Cadmo

Jacob Jordaens (1593–1678)

Cadmo foi um príncipe guerreiro originário das terras da Fenícia. Ele ficou famoso por ter fundado a importante cidade da Cadmeia (mais tarde, renomeada de Tebas) após seguir os conselhos do oráculo de Delfi e derrotar o poderoso dragão Ismeno. O seu nome pode ser uma referência aos seus feitos através da palava Κάδμος que pode ser traduzida como “aquele que se distingue” (kekadmai) ou à sua origem através da palavra fenícia 𐎖𐎄𐎎que pode ser traduzido como “vindo do leste” (qdm).

Pai

  • Agenor, rei da fenícia, filho do faraó Belo.

Mãe

  • Telefassa, uma das esposas de Agenor, sem outros mitos.
  • Argíope, uma das esposas de Agenor, sem outros mitos.

Filhos

Por Harmonia, deusa da amizade, filha dos deuses Ares e Afrodite.

  • Agave, esposa do guerreiro Equião que nasceu do dente de dragão.
  • Autonoe, esposa do deus biólogo Aristeu.
  • Ino, esposa do rico Atamas da casa real de Iolcos.
  • Sêmele, amante de Zeus que gerou o deus Baco Dionísio.
  • Polidoro, rei de Tebas, sucessor do seu pai Cadmo.
  • Ilírio, rei das tribos Ilírias, sucessor do pai Cadmo.

 

Félix Vallotton (1865–1925)

Nascimento

O herói Cadmo nasceu como membro da família real do Egito, pois seu pai Agenor era filho do faraó Belo. No entanto, o príncipe Agenor abandonou a capital egípcia de Tebas para governar nas terras da Fenícia com toda a sua família. Assim, o herói Cadmo nasceu e foi criado em berço de ouro na cidade de Tiro com seus quatro irmãos Fênix, Cílix, Fineas e Tasso; e com suas cinco irmãs Europa, Taigete, Eidoteia, Melia e Isaia.

Irmã Desaparecida

A vida de Agenor no reino da Fenícia era tranquila, onde ele vivia com suas cinco esposas e seus muitos filhos. Ele também era adorado por seu povo graças a um governo extremamente próspero. Infelizmente, tudo mudou quando sua filha Europa desapareceu misteriosamente do palácio real. As testemunhas afirmaram tê-la visto ser carregada por um touro alado para além das nuvens, voando na direção das terras do oeste.  Ao ouvir esse relato fantástico, o rei Agenor ficou disposto a recuperar sua filha. Ele assim montou quatro grandes forças expedicionárias e as entregou aos seus filhos para a missão.

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Lorenzo A. Castro (f 1664–1700)

Busca por Europa

Os quatro irmãos que partiram na missão foram Cílix, Tasso, Fineas e Cadmo. O rei Agenor os fez jurarem que só retornassem trazendo a irmã consigo. E eles assim o fizeram. Apenas o príncipe Fênix ficou com o pai para garantir a sucessão ao trono. Até mesmo a mãe de Europa, a rainha Telefassa acompanhou os rapazes na busca pela irmã desaparecida. Enfim, todos partiram cheios de esperança e determinação.

Frustração na Anatólia

O primeiro local onde os quatro irmãos procuraram a irmã desaparecida foi nas terras da Anatólia ao noroeste da Fenícia. Infelizmente, eles não encontraram nenhum sinal da irmã no local. Foi o primeiro sinal de que a “Busca por Europa” seria um completo fracasso. Não obstante, os irmãos decidiram dividir as buscas para localizar a irmã. Ficou decidido que Cílix continuaria sua busca na Anatólia; o irmão Fineas seguiria ao norte para buscar a irmã nas terras da Trácia; e ambos Tassos e Cadmo seguiriam sua busca a oeste através do mar da Talassa, colocando seus exércitos em embarcações.

