeso; e um oráculo declarou que isso aconteceu por conta dos Heráclidas, porque eles haviam retornado antes do tempo apropriado. Por isso, deixaram o Peloponeso e se retiraram para Maratona, onde residiram. Antes de saírem do Peloponeso, Tlepolemo matou Licímno inadvertidamente; por, enquanto ele estava batendo um servo com seu bastão Licymnius se colocou entre eles. Assim, Tleptolemo fugiu com não poucos e foi para Rodes, onde habitou.

Hilo se casou com Iole conforme as ordens de seu pai e procurou efetuar o retorno dos Heráclidas. Então, ele foi para Delfos e perguntou como deviam retornar. Os deuses disseram que ele deveriam esperar a terceira colheita antes de retornar. No entanto, Hilo supôs que a terceira colheita significasse três anos; e tendo esperado aquele tempo, ele retornou com seu exército… [o texto está ilegível, mas provavelmente conta a derrota e a morte de Hilo em batalha no istmo de corinto contra Équemo, rei da Tegea – Fonte: Diodoro 4.58:1-5 e Pausânias 8.5.1]. Era o tempo de Tisameno, filho de Orestes, quando este reinava sobre o Peloponeso [Nota: Portanto, após a guerra de Troia]. Também em outra batalha o guerreiros do Peloponeso foram vitoriosos e Aristômaco foi morto.

Quando os filhos de Clodeu [filho de Hilo] cresceram em homens, eles perguntaram ao oráculo a respeito de seu retorno. E os deuses deram a mesma resposta de antes, Temeno o culpou, dizendo que quando eles obedeceram ao oráculo eles tinham sido infelizes. Mas o deus replicou que eles próprios eram culpados por suas desgraças, pois eles não entendiam os oráculos, vendo que pela “terceira colheita” ele queria dizer, não uma plantação da terra, mas a colheita de uma geração, e que por estreitos náo atravessar o istmo em si, mas o mar à direita dele. Ao ouvir isso, Temeno preparou o exército e construiu navios em Locris, onde o lugar por esse motivo agora é chamado de Naupacto [“construção de navios”]. Enquanto o exército estava lá, Aristodemo foi morto por um raio, deixando filhos gêmeos, Eurístenes e Procles, por Árgia, filha de Autesião.

—– 8.b —–
Os Heráclidas conquistam o Peloponeso

[2.8.3] Por acaso, uma calamidade atingiu o exército em Naupacto, pois lhes apareceu um profeta [Carmo] recitando oráculos em frenesi, que pensaram ser feiticeiro enviado pelos inimigos do Peloponeso para arruinar o exército. Assim, Hipotes, filho de Filas, filho de Antíoco, filho de Hércules, lançou-lhe um dardo, o abatendo e o matando. Em consequência disso, a força naval sofreu a destruição de sua frota e a força terrestre sofreu com a fome, o que desfez o exército. Quando Temeno perguntou ao oráculo sobre essa calamidade, os deuses disseram que essas coisas ocorreram por causa da morte do feiticeiro e lhes ordenou que banissem o assassino por dez anos. Eles deviam procurar um guia de três-olhos. Então baniram Hipotes e procuraram o tal de três-olhos. Eles encontraram, por acaso, Óxalo, filho de Andremon, um homem sentado num cavalo de um olho só, pois o outro olho foi arrancado com uma flecha). Ele havia fugido para Elis por causa de um assassinato e estava voltando dali para Etólia depois de um ano. Assim, adivinhando o significado do oráculo, eles o fizeram seu guia. E, tendo atacado o inimigo, derrotaram-no por terra e por mar e mataram Tisameno, filho de Orestes. Seus aliados, Panfilo e Dimas, filhos de Egímio, também caíram na luta.

[2.8.4] Quando se tornaram senhores do Peloponeso, os Heráclidas montaram três altares do Zeus paterno, realizaram sacrifícios sobre eles e lançaram sorteios pelas as cidades. Assim, o primeiro sorteio foi para Argos, o segundo para a Lacedemônia e o terceiro para Messênia. Eles trouxeram uma jarra de água e decidiram que cada um deveria lançar um lote. Temeno e os dois filhos de Aristodemo: Procles e Euristhenes, jogaram pedras; mas Cresfonte, desejando ter a Messênia para si, jogou um torrão de terra. Como o torrão se dissolveu na água, não era possível que fosse pego na jarra. Assim, Temeno foi o primeiro sorteado [ficando com Argos], e os filhos de Aristodemo foram o segundo [ficando com Lacedemônia] e Cresfontes ficou com a Messênia.

[2.8.5] Nos altares em que se realizavam os sacrifícios, eles encontraram sinais de mentiras; pois os que pegaram Argos no sorteio acharam um sapo; os que receberam a Lacedemônia encontraram uma serpente; e aqueles que conseguiram a Messênia encontraram uma raposa. Sobre esses sinais, os videntes disseram que: aqueles que encontrassem um sapo, permanecessem na cidade (visto que o animal não tem força quando anda); aqueles que encontrassem uma serpente seriam terríveis em seus ataques; e aqueles que encontrassem uma raposa seriam astutos.

Temeno, passando por cima dos seus filhos Agelau, Eurípio e Cálias, favoreceu sua filha Hirneto e seu marido Deífontes; porque estes filhos contrataram alguns companheiros para assassinar o pai. Uma vez realizado o assassinato, o exército decidiu que o reino pertencia a Hyrnetho e a Deiphontes.

Cresfontes não reinou por muito tempo sobre Messênia, pois foi assassinado por dois de seus filhos; e Polífonte, um dos verdadeiros heraclídeos, subiu ao trono e se casou, contra a vontade dela, com Merope, a esposa do homem assassinado. Mas ele também foi morto. Enfim, Merope tinha um terceiro filho, chamado Epito, que ela deu a seu pai para educar. Quando chegou à idade adulta, ele voltou secretamente, matou Polífonte e recuperou o reino de seus pais.

Livro 3

Da Rapto de Europa ao Nascimento de Teseu

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