Apolônio, Argonautas

A Maior Agrupamento de Heróis Mitológicos

Draper, Herbert James, 1864-1920; The Golden Fleece

Herbert James Draper 1864-1920

O livro Argonáutica é uma das mais aclamadas poesias heroicas da antiguidade, sendo escrita pelo famoso Apolônio de Rodes. Ele nasceu em Alexandria e viveu no terceiro período Ptolomaico, entre os anos de 295 a.C. a 215 a.C., e foi um aluno de Calímaco de Cirene, mas conta-se que sua versão inicial da Argonautica foi tão mal recebida entre seus compatriotas que ele se mudou para Rodes para fugir da desonra. Em Rodes se tornou professor e aperfeiçoou seu poema, recebendo as honras por seu trabalho e retornar à sua cidade para dirigir a magnífica Biblioteca de Alexandria.

Esta versão em português por Pedro Cavalcanti foi traduzida da versão inglesa de Robert Cooper Seaton (1853-1915) com grandes liberdades para se manter a rima e a musicalidade.

1) A Tripulação
2) A Partida
3) A Ilha
4) A Emboscada
5) O Profeta
6) A Travessia – Em breve

 

Contexto: Para libertar seu pai que vem sido mantido prisioneiro pelo rei Pélias há mais de vinte anos, o herói Jasão faz um acordo com esse rei usurpador. Ele deve buscar, nas longínquas terras da Cólquida, o poderoso artefato conhecido como o “Tosão de Ouro”, que foi levado ao local pelo fugitivo Frixo e está atualmente sob a proteção do rei Eetes. Felizmente, Jasão conseguiu reunir mais de cinquenta famosos heróis de todo o Hélade para o acompanhar nessa jornada e juntos todos partirão no navio Argos, que foi construído sob a orientação da deusa Atena.

Hino às Musas

 

Começando por ti, Ó brilhante Apolo,
Dos antigos, contarei famosa ação.
Que cruzaram o Ponto e rochas Cianas
Buscando, a Pélias, o Dourado Tosão.

Pois tal qual este rei ouviu do oráculo
Que, pelo de uma sandália, seria morto.
Logo, Jasão atravessou o rio Anauros
Onde seu pé na lama foi todo absorto.

Como descrito, Jasão perdeu sua sandália
E, ao banquete de Pélias, assim chegou.
Que honrou o seu pai Poseidon e outros,
Mas homenagens, à Hera, ele não prestou.

Quando viu Jasão logo ponderou o rei
E criou mentiras para lançá-lo ao mar.
Em viagem angustiosa com estranhos
Para ao lar ele nunca mais voltar.

Como dito por bardos, o navio Argo
Cuja forja Atenas deu orientação,
Ao além-mar, levou muitos bons heróis
Cujas linhagens, lhes conto quais são.

Que as Musas me inspirem nesta canção!

 

Apolônio de Rodes: Argonautica I (1-22)
Tradução: Pedro Cavalcanti

 

 Parte 1: Tripulação

 

Primeiro, lhes falo o nome de Orfeu1
Que pela musa Caliope foi gerado
Em união com o rei Eagro da Trácia,
Onde, com ela, na Pimplea, foi casado.

Rios e rochas, e os carvalhos da Trácia
São os símbolos de sua mágica ação
Que desde a Piéria seguiram sua Lira
Mantendo a enfileirada ordenação.

Assim Jasão recebeu-o com boas-vindas,
Sendo à ordem de Quíron obediente.
Orfeu, que compartilhou deste destino
E, da Piéria Bistoniana, foi regente.

Veio Asterião2, da união de Cometes
Junto às águas do Apidanus, nascido,
Da vila Peiresia, ao monte Fílea
Onde Apidano e Enipeu têm fluído

Depois, Polifemo3, o filho de Elato,
Que, dentre os Lápites, veio da Larissa
E na juventude lutou contra Centauros.
Com a alma guerreira e força maciça.

E Íflico4 que há muito deixou Fílace.
Tio de Jasão por Alcimede, sua irmã,
Filha de Fílaco casada com Esão.
Ele aventura-se por esta do seu clã.

Admeto5 não ficou na Feres dos rebanhos,
Por trás dos montes Chalcodon, picos tamanhos.
Nem em Alope ficaram os filhos de Hermes:
Érito6 e Equião7, hábeis e de ricos ganhos

Com estes, veio o terceiro Etalides8,
Que, às águas do rio Anfriso, remete,
Este, por Eupolemeia, filha de Mirmidão,
Os outros, por Antianeira, de Menete.

Corono9, o bravo, veio da rica Girtão,
Mas não tão bravo quanto Cenis, seu pai,
Bardos contam que na guerra dos centauros
Em vil combate, um triste fim lhe recai.

Pois ao ser afastado dos outros líderes
Pelos inimigos centauros foi cercado.
Por ser invulnerável, não podia ser morto,
Mas, sob massa de pinheiros, foi enterrado.

Mopso10 do Titaresos, quem sobre todos,
Apolo, os augúrios das aves, ensinou.
E Euridamas11, o filho de Ctimenus,
Quem em Dolopia, no lago Xinia, habitou.

Menécio12 de Opus, quem Actor seu pai,
Enviou-o junto neste grupo seleto.
Também Euritião13, filho de Teleon,
E Eribotes14, por Irus, de Actor neto.
O terceiro foi o corajoso Oileu15,
Quem abate vis aladas em vôo direto.

Veio Canteu16 de Euboe na aventura
Enviado por Caneto para não voltar.
Pois seu destino e do profeta Mopso
É morrer na Líbia em longínquo lugar.

Pois nenhum mal está assim tão distant
Que, algum homem marcado, não alcançasse.
E serão velados tão distante de Colchi
Entre espaço cujo o sol se põe e nasce.

Clítio17 e Ífito18, guardas da Ecália,
Os filhos do Eurito, o sem piedade,
Cujo Arco de Apolo lhe causou ruína
Pois, contra este deus, gerou rivalidade.

Os filhos de Eco, exilados da Egina,
Não vieram juntos, nem do mesmo lugar.
Telamon19 reside nas ilhas da Attica.
E Peleu20 fez da Fítia o seu lar.

O guerreiro Butes21, filho de Teleon,
Veio das terras de Cecropes em Atenas
Junto a Falaro22 que traz lança cinza.
E quem Alcon tem como seu filho apenas.

Deste reino, Teseu não brilhou viagem
Quem havia todos Erectidas superado,
Por seguir Piritoo em outro caminho
Sob terras de Tenaros foi aprisionado.

Tifis23 que deixou Sifeanos da Téspia
Muito hábil em prever marés no alto-mar.
E também, olhando o sol e as estrelas,
Tormentas e o melhor tempo de velejar.

Quem o chamou foi a marinha Atenas
A deusa cujo desenho Argo construiu.
A embarcação que, com remos ao mar,
Provou dentre todos ser o melhor navio.

Também veio Flias24, de Aretira, quando
Seu pai Dionísio, fez requisição.
E, vieram, de Argos, os filhos de Bias,
Talau25, Areio26 e Leodoco27 campeão.
Nascidos de Pero, a filha de Neleus,
Por quem Melampo sofreu grande aflição.

O pedido de Jasão, filho de Esão,
Não negou Héracles28 de grande coração.
Ao ouvir deste encontro de heróis,
Levava até Argos um javali na mão.

Este Javali viveu na selva de Lampea
Que era próxima do Erimanto charco.
E, por Héracles, foi posto acorrentado,
Em frente do mercado, de Micenas, marco.

Então, contra os desejos de Euristeu
Veio Héracles por sua própria vontade.
E junto veio o seu bravo companheiro
O escudeiro Hilas29 na flor da idade.

Veio Nauplio30, herdeiro de Dánao,
Pois Poseidon e Amímone, sua cria,
Geraram Nauplio, o seu antecessor,
Cujo talento naval a todos excedia.

Foi deste primeiro Nauplio que vieram
Proeto, Lerno, Naubolo e Clítoneu.
E por Clítoneu desta raça de Danaus.
Este novo heróico Nauplio nasceu.

Dos habitantes da cidade de Argos,
Enfim, Idmon31 foi o último a chegar.
Mesmo com o vil destino lhe revelado,
Dentre seu povo, por renome, vai lutar.

Ele não é filho de Abas verdadeiro,
Mas do próprio Apolo, ele nascia
Pra viver entre descendentes de Eolus
E ensinar-lhe a arte da profecia.

Castor32 e Polux33, por Leda da Etólia
Na casa de Tíndaro, eram filhos seus.
Mas a mãe não proibiu deles a partida,
Por ter mente digna das noivas de Zeus.

E os filhos de Afareu em Arene
Idas34, cuja força destacava em ação
E Linceu35, conta lenda, enxergava
Sob da terra com tão aguçada visão.

Veio Poriclimeno36, nascido em Pilo
Primeiro da prole que Neleu espalha,
Que por Poseidon herdou o poder da força
E de assumir qualquer forma em batalha.

E Cefeu37 e Anfidamas38 da Arcádia
Eram da Tegea que Afida governou.
Esses filhos de Aleu vem com terceiro.
O filho quem o irmão Licurgo enviou.

Licurgo, mais velho, ficou na cidade
Com o pai Aleu sob o seu bom cuidado.
Mas para unir aos irmãos na missão
Então, seu filho Anceu foi enviado.

Anceus39 na pele do urso da Menalia
Empunhou duplo machado na destra mão.
Pois seu avô Aleu escondeu as armas,
Para preveni-lo de vir nesta missão.

Augeas40, o filho do Hélio titã,
Rei de Elis e de seus homens na guerra.
Desejava contemplar o reino de Colchi
E ver Eetes, o governante desta terra.

Astério41 e Anfião42 vindos da Ackea
Filhos de Hiperaso na Palene vila.
A vila que, sob jugo de Augialeu,
Palen, seu avô, começou a construí-la.

De Tenaros, veio o veloz Eufemo43,
Gerado por Europe, de Títio, filha.
Ele, apenas com a ponta dos pés,
Desliza no mar fazendo aquosa trilha.

Vieram outros dois filhos de Poseidon:
Ergino44 de Mileto, gloriosa cidade.
E outro Anceus45, este da Partênia,
Onde flamejante Hera tem comunidade.
Tanto na guerra quanto na navegação
Ambos bradavam ter grande habilidade

De Calidão, Meleagro46 e Laocoonte47
Que, de Oneus, eram filho e irmão.
Pois, este que nasceu de uma serva,
Daria ao jovem Meleagro proteção.

