Cristãos Segundo

Livro das Perseguições

 

I – Imperador Galo

  1. O imperador Décio, que não reinou um par de anos completos, pois em seguida foi degolado junto com seus
    filhos, foi sucedido por Galo. [Eusébio 7.1.1]
  2. Neste tempo morre Orígenes, já cumpridos sessenta e nove anos de sua vida. [Eusébio 7.1.1]
  3. O bispo de Alexandria chamado Dionísio, por sua parte, escrevendo a Hermamon, falou sobre Galo o imperador Galo: [Eusébio 7.1.1]
  4. “Acontece que Galo nem reconheceu o mal de Décio nem teve a precaução de examinar o que o derrubou, mas veio a estatelar-se contra a mesma pedra que estava diante de seus olhos.” [Eusébio 7.1.1]
  5. “Quando o império andava bem e os assuntos se resolviam a um pedido, expulsou os santos varões que
    perante Deus intercediam por sua paz e por sua saúde.” [Eusébio 7.1.1]
  6. “Em consequência, junto com os santos, perseguiu também as orações feitas em seu favor.” [Eusébio 7.1.1]
  7. Na cidade de Roma, depois que Cornélio exerceu o episcopado em torno de três anos, estabeleceu-se como seu sucessor a Lúcio. [Eusébio 7.2.1]
  8. Este viveu em seu ministério algo menos que oito meses, e ao morrer transmitiu seu cargo a Estevão. [Eusébio 7.2.1]
  9. É a este que Dionísio escreve sua primeira carta Sobre o batismo, já que na época havia-se levantado um importante problema. [Eusébio 7.2.1]
  10. Questionou-se se deveria purificar de novo com o batismo aos que se convertiam de uma heresia qualquer. [Eusébio 7.2.1]
  11. Havia prevalecido ao menos um costume antigo: usar com estas pessoas apenas a oração com imposição de mãos. [Eusébio 7.2.1]
  12. Cipriano, pastor da igreja de Cartago e mais importante dos de então, afirmou que não se deveria admitir quem não tivesse primeiramente sido purificado do erro mediante o batismo. [Eusébio 7.3.1]
  13. Mas Estevão, por outro lado, julgando que não se deveria juntar inovação nenhuma contrária à tradição que havia prevalecido desde o princípio, desagradou-se muito com ele. [Eusébio 7.3.1]
  14. Dionísio tratou longamente do assunto com ele por carta, e no final mostra-lhe que, uma vez acalmada a perseguição, todas as igrejas de todas as partes rechaçaram a inovação de Novato e recuperaram a paz umas com as outras. [Eusébio 7.4.1]
  15. Ele escreveu: “Saiba agora, irmão, que se uniram todas as igrejas que anteriormente se achavam separadas, as do Oriente e as de mais longe ainda.” [Eusébio 7.5.1]
  16. “Todos os que as presidem em todas as partes têm o mesmo sentimento, extremamente contentes com esta paz inesperada.” [Eusébio 7.5.1]
  17. Demetriano em Antioquia, Teoctisto em Cesaréia, Mazabanes em Elia, Marino em Tiro, Heliodoro em Laodicéia (falecido Telimidro), Heleno em Tarso e todas as igrejas da Cilicia.” [Eusébio 7.5.1]
  18. Assim como Firmiliano e toda a Capadócia, pois Nomeio somente os bispos mais eminentes, para não alongar minha carta nem tornar pesado meu discurso. [Eusébio 7.5.1]
  19. As duas Sírias inteiras e a Arábia, às quais em todos os momentos socorrestes e às quais agora tens escrito, assim como Mesopotâmia, o Ponto e Bitínia. [Eusébio 7.5.2]
  20. Dizem em uma palavra, todas, por toda parte, saltam de alegria e glorificam a Deus por esta concórdia e amor fraterno.” [Eusébio 7.5.2]
  21. Quanto a Estevão, depois de ter cumprido seu ministério durante dois anos, sucede-o Sixto. [Eusébio 7.5.3]
  22. Escrevendo a este sua segunda carta sobre o batismo, Dionísio expõe conjuntamente a opinião e a sentença de Estevão e dos demais bispos. [Eusébio 7.5.3]
  23. Sobre Estevão diz o seguinte: “Havia ele pois escrito anteriormente sobre Heleno e também sobre Firmiliano e todos da Cilicia, da Capadócia e, evidentemente, da Galácia e de todos os povos limítrofes.” [Eusébio 7.5.4]
  24. “Daí em diante não estariam em comunhão com eles, por esta mesma razão, porque diziam que rebatizam os hereges.”” [Eusébio 7.5.4]
  25. “Considera-se a magnitude do assunto, porque, em realidade, haviam-se tomado decisões sobre isto nos maiores concílios de bispos, segundo minhas informações.” [Eusébio 7.5.5]
  26. Deste modo, aos que provinham das heresias, se fazia passar novamente por um catecumenato. Depois os lavavam e purificavam novamente da sujeira de seu antigo e impuro fermento. [Eusébio 7.5.5]
  27. “Os nossos amados co-presbíteros Dionísio e Filemon primeiramente pensavam como Estevão. [Eusébio 7.5.6]
  28. Eles me escrevem sobre os mesmos assuntos, mas escrevi-lhes primeiro brevemente e agora com muito mais amplitude.” [Eusébio 7.5.6]