Povoamento da Ilha de Thera

Navegando em suas próprias embarcações, enquanto Tassos buscou as ilhas ao norte da Talassa, Cadmo continuou sua busca até chegar na ilha de Calisto, que mais tarde seria renomeada de Thera (hoje, chamada de Santorini). A ilha estava deserta desde que a batalha entre Titãs e Olimpianos fez metade da ilha afundar nas profundezas marinhas há mais de trezentos anos. Assim, ainda sem sucesso na busca pela irmã, o herói Cadmo decidiu deixar um assentamento nessa ilha sob o governo do líder Membliaro, filho de Péciles, e partiu para as ilhas mais ao norte para encontrar o irmão Tassos. No entanto, antes chegar na ilha que o irmão rebatizou com o seu nome, Cadmo desembarcaria na ilha da Samotrácia que mudaria a sua vida.

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Ritos na Ilha da Samotrácia

Tanto os deuses egípcios quanto os deuses fenícios, com os quais conviveu na infância, sempre pareceram estranhos ao herói Cadmo. Ele só encontrou a sua verdadeira religião quando a Busca por Europa o levou até a ilha da Samotrácia. Nesta ilha, ele conheceu uma bela mulher chamada Harmonia, considerada filha dos deuses Ares e Afrodite. Ela própria era uma deusa que presidia sobre a amizade entre as pessoas. Ela explicou ao herói Cadmo sobre o culto à Deusa-Mãe que era ministrado pelos dançarinos coribantes nessa ilha. O herói ficou apaixonado pela bela deusa da amizade e fascinado por essa religião tão aberta e benevolente, que busca a evolução espiritual através de múltiplas reencarnações. No fim, o herói não apenas se converteu ao culto da Deusa-Mãe como também pediu a bela Harmonia em casamento.

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Joachim Wtewael (1566 – 1638)

Casamento com Harmonia

Os poetas épicos hoje cantam que o herói Cadmo teve a mais alta felicidade que o homem pode alcançar por ser casar com a bela e pacífica Harmonia. Durante a festa de casamento no complexo de templos da Samotrácia, as próprias musas entoaram canções que atravessaram mares e montanhas para encantar os ouvidos de todos. Os deuses do Olimpo compartilharam do banquete matrimonial sentados em tronos dourados junto ao grande herói. Este ficou maravilhado quando viu sua noiva entrar com seu vestido matrimonial enquanto ela o fitava com seus olhos bem escuros. Ambos sentiram a paz em seus corações pela benevolência de Zeus e receberam presentes inimagináveis: joias de Hera; a lira de Apolo; o cetro de Hermes; a coroa de Hefesto; a lança de Ares; o manto de Atenas; e o colar de Afrodite. A própria deusa-mãe estava presente nesse dia. Foi tudo incrível.

Chegada na Beócia

O herói permaneceu por anos na Samotrácia onde nasceram boa parte dos seus filhos. No entanto, a felicidade do casamento foi progressivamente interrompida por notícias que chegavam sobre seus irmãos. Já tendo passado mais de uma década desde que partiram da Fenícia, eles não conseguiram sequer uma pista da irmã desaparecida. Aos poucos, todos decidiram abandonar a busca e, envergonhados, nenhum teve coragem de retornar ao pai de mãos vazias. Os três irmãos assim assentaram suas forças expedicionárias em diferentes terras e fundaram suas próprias cidades. Assim nasceu as nações da Cilícia, de Tassos e de Salmidesso. No entanto, ainda faltava uma continente para Cadmo vasculhar. Ele assim partiu da Samotrácia rumo às terras do Hélade e desembarcou na região conhecida como Beócia.

John Collier (1850–1934)

Oráculo de Delfi

A principal razão pela qual Cadmo desejava tentar a sorte na Beócia foi pela fama que o oráculo de Delfi já possuía nessa época. Os próprios sacerdotes coribantes e o sábio conselheiro Tirésias recomendaram que ele procurasse sua orientação. Ele assim o fez. Infelizmente, ao adentrar o salão envolto em fumaça alucinógena do templo de Delfi e se ajoelhar diante da dama imortal escolhida por Apolo, esta lhe disse tudo o que não desejava ouvir. Ela disse: “Você nunca vai encontrar a sua irmã”, mas acrescentou: “O touro alado que raptou Europa era o próprio Zeus, que a levou até uma ilha distante onde ela vive feliz e soberana tendo um rei como esposo e com os filhos que o montanuvens gerou nela”.

