Tebas

A Cidade em Guerra Civil

Rei: Etéocles
Território: Beócia
Cidades: Delfi (Fócia), Opus (Lócria Ocidental), Anfissa (Lócria Oriental) e Silênia.
Símbolo: A Esfinge misteriosa

A região da Beócia foi povoada pelo neto de Deukalião chamado Doro. No entanto, esta sempre foi uma região pouco habitada e de pequena expressão política até chegada do herói Cádmo na geração anterior a Perseu. O herói viajou desde os povos do Leste até o Hélade à procura da irmã raptada Europa. Depois de anos de buscas, consultou o oráculo de Delfi, já famoso na região, mas foi aconselhado a desistir da busca para fundar uma cidade.

Cádmo fundou assim a magnífica cidade de Tebas na região onde habitava o dragão Ismeno, sagrado pelos deuses. A força e habilidade do herói derrotaram o poderoso dragão, mas o panteão divino amaldiçoou a cidade pelos atos violentos de seu fundador. Desde então, todos os reis de Tebas são acometidos por terríveis destinos. Foram onze reis em apenas quatro gerações desde sua fundação. Todos acabaram mortos em tenra idade ou desaparecidos de alguma forma. Isso ocorre desde o fundador desaparecido Cádmo até o rei Laio, morto durante o ataque da terrível Esfinge. O último rei Édipo enlouqueceu arrancando os próprios olhos e partindo em autoexílio. E agora os seus filhos iniciaram uma guerra pela sucessão que dura até hoje.

Gustave Moreau 1826–1898

Sociedade

As altas muralhas da cidade de Tebas transmitem uma falsa sensação de segurança. Os sete portões da cidade estão sempre bem guardados por soldados e arqueiros. E, por várias vezes, os alarmes dispararam causando pânico na população. Todos temem a morte a cada dia. A qualquer momento os exércitos dos irmãos em disputa podem se encontrar. Assim, os profetas e líderes discursam nas praças sobre a proximidade do fim e os guardas, com carta branca para censura, não raro extrapolam os limites dos direitos individuais.

A disputa entre os filhos de Édipo começou quando ambos assumiram o controle da cidade e a governaram juntos, alternando os anos de governo. Não demorou muito para os dois irmãos se desentenderem e entrarem em guerra. No fim, Etéocles baniu o irmão Polinices da cidade, assumindo toda Tebas para si. No entanto,  Polinices não se deu por vencido e tem orquestrado uma aliança com os exércitos do rei Adrasto de Argos para conquistar a cidade. Se isso já não fosse problema o bastante, nos arredores da cidade, dois gigantescos dragões foram recentemente avistados sobrevoando a região. Eles não realizaram qualquer ataque, mas a população já está em pânico com sua presença.

Os problemas são muitos, mas a cidade mantém um rico comércio e uma forte pecuária de ovelhas. Tebas é considerada uma das cidades mais ricas e influentes de Micenas. Ela fica no centro do mundo civilizado onde cada um de seus sete portões se conectam a diferentes cidades capitais de Micenas. Na verdade, há quem diga que são as cidades capitais de Micenas que estão conectadas a Tebas.

 

Creonte

O sábio Creonte é o principal conselheiro da corte de Tebas e tem sido assim pelos últimos três reis: Laio, Édipo e Etéocles. Agora, mais do que nunca seus talentos são requeridos, pois o rei Etéocles assumiu a linha de frente dos exércitos de Tebas contra o irmão, deixando Creonte como seu representante real. Dragões, esfinges, guerras, intrigas políticas, violência policial, mortes de reis e constantes alarmes de perigo fazem parte da vida diária de Tebas. É com todos esses problemas e temores que a população sobrevive desde o primeiro dia de sua fundação. Por essa razão, toda a população adora o velho Creonte. Afinal, ele é a única constante na cidade já que, entre um ou outro reinado, sempre está ali ao lado do ao trono.

Apesar de tão grandes responsabilidades, a maior preocupação de Creonte hoje é seu filho, que é noivo de Antíope, filha do amaldiçoado Édipo. O jovem Hemon vivia de forma pacata e feliz quando um dilema tornou sua vida insuportável. Ele foi obrigado a escolher entre o amor à sua noiva ou a lealdade ao seu pai, pois Creonte proibiu explicitamente o envolvimento de Hemon com Antíope e sua família amaldiçoada. Assim, o príncipe decidiu deixar tudo para traz. Ele não pode voltar ao pai negando o amor por sua mulher. E não pode voltar à esposa negando um pedido do pai. Agora se tornou o guerreiro atormentado que percorre Micenas em martírio buscando a morte em cada desafio.

Giovanni Silvagni. 1790-1853

Héracles

Héracles nasceu da bela Alcmena, neta de Perseu e esposa do heróico comandante Anfitrião. Numa noite, o divino Zeus tomou a forma de seu marido e, sem que Alcmena soubesse sua identidade, o deus a levou para a cama. O resultado dessa união foi Héracles, que sempre foi odiado pela deusa Hera. Ela tentou matá-lo. Colocou duas serpentes no seu berço. Mas elas acabaram mortas pelo bebê herói.

Héracles cresceu com corpo e força espetaculares, herdados de seu divino pai, mas também com uma fúria incontrolável que a deusa Hera lhe impôs. Essa fúria piorou após sua família ser exilada da cidade de Micenas pela morte acidental do rei Eléctrio, seu avô materno, pelas mãos do seu pai humano Anfitrião.

A primeira crise de fúria de Héracles ocorreu em Tebas no início de sua adolescência quando matou Lino, seu tutor de lira, por corrigir seus erros. Héracles foi banido da cidade de Tebas por causa disso e passou a viver no campo como criador de ovelhas. Anos depois, ele conseguiu o perdão real e a mão da princesa Megara em casamento ao impedir uma terrível rebelião contra a cidade.

