Morada dos Deuses

O templo de Litokhoro está localizado no grande vale do monte Olimpo, ao pé da sagrada montanha. Os sacerdotes fazem os sacrifícios e rituais sagrados no local enquanto milhares de peregrinos visitam suas câmaras para prestar homenagens ao panteão. Em especial, esses fieis buscam contemplar a grande coroa rochosa cuja visão pode alcançar de sua sacada. É magnífica a imagem do nevado cume enquanto as florestas de árvores coníferas cobrem toda sua encosta. Ainda mais incrível é o relato dos fieis mais fervorosos, cuja fé lhes torna capazes de ver o brilho do ouro e do mármore do palácio de Zeus, logo abaixo do pico montanhoso.

Pico do Olimpo

Edward Dodwell 1767- 1832

Alcançar o cume sagrado é proibido, muitos dizem impossível. É extremamente alto. Além disso, por todo caminho, um telhado verde, formado por sua vegetação, impede a luz alcançar o solo abaixo. Escalar o local seria como caminhar na escuridão noturna, que fica a cada passo mais gélida e úmida. A natureza intocada é estupenda. Salamandras e insetos podem ser vistos pelas folhas secas sobre o chão e entre os cogumelos e raízes no caminho. Belas flores selvagens de cores discretas podem ser encontradas pelo local, de forma esparsa. O ar pesado torna o ambiente lúgubre e fantástico. O verde se interrompe abruptamente dando lugar à frias rocha cinzentas. Quanto mais próximo do seu cume, o caminho fica mais íngreme, cheios de pedra soltas, capazes de matar mesmo os alpinistas mais experientes. Enfim se, chega aos limites mais verticais. A sensação é de chegar em outro mundo, com ventos fortes e intensos. Eles são congelantes, capazes de paralisar os corpos e gangrenar os dedos dos pés e as pontas de orelhas. É impossível enxergar mais que a distância do braço, pois neste ponto já se alcançou uma altura maior que das próprias nuvens. Algumas grutas, como as que podem ser encontradas desde a região arborizada até este ponto, podem servir de abrigo temporário. No entanto, ficar muito tempo no local é simplesmente esperar uma morte mais gélida que a natural.

Quando o azul celeste ressurge, há um certo alívio com o retorno da visão. Ver o cume do monte como objetivo traz mais ânimo à escalada, mas os frios ventos continuam a incomodar os olhos. A neve dificulta a caminhada, pois enterram os pés tornando a caminho difícil. É neste local onde a neve se desprende pela pressão dos pés, derrubando os aventureiros, e as avalanches caem sobre suas cabeças, os soterrando. Tudo é instável no local. A morte espreita qualquer passo em falso. Nenhum mortal jamais alcançou o pico, ou se o fizeram nunca retornaram. Nínguem nunca foi capaz de descrever aos ouvidos humanos a visão dos grandes portões de ouro, com uma águia esculpida em alto relevo que se revela em certo momento da subida. Esta é a entrada para a Morada dos Deuses.

Teto do palácio de Versailes, na França

Morada dos Deuses

Através dos Portões do Olimpo, o clima se modifica drasticamente. Uma redoma invisível e intangível protege todo o lugar. Ele é quente e agradável. Não há ventos cortantes, nem frio congelante. Tudo é propício para uma vegetação florida e bela, de forma que há um grande jardim ao redor. Esses portões são guardados por grupos de belas mulheres chamadas de Horas. São as três estações, serventes de Demeter: Floração, Cultivo e Resfriamento. As três doutrinas, serventes de Atena: Justiça, Ordem e Paz. As três riquezas, serventes de Hestia: Substância, Abundância e Prosperidade. E as três graças, serventes de Afrodite: Esplendor, Gozo e Alegria.

Após os portões, no centro do grande jardim da entrada, há um gigantesco pátio de pavimento dourado onde os deuses costumam se reunir em assembléia, com fontes de água corrente, grandes lagos artificiais e estátuas de mármore distribuídas em sua volta. Observa-se também uma ampla vista das nuvens de algodão ao redor e do mundo dos homens logo abaixo. Também há a visão dos treze grandes palácios divinos, cada um tão grande quanto uma pequena cidade, que ficam flutuando ao redor do pátio. Parecem suspensos pelas próprias nuvens. Estes são conectados, uns com os outros, através de grandes pontes erguidas sobre alvas colunas cilíndricas que se elevam numa base bronze.