Apesar de Meleagro ser muito jovem
Além de Héracles, um melhor, não havia
Se esperasse por um ano na Etólia
Neste grupo de heróis destacaria.

Com ele veio Íflico48, filho de Téstio
Habilidoso no corpo-a-corpo e na lança.
E, de Olenos, Palemônio49 que é filho
De Lerno por nome e Hefesto por herança.

Assim nasceu manco de ambos os pés
Mas seu corpo não trazia desconfiança
Unindo-se assim ao bom grupo de heróis
Trazendo fama a Jasão com essa aliança

Vieram Zetes50 e Calais51, filhos de Boreas,
Quem viu Oreitia na Trácia gelada,
Dançando e girando nas margens do Hisso.
E, assim, da terra de Cécropes foi levada.

Ela foi carregada à “Rocha Sarpedão”
Como pelos homens é assim conhecida.
Onde envolveu-a nas margens do Ergino
E, por ele, sob as nuvens, foi possuída.

Lá, os heróis batiam as negras asas,
Era uma maravilha de se contemplar.
Elas brilhavam suas escamas douradas
Que, das suas costas, os lançavam ao ar.

Nem Acasto52, o próprio filho de Pélias,
Desejou na morada ficar para trás.
Nem Argo53 ajudante da deusa Atenas.
Logo estão ambos neste grupo audaz.

E também veio Ífito54, dos Focianos,
Filho de Naubolo e, de Ornito, neto.
Ele recebeu Jasão na vinda a Delfi
Quando buscou respostas sobre o trajeto.

Tantos companheiros uniram a Jasão55
Todos líderes, de Minias, descendentes
Pois do sangue de suas filhas nascem
Os melhores e mais bravos combatentes.

O próprio Jasão é filho de Alcimede,
Que possui em Clímene descendência.
Esta, que é filha do próprio Mínias,
Traz a Jasão superior procedência.

Quando os escravos prepararam tudo
Deixando a nau totalmente equipada
O dever levou todos através do mar
Até Pasagae Magna em nau ancorada.

Logo a multidão toda juntou veloz
Tendo os heróis brilhado como estrelas
Entre nuvens de pessoas perguntando-se
Em ver as armaduras ao meio vertê-las:

“Zeus pai, qual é o propósito de Pélias?
Em tão longe lançar esse grupo herói?
Pois tão forte tropa num único dia,
Com fogo, o palácio de Eetes destrói;

Caso não seja entregue de boa-vontade
Aos nossos bons heróis, o Tosão Dourado
Pois aos que aventuram difícil é
O caminho que não pode ser evitado!”

Assim fala a multidão pela cidade
E mulheres erguem a mão em oração.
Solicitando aos deuses um bom retorno
Aos heróis, do fundo do seu coração.

E com lágrimas um amigo lamenta:
Alcimede de destino amaldiçoado,
Finalmente chegou o mal que lhe tirou
O melhor da sua vida, mesmo atrasado.

E também seria melhor ao pobre Esão
Se ele estivesse morto e enterrado.
Sob funesta mortalha sem a consciência
De cada vil ardil contra ele causado!

Antes, a negra onda que matou Helle,
A Frixo e sua ovelha, tivesse matado
Para não causar na pobre Alcimede,
Angústia e desalento, tão extremado.

Assim falaram com a partida dos heróis
Enquanto, por Jasão, sua mãe chorava.
Em meio aos escravos, homens e mulheres,
Que, no peito, sentiam dor que amargava.

E com eles também muito gemeu seu pai
Sob a velhice má, enrolado em sua cama
Mas Jasão aplaca sua dor ao enviar
Furtivo servo, que suas armas, reclama.

E sua mãe chora abraçando o filho
Como chora uma educada donzela
Sozinha no pescoço da serva amada
Agora que ninguém mais por ela zela.

Arrastando a vida sob uma madrasta
Que com novos insultos sempre a maltrata.
E, enquanto chora, o seu bom coração
É tomado por angústia que lhe acata.

Mas toda dor que luta para se expor,
Nos braços do seu filho, não pode chorar.
Assim em sofrimento fala Alcimede
Sobre quando ouviu Pélias proclamar:

Como mulher amaldiçoada que sou,
Terrível ordem, me fez desistir da vida!
Você, meu filho, é quem devia enterrar-me.
Essa é minha vontade a ser cumprida!

Todas felicidades de cuidar de ti
Eu apreciei durante tão bons momentos!
Mas eu que fui admirada entre mulheres
Agora definho só em meus aposentos.

Como escrava do meu amor por você,
Que outrora trouxe-me grande esplendor
Você, que nascido de meu ventre virgem,
Foi o primeiro e último a transpor.

Pois uma vasta prole foi a mim negada
Pela deusa Ilítia, com o seu rigor.
Mas nem em sonhos poderia imaginar
Que fuga de Frixo me traria tanta dor!

Assim chorou Alcimede junto as servas
Mas Jasão lhe conforta com gentileza tal:
Peço-te, mãe, para que não sofras tanto.
As lágrimas não me protegerão do mal!

Elas só somam mais tristeza à tristeza,
Pois é invisível toda a vil desgraça
Que deuses nos enviam para suportar.
Então aguente tristeza que te enlaça.

Tome coragem nas promessas de Atenas,
Nas boas profecias e nesta tripulação.
Não seja ave que à nau traz mau agouro
Assim, tente não chamar tanta atenção

Assim, Jasão falou deixando sua morada
Caminhando com grã beleza na multidão
Qual deixa Delos, Claros, Pitão e Liéia,
O deus Apolo sob gritos de aclamação.

Enfim, Ifias anciã, devota de Ártemis,
Só lhe beijou a mão, tendo força vã.
E, aos poucos, foi deixada na lateral
Qual velhos ficam pela juventude sã.

Jasão deixa as ruas bem-feitas da cidade
Para seus amigos na nau Argo encontrar.
Onde, por todos heróis, é cumprimentado
Quando chega em Pasagae na beira-mar.

Todos reúnem onde Jasão está de pé
Vendo chegar a nau Argo da cidade,
Que apesar da vontade do rei Pélias,
Navegará com toda sua velocidade.

Lá estava Argo, o filho de Arestor,
Vestindo nos ombros uma pele de touro
Que sua irmã Pelopeia o presenteou
E atingia os pés com seu negro couro.

Jasão antecipou as perguntas de todos
Mas lhes ordenou reunir nesse momento.
E, ali, sob o mastro e velas dobradas
Cada um tomou, em ordem, o seu assento

Então, Jasão falou-lhes de boa vontade:
Toda a nau está pronta para partir!
Então não mais atrasemos nossas velas
Quando os ventos estão tão bem a fluir!

Apolônio de Rodes: Argonautica I (23-335)
Tradução: Pedro Cavalcanti

Parte 2: A Partida

 

Meus amigos! Agora é comum a todos
O nosso percurso às terras de Eetes
E também o nosso retorno ao Hélade.
Portanto, com voto de coração ateste

Em escolher o mais bravo entre nós.
Aquele que nosso líder se tornará!
Quem deverá se preocupar com tudo,
Quem nas disputas e pactos decidirá!

Ao Jasão falar, todos viraram seu olhar
Para o bom Héracles, no meio, sentado.
Com um grito escolheram-no como líder,
Mas ele ergue a mão destra, tendo falado:

Não ofereçam a mim tão imensa honra.
Não aceito. Nem permito outro levantar!
Deixem que aquele que nos trouxe aqui.
Seja, ele mesmo, quem irá nos liderar!

Assim ele falou com altos pensamentos
E todos consentiram a este seu pedido.
Então o guerreiro Jasão levantou feliz
Tendo ao ansioso grupo dirigido:

Se confiarem a mim as suas glórias
Nada mais prejudicará este percurso.
Vamos sacrificar a Apolo um banquete
E decidiremos os remos por concurso.

Os servos, que cuidam de minha herança,
Com bois, arrastarão essa nau ao mar.
Enquanto, a Apolo, que mostrou caminho,
Construiremos sobre a praia um altar!

Após falar, Jasão se pôs a trabalhar,
Assim todos começaram a empilhar.
Roupas na pedra, limpa por fortes chuvas,
Mas não atingida pelas ondas do mar.

Por ordem de Argo, a nau foi circundada
De ambos os lados por uma corda torça
Compactando a madeira nos parafusos
Para suportar a tensão da oposta força.

Rapidamente, bem fundo eles cavaram
Tão largo quanto o tamanho desta nau
E tão longe na proa até chegar no mar
Para então carregá-la a este local.

Sob o casco, mais profundo foi cavado
E colocado, em sulcos, bons rolamentos.
E ao inclinar a nau sobre os primeiros,
Nestes, ela avançou em deslizamentos.

Os remos são revertidos, presos acima,
Tal qual a projetar um côvado espaço
E os heróis em pé na fileira de remos
Empurram-na com ambos peito e braço

A bordo, Tifis instiga gritando alto
Para todos no tempo certo empurrar.
E toda força unida de uma só vez
Faz a nau assim sair do seu lugar.
Com pés sob tensão forçando-a à frente
Quando estão todos a correr e a bradar.

O rolamento gemeu sob a quilha firme
Tal qual, por seu tamanho peso, irritada.
Levantando negra fumaça até o mar.
Mas continuou pelos heróis arrastada.

E nos pinos os remos foram encaixados
Quando mastro e vela foram abaixados
E, com tudo pronto, definiram os lugares.
Os remos seriam por duplas ocupados.

Apenas Héracles e Anceu sozinhos
Sentaram separados no remo do meio.
Pois foram os únicos a não receber
Os seus assentos no remo por sorteio.

Foi por todos em único consentimento
A Tifis, confiada a guarda do leme
E um altar construíram em cascalho.
A Apolo das naus e que Actium teme,
Onde em madeira seca de oliveira
Foi então escrito o seu nome solene.

Enquanto servos do filho de Esão
Carregam dois bois da sua criação.
Outros traziam água limpa e cevada
Quando Jasão faz a Apolo oração:

Ouça, Ó deus, de Pasagae e Esonis,
A cidade com o nome do meu pai!
Pois prometeste em Pitão por oráculo
Mostrar conclusão onde este grupo vai!