II – Heresia de Sabélio

  1. Isto é o que há sobre a questão mencionada, mas na mesma carta Dionísio falou também dos hereges de Sabélio, que em seu tempo prevaleciam. [Eusébio 7.6.1]
  2. Acerca da doutrina agora surgida em Ptolemaida de Pentápolis, era uma doutrina ímpia e que contém muitas blasfêmias sobre o Deus-Todo-poderoso, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. [Eusébio 7.6.1]
  3. Era um doutrina também de muita incredulidade no que se refere a seu Filho unigênito, o primogênito de toda a criação, o Verbo feito homem. [Eusébio 7.6.1]
  4. “Assim como era também falta de sensibilidade para o Espírito Santo, como chegassem de todas as partes manifestos e irmãos com a intenção de discuti-lo.” [Eusébio 7.6.1]
  5. Dionísio diz que escreveu algumas coisas conforme minhas possibilidades e com ajuda de Deus, explicando-as de uma maneira bastante didática. [Eusébio 7.6.1]
  6. Em sua terceira das cartas sobre o batismo a que o próprio Dionísio escreve a Filemon, presbítero
    de Roma, expõe-se o seguinte:  “Eu também li as obras e as tradições dos hereges”  [Eusébio 7.7.1]
  7. “Por breve tempo manchei minha alma com seus infames pensamentos, mas disso tirei uma vantagem: poder refutá-los por mim mesmo e abominá-los com muito mais força.” [Eusébio 7.7.1]
  8. “Em realidade, um irmão, um dos presbíteros, separava-me e me metia medo, porque me deixava
    envolver no pântano da maldade daqueles.” [Eusébio 7.7.2]
  9. “De fato eu estava manchando minha alma e ele, como comprovei, dizia a verdade.” [Eusébio 7.7.2]
  10. Uma visão enviada por Deus veio a dar-me forças e uma voz se dirigiu a mim e me ordenou. [Eusébio 7.7.3]
  11. Disse expressamente: ‘Leia tudo o que cair em tuas mãos, pois tu és bastante para emendar e provar cada coisa. Isto tens desde o princípio e foi causa de tua fé’. [Eusébio 7.7.3]
  12. Eu aceitei a visão, que concordava bem com a sentença apostólica que diz aos mais robustos: Sede cambistas experimentados.” [Eusébio 7.7.3]
  13. “Eu recebi esta regra e este modelo de nosso bem-aventurado papa Heraclas. Efetivamente, aos que provinham das heresias, ainda que houvessem se separado da Igreja. [Eusébio 7.7.4]
  14. “E com maior razão aos que não haviam se separado, mas que, sendo membros da congregação somente em aparência, na realidade era-lhes atribuído estar relacionado com algum dos mestres hereges.” [Eusébio 7.7.4]
  15. “Ele Expulsava-os da Igreja e não os admitia, ainda que pedissem, até que houvessem exposto publicamente tudo o que houvessem escutado entre os adversários.” [Eusébio 7.7.4]
  16. “Então os admitia à assembléia, sem exigir para eles um novo batismo, uma vez que já haviam anteriormente recebido dele o santo banho.” [Eusébio 7.7.4]
  17. “Aprendi também que não somente os africanos introduziram agora este costume, mas que isto foi decidido muito antes.
  18. Ele foi decidido nos tempos dos bispos que nos precederam nas igrejas mais populosas e nos concílios dos irmãos, em Iconio, em Sinade e em muitas partes. [Eusébio 7.7.5]
  19. Não me atrevo a subverter suas decisões e fazê-las entrar em luta e rivalidade, porque não mudarás de lugar, diz-se, os marcos de teu vizinho que teus pais puseram.” [Eusébio 7.7.5]
  20. A quarta de cartas de Dionísio sobre o batismo ele escreveu a Dionísio em Roma, então honrado com o presbiterado, mas que não muito depois recebeu também o episcopado daquela igreja. [Eusébio 7.7.6]
  21. Por esta carta pode-se reconhecer como este era um homem ilustrado e admirável, segundo atesta Dionísio
    de Alexandria, que depois de outras coisas escreve-lhe fazendo menção ao assunto de Novato. [Eusébio 7.7.6]
  22. “Porque a Novaciano odiamos com razão, pois cindiu a Igreja, arrastou alguns irmãos à impiedade e à blasfêmia.” [Eusébio 7.8.1]
  23. Ele transmitiu também um ensinamento sacrílego sobre Deus, caluniou nosso bondoso Senhor Jesus Cristo acusando-o de ser impiedoso. [Eusébio 7.8.1]
  24. E, por complemento a todo o dito, anulava o santo batismo, subvertia a fé e a confissão que o precedem, e expulsava por completo o Espírito Santo dos mesmos. [Eusébio 7.8.1]
  25. “Fazendo-o ainda que houvesse alguma esperança de que permanecesse ou inclusive de que voltasse a eles.” [Eusébio 7.8.1]

