Io

Lawrence Alma-Tadema (1836–1912)

Io se tornou uma das mulheres mais reverenciadas da mitologia por servir como elo de ligação entre os gregos e a família real egípcia, pois o seu filho Épafo veio a ser tornar o faraó do Egito. Assim, todos os heróis que vieram das terras egípcias se autoproclamavam seu descendente. O seu nome Ἰώ pode ser traduzido como uma referência à deusa egípcia Ísis, a quem ela é comparada, por descrever o seu símbolo: a lua (io).

Pai

  • Íaso, bisneto de Ínaco.
  • Ínaco, deus-rio, filho do oceano.

Mãe

  • Argia, oceanida, sem outros mitos.

Filhos

Por seu amante Zeus, líder do panteão olimpiano, Io gerou:

  • Épafo, faraó do Egito.
  • Ceressa, princesa do Egito, sem outros mitos.

Por seu amante Osíris, líder do panteão egípcio, gerou:

  • Harpócrates, deus do silêncio.

 

John Hoppner (1758–1810)

Nascimento

Após um grande dilúvio destruir praticamente toda a vida no Hélade, só os povos subaquáticos que viviam nos lagos da região foram capazes de sobreviver. Um membro dessa raça chamado de Ínaco gerou os primeiros homens nascidos após a catástrofe. Seus nomes eram Foroneu e Egialeu, que fundaram as primeiras cidades da era de bronze. A bela Io nasceu na cidade Argo quando esta ainda era um pequeno povoamento. Ela era membro da família real local por ser trineta do seu fundador Foroneu. Assim, a alcunha que recebeu como “Filha de Ínaco”, não decorre de ser propriamente filha dele, mas por ser sua mais proeminente descendente.

Romance com Zeus

Desde muito cedo, a princesa Io assumiu seu papel para contribuir com a cidade de Argo. O seu pai Íaso era então governante dela por ser filho de Argo, filho de Niobe, filha de Foroneu, filho de Ínaco. Ele entregou sua filha para que fosse ordenada no templo de Hera e assim aprendesse a se tornar uma boa esposa para o marido que um dia lhe fosse escolhido. No entanto, a princesa Io acabou vivendo um romance com o próprio Zeus, esposo da deusa  a quem jurou lealdade.

Argo, Aquele que Tudo Vê

A deusa Hera começou a desconfiar que estava sendo traída por seu esposo. Por isso, resolveu enviar um espião para descobrir a verdade. O escolhido para a missão foi um homem chamado Argo que possuía um grande renome na região. Ele era bem distinto por sua grande força e por vestir a pele de um touro selvagem que matou com suas próprias mãos. Além disso, foi capaz de derrotar um grupo de sátiros criminosos que roubaram os touros da Arcádia e derrotar a terrível criatura conhecida com Equinida, que era metade mulher, metade serpente. Para a missão de descobrir a traição do esposo Zeus, a deusa lhe entregou o poder dos “Cem Olhos”. o que lhe rendeu a alcunha de “Aquele que Tudo Vê”.

Nicolaes Pietersz. Berchem the Younger (1649-1672

Transformação em Vaca

O poderoso e talentoso Argo se engajou na sua missão. Afinal, a deusa Hera lhe prometeu a imortalidade caso descobrisse algo. E ele não descansou até descobrir toda a verdade. Ele revelou a infidelidade do esposo à ciumenta deusa, o que acendeu a sua ira divina. Hera puniu a amante Io transformando-a numa vaca. Depois, a entregou à mercadores fenícios que a venderam em terras distantes. Em seguida, a amaldiçoou para nunca mais voltar. Caso não se distanciasse cada vez mais da cidade de Argo, seria atormentada e picada por uma mosca mutuca que a perseguia continuamente.

Jornada através da Trácia

A punição de Io a levou para muito longe de sua terra natal, sempre impulsionada pela maldita mutuca que a picava sempre que tentava dar um passo para trás. Ela foi obrigada a seguir cada vez mais o norte através da costa oeste do Peloponeso. Esse mar, cuja costa foi atravessada por Io e que separa a Grécia da Itália, recebe o nome da princesa transformada em animal sendo hoje chamado de “Mar Ioniano”. A princesa Io alcançou as terras da Ilíria até que os montes alpinos não mais a permitiram continuar. Então ela tomou o caminho leste e atravessou toda a Trácia até chegar nos limites da Europa no Helesponto do mar do Bósforo que separa este continente da Ásia.

Giovanni Benedetto 1609-1663

Encontro com Prometeu

Ainda transformada num animal, a princesa Io conseguiu atravessar o Mar do Bósforo. Ela continuou sua longa jornada pela costa do mar Negro já no continente asiático e atravessou toda costa norte da Anatólia. Enfim, ela alcançou as terras da Cólquida e da Cítia, onde encontrou o titã acorrentado chamado Prometeu. Este titã fora punido por Zeus por entregar aos homens a primeira descoberta científica do mundo: o Fogo. Ambos discutiram entre si sobre a arbitrariedade do poder divino. “Ninguém no mundo é livre, apenas Zeus”, disse o titã ao descrever que todos estão presos aos desígnios dos deuses, que muitas vezes são injustos. Ele então revelou um brilhante futuro para Io, professando que ela continuasse seu percurso até as terras do Egito.