Pois tu, que és a razão desta jornada,
Então guiarás, sã e salva, esta nau,
Até chegar lá e ao Hélade retornar,
De volta, neste altar, com oferenda tal

Touros e incontáveis outros presentes
Que à Pitão e Ortiga todos trarão!
Agora, venha, Ó divino arqueiro,
E aceite oferenda em nossa mão!

E concedes, Ó deus, a prosperidade,
Para podermos as amarras liberar!
Confiamos em teu conselho para assim,
Em tempo bom, brisa suave nos levar!

Após a oração jogou-se a cevada
E cada um dos bois foi sacrificado.
Um, Héracles com clava acertou a fronte
Que, num monte ao solo, foi derrubado.

Outro, Anceu atingiu largo pescoço
Com o golpe do seu brônzeo machado
Que caiu de frente sobre os seus chifres
Por forte tendão ainda ter-lhe sustentado.

Rapidamente, cortaram-lhes a garganta.
E depois toda o seu couro foi aberto.
Cortaram a carne e o sagrado fêmur
E então tudo com gordura foi coberto

Queimaram tudo em madeira cortada
Enquanto Jasão, pura libação, derrama
E Idmon, por todo lado do sacrifício,
Observa verdades no brilho da chama.

A fumaça que sobe em espiral negra,
Do filho de Leto, traz boa revelação:
“É a vontade do destino e dos céus
Que vocês retornem aqui com o tosão
Mas entre os caminhos de ida e volta
Por inúmeros testes todos passarão.”

“Mas é meu destino morrer ao longe
No meio da Ásia, em terras distantes.
Um perverso decreto de algum deus.
Um vil destino já me revelado antes!”

“Nesta nau, deixo minha terra natal
Para trazer a boa fama ao meu clã”
Diz Idmon cujo destino causa tristeza,
Mas anima ao revelar uma volta sã.

Após o sol fazer parada do meio-dia
E rochas começarem a sombrear arado,
Eles despedem-se e sentam-se nos remos
Como o sol ao anoitecer encaminhado.

Perto deles estavam vastos suprimentos
E, colocado em jarros, o doce vinho.
Foi quando começaram a contar histórias
Em turnos, uns aos outros, pelo caminho.
Longe da sua insaciável arrogância
Tal jovens contam em festa e burburinho.

Mas o filho de Esão bem desamparado,
Meditava cada passo em sua mente
Foi quando Idas observou-o oprimido
E atacou com sua voz tão fortemente:

Filho de Esão, que plano tens em mente?
Tens tu o medo que confunde o covarde
Seja testemunha da minha brava lança
Que trouxe-me fama onde a guerra arde!

Zeus não me auxilia como essa lança,
Não há luta divina ou maldade tamanha
Nem mesmo destinos inalcançáveis
Se for Idas aquele quem te acompanha!

Ele assim virou a taça do doce vinho
Que encharcou sua face e boca escura
Enquanto todos os heróis juntos gritavam
Idmon bem alto bradou resposta dura:

Maldito Arrogante! Que antes do tempo
Traz para ti mesmo, a tua destruição.
É o vinho que incha teu peito em ruína?
E que te põe a desonrar o panteão?

Conta a lenda que tais provocações
Os filhos de Aleu fizeram também.
Mesmo superiores, em valor, aos sábios
Por filhos de Leto foram mortos porém!

Idas, filho de Afareu, riu alto e longo
Tendo com palavras maldosas retrucado:
Venha! E contai-me com tua profecia
O destino por deuses a mim reservado?

E, como escapar vivo das minhas mãos,
Deves então revolver em teu pensamento.
Pois a arte profética é tão inútil
Como o mais ocioso e fraco vento!

Assim, em fúria, Idas injuriou Idmon
E a discórdia continuaria além.
Mas o filho de Esão e seus amigos
A rivalidade dos lideres detém.

Foi quando Orfeu levantou sua lira
Pondo-se assim a ensaiar uma canção.
Sobre Terra, Céu e Mar antes unidos
Mas que discórdia causou separação.

De como as estrelas, a lua e o sol
Tem a posição no firmamento mantida.
De como levantaram-se as montanhas
E como os rios e ninfas ganharam vida.

Então Orfeu cantou sobre Ofião
E Eurinome, uma das filhas do oceano,
Que antes dominavam o monte Olimpo
Até Krono tornar com Rhea soberano.

Enquanto aqueles caíram sob as ondas
Estes, governavam cada titã sagrado
Foi quando Zeus ainda uma criança
Uma caverna na Dictéia teria habitado
Ainda não sendo por ctônicos Ciclopes
Com relâmpago, raio e trovão armado.

Mesmo após guardadas ambas lira e voz
Todos remaram à frente com animação,
Quietos, encantados em seus ouvidos
Pela canção que atingiu cada coração.

Pouco após libação em honra a Zeus,
Como costume nos ritos de devoção,
Esta foi derramada sobre suas línguas
Relembrando do sono na escuridão.

Quando os olhos da luzente Alvorada
Contempla o alto da Pelião montanha,
A água encharca os calmos promontórios
E os ventos, o mar agitado, assanha!

Quando do seu sono Tifis acordou
E despertou ao remo toda sua gente,
Um brado por todo o porto foi ouvido
Era a própria Argo urgindo à frente

Pois o carvalho de Dodona do mastro,
Por Atenas, tem poderes divinos intentos
Assim, todos foram ao designado remo
Onde próximo estavam seus armamentos.

No meio, sentaram Anceu e Héracles
Cuja clava fez na quilha afundamento.
De forma que com amarras ainda soltas
O vinho derramou no mar neste momento.

Jasão com lágrimas por sua pátria terra
O seu olhar para bem longe dela lança.
Enquanto jovens honram brilhante Apolo
De Ismeno, Ortiga e Pitão com dança.

Eles circundam o altar com pés velozes
Movendo-se ao som da lira de Orfeu.
Depois quebram eles as lâminas d’água,
Sob o som, ferindo o mar com remos seus.

Os poderosos heróis com toda força
Fervem a água salgada fazendo espuma.
E enquanto a nau ganhava velocidade
Ao sol, braços brilham em ardente bruma.

Como um caminho visto em verde campo
Atrás da nau, seu claro rastro reluzia.
Todo poder semi-divino dos heróis,
Os deuses olhavam ao mar naquele dia.

E nos mais altos picos do monte Pelião
Suas belas ninfas haviam contemplado
O trabalho de Atenas da vila Itônia
E cada herói com o remo empunhado.

De lá, desceu Quíron, o filho de Filira,
Desde o alto da montanha até o mar,
Onde molhou o pé no quebrar das ondas
E com larga mão começou a acenar.

“Velocidade! E retorno sem tristeza!”
Bradou enquanto a nau em partida sai.
E a esposa de Quíron mostra no braço
Aquiles, filho de Peleu, ao seu pai.

Com o prudente Tifis bem firme no leme,
A costa curva do porto, tinham deixado.
Então montaram todo mastro na altura
Gerando tensão nos cabos de cada lado.

Ao descer a vela no topo deste mastro
Empurrou a nau uma brisa estridente.
Sobre o convés, apertaram as amarras
Passando terras da Tisea tranquilamente.

Assim, Orfeu foi tocando em sua lira
Uma canção de Ártemis, quem traz nau sã.
Filha do glorioso senhor, que tem nela,
De Iolcos, mar e montanhas, a guardiã.

E pulam muitos peixes, grandes e pequenos,
Seguindo caminhos na água que lhes chama
Enquanto a brisa empurra nau à frente
Causando o som estridente que emana.
Tal alegres ovelhas seguem seu pastor,
Que, ao apitar, avisa-as da boa grama.

Campos de milho da Pelasgo de névoas
Ao seguirem em frente, fogem da visão
Ao lado, passam a Pelião acidentada
E as terras da Sépia somem então.

Surgem Piresia e costa da Magnésia
Distantes, aparecendo no continente
Local onde há o túmulo de Dolopes
E, à noite, ventos vem contrariamente.

Por tal razão, eles puseram-se em terra
E honraram Dolopes ao cair da noite.
Queimando ovelhas em divino sacrifício
Lá, ficaram dois dias pelo mar açoite.

No terceiro dia, a nau foi posta a frente
Quando abriram larga vela espalhada
Desde esse dia, de “Aphetae de Argo”,
Pelos homens, aquela praia foi chamada.

E assim eles atravessaram Meliboe
Escapando desta brava costa marinha.
E pela manhã quase tocaram Homole
Cuja rocha ao mar, bem inclinada, vinha.

E, ao atravessar a foz do rio Amiro ,
Eurímene, eles podiam contemplar.
Também, de ambos montes Ossa e Olimpo,
Os desfiladeiros molhados pelo mar.

Por toda noite pelas terras da Canastra,
Chegam de dia em Palene na encosta.
Onde levanta o monte Atos na Trácia
Que sobre Lemnos sua sombra é imposta.

Tal sombra atinge tão longe até Mirine
Alcançada por veloz nau em meio dia.
Mas, apesar da boa brisa neste momento,
Com pôr-do-sol, o vento desaparecia.

Com os remos, chegaram na ilha de Lemnos
Onde todo homem lá foi assassinado.
Pelas esposas, que eles abandonaram,
Em paixão por cativas no ano passado.

Por essas cativas das guerras na Trácia
Neles, Afrodite lançou ira divina.
Por não prestar às esposas devida honra
Mulheres cujo ciúme vil foi a ruína.

Não só esposos e cativas foram mortos
Mas todos os homens no mesmo momento.
Mesmo os que não violaram suas camas,
Para elas escaparem do julgamento.

De todas, só Hipsipile poupou seu pai,
O velho Toas, do seu povo, governante.
Salvo na ilha de Ene por pescador
Ao ser lançado ao mar em arca errante.
E agora, Ene é chamada Sícino,
Por Ene, o nome do seu filho infante.

Agora, as mulheres tangem os rebanhos
Cuidam do arado e vestem armaduras.
Do que anteriores trabalhos de Atenas.
Essas novas tarefas são bem menos duras.

Mas, com o medo dos Trácios atacar,
Elas sempre observavam o alto-mar,
E, ao ver o Argo remando para ilha,
Elas vestiram suas armas para lutar!