III – Sobre os Batismos

  1. Também a quinta carta de Dionísio foi escrita ao bispo de Roma Sixto. [Eusébio 7.9.1]
  2. Nela, depois de dizer muitas coisas contra os hereges, expõe nos seguintes termos algo ocorrido em seu tempo. [Eusébio 7.9.1]
  3. Ele disse: “De fato, irmão, também eu necessito conselho e peço teu parecer para um assunto importante que me foi apresentado, e temo equivocar-me.” [Eusébio 7.9.1]
  4. “Efetivamente, um dos irmãos admitidos à comunidade, fiel antigo, segundo críamos, formava parte da assembleia já muito antes de minha ordenação e antes de instalar-se o bem-aventurado Heraclas.” [Eusébio 7.9.2]
  5. “Achando-se junto aos recém-batizados e tendo escutado as perguntas e as respostas, acercou-se de mim chorando e lamentando-se.” [Eusébio 7.9.2]
  6. “Ele caiu aos meus pés, e confessava e jurava que o batismo com que havia sido batizado entre os hereges não era este.” [Eusébio 7.9.2]
  7. “Nem tinha absolutamente nada em comum com ele, já que aquele estava cheio de impiedade e blasfêmias.” [Eusébio 7.9.2]
  8. “Ele dizia que agora tinha a alma inteiramente trespassada pela dor e que não se atrevia sequer a levantar os olhos para Deus.” [Eusébio 7.9.3]
  9. “Pois tinha começado naquelas palavras e práticas sacrílegas, e por isto pedia poder obter esta purificação, esta acolhida, esta graça puríssima.” [Eusébio 7.9.4]
  10. “Isto precisamente é o que eu não ousei fazer, e lhe disse que bastava para isto a comunhão em que estava admitido há tão longo tempo.” [Eusébio 7.9.4]
  11. “Eu efetivamente não poderia atrever-me a rebatizar alguém que ouviu a Eucaristia e que respondeu com os outros ao Amem. [Eusébio 7.9.4]
  12. “Ele esteve de pé ante a mesa, estendeu suas mãos para receber o sagrado alimento, recebeu-o e durante bastante tempo e participou no corpo e no sangue de nosso Senhor. [Eusébio 7.9.4]
  13. “Eu exortava-o a ter ânimo e a acercar-se e participar das coisas santas com fé segura e boa esperança.” [Eusébio 7.9.4]
  14. “Mas ele não parou de chorar e tremeu ao acercar-se à mesa, e apenas depois de muitos pedidos conseguiu acompanhar-nos de pé nas orações.” [Eusébio 7.9.5]
  15. Além das cartas citadas, conserva-se também de Dionísio outra sobre o batismo, que ele e a comunidade que governava dirigem a bispo Sixto e à sua igreja em Roma. [Eusébio 7.9.6]
  16. Nela expõe a doutrina acerca do problema comentado, por meio de uma longa demonstração. [Eusébio 7.9.6]
  17. Também se conserva dele, depois destas, outra dirigida a Dionísio de Roma, a que trata de Luciano.
  18. Estas são todas as cartas que há sobre eles. [Eusébio 7.9.6]