Outra crise de fúria ocorreu quando o ladrão Termero tentou lhe assaltar. O resultado foi à quebra do crânio de Termero em pedaços. Neste caso, os tribunais de Tebas consideraram o ataque justo. No entanto, meses depois, outra crise ocorreu. Por impedir a entrada do assassino do amigo Lino em sua cidade, o rei Amintor de Dolopes também acabou morto pelo furioso rapaz.

Apesar de assustadores, nenhum desses eventos se comparam à sua mais recente crise. Depois de se casar com a princesa Megara, filha do conselheiro Creon, Héracles teve três belos filhos. Tudo parecia calmo e feliz. No entanto, após uma discussão com sua esposa, a fúria tomou conta do herói mais uma vez. O resultado foi à morte da esposa Megara e dos seus três filhos por suas próprias mãos.

Agora, em vez de condenado à morte, como desejavam todos os tebanos, o rei Euristeu de Micenas intercedeu em seu favor. Héracles foi condenado a combater as maiores ameaças de Micenas para purificar a sua alma por tão horrendos pecados.

 

Eugène Ernest Hillemacher 1818 – 1887

Iolau

Anfitrião e Alcmena não possuem apenas Héracles como filho. Eles também tiveram Íficles que, diferente do irmão, nasceu humano, sem poderes e habilidade especiais. Era realmente filho de Anfitrião, sem qualquer intervenção divina. Assim, Íficles se tornou um comerciante e político.

Iolau, filho de Íficles, no entanto, adora o seu tio Héracles. Ele treinou diariamente sua perícia em armas e combate para se tornar também um grande herói. Recentemente, Héracles foi condenado por terríveis crimes contra a própria família. Como punição, ele deve combater as maiores ameaças de Micenas e o sobrinho Iolau decidiu o acompanhar nessa missão. O jovem se tornou assim escudeiro e companheiro de seu tio Héracles em suas aventuras.

 

Tirésias

O profeta cego Tirésias recebeu a imortalidade do divino Zeus e caminha sobre Gaia por sete gerações. Após tamanha longevidade, certamente muita coisa aconteceu em sua vida. Ainda adolescente, ele perdeu a visão. A sua mãe era uma das muitas serventes da deusa Atenas e a ajudava em seu banho. O jovem Tirésias teria entrado nesses aposentos “por engano”, onde observou o corpo nu e divino da deusa. Ele teve os seus olhos cegados pelo tamanho esplendor.

Após sua cegueira, ele desenvolveu a audição. Era capaz de prever o futuro ao ouvir o som dos pássaros. Desta forma, se tornou um grande profeta que acompanhou o herói Cádmo na fundação de Tebas. Já em idade avançada, o profeta teria aconselhado o neto sucessor de Cádmo, o rei Penteu, a permitir o culto de Báco Dionísio em Tebas, mas o rei não o escutou.

Penteu atacou o poderoso visitante que, ao se defender. Ele causou a morte do segundo rei de Tebas e transformou o velho profeta numa jovem mulher. O profeta Tirésias, agora com um jovial corpo feminino, aproveitou a experiência. Ele teve relacionamentos amorosos com vários homens por sete divertidos anos. Neste sétimo ano, ele se transformou de volta no velho e decrépito profeta cego.

O divino Zeus perguntou a Tirésias com qual corpo, masculino ou feminino, ele teve mais prazer. Ele respondeu: Se o amor fosse dividido em dez partes, os homens recebem apenas uma! Grato com a resposta, o divino Zeus o presenteou com a vida eterna. Atualmente, Tirésias ainda se mantém um importante conselheiro e profeta na corte de Tebas.

 

Cádmo e Harmonia

Existem dois grandes dragões alados que vivem nos arredores de Tebas. Eles nunca atacaram a cidade ou qualquer pessoa inocente. E existe uma razão para isso. Ninguém sabe que ambos, na verdade, são os heróis fundadores da cidade de Tebas: Cádmo e Harmonia.

A história de Cádmo começa quando este foi enviado por seu pai, o rei Agenor de Tiro, até Micenas. A sua missão era procurar a irmã Europa, sequestrada pelo divino Zeus. Depois de muitos anos de procura sem sucesso, ele já havia conhecido sua futura esposa Harmonia na ilha de Tasos quando o Oráculo de Delfi o aconselhou a desistir da missão.

Ele deveria estabelecer morada na Beócia em local determinado pelo Oráculo, mas o local era habitado pelo terrível dragão Ismeno, que era abençoado pelos deuses. O brilhante Cádmo combateu o sagrado dragão Ismeno e o matou com o fio de seu machado. Enfim, ele fundou a cidade de Tebas. No entanto, os deuses amaldiçoaram Cádmo e a cidade de Tebas pela morte do dragão.

O herói foi obrigado a deixar seu neto Penteu no governo da cidade e a vagar em intermináveis batalhas nas terras micênicas. Nesse tempo, ele lutou ao lado de grandes heróis como Perseu no Deserto de Faeton, combateu em guerras na Iliria, encontrou a sua irmã Europa casada com o rei Astério de Knosso, fundou cidades na costa do mar Ioniano e ainda viveu inúmeras aventuras.

Certo dia, cansado de uma vida de combates e batalhas, ele bradou ao monte Olimpo: “Estou farto de ser odiado pelos deuses. Se vocês eram tão apaixonados pela vida de uma serpente, eu prefiro tal vida”. Nesse mesmo instante, escamas, asas, garras e dentes cresceram em seu corpo, transformando Cádmo num dragão. A fiel esposa Harmonia, vendo a transformação do marido, pediu aos deuses o mesmo destino. E o desejo foi concedido.