Telmun

A Ilha Paraíso

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Hieronymus Bosch (circa 1450 –1516)

Rainha: Ninhursag

Todo sul da mesopotâmia é formado pelo grande deserto da Arábia onde a sobrevivência é impossível por longos períodos e só os nômades do deserto conseguem o transpor. Todo esse deserto possui sua costa ao Leste formada por uma grande região marítima chamada de Golfo da Arábia, que se inicia na desembocadura dos rios Tigre e Eufrates e se abre para o Grande Oceano que circunda o mundo. Os navegantes que já se aventuraram no Golfo contam que o lugar é extremamente rio em vida marinho com os mais diversos tipos de peixes e grande baleias que surgem sem aviso. O céu é rico em pássaros e a costa é composta por grandes arrecifes de corais.

Os aventureiros do Golfo da Arábia contam terem presenciado uma grande ilha escondida em seu interior. A ilha mítica Telmun é descrita como uma terra brilhante e pura. É um paraíso onde a doença e a morte não existem; a terra é  cheia de fontes de água divinamente ordenadas e abundantes, pois são trazidas do reino subterrâneo pelo deus-sol Utu-Shamash. E assim a terra antes seca e estéril floresceu no jardim dos deuses, onde a deusa-mãe Ninhursag cuida das plantas sagradas. No entanto, a história da deusa Ninhursag é mais conturbada do que se poderia imaginar.

Nin-hursag significa “senhora da montanha sagrada”, mas possui muitos outros nomes como Grande Rainha, Grande Mãe e Grande Esposa. Ela era a companheira do deus-criador Enki, mas este nunca a respeitou. Quando Ninhusarg moldou as primeiras oito plantas do mundo, o intransigente Enki as devorou para a humilhar.  No entanto, Ninhursag já esperava que Enki tomasse essa ação e envenenou as plantas. O perverso esposo caiu doente, ficou prestes a morrer, por isso, ele enviou uma raposa até a esposa para lhe suplicar por sua vida. A deusa Ninhusarg aceitou a súplica, retirando as oito plantas venenosas do corpo do esposo.

A barganha que o deus-criador Enki fez com a esposa Ninhursag fez com que este abandonasse a ilha de Telmun. A Grande Mãe governaria sobre o paraíso na Terra com os oito filhos que nasceram das oito plantas retiradas do corpo do esposo, como faz até hoje. Ela quem criou toda a beleza natural da ilha: o mar ao redor, os pássaros que a sobrevoam, os peixes sob as águas, a vegetação, as praias, tudo… Quando o deus-criador Enki criou os homens, no fim, pediu a ajuda da esposa que antes tentara humilhar. A beleza dos homens hoje é por muitos atribuído a ela.

 

Filhos da Grande Mãe

As oito primeiras plantas recém-criadas na Terra pela grande mãe Ninhursag foram devoradas por seu esposo vingativo Enki. As plantas floresceram dentro do corpo de Enki em poderosas criaturas até que a Grande Mãe as tomou de volta. Elas cresceram e criaram consciências, se tornando verdadeiros deuses independentes. Hoje, todos os oito filhos vivem em Telmun com a Grande Mãe, onde possuem importantes obrigações para o funcionamento da ilha.

Os filhos da Grande Mãe na ilha são Enshagag, que se senta no lugar de sua mãe no trono de Telmun, sendo o responsável direto por seu funcionamento. Outros irmãos possuem funções igualmente importantes, como é o caso dos irmãos Abu e Nintul, que controlam o equilíbrio vegetação e deserto, respectivamente. Não menos importante também temos a deusa Nanshe, a deusa das águas, que é casada com o guardião marítimo da ilha chamado de Nindar. Ele quem mantém toda a família protegida.

Por fim, nós temos a deusa das emoções Ninkasi e a deusa da justiça Ninti que certamente são as duas filhas com maior poder. No entanto, elas não são menos importantes que as irmãs Ninsutu e Dazimua, que se casaram com os príncipes-demônios, filhos da rainha dos mortos Ereshkigal, chamados de Ninazu e Ningishzida. O plano era delas se tornarem rainhas do mundo espiritual, mas, por intriga do próprio mundo sombrio, ambos os príncipes demônios abandonaram o mundo espiritual. Agora, todos se reúnem para conquistar o mundo espiritual para si.

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John Martin (1789–1854)

Utnapistim

O sábio ancião Utnapistim e sua esposa receberam a imortalidade como um presente dos deuses e atualmente há séculos vivem na ilha de Telmun, que fica muito além da costa mesopotâmia. Ele é conhecido como o “Preservador da Vida” porque, nos primórdios da civilização, um conselho dos deuses decidiu enviar um dilúvio sobre toda a Terra para destruir a humanidade. O deus Enki, desejando prevenir isso, foi até a cidade de Shruppak onde alertou ao mais sábio dos homens chamado Utnapistim para construir uma enorme arca. Ele assim o fez, selando a embarcação com piche e colocando todos os tipos de animais em seu interior. Quando o violento dilúvio veio, toda a raça humana foi extinta, exceto por Utnapistim, sua família e alguns poucos escolhidos.

Com tamanho presente divino, Utnapistim aprendeu que a imortalidade é uma benção dos deuses. Não pode ser conquistada ou negociada. “Lutar contra o destino comum aos homens é inútil e apenas apouca as alegrias da vida”, essa é uma lição que o ancião ensinou ao heroico monarca Gilgamesh, que chegou à distante ilha de Telmun para aprender como ser um imortal. Gilgamesh vinha traumatizado pela morte do seu companheiro de aventuras Enkidu, que morrera de forma tão efêmera, por uma simples doença, após ambos sobreviverem grandes aventuras e terríveis perigos juntos.

O ancião disse que só revelaria o segredo da imortalidade a Gilgamesh se ele conseguisse ficar sete dias acordado, sem adormecer em nenhum momento. Depois, revelou onde encontrar uma planta rejuvenescedora, mas uma serpente levou enquanto Gilgamesh estava distraído. O herói acabou morrendo décadas depois de velhice. A verdade é que Utnapistim sempre soube que o aventureiro iria falhar no seu intento. Afinal, como vencer a morte, se nem consegue vencer o sono? Como buscar a juventude eterna, se os deuses não lhe deram permissão? Hoje, Utnapistim continua vivendo em sua ilha no fim do mundo, sabendo que é impossível desafiar a natureza e os próprios deuses.

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Leandro Bassano (1557–1622)

Lotan

Num passado distante, os deuses do ar e do mar disputaram a liderança do panteão fenício entre si. Tudo começou quando a gigantesca serpente marinha de sete cabeças chamada Lotan foi enviada pelo deus Yam para assassinar o deus Baal Adad. A criatura era considerada indestrutível e teria vencido o deus do ar por sua imensa força. No entanto, ninguém esperava que Kothar, o Sábio, fosse capaz de criar armas tão poderosas que seriam capazes de derrotar a criatura.

Munido das duas maças sagradas chamadas Yagrush e Ayamur, o deus Baal Adad golpeou todas as cabeças da serpente Lotan até que esta afundasse nas profundezas do oceano. A vitória garantiu que Baal Adad se tornasse o líder do panteão fenício que governa até hoje. No entanto, terríveis profecias dizem que a criatura um dia retornará à superfície e cumprirá a sua missão de derrotar Baal Adad. Se isto acontecer, toda a humanidade viverá um período de trevas. Resta saber se tão vil destino poderá ser evitado.

 

Ninlil

O deus-criador Enki nunca respeitou sua consorte Ninhursag. Ele tentou a humilhar, mas acabou envenenado por ela. É uma história triste e disfuncional, bem diferente da história do seu irmão Enlil, que sempre foi mais justo e benevolente. O deus Enlil encontrou sua futura esposa Sud pela primeira vez se banhando na beira de um rio. Ela era linda e radiante aos seus olhos, fazendo com que se apaixonasse mesmo não lhe sendo a esposa prometida. Ambos dormiram juntos e se casaram em segredo. A bela Sud então assumiu o nome de Ninlil em homenagem ao esposo

O amor proibido do casal foi castigado pelos deuses primordiais. Enlil foi banido ao mundo dos mortos enquanto sua amada Ninlil dava a luz ao seu primeiro filho: Nanna, o deus-lua. A separação do casal durou apenas durante a gravidez da deusa, que logo foi atrás do seu amado no próprio mundo espiritual. Lá, eles se reencontraram na própria entrada do Kur, pois Enlil estava como o Guardião do Portão. O amor de ambos durante o tempo no mundo espiritual gerou outro filho: Nergal, o deus dos mortos.

Como um casal apaixonado, ambos fugiram

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Thomas Cole (1801–1848)