IV – Imperador Valeriano

  1. O imperador Galo e sua equipe, depois de terem detido o comando quase dois anos, foram derrotados,
    sucederam-lhes no governo Valeriano e seu filho Galieno. [Eusébio 7.10.1]
  2. Outra vez pois, nos é dado conhecer o que conta Dionísio por sua carta dirigia a Hermamon. [Eusébio 7.10.2]
  3. Ele leva sua narrativa da seguinte maneira: “E também ao apóstolo João foi igualmente revelado.’ [Eusébio 7.10.2]
  4. Foi-lhe dada, diz, uma boca que profere arrogâncias e blasfêmias, e lhe foram dados poder e quarenta e dois meses.” [Eusébio 7.10.2]
  5. “Ambas as coisas são de admirar em Valeriano, e sobretudo deve-se considerar como era no princípio, como era favorável e benevolente para com os homens de Deus. [Eusébio 7.10.3]
  6. “Nenhum outro imperador, nem mesmo aqueles que se diz que foram abertamente cristãos, tiveram uma disposição tão favorável e acolhedora.” [Eusébio 7.10.3]
  7. “No começo recebia-os com uma familiaridade e uma amizade manifestas, e toda sua casa estava cheia de homens piedosos e era uma igreja de Deus.” [Eusébio 7.10.4]
  8. “Mas o mestre e chefe supremo dos magos do Egito conseguiu persuadi-lo a se desembaraçar deles. [Eusébio 7.10.4]
  9. “Ele ordenava ao imperador matar e perseguir os puros e santos varões, porque eram contrários e obstáculo de seus infames e abomináveis encantamentos.” [Eusébio 7.10.4]
  10. “Pois estes varões eram efetivamente capazes, com sua presença e com sua vista, e mesmo somente com sua respiração e o som de suas vozes, de destruir as armadilhas dos pestíferos demônios. [Eusébio 7.10.4]
  11. “Ele sugeria ao imperador realizar iniciações impuras, sortilégios abomináveis e ritos de maus auspícios.” [Eusébio 7.10.4]
  12. “Assim como degolar pobres crianças, imolar filhos de pais desafortunados, abrir entranhas de recém nascidos e cortar e despedaçar as criaturas de Deus,  como se por isso tudo pudessem ser felizes.” [Eusébio 7.10.4]
  13. “Em consequência, Macriano ofereceu aos demônios bons sacrifícios de ação de graças pelo império que
    esperava. [Eusébio 7.10.5]
  14. “Ele, que no princípio havia estado à frente das contas universais do imperador, não teve um só pensamento razoável nem universal.” [Eusébio 7.10.5]
  15. “Ele caiu sob a maldição do profeta que diz: Ai dos que profetizam segundo seu próprio coração e não veem o universal!” [Eusébio 7.10.6]
  16. “E não compreendeu a providência universal nem temeu o juízo do que está antes de tudo, através de tudo e sobretudo, pelo que converteu-se em inimigo da Igreja universal.” [Eusébio 7.10.6]
  17. “Ele se tornou alheio e desterrou a si mesmo da misericórdia de Deus, e fugiu para muito longe de sua própria salvação, mostrando nisto a verdade de seu próprio nome, que significa distante.” [Eusébio 7.10.6]
  18. “O imperador Valeriano, de fato, induzido por tais excessos, viu-se objeto de insultos e ultrajes tendo sido derrotada várias vezes por seus inimigos.” [Eusébio 7.10.7]
  19. “Ele sofreu segundo a sentença de Isaías sobre os que escolheram para si os caminhos e as abominações que sua alma quis; pois eu não preferirei suas zombarias e hei de recompensar seus pecados.” [Eusébio 7.10.7]
  20. “Macriano, por sua vez desejava loucamente o império para si, apesar de não merecê-lo.” [Eusébio 7.10.8]
  21. “E não podendo revestir com os ornamentos imperiais seu corpo aleijado, propôs seus dois filhos, que assim receberam os pecados paternos.” [Eusébio 7.10.8]
  22. “Pois foi bem clara neles a predição feita por Deus: Eu, que castigo os pecados dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam.” [Eusébio 7.10.8]
  23. “Com efeito, ao lançar seus próprios malvados desejos, que se haviam frustrado, sobre as cabeças de seus filhos, também lhes transferiu sua própria maldade e seu ódio a Deus.” [Eusébio 7.10.9]