Fundação da Cadmeia

O oráculo de Delfi não encerrou sua profecia por aí. Ela ainda disse que os deuses tinham uma missão especial para Cadmo. Ele deveria “desistir de sua busca para fundar uma cidade no Hélade, assim como seus irmãos o fizeram em outras terras”. E, para esse fim, ela lhe deu uma série de instruções. A primeira orientação foi para seguir uma vaca pelas terras da Beócia que esta revelaria para Cadmo onde assentar seu exército e fundar uma cidade. Ele assim o fez atravessando toda a Fócida até chegar nas fontes aquosas de Dirce. No local, a vaca deitou para descansar, o que foi interpretado pelo sábio Tirésias como o local para fundar a cidade com o seu nome: “Cadmeia”.

Francesco Zuccarelli (1702–1788)

Dragão Ismeno

O herói sacrificou a vaca para banquetear com seus homens e realizar homenagem aos deuses. Próximo dali, dois dos seus guerreiros foram buscar água no rio Ismeno. Eles não esperavam que a região fosse habitada por uma poderosa e terrível criatura. Os guerreiros foram atacados por um dragão negro de cristas douradas, olhos flamejantes e três fileiras de dentes. O lendário guerreiro correu para o local, onde encontrou o que restou dos seus companheiros devorados. Cadmo combateu o dragão que lançava baforadas venenosas e no fim o derrotou. No entanto, Cadmo logo viria a descobrir que o dragão Ismeno era sagrado pelos deuses, em especial, ao deus Ares da guerra.

Punição de Ares

A morte do dragão Ismeno desagradou profundamente o deus da guerra, o que levou o panteão divino a condenar Cadmo por este crime. Ele deveria servir o deus Ares por um Ano-Divino (o equivalente a oito anos humanos). Antes, no entanto, Zeus permitiu que Cadmo ficasse em sua cidade até que esta estivesse bem estabelecida. Afinal, haviam muitos povos na Beócia que não aceitaram a chegada de estrangeiros. Para auxiliar na guerra contra esses povos, a deusa Atenas decidiu dar uma importante orientação ao herói Cadmo. Ela o ensinou sobre o poder dos dentes do dragão.

Guerreiros Spartoi

É bem estabelecido na mitologia grega que, quando o sangue de deuses imortais cai sobre a Terra, criaturas fantásticas são geradas. Os dragões pertencem à linhagem do Tártaro nevoento como filhos do poderoso Tifão. Quando, sob a orientação da deusa Atenas, o herói enterrou os dentes do dragão, essa ação fertilizou a mãe Terra. Dezenas de guerreiros, intitulados pelos deuses de Spartoi, brotaram do solo já com armaduras e lanças na mão. Vendo os recém-criados guerreiros desorientados, o próprio Cadmo arremessou uma pedra entre eles para lhes chamar a atenção. No entanto, a ação acabou que acabou os assustando, fazendo-os guerrear entre si. Ao final, só cinco guerreiros sobreviveram. Eles foram nomeados de Equião, Udeus, Ctônico, Hiperenor e Peloro; e logo se tornaram membros da guarda pessoal de Cadmo.

Conquistas na Beócia

O guerreiro Cadmo liderou os exércitos que trouxe da Fenícia com os cinco guerreiros Spartoi à frente das batalhas. Juntos, eles combateram e derrotaram os povos Hianteanos, Aonianos e Temicanos, que hoje já não existem mais, pois seus homens foram massacrados e as mulheres entregues aos soldados cadmeus como esposas. Cadmo tomou para si as cidades de Aulis e Alalcomênia, que se tornaram importantes colônias. Presenteou o seu melhor guerreiro Equião com a mão de sua filha mais velha Agave. Casou sua outra filha Ino com o príncipe Atamas da poderosa família real de Iolcos, que acabou se mudando para a Beócia onde viveu o resto de sua vida. Casou sua filha Autone com o sábio Aristeu, o criador de abelhas. Só sua filha caçula Sêmele trouxe vergonha para o herói ao engravidar de algum desconhecido e fugir com ele para o Egito sem sequer se despedir da família.