Percurso através da Ásia

Ainda em sua forma bovina, a princesa Io tomou caminho rumo ao Egito, atravessando as terras hititas, fenícias e canaanitas. Durante o seu percurso, ela escutou de mercadores fenícios que seu pai Íaso estava a sua procura na sua terra-natal. Ele chegou a enviar uma força de busca liderada pelos comandantes Cirno e Lirco. Ambos homens passaram anos vasculhando todo o Hélade em busca da princesa e haviam chegado tão longe quanto as terras asiáticas da Cária. No entanto, sem obterem sucesso na missão e temendo a reação paterna quando retornassem à Argos sem a ter encontrado, ambos decidiram viver o resto de suas vidas na região. Um deles, Lirco, teria se casado com a filha do rei Cauna da Cária, se tornando uma pessoa de muitas riquezas. Certamente, a princesa Io pensou em se revelar para esses homens, no entanto, por mais que sentisse falta da sua família, ela decidiu seguir o conselho de Prometeu e continuou sua jornada até o Egito.

Thomas Seddon, 1885

Casamento com o Faraó

Quando chegou no Egito, a princesa Io encontrou seu amante divino Zeus lá a esperando. O titã Prometeu havia avisado o líder do panteão sobre a passagem de Io pela Cítia e sobre a transformação que a deusa Hera causou nela. Procurando consertar a terrível situação que os deuses lhe causaram, Zeus restaurou sua forma humana. Em seguida, fez um filho nela chamado Épafo. Por fim, a entregou para se casar com o homem mais poderoso de todo o Egito: o próprio faraó Telégono. Este faraó fez de Io a sua segunda esposa, assumindo a criação do seu filho Épafo como seu próprio filho. Obs: Muitos mitologistas fazem a comparação deste faraó Telégono do mito com Tutmés II da cronologia egípcia, o que faria de Io a rainha Iset.

Rapto de Épafo

Não demorou para as ações de Zeus em favor de sua antiga amante Io fossem descobertas por Hera. Furiosa com o nascimento de mais um filho bastardo do esposo, a ciumenta deusa tramou contra Io mais uma vez. Ela enviou um grupo de Dátilos cureteanos para capturar o bebê Épafo e o entregou para a rainha Saosis, que era esposa do rei Malcandro de Biblos e sacerdote da deusa Astarte. A rainha cuidou da criança sem saber da sua real identidade. Enquanto isso, Io montou um grupo de busca para procurar o seu bebê por toda a Ásia. Ela enfim encontrou a criança sob os cuidados da rainha Saosis que prontamente entregou Épafo de volta quando soube sua origem. Enfim, ambos filho e mãe puderam voltar juntos para o Egito.

Adrien Guignet 1816-1854

Trono de Egito

O faraó Telégono governou por anos o Egito com grande prosperidade, mas não conseguiu produzir filhos varões com sua esposa principal: a famosa Hatshepsut, considerando a comparação Telégono-Tutmés II. Esta ocorrência abriu a oportunidade para o filho de Io tomar o trono do Egito para si. Épafo então se casou com uma mulher dos povos subaquáticos chamada de Mênfis cujo pai era a representação do próprio rio Nilo em forma humana. Ambos produziram duas filhas chamadas de Lisianassa e Líbia. É dito que foi durante seu governo que se estabeleceu as cidades na Etiópia ao leste e na Líbia a oeste. Embora não fosse a primeira mulher do antigo faraó, a rainha Io certamente ganhou grande notoriedade e poder com a ascensão do seu filho ao trono egípcio. A profecia de Prometeu assim se tornava realidade.

Ascensão Divina

A ideia de um deus habitar um corpo humano não é algo raro de encontrar na mitologia egípcia. Considerava-se que os próprios faraós recebiam o espírito de Osíris na sua coroação. O mesmo teria acontecido com a rainha Io, pois ela construiu uma estátua em homenagem à deusa Ísis que a considerou digna de seu poder. A deusa passou a habitar o corpo da rainha de forma que todo o Egito passou a chama-la  pelo nome da deusa. Sob o manto de divindade, a dicotomia Io-Ísis se tornou extremamente poderosa no Egito. É dito que ela lecionou os curandeiros sobre diversas drogas medicinais e realizou várias curas milagrosas. Muitos que perderam seus olhos ou outras partes do corpo as tiveram restauradas com a ajuda da deusa.

Mãe de Deuses

Com a deusa Ísis habitando o seu corpo, a rainha Io velou sobre o corpo mumificado do deus Osíris que séculos antes fora assassinado e esquartejado por seu maligno irmão Set. Embora tenha passado a governar e residir no mundo dos mortos, Osíris ainda visitava o mundo dos vivos através de sua múmia. Desta forma, Io acabou por transformar a câmara mortuária de Osíris numa nova cama nupcial. O amor de ambos resultou no nascimento do deus Harpócratres, deus do silêncio, que preside sobre todos os segredos e confissões. O deus guerreiro Hórus, também filho de Ísis e Osíris, nascido séculos antes, tomou a guarda do irmão e se tornou seu fiel companheiro.

Gravura na Tumba de Set I – KV17

Metamorfose

A rainha e deusa Io se tornou adorada por seu povo até que, certo dia, ela simplesmente desapareceu do convívio humano. Dizem que próximo da cidade de Ascalão na Síria, ela se jogou num profundo lago sem dar qualquer explicação. No entanto, antes que tocasse as água, seu corpo tomou a forma de um peixe que ascendeu aos céus para se tornar a constelação de Piscis. Hoje, os egípcios ainda a veneram com muitos ritos de invocação. O culto de Ísis ioniana transcendeu o rio Nilo, ficando famosa a história de uma mulher chamada Aretusa, que salvou a vida de sua filha, cujo pai ordenou a morte por desejar filho homem, graças à orientação da deusa que veio até ela nos sonhos.