V – Imperador Macriano

  1.  Por outro lado, quanto à perseguição de seu tempo, que crescia terrivelmente, as próprias palavras de Dionísio, dirigidas contra Germano, um bispo de seu tempo que tentava difamá-lo, declaram quanto ele e
    outros tiveram que suportar por causa de sua piedade para com o Deus do universo. [Eusébio 7.11.1]
  2. Expõe-no da seguinte maneira: “Mesmo assim, realmente corro o perigo de cair em grande loucura e estupidez se me vejo obrigado a expor a admirável dispensação de Deus para conosco.” [Eusébio 7.11.2]
  3. “Como é bom ocultar o segredo do rei, mas glorioso revelar as obras de Deus, revelarei a violência de
    Germano.” [Eusébio 7.11.2]
  4. “Eu não vim só ante Emiliano, prefeito do Egito, mas acompanhavam-me meu co-presbítero Máximo e os diáconos Fausto, Eusébio e Queremon; e conosco entrou um dos irmãos de Roma ali presentes.” [Eusébio 7.11.3]
  5. “Emiliano não me disse primeiro em bom tom: ‘Não tenham reuniões’, porque isto seria supérfluo e sem importância para ele, que ia direto ao assunto. [Eusébio 7.11.4]
  6. “Porque para ele, a questão não era que não nos reuníssemos com outros, mas que nós mesmos não fôssemos cristãos.” [Eusébio 7.11.4]
  7. “Por isso nos intimava a deixar de sê-lo, pensando que se eu mudasse de parecer os outros me seguiriam.” [Eusébio 7.11.4]
  8. “Mas eu dei uma resposta que não se diferenciava muito nem se afastava do Há que se obedecer mais a Deus do que aos homens!” [Eusébio 7.11.5]
  9. Abertamente testemunhei que adoro ao Deus único e a nenhum outro, e que jamais mudaria de parecer nem deixaria de ser cristão. [Eusébio 7.11.5]
  10. Então ele nos ordenou andar até uma aldeia próxima ao deserto, chamada Kefró. [Eusébio 7.11.5]
  11. “Introduzidos Dionísio, Fausto, Máximo, Marcelo e Queremon, o governador Emiliano disse que verbalmente conversou com eles sobre a humanidade a eles empregada. [Eusébio7.11.6]
  12. “Disse que Efetivamente lhes dava o poder de se salvar, contanto que voltassem ao que considerava conforme a natureza, que era adorar os deuses salvadores de império e esquecer do que é contrário.” [Eusébio 7.11.7]
  13. “E perguntou o que diziam pois a isto, Pois esperava que eles não fossem  uns ingratos para com esta sua
    humanidade, posto que os estão exortando ao melhor’.” [Eusébio 7.11.7]
  14. Dionísio respondeu: “Nem todos adoram a todos os deuses, mas cada um adora aos que crê que o são, e assim nós rendemos culto e adoramos ao Deus único e criador de todas as coisas.” [Eusébio 7.11.8]
  15. “O Deus o que pôs também o império nas mãos dos augustos Valeriano e Galieno, amados de Deus, e ao imperador dirigimos continuamente nossas súplicas pelo império, com o fim de que permaneça inabalável.” [Eusébio 7.11.8]
  16. Emiliano, que exercia como governador, disse: “Pois, quem vos impede de adorar também a este, se é que é Deus, com os deuses que o são por natureza?”
  17. E afirmou: “Porque vos é ordenado dar culto aos deuses, e a deuses que todo o mundo conhece.” [Eusébio 7.11.9]
  18. Dionísio respondeu: “Nós não adoramos a nenhum outro”. [Eusébio 7.11.9]
  19. Emiliano disse: “Estou vendo que vós sois não somente ingratos, mas também insensíveis à mansidão de nossos augustos.” [Eusébio 7.11.10]
  20. “Não ireis permanecer na cidade, mas sereis deportados às regiões da Líbia, a um lugar chamado Kefró.” [Eusébio 7.11.10]
  21. “É o local que escolhi, por mandato de nossos augustos, e de nenhuma maneira vos será permitido, nem a vós nem a nenhum outro, fazer reuniões ou entrar nos chamados cemitérios.” [Eusébio 7.11.10]
  22. “Agora bem, se acontecer que algum de vós não se apresentar no lugar que lhe mandei ou for encontrado em reunião com alguém, sobre si mesmo terá chamado o perigo.” [Eusébio 7.11.11]
  23. “Pois não lhe há de faltar a necessária vigilância e assim retirai-vos pois para onde vos mandei”. [Eusébio 7.11.11]
  24. Assim, apesar de Dionísio se achar doente, Emiliano o obrigou a sair apressadamente, sem dar sequer o prazo de um dia. [Eusébio 7.11.11]
  25. Que tempo tinha ele, pois, para convocar ou não convocar uma reunião?” [Eusébio 7.11.11]