Apolônio de Rodes: Argonautica I (336-634)
Tradução: Pedro Cavalcanti

Parte 3:  A Ilha

 

Em Lemnos, uma multidão juntou na praia
Vindo dos portões de Mirine para guerra
Emanando como tíades ao pensar
Ser um ataque Trácio contra sua terra.

Entre as guerreiras estava Hipsipile
Vestida com as armas de Toas, seu pai.
E, em desalento, todas corriam mudas
Tamanho era o medo que lhes recai.

Enquanto isso, na nau, os líderes heróis
Enviam Etalides como mensageiro,
Pois, ao seu cuidado confiam mensagem,
Ele que, do cetro de Hermes, é herdeiro.

Ele recebeu assim a completa memória
Que nunca desaparece ou fica turva.
E nem nos redemoinhos do rio Aqueron
A sua alma ao esquecimento curva.

Mas também sofre infinita punição.
Pois mudança de morada nunca cerra.
Um tempo, está entre vivos sob o sol.
No outro, entre os ctônicos sob a terra.

A razão porque falo sobre Etalides,
É que Hipsipile ele assim convenceu
Em receber os heróis, conforme o dia,
Com a chegada da noite, escureceu.
E também por não deixar ventos do norte
Pela manhã, fazer partir o barco seu.

As mulheres de Lemnos, fizeram conselho
Como por sua líder Hipsipile ordenado.
E quando todas elas estavam reunidas
Em palavras fortes por esta foi falado:

“Amigas! Para estes homens vamos dar
Aquilo que eles desejam de coração.
Podem levar a bordo comida e vinho.
Mas fora da cidade permanecerão.”

“Para que não venham a nós por suprimentos
E nosso segredo seja assim revelado
Difundindo a todos nossos feitos vis.
Que de modo algum serão do seu agrado.”

“Essa é a nossa atual decisão,
Mas se algum outro plano melhor surgir
Quem o conceber deve expô-lo então.
Foi por essa razão que as chamei aqui!”

Ela sentou no paterno trono de pedra
Quando a anciã Polixo com um cajado.
Levantou dentre quatro virgens não-casadas
De cabelos brancos sentadas ao seu lado.

Esta falou, em pé, em meio ao conselho
Ao levantar pescoço da curvada costa:
“Podemos entregar presentes aos estranhos
Assim como Hipsipile está disposta.”

“Essa é mesmo a nossa melhor opção
Mas tiremos proveito da situação.
Pois, dos Trácios, ou outros inimigos,
Ataques, em algum dia, ocorrerão.
Como é comum ocorrer entre os homens,
Tal estes, que aqui chegam sem previsão.”

“E mesmo que por algum deus abençoado
De tal destino, esta ilha seja poupada.
Ainda há males piores do que guerra,
Tal chegar, sem filhos, na idade odiada.”

“Vocês não poderão viver tão infelizes?
Nem bois cavarão sozinhos o arado?
Nem farão, ano após ano, a colheita?
Até agora, tal destino foi evitado.

Mas eu não acredito que próximo ano
Eu serei capaz de vestir-me para terra.
Pois meus negros anos agora chegam
Expondo que minha vida logo encerra.

“Nisto, vocês jovens devem ter atenção,
Pois está é a sua chance de escapar.
Suas casas e nossa gloriosa cidade
A estes estranhos vocês devem confiar.”

O conselho bradou ao falar a anciã
E Hipsipile responde já levantada:
“Enviarei uma mensageira então
Se, a todas vocês, a decisão agrada!”

E assim diz, aproximando da arauta:
“Vá, Ifinoe! E solicite ao capitão”
Que venha aqui para frases eu contar
Que agradam este povo no coração.
E negociar seus homens para entrar,
Na cidade, com amigável intenção.”

Hipsipile falou dispensado a todas
Que logo estavam de volta à morada.
E Ifinoe foi encontrar os Minianos
Que perguntaram-lhe porque foi enviada.

“Pela dama Hipsipile, filha de Toas,
Fui enviada aqui ao seu capitão
Para que frases ele venha escutar
Que agradam nosso povo no coração.
E negociar a si mesmos para entrar,
Na cidade, com amigável intenção.”

Assim falou Ifinoe agradando todos.
Mas, por Toas, eles lamentaram a morte.
E, considerando Hipsipile como rainha,
Enviaram Jasão veloz em seu transporte.

Jasão, o manto púrpura de dupla ponta,
Lançou-o sobre os seus ombros então.
Presente da Atenas do mar ao fazer
A quilha do Argo e ensinar a medição.

Era mais fácil mirar no sol nascente
Do que Jasão em seu brilhante esplendor.
Pois além de púrpura com apetrechos
O manto era vermelho no interior.

Nele, havia os ciclopes em gravura
Sentados forjando o raio do rei Zeus.
Com seu brilho quase todo terminado
Em meio ao fogo dos martelos seus.

Nele, também havia Anfião e Zeto,
Os dois gêmeos de Antíope nascidos.
Próximo estava Tebas e seus muros
Pelos irmãos, ainda sendo construídos.

Zeto, como um homem em trabalho duro
Carrega nos ombros uma alta montanha.
E Anfião, ao tocar sua dourada lira,
Um rocha, os seus passos, acompanha.

Também Afrodite nascida em Cítera
Com o escudo de Ares e longa trança.
Vestindo túnica solta sob seus seios
Que, de um ombro, o outro braço alcança.

Também uma pastagem com um belo gado
E os filhos de Eléctrio em batalha.
Defendendo-se dos Tafians em ataque
Sobre o sangue que no campo se espalha .

E uma outra gravura então mostrava
Duas belas carruagens em corrida
Em frente, a de Pélopes e Hipodamia
Pelos cavalos de Mírtilo perseguida,
Com Enomau caindo com sua lança
Por esta ter roda, no eixo, destruída.

Outra gravura, tinha um jovem Apolo
Atirando no Títio, de Elate gerado,
Quando este raptava Leto pelo véu,
Que depois por Gaia foi ressuscitado.

Por último, Frixo, Mínias descendente,
Escutava uma ovelha lhe falar,
Contemplando esperançoso em silêncio
Que sábias palavras fosse revelar.

Tantos presentes da marítima Atenas
Que Jasão vestia enquanto empunhada.
Na mão direita uma poderosa lança
Por Atalanta uma vez presenteada.

Um presente que ela o entregou
Em Menelau pela hospitalidade.
Pois, para participar da aventura,
Ela desejou com toda sua vontade.
Porém o próprio Jasão a impediu
Temendo, do amante, contrariedade.

Então Jasão seguiu até a cidade
Como quem vai a uma brilhante estrela.
Tal aquela observada por uma noiva
Que, sobre a sua casa, está a vê-la.

Encantando os olhos com seu rubro brilho
E suspirando com saudade do amante,
Que seus pais escolheram para casar
Mas que está em alguma terra distante.

Jasão percorreu, como para tal estrela,
Seu caminho até a cidade trilhando.
Atravessou os portões sendo seguido
Por mulheres, ao estranho, deliciando.

Mas ele manteve olhos fixos no chão
Ao palácio, seguindo reto em frente.
E, com sua chegada, foi aberto portão
De dupla porta feito elegantemente.

Então, Ifinoe veloz conduziu Jasão
Ao trono oposto ao da sua senhora.
Mas Hipsipile virou os olhos de lado
E a sua bochecha, de vermelho, cora.

E assim sendo tomada pela modéstia
Ela falou com palavras de amizade:
“Estranho, porque ficar fora desses muros?
Já que homens não habitam esta cidade.”

“Todos migraram para as terras da Trácia
E estão arando campos de trigo lá.
Mas contarei toda nossa vil situação
Que para vocês pode ser familiar.”

“Quando meu pai Toas reinou nesta cidade
Nossas naus foram lançadas ao ataque
Contra embarcações do povo da Trácia
Para trazer os espólios do seu saque.”

“Vieram riquezas. Mas também as cativas.
Causando, em Afrodite, ira divina.
Assim foram tomados todos por loucura
Perdendo pelas esposas toda a estima.”

“Assim, deixaram os seus lares e casas
Desejando as cativas em sua cama.
Malditas! Esperamos tanto um retorno!
Mas ficou ainda pior o nosso drama!”

“Pois desonrando suas casas legítimas
Preferiram criar a raça de bastardos.
Assim as mulheres solteiras e viúvas
Vagaram por esta cidade como fardos.”

“Pais não mais protegeram suas filhas
Maltratada pelas madrastas execráveis
Nem os filhos defenderam as suas mães.
Nem irmãos, pelas irmãs, eram responsáveis”

“Toda atenção era para as cativas
Nas festas, dança, mercado e na morada.
Até os deuses nos darem toda coragem
Para impedir desses homens a entrada.”

“Cada um, nos prestaria devida honra
Ou deveria partir com sua cativa.
Então, foi reclamado os filhos homens
Para que na nevada Trácia conviva.”

“Mas se tu desejas, entre nós viver aqui,
A honra de meu pai Toas será tua.
Não encontrarás falhas em nossas terras
As melhores que no mar Egeu situa.”

“Vá! Retorne a tua nau para relatar,
Que vós não deveis ficar fora da cidade”
Falou Hipsipile encobrindo os crimes
Quando Jasão respondeu-a sua vontade:

“Hipsipile, agradeço por nos receber
Pois ficar aqui é o nosso desejo.
Logo, eu retornarei a esta cidade,
Depois de pronto tudo o que planejo.”

“Mas o reinado da ilha deve ser seu.
Não é por desprezo, a minha negação.
Mas vis desafios tenho que enfrentar”
E assim Jasão tocou-lhe a destra mão.

Em seguida, ele fez caminho de volta
Saudado pelas mulheres até os portões.
Então, Jasão contou a todos a mensagem
Que foram a beira-mar em embarcações.

E buscando entrar nas casas convidados
A elas, foram trazidos muitos cortejos.
E com intuito de gerarem filhos homens.
Afrodite causou neles fortes desejos.

Jasão foi ao palácio de Hipsipile
E os outros seguiram conforme agrade.
Ficaram na nau alguns poucos escolhidos
Incluindo Héracles por própria vontade.

A cidade alegrou com danças, banquetes,
E fumaça de carne divina queimando.
Pois cantos a Afrodite e Hefesto,
Dentre os deuses, estavam propiciando.

Dia após dia, a viagem atrasou.
E esta atrasaria ainda mais.
Se Héracles não lhes falasse: “Malditos!”
“Assassinas afastam vós das terras natais?”