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William Smith, 1854

Governo da Cadmeia

A cidade da Cadmeia cresceu e ganhou importância rapidamente na região nos quase vinte anos em que Cadmo esteve no trono. Ele ficou famoso por todo o Hélade ao ensinar o alfabeto neste novo continente. Vislumbrando um futuro ainda mais próspero, Cadmo fez o projeto para uma grande muralha que cercaria toda sua cidade. As sete estradas principais, que conectavam sua cidade aos seus principais aliados, foram assim ornadas com grandes colunas de pedras que anunciavam à chegada na Cadmeia. A cidade ficou conhecida como a “Cadmeia de Sete Portões”, nomeados respectivamente de: Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e Sol. No entanto, antes que pudesse levantar a muralha que ligaria esses sete portões para a defesa da cidade, o deus Ares convocou o líder guerreiro. Cadmo deveria pagar sua dívida por ter assassinado o  dragão que era sagrado pelos deuses.

Renúncia ao Trono

A punição pela morte do dragão Ismeno foi a servidão ao deus Ares pelo período de um Ano-Divino (equivalente a oito anos humanos). Esse deus ordenou que Cadmo abandonasse sua cidade para combater as guerras na longínqua terra da Ilíria. O herói então abdicou do trono da Cadmeia em favor do seu neto Penteu, filho da princesa Agave e do guerreiro Equião, seu descendente homem de maior idade. O próprio filho caçula de Cadmo e Harmonia, chamado Polidoro, era mais jovem que próprio Penteu, de forma que este ficou com a missão de educar o sobrinho.

Guerras na Ilíria

O já renomado Cadmo levou muitos de seus soldados para a Ilíria sob a liderança do seu melhor guerreiro Equião. Eles tomaram o lado dos povos Enqueleanos que eram assediados constantemente pela violência do líder tribal Licoterses. O confronto não foi nada fácil com o selvagem inimigo e Cadmo chegou a ser derrotado em certa ocasião tendo sua filha Agave raptada. Felizmente, a princesa não era tão indefesa. Ela manipulou o maligno rei aceitando desdenhosamente se casar com ele. Agave conseguiu desta forma se livrar do seu cativeiro e assassinar o rei Licoterses com suas próprias mãos. Essa ação criou a oportunidade para Cadmo avançar contra o inimigo e se tornar o novo rei da Ilíria.

Dosso Dossi (1400s–1542)

Filho de Semele

O casal Equião e Agave, vendo sua missão cumprida na Ilíria, retornou para a Cadmeia deixando o pai governando a região pacificada. No entanto, eles não encontraram a paz que tanto ansiavam na Beócia. Logo, surgiu aos portões da cidade um culto de mulheres e homens intoxicados por vinho e alucinógenos, que dançavam e cantavam enlouquecidamente. Era um culto fanático  liderado por um jovem rapaz chamado Baco Dionísio, que clamava ser filho da princesa Semele que engravidara de algum desconhecido décadas atrás e desaparecera sem deixar rastros. O tal Baco Dionísio contou que Semele não se relacionara com um estranho qualquer. Pelo contrário, ela teve um caso de amor com o próprio Zeus. E ele era o fruto divino dessa relação.

Ira de Baco

O tal Baco Dionísio solicitou que fosse aceito na família de Cadmo por ser filho da princesa Sêmele e fosse adorado como um deus na Cadmeia por ser filho do próprio Zeus. O sábio conselheiro Tirésias atestou a veracidade da história pelo argumento de autoridade, pois pressentiu que o viajante era realmente uma divindade. No entanto, o rei Penteu e seus pais Equião e Agave não acreditaram na história. Eles acorrentaram e aprisionaram Baco Dionísio nos calabouços da Cadmeia. Propalaram que o recém-chegado era um mentiroso e um aproveitador. Esse ato incendiou a ira no líder cultista, que jurou Penteu de morte. Preocupado e assustado com o tamanho poder que emanava no líder cultista, já prevendo uma catástrofe, o sábio Tirésias enviou um mensageiro à Ilíria para que Cadmo retornasse o quanto antes.

William-Adolphe Bouguereau (1825–1905)

Assassinato de Penteu

O herói Cadmo deixou o seu filho mais novo Ilírio governando as terras com o seu nome e viajou para a Cameia o mais rápido possível. Infelizmente, ele chegou tarde demais para salvar a vida do rei Penteu. Na cidade, descobriu que Baco Dinísio utilizou seus poderes para causar o caos na Beócia. O palácio real foi destruído por um terremoto. Um incêndio se propagou. Vinho e mel brotaram do solo. E as mulheres da cidade foram acometidas por um frenesi tão intenso que elas colocavam serpentes no próprio cabelo e rasgavam vacas com os próprios dentes. Nesse estado de torpor incontrolável, também estava a princesa Agave que em sua alucinação liderou as mulheres da cidade contra o seu próprio filho Penteu o esquartejando vivo como um animal.