Palácio de Zeus

Em frente ao grande pátio, está o grande palácio de Zeus, o maior e mais imponente, tendo seis outros palácios de cada lado, um para cada deus do panteão, incluindo aquele que fora do deus Hefesto e agora está abandonado. O palácio de Zeus comunica-se diretamente com o grande pátio, dando entrada para a câmara principal, toda ela é sustentada pelas típicas colunas brancas cilíndricas, que terminam numa abóbada de bronze. Em seu interior, estão dezenas de mesas douradas e tripés de festas, dispostas ao longo de um grande tapete vermelho, onde os deuses se banqueteiam do néctar e da ambrósia. Ao fundo, há os grandes portões de bronze que levam ao interior do palácio.

Primeiro, chega-se à igualmente majestosa sala do trono, depois, às câmaras internas, onde está todo um complexo de aposentos, dormitórios e dependências, onde Zeus e seus convidados são servidos por Autômatos. Estes são serventes metálicos que foram criados pelo deus Hefesto, quando este vivia entre os deuses. Os largos corredores levam a todos os cômodos e terminam lateralmente numa grande sacada majestosa e florida. Essa sacada se prolonga em diversas partes para dar origem às já descritas grandes pontes que se conectam aos outros doze palácios divinos. Também se destaca, em anexo ao palácio, o grande estábulo de Zeus com os cavalos imortais que lhe foram presenteados pelo troiano Ganimedes e o magnífico Pégaso que guarda seus raios.

Círculo Interno

Os palácios divinos se comunicam entre si por opulentas pontes sustentados sobre as próprias nuvens numa base de bronze. Estes se assemelham entre si na rocha branca, nas colunas cilíndricas e nas belas estátuas. Mais próximas de Zeus, estão os palácios de seus irmãos: Hera, Poseidon, Hades, Demeter e Héstia, cujas personalidades estão estampadas na arquitetura de seus respectivos palácios.

Giulio Romano 1499 -1546

O palácio de Poseidon possui arquitetura orgânica, cheia de curvas, reproduzindo conchas e corais. Está ornamentada com esculturas marinhas, colocadas nas dezenas lagos e piscinas naturais ao seu redor, que são conectadas diretamente à cidade de Atlântida. O local geralmente é habitado por mulheres oceanidas de sua confiança, em especial, por seus filhos Tritão e Bentesikime, e também a comitiva das cinquentas filhas de Nereus, entre elas, sua esposa Anfitrite.

O palácio de Hades é embebido numa grande névoa negra ao seu redor. Estátuas de gárgulas preenchem seus parepeitos. Sua fachada em estilo quasi-gótico lembra uma grande caveira, tendo o grande portão de entrada no lugar dos dentes. Esse palácio incorpóreo habita o Monte Olimpo e o Mundo Espiritual ao memo tempo. O deus dos mortos o habita ao lado de sua esposa Persefone e de suas filhas Meline e Zacária, tendo como serventes dezenas de seres demoníacos.

O palácio de Hera fica vizinho ao de seu esposo Zeus, com colunas douradas e um grande jardim florido ao redor. É magnífico, tanto dentro como fora dele, com magníficas obras de escultura e pintura ornamentando seus corredores. Também grandes mesas de jantar, onde recebe seus convidados. O local é habitado por suas filhas: a parteira Ilítia, a jovem Hebe e a graciosa Pasitéia, que são servidas pelas Automatas criadas pelo deus Hefesto, o filho que a própria deusa rejeitou.

O palácio de Demeter está envolvido pelas raízes de uma grande árvore que se eleva desde seu interior com galhos floridos e belos recaindo ao seu redor. Diferente de Hera que possui ao redor um jardim bem organizado, os jardins de Demeter reproduzem o crescimento caótico da natureza, mais parecendo uma grande floresta ao redor. A deusa tem ímpeto solitário, geralmente, vivendo sozinha no local.

O palácio de Héstia é o menor e mais simples. Possui apenas um grande pedestal à frente, onde uma chama azulada está sempre flamulando, e colunas brancas na fachada, que adentram a um salão de oração. Não há estátuas ou pinturas de veneração com sua imagem. Não há veneração de atos heroicos. As imagens que estão no local exaltam as pessoas simples e anônimas, consideradas sem importância para um micênico comum, mas Héstia sabe que elas viveram uma vida bem-aventurada e sem julgamentos, sempre tentando ajudar o próximo.