“Ou, em busca de casamento nós viemos?
Ou, agrada a vós arar este rico solo?
Pois nenhum bom renome ganharemos
Passando tempo com as estranhas no colo!”

“Pois nossas preces aos deuses não farão
O tosão dourado movimentar sozinho.
Deixo que povoem Lemnos com seus filhos
Todo dia com Hipsipile em carinho.”

Assim Héracles repreendeu todo grupo
Que não podiam nem olhar, nem responder.
Apenas prepararam com pressa a partida
Com a mulheres atrás deles a correr.

Tal abelhas zumbindo em volta de lírios
Que, de rocha no prado molhado com orvalho,
Voam da sua colmeia, de flor em flor,
Sorvendo o doce Néctar de seu trabalho.

E as mulheres abraçam os seus homens
Oferecendo, a cada um, a despedida
E orando ao deuses por volta segura.
Tal, a Jasão, Hipsipile fez na partida.

Com lágrimas no rosto, Hipsipile disse:
“Que os deuses tragam de volta todos vós.
São e salvo com o tosão para teu rei.
Mas, vosso, é este reino e todas nós!”

“Se, no retorno, desejais voltar aqui
Encontrarão homens com facilidade
Que de outras cidades desejarão vir.
Mas entendo não ser esta a realidade.”

“Porém, mesmo longe, lembras de Hipsipile!
E deixas agora toda tua instrução.
Que usarei para cuidar com alegria,
Do filho teu, que deuses me concederão.”

E Jasão respondeu-a com admiração:
“Hipsipile, pode sim ser propiciado
Tudo o que estás dizendo como prova
Da bondade de todo deus abençoado.”

“Para mim, é bastante que o rei Pélias
Permita-me residir onde origino.
Só deuses podem liberar-me do dever
Mas se o retorno não for o meu destino…”

“Mande os nossos filhos até Ioulcus
Para tristeza dos meus pais aplacar
Pois, longe do rei, caso estejam vivos
Eles serão amados neste novo lar.”

Assim falou Jasão, o primeiro a subir,
Seguido por todos que estavam a sentar.
E, com seus remos, liberam as amarras
Presas sob rocha atingida pelo mar.

Os seus remos atingem forte as águas
Tendo, por comando de Orfeu, partido
Para ilha de Electra, filha de Atlas
Cujo seu rito não pode ser proferido.

Nesta ilha, eles chegaram pela noite
Onde, nos ritos, tiveram iniciação.
Depois navegaram no gelado mar.
Mas, de tais ritos, eu não farei menção.
Pois, por respeito aos deuses da ilha,
Não são lícitos para esta canção.

Depois, eles remaram impacientes
Sobre o mar Negro de água profunda.
Que, de um lado, banha as terras da Trácia
Do outro, ao sul, a ilha Imbros, circunda.

Ao pôr-do-sol, atravessaram Quersonesos
Quando ventos do sul trazem um sopro forte.
A brisa empurrou as velas ao canal,
Onde Hele, filha de Atamas, sofreu morte.

Deixando o mar aberto na alvorada
Na noite, a costa Reteon, fez percurso.
Com terras de Ida passando na direita
Deixam Dardânia com Abidos em curso.

Depois navegaram através de Percote,
Também de Abarnis de praias arenosas
E por divina Pitiea, em velocidade,
Por boa vela e remadas poderosas.

Numa noite, já haviam atravessado
O negro Hellesponto de redemoinho.
Chegando em ilha de ricos milharais,
Na costa da Frígia, por este caminho.

E, entre esta ilha e o continente
Há um Istmo que, de tão baixo, inunda
De ambos os lado, pelas ondas do mar.
Possuindo assim dupla costa redunda.

A ilha fica ao norte do rio Esepo
Que “Montanha Urso”, é assim chamada.
E, por selvagens e violentos nativos,
De aparência assombrosa, foi habitada.

Cada um, possuía seis fortes braços
Dois nos ombros. E quatro nas laterais.
E lá os Doliones habitavam também,
Governado por herói de linhagens reais.

Rei Cízico, nascido de Aneu que teve
Com Anete, filha de Eusoro, união.
Um povo, por tais monstros, não atacado
Por ter, do fundador Poseidon, proteção.

Para lá, a nau Argo navegou em frente,
Por ventos da Trácia, veloz carregada.
E, ao chegar nesta enseada, a nau,
Por conselho de Tifis, foi ancorada.
Apolônio de Rodes: Argonautica I (635-956)
Tradução: Pedro Cavalcanti

 Parte 4: A Emboscada

 

Os heróis jogam pequena rocha n’água,
Pois escolheram uma âncora melhor.
Uma rocha pesada da fonte de Arteia
Enquanto foi consagrada rocha menor.

Onde, conforme oráculos de Apolo,
Descendentes de Neleu ao seu redor
Construirão, em homenagem a Jasão,
Para deusa Atenas, um templo maior.

Lá, veio Cízico com seus Doliones,
Recebendo os heróis com amizade.
E ao saber suas linhagens e motivos.
Convidaram todos ao porto da cidade.

Para assim os seus remos descansar
E lançarem suas amarras neste porto
Onde construíram, a Apolo, um altar
E, em sacrifício, um animal foi morto.

Vinho e ovelhas, o rei ofereceu.
Pois a chegada de heróis foi prevista.
Por oráculo que pediu-lhes boas-vindas.
E nenhum pensamento de guerra em vista.

Tal Jasão, Cízico mostrava jovem face
Nem possuía filho para se orgulhar.
Pois a esposa Cleite, filha de Merope,
Ainda não gerou os bons filhos ao lar.

Quem, Cízico, por presentes inestimáveis,
Trouxe da casa do pai na oposta costa.
E que foi deixada na cama nupcial,
Para, aos estranhos, festa fosse exposta.

Entre eles, as perguntas geram relatos
Pelos heróis, o objetivo da viagem.
E, por Cízico, os povos do Propontis.
Mas nada desejado para passagem.

Na manhã, uns, subiram monte Dindimon
Para observar todos caminhos do mar
E, na agora chamada “Rota de Jasão”,
Outros, moveram a nau ao Porto de Bar.

Mas, selvagens nativos cercaram o monte,
E, com troncos, bloquearam o rio na foz.
Assim os jovens para trás foram deixados
Como homens esperando besta feroz.

Mas, entre esses jovens, estava Héracles
Que atacou os monstros com o curvo arco.
Os monstros lançaram rochas em ataque.
Mas, um a um, o bando foi tornando parco.

Não duvido que estes terríveis monstros
Foram por Hera, esposa de Zeus, criados
Para tornar um dos trabalhos de Héracles
E, agora, pelos heróis são atacados.

Subindo o monte, esses monstros ctônicos
São recebidos com golpes de flecha e lança.
Até o último deles ser derrotado,
Terminando o feroz ataque que avança.

Os heróis, tal lenhadores de machado
Que jogam os troncos de madeira ao mar
Para, que molhadas, suportem os pinos,
No porto, os monstros estavam a lançar.

Uns, tiveram peito e cabeça curvados
Pelas ondas salgadas em forte batida
Outros, face na areia e pés na água.
E, de peixes e aves, viraram comida.

Os heróis, com o fim desta vil batalha,
Lançaram a sua nau ao sopro do vento.
Percorrendo o cheio mar por todo dia
Com vela levantada no mastro sustento.

Porém, no anoitecer, a brisa parou.
Por sopros contrários de tormenta dura,
Que de volta às terras dos Doliones
Enviou-os em meio a noite escura.

Com amarras da nau, às pressas lançadas
Não notaram desembarcar na mesma terra.
Nem Doliones, reconheceram os heróis
Pensando ser os Macris, rivais de guerra.

Os Doliones colocaram armaduras.
E, com lanças e escudos em colisão,
Atacam, uns aos outros como o fogo,
Que cai num mato seco sobre o chão.
Então, o infernal clangor da batalha
Cai sobre os Doliones, furioso e mal,
Destruindo de Cízico o seu destino
E o seu retorno à cama nupcial.

O rei, ao virar, por Jasão foi atacado,
Que perfurou, com uma lança, o seu peito.
Despedaçando osso em volta da ponta,
Caiu, na areia, em espasmos, por tal feito.

De tal sina, nenhum mortal escaparia.
Mas seus homens cercaram-no em defesa.
E, nesta noite, o destino levou Cízico
Enquanto era defendido com braveza.

E tantos outros morreram pelo seu rei.
Héracles matou Telecles e Megabronte.
Acasto então assassinou Esfrodis.
Peleu; Zelo e Géfiro, veloz no fronte.

Télamon, com a lança, matou Basileu
Enquanto Clítio derrotou Jacinto.
E foram mortos Megalossaces e Flógio
Por Castor e Polideuces, filhos distintos.

Enfim, Meleagro, o filho de Oneus,
Matou Itomeneu, o tão destemido.
E também o comandante Artaceu
Que por locais, até hoje, é ungido.

E todos os outros fugiram em terror
Como fogem pombas dos velozes falcões.
Logo, toda cidade enche-se com gritos
Quando eles, tombando, passam os portões.

Apenas na manhã, todos descobriram
A verdade do seu erro fatal sem cura.
E, ao ver Cízico em areia e sangue,
Todos foram tomados por amargura.

Por três dias, os heróis e os Doliones
Cortaram os seus cabelos em lamento.
Por três vezes, circularam corpo de Cízico,
Com bronze armadura, no sepultamento.

E competiram em jogos no funeral,
No prado, como demanda o ritual.
Onde, até hoje, toda posteridade
Pode testemunhar o seu memorial.

Não. Cleite não pôde viver sem o marido.
De mal a pior, laçou corda no pescoço,
Causando o choro nas ninfas da floresta
Cujas lágrimas, na terra, geraram poço.

Dentre os homens e mulheres Doliones,
Não houve, por Zeus, outro dia tão triste.
E, assim, nada comem por falta de fome
Nem vontade do trabalho de moer existe.

E, por terem comido alimento cru,
Ainda hoje na anual libação.
Eles ofertam bolos em seus moinhos
Sem realizar a trituração do grão.

Então, uma forte tempestade surgiu
Tendo doze dias e doze noites durado.
Na última noite, em grande exaustão
Todo o grupo pelo sono foi tomado.

