Índia

Os Limites do Leste

Vishwamitra

Raja Ravi Varma (1848–1906)

Rei: Sudas

Os indianos acreditam que o universo é cíclico num constante estado de criação, conservação e destruição, que dura quatro bilhões de anos, só para então tudo recomeçar. Atualmente, o universo está no seu sétimo ciclo. O primeiro humano desse novo ciclo iniciou a civilização das dez tribos da Índia, que sempre guerrearam entre si e com outros povos. A última guerra ocorreu há algumas décadas quando o líder Sudas da tribo dos Bharatas confrontou uma confederação das nove outras tribos, que era liderada pelo ancião Vishvamitra. Esse confronto ficou conhecido como a “Guerra dos Dez Reinos”.

As vitória do rei Sudas colocou todas as dez tribos sob seu julgo no que ficou conhecido como o “Reino de Kuru” e redefiniu toda a sociedade indiana conforme seus desígnios. Sua linhagem ficou acima das demais se tornando a casta dos Xátrias, cujo dever é governar todo o povo indiano. Ele colocou o sábio Vasishtha para liderar a casta dos sacerdotes e o resto da população ficou relegada às duas outras classes com menos direitos. O dever dessas classes é definido desde o nascimento para servir as classes superiores como comerciantes e trabalhadores braçais.

A base da sociedade indiana é sustentada pela casta de servos conhecida como Sudra, que foram gerados pelos pés do universo. Eles foram assim designados pelo rei Sudas por possuírem corpos resistentes e fortes, sendo lhes negado os incentivos para os estudos.  Eles nasceram para ser empregados e nunca patrões, mas possuem orgulho da sua função no mundo e aceitam o destino que lhes foi dado. Já os Vaixás assumiram o comércio da Índia. Eles trabalham com a fabricação têxtil, mineração de pedras preciosas e produção alimentícia. São os únicos que estão liberados para praticar a usura, emprestando dinheiro a taxas.

O rei Sudas é o maior representante da alta classe dos Xátria. Ele foi o grande vencedor da “Batalha dos Dez Reis” se tornando assim o maior de todos os reis. Infeliz

que são melhores quanto mais alta a casta. Um brâmane paga 15% de juros enquanto um servo paga mais de 40%. Alguns tornam-se riquíssimos industriais e dominam a indústria pesada da Índia.

 

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Donald Alexander (1873-1936)

Pratipa

O ancião rei Sudas não conseguiu produzir herdeiros para o suceder no grandioso Reino de Kuru. Com a morte se aproximando mais a cada ano, o velho soberano escolheu o jovem Pratipa para tomar o seu lugar por este ser bisneto do lendário guerreiro Brima e por confiar nele para levar seu reino adiante.

Recentemente, o jovem Pratipa estava murmurando orações em meditação nas margens do rio Ganges quando uma bela mulher com corpo escultural e aura divina surgiu na sua frente. Era a própria deusa Ganga que veio até Pratipa para que este fizesse amor com ela. O rapaz se negou. Disse não estava de acordo com seu próprio dharma. A deusa então solicitou a benção de Pratipa para se casar com seu filho ainda não-nascido, o que este relutantemente consentiu.

O confuso Pratipa foi até o sábio Vasishtha para entender o ocorrido. Este lhe revelou que seu filho não-nascido se chamará Shantanu e ele será a encarnação de um deus que foi expulso do plano divino por seu proibido romance com a deusa Ganga. Ambos só poderão voltar para a morada dos deuses caso Ganga parta o coração de Shantanu. Provavelmente, esse era plano na mente da deusa quando ela desejou se deitar com o pai do seu amante divino.  E, se a deusa decidiu que era a melhor opção para partir o coração de Shantanu, é porque as outras opções devem ser ainda piores.

 

Vasishtha e Vishvamitra

Os dois maiores sábios do mundo se confrontaram na Guerra dos Dez Reinos. Ambos os homens são considerados seres superiores que alcançaram a transcendência e a iluminação espiritual; por isso, tiveram acesso às armas divinas que utilizaram no confronto. Enquanto Vasishtha tomou o lado vencedor ao se aliar com o rei Sudas, Vishvamitra se tornou o líder da aliança dos nove reis que acabou derrotada.