VI – Dionísio em Kefró

  1. Felizmente, com a ajuda de Deus, nem sequer da reunião visível eles se abstiveram. [Eusébio 7.11.12]
  2. Por uma parte os cristãos da cidade colocaram grande empenho em se reunir como se Dionísio estivesse com eles: ausente com o corpo, mas presente com o espírito. [Eusébio 7.11.12]
  3. Por outra parte, em Kefró veio a habitar com eles uma igreja numerosa, pois alguns irmãos lhes seguiam da cidade e outros juntavam-se a eles desde o Egito [Eusébio 7.11.12]
  4. Ali mesmo em Kefró Deus lhes abriu uma porta para a palavra. No início, é verdade, os perseguiram e os apedrejaram, mas logo alguns pagãos, muitos, deixaram os ídolos e se converteram a Deus.” [Eusébio 7.11.13]
  5. “Nunca antes tinham recebido a palavra, e só então semeava-se entre eles pela primeira vez, graças a Dionísio e seus companheiros.” [Eusébio 7.11.12]
  6. “É como se Deus tivesse os conduzido até os pagãos para esta causa, pois assim que cumpriram este ministério, novamente lhes afastou. [Eusébio 7.11.14]
  7. “De fato, Emiliano quis os trasladar a lugares aparentemente ainda mais ásperos e mais líbicos.” [Eusébio 7.11.14]
  8. “Ele mandou que os de todas as partes confluíssem para Mareota, depois de designar para cada um uma
    aldeia da região.” [Eusébio 7.11.14]
  9. “Mas a Dionísio e os seus companheiros colocou mais aldeias no caminho, para lhes prender em primeiro lugar.” [Eusébio 7.11.14]
  10. “Era evidente que ia dispondo e preparando tudo de modo que, quando quisesse prender-lhes todos, pudesse ter-lhes bem à mão.” [Eusébio 7.11.14]
  11. “Quando ordenaram partir para Kefró, por mais que ignorasse em que direção se achava este lugar, pois quase não se tinha ouvido sequer o nome antes, ainda assim, Dionísio partiu animado e tranquilo. [Eusébio 7.11.15]
  12. Mas quando anunciaram que ele deveria trasladar à região de Colutio, os que estavam presentes sabem como isso lhe afetou. [Eusébio 7.11.15]
  13. Na mesma hora o molestou e o tomou por grande mal, porque, ainda que esses lugares não fossem mais conhecidos ou familiares, ainda assim, afirmava-se que a região carecia de cristãos e de homens honrados. [Eusébio 7.11.16]
  14. No entanto, em troca, ele se achava exposto às moléstias dos viajantes e às incursões dos salteadores. [Eusébio 7.11.16]
  15. Ele consegui porém se consolar na recordação dos irmãos que estavam mais perto da cidade. [Eusébio 7.11.17]
  16. Afinal, em Kefró tinha numerosas relações com os irmãos vindos do Egito ao ponto de poder ter
    assembléias mais amplas. [Eusébio 7.11.17]
  17. Ali, por outro lado, com a cidade mais perto, poderia gozar mais frequentemente da visão dos que verdadeiramente eram muito amados e da maior intimidade e amizade,. [Eusébio 7.11.17]
  18. Pois eles viriam e se hospedariam, e como nos bairros mais afastados, haveria reuniões parciais, e assim sucedeu. [Eusébio 7.11.17]