Mopso e Acasto vigiavam a nau
Quando uma alcíone seu voo ostenta,
Sobre a cabeça dourada de Jasão,
Anunciando o fim desta vil tormenta.

Então, Mopso ao ouvir o som do pássaro,
Traduziu, deste, uma boa revelação.
Então, a ave mudou o curso, pousando
Sobre nau, na frontal ornamentação.

Jasão dormia sob uma pele de cabra,
Quando o profeta acordou-o do seu sono:
“Jasão, deves escalar o monte Dindimon
E honrar a mãe dos deuses em seu trono.”

“Essas palavras foram a mim reveladas
Pela ave que voou sobre ti no ar.
Pois se tu realizardes esse comando,
As tempestuosas rajadas vão acabar.”

“Pois Rhea possui vento, terra e mar.
E o palácio do Olimpo nevado
Pois todos cedem, a ela, o seu lugar
Até Zeus e cada deus abençoado.”

Essas palavras, por Jasão, foram bem-vindas
Que levantou-se da cama com alegria.
E às pressas acordou seus companheiros
Para relatar a descrita profecia.

Então, moveram os bois do estábulo
Para levá-los ao alto pico da montanha.
Assim, remaram para o porto da Trácia,
E, uns poucos, realizaram a façanha.

Diante de seus olhos, quase ao toque,
Surgiu a Mácria e a Trácia costa
Sob a neblina, o estreito do Bósforo,
E as colinas da Mísia na encosta.
Também o rio Eosopo e Nepeia,
Com vila Adrastea na margem oposta.

Lá, viram um massivo tronco de videira
Que utilizaram como sagrada imagem.
Então, Argo colocou-a sob um carvalho
Que tem a mais funda raiz da paisagem.

Com pequenas pedras e folhas de carvalho
Então, ergueram para deusa um altar.
Para a venerável, habitante da Frígia,
A boa mãe de Dindimon, invocar.

Também, Titias e Cileno chamados
Os distribuidores da destruição
E ajudantes da mãe do monte Ida,
Quem, em Creta, dentre Dactil multidão,
Gerou um filho em caverna na Dictea
Que a ninfa Anquíale segurou na mão.

Para que esta desviasse tempestade
Jasão suplicou à deusa em oração.
E, nas chamas do sacrifício sagrado,
Ele, assim, derramou toda libação.

Por comando de Orfeu, todos dançavam,
Em armadura completa, para a guerra.
Batendo as espadas em seus escudos
Com gritos ao ar, ao rei da sua terra.

Desde esse dia, o povo da Frígia
Honra a Rhea com corneta e tambor.
Tais oferendas ganharam seu ouvido
Surgindo assim sinais do seu clamor.

Frutos abundantes caíram das árvores.
Flores desabrocharam da grama macia
E animais deixaram as suas tocas
Balançando suas caudas em euforia.

Ela produziu ainda outra maravilha
Pois a água nunca fluiu neste monte.
Então, sobre uma rocha bem ressecada
Em nome de Jasão, fez surgir uma fonte.

Uma festa foi feita em sua homenagem
Quando eles chegaram na Montanha Urso
Cantaram louvando Rhea de muitos título
E, pela manhã, remando, seguiram curso.

Então, discórdia atingiu os heróis
Para os últimos no remo definir.
Pois o ventou calmo atingiu a nau
Tranquilizando o mar para dormir.

Confiando na calmaria, assim remaram,
Com todo o seu poder, através do mar.
Tamanha velocidade, nem Poseidon,
Com seus cavalos, poderia alcançar.

Até surgir os novos ventos furiosos
Que, pela noite, sopravam vindos do rio.
Mesmo exaustos, com a força de Héracles,
Remaram juntos fazendo tremer o navio.

Então, quando chegaram na costa da Mísia,
Avistaram o rio Rindeu na foz.
E também o pequeno monte Egeon
Mas, passada Frígia, veio mar feroz.

Foi quando Héracles quebrou o seu remo
Caindo no chão com a metade na mão.
Enquanto a outra, pelo mar, foi levada
Assim, ele sentou olhando sem reação.
Pois não tinha costume de ficar assim
Ocioso, sem realizar qualquer ação.

Na hora que o lavrador chega no lar,
Em busca do seu tão desejado jantar
Com os joelhos tomados por exaustão
E as mãos calejadas de trabalhar.

Foi nessa hora que a nau dos heróis
Atingiu ao povo Kios em sua casa.
Nas terras próximas ao monte Argantônio
Onde, ao mar, o rio Kios extravasa.

O povo da Mísia deu as boas-vindas
Oferecendo muito vinho e provisões.
Também madeira seca e grama do campo
Para acender o fogo das orações.
Onde prepararam vinhos e banquetes,
Oferenda a Apolo das embarcações.

Héracles deixou os amigos nesta festa
Para obter um novo remo na floresta.
Onde encontrou pinheiro sem muitos galhos
Que tamanho e largura, tão bem lhe presta.

Colocando ao lado seu arco e flecha
E também seu manto da pele do leão.
Então, golpeou o pinheiro com a clava
Fazendo tremer suas raízes no chão.

Então, abraçou-o, mantendo pernas largas.
Quando pôs no ombro sua força maior.
Apesar de fundas, as raízes se soltaram
Junto a massa de terra ao seu redor.

Tal inesperadas tormentas no inverno,
Quando se põe a Orion constelação,
Arrancam as velas das naus dos mastros
Assim Héracles ergueu tronco com a mão.
Então, voltou aos amigos quando vestiu,
O arco e flecha, e a pele de leão.

Enquanto isso, Hilas com jarra na mão
Deixou os amigos buscando uma fonte
Para obter bastante água para a ceia
Antes que a volta de Héracles confronte.

Pois Héracles ensinou-o esses hábitos
Quando tomou-o após ter assassinado,
O seu pai, grande Teodamas da Driopia,
Por causa de um simples boi de arado.

Uma desculpa qualquer para guerrear
Contra Driopia por sua injustiça.
Mas este conto vai me levar além
Do que, nesta canção, é minha premissa.

Assim, conto Hilas chegando em “Pagae”
Como a fonte é chamada pelos locais.
Neste tempo, toda ninfa da belo monte
Dançam a Ártemis em noturnos rituais.

Todas as ninfas protetoras da floresta,
Dos picos e vales, estavam afastadas
Mas, da água, uma ninfa surgiu na fonte
E viu belo menino de faces rosadas.
Exalando sua doce graça e beleza
Sendo, pela lua cheia, iluminadas.

Afrodite aflorou desejos na ninfa
Tal qual ela não podia se segurar.
Foi quando Hilas inclinou até a fonte
Para a água, com sua jarra, pegar.

Quando água ressoou no bronze da jarra
A ninfa emergiu sob Hilas no pescoço,
Aproximando para beijá-lo na boca.
Mas, pelo cotovelo, puxou-o ao poço.

Só Polifemo ouviu o grito de Hilas
Pois este, que seguia nesta passagem,
Aguardando o retorno de Héracles,
Agora corre tal um animal selvagem,
Que ouve o som da inocente ovelha.
Dentre o seu bom rebanho na pastagem.

E, como tal animal queimando em fome
Que não encontra o rebanho desejado.
Pois haviam sidos levados pelo pastor
Então, geme e uiva até ficar cansado

Com tal veemência gritou Polifemo
Por todos os lados, até perder a voz.
Então empunhou espada em sua busca,
Temendo inimigos ou besta feroz.

Na busca, Polifemo, com sua espada,
Encontrou Héracles a caminho do navio.
Ele, então, contou o triste ocorrido,
Sem fôlego e com seu coração a mil.

“Amigo! Devo contar-lhe um fato vil:
Hilas foi até a fonte e não voltou!
Foi levado por ladrões ou animais.
Pois eu ouvi no momento que gritou!”

O suor tomou todo corpo de Héracles
E todo sangue negro ferveu na entranha.
Ele jogou o seu remo no chão em fúria
E seus pés correram com pressa tamanha.

Como um touro picado por um inseto
Que, do pastor, corre no prado sem alento.
Erguendo pescoço e movendo as pernas,
Ele corre em frenesi gritando ao vento.

Mas logo surgiu a estrela da manhã,
Sobre os montes, trazendo a boa brisa.
E, para esses bons ventos aproveitar,
A subir abordo, Tífis logo avisa.

E, assim, levantaram âncoras a bordo,
Soltando cordas para deixar esta costa.
E, logo, a Alvorada surgiu no leste,
Deixando a trilha da viagem exposta.

O brilho reluziu os campos orvalhados
Quando os bons heróis perceberam falta.
Por deixarem para trás esses bravo homens,
Então um tumulto no navio se exalta

Por esta falha, Jasão senta-se sozinho
Em silêncio, consumido pela ruína.
Foi quando Télamon bradou: “Senta, Jasão!
Tranqüilo, por tal fato que te incrimina!”

“Cai bem a ti deixar Héracles para trás
Cuja fama ofuscaria os teus atos,
Caso os deuses concedam nosso retorno.
Mas do que adianta ficar em relatos?”
Eu retornarei, ao contrário de ti,
E teus comparsas traidores e ingratos!”

Em seguida, Télamon correu até Tífis
Com olhos, tomados por raiva, flamejantes
Assim, pelo golfo, retornariam à Mísia
Contra as rajadas de ventos incessantes.

Mas Zetes e Callais, os filhos de Boreas
Impediram Télamon de fazer mudança.
Infelizes! Mal podiam imaginar,
Que Héracles após buscaria vingança.

Pois em seu retorno, no funeral de Pélias,
Por Héracles, em Tenos, terão sua morte.
Sendo enterrados em túmulos de terra
Que oscilarão com vento forte do norte.

Esses eventos ocorrerão no futuro
Mas, agora, sob a nau, surgiu no mar
Glauco, o sábio intérprete de Nereu,
Que cabeça e peito está a levantar:

“Por que desejam tanto levar Héracles
Contra o desejo do poderoso Zeus?
Seu destino é completar doze trabalhos,
Por Argos, ao tão insolente Euristeu.”
Então não tenham qualquer arrependimento.
Pois assim ele ascenderá como um deus.”

“Nem a Polifemo que fundará na Mísia,
Na foz de Kios, uma famosa cidade.
Nem a Hilas quem a ninfa apaixonada
Tomou como marido por sua vontade.”

