Hades

O Mundo dos Espíritos 

Rei: Hades
Cidades: Elisium, Asfodelo, Érebo e Tártaro

José Benlliure y Gil 1858 – 1937

Bem no começo havia apenas o Vazio, que foi o primeiro dos deuses primordiais. Depois, vieram os quatro grandes domínios divinos: a Terra, o Mar, o Ceú e os Subterrâneos. Este último recebeu o nome de Tártaro. Por fim, surgiram a Escuridão e a Noite, que decidiram tomar a morada neste lugar. Quando a criação foi partilhada entre os olimpianos, o deus Hades os tomou todos os três para si.

Acima do Tártaro e em volta da Escuridão, Hades construiu um império que foi povoado com as almas dos que morrem na superfície. Ele fez correr vários rios por toda a Escuridão até desembocarem no poço profundo e assustador que é o Tártaro. Esses rios, tão volumosos quanto o próprio Oceano, circundam dois continentes chamados o Campo de Asfodelos e o Elisium. São para esses dois continentes que as almas humanas vão após expurgarem seus pecados e terem suas memórias apagadas.

O deus Hades governa todo o subterrâneo ao lado de sua esposa Perséfone. Seu grande castelo sombrio fica no Campo de Asfodelo, onde todas as almas são levadas. Só grandes heróis, reconhecidos por sua honra e coragem, são levados ao paradísico Elisium, a Ilha dos Bem-Aventurados. No entanto, se todos sonham em chegar na Ilha dos Bem-Aventurados, onde a Mãe-Terra leva seus frutos três vezes ao ano, há um lugar onde nenhum ser vivo deseja ir. Esse lugar é o próprio poço profundo do Tártaro, onde os deuses reservam seus piores castigos aos piores criminosos. São eles: os deuses Titãs da primeira geração e quatro terríveis homens.

 

Sociedade

Quando uma pessoa morre, sua alma é levada aos portões do rio Estige. Ele deve entregar uma moeda ao balseiro Caronte para que este o leve ao mundo espiritual. A travessia do rio Estinge é realizada enquanto as almas sentem o ódio por sua morte. As piores almas são levadas pelas águas flamejantes do Rio Flegeton até o Poço do Tártaro, o pior dos calabouços onde seus prisioneiros sofrem a punição eterna. Após margear o Tártaro, ele mantém o seu percurso retornando ao Rio Estige. O sentimento de ódio do Rio Estige dura até o momento em que as almas chegam à grande Escuridão.

Na negra Escuridão, o sentimento de ódio se modifica conforme o percurso que as almas tomam. Elas podem seguir direto ao Rio Aqueronte, que banha o mundo do Hades, ou tomar o caminho do Rio Cócito. O lento caminho do Rio Cócito é o purgatório sem fim, percorrido pelas almas pecadoras que devem lamentar seus erros passados. Após tão longo e penoso percurso, ao fim, esse rio invariavelmente deságua no Aqueronte.

Todas as almas que chegam ao Rio Aqueronte são purificadas através da dor. Elas deixam a balsa para chegar às margens dos Campos de Asfodelos, onde residem todos os mortos. A Casa de Hades pode ser admirada neste local. Há ainda uma afluente do Rio Aqueronte, chamada de Rio Lete, cujas as águas causam o esquecimento se ingeridas. Elas levam as melhores almas até os campos Elisium, onde residem todos os heróis falecidos.

Existe apenas uma forma de entrar no mundo dos mortos, sem que seja levado pelas Keres e pelo demônio Caronte. Durante o ataque do monstruoso Tifão, essa criatura causou tamanha destruição que abriu uma fenda na própria Terra. Essa fenda faz o rio Aqueronte entrar em contato com o mundo dos vivos numa região chamada de Aornum. Essa região é conhecida pelos morto-vivos e almas penadas que nela habitam. Dizem que esse local é a única forma de deixar o mundo dos mortos. No entanto, todos que ali entraram jamais retornaram.

 

Titãs

O Tártaro é vigiado por três criaturas poderosas. Eles são Briareu, o vigoroso; Cotto, o furioso; e Giges, o robusto. É um poder tão grandioso que só é comparável à sua aparência monstruosa. Eles possuem cem grandes braços que saltam de seus ombros enquanto cinqüenta cabeças brotam acima deles. É uma imagem impossível de retratar pela arte dos seres mortais ou sequer ser concebida pela mente humana. A razão dessas criaturas vigiarem o Tártaro é para impedir a fuga de criaturas igualmente poderosos que eles ajudaram os destronar e aprisionar: os Titãs.

Hoje, é impossível para um mero mortal sequer imaginar como era primeira geração de Titãs. Para se ter uma ideia, o único desses deuses que ainda pode ser visto por olhos humanos é o Grande Oceano de águas infinitas que hoje circunda toda a Mãe Terra. Os outros onze aprisionados são:  Krono, Oceano, Iapeto, Hiperion, Krio e Céos. E as seis mulheres: Rhea, Tetis, Febe, Teia, Temis e Mnemosine. Infelizmente, os mortais nunca mais serão capazes de contemplá-los outra vez. Pelo menos, não enquanto os Hecantochires mantiverem vigiando os portões brônzeos do Tátaro.

 

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Jusepe de Ribera (1591–1652)

Títio

Os deuses irmãos Apolo e Ártemis ascenderam ao panteão em tempos recentes. Não mais que há um punhado de gerações atrás. Eles são reconhecidamente clementes e calmos, mas quando sua mãe Leto é agredida, eles não contém seus ataque. O enorme Títio é um dos quatro prisioneiros humanos do Tártaro. Ele pertence a raça dos gigantes, uma poderosa raça humana que odeia ter seus territórios invadidos. Quando Leto estava a caminho do templo do seu filho em Delfi, ela atravessou os bosques deste gigante. Furiosamente, Títio lançou um ataque contra ela.