VII – Mais Martírios

  1. Depois de outras coisas, Dionísio ainda escreve o seguinte acerca do que lhe sucedeu: “Germano se gaba de muitas confissões de fé diante das autoridades!” [Eusébio 7.11.18]
  2. “Ao menos pode dizer que é muito o que houve contra ele, tanto quanto pode enumerar de nós: sentenças, confiscos, proscrições, despojo dos bens, destituição de dignidades, indiferença pela glória mundana, desprezo de elogios de governantes e senadores, inclusive dos contrários.” [Eusébio 7.11.18]
  3. “Também suportar ameaças, gritarias hostis, perigos, perseguições, vida errante, angústias toda classe de tribulações, as mesmas que me sucederam sob Décio e Sabino e mesmo agora sob Emiliano.” [Eusébio 7.11.18]
  4. “Mas, de onde apareceu Germano? Que documento há sobre ele? Pois bem, estou cansado desta
    grande loucura em que vou caindo por culpa de Germano.” [Eusébio 7.11.19]
  5. “Pelo mesmo motivo desisto também de dar explicações detalhadas dos acontecimentos aos irmãos que já os conhecem.” [Eusébio 7.11.19]
  6. “Mas é supérfluo fazer uma lista nominal dos nossos, que são muitos e não os conheceis.” [Eusébio 7.11.20]
  7. “Sabei contudo que homens e mulheres, jovens e velhos, donzelas e anciãos, soldados e civis, e todo sexo e toda idade, vencedores na luta, uns por açoites e fogo e outros pelo ferro, todos receberam suas coroas.” [Eusébio 7.11.20]
  8. “Para outros, porém, não correu ainda um tempo longo o bastante para parecer aceitável ao Senhor.” [Eusébio 7.11.21]
  9. “Tampouco a mim até o presente, pelo que se vê, pelo que me reservou para o momento oportuno que bem conhece o mesmo que diz: Em tempo aceitável te ouvi e no dia da salvação te socorri”. [Eusébio 7.11.21]
  10. “Como perguntais por nossa situação e quereis que vos informe de como vamos indo? [Eusébio 7.11.22]
  11. “Seguramente já ouvistes como nos conduziam prisioneiros um Centurião e oficiais com os soldados
    e criados que iam com eles, a mim e a Caio, Fausto, Pedro e Paulo.” [Eusébio 7.11.22]
  12. “E apresentando-se algumas pessoas de Mareota, nos arrebataram, apesar de nós mesmos, arrastando-nos à força ao nos negarmos a segui-los.” [Eusébio 7.11.22]
  13. “E agora eu, Caio e Pedro, os três somente, nos achamos encerrados num local deserto e árido da Líbia, órfãos dos demais irmãos, afastados três dias de caminhada de Paretonio.” [Eusébio 7.11.23]
  14. “E pouco mais abaixo segue dizendo: “Ainda assim, na cidade de Alexandria acham-se escondidos e visitam em segredo os irmãos.” [Eusébio 7.11.24]