Círculo Externo

Outros sete palácios fazem parte do grande complexo divino que é o Monte Olimpo. Eles mantêm suas interconexões, entre si e entre os outros palácios, através de grandes pontes de mármore, sustentadas por colunas de bronze, mas por se encontrar mais afastadas do palácio de Zeus, eles recebem o nome de cículo externo do Olimpo. Eles pertencem aos filhos de Zeus: Apolo, Hermes, Ares, Atenas, Artemis Afrodite e Hefesto

O palácio de Ares é ornamentado, não por estátuas, mas por armaduras e arsenais. As pinturas mostram matanças e batalhas. O lugar fica ainda mais macabro nos momentos de guerra. O sangue permeira o lugar, pois Ares realiza mostras de seus inimigos mortos, com corpos pendurados e estraçalhados nas paredes e teto. Além disso, costuma trazer os covardes e fugitivos da guerra para fazer apresentações de torturas sanguinárias aos seus convidados.

O palácio de Hermes possui os mais amplos salões do monte sagrado. Eles são preenchidos por muita comida e belas obras de arte, que não são de origem divina, mas trazidas das cidades humanas. Passáros voam em seu interior, assim como o vento tem ampla entrada, pois o palácio é extremamente arejado por gigantescas janelas, que permitem uma visão ampla e panorâmica de toda Terra, aonde quer que a pessoa esteja nele. É um ambiente bem leve e hospitaleiro, onde qualquer um se sente bem-vindo.

Teto da Galeria Borghese, em Roma (1613)

O palácio de Apolo está envoltou por bruma errante e alva, que espelha o brilho dourado que surge do seu interior. É tão reluzente que é difícil a um mortal olhá-lo diretamente. Os ouvidos são confortados por sons de pássaros e fontes de água. Tons sóbrios de dourado e vermelho estão nas pinturas e estátuas, cuja decoração faz representação de eventos passados ou que ainda acontecerão.

O palácio de Atena nunca está parado, sempre há centenas de mulheres nele, trabalhando nos mais diversos produtos. Seja tecendo belos tecidos, esculpindo estátuas, realizando bordados ou desenvolvendo pinturas. Tudo é bem organizado e perfeitamente decorado, com preferência por tons neutros, como o branco e o azul claro. Bem no centro do salão principal, está uma grande mesa com o mapa do mundo. Nele, pequenas figuras representam os exércitos de todos povos, assim, suas movimentações. É algo que a deusa adora estudar, tecendo caminhos bem-definidos como uma agulha num bordado.

O palácio de Afrodite é magnífico. Uma linda grama rodeia todo o lugar, permeada por lindas ilhas de flores coloridas. Sempre há uma música tocando para a alegria de todos. Sempre há bebida para se oferecer. Sempre há comida para se banquetear. Rosas revestem as paredes. Pinturas e estátuas de amantes em seus atos libidinosos estão por todos os lados. E, claro, sempre há belos homens e mulheres para satisfazer todos os gostos sexuais dela e de seus convidados, assim havendo grande orgias em todos os seus salões e aposentos.

O palácio de Artemis mais lembra um grande zoológico. Leões, Zebras e Javalis estão soltos para andar ao redor das cilíndricas colunas brancas. Os lagos ao redor possuem peixes e crocodilos. Andorinhas e alcíones sobrevoam acima. Raramente, Artemis está no local, pois adora viver nas florestas da Terra, mas, com sorte, também é possível a encontrar acampando ao redor de uma fogueira com suas mulheres caçadoras de tempos em tempos.

O palácio de Hefesto está abandonado. O deus das forjas não se sentiu à vontade no Olimpo. Não conseguiu conviver com a mãe que o rejeitou, nem a mulher que o traiu. Levou consigo todas as obras de bronze e metal que construíu para sua oficina em Rodes. Resta apenas o vazio dos salões e o silêncio entre seus pilares cilíndricos. Dizem que Zeus logo escolherá um humano poderoso para ascender ao panteão. Por enquanto, o local é usado para acomodar os visitantes.

São tantas maravilhas ocultas nas nuvens do monte Olimpo, que é impossível descrever em palavras ou da própria mente humana ser sequer capaz de conceber.

Olimpianos