Céfalo

Nicolas Poussin 1594 -1665

Céfalo é um herói grego famoso pelo triângulo amoroso que viveu com a princesa curandeira Prócris e a deusa da alvorada Eos. Ele também foi um grande líder que combateu os Teleboas ao lado de Anfitrião e fundou a importante cidade de Ítaca. O seu nome Κέφαλος pode ser traduzido como Cabeça ou Líder (kephalos).

Pai

  • Deioneu, rei de Iolcos, filho do senhor dos ventos Éolo.
  • Hermes, o deus mensageiro.

Mãe

  • Diomede, filha do povoador Xuto
  • Herse, princesa Ateniense, filha do rei Cécropes.

Filhos

Por Procris, filha do rei Erecteu de Atenas, ele teve:

  • Arcésio, rei de Ítaca, sucessor do pai Céfalo.
  • Aglaura, sem outros mitos.

Por Eos, a deusa da alvorada, ele teve:

  • Héspero, conhecido como Samael ou Lúcifer, a “Estrela da Manhã”, se torna um anjo caído e assume a função de diabo na religião judaico-cristã.
  • Faetonte, sacerdote e amante de Afrodite
  • Titônio, sem outros mitos.

Por Climene, filha do rei Mínias de Orcomenos, ele teve:

  • Íficlo, argonauta, com poderes de super-velocidade, morto pelo usurpador Hipocoonte de Esparta.
  • Alcimede, esposa do deposto rei Esão de Iolcos, mãe do herói Jasão.

Louis de Boullogne,1654 – 1733

Nascimento

A linhagem mais utilizada para Céfalo é como membro da casa real Tessaliana e neto do famoso rei Éolo, o senhor dos ventos. Nessa versão,  seu pai é o príncipe Deioneu de Iolcos e sua mãe é uma mulher chamada Diomede, filha do povoador Xuto. Numa versão diferente, Céfalo é membro da casa real Ateniense por ser filho do deus Hermes e da princesa Herse, filha do rei Cécropes de Atenas. Muitos acreditam que essa versão, na verdade, é de outro indivíduo homônimo. No entanto, isso é improvável, pois em ambos as versões a titã Eos se apaixona por ele, o que seria uma grande coincidência para dois diferentes homens chamados de Céfalo.

Paixão por Prócris

A história de Céfalo o apresenta como um homem apaixonado pela princesa ateniense Prócris, que era famosa por possuir em suas mãos o dom da cura. Ambos juraram amor mútuo um para o outro e estavam destinados a viver felizes para sempre. No entanto, este amor estava prestes a ser testado. Grande apreciador de aventuras e sempre desejoso de novos desafios, todas as manhãs Céfalo saía em busca de novas presas para caçar ou aceitava combater guerras em diversos lugares.

Guerra contra os Táfios

Uma das guerras que Céfalo participou ocorreu quando os filhos do rei Pterelau da Táfia reivindicaram o reino de Micenas para si por serem também descendentes de Perseu por seu filho Mestor. Como o então rei Eléctrio de Micenas ignorou a alegação, eles mataram todos os seus filhos e roubaram o gado micênico. O rei Eléctrio estava cheio de ódio quando entregou ao líder Anfitrião a missão de recuperar o gado roubado e vingar seus filhos assassinados. Apoiado por uma aliança que incluiu Céfalo, que liderava os exércitos da Ática, Panopeu da Fócida, Heleu, filho de Perseu, de Argolis, e Creonte de Tebas, Anfitrião devastou as ilhas dos Táfios e recuperou o gado roubado.


Henryk Siemiradzki (1843–1902)

Triângulo Amoroso

Quando retornava de sua vitória contra os Táfios, a deusa Eos observou do céu o jovem Céfalo e se apaixonou por ele. A deusa titã desceu ao solo e tentou seduzir o rapaz, mas Céfalo rejeitou todas as investidas da deusa, dizendo que amava demais a princesa Prócris para traí-la. Indignada, a deusa Eos semeou a discórdia no seu relacionamento. Ela então instigou: “Eu não quero que quebre seu voto de fidelidade, a menos que ela quebre antes de você”, revelando assim que sua amada Prócris não possuía a mesma lealdade que Céfalo tinha por ela.

Traição de Prócris

Céfalo foi incapaz de acreditar que Prócris fosse capaz de traí-lo, mas a deusa da alvorada insistiu na sua revelação e desafiou Céfalo a testar sua amada. A deusa lançou um feitiço em Céfalo que o fez mudar de fisionomia. Fingindo ser outro homem, respondendo pelo falso nome de Pteleon, o jovem Céfalo tentou seduzir a sua amada. Ele lançou seus encantos e a presenteou com joias. No começo, a moça resistiu, mas, com o passar do tempo e recebendo mais presentes a cada investida, Prócris se deixou levar para a cama com o Pteleon.  Quando Céfalo revelou a verdade, expondo a amada como uma mulher infiel, ele a abandonou e aceitou fazer amor com Eos nas nuvens.

O Cão Tempestade e a Lança Certeira

A princesa Prócris ficou destruída pelo fim de seu relacionamento e, temendo por sua própria vida, visto que seria permitido ao seu amado ou seu pai matá-a pela desonra que causou a ambos, ela decidiu deixar Atenas para trás. Ela viajou tão longe quanto a ilha de Creta. Neste tempo, uma terrível doença acometia o rei Minos de Cnossos por causa de um feitiço lançado por sua própria esposa Pasifae. Irritada com a infidelidade do esposo, Pasifae fez com que toda vez que fizesse sexo com outra mulher o rei Minos ejaculasse dolorosos escorpiões e serpentes. Reconhecida por seus poderes curativos, a princesa Prócris conseguiu curar o rei de sua maldição, recebendo como recompensa o cão Tempestade (Lélapes, no grego) , que nunca perde uma presa, e a Lança Certeira, que nunca erra seu alvo.

Auxílio de Ártemis

Com seu cão caçador e sua nova arma, Prócris buscou a deusa Ártemis para fazer parte de seu bando de caçadoras. A deusa não a aceitou por ela não ser mais virgem, mas ao ouvir sua história ficou comovida e decidiu ajudar. Não apenas em razão do seu amor destruído por se deixar seduzir pelo mesmo homem uma segunda vez, mas também ao saber que ela era abusada sexualmente por seu pai Erecteu quando criança. A deusa decidiu usar o mesmo plano que levou ao fim do romance para os reunir outra vez. Ela colocou um manto sobre Prócris que mudou sua aparência de forma que não podia ser reconhecida. Assim, ocultando sua identidade, a princesa foi ao encontro do seu amado Céfalo.

Philippe_de_Champaigne_(1602-1674),_Céphale_et_Procris_dans_un_paysage

Philippe de Champaigne (1602–1674)

Sedução de Céfalo

Céfalo estava em uma de suas caçadas matinais quando Prócris se aproximou vestindo a misteriosa túnica. Ela o desafiou numa competição de caça enquanto portava seu cão que nunca perde uma presa e sua lança que nunca erra um alvo. E, após derrotar Céfalo, que logo tentou comprar esses artefatos tão poderosos, não demorou para a atração entre ambos os levar para a cama. Antes de consumar o ato, no entanto, Prócris revelou sua identidade, surpreendendo o herói, que agora traía sua amante divina. Era a forma da princesa argumentar que ambos só cometeram seus atos de traição porque foram seduzidos um pelo outro, por serem almas gêmeas. No entanto, este argumento não foi o bastante para convencer Céfalo, que rejeitou a esposa outra vez.

Raposa de Teumessa

Não demorou ao destino para colocar Prócris e Céfalo novamente no mesmo caminho. Atendendo ao chamado dos seus antigos aliados Anfitrião e Creonte, o herói viajou até a cidade de Tebas para derrotar a maligna Raposa de Teumessa, que devorava homens e destruía as fazendas. Era uma raposa nascida do terrível Tifão e profetizada como uma presa que nunca poderia ser alcançada. Céfalo logo concluiu que a solução para capturar essa raposa inalcançável era buscar o cão Tempestade, que nunca perde uma presa. Ele foi até Prócris para pedir sua ajuda e ela prontamente ofereceu seu cão para a captura da raposa. O encontro de ambos os animais com destinos conflitantes gerou paradoxo divino que os transformou em pedra e lançou suas essências às estrelas, que hoje podem ser vistos no horizonte como as constelações de Canis Major e Canis Minor.

Paul de Vos (1595–1678)

Casamento Conturbado

O reencontro de Prócris e Céfalo durante a captura da Raposa de Teumessa reacendeu antigos sentimentos e ambos se permitiram amar outra vez. Eles enfim decidiram se casar para viver felizes para sempre, como sempre planejaram desde que eram adolescentes descobrindo o primeiro amor. Eles tiveram juntos dois filhos: o sucessor Arcérsio e a bela Aglaura. Infelizmente, antigas mágoas são difíceis de superar e esta não seria uma história grega sem uma tragédia. No fim, com o marido incapaz de perdoar por completo sua esposa e a esposa incapaz de confiar por completo no marido, o fim trágico veio numa bela manhã.

Morte de Prócris

O heroico Céfalo partiu para a sua caçada matinal quando a esposa percebeu que algo afligia seu coração. Preocupada com tal sentimento, Prócris o seguiu furtivamente pela floresta até o ver subindo numa montanha para contemplar a bela alvorada que a titã Eos trazia. Era a revelação de que o esposo sentia a falta da sua ex-amante divina e desejava revê-la. Isso fez a princesa cair em prantos e se descuidar de seus movimentos silenciosos. O som produzidos pelos arbustos onde estava escondida fez com que Céfalo a confundisse com algum animal selvagem. Ele então arremessou a Lança Certeira que atingiu Prócris no peito e a feriu mortalmente. Ela veio a falecer momentos depois nos braços do seu amado.

Exílio e Morte

Céfalo foi julgado pelo assassinato de sua esposa na corte de Ares em Atenas e condenado com a pena de exílio. Ele vagou até a ilha de Ítaca, local onde antes havia derrotado os Táfios e onde passou o resto de sua vida na ilha. Lá, ele fundou um povoado chamado Cefalênia e se casou pela segunda vez com a princesa Clímene, filha do rei Mínias dos Orcomenos. Este foi um casamento arranjado que lhe deu dois filhos homens: Íficlo e Alcimede; e cujo bom dote lhe permitiu fortalecer as fundações seu recém-estabelecido reino. Após sua morte, o herói fez questão de escolher como seu sucessor o jovem Arcésio, seu filho com Prócris, que cresceu sem ter uma mãe ao seu lado.

Marquês de Oliveira 1853 – 1927