  15. De um lado os presbíteros Máximo, Dióscoro, Demétrio e Lúcio -já que os mais conhecidos no mundo,
    Faustino e Aquilas, andam errantes pelo Egito; [Eusébio 7.11.24]
  16. De outro, os diáconos que sobreviveram aos que morreram pela doença: Fausto, Eusébio e Queremon. [Eusébio 7.11.24]
  17. Eusébio é aquele a quem Deus fortaleceu e preparou desde o princípio para cumprir ardorosamente o serviço aos confessores encarcerados. [Eusébio 7.11.24]
  18. “Ele levou a cabo, não sem perigo, o enterro dos corpos dos perfeitos e santos mártires. [Eusébio 7.11.24]
  19. “De fato, até o presente o governador não deixa de dar morte cruel, como disse antes, a alguns dos que são conduzidos a ele. [Eusébio 7.11.25]
  20. “Nem de dilacerar outros em torturas e de consumir em cárceres e prisões o restante, ordenando que ninguém deles se aproxime, e perguntando se alguém aparece. [Eusébio 7.11.25]
  21. “E mesmo assim Deus não cessa de aliviar os oprimidos, graças ao ânimo e perseverança dos irmãos.”[Eusébio 7.11.25]
  22. Eusébio, a quem Dionísio chamou diácono, pouco depois foi instituído bispo de Laodicéia da Síria. [Eusébio 7.11.26]
  23. Quanto a Máximo, que então disse que era presbítero, sucedeu ao próprio Dionísio no ministério dos irmãos em Alexandria. [Eusébio 7.11.26]
  24. Quanto a Fausto, que naquele momento se distinguiu junto com ele por sua confissão, sobreviveu até a perseguição de nossos dias. [Eusébio 7.11.26]
  25. Já muito ancião e pleno de dias, consumou seu martírio na perseguição do imperador Diocleciano, sendo decapitado. [Eusébio 7.11.26]

VIII – Mais Martírio

  1. Na mencionada perseguição de Valeriano, três foram os que sobressaíram em Cesareia da Palestina por sua confissão de Cristo, e lançados como pasto às feras, adornaram-se com o divino martírio. [Eusébio 7.12.1]
  2. Um deles chamava-se Prisco, o outro Malco e o terceiro Alexandre. [Eusébio 7.12.1]
  3. Diz-se que estes viviam no campo e que primeiro acusaram a si mesmos de negligência e covardia. [Eusébio 7.12.1]
  4. Eles se mostraram indiferentes aos prêmios que a ocasião repartia aos que ardiam de celestial desejo e
    por não arrebatarem antecipadamente a coroa do martírio. [Eusébio 7.12.1]
  5. Depois de haverem assim deliberado, encaminharam-se a Cesareia, apresentaram-se ao juiz e conseguiram para suas vidas o final que acabamos de dizer. [Eusébio 7.12.1]
  6. Também contam que além destes, durante a