A mãe dos deuses-irmãos estaria morta caso seus filhos não intervissem. O deus Apolo lançou uma chuva de flechas douradas contra o gigante, que o mataram instantaneamente. Não há dúvida que os deuses são impiedosos contra aqueles que os atacam. E tentar matar uma deusa como Leto merece uma severa tortura no Tártaro. A eterna punição do gigante Títio é ser devorado vivo por abutres sanguinários. Durante o dia, estes pássaros devoram seus pés, pernas e quadril até chegar em suas entranhas e fígado. Durante a noite, seu corpo se regenera para tudo recomeçar no dia seguinte.

Gioacchino Assereto 1600-1649

Tântalo

Tântalo é um dos quatro prisioneiros humanos do Tártaro. Antes, era um poderoso imigrante das terras do Leste que decidiu viver em Micenas. No entanto, ele não poderia adorar os deuses olimpianos, sem antes testar a onipotência e onisciência deles. Sabendo da aversão divina ao ato do canibalismo, Tântalo matou o próprio filho Pélopes e serviu sua carne aos próprios deuses.

Os olimpianos ficaram furiosos com esta ação. Castigaram este insolente homem ao Tártaro nevoento, onde, num vale abundante de vegetação e água, nunca mais poderá saciar sua fome. Ao tentar colher os frutos das árvores, os ramos sempre se movem para longe de seu alcance sob a força do vento. A expressão “Suplício de Tântalo” significa buscar algo próximo porém, inalcançável, a exemplo do ditado popular: tão perto, ainda assim tão longe.

Jules-Élie Delaunay 1828 – 1889

Íxion

Íxion é um dos quatro prisioneiros humanos do Tártaro. Ele foi um grande herói da geração que lutou ao lado de Perseu. Tinha como sua maior habilidade o poder de enganar e manipular outras pessoas. Era extremamente sagaz e esperto.

Sua queda ocorreu quando participou de um infame coluio para derrubar os deuses olimpianos. Desejava ascender como o mais poderoso deus de um novo panteão. Mais ambicioso que os demais, Íxion desejava tomar a deusa Hera, esposa de Zeus, para si. No fim, a conspiração falhou e o enganador Íxion foi lançado ao Tártaro nevoento, onde foi amarrado numa roda flamejante que girará por toda eternidade, fazendo sua mente incapaz de funcionar outra vez.

 

Sísifo

A vida de Sísifo é um assunto que sempre causa mal-estar ao ser comentado, pois é difícil falar de seus feitos sem mostrar uma certa admiração. Infelizmente, admirar este homem é algo que causa insatisfação aos próprios deuses. Hoje, é Perseu quem enche as páginas dos livros de história e os versos da poesia épica com suas aventuras fantásticas e importância política. No entanto, seus feitos se tornam tímidos quando comparados com os deste homem condenado às profundezas do Tártaro.

Sísifo é de uma geração anterior à Micenas, na Era de Bronze, quando nem mesmo Apolo se tornara um deus, nem Perseus havia nascido. O próprio Apolo convocara um grupo de heróis para auxiliá-lo no confronto contra o dragão Pitão e para várias outras missões. Juntos, esses heróis impediram a infestação de cobras em Samos. Combateram a sanguinária Lâmia. Confrontaram o recém-nascido deus Hermes. Derrotaram a monstruosa Equínida. Receberam o imigrante Cádmo. Resgataram o Cão Dourado de Cnossos. E ainda realizaram muitos outros feitos heroicos.

Quando Perseus chegou em Micenas, Sísifo era um ancião. Ele treinava o exército de Corinto e liderava os guerreiros Orcomenos. Além disso, mantinha grande capacidade de combate apesar da idade. Infelizmente, tão grande poder e prestígio resultou numa arrogância ainda maior. Ele comandou um novo grupo de jovens heróis com o objetivo de derrubar os próprios deuses olimpianos. Esse grupo era formado pelo trapaceiro Íxion; o imbatível Crisaor; o oceanida Ásopo; e o político Megapente.

O grupo foi vitorioso em sua missão. Eles destruíram Zeus e tomaram o império micênico para si ao assassinar o rei Perseu. Chegaram a dividir a própria criação. No entanto, a vitória durou pouco. O poderoso Zeus, que sobreviveu ao embate inicial, retornou de seu esconderijo e derrotou o grupo de rebelados.

Como líder do grupo, Sísifo foi lançado ao Tártaro, onde todos os dias deve rolar uma grande rocha com as mãos até o cume de uma montanha. Pela noite, a pedra rola novamente montanha abaixo ao ponto de partida para que Sísifo volte a empurrá-la no dia seguinte. Assim, para alguém que sempre quis ser tão importante, ele foi condenado a fazer uma tarefa irrelevante por toda a eternidade.

No entanto, enganam-se os que pensam que a história de Sísifo chegou ao fim. Para a surpresa de todos, o astuto vilão recentemente conseguiu enganar a própria morte. O demônio Tânatos foi encontrado acorrentado nas prisões subterrâneas onde antes estava Sísifo. Nem a rainha Perséfone escapou de seu embuste. Nem o cão Cérbero conseguiu impedir sua fuga. Agora, os deuses estão agora desesperados. Eles temem os vis planos que Sísifo possa estar tramando neste exato momento.

Ticiano Vecellio 1473 – 1576

Fronteiras