Glauco mergulha sob as inquietas ondas
Turbilhonando a água ao seu redor.
E enquanto marolas atingem a nau,
Os nossos heróis sentem-se melhor.

Telamon então aproxima-se de Jasão
E apertou a sua mão, tendo falado:
“Jasão, não fique chateado comigo.
Pois, agora eu sei que estou errado.

“Pois foi a tristeza que forjou em mim
Frases insuportáveis e arrogantes.
Vamos oferecer o meu erro ao vento
E voltemos a ser amigos adiante.”

O filho de Esão respondeu em seguida:
“Amigo, apesar desse tão vil insulto
Dizendo que tive má fé contra bons homens.
Não guardo mágoa. Tu tens o meu indulto.”

“A acusação não foi por cabras ou posses.
Mas contra um homem. Contra um companheiro!”
No entanto, só espero que me defenda
Quando vir a surgir momento verdadeiro!”

Assim, ambos sentam. Unidos como antes.
Mas, aos outros, Zeus tomou a decisão.
Um, Polifemo, sobre o Kios na Mísia
De uma cidade, fará a fundação.

O outro, Héracles, volta aos trabalhos,
Que Euristeu muito tem-lhe enviado.
Mas, antes, ameaçou devastar a Mísia.
Se Hilas não fosse então localizado.

Assim, os misianos deram os seus filhos
Prometendo a busca não parar também.
Até hoje, ainda perguntam por Hilas
E pela prole, na Tráquis, como refém.

E o Argo, por todo dia e toda noite,
Foi levada pelo vento com seu pode.
Pela costa, continuaram o percurso,
Remando juntos, até o amanhecer.

Apolônio de Rodes: Argonautica I (957-1362)
Tradução: Pedro Cavalcanti

 

Parte 5: O Profeta

 

Lá estavam as fazendas e os estábulos
De Amico, da Bebrícia, governante.
Nascido  de Poseidon e da ninfa Melie,
Dentre homens, era o mais arrogante.

Mesmo aos estranhos criou uma lei.
Pra passar, deveriam vencê-lo em combate.
Assim muitos foram mortos por esse rei.
E, à nau, ele foi lançar tal disparate.

Ele não quis saber quem eram os heróis.
Ou quais eram os motivos da viagem.
“Ouçam, viajantes, algo devem saber.
A quem desembarca, é negada passagem!”

“Da Bebrícia, apenas podem partir,
Quem, apenas com punhos, derrotar a mim!
Então tragam o melhor dentre vocês.
Aqui, pra lutar comigo até o fim!”

“Mas caso, não acate este meu decreto,
Tristeza cairá sobre todos. Fique certo!”
Assim falou Amico com sua arrogância
E, nos heróis, todo ódio foi desperto.

Polideuces quem bradou dentre os colegas.
O mais furioso com a tal ameaça:
“Pare já esse furor! Quem pensas que és?
Aceito duelo qual queres que alguém faça!”

O rei virou os olhos para Polideuces
Tal qual leão atingido por uma lança
Que mesmo cercado por muitos caçadores
Cheira quem primeiro atacou-o e avança.

Polideuces retirou o bem-feito manto,
Por donzela de Lemnos, presenteado.
O rei jogou capa negra de dupla ponta
E fivela com nó de oliva amarrado.

Um lugar foi escolhido aos colegas
Sentarem, de cada lado na areia dura,
Desses lutadores em nada semelhantes,
Ao contemplar, nem em forma ou estatura

O rei lembrava filhos de Gaia ou Tifão.
Desafiantes de Zeus. Monstros soturnos.
E Polideuces era qual uma estrela
Cujos raios reluzem nos céus noturnos.

Assim era Polideuces, filho de Zeus,
Com face corada e um olhar brilhante.
Mas poder e fúria de besta selvagem
Enquanto lança seus braços adiante
Para testar se estavam entorpecidos
Após trabalho do remo debilitante.

Ámico, ao lado, manteve o silêncio
Com os olhos fixos no seu oponente.
Crescendo nele o desejo de atacar
E arrancar do peito o sangue ardente.

E, Licoreu, o escudeiro de Ámico,
Estava no meio, pro combate vindouro
Enquanto estavam, aos pés dos lutadores,
Luvas feitas do seco, cru e duro couro.

Então o rei falou com frase arrogante:
“Eu entregar-te-ei a qualquer um amigo,
Para que tu não venhas a me culpar
Do que vir a acontecer aqui contigo!”

“Amarre tuas mãos para que aprendas
E, a todos que encontrar, então repasses
Minhas habilidades em tingir de sangue
O couro das luvas e as oponentes faces.”

Mas Polideuces não respondeu ao insulto
Pondo as luvas com um sorriso no rosto.
Que, por Castor e Talau, foram atadas
Enquanto mais ânimo lhe era disposto.

Até Ámico, foram Areto e Ornato.
Coitados! Eles não tinham compreensão,
De que esta seria a última vez,
Que atavam as luvas do seu campeão.

Agora, ambos estavam frente a frente
Com as luvas prontas, em cada lateral.
Assim levantaram seus pesados punhos
Equiparando-se num combate mortal.

Nesse momento, veio o rei da Bebrícia
Como a crista de uma onda feroz,
Que eleva-se sobre um hábil capitão,
Prestes a quebrar em seu navio veloz.

Tal qual evita o astuto capitão
O choque da onda contra seu bastião
Assim, o filho de Tíndaro escapa
Mas o rei segue atacando o campeão.

Sempre ileso dos ataques incansáveis,
Polideuces observa, no seu agressor,
Onde ele era invencível em força
E percebendo onde era inferior

E pondo-se a retornar golpe por golpe,
Como carpinteiros que lançam seu martelo
Contra os pregos nas madeiras dos navios,
Assim ressoaram os golpes no duelo.

As faces e mandíbulas são atingidas.
Dentes rangem em cada lado dessa briga.
Mas eles continuam os fortes ataques
Até serem atingidos pela fadiga.

E assim afastaram-se um do outro
Ofegantes, limpando, da testa, o suor.
Apenas para ao ataque logo voltar
Como dois touros em fúria maior,
Rivais por uma tão bela novilha,
Pastando na campina ao seu redor.

Ámico, eleva-se na ponta dos pés
Golpeando como quem abate o gado.
Mas o ataque passa sobre o ombro,
Ao Polideuces desviar-se para o lado.

O herói lançando o joelho à frente,
Com seu punho, atinge-o bem no ouvido.
Assim Ámico cai morto em agonia
Com cada osso dentro dele destruído.

Enquanto todos comemoravam vitória,
Bebricianos levantaram clava e lança.
E correram direto contra Polideuces
Por honra ao rei, desejando-lhe vingança.

Mas cada herói levantou em sua frente,
Defendendo-o com afiada espada.
Primeiro, Castor atingiu um na cabeça
Que caiu nos ombros, ao meio, cortada.

Depois Polideuces contra Itimoneu
Golpeou seu peito, jogando-o na encosta.
E, contra Mimas, lançou seu punho direito
Na pálpebra, deixando a órbita exposta.

Mas Talau, filho de Bias, foi atingido
Pelo bronze de Oreides, o insolente.
Arranhando a pele abaixo do cinto,
Mas não perfurou a carne internamente.

Também ferido, Ífito, filho de Eurito,
Porém não foi acometido por vil sorte
Pois Aretus, quem golpeou-o com clava,
Pela espada de Clítio, sofreu morte.

Anceus, destemido filho de Licurgo,
Lançou em fúria o seu grande machado.
Na mão esquerda, tendo escudo de urso
Com Jasão, Peleu e Télamon ao seu lado.

Como ovelhas assustadas no inverno
Longe do pastor e do cão farejador
São perseguidas pelos lobos caçadores
Assim Bebricianos fogem em terror.

Ou como abelhas que voam da colmeia
Quando joga fumaça, o apicultor,
Assim eles espalharam pela Bebrícia
Proclamando a morte do rei com clangor.

Tolos! O anúncio trouxe-lhes grande mal,
Pois foi então devastada sua terra,
Pela lança de Lico de Mariandini.
Quem, por minas de ferro, estavam em guerra.

Com suas casas e fazendas destruídas
Heróis tomam rebanhos fazendo alardes:
“Imaginem se estivesse aqui Héracles
O que aconteceria com esses covardes!”

“Era certo não haver disputa de punhos
A clava faria o rei  esquecer vaidade.
Ter deixado Héracles para trás na praia
Foi uma grande irresponsabilidade.”

Após falar do fardo forjado por Zeus
Pela noite, eles trataram os feridos.
Fizeram sacrifício e noturna ceia,
Porém pelo sono não foram atingidos.

Os heróis lançaram amarras na costa
Com lira de Orfeu, entoando canção.
Nesta praia encantada por melodia
Celebrando Polideuces, seu campeão.

Quando o sol nascente acordou pastores
Brilhando assim nos montes orvalhados,
Eles soltaram suas amarras da árvore
Pondo na nau todos despojos tomados.

Quando bons ventos levavam pelo Bósforo.
Em frente surgiu uma onda tamanha.
Tão alta que eleva-se sobre as nuvens
Do tamanho de uma íngreme montanha.

Como neblina, envoltos por tal fúria
Os heróis nunca teriam sobrevivido
Se não fosse talento do capitão Tífis
Que, mesmo ileso, ficou bem dolorido.

No dia seguinte, partiram da Bitínia
Assim navegando para oposta costa.
Ao lar de Fineas, filho de Agenor,
Quem sofreu punição pelos deuses imposta.

Ele recebeu, de Apolo,  dons proféticos
Porém muito revelou dos planos de Zeus.
Assim foi punido com tão longa idade
E cegado, tomando luz dos olhos seus.

Também foi privado das tão boas comidas
Trazidos por habitantes da região
Quando perguntam-no de sagrados conselhos
Pois surgem das nuvens até o chão
As vis harpias com os seus bicos curvos
E tomam toda comida da sua mão.

Essas Harpias só deixam o necessário
Pra que possa viver e ser atormentado,
Mas os restos ficam com fedor repugnante
Que ninguém suporta nem ficar ao lado.

O oráculo de Zeus havia lhe revelado
Sobre os homens para sua libertação.
E quando ouviu a chegada dos heróis
Soube ser os homens da tal revelação.

Fineas ergueu do sofá com seu cajado.
Tocando nas paredes, mancou à saída.
Pernas tremiam com fraqueza da idade
E a pele seca estava encardida.

Deixando o salão com joelhos cansados,
Ele deitou ao final da sua sacada.
Sendo tomado por um negro estupor
Em transe, sem força ou palavra falada.

Os heróis cercaram-no maravilhados
Quando suspirou profecia do seu peito:
“Ouçam, os mais bravos dentre os Helenos,
Que por vil comando do rei buscam um feito.”

“E são os tripulante do navio Argos
Sob comando de Jasão, até o Tosão.
Se esses heróis são realmente vocês,
Eu sei por meu poder de adivinhação.”

“Graças a ti, Ó, Apolo, filho de Leto,
Pois estou imerso em vil aflição.
Rogo-vos por Zeus, deus dos suplicantes,
E rival dos homens de pecadora ação.”

“Rogo a Hera e o brilhante Apolo
Cujos cuidados trouxeram vós até aqui.
Salvem-me! Resgatem-me da minha miséria!
Não deixem-me quando a sua nau partir!”

“Fúrias não tomaram só minha visão
E minha velhice arrastaram sem fim.
Mas tenho uma ainda maior angústia:
Harpias vindas de antro vil até mim.”

“Impedem comida chegar na minha boca
E não há nada que consiga evitar.
É mais fácil tentar esquecer a fome
Do que as tão velozes Harpias no ar.”

E se, por um acaso, deixam algum resto,
Esta comida tem insuportável fedor.
Nem alguém com uma alma adamantina
Suporta aproximar com todo seu ardor.

“Mas que necessidade vil insaciável,
Obriga-me engolir em ventre maldito”
Mas filhos de Boreas vencerão as pestes
Como augúrio por oráculo descrito.”

“Pois eu sou Fineas, filho de Agenor,
Antes famoso por riqueza e profecia.
Que governava na Trácia com Cleópatra,
Outra filha de Boreas, como companhia.”

Tal relato causou tristeza nos heróis.
Nos filhos de Boreas, principalmente.
Zetes, ao aproximar, enxugou as lágrimas.
E falou, segurando-o na mão, gentilmente:

“Ó Infeliz! Não há outro tão lastimável.
Porque foi-lhe causado tanto sofrimento?
Foi loucura que lhe fez pecar contra deuses?
Utilizando o seu profético talento?”

“Por isso que eles indignaram-se tanto?
No entanto, ajudar-te é nossa reação.
Se os deuses permitirem tal privilégio,
Pois é clara a tua reprovação.”

“Pois nós nunca combateremos as Harpias
Até jurar que não perdermos nossos dons.”
Então Fineas abriu seus cegos olhos,
E respondeu Zetes com os seguintes tons:

“Silêncio, criança, pois tais pensamentos,
Não deixes acumular em teu coração.
Deixes Apolo, quem ensinou-me augúrios,
Ser testemunha de minha condenação.”

“Também da negra nuvem em meus olhos
E dos poderosos deuses das profundezas.
Caso eu engane vocês, eu devo morrer.
Ira nenhuma vos cairá. Tenhais certeza.”

Então, ansiosos em ajudar o velho,
Os heróis prepararam uma refeição
Era um último alvo para as Harpias
Pois os heróis tinham as espadas na mão.

O ancião mal tocou na sua comida,
Quando Harpias surgiram como relâmpago.
Arremessadas das nuvens ao alimento
Desejando a comida forte em seu âmago.

Quando os heróis gritaram ao ataque,
Já no ar, elas tinham tudo devorado.
Apenas ficou o fedor insuportável.
Assim iniciou-se encalço alado.

Os filhos de Boreas levantaram armas
Com forças incansáveis, por Zeus concedidas.
Pois as Harpias ao vencer ventos do oeste
Sem tais forças, nunca seriam perseguidas.

Como cães de caça nos vales da montanha
Perseguindo bodes de chifres e veados
Mas ao lançar o seu ataque sem sucess
Ouve-se ranger dos dentes sendo chocados.

Assim Zetes e Callais atacam as Harpias
Porém só as pontas dedos são encostadas.
Mas as pestes seriam feitas em pedaços
Quando nas Ilhas Flutuantes alcançadas.

Mas Iris veloz impediu suas espada
Ao saltar do céus com a frase professa:
“Não vos é lícito assassinar as Harpias
Assim tal ataque neste momento cessa.
Agora elas ficarão longe de Fineas.
Ó, Filhos de Boreas. É minha promessa!

Iris fez juramento pelas águas do Estinge,
Ao panteão, o mais terrível e maldito.
Que Harpias ficariam longe de Fineas
Assim, pelos deuses, estava escrito.

Ambos heróis rendendo-se ao juramento
Então voaram de volta à sua nau.
E, das Ilhas Flutuantes antes chamadas,
“Ilhas do Retorno” é o nome atual
.
A Harpias partiram ao lado de Íris
À Creta Minoana com alado salto.
Depois aceleraram até o Olimpo
Com velozes asas, voando bem alto.

Nesses tempo, os heróis banharam o velho
Dos despojos, sacrificaram cabra melhor.
E, ao oferecer a Fineas um banquete,
Qual sonhos, devorou tudo ao seu redor.

Todos encheram-se de comida e bebida
Aguardando filhos de Boreas retornar.
E Fineas sentou, no meio, à lareira
Do fim da jornada, pondo-se a contar:

“Ouçam! Nem tudo é licito conhecer
Mas a vontade divina não vou esconder.
Fui arrogante outrora ao revelar,
De Zeus, toda sua vontade e poder.”

“Pois é desejo do próprio divino Zeus
Entregar incompleta a profética arte.
Para, aos homens, ainda ser necessária
A vontade celestial da sua parte.”

“Primeiro, vós observareis as rochas gêmeas
Onde ambos os mares se encontrarão.
Não fixas, as rochas batem uma na outra
Nunca ninguém escapou de tal colisão.”

“Após travessia, surge fervente crista
Que, d’água salgada, quebra na beira-mar
Por isso, deveis escutar o meu conselho
Se tua jornada desejais continuar.”

“Se, com prudente mente e benção divina,
Não desejais ter alguma inútil morte
Causada da pressa por juventude guiada
Um pombo então revelará a vossa sorte.”

“Caso o pombo escape ileso das rochas,
Não deveis, ao mar aberto, abster caminho.
Pois, mais que oração, vale força nos remos
Na travessia deste estreito marinho”

“Esqueceis tudo. Remais com todo poder.
Só depois, como quiserdes, podeis orar.
Porém vós deveis todos retornar veloz
Caso as Rochas atinjam pombo no ar.”

“Nunca poderão escapar do vil destino,
Mesmo que o Argo fosse todo de ferro.
Infelizes, serão todos os transgressores
Deste conselho que vos conto tão descerro.

“Mesmo eu, detestado por filhos do céu,
Ainda mais do que podem imaginar,
Não deveis navegar contra o meu augúrio,
Ou esse mal vos cairá. Ó, como cairá!

“Mas, caso atravessais ilesos as rochas,
Através do Pontus, navegais pela costa.
Percorrendo mar da Bitínia na direita
Com a força, dos quebra-mares, contra-posta.

“Depois do rio Rhebas e da praia negra
Na ilha de Tínias vós tereis chegado.
Onde seu barco deve ir à beira-ma
Para ser, em Mariandini, ancorado.”

“Lá há um caminho à morada de Hades
Pois o rio Aqueron cai em desfiladeiro.
Próximo das colinas da Paflagônia
Onde, qual clamam, Pélope reinou primeiro.”

“Depois, vem Carambis, oposta a Hélice,
Onde, de todos os lados, há altos montes.
Assim separando os ventos do norte,
Tão altos que atingem os mares defrontes“

“Surge Egialo estendendo a frente
Com o rio Halis terminando na foz.
Cujas águas então ressoam terríveis
Até o mar em turbilhão branco feroz.”

“Vindo da terra surge cabo imponente
E foz do Termodon após grã travessia.
Onde, nos campos de Deas, na Temiscira,
Em três cidades, o povo Amazona vivia .”

“Depois vem Calibes de solo áspero
Cujo povo sofre trabalhando com metais.
A seguir, Tibareni de ricos rebanhos
Passando Genetes, terras do Zeus da paz.”

“Na fronteira, estão florestas dos Mossines
Que moram nas casas em torres de madeira.
Enfim devem ancorar em deserta ilha
Vencendo aves vis que assombram a beira.”

“Lá, rainhas Amazonas, Otrera e Antiope,
Em guerra, construíram, a Hades, um templo.
No local, a vós, surgirá grande ajuda.
Assim, todos deveis ficar lá, eu contemplo.”

“Além da ilha, há os Filires na costa.
Depois, os Macrones. E Bequeiris enfim.
Nas fronteiras, os Sapeires e os Bízeres.
E, concluindo, os Cólquidas ao fim!”

“Em Cólquida, chegareis nos limites do mar
Onde, nascendo do Amarantino monte,
O rio Fásis então atravessa a Círcea
E, na Cítea, extravasa ao mar defronte.”

“Vós contemplareis as torres de Eetes
Navegando a nau através desta foz.
Também os sombrios bosques de Ares
Onde encontrareis o Dragão sobre vós.”

“O vil Dragão, tão terrível de contemplar,
Observa tudo ao redor com sua visão.
Dia e noite, com seus olhos incansáveis
Guarda, no topo de carvalho, o Tosão.”

Terror atingiu todos após tal relato,
O local foi, por longo silêncio, tomado.
Até o filho de Esão então proferir
Ainda pela vil situação impressionado:

“Ancião, tu contastes dos nossos trabalhos
E como as Rochas devemos atravessar.
Mas, após sobreviver a tantos perigos,
Qual caminho de volta devemos tomar?”

“Tão ignorantes em mares desconhecidos,
Como poderemos cruzar tais oceanos?
E ainda mais esses que ficam em Cólquida
Beirando Pontus, ao fim dos mapas humanos!”

Depois do filho de Esão assim falar,
Fineas respondeu com anciã postura:
“Após atravessar as rochas, nada temas.
Deuses guiarão vós por travessia dura.
Mas deves orar por Cípria Afrodite
Pois, desta deusa, depende a aventura!”

Apolônio de Rodes: Argonautica II (1-424)
Tradução: Pedro Cavalcanti

 

Parte 6: A Travessia

– Em Breve!