Negociação com Um Deus

O cenário de caos e destruição tomava conta da cidade quando Cadmo e Baco se encontraram. O herói sabia que era impossível para ele derrotar um deus. Decidiu então negociar. Ele ouviu a história da princesa Sêmele que acabou cometendo o erro de contemplar a verdadeira natureza do amante divino, cujo esplendor era tão intenso que a fulminou. Ouviu que o próprio Baco foi retirado de sua barriga quando ela estava morta. Percebeu que mais importante para o jovem deus era limpar a reputação da mãe que era considerada por toda a Beócia como alguém que desonrou a família. Assim, Cadmo aceitou Baco como seu neto e como um deus verdadeiro, mas não poderia impor o culto dele em Tebas, nem poderia tê-lo em sua cidade depois de todo o terror que causou na sua população. O poderoso Baco aceitou esses termos e assim partiu com seu culto para continuar sendo um deus viajante.

Johann Carl Loth (1632–1698)

Fúria de Tifão

Com a morte de Penteu e a partida de Baco, Cadmo entregou o trono da cidade ao seu filho Polidoro que já alcançava a maioridade. Para Cadmo, no entanto, seus serviços aos deuses ainda não haviam se acabado. Logo, surgiu nos horizontes do leste uma terrível criatura. Era tão massiva que era possível ver da Beócia suas cem cabeças de serpente surgindo do outro lado do mar Egeu. Era tão gigantesca que a envergadura de seus braços abarcava todo o horizonte, de um lado ao outro do mundo. Era tão poderosa que suas baforadas faziam o fogo se espalhar pelas vales das rugosas montanhas como um oceano entre as ilhas. Era o mais terrível dos monstros. Era o poderoso Tifão. Nem Zeus foi capaz de derrotar a criatura. Mesmo avançando contra ele com seu raio, relâmpago e trovão, a criatura derrubou o mais poderoso dos deuses e mordeu a sua panturrilha para lhe arrancar os tendões.

Resgate de Zeus

O monstruoso Tifão teria reinado sobre tudo e todos nesse dia se não fosse a heroica ação de Cadmo. Até os deuses olimpianos fugiram para o Egito para não confrontar a criatura e tomaram a forma de animais para não serem encontrados. Mas Zeus ainda não estava por completo derrotado. Ele enviou de seu esconderijo um mensageiro. Era o talentoso sátiro chamado Pan que entregou ao herói sua maior criação: a flauta. Quando Cadmo tocou o instrumento musical, o terrível Tifão ficou encantado com a melodia e tomou o herói para si. Este então convenceu a criatura a lhe entregar os tendões de Zeus para aprimorar seu instrumento. A criatura assim o fez. Mas Cadmo entregou os tendões ao sátiro Pan para que este devolvesse a Zeus. Assim, com os tendões recolocados, o líder divino recuperou suas forças e conseguiu derrotar o Tifão, o aprisionando no monte Etna.

Museo Internazionale delle Ceramiche in Faenza

Metamorfose

Após o Tifão ser derrotado, Cadmo clamou aos deuses que estava cansado de uma vida de combates e batalhas. Ele já era um ancião com mais de setenta anos de idade e desejava enfim uma vida mais tranquila. A resposta do panteão não o agradou. Os deuses ordenaram que Cadmo ainda deveria retornar às guerras na Ilíria para completar seu tempo de servidão ao deus Ares. A decisão causou a ira no guerreiro que teve a audácia de negar a solicitação divina: “Estou farto de ser odiado pelos deuses. Se vocês eram tão apaixonados pela vida de uma serpente, eu prefiria ter tal vida”. Nesse mesmo instante, escamas, asas, garras e dentes cresceram em seu corpo, transformando Cádmo num dragão. A fiel esposa Harmonia, vendo a transformação do marido, pediu aos deuses o mesmo destino. E o seu desejo foi concedido. Desde esse dia, nunca mais se ouviu falar de ambos.