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Raja Ravi Varma (1848–1906)

Vasishtha nem sempre foi sábio, chegando a tentar o suicídio no rio Saraswati num dos momentos mais difíceis de sua vida. Felizmente, ele foi salvo pela intervenção divina o que o levou a buscar o conhecimento superior. O seu tratado sobre a conciliação de idéias opostas para que se complementem é bastante apreciado pelos grandes pensadores indianos. Desde a vitória na Guerra dos Dez Reinos, Vasishtha se tornou o líder da classe sacerdotal dos Brâmanes, na posição que antes era ocupada por seu rival Vishvamitra.

Vishvamitra possui uma linhagem importante como bisneto do lendário rei Kusha e pertence à dinastia lunar. Quando houve a grande revolta contra a o rei Sudas, a aliança dos nove reinos foi entregue a Vishvamitra. Derrotado, o sábio escolheu para si o exílio nas altas montanhas do himalaia onde hoje se encontra num estado tão transcendental de meditação, que Vishvamitra poderá alcançar mil anos nesses estado sem precisar de água ou comida, Pelo menos, conseguiria se não houvessem constantes peregrinos à sua procurar para lhe perguntar sobre os segredos da vida ou sobre problemas do dia a dia.

 

Modeu

O deus-viajante Baco Dionísio é uma figura controversa na Índia. Ele veio das terras do Oeste com um estranho exército de sátiros, gigantes e mulheres enlouquecidas para causar terror no Leste. Ele

Muitas décadas no passado, há mais de cinco décadas já esquecidas, antes mesmo do deus Sudas, um exército sob a liderança do deus-viajante Baco Dionísio decidiu conquistar a Índia para os deuses olimpianos.  O exército do deus-viajante era constituído de Sátiros, Gigantes e hordas de mulheres Menades. Esse exército báquico teve de enfrentar as forças contrárias sob a liderança do rei Deriades. A batalha foi ferrenha com perdas de ambos os lados, mas, fim, o deus Baco lançou seu poder para subjugar a mente do rei Deriades, que acabou se suicidando nas águas do rio Hidaspes sob seu comando.

 

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Raja Ravi Varma (1848-1906)

Rama

O universo é representado por três divindades: a Criação (Brahma), a Conservação (Vishnu) e a Destruição (Shiva), que estabelecem a ordem no cosmos. Os indianos acreditam que o ser humano pode transcender ao mais alto nível de espiritualidade humana através da iluminação quando se torna ser divino chamado de “Devas”. No entanto, o espírito pode involuir até um nível inferior chamado de “Asuras”, que desejam apenas o poder ilimitado e destruir tudo o que existe.

Houve momentos na história do mundo em que esses demônios atravessaram as fronteiras do mundo espiritual para viver entre os vivos, sempre trazendo muito violência e sofrimento. A intervenção divina é necessária através de Vishnu, que escolhe um avatar para combater as forças do mal. Essa embate já ocorreu seis vezes no passado, muitas delas, antes mesmo da existência humana. O deus Vishnu já escolheu como avatar: 1) o peixe Matsya, 2) o réptil Kurma, 3) o javali Varaha, 4) o leão Narasimha, 5) o anão Vamana, e 6) o guerreiro Parashurama.

Recentemente, um novo demônio chamado de Ravana ameaça o universo. Ele é um adorador do deus-destruidor Shiva e pertencente à raça dos Rakshasa de seres abomináveis, canibais e de mente perversa.  Essa terrível criatura se tornou líder das tribos do Sri Lanka, levando hordas de exércitos a escravizar povos vizinhos. O deus Vishnu apontou um escolhido para ser seu sétimo avatar: o arqueiro Rama, cuja amada foi sequestrada pelo terrível. Assim, começa a Jornada de Rama, também conhecida como o “Ramayana”