Cenário

As mais antigas escrituras revelam que a Terra já foi toda coberta por águas. Não se sabe o que havia antes. No entanto, um homem teve origem de um mundo anterior que fora destruído pelo grande dilúvio. O sobrevivente deste dilúvio desembarcou de uma Arca com sua família para iniciar a humanidade como a conhecemos hoje. Desde então, a história dos homens é dividida em três períodos históricos chamados respectivamente de Ouro, Prata e Bronze conforme a vida se tornou mais dura e cheia de dificuldades.

O Passado

Lovis Corinth (1858–1925)

A Era de Ouro começou após o grande dilúvio quando os homens se multiplicaram pela Terra. Existia apenas o Deus-Criador que era conhecido como o “Céu”, pois habitava além das nuvens e protegia a humanidade. Os homens viviam muitas centenas de anos sem nunca envelhecer e tinham despreocupado coração; pois o Céu produzia na Terra toda água, alimento e abrigo que necessitavam. Era tudo simples e perfeito. No entanto, novas divindades começaram a surgir. Os novos deuses viviam em contato direto com os homens clamando-os para si como suas próprias criações e os ensinando os segredos do fogo, da agricultura e da engenharia. Eles assim participaram na fundação das cidades Sumérias, na construção das pirâmides Egípcias e no desenvolvimento da civilização Atlântida. O Deus-Criador então parou de produzir frutos sobre a Terra, se tornou infértil aos homens. Esse evento ficou conhecido como “A Castração do Céu” e foi o começo de uma nova era na qual o sofrimento se tornou parte da vida diária dos homens.

A Era de Prata se iniciou quando os homens passaram a aprender os segredos do mundo. O orgulho, a vaidade e a sede por poder os fez pensar que o terreno era mais importante que o divino; e que os deuses eram obrigados a ajudá-los em troca da sua adoração. Os homens não mais prestaram as devidas honras e começaram a valorizar a si mesmos acima de tudo. Eles escreveram suas próprias leis. Criaram sua própria hierarquia. Ergueram grandes torres para demandar a presença de suas divindades. E assim o caos tomou conta. Guerras ocorreram não só entre os homens, mas também entre os deuses que passaram a disputar a adoração humana. As consequências dessa discórdia foram sentidas por todas as civilizações quando uma grande erupção aconteceu no umbigo do mundo, bem no meio do mar da Talassa. Rochas flamejantes foram arremessadas ao firmamento. Cinzas crepitaram pela vasta mata queimada. O fogo avançou pelos vales entre as rugosas montanhas. O solo estremeceu retumbante. E ondas gigantes engolfaram as cidades costeiras. Esse evento ficou conhecido como “A Alvorada em Chamas”.

Alessandro D’Anna 1746-1810

A Era de Bronze começou após a catástrofe que foi enxergada de diferentes formas pelos vários povos da Terra. Os helenos entenderam que as rochas arremessadas nos céus eram uma batalha entre deuses. Os mesopotâmios entenderam que os tremores no solo sagrado eram os passos dos deuses abandonando suas cidades. Para os egípcios, a nuvem cinzenta que os envolveu era uma maldição estrangeira. Para os israelitas, o mar que se abriu os conduziu a uma terra prometida. E, para os cretenses, as ondas gigantes que afundaram sua antiga capital significaram um recomeço. As explicações para o fenômeno foram muitas, mas não há dúvidas que o o mundo nunca mais foi o mesmo desde então.

A Era Atual

Mais de quatrocentos anos se passaram desde o catastrófico evento que marcou o início da Era de Bronze.  Ao longo desse período, o mundo foi se dividindo em seis grandes civilizações cujas muitas cidades estão unificadas pelas mais diferentes razões. Seja por um governo central, por alianças políticas, por rotas comerciais, por identidade cultural ou por força militar, os governantes dessas civilizações exercem grande poder sobre os seus povos. As terras dessas seis civilizações e os seus reis atuais estão listadas abaixo:

    • Hélade, a liga das cidades independentes; representada pelo rei Euristeu;
    • Creta, a civilização sobre embarcações; administrada pela sacerdotisa Pasifäe.
    • Egito, o império de dois mil anos, controlado pelo faraó Ramsés;
    • Ásia, o campo de batalha dos deuses; subjugado pelo déspota Salmanezer;
    • Canaã, a terra do Deus Único; orientada pelo sábio monarca Salomão;
    • Europa, o mundo sem civilizações, vislumbrado pelo chefe Latino.

O mundo hoje está num período de intenso comércio e diplomacia entre essas seis civilizações que se comunicam através do mar da Talassa. Embaixadores e caravanas conhecem bem os caminhos para se chegar em cada uma de suas cidades tão bem quanto conhecem os pesos e medidas de cada povo para as trocas comerciais. Existe mais do que um relacionamento íntimo entre essas civilizações, na verdade, elas são totalmente dependentes umas das outras. Desde que labaredas surgiram no céu e os mares invadiram a terra, é impossível descrever a história de uma nação sem mencionar a influência das outras.

Todos os grande sábios profetizam que o futuro das mesmas nações também está entrelaçado. Eles dizem que a interdependência destas civilizações as fortalece, pois, sempre que uma estiver em dificuldade, ela se sustentará nas demais. No entanto, os profetas mais catastróficos dizem que, da mesma forma que uma mesa de jantar não se sustenta sem os seus pés, basta que o elo mais fraco se quebre para a ruína atingir a todos. E, quanto maior for o ponto alto das civilizações, maior será a sua queda. Assim eles já profetizam que “O Colapso das Civilizações” é iminente e a “Era das Lamentações” está próxima!

A Cronologia

Quatrocentos anos já se passaram desde que o céu se encheu de chamas e a terra foi engolida por ondas gigantes. Foram quinze gerações desde que o mundo mudou por completo. Novas dinastias ascenderam. Antigas nações foram subjugadas. E poderosas civilizações floresceram. Os homens da nova Era se Bronze fizeram registros para seguir suas linhagens até o seu antepassado que testemunhou a tão fatídica alvorada de fogo. Os principais eventos ocorridos nessas quinze gerações estão descritos abaixo.

1ª. Geração:

    • Os profetas afirmaram que os tremores de terra na Ásia eram realmente os passos dos deuses abandonando sua cidade principal. As divindades tomaram nova residência na cidade de Hattusa, que foi abençoada no seu “Saque à Babilônia”. Esse foi o começo do domínio Hitita na região.
    • A devastadora onda gigante que destruiu as terras do Hélade recuou de volta ao mar. A embarcação do sobrevivente Deucalião tocou a terra firme do monte Parnasso. Os seus descendentes e os povos aquáticos começaram a se reunir nas ruínas das antigas cidades para recomeçar suas povoações.
    • O sangue nas águas e a grande nuvem de escuridão que assolou o rio Nilo se dissipa após a fuga dos seus escravos israelitas da região. Começa o período mais obscuro da história egípcia quando um exército estrangeiro chamado de Hicsos aproveita o caos para invadir suas terras.

2ª Geração

    • Desde que foram perseguidos pelo faraó do Egito e após vagar por décadas, o povo de Israel finalmente chega à terra prometida pelo Deus Único. O líder militar Josué começa a “Conquista de Canaã” para livrar esse território da crença em falsos deuses que dominaram a região.
    • As primeiras cidades do Hélade são fundadas sobre a devastação das ondas gigantes. A primeira delas é a cidade de Argo, fundada por Foroneu, filho do oceanida Ínaco, que logo se tornará o centro urbano mais importante da região.

3ª Geração

    • As terras de Canaã são divididas entre as doze tribos de Israel após sua vitória contra os povos dos falsos deuses. Um Juiz é designado para cada região com o objetivo de manter a ordem. A Arca da Aliança, onde está contida as leis do Grande Profeta, é levada ao monte Siló onde um templo é erguido em homenagem ao Deus Único.

4ª Geração

    • A “Grande Batalha” encerra décadas de uma guerra ferrenha que envolveu homens e deuses no rio Nilo quando enfim o faraó Amósis expulsa os invasores Hicsos das terras do Egito e inicia uma nova dinastia.

6ª Geração

    • O Egito retoma enfim suas glórias passadas com a campanha expansionista do faraó Tutmés. O império do Rio Nilo volta a se tornar uma potência militar com seu domínio sobre as terras de Canaã e da Núbia, assim como inicia tratados comerciais com todos os povos do mundo.

7ª Geração

    • A princesa Io da cidade de Argo é levada como gado para longe de sua terra natal no Hélade por mercadores escravistas. Ela chega até o Egito onde recebe o nome de Iset e se torna a segunda esposa do faraó Telégono, conhecido entre os egípcios pelo nome Tutmés II. Ambos Iset e Tutmés tiveram juntos o filho chamado Épafo.

8ª Geração

    • O príncipe Épafo se torna o rei do Egito em razão do seu pai Tutmés II não produzir filhos com sua primeira esposa. O jovem toma para si o nome do seu pai e se torna o novo faraó Tutmés III.

9ª Geração

    • O faraó Amenófis começa uma perseguição ao irmão Dánao que foge do Egito até a cidade de sua antepassada Io (Iset). Ele é muito bem recebido na cidade de Argo pelo rei Pelasgo, que lhe concede asilo. O rei Pelasgo de Argo, por não possuir herdeiros e agradecido pelas avançadas técnicas de irrigação trazidas do Egito, escolhe o asilado Dánao como seu sucessor.
    • Após séculos de abandono desde que a cidade de Atlântida afundou no mar da Talassa e as cidades insulares foram engolfadas pelas ondas gigantes, a cidade de Cnosso é fundada na ilha de Creta por imigrantes oriundos do Hélade.

10ª Geração

    • A princesa Europa das terras de Canaã é raptada no seu palácio real. Ela é levada à ilha de Creta onde se casa com o líder local Astério. Ela se torna a primeira sumo-sacerdotisa do culto à Deusa-Mãe na região. Ninguém poderia imaginar que esse seria o início de um grande império comercial que dominaria os sete mares da Talassa.

11ª Geração

    • Ocorre nas terras do Hélade a “Guerra dos Gêmeos” entre os descendentes de Dánao pelo trono da cidade de Argo. O vitorioso desse conflito é o rei Acrísio, que se torna infame por arremessar sua filha Danaã ao mar para evitar uma terrível profecia.

12ª Geração

    • O herói Perseu, filho da princesa Danaã que sobreviveu após ser jogada ao mar, causa a morte do seu avô Acrísio num trágico acidente. Perseu se nega a assumir o trono de Argo por vergonha e deixa a cidade em autoexílio. Ele funda a cidade de Micenas que em pouco tempo se torna a mais influente e importante de todo o Hélade.
    • O general Horemheb confronta a rebelião humana liderada pelo faraó herético Aquenáton que desafiou os próprios deuses ao proclamar o culto a um único deus como a verdadeira religião no Egito. Após dezessete anos, os sacerdotes da antiga religião conspiram para retomar o poder
    • O líder guerreiro Davi é escolhido como o rei das Doze Tribos de Israel, iniciando assim uma monarquia centralizada após quatrocentos anos de desorganização política. A Arca da Aliança, onde está contida a leis do Grande Profeta, é levada para a cidade de Jerusalém, que se torna a capital do novo reino unificado.

13ª Geração

    • A viúva do faraó Aquenáton se vê cercada por inimigos e negocia uma aliança através de um casamento com o filho do imperador hitita que domina a Ásia. No entanto, a conspiração assassina o seu noivo estrangeiro e aprisiona a rainha herética. O novo faraó Horemheb sobe ao trono egípcio e risca o nome dos blasfemadores dos registros históricos.
    • O rei Perseu é morto por uma terrível conspiração e seu espírito ascende aos céus na constelação que recebe o seu nome. O herói é vingado por seu filho Eléctrio que assume o trono de Micenas e se torna o representante dos povos do Hélade que passam a chamar a si mesmos pelo nome da matriarca “Danaã”.

14ª Geração

    • Os povos de Danaã se unem numa aliança para combater as forças do império de Creta que declarou guerra contra um rei local por motivos mesquinhos. Surpreso com tal aliança, o líder militar Minos aceita uma solução diplomática em troca do envio de sacrifícios humanos a cada nove anos para Creta.
    • Uma guerra civil atinge as terras de Canaã. A monarquia recentemente fundada pelo rei Davi entra em crise com a crescente insatisfação popular no governo do seu filho Salomão, que mantém os altos impostos mesmo após finalizada a construção do Grande Templo. O líder revoltoso Jeroboão tenta iniciar uma revolta, mas após descoberto foge para o Egito, onde recebe asilo político do faraó Ramsés.
    • O novo faraó Ramsés, logo que ascende ao trono egípcio, decide acabar com seus seculares inimigos hititas com quem os egípcios guerreiam desde os tempos do faraó Horemheb.

15ª Geração

    • O Egito, após derrotado na batalha de Kadesh, aceita a paz proposta pelos reis-irmãos de Hattusa. Todos entendem que essa guerra já custou caro demais a ambos os lados. O faraó Ramsés se compromete a assinar o “Tratado da Eterna Paz” que será selado através de seu casamento com a princesa Maathor-Nerferure de Hititas.
    • A Ásia está em seu momento de maior tensão com o império de Hattusa em frangalhos após a guerra contra o Egito. Os exércitos da Assíria se expandem ao leste enquanto as cidades a oeste se revoltam contra seu controle. Um grupo de aventureiros helênicos chamados de Argonautas assediam seus vassalos ao norte enquanto refugiados famintos abandonam suas terras ao sul.
    • A Europa é uma terra selvagem e atrasada que, embora seja conhecida há séculos, nunca houve o desejo de explorá-la. Essa situação mudou com as recentes explorações por colonizadores cretenses na Sicília, por piratas helenos na Crotônia e por refugiados asiáticos na Tirrênia.
    • O Hélade aceita o perdão que o líder Euristeu concedeu ao poderoso Héracles, que é descendente direto do rei Perseu e cometeu o terrível crime ao assassinar a própria esposa e filhos. Ele não será condenado à morte, mas antes deverá usar sua força sobre-humana para livrar o Hélade de suas mais terríveis pragas.
    • A Creta se prepara para receber as novas oferendas humanas que suas colônias helênicas são obrigadas a enviar a cada nove anos. O ritual de sacrifício desta terceira vez contará com o príncipe ateniense chamado Teseu, que se voluntariou para enfrentar o Minotauro até a morte.

Hélade

A Liga das Cidades Independentes

Philippo Foltz 1805 – 1877

Após derrotar seu pai Kronos na grande batalha contra os Titãs, quando rochas flamejantes alcançaram o céu e ondas gigantes invadiram a terra, Zeus montou um palácio nos picos nevados do monte Olimpo onde poderia assistir a sua maior criação, os homens, viverem suas vidas. Afinal, milênios antes, contra sua vontade, os homens aprenderam a manipular o Fogo e começaram a desvendar os segredos do mundo. Zeus então enviou-lhes a primeira mulher Pandora com todos os males da existência. Os homens passaram a trabalhar para sobreviver, se entregaram à cobiça, iniciaram guerras e firmaram alianças. Assim, a destruição da Alvorada de Fogo se mostrou um recomeço que alcançou seu esplendor através da civilização hoje conhecida como Danaã.

    • Governante: Euristeu de Micenas.
    • Deuses: Zeus e o panteão dos olimpianos.

A História

Séculos se passaram desde o início da Era de Bronze quando chamas alcançaram os céus e ondas gigantes engoliram as antigas cidades do Hélade. Não demorou para estas se reerguerem e logo centenas de cidades independentes estavam guerreando entre si. O rei Acrísio governava Argos, a mais poderosa delas. Como esse rei não tinha um filho varão e estava preocupado com sua sucessão, ele consultou o Oráculo de Delfi. Este o revelou que seria morto e sucedido pela primeira criança nascida de sua filha Danaã. No entanto, Acrísio não esperava que o pai da criança fosse o próprio Zeus. Quando o neto nasceu, Acrísio foi incapaz de matar a descendência de um deus e a sua própria. E, para fugir da terrível profecia, enviou Danaã e seu filho à ilha de Sérifos para nunca mais voltar. A criança recebeu o nome de Perseu e cresceu junto aos pescadores locais. E, quando atingiu a maioridade, ele partiu da ilha em busca de desafios.

Francesco Hayez 1791 – 1882

O inquieto Perseu viveu muitas aventuras em que derrotou as feiticeiras Grisalhas, decapitou a maligna Medusa, derrotou o monstruoso Ketos e salvou a princesa Andrômeda. Foi com a princesa Andrômeda que Perseu se uniu em matrimônio. Por fim, anos após esses eventos, ele retornou para cidade de Argos para conhecer o seu avô. Perseu não guardava mágoa contra o rei de Argos, que poupou a sua vida. Pelo contrário, foi até lá para agradecer. Ainda o ajudou a derrotar uma rebelião que ameaçava seu governo. Depois, partiu para evitar a terrível profecia. No entanto, o Oráculo de Delfi não erra. Durante um evento esportivo, Perseu participou do arremesso de disco. O disco, por infortúnio do destino ou culpa dos deuses, atingiu acidentalmente Acrísio e o matou instantaneamente. Perseu deveria suceder o avô na cidade de Argos, mas a vergonha e a indignação com a profecia não lhe permitiram aceitar o trono. Ele assim entregou o governo da gloriosa Argos para o seu primo Megapente.

A Política

O heroico Perseu partiu em autoexílio pela morte do seu avô até chegar na vila de Tírinto. A população desta pequena vila solicitou que Perseu os governasse. Com incomparável fama e lendária justiça, Perseu realocou parte da sua população para um novo sítio que recebeu o nome de Micenas.  Era o início de um grande império, forjado não na guerra, mas na amizade e aliança entre os povos. Em poucas décadas, a cidade de Micenas cresceu tanto em importância que hoje toda uma civilização é chamada de Danaã em homenagem à sua mãe. Esse período áureo sob o governo de Perseu durou por décadas até um infeliz incidente encerrar tudo.

Giovanni Battista Tiepolo

O rei Megapente, por pura incompetência e más decisões, contraiu dívidas que ameaçaram o futuro da cidade de Argos. Desesperado, ele participou de uma terrível conspiração, que o levou a assassinar seu amigo e co-regente Perseu. A morte do herói chocou o mundo, mas a justiça foi alcançada quando o príncipe Eléctrio, filho de Perseu, vingou seu pai ao assassinar o vil Megapente. No entanto, o rei Eléctrio de Micenas, que governava com sabedoria após o reinado do seu pai, Perseu, foi morto por seu genro Anfitrião. Embora clame que tudo foi um infeliz acidente, Anfitrião foi perseguido pelos irmãos de Eléctrio tendo que fugir para a cidade de Tebas. Uma disputa entre os seis irmãos de Eléctrio pelo trono de Micenas tomou conta, mas foi seu sobrinho, Euristeu, quem finalmente assumiu o governo da cidade.

As Cidades

Essa turbulência política que seguiu a morte do rei Perseu obrigou as principais cidades do Hélade a tomar providências para que o caos não se instalasse. Os reis mais influentes mantiveram uma importante aliança com a cidade Micenas, jurando manter a paz nos territórios ao seu redor. Essa aliança foi posta a prova há cerca de duas décadas quando a cidade de Atenas foi atacada pelo rei Minos de Creta. Felizmente, a aliança foi capaz de deter o avanço invasor e conseguir uma solução diplomática.

As cidades que hoje formam essa aliança e seus líderes atuais estão listadas abaixo.

  1. Micenas (Tírinto), a capital dos danaãs, governada por Euristeu.
  2. Argos (Argólida), a cidade guerreira, governada por Adrasto.
  3. Esparta (Lacônia), a cidade de belas mulheres, governada por Tíndaro.
  4. Pilos (Messênia). a cidade na entrada do submundo, governada por Neleu.
  5. Elis (Olímpia), a cidade do deus-sol, governada por Augeas.
  6. Tegea (Arcádia), a cidade dos licantropos, governada por Aleu.
  7. Corinto (Áquea), a cidade da travessia, governada por Pólibo.
  8. Mégara (Cária), a cidade da agricultura, governada por Tilmaco.
  9. Atenas (Attica), a cidade em submissão, governada por Egeu.
  10. Tebas (Beócia), a cidade em guerra civil, governada por Etéocles.
  11. Orcomenos (Mínia), a cidade vingativa, governada por Ergino.
  12. Delfi (Fócia), a cidade dos oráculos, governada por Náubolo.
  13. Tráquis (Dória), a cidade do portador da luz, governada por Ceix.
  14. Anfissa (Lócria), a cidade dos sátiros, governada por Hodédoco.
  15. Ftia (Tessália), a cidade dos centauros, governada por Euritião.
  16. Iolcos (Magnésia), a cidade dos valentes, governada por Pelias.
  17. Lápite (Larissa), a cidade dos guerreiros, governada por Élato.
  18. Piéria (Macedônia), o cidade da música, governada por Piero.

Leo von Klenze 1784 – 1864

A População   

Danaã é uma civilização cosmopolita e aberta a todos os povos. É comum encontrar membros de outras raças nas ruas das suas cidades, sejam moradores ou visitantes. Como uma estimativa, acredita-se que de cada três residentes deste território, pelo menos um faça parte de outros povos. O próprio fundador Perseu (e toda a família real de Argos e Micenas) é descendente de imigrantes egípcios.

A elite palaciana de Danaã são os fazendeiros, artesãos e comerciantes. Eles recebem influência do estilo cretense de se vestir com o uso de tecidos de lã. As mulheres costumam usar saias longas e camisas com um decote bem aberto entre os seios. Os homens costumam usar túnicas que cobrem todo o seu corpo. Quanto mais rica for a pessoa, mais joias costumam utilizar. Mulheres têm especial preferência por braceletes, tiaras, brincos e anéis enquanto os homens costumam decorar suas barbas e cabelos com tranças mantidas por presilhas de ouro ou prata.

Quase todas as casas de Danaã possuem ao menos um escravo enquanto os nobres e ricos possuem dezenas deles conforme o seu grau de riqueza e importância. Na sua grande maioria, esses escravos são prisioneiros de guerra ou criminosos, mas uma parte considerável vem da venda de si mesmos ou dos próprios filhos para pagar débitos ou fugir de situações de extrema pobreza. Essa é uma situação humilhante, utilizada como último recurso de um cidadão de Danaã. Afinal, um senhor de escravo tem total direito sobre suas vidas. Ele pode vender, ferir, abusar sexualmente e até matar um escravo se assim desejar.

Michel Ange Houasse 1680 – 1730

Os Relacionamentos

Não há preconceito na forma como os Helenos tratam casais do mesmo sexo e de sexo diferentes. Na verdade, os Danaãs acreditam que o ser humano deve ter várias experiências com ambos os sexos durante toda a vida e por isso são estimulados a diversos tipos de relacionamentos. Os pais não se espantam quando o filho traz um parceiro masculino para sua casa num dia e no outro leva uma parceira feminina. É simplesmente natural. O casamento, por outro lado, são sempre realizados entre homem e mulher por ter objetivo de sucessão através de filhos e a busca por cônjuges que tragam uma melhor posição social e econômica.

A prostituição também é considerada divina e sublime. Raramente, são encontrados prostíbulos que buscam simplesmente trocar o sexo por recursos financeiros. Homens e mulheres que buscam relações sexuais sem qualquer enlace amoroso buscam as “Casas de Afrodite”, onde prostitutas e michês são oferecidos pelos sacerdotes do templo aos homens e mulheres que buscam sexo casual ou orgias de caráter divino. Claro, uma doação ao templo é preestabelecida antes de tais serviços sagrados serem oferecidos. Esse é o motivo do culto de Afrodite ser tão disseminado e rico por todo o Hélade.

Noeh Halle 1711 – 1781

As Celebrações

Os cidadãos de Danaã amam festejar importantes momentos da vida, sejam casamentos, nascimentos, funerais, coroações, festivais divinos e muitos outros, com grandes banquetes após o Sacrifícios de animais. Nesses ocasiões, as partes nobres do animal são compartilhadas por todos durante o evento. A gordura é enrolada ao redor do fêmur e então queimada em fogo sagrado como oferenda aos deuses e para assim emanar sua fragrância ritualística.

Há situações especiais para celebrar na sociedade dos Danaã. Os Casamentos são realizados no verão quando os pais da noiva escolhem um marido com a reputação e riqueza que melhor conseguiram para sua filha. Os Nascimentos são celebrados no sétimo dia após o parto, quando se tem a certeza da saúde da mãe e do recém-nascido; com a casa ornamentada externamente por ramos de olivas se for um bebê masculino ou algodão se for feminino. Os Funerais se iniciam com a prestação de homenagens em frente ao corpo, com familiares e amigos de cabelos cortados bem curtos em sinal de luto, contando histórias sobre o falecido no banquete e realizando competições esportivas em tons sóbrios. Enfim, o corpo é cremado com sua ferramenta de trabalho na mão direita e um pote de mel na mão esquerda.

Uma característica importante da cultura de Danaã é o amor ao esporte. Eles realizam Jogos em quase todos os seus eventos sociais como em aniversários, casamentos, coroações e funerais. Os jogos não são apenas uma questão de diversão, mas de religião. Os dois maiores eventos regulares são exatamente os Jogos de Elêusis, em homenagem à deusa Deméter padroeira da cidade, e os Jogos de Olímpia, onde Zeus é reverenciado por ser a representação do poder. Os participantes dos jogos competem em várias modalidades: Corrida, Salto, Carruagem, Arremesso e Combate. Eles podem competir tanto em disputas individuais dessas modalidades quanto em conjunto na forma de Pentatlo. Sempre ao fim dos eventos, um grande banquete é realizado para todos que participaram e assistiram, quando são premiados os ganhadores com coroas de oliva e muitos prêmios.

Charles Amédée Philippe van Loo 1719 – 1795

Charles Amédée Philippe van Loo 1719 – 1795

Religião

O número total de deuses do panteão Danaã é enorme e possuem origem nas entidades primordiais que surgiram do grande vazio que era o Caos, incluindo o Céu, a Terra, a Água, a Profundeza e a Escuridão. Foram eles que originaram todos os monstros, espíritos, demônios e os próprios deuses. Os deuses estão divididos em duas classes: os Titãs e os Olimpianos. O primeiro grupo é formado por entidades gigantescas que preenchem o mundo e podem ser vistos até os dias de hoje: o Sol, a Lua, o Oceano, o Atlas, a Aurora, o Crepúsculo, a Destruição, o Conhecimento, a Arte, a Profecia e muitos outros. Eles já governaram toda a Terra, mas foram derrotados por uma nova geração de deuses, chamada de os “Olimpianos”. Os helenos acreditam que a Alvorada de Fogo que iniciou a era de Bronze foi uma consequência desta batalha entre os dois grupos.

Os Olimpianos assim tomaram o seu lugar no governo do mundo. Os titãs revoltosos foram jogados no poço profundo do inferno para nunca mais serem vistos por olhos mortais. Os olimpianos estão assim no poder regendo todo os homens após a vitória sobre os Titãs revoltosos. Eles representam todos os aspectos da humanidade e possuem um exclusivo culto por todo o Hélade com incontáveis sacerdotes. Esses deuses são: 1) Zeus, deus dos homens e deuses; 2) Poseidon, deus dos navegantes; 3) Hades, deus dos mortos 4) Hera, deusa da vingança; 5) Deméter, deusa da agricultura; 6) Héstia, deusa da paz; 7) Ares, deus da guerra; 8) Apolo, deus do conhecimento; 9) Hermes, deus dos viajantes; 10) Atena, deusa da sabedoria; 11) Ártemis, deusa da caça; 12) Afrodite, deusa da beleza

Os Exércitos

William Russel Flint 1880 – 1969

Cada cidade é independente para possuir o seu próprio exército. E guerras podem ocorrer entre duas cidades, como está prestes a ocorrer entre Argos e Tebas, embora isso seja cada vez mais raro desde a fundação da civilização Danaã. As cidades capitais possuem em média duzentos a quinhentos soldados em suas fileiras. As cidades médias atingem dezenas deles. E os pequenos vilarejos, que compõem a maioria das cidades de Danaã, não possuem mais que um grupo de meia dúzia de guerreiros. Em situações especiais, um rei pode reunir os exércitos das cidades independentes em campanhas maiores. O maior acontecimento dessa magnitude ocorreu após a declaração de guerra do rei Minos contra Atenas há mais de duas décadas atrás. No entanto, uma profecia conta que um grande rei micênico convocará mais de cem mil homens de todas as cidades para a guerra e quando isso ocorrer as proporções serão catastróficas.

Os soldados Danaãs vestem uma túnica sobre sua pesada armadura metálica que protege todo seu corpo. Na cabeça, utilizam um elmo ornamentado com crina de cavalo e com uma fenda em “Y” para os olhos e respiração. O grande símbolo de suas vestimentas, no entanto, é o pesado escudo circular com o emblema de sua cidade. Esses soldados utilizam duas armas. A lança é utilizada quando os soldados estão agrupados para as batalhas (formação conhecida como falange) e a espada é utilizada para combates individuais, quando fora da formação. Raramente, se usam cavalos pois o terreno montanhoso dificulta sua utilização ficando restrito aos mais nobres e líderes. A única exceção é a Tessália que vive num território de planícies e são exímios cavaleiros.

Creta

A Civilização em Embarcações

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Hendrik van Minderhout (1630–1696)

Quatrocentos anos atrás, uma grande explosão aconteceu na ilha de Thera com dardos flamejantes que alcançaram o firmamento e cinzas que crepitaram pela vasta mata queimada. O solo tremeu retumbante e as águas avançaram contra a ilha de Creta numa onda gigante que destruiu toda a sua civilização costeira e afundou a avançada capital Atlântida. Este deveria ter sido o fim da civilização cretense, mas a Deusa-Mãe ressurgiu da catástrofe. Ela foi a divindade maior que gerou filhos poderosos, os mesmo que colocaram os homens na Terra e hoje governam os muitos panteões divinos. Por séculos, a Deusa Mãe se manteve em silêncio por causa de um marido abusivo, mas quando seu cônjuge divino foi destronado pelos próprios filhos na Alvorada de Fogo, a Grande Deusa revelou novamente seu esplendor. Ela escolheu um povo para guiar através da civilização hoje conhecida como Minoana.

    • Governante: Pasifae de Cnossos.
    • Deuses: a Deusa-Mãe e todos os panteões do mundo.

A História

Os sobreviventes da catastrófica Alvorada de Fogo foram retomando suas vidas aos poucos ao longo das últimas quinze gerações. Eles haviam perdido tudo, mas a tenacidade dos cretenses conseguiu reerguer muitas de suas cidades. Também muitos navegantes estrangeiros chegaram na ilha após saberem que terras tão propícias para a agricultura estavam agora sem donos. O grande avanço, no entanto, veio quando a Deusa-Mãe decidiu intervir em favor dos cretenses. Ela enviou o seu Touro Guardião até os fenícios para trazer uma princesa dessas terras distantes. Era a princesa Europa da cidade de Tiro. Esta jovem princesa chegou na ilha e se casou com um bom homem chamado Astério, que governava a modesta cidade cretense de Licasto. E juntos, o casal governou a ilha, lado a lado, como iguais, onde tiveram três filhos chamados Minos, Radamanto e Sarpedão.

A princesa Europa trouxe consigo os ritos e louvores à Deusa-Mãe que ergueram uma nova civilização e fundaram a nova capital chamada Cnosso. Hoje, são as sumo-sacerdotisas da Deusa-Mãe que detém o poder sobre o governo e a administração da capital cretense. Essas mulheres são escolhidas por sua própria divindade num ritual de iluminação interior. Elas acordam de uma viagem ao mundo espiritual e são ungidas como o poder maior sobre toda a ilha. A primeira dessas sumo-sacerdotisas foi a rainha Europa. Após sua morte, ela foi sucedida pela igualmente sábia Ítone. Nesse momento, ficou decidido que o esposo da sacerdotisa deveria ser um dos filhos de Europa para manter a linhagem da primeira sacerdotisa. Assim, começou uma disputa entre os irmãos Minos, Radamanto e Sarpedão.

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Mural de Arte Minoana

A Política

O príncipe Minos conseguiu o favor dos deuses ao prometer o sacrifício do seu amado Touro Branco. Os deuses atenderam suas orações e este se casou com Ítone. Os outros irmãos foram então banidos da ilha para nunca mais voltar. Foi uma boa escolha, pois, sob o comando do sábio Minos, a ilha desenvolveu um ótimo sistema de irrigação e aperfeiçoou o poder das suas forjas. No entanto, Minos cometeu um grave erro. Ele decidiu manter seu amado touro branco e sacrificou outro no lugar. A desobediência causou a ira dos deuses que transformaram o touro branco numa criatura demoníaca que tomou a vida do desobediente líder.

A nova sumo-sacerdotisa, chamada Ida, se casou com o príncipe Licasto, filho de Mino e Ítone, mas este não conseguiu gerar sucessor. Quando veio a vez de uma nova sumo-sacerdotisa tomar o poder, a poderosa Pasifae fez um pacto com a Deusa-Mãe para trazer o finado rei Minos do mundo dos mortos. Ela assim o fez, mas não esperava que a admiração que tinha pelas lendas desse homem se tornasse decepção por sua horrenda personalidade. Desde que voltou à vida e retomou o seu lugar, tudo o que Minos fez causou o horror na rainha. Ele iniciou uma guerra desnecessária com as cidades helênicas; realizou sacrifícios humanos com a prisioneiros atenienses; traiu sua rainha com muitas outras mulheres; e rejeitou seu filho deformado com aparência de touro que a rainha considerava uma dádiva divina. A verdade é que a rainha Pasifae não aguenta mais o esposo que escolheu para si.

As Ilhas

O maior poder da rainha Pasifae em Creta não é militar, mas econômico. A ilha repousa em solos férteis, numa região de temperatura moderada e chuvas confiáveis, o que fez dela um ótimo lugar para a agricultura. Essa foi a ferramenta básica para se construir uma forte economia entre nações, pois a partir de seus produtos agrícolas houve uma expansão marítima sem precedentes. São quase duas mil ilhas catalogadas pelos minoicos dos mais variados tamanhos por todo mar da Talassa. A maioria está despovoada, mas em todos os arquipélagos há pelo menos um governo central.

As principais ilhas povoadas nos arquipélagos e seus líderes atuais estão listadas abaixo:

  1. Cnossos (Creta), a capital dos minoanos, governada por Minos.
  2. Rodes (Dodecanesas), a ilha dos forjadores, governada por Altamenes.
  3. Chipre (Alásia), a ilha das minas de cobre, governada por Cíniras.
  4. Melos (Cicládicas), a ilha das estátuas, governada por Polianax.
  5. Egina (Sarônicas), a ilha dos formigantes, governada por Éaco.
  6. Salamina (Sarônicas), a ilha do rei dragão, governada por Cicreu.
  7. Ecália (Eubeias), a ilha do rei arqueiro, governada por Eurito.
  8. Ésquiro (Espórades), a ilha do sábio juiz, governada por Licomedes.
  9. Samos (Nórdicas), a ilha dos vinhedos, governada por Sâmia.
  10. Mírina (Lemnos), a ilha das mulheres, governada por Hipsipile.
  11. Samotrácia (Trácias), a ilha do santuário, governada por Axiocersa.
  12. Atlântida (Thera), a ilha sob as águas, governada por Tritão.
  13. Ítaca (Cefalênias), a ilha de linhagem heroica, governada por Arcésio
  14. Feácia (Córcira), a ilha da hospitalidade, governada por Nausítoo.
  15. Sicília (Trinácria), a ilha das colonizadores, governada por Cócalo.
  16. Eólia (Eólia), a ilha do senhor dos ventos, governada por Éolo.
  17. Nora (Sardenha), a ilha do treinamento, governada por Sardo.
  18. Eritreia (Baleares), a ilha do bom monstro, governada por Gerião.
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Afresco Minoano

A População

A população de Creta e suas ilhas circunvizinhas vivem uma sociedade matriarcal. As mulheres e homens possuem posições muito bem definidas na sociedade. A fisicalidade dos homens definem suas funções no trabalho braçal e no campo militar. As mulheres, por outro lado, possuem primazia no campo político e administrativo. A liderança do império ultramarino dos minoanos, por exemplo, está centrada na rainha Pasifae, que é a sumo-sacerdote da Deusa-Mãe e possui ascendência sobre seu esposo Minos, o governante da capital de Cnosso. Essa supremacia feminina no campo da política é algo difícil de ser concebido em outras sociedades., que com suas mentes limitadas são incapazes de imaginar mulheres como líderes mesmo estando casadas,

Os minoanos possuem bastante liberdade sobre suas vidas e prezam bastante pelo luxo. Eles adoram jóias e vasos finos feitos de ouro e prata, o que se mostra uma das principais fontes da economia local. Mesmo as cerâmicas utilizadas no dia a dia possuem desenhos únicos, em especial com temas marinhos que fazem parte de seu dia a dia como ondas, animais marinhos, barcos e outros temas similares. Eles são conhecidos por vestirem pouquíssimas roupas. As roupas masculinas são tangas e saias curtas feitas de lã retirado das ovelhas locais ou do linho cultivado. O peito geralmente está nu nas classes mais baixas ou utilizando camisas nas classes mais abastadas. As mulheres usam saias mais longas e camisas abertas mostrando o busto, sempre muito bem adornadas com metais e pedras preciosas.

Os antepassados dos povos cretenses foram os primeiros povos a construir moradias em larga escala. Diferente dos egípcios que são conhecidos por suas construções verticais, os minoicos são conhecidos pela expansão horizontal de suas moradas. Todos ficam espantados com o quanto estas são complexas e extensas. Elas são feitas de pedra, tijolo e argamassa com vários quartos, mesmo em classes sociais mais baixas, pois o amor por amplos espaços é comum. Estes quartos são construídos ao redor de um largo pátio aberto central retangular, orientados no eixo norte-sul. Não raro, os estrangeiros podem confundir uma única casa por verdadeiras vilas e se perder nelas como num labirinto.

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Mural de Arte Minoana

Os Relacionamentos

A ilha de Creta é uma sociedade matriarcal onde as principais posições de poder são exercidas pelas mulheres. É comum a mulher se aproximar do homem com quem deseja se relacionar e, na grande maioria das vezes, são elas que fazem os pedidos de casamento. O culto da Deusa-Mãe valoriza enormemente o casamento, mas as mulheres também tem o direito de requerer um divórcio e abandonar seu esposo numa situação que causa grande aflição aos homens. Afinal, a grande maioria dos bens e propriedades da família estão em nome da mulher. Por este motivo, raramente, um homem divorciado consegue recuperar seu status na sociedade e geralmente é mau visto pelo resto da sociedade quando abandonado. Más línguas sempre colocam a causa da separação em algum problema na sua pessoa.

O relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é extremamente comum na a ilha, mesmo antes, durante e depois do casamento. O amor aos filhos e o desejo de formar uma família não conflita com os prazeres da luxúria. É possível que, de comum acordo, várias experiências sejam permitidas ao cônjuge. Assim, a vida amorosa em Creta é bem liberal. Nos eventos de “Dança Religiosa”, as mulheres podem convidar os homens para a dança. Nos “Saltos sobre Touro”, os homens demostram suas habilidades físicas às mulheres para se apresentarem como bons pretendentes. No entanto, estes eventos sempre terminam com grandes noitadas de prazeres sexuais, assim como a Deusa-Mãe lhes ensina, visto que a muita experiência sexual prévia é benéfica na vida de casado.

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Mural de Arte Minoano

As Celebrações

Os minoanos prestam homenagem à Deusa-Mãe nos chamados Rituais de Adoração. Eles só podem ser realizados por mulheres ou homens castrados. As sacerdotisas utilizam principalmente espaços naturais para desempenhar suas funções religiosas, como santuários nos picos das montanhas e cavernas nas profundezas. Nestes locais, a libação sagrada é derramada, sacrifícios animais são ministrados e oferendas são deixadas nos altares. Também pode se utilizar criptas subterrâneas nas moradas em pequenas salas suportadas por vários pilares. Estes locais não só são dedicados à Deusa-Mãe como também servem de local seguro nos casos de terremotos.

Um ritual incrivelmente importante dos minoanos é a Dança Religiosa, retratada em muitas obras de artes locais. Essas celebrações são iniciadas pelas sacerdotisas, mas tanto homens quanto mulheres participam delas. Os homens acompanham o ritmo da música batendo suas armas nos  escudos em grande alvoroço enquanto as mulheres dançam erraticamente sob o efeito de entorpecentes extraídos de serpentes sagradas. Tudo é sempre muito vibrante e dinâmico, quase sempre terminando com amantes dormindo juntos sob a benção da Deusa-Mãe.

Os minoanos adoram jogos de corrida, luta e salto, mas nenhum esporte é tão aclamado nas suas ilhas quanto o Salto sobre o Touro. Muitas vezes, interpretado como um ritual de adoração ao touro protetor da Deusa-Mãe, este evento consiste numa demonstração de coragem, força e agilidade por parte dos homens. Eles devem realizar um salto acrobático sobre um touro enquanto segura os seus chifres. O animal então empurra violentamente seu pescoço para cima, dando ao saltador o impulso necessário para executar saltos mortais e outros truques acrobáticos. As mulheres raramente participam de ação tão perigosa, mas estas assistem ao evento e esperam ver algum campeão cujos dotes físicos lhes chame a atenção para serem desfrutados. 

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A Religião

O culto às divindades em Creta acredita que há uma deusa maior que deu origem a todos os principais panteões do mundo. Assim todas centenas de deuses que existem no mundo e em outras nações possuem regência sobre os homens e devem ser adorados, mas sua autoridade vem dessa deusa. Como um filho respeita sua mãe, todos esses deuses se ajoelham e prestam honras perante esta divindade superior que recebe muitos nomes conforme os povos: para os helenos é Reia, para os asiáticos é Ninhursag, para os egípcios é Ísis e para os canaanitas é Aserá. Outros povos ainda a chamam de Cibele, Ida, Ópis e outros nomes. Os cretenses a chamam simplesmente de a “Deusa-Mãe”, que é retratada como uma mulher esguia, de alva tez e cabelos negros. Ela veste uma coroa de flores na cabeça e uma longa saia. Seus seios estão à mostra por ser um símbolo de fertilidade. Seu véu é cintilante por ser uma mostra de divindade. Em cada mão, ela segura uma serpente à altura dos ouvidos para representar suas capacidades proféticas.

Desde os primórdios, a Deusa-Mãe entregou a imortalidade a mulheres escolhidas que transmitem suas palavras ao redor do mundo. Elas são defendidas pelo poderoso Touro Branco, seu protetor, que surge no mundo a cada nova geração. Essas mulheres possuem o dever de iniciar os ritos de adoração com libação sagrada e entregar oferendas às deusas nos santuários em montes ou cavernas, levando do sangue bovino sacrificado com leite, mel e vinho. As mulheres que já tiveram essas honras se chamaram Europa, Potnia, Leuquipe, Britomarquis e Dictina. Atualmente, os ritos são propiciados por sua sexta sumo-sacerdotisa, chamada Pasifae, que governa a civilização sobre os mares. No entanto, as profecias dizem que a sétima escolhida da Deusa-Mãe já caminha sobre a Terra.

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Mural de Arte Minoana

O Exército

Como os afazeres administrativos e governamentais estão na mão da sumo-sacerdote da Deusa-Mãe, cabe ao rei da ilha de Creta, seu esposo, assumir o controle das tarefas masculinas, que incluem o funcionamento dos trabalhos braçais e a liderança sobre as forças militares da ilha. Não há dúvidas que a marinha possui um grande destaque no poder militar da ilha de Creta. São seus barcos de guerra que fazem a escolta e a proteção dos milhares de navios mercantes que realizam viagens pelo mar da Talassa todos os dias. Eles não apenas acompanham as embarcações mais importantes, como fazem a defesa de toda a costa da grande ilha principal de Creta e das centenas de ilhas povoados no mar minoano. No entanto, se enganam os que dizem que a marinha é sua maior força militar.

Desde a guerra contra a cidade de Atenas que ocorreu há quase vinte anos atrás, o rei Minos fortaleceu enormemente sua infantaria e arquearia para que todos saibam do poder invasor dos cretenses; mas deixou de lado o investimento em embarcações de guerra, Muitos generais tem criticado essa posição. Eles avaliam que isso deu margem para o crescimento da marinha ateniense. Afinal, navios mercantes não contam como navios de guerra. Hoje, a marinha ateniense se mostra cada vez mais influente no mar minoano. Muitos já até nomeiam esse mar como Egeu, em homenagem ao rei da cidade anteriormente derrotada. Todos profetizam que um nova disputa entre as duas cidades está para ocorrer embora todos saibam que é mais fácil a rainha expulsar o rei Minos da ilha de Creta que permitir um novo conflito ter início.

Egito

O Império de Dois Mil Anos

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David Roberts 1796 – 1864

No começo, não havia nada; até que surgiu Temu, o criador, que moldou os primeiros deuses. No entanto, a Criação ainda era imperfeita, causando lágrimas no deus-criador que caíram sobre a Terra e fizeram surgir os primeiros homens. Era exatamente o que faltava na sua obra-prima. Satisfeito, o deus-criador tomou para si uma nova existência como um disco flamejante no firmamento. Tudo o que antes se chamava Temu passou a se chamar simplesmente de Rá, o deus-sol. Era o nono deus do panteão, que começou a iluminar a humanidade e os ensinou os conceitos éticos e morais do Maat. Ele então colocou o seu povo sob a liderança do deus Osíris que, por mais de mil anos, governou a civilização hoje conhecida como Egito.

    • Governante: Ramsés das Duas-Terras.
    • Deuses: Amun-Rá e os dois panteões egípcios.

A História

O Egito se iniciou com pequenas comunidades no vale do Nilo que evoluíram para aglomerados culturais complexos através da agricultura, da pecuária e da manufatura de cerâmica. Eles dominaram a tecelagem e a metalurgia do cobre; e não demorou até o comércio florescer e as primeiras elites políticas se formarem. Essa foi a semente cultural que culminaria no Império Egípcio que começou com Menés, filho do Escorpião Rei. Este governante foi orientado pelo deus Osíris a unificar todo o Egito através de alianças políticas e comerciais que iniciaram com seus antecessores. Ele firmou a capital do Egito Unificado na cidade de Mênfis, que foi centro político do Egito por mais de mil anos.

Infelizmente, esse período de glória se encerrou com a Alvorada de Fogo que transformou as águas Rio Nilo em sangue e lançou uma negra nuvem sobre as cidades egípcias. Os escravos faraônicos aproveitaram a chance para se revoltar e fugir para além das fronteiras do império. O faraó ainda tentou aprisionar os escravos revoltados, mas foi engolido por ondas gigantes que vieram do Grande Verde Mar. Enquanto esses eventos ocorriam, o deus Seti assassinou seu irmão Osíris e invadiu o Egito com um exército invasor chamado de Hicsos. Esse foi o início da Grande Batalha, que se encerrou quando o deus Hórus reagrupou as forças faraônicas na cidade de Tebas e vingou o seu pai Osíris numa vitória contra o traidor Seti. Enfim, a normalidade foi restaurada no Egito com uma nova dinastia através do faraó Tao e dos seus filhos Kamóis e Amósis.

Thomas Seddon, 1885

A Política

Esse período de grandeza e paz no Egito com os faraós sob a orientação do deus Hórus não durou muito tempo. Logo os próprios homens se rebelariam contra os deuses através de um novo faraó que proclamou a si mesmo de Aquenáton, o Guardião do Deus Único. Ele assim desafiou todos os deuses ao proibir a adoração a todos os deuses, incluindo o deus-sol Rá, a quem chamou de um usurpador e um impostor do deus-criador. Em seguida, fundou uma nova cidade que fica a meio caminho entre Tebas e Mênfis: A Cidade de Aquetáton. Após dezessete anos de guerra espirital e conflitos internos, os líderes dos dois panteões egípcios se uniram em um só deus, chamado Amun-Rá, e o olho de Rá foi liberado sobre a os hereges. Assim, os sacerdotes da antiga religião conseguiram restabelecer sua crença; começando uma nova era às margens do rio Nilo com a décima-nona dinastia egípcia, cujo representante atual é o faraó Ramsés, o Grande.

O novo faraó Ramsés restabeleceu a antiga organização política de governadores chamados “Nomarcas”, que são considerados deuses habitantes de corpos humanos. E, quando esses corpos humanos chegam ao fim de suas vidas, a essência divina é transferida para um novo governante no momento da sua coroação. O corpo humano utilizado pelos deuses como veículo é chamado de “Khat”, que recebem grandes poderes divinos e autoridade sobre seus súditos. Esses veículos humanos não perdem o controle sobre seus corpos mesmo quando um deus o habita. É uma relação de mútua influência, sendo natural que jogos de intriga continuem ocorrendo dentro dos palácios reais. Na verdade, as disputas de poder palacianas são estimuladas pelos próprios deuses que gostam de ver seus corpos humanos renovados para que tenham o melhor material humano à disposição.

Os Nomos

James Tissot (1836–1902)

O Grande Faraó possui autoridade sobre todos os Nomarcas das Duas Terras do Egito. Ele recebe a essência do deus Hórus, tomando para si uma alma guerreira. A ascensão do novo faraó Ramsés, o Grande, trouxe consigo uma nova capital fundada em sua homenagem: Per-Ramsés, a Casa de Ramsés.  

A primeira capital do Egito foi Mênfis, capital das terras do Norte.  Ela deteve a hegemonia de todo o Egito pelos primeiros mil anos do império e suas terras do Norte ficam na região ao nível do Grande Verde Mar. São terra as mais propícias à agricultura e pecuária; e estão divididas em vinte Nomos.

A segunda capital do Egito foi Tebas, líder das terras do Sul. Ela deteve a hegemonia de todo o Egito por quatrocentos anos. Suas terras ficam numa posição mais elevada e são propícias à mineração e à extração de pedra calcária tão importante para a engenharia egípcia; e estão divididas em vinte e dois Nomos.

Todos os principais Nomos das das Duas Terras e as três regiões anexadas; com seus respectivos deus-governante ou representante do faraó estão descritos a seguir:

  1. Per-Ramsés (Gosén), a capital do faraó Ramsés.
  2. Mênfis (1º Baixo), o nomo do deus-artesão Ptah.
  3. Faros (3º Baixo), o nomo do deus-maligno Apófis.
  4. Sais (5º Baixo), o nomo da deusa-curandeira Neith.
  5. Heliópolis (13º Baixo), o nomo do deus-sol Khepry.
  6. Bubastis (18º Baixo), o nomo da deusa-caçadora Bastet.
  7. Tânis (19º Baixo), o nomo do deus-vigilante Sopdu.
  8. Cinópolis (17º Alto), o nomo do deus-espiritual Anúbis.
  9. Hermópolis (15º Alto), o nomo do deus-sábio Toth.
  10. Aquetáton (14º Alto), o nomo do deus-proibido Atón.
  11. Tinis (9º Alto), o nomo do deus-guerreiro Onúrios.
  12. Abidos (8º Alto), o nomo do deus-criança Ihy.
  13. Tebas (4º Alto), o nomo da deusa-onisciente Amunet.
  14. Elefantine (1º Alto), o nomo do deus-criativo Knum.
  15. Cuxe (Núbia), a fronteira-sul do vice-rei Paser.
  16. Etiópia (Sabá), a fronteira-leste da rainha Hímera.
  17. Cartago (Líbia), a fronteira-oeste do líder Jarbas
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Sir Edward Poynter 1836-1919

A População

Os egípcios valorizam a higiene e a aparência pessoal. Eles se banham diariamente no Nilo e usam sabão pastoso feito de gordura e giz. Tanto homens quanto mulheres raspam todo o corpo para facilitar asseio corporal e estão sempre bem perfumados, utilizando óleos aromatizados e pomadas para manter a pele sempre suave. Ambos também usam maquilagem, em especial, o creme verde de malaquita nas pálpebras para desenhar uma linha de kohl preto para alongar os olhos. Eles também colocam pó de ocre nas bochechas e lábios; e pintam as palmas das mãos e a sola dos pés com hena.

Gravura do Livro Descrições do Egito. Governo da França (1809-1823.

As mulheres vestem um vestido de linho branco e os homens uma tanga, com tecido enrolado na cintura. É comum andarem descalços ou usarem sandálias de junco amarradas com barbante. As crianças ficam sem roupas até os doze anos de idade, até que nessa idade os homens são circuncidados como sinal de transição. É comum, tanto de homens quanto de mulheres, o uso de perucas e joias por serem itens que mostram ascensão social, mas esses apetrechos também são usados pela população menos abastada da sociedade. As joias podem ser diademas, colares, brincos, pulseiras, anéis e cintos, que são feitas com materiais nobres como ouro, prata, cobre ou cerâmica, incrustada com pedras preciosas.

A nobreza é chamada de “Saiotes Brancos” em referência ao vestuário de linho decorado que trajam, muitas vezes costurados com fios de ouro ou complementados com peles de animais. As sandálias são mais sofisticadas, de couro costurado com linha de papiro. E o uso de joias é praticamente obrigatório. Na população geral, os meninos aprendem com seus pais os ofícios de uma profissão e as meninas aprendem com suas mães sobre a vida doméstica. No entanto, os nobres apendem em escolas os “Livros de Instrução”, que contém regras para se viver ordenadamente em sociedade e elementos morais tais como justiça, sabedoria, obediência, bondade e moderação, chamados de Maat.

Os escravos são raros no Egito, pois, como os camponeses são obrigados a trabalhar para o Faraó nos períodos de inundação do rio Nilo, quando não há trabalho na agricultura, não há a necessidade de escravos do próprio Faraó. Mesmo os prisioneiros de guerra e os endividados com a tributação real, o Faraó os entrega aos seus soldados como espólios de guerra ou aos sacerdotes para o trabalho no templo, mostrando que realmente não há o desejo do Palácio em acumulá-los. Além disso, esses escravos são protegidos pelo código de justiça egípcio. O senso de certo e errado previsto no Maat impede que um escravo possa ser morto por seu senhor. Mesmo castigos corporais devem ser justificados numa Corte de Kenbet caso sejam excessivos.

Lawrence Alma-Tadema (1836–1912)

Os Relacionamentos

A vida de casado é um pilar da sociedade egípcia. Eles não veem com bons olhos que homens e mulheres tenham experiências sexuais antes do casamento. A troca de prazeres sexuais por recursos financeiros também é considerada uma desonra aos envolvidos de forma que a prostituição ocorre à margem da sociedade. Até mesmo o sexo em homenagem aos deuses, tão comuns em outras culturas, como os cultos a Afrodite, Ishtar e Qetesh são abominados. Todas essas características contribuem para que praticamente todos homens e mulheres já estejam casados antes dos vinte anos de idade.

As  relações homossexuais masculinas são extremamente danosas à honra de um indivíduo. Na própria religião, o trapaceiro deus Set tentou humilhar o seu rival Hórus quando o embriagou num banquete e tentou o estuprar. O deus da trapaça desejava causar tamanha vergonha em Hórus com esse ato que este teria que abandonar o panteão divino. O deus-falcão, no entanto, conseguiu evitar que essa desonra recaísse sobre ele ao dissimular sua embriaguez e enganar o deus trapaceiro. Por outro lado, o casamento entre irmãos, ou entre pais e filhas, que é abominado em outras culturas, não é visto com tanto tabu. Esse tipo de união é comumente utilizado entre faraós e nobres para manter heranças e privilégios dentro de uma só família.

Frederick Arthur Bridgman (1847–1928)

As Celebrações

O festival do Plantio (Peret) é a mais solene das celebrações e comemora a Paixão de Osíris, também chamado de Festival de Wag ou Festival dos Mortos, no período de seca do rio Nilo. Após os sacrifícios e oferendas, uma peça teatral reconta sua morte e esquartejamento pelo traiçoeiro Seti e a busca de Ísis e Néftis por seus pedaços. Para cada pedaço reunido, os presentes batem o punho no peito em tom de alegria. Por fim, o festival se encerra com o plantio de trigo, pois o seu florescer oito meses depois simbolizará o seu renascer. Durante o plantio, as pessoas fazem barcos de papel e os colocam no rio em direção aos túmulos de seus antepassados em memória dos que há muito se foram.

O festival da Colheita (Shemu) é comemorado com muita cerveja na Embriaguez de Hathor, também chamado de Festival Tekh. As peças teatrais encenam a deusa Hathor usando o olho de Rá para destruir a humanidade que se revoltou contra os deuses, mas o próprio Rá impediu a deusa de alcançar seu objetivo ensinando os homens como lhe embebedar. Os participantes desse festival são incentivados a consumir álcool em excesso enquanto cantam e dançam em êxtase divino. É assim esperado que as mulheres percam suas inibições e tenham envolvimentos com os homens da festa. O componente sexual é imenso com mulheres levantando suas saias e amantes se explorando em espaços públicos. É um verdadeiro tributo a fertilidade e ao repovoamento da humanidade após a grande destruição.

O festival da Inundação (Akhet) comemora o Ano Novo egípcio com a Ressurreição de Osíris, também chamado festival do Wepet-Renpet, quando o rio Nilo está no nível mais alto. No primeiro dia é realizada um procissão levando uma estátua de Osíris até o seu templo e, no segundo dia, a procissão se realiza numa barca através do rio Nilo até a sua tumba. No terceiro dia, todos os presentes velam sua estátua para protegê-la de demônios inimigos. No quarto dia, os sacerdotes realizam seu funeral. Por fim, no quinto dia, após uma noite de orações e cânticos, todos aguardam ardorosamente o nascer do sol quando a estátua de Osíris ressurge e recebe a coroa de Maat, iniciando assim as festividades com um banquete e muita cerveja para todos.

Incontáveis outros festivais são realizados de forma local em homenagem aos deuses patronos de cada cidade. As mais famosas dessas celebrações são a Amun, com seu festival aos mortos em Tebas; a Toth, com seu festival dos livros em Hermópolis; a Bastet, com o libertino festival da fertilidade em Bubastis; e a muitos outros.

John Reinhard Weguelin (1849–1927)

A Religião

Os deuses egípcios nasceram diretamente no líquido primordial chamado de Nu gerando dois panteões nomeados de Ogdóade e Eneáde. O primeiro grupo de oito deuses não figuram como entidades individuais. Ele são parte de uma coletividade que representa o universo intangível e imaterial, sendo divididos em quatro pares, cada um com sua contraparte masculina e feminina. Eles são: Cosmo e Céu (Nu e Nut); Infinito e Eternidade (Hehu e Hehut); Sombra e Escuridão (Kuk e Kekuit); e a Consciência Universal (Amun e Amunet). O segundo grupo de nove deuses representam o mundo físico e aspectos importantes da existência humana. Diferentes dos oito deuses anteriores, cada um possui a sua individualidade plena com diferentes relações entre si. Eles são: 1) , o deus-sol; 2) Chu, o deus-seco; 3) Tefnut, a deusa-úmida; 4) Geb, o deus-terra; 5) Nut, a deusa-céu; 6) Osíris, o deus da ordem; 7) Ísis, a deusa do amor; 8) Set, o deus da guerra; e 9) Néftis, a deusa do louvor.

Existe um terceiro grupo de deuses chamados de os “Terrenos”. Eles também nasceram do líquido primordial do Nu, mas diferente dos panteões primordiais que possuem uma existência superior para o equilíbrio do mundo e aplicação do Maat, os Terrenos possuem vivem nas cidades humanas. Esses deuses habitam corpos humanos, que chamam de Khat, para interagir assim com seus súditos. Eles servem de patronos das cidades que tomaram para si.  É uma grande honra receber esse deus para si no momento da coroação. o que lhes dá a autoridade de governar e poderes especiais. Esse é o caso de Ptah, Toth, Anúbis e muitos outros cuja adoração está centrada nas cidade onde são patronos como Mênfis, Heliópolis, Anúbis, respectivamente, nestes casos citados.

O Exército

Acima de todos, no topo da hierarquia social, está o faraó, que possui poderes absolutos, tomando decisões militares, religiosas, econômicas e judiciais. As suas vestimentas são ornadas de muitos símbolos de poder que incluem o “pschent”, que é a dupla coroa em sua cabeça, com uma joia na testa esculpida na forma de uma cobra e um abutre. Além disso, também são utilizados o cetro, a crossa, o chicote e a barba postiça em homenagem ao primeiro faraó. O exército é totalmente subornado a este faraó no poder. Ele é responsável pela defesa de todo o Egito contra invasões estrangeiras, mas também deve manter a dominação egípcia nos seus territórios. No deserto, patrulheiros vigiam as fronteiras e defendem as rotas comerciais contra bárbaros nômades. No Delta e no Vale do rio Nilo, guardas rurais defendem os cobradores de impostos e policiam as cidades contra baderneiros e ladrões. Além disso, também são os grandes aplicadores da justiça nas Cortes de Kenbet.

Os soldados são recrutados dentre a população geral recebendo bons salários para exercer suas funções. Prisioneiros de guerra podem ser incorporados ao exército com todos os direitos de um cidadão egípcio livre. Mercenários podem ser contratados em situações especiais. Os equipamentos militares típicos incluem arcos e flechas, machados, clavas, lanças e escudos redondos feitos por estiramento de pele de animais sobre uma armação de madeira. Geralmente, os soldados egípcios não usam armaduras, deixando o peito nu. No entanto, muitos os oficiais podem vestir placas metálicas protetoras. O exército e a marinha são complementares entre si, assim, agem como uma força militar única. Os navios transportam as tropas e os oficiais exercem ambas as funções militares e navais. Recentemente, o exército começou a usar bigas e cavalos que haviam sido introduzidos na guerra anterior contra os povos Hicsos, liderados pelo deus Seti. E os egípcios têm ganhado maestria nessa habilidade.

Ásia

O campo de Batalha dos Deuses

H. Waldeck

Os deuses do Caos primordial nunca tiveram o desejo de compartilhar a criação, mas foram desafiados pelos deuses-irmãos: Enlil e Enki, filhos do Céu e da Terra. O primeiro separou os pais de seu abraço sexual quando, de dentro do útero da mãe, arrancou o falo paterno, permitindo que a criação pudesse ser habitada. O segundo derrotou os monstros do caos primordial, chamados Abzu e Tiamat, de cujo sangue derramado os homens foram forjados. Atualmente, são os filhos de Enlil e Enki que lideram seus próprios panteões regionais nesse emaranhado de civilizações que hoje é conhecido como Ásia.

    • Governante: Salmanezer da Assíria.
    • Deuses: Marduk e o panteão dos Anunaki.

A História

A região entre os rios Tigre e eufrates é considerada o berço do mundo após o grande dilúvio, pois sobre seu solo nasceram as primeiras cidades humanas que se uniram na civilização chamada de Suméria. No entanto, essas mesmas cidades logo começaram a disputar a hegemonia entre si. Foram séculos de disputas para decidir qual deveria governar as demais. As cidades de Uruk, Acádia, Gútia, Lagash, Ur, Isin e Larsa alternaram no poder da região por limitados períodos de tempo, sendo logo sobrepujada pela cidade seguinte. Enfim, esse ciclo de invasões e massacres se encerrou com o retorno do deus Marduk à Terra, o que levou ao surgimento de uma nova potência político-militar: o Império da Babilônia.

O deus Marduk esteve por milênios combatendo os dragões do Caos primordial, mas logo que retornou à terra escolheu a cidade da Babilônia para abençoar. Este era um povoado fundado por refugiados que sofreram com a violência do antigo rei Sargão da Acádia. Em menos de duzentos anos, essa cidade já atingiu o seu apogeu com o governo do rei Hamurabi que conquistou toda a Mesopotâmia para si. Infelizmente, ao longo dos séculos, os reis que sucederam o grande Hamurabi não foram capazes de manter a mesma grandeza. A cidade foi progressivamente perdendo influência até o deus Marduk desistir totalmente dela. Abalos sísmicos que foram sentidos por seu povo eram na verdade os passos da divindade os abandonando. Enfim, o deus Marduk cuspiu fogo no céu durante o evento conhecido por todos como a Alvorada de fogo. E, por perder a graça desses deus, a cidade da Babilônia foi conquistada e saqueada por um novo império emergente: o Império de Hatti.

A Política

O povo hitita se formou a partir de imigrantes que assentaram na Anatólia e fundaram a cidade de Hatti. Com a benção do deus Marduk, que aceitou o convite do panteão hitita para conhecer o novo império, os exércitos dessa cidade avançaram sobre o império da babilônia com uma vitória que firmou sua superioridade sobre os povos asiáticos por mais de quinze gerações. No entanto, a instabilidade e violência das terras asiáticas, visto que seus deuses enxergam os homens apenas como peões num tabuleiro, a superioridade hitita enfim chegou ao fim. A guerra que este povo fez contra o Egito exauriu seus recursos e seu poder.

Ambas as civilizações chegaram a realizar um tratado de paz que foi abençoado pelos deuses e levaria prosperidade à ambas as nações. No entanto, o rei Supilo Liuma quebrou o tratado quando seu filho foi morto por um grupo de conspiradores egípcios. Os deuses amaldiçoaram o rei Supilo Liuma com uma terrível praga que lhe custou a própria vida, de seu filho sucessor e de grande parte da população hitita. Essa foi a oportunidade perfeita para o crescimento militar de uma nova potência. O violento príncipe guerreiro Tuculti-Ninurta da cidade de Assur avançou seus exércitos contra as terras hititas. Ele conquistou toda a Mesopotâmia incluindo as terras Mitanni e Babilônicas. Este foi o início de um novo império sobra a Ásia: o Império da Assíria.

As Nações

Adolf Hult 1869-1943

As cidades-nações da Ásia possuem jurisdição própria e são governadas por reis próprios que detêm todo o poder sobre a população e os meios de produção. O rei é o dono de todas as terras dentro da fronteira da cidade num sistema de propriedade coletiva que obriga todos a trabalharem para ele. A Ásia é assim caracterizada pela presença de potências regionais que dominam outras cidades através de laços de vassalagem. Esse poder sobre as cidades vassalas é exercido através de força militar, o que transforma o continente da Ásia numa das regiões mais violentas do mundo.

As principais nações da Ásia e seus líderes atuais estão listados abaixo:

  1. Nínive (Assíria), a capital dos asiáticos, governada por Salmanezer.
  2. Hattusa (Hatti), a nação em declínio, governada por Hattusili.
  3. Wasukani (Mitani), a nação massacrada, governada por Qibi-Assur.
  4. Babilônia (Acádia), a nação dominada, governada por Adad-Sumiddina.
  5. Susa (Elam), a nação nas montanhas, governada por Kiddin-Hutran.
  6. Nippur (Suméria), a nação do deus-decadente, governada por Enlil.
  7. Ugarite (Amurru), a nação dos cultistas, governada por Amitanru.
  8. Biblos (Gubla), a nação exportadora, governada por Zakar.
  9. Cilícia (Kizzuwatna), a nação do imortal, governada por Hipoloko.
  10. Sárdis (Lídia), a nação do rei venerado, governada por Tmolo.
  11. Éfeso (Arzawa), a nação dos revoltosos, governada por Tarhunta.
  12. Dardânia (Ida), a nação da deusa-mãe, governada por Cápis.
  13. Wilusa (Tróia), a nação condenada, governada por Laomedonte.
  14. Teutrânia (Mísia), a nação entre continentes, governada por Teutras.
  15. Mariandi (Bitínia), a nação do mar negro, governada por Lico.
  16. Ea (Cólquida), a nação do deus-sol, governada por Eetes.
  17. Temíscira (Cítia), a nação das amazonas, governada por Hipólita.
  18. Kuru (Índia), a nação nos limites do mundo, governada por Sudas.

Maarten van Heemskerck (1498–1574)

A População

A grande maioria da população é constituída de camponeses que vivem nas terras que lhes foram dadas pelos deuses e cuja vontade é aplicada pelos reis locais. Cada família recebe assim de seu soberano um lote de terra e é obrigado a entregar ao templo uma parte da colheita como pagamento pelo uso útil da terra. Também é obrigação do rei aplicar as leis que estão em vigor desde a Era de Prata nos tempos do imperador babilônico Hammurabi. São leis que abrangem o comércio, propriedade, herança, direitos da mulher, família, adultério, calúnia e escravidão e outros aspectos da vida cotidiana desses povos. A principal característica deste código é o “olho por olho, dente por dente”, o qual promulga que todo castigo deve ser exatamente proporcional ao crime  cometido.

Tanto homens como mulheres utilizam longas roupas que escondem praticamente todo o corpo e vestem túnicas e véus para esconder seus cabelos deixando apenas o rosto à mostra. Nas mulheres casadas, nem mesmo os rostos estão à mostra, pois, como propriedades do marido, muitas vezes são obrigadas a os cobrir também. Também há um grande apreço das mulheres em usar joias de ouro e pedras preciosas como forma de mostrar ascensão social. Colares, pulseiras e tiaras são muito utilizadas, com os homens asiáticos sendo reconhecidamente famosos por presentearem suas esposas com tais mimos e fazer questão que elas as utilizem em público para mostrar sua riqueza.  Os homens, por outro lado, são mais comedidos e são mais conhecidos por suas longas barbas que comumente atingem a altura do peito. 

A elite da sociedade atua no campo da pesquisa e dos estudos. Eles são os sacerdotes que vivem nos Zigurates se dedicando ao desenvolvimento da astronomia e matemática. Os zigurates se tornaram centros disseminadores do conhecimento. As torres dos templos servem de observatórios astronômicos, onde se conhece as diferenças entre os planetas e as estrelas, e se prevê eclipses lunares e solares. O ano é dividido em meses; os meses em semanas; as semanas em sete dias; os dias em doze horas; as horas em sessenta minutos; e os minutos em sessenta segundos. Os elementos da astronomia elaborada pelos povos asiáticos foram exportados para todos os povos; assim como a forma como o movimento dos astros influencia na vida das pessoas através da astrologia.

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Os Relacionamentos

As civilizações da Ásia possuem sociedades extremamente patriarcais. A mulher é considerada propriedade paterna, que depois é repassada ao esposo através de uma negociação comercial. O noivo paga por sua esposa no contrato com o sogro. No entanto, se essa esposa não produzir filhos, o noivo pode cobrar o reembolso de seu investimento embora deva manter a esposa em sua casa e sustentá-la. No caso da morte do noivo, a esposa é repassada ao irmão dele, pois é considerada propriedade da família. No caso de morte da noiva antes desta produzir filhos, o noivo pode requerer que o sogro a substitua por uma de suas irmãs. Um homem pode se casar com várias esposas e pode ter concubinas, que não possuem o mesmo status da esposa.

É muito comum nas cidades a presença de locais específicos onde os pais de família oferecem suas filhas para serem compradas como esposas ou concubinas. Esses mercados de casamentos também vendem mulheres para os Templos de Ishtar, a deusa das relações carnais. Em realidade, as mulheres nesses templos possuem uma vida mais livre que ao lado de um esposo e geralmente são mais felizes que num casamento. Afinal, embora sejam obrigadas a ter relações com estranhos e participar de orgias ritualísticas para arrecadar doações nesses templos, elas são consideradas sacerdotisas do culto. Elas são assim protegidas pelos sumo-sacerdotes que demandam respeito de todos aqueles que procuram seus serviços na arte do prazer.

Mikalojus Konstantinas Čiurlionis (1875–1911)

As Celebrações

Os festivais da cultura asiática estão diretamente relacionados com os astros. Os Banquetes da Lua são os mais comuns, sendo celebrados na lua cheia e na lua nova para marcar os meses. As cerimônias e rituais realizam encenações de casamentos divinos, hinos de oração dirigidos aos reis, recitação dos mitos da criação e, claro, muitos banquetes e beber cerveja de cevada. Elas são marcadas pelos louvores, pois a música está diretamente ligada à religião. Todos se reúnem para cantar hinos, os quais são acompanhados por instrumentos surdos, de corda como o Oud e de gemidos dos coros. O hinos começam muitas vezes, pelas expressões como “Glória” e “Louvor” destinado a deuses específicos e seguido a enumeração de suas qualidades divinas ou do socorro que se espera dele.

Há também Cerimônias de Penitência que evocam hinos de lamentação com “aí de nós” para relembrar os sofrimentos de seus deuses ou se apiedar dos problemas da cidade. Eles ocorrem durante os eclipses e os equinócios que ocorrem anualmente. O canto também tem ligações com a magia, invocando favores e maldições como um nascimento feliz ou a morte de alguém; desejos de amor ou de ódio; de guerra ou paz. O transe divino é algo almejado tanto em orgias religiosas quanto para a transcendência espiritual. A dança é mímica de forma a se aplicar a todas as coisas; desde a chuva à guerra, desde a caça ao sexo;  e tudo mais.

O maior feriado certamente é o Ano Novo, chamado de Akitu. São doze dias de celebração com o maior dos banquetes. Ele é comemorado na primeira lua cheia após o equinócio, marcando também o começo da primavera. O clímax do festival ocorre quando os reis da cidades se prostram diante de uma estátua de Marduk em sinal de humildade. Em seguida, o Sumo-Sacerdote da cidade lhe dá um tapa na cara para expurgar seus pecados e lembrar sua insignificância frente aos deuses. Também há grandes celebrações nas ruas. Multidões cantantes que carregam imagens de deuses em vibrante procissão e as colocam em barcos no rio Eufrates ou no templo da cidade.

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A Religião

A Ásia é conhecida como a “Terra dos Mil deuses” por seus povos não possuírem devoção a um único panteão divino. Eles nem sequer tentam encaixar os deuses de outras culturas dentro de seus mitos, pois acreditam que é possível haver múltiplos deuses, seja para o amor, para o trovão ou para qualquer outra designação. Todos se originam dos deuses primordiais que são: o Princípio; o Caos; o Cosmos; o Mundo; e o Céu e a Terra (Anu e Ki). Mas esses deuses primordiais nunca tiveram o desejo de compartilhar a criação, por isso, foram desafiados pelos deuses-irmãos: Enlil e Enki, filhos do Céu e da Terra. O primeiro separou os pais de seu abraço sexual quando, de dentro do útero da mãe, arrancou o falo paterno, permitindo que a criação pudesse ser habitada. O segundo derrotou os monstros do caos primordial de cujo sangue derramado forjou os homens.

Os deuses-irmãos já não possuem influência sobre a sua Criação. O deus Enki perdeu o interesse e abandonou os homens para viver nas Profundezas. O irmão Enlil foi abandonado pelos homens e vive hoje na decadente cidade de Nippur. São seus filhos que lideram seus próprios panteões locais na disputa pela adoração humana. Dois panteões desses filhos em especial, chamados os Annunaki e os Enna, antes aliados agora estão em rota de colisão um com o outro. Os Annunaki são liderado pelo poderoso Marduk, filho de Enki, que se tornou o líder do panteão mesopotâmio após derrotar os monstros do Caos primordial. Este panteão é formado pelos seguintes deuses: 1) Marduk, deus do Poder; 2) Sarpanit, deusa da Vida; 3) Utu-Shamash, deusa da Justiça; 4) Sin-Nanna, deus da Sabedoria; 5) Nergal, deus da Morte; 6) Ninurta, deus da Civilização; 7) Inana-Ishtar, deusa do Amor. Os Enna são liderado pelo poderoso Teshub, filho de Enlil, que se tornou líder do panteão hitita após dilacerar o ventre paterno onde estava aprisionado e libertar os seus irmãos. Este panteão é formado pelos seguintes deuses: 1) Teshub, deus do Trovão; 2) Tigris, o deus das águas; 3) Suwaliyat, deus dos Ventos; 4) Ullikummi, deus das Rochas; 5) Upelluri, deus dos Sonhos; 6) Aranzah, deusa da Agricultura; 7) Hebat, deusa do Julgamento (Istanu)

O Exército

James Jacques Joseph Tissot (French, 1836-1902)

Ao longo dos milênios, as cidades muradas cresceram enquanto incontáveis aldeias foram destruídas e abandonadas em razão do crescente aumento da violência comunitária. A maiores cidades desenvolveram exércitos para criar esferas de influência que ofereciam segurança às cidades menores em troca de tributos ou massacrando aquelas que não aceitavam esse tipo de acordo. No entanto, à medida que essas áreas de influências cresciam para cada cidade-estado, não demorou para haver um choque entre elas especialmente pelo controle de terras férteis e canais de irrigação. Poemas e épicos começaram a surgir já nos tempos do império sumério glorificando vitórias militares e massacres populacionais. Paredes dos palácios foram decoradas com imagens de lutas bem sucedidas com o inimigo fugindo e se escondendo entre juncos.

Desse ponto em diante, a guerra foi incorporada ao sistema político da Mesopotâmia com cidades neutras atuando como um árbitro para as duas cidades rivais. Isso ajudou a formar sindicatos entre cidades, levando a estados regionais. O antigo rei Sargão, por exemplo, conquistou todas as cidades da Suméria, algumas cidades em Mari, e então um norte entrou em guerra com os povos da Anatólia. Atualmente, os assírios são especialmente famosos por sua brutalidade contra os inimigos. Atos de selvageria são parte de sua estratégia para persuadir os povos a se entregarem sem luta com dizimação de populações inteiras, incluindo mulheres e crianças, e também técnicas de empalamento, desmembramento e tortura contra  em guerreiros rivais. E, quando prisioneiros são libertados, antes perfuram seus olhos ou arrancam seus braços para que fiquem impossibilitados de tocar em armas outras vez.

Canaã

O Povo do Deus Único

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Providence Lithograph Company, 190

O jovem Abraão era o filho de um comerciante que trabalhava na confecção e venda de estatuetas. Certo Dia, o próprio Deus se revelou ao rapaz com as seguintes palavras: “Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Farei de você um grande povo com tantos descendentes quanto as estrelas do céu, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e por você o mundo será abençoado”. Abraão assim o fez; e sua prole a partir do filho Isaque originou o povo escolhido. No entanto, antes a descendência de Abraão teria que passar por grandes provações para se transformar na civilização hoje conhecida como Israel.

    • Governante: Salomão de Jerusalém.
    • Deuses: o Deus-Único, e nenhum outro.

A História

Uma grande fome atingiu essas terras de Canaã no tempo de Jacó, que o obrigou as terras prometidas ao seu avô Abraão. Ele foi viver nas terras do Egito, onde seu filho tornara o braço-direito do faraó. O povo de Israel assim viveu no Egito com grande influência e riqueza. No entanto, passadas algumas gerações, um maligno faraó subiu ao poder. Ele escravizou o povo de Israel para os obrigar a trabalhar na construção de cidades-celeiros. Os israelitas foram assim oprimidos de forma cruel e violenta. O seu destino era desaparecer em meio aos maus-tratos. No entanto, um homem mudou essa história. Era o profeta Moisés, que foi criado como um egípcio, com acesso a melhor educação que o palácio do faraó poderia lhe dar, descobriu que seus pais eram israelitas e coletou a história de seus antepassados.

O profeta Moisés foi até o faraó e exigiu a libertação do seu povo. No entanto, o faraó não aceitou suas demandas e, por isso, foi punido pelo Deus Único com dez terríveis pragas. As águas do rio Nilo se tornaram sangue. Pragas acometeram a população. Chuvas de granizo destruíram as plantações. E uma nuvem negra causou uma completa escuridão por três dias. O povo do Deus Único aproveitou a oportunidade para se revoltar. Eles assassinaram os primogênitos da classe dominante e saquearam as joias da nobreza egípcia. Então, fugiram para sua Terra Prometida. O faraó ainda tentou impedir a fuga dos israelitas, mas, nesse momento, a Alvorada de Fogo surgiu com todo o seu esplendor, atrasando o avanço dos exércitos faraônicos com o fogo no céu e engolindo o faraó numa onda gigante. Enfim, o povo de Israel conseguiu retornar para sua terra natal,  a mesma que Deus prometeu ao patriarca Abraão.

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James Tissot (1836-1902)

A Política

O profeta Moisés não conseguiu colocar os pés na Terra Prometida. Ele morreu a contemplando ao longe sobre as montanhas ao fim de sua longa vida. Foi o seu seu melhor discípulo Josué quem reconquistou esta terra dos povos ignorantes, que entregavam seus corpos em orgias e sacrificavam crianças para os falsos deuses. O líder Josué dividiu a Terra Prometida entre as doze tribos que remontava os filhos de Jacó e montou um templo dedicado ao Deus Único na cidade de Siló, onde colocou as leis de Deus reveladas pelo profeta Moisés. No entanto, essa organização política não funcionou, pois cada tribo escolhia um líder, a quem chamavam de “Juiz”, e este decidia sobre todas as disputas. Não havia qualquer jurisprudência ou objetivos comuns. Cada líder tribal fazia aquilo que era certo aos seus próprios olhos. A Lei de Deus era constantemente desrespeitada.  Assim, os sacerdotes sentiram a necessidade de um líder único que impusesse a vontade divina e desse orientação ao povo escolhido.

O grande líder ungido que conseguiu essa missão se chamou Davi. Ele unificou as doze tribos num único governo central e fundou a cidade de Jerusalém para ser a capital do novo reino. Esses eventos ocorreram há oitenta anos atrás. O rei Davi conseguiu criar uma estabilidade nos quarenta anos em que reinou. O seu filho Salomão o levou a civilização ao auge nos quarenta anos seguintes com a construção do grande Templo de Jerusalém. Graças à devoção ao Deus Único, todo o povo de Israel concordou em pagar os altos custos da obra por sete anos. Depois, aceitaram pagar a construção do majestoso palácio real de Salomão por mais treze anos. Enfim, quando as obras se encerraram, pensaram que poderiam respirar com o fim dos impostos. Infelizmente, por vinte anos, as taxas foram mantidas elevadas para satisfazer o luxo e vaidade do monarca.

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James Tissot (1836-1902)

As Tribos

A insatisfação popular ficou ainda pior quando os conselheiros tentaram convencer o seu filho sucessor Roboão a baixar esses impostos quando ascendesse ao trono paterno. Ele respondeu: “O meu dedo mínimo é mais largo que a cintura do meu pai; e por isso, os impostos serão aumentados!”. Desde que a notícia se espalhou, revoltas populares agora surgem todos os dias em cada uma das doze tribos. O líder Jeroboão da tribo de Efraim foi o primeiro a se manifestar contra a pesada mão da monarquia. Hoje, o líder revoltoso está exilado no Egito onde está angariando apoio financeiro e militar para iniciar sua revolta. Ninguém sabe qual será o futuro do reino com os líderes das doze tribos prontos para se revoltar a qualquer momento.

As principais cidades e os atuais líderes das tribos que governam estão listados a seguir:

  1. Jerusalém (Judá), a capital dos israelitas, governada por Salomão.
  2. Betel (Benjamin), a tribo do altar divino, governada por Simei.
  3. Siló (Levi), a tribo dos sacerdotes levitas, governada por Zadoque.
  4. Siquém (Efraim), a tribo em conspiração, governada por Jeroboão.
  5. Bersebá (Simeão), a tribo em insurreição, governada por Zimri.
  6. Gileade (Manassés), a tribo do líder fanático, governada por Tibni.
  7. Megido (Issacar), a tribo no vale das batalhas, governada por Baasa.
  8. Hazor (Naftali), a tribo dos líderes cultistas, governada por Omri.
  9. Jaffa (Dan), a tribo de povos pecadores, governada por Bendequer.
  10. Dor (Zebulão), a tribo dos blasfemadores, governada por Ben-Abinadabe.
  11. Acre (Aser), a tribo sob controle Fenício, governada por Baalat.
  12. Sucote (Gade), a tribo sob controle Amonita, governada por Shobi.
  13. Hesbon (Rubén), a tribo sob controle Moabita, governada por Mesha.
  14. Gaza (Retenu), a tribo sob controle Egípcio, governada por Amun-her-khepheshef.
  15. Damasco (Aram), a tribo sob controle Assírio, governada por Rezon.
  16. Edom (Transjordão), a nação em rivalidade, governada por Magdiel
  17. Midiã (Negev), a nação dos beduínos, governada por
  18. Tiro (Fenícia), a nação portuária, governada por Baal-Eser.

A População

James Tissot (1836-1902)

O grande profeta Moisés recebeu no monte Sinai as tábuas com os mandamentos de Deus. São seiscentas e treze leis que não permitem margem para interpretação, apenas para comentário e discussão para situações específicas. Elas regem tudo, incluindo o cotidiano da população em todos os seus níveis. No modo de se vestir, elas descrevem como o povo de Israel deve evitar símbolos da vaidades. As mulheres devem cobrir suas cabeças com véus para não mostrar seus cabelos e os homens não devem usar adornos que demostrem riqueza. As vestimentas são geralmente de lã retirada das ovelhas ou do linho retirado da colheita. No entanto, a segregação típica dos israelitas é representado nas roupas, pois esses dois tipos de tecido nunca podem ser combinados numa mesma costura.

O povo de Israel veste túnicas que cobrem todo o corpo, mas alguns acessórios são obrigatórios de forma que um israelita pode ser facilmente reconhecido numa multidão. Um tecido franjeado chamado “Talit” deve ser colocado ao redor do pescoço e sobre os ombros como um xale no momento das orações. Há também o “Tefilin”, que são amarras de couro para serem colocados em volta do braços onde caixas possuem a inscrição: “Escuta, ó Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Único!”. Por último, há a recomendação de não andar mais de sete passos com a cabeça descoberta, pois a Presença Divina paira sempre sobre ela, assim, o acessório chamado “Kipá”, que é uma cobertura sobre a parte posterior da cabeça onde está a calva, é muito usado como um sinal de reverência a Deus.

O povo de Israel tem uma atitude de superioridade espiritual e moral em relação aos outros povos. Eles exaltam a ideia de que possuem o único Deus verdadeiro, o absoluto senso de moralidade e uma identidade cultural própria como o Povo Escolhido. Esse sentimento afasta os outros povos, que se sentem desrespeitados ao serem chamados de seguidores de falsos deuses ou povos imorais através da designação “gentio” ou “pagão”. No entanto, eles possuem um grande senso de igualdade entre si. Ninguém é superior aos olhos de Deus e todos são passíveis de perdão pelo Senhor. Por isso, uma série de regras proíbem a escravidão e a cobrança de juros entre as doze tribos. Essas atividades ainda podem ser utilizada para pessoas estrangeiras, principalmente, no caso de prisioneiros de guerra.

A Lei de Deus acentua o afastamento dos israelitas de outras povos. As escrituras os proíbem comerem nas mesmas mesas dos pagão, pois estes não preparam a carne como descrito na lei. Elas também condenam o casamento estrangeiros pela preocupação de que seguidores de falsos deuses possam desvirtuar um noivo ou uma noiva do caminho de Deus. Elas também proíbem seus seguidores de se ajoelhar ou prestar qualquer honra a outros deuses, homens, estátuas ou símbolos estrangeiros mesmo que seja por questões diplomáticas ou por alguma formalidade, sendo este o maior de todos os pecados como descrito já primeiro mandamento da Lei de Deus.

Os Relacionamentos

James Tissot (1836-1902)

A Lei de Moisés dita as regras da sociedade. Todo o povo deve assim obedecer padrões morais muito rígidos que ensinam a não realizar o sexo antes do casamento; condenar o homossexualismo; proibir uniões incestuosas; e valorizar a monogamia. A união de dois jovens é decidida pelos pais, sem uma consulta prévia a ambos, e, mesmo quando os noivos tem escolha na decisão, a primeira preocupação deles é a opinião dos parentes.

As escrituras sagradas evidenciam o pai como uma figura de autoridade na casa. Na verdade, a palavra “se casar” possui a mesma raiz de “se tornar mestre” no idioma israelita; sendo o dever da esposa se referir ao marido como seu mestre. Os divórcios estão previstos nas escrituras com leis específicas, mas só são permitidos por solicitação do marido ou, pelo menos, com seu consentimento. Não raro, mulheres podem ser condenadas em adultério por fugirem de maridos abusivos e buscarem novos parceiro, sendo o adultério punido com a morte da infiel e do seu amante.

A prostituição é extremamente condenada. Ela é vista como uma forma de adoração a falsos deuses, pois a luxúria e a ganância são os principais caminhos para se abandonar o Deus verdadeiro. Um provérbio israelita conta que “os lábios da mulher licenciosa destilam mel e a sua boca é mais macia que azeite; mas o seu fim é amargo como o absinto e agudo como a espada de dois gumes”. Não é raro encontrar propriedades destruídas e mulheres são apedrejadas sob essa acusação. Da mesma forma, o homossexualismo é considerado um pecado grave que deve ser imediatamente punido com a morte, sendo os israelitas os mais severos contra essa prática dentre todos os povos do mundo.

James Tissot (1836-1902)

As Celebrações

O Sábado não é um festival em si, mas uma ordem de Deus. Ele disse ao seu povo: “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou”. Essa é uma das instituições mais fortes do povo de Israel e um dos dez mandamento principais de Deus, que não pode ser negado em nenhum momento.

Os festivais são períodos que lembram o povo de Israel da sua história. As escrituras sagradas comanda três festivais principais que são: 1) Festa da Libertação (“Páscoa”), uma semana de celebração com pães não-fermentados para lembrar libertação do Egito por Moisés quando se saiu às pressas sem tempo de fermentar o pão; 2) Festa das Tendas (“Sucot”), uma semana em que se dorme em tendas para lembrar a travessia no deserto quando não se tinha terra própria onde dormir; 3) Festa da Colheita (“Shavout”), é o período para agradecer a conquista da Terra Prometida durante o tempo colheita dos cereais que essa terra fornece. Outras pequenas comemorações também ocorrem em cada primeira Lua Nova (“Rosh Chodesh”), que marca o início de cada mês no calendário israelita, e no dia do Ano-Novo (“Rosh Hashanah”), que é um momento de introspecção para comemorar a entrega da alma ao primeiro ser humano.

Todos os anos também é celebrado o Dia do Perdão Eterno (“Yom Kipur”) que ocorre na cidade de Siló, onde está a Arca da Aliança. São escolhidos dois cordeirinhos que representam o caminho de Deus e o caminho do pecado. Ao longo do dia anterior, toda população sadia e adulta deve infligir em si mesma várias restrições ao corpo incluem abster-se de qualquer água, comida, relações sexuais e limpeza corporal. Enfim, no dia da celebração, uma lista de pecados humanos é proferida em voz alta para os quais é solicitado o perdão. Em seguida, o primeiro cordeiro é oferecido a Deus para expiar os pecados cometidos por Israel e lembrar que o caminho de Deus leva aos Céus. Mais tarde, o outro cordeiro, que carrega o pecado da população e o nome de demônios que se opõem ao divino, é lançado fora da cidade, rumo ao deserto, o que representa uma existência árdua no mundo terreno.

James Jacques Joseph Tissot (1836-1902)

A Religião

A terra de Canaã sempre teve muitos deuses, mas uma revelação do grande profeta trouxe a verdade. Todos esses deuses eram falsos. Não há outro Deus além do “Deus Único”. O Criador dos Céus e da Terra na grande maioria das vezes é referido apenas como Deus, se pronuncia no idioma do povo escolhido como “El”, mas também possui muitos outros epítetos. Ele é o Deus Altíssimo (“El Elyon”),  o Deus da Montanha (“El Shaddai”), o Deus Eterno (“El Olam”), o Deus Elevado (“Elohim”), o Deus da Aliança (El Berit), o Nosso Senhor (“Adonai”) e Aquele que é (“Yaweh”).

Esse é o Deus único e verdadeiro. Ele é invisível, imaterial e onipotente; que se revelou ao povo de Israel com as seguintes palavras: “Eu Sou o que Sou. Sou eu o Senhor. Sou o Deus dos teus antepassados: o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Esse é o meu nome para sempre, nome pelo qual serei lembrado de geração em geração. Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão. Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te ajoelharás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos.”

O sacrifício de animais é tão importante para o povo de Israel que, das seiscentos e treze leis de Moisés, cem delas são referentes a essa prática. Todo sacrifício só pode ser realizado por um sacerdote treinado para realizar um corte limpo no pescoço de um animal puro, geralmente aves, ovelhas ou bovinos, na qual todo o seu sangue se derrama no altar. O sacrifício são de dois tipos: 1) o Sacrifício de Agradecimento (“Shelamin”), cuja morte do animal simboliza a lembrança de que todo sucesso alcançado pertence a Deus, e 2) o Sacrifício de Perdão (“Chatot”), cuja morte do animal é uma lembrança ao transgressor de que todo pecado causa sofrimento. Após o sacrifício, a gordura do animal é queimada e sua carne serve para alimentar os pobres ou manter o templo. Só em casos especiais, quando o sacerdote julgar necessário, a carne do animal pode ser totalmente incinerada no ritual chamado “Holocausto”.

James Tissot (1836–1902)

Os Exércitos

O povo de Israel não possui uma organização militar, nem exército unificado. Cada uma das doze tribos possuem homens conscritos na população que podem ser convocados pelo seu líder em momentos de necessidade. E assim os israelitas preparam sua própria armadura e buscam sua própria arma para lutar. Geralmente, essas armaduras são de linho ou de couro enquanto as armas mais comuns são as lanças e espadas curtas. O número de guerreiros no exército israelita é assim sempre imprevisível a cada chamado, pois não há pagamento aos soldados além de uma parte da pilhagem. Vale muito mais a consciência de cada habitante e a influência de seu líder quando ocorre o chamado para a guerra.

Felizmente, o legado de Moisés unificou o povo numa identidade comum e no amor por essa terra que Deus lhes entregou. Essas leis estão escritas em tábuas de pedras que foram colocadas dentro de um baú, chamado a “Arca da Aliança”, que foi construído e ornamentado sob orientação direta do profeta Moisés. Hoje a Arca está guardada no templo da cidade de Jerusalém. Essa identidade geográfica e cultural faz de Israel um povo sem interesse pelo expansionismo. Não há um desejo de se expandir para outras nações. No entanto, se um inimigo surge dentro das fronteiras da sua amada Terra, conclamando para si um pedaço dela, mesmo que numa tribo distante, eles sentem um fervor sobrenatural para a proteger.

Europa

O Mundo sem Civilizações

z12Desde o princípio, o deus do trovão Tínia e sua esposa Uni governaram a Terra após criarem os homens. Ele era o mais poderoso dos nove grande deuses que possuíam o poder do relâmpago, do raio e do trovão. No entanto, a chegada de um povo imigrante vindo do Leste, que foi trazido em estranhas embarcações, trouxe consigo também todo um novo panteão. Assim, um novo deus detentor do poder do raio, do relâmpago e do trovão derrubou Tínia e os outros deuses locais. O seu nome é Júpiter que, junto com sua esposa, irmãos e filhos, agora orienta a civilização conhecida como Itália.

    • Governante: Latino de Alba.
    • Deuses: Tínia e o panteão etrusco.

A História

As tribos italianas nunca desenvolveram a escrita, por isso, toda a história pregressa deles e baseada na tradição oral contada por anciões e cantada por poetas. Muitos nomes de importantes líderes anteriores já se perderam nessa pouco confiável passagem da informação e muitos eventos considerados históricos são bastante questionáveis. Sabe-se apenas que as tribos foram formadas por uma grande onda migratória de povos de pele alva das terras do norte, vindos de além das montanhas alpinas, da terra chamada Hiperbórea. Esses povos trouxeram consigo as noções básicas de agricultura e da produção de fogo. Eles criaram assentamentos locais que encerraram a vida nômade da península, iniciando as primeiras tribos locais.

O grande evento recente na história dos povos italianos foi a chegada do imigrantes liderados pelo líder Tirreno, que possuem estatura mais baixa, pele mais escura e costumes diferentes. Eles vieram de terras longínquas da Ásia para fugir de uma terrível fome que assolou sua terra natal. Eles assim chegaram na península italiana em busca da terra profetizada pela feiticeira sibilante chamada Carmentis. A profetisa recebeu a revelação divina que o “Sobrevivente da Maior das Guerras” desembarcará nessas terras com a “Linhagem dos Filhos da Loba” para dar início ao maior império que já pisou sobre a Terra. O líder Tirreno sabe que não sobreviverá tempo o bastante para o ver esse “Futuro Império”, mas é seu dever preparar o berço para seu nascimento.

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A Política

A chegada do líder Tirreno com imigrantes da Ásia trouxe uma grande convulsão social na península italiana. Esses povos asiáticos marcados pela pele mais escura do corpo trouxeram consigo seus próprios deuses e suas próprias tradições. São povos mais desenvolvidos nas ciências. Vieram em grandes embarcações capazes de atravessar o Mar da Talassa. Empunham armas metálicas de bronze capazes de rasgar a carne humana. Os povos italianos logo perceberam que suas jangadas e armas de madeira nunca serão capazes de confrontar o inimigo caso consigam se estabelecer na região.

As tribos locais já começam a divergir entre si sob a situação. O rei Mezêncio da tribo Terramare busca formar uma coalizão contra os recém-chegados. O rei Latino dos Albas, por outro lado, já se aproxima do líder Tirrênio para se converter aos novos deuses e aos costumes introduzidos. Ele já acredita tanto na chegada do “Sobrevivente da Maior das Guerras” que prometeu sua filha Lavínia em casamento para ele quando chegar, cortando assim o acordo que antes tinha com o líder dos Rutúlios para quem a filha estava prometida. Não á dúvidas que a guerra na península italiana é só uma questão de tempo para acontecer.

Os Clãs

Os italianos possuem com um forte senso de comunidade e valorizam bastante seus antepassados. Diferente de outros povos que utilizam a cidade onde vivem como sobrenomes, os italianos utilizam o nome de sua família de forma que as tribos são divididas em vários clãs familiares. Essa característica também é percebida na forma como honram seus antepassados visto que as tumbas são amplas e largas por serem coletivos e de forte caráter familiar com os filhos sendo enterrados na mesma área de seus pais e dos  demais antepassados.

Os principais clãs familiares nas terras europeias e os seus líderes atuais estão listados abaixo:

  1. Albas (Lácio), a capital dos italianos, governada por Latino.
  2. Veios (Terramare), o clã dos velhos deuses, governado por Mezêncio.
  3. Elímios (Ligúria), o clã dos malfeitores, governado por Érix.
  4. Clúsios (Marrúvia), o clã dos feiticeiros, governado por Osínio.
  5. Vólcios (Fiora), o clã das mulheres independentes, governado por Ópis.
  6. Tirrênios (Palatino), o clã dos recém-chegados, governado por Tirreno.
  7. Rutúlios (Ardea), o clã dos militaristas, governado por Dauno.
  8. Messápios (Apúlia), o clã do rei aprisionado, governado por Calco.
  9. Lócrios (Calábria), o clã sob ataque estrangeiro, governado por Crotão.
  10. Calidônia (Etólia), o clã dos monstros, governada por Oneu.
  11. Palene (Calcídica), o clã dos gigantes, governado por Alcioneu.
  12. Bistônios (Trácia), o clã dos bárbaros, governado por Diomedes.
  13. Cicônios (Trácia), o clã dos selvagens, governado por Eufemo.
  14. Wanes (Hiperbórea), o clã das terras geladas, governado por Wanes.
  15. Enquélios (Ilíria), o clã contra os ciclopes, governado por Épiro.
  16. Gálios (Céltica), o clã dos druidas, , governado por Taranis.
  17. El Argar (Ibéria), o clã nos limites do mundo, governado por Crisaor.
  18. Formórios (Britânia), o clã no oceano desconhecido, governado por Balor.
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Hugo Darnaut (1851–1937)

A População

A população italiana possui uma alta estatura e a pele bem branca em razão de sua origem dos povos da hiperbórea. As classes mais ricas geralmente utilizam peles de animais, ossos humanos e âmbar como adornos para se destacar da população geral. Eles só conhecem os metais pelo contato com povos estrangeiro. Não é raro encontrar agulhas, armas e utensílios de bronze nas classes mais ricas. No entanto, os italianos  não possuem o conhecimento da metalurgia para produzi-los. Por esse motivo, maior parte dos objetos de uso diário são de madeira, ossos e porcelana.

Não há grandes cidades nas terras italianas. Pequenas populações vivem em povoados que raramente atinge mais de duas mil pessoas e suas construções são limitadas. Eles constroem suas casas com madeira simples em formato trapezoidal ou nos casos mais abastados em argila e pedra. As ruas organizadas num padrão retangular ao redor de uma praça central, com as roças e pequenos currais ficando nas periferias. Geralmente , há um pódio em madeira ou uma grande rocha no centro onde os líderes da cidade realizam seus pronunciamentos.

Cada aldeão planta o que necessita para sua família nos quintais de suas casas e complementa com a caça, a pesca e a coleta de frutos. O excedente das plantações nem é buscado, nem é desejado. O comércio é mínimo entre os clãs e as transações comerciais se limitam à troca básica de produtos alimentares para complementar as refeições. É o mais simples escambo em que um saco saco de trigo é trocado por outro de arroz ou um pernil de veado caçado é trocado por algumas frutas colhidas, com o intuito de comer algo diferente no dia seguinte e diversificar a comida.

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Viktor Mikhailovich Vasnetsov (1848–1926)

Os Relacionamentos

Homens e mulheres são livres para viver suas vidas até o casamento. Podem se relacionar com outros membros, vivem amores e sofrem desilusões. As mulheres também são livres. Não há o enaltecimento da virgindade. E, mesmo que uma moça venha a engravidar, as anciãs possuem o conhecimento de ervas para o aborto. Todos são assim livres para viajar e conhecer novas terras durante a juventude. No entanto, quando chega o momento em que os pais escolhem o noivo ou a noiva para seus filhos é impossível uma decisão contrária sobre o risco de expulsão do clã. Afinal, o clã é a base da sociedade italiana e tudo possui o objetivo maior de engrandecer a família.

O casamento sempre é extremamente celebrado com grande festa como representação do amor do casal celestial que governa sobre todo o panteão divino e sobre os homens. É após o casamento que o Clã entrega a um casal sua própria casa e o necessário para viver sua independência. Enquanto solteiros, os filhos e filhas devem viver com os pais. O próprio trabalho também não lhes rende nada diretamente, pois os frutos do labor são entregues ao líder do Clã para que este repasse aos seus membros conforme o mérito de cada um. A divisão do trabalho possui um forte caráter de gênero com as mulheres trabalhando na limpeza das roupas e no preparo da comida enquanto os homens trabalham na caça e nas plantações.

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Viktor Mikhailovich Vasnetsov (1848–1926)

As Celebrações

Os italianos vivem em sua tribos de forma tranquila e isolada, mas possuem contatos com outras tribos da península através de festivais que ocorrem ao longo do ano. São festivais que geralmente tem algum aspecto da vida familiar ou como tema comum. Eles também adoram a música. Eles utilizam principalmente flautas e tambores com que fazem suas festas e celebrações. No entanto, eles estão maravilhados com a lira e a cítara trazida pelos povos recém-chegados por considerarem o som das cordas diferente de tudo o que conheciam. A música é essencial para a manutenção da história italiana visto que, sem a escrita, os versos são a melhor forma de as ter memorizada.

O Festival dos Antepassados, chamado de Parentália, ocorre em todas as tribos para honrar os mortos. Ele ocorre nno fim do inverno com duração de sete dias completos. Os locais sagrados são fechados a todos, estando proibidas as celebrações de casamentos e nomeações. Todos devem visitar os túmulos dos seus antepassados nesse período e lhes homenagear com oferendas na forma de flores violetas e pães embebidos em vinho. No oitavo dia, chamado de Ferália, cada clã realiza uma grande reunião que dura dois dias para que todas as desavenças entre seus membros sejam expostas pelo patriarca. O objetivo é forçar uma reconciliação entre os membros em conflitos, com cada desavença resolvida sendo sempre muito bem comemorada.

O Festival da Maioridade, chamado de Liberália, ocorre nos equinócios de primavera para comemorar a passagem das crianças para a idade adulta. Todas as crianças  italianas recebem ao nascer um amuleto chamado Bulla para colocar ao redor do pescoço feito de madeira, rocha, porcelana ou âmbar com o objetivo de os proteger dos maus espíritos. No festival, todos os meninos que já passaram pela puberdade (por volta dos treze anos de idade) tem seus amuletos queimados em fogo sagrado no ritual até se tornar cinzas. Em seguida, os pais lhes entregam os instrumentos do ofício que lhes será escolhido para trabalhar por toda a vida. Pode ser uma lança de guerra, um machado de lenhador, um arco de caça, uma enxada para plantação, dentre outras possibilidades.

O Festival do Cultivo, chamado de Consuália, é realizada duas vezes ao ano para avisar a todos o tempo certo para semear e colher os grãs cultivados. Uma das comemorações ocorre no solstício de inverno para avisar a todos que chegou o momento da semeadura dos grão. A outra ocorre no solstício de verão para avisar do momento que chegou o tempo de colheita. Nesses festivais, são realizados desfiles com mulas e cavalos bem decorados que atravessam as ruas da cidade ao som de instrumentos musicais e de muita dança. No período de colheita em especial, todas as famílias distribuem muita comida para toda a tribo comemorar os bons resultados de seus plantações e os homens disputam entre si em jogos de corrida e combate.

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Fernand Cormon (1845–1924)

A Religião

O mundo italiano está se modificando com a chegada de deuses estrangeiros que estão ocupando o espaço dos deuses locais. Esse deuses antigos perdem adeptos a cada ano para os deuses recém-chegados. O próprio deus Apolo, que fazia parte do antigo panteão, já mudou de lado para ficar com os novos deuses. E, como este é o deus da profecia, certamente este não é um bom sinal para os antigos deuses.

Os nove antigos deuses são liderados pelo casal criador Tínia e Uni. Recentemente, o próprio deus da profecia Apolo traiu estes deuses para tomar o lado do novo panteão, o que indica um fim muito próximo para esse grupo de deuses: 1) Tínia, o deus do poder; 2) Uni, a deusa da vida; 3) Cel, a deusa-terra; 4) Usil, o deus do sol; 5) Catha, a deusa da lua; 6) Nortia, a deusa da sorte; 7) Leinth, a deusa da morte; 8) Fufluns, o das festas; 9) Selvans, o deus da vida

A chegada de novos povos nas terras italianas vem causando uma revolução na sociedade, pois este trouxeram consigo um novo panteão formado pelos deuses olimpianos do Hélade. As profecias dizem que o sobrevivente da grande guerra chegará trazendo o emissário dos novos deuses. Este derrotará o poder dos deuses antigos no esplendor de uma nova era que será liderada pelos filhos da loba.

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O Exército

Os italianos não disputam terras, pois elas são abundantes para a população limitada da região. Raramente, lutam por alimentos, pois há grande quantidade de animais para caçar e frutos por coletar, nem lutam por água, pois há incontáveis rios e lagos na península. A maio parte das guerras entre tribos italianas decorre por orgulho ferido por algum insulto ou vingança por algum crime. Eles possuem uma propensão para a guerra com ódios antigos que causam rivalidades que atravessam gerações.

Os guerreiros italianos em batalha utilizam o couro de animais como proteção, escudos de madeira e lanças com pedras afiadas na ponta. A rocha obsidiana de origem vulcânica é especialmente afiada e utilizada pelos altos escalões das forças de guerra, sendo encontrada ilhas específicas do mar Tirreno. O arco e flecha também é bastante valorizado, os quais utilizam tanto para caçar quanto no combate.

Não há hierarquia nos seus exércitos. Há apenas o líder tribal e seus guerreiros. Mesmo quando há aliança de diferentes tribos e clãs, todos os líderes discutem entre si em igualdade, o que por si só pode causar grandes desentendimentos e brigas internas. As estratégias de guerra italiana são primitivas. Os guerreiros, geralmente, quebram rapidamente de formação por valorizarem aqueles que precedem os demais e são capazes de combater sozinhos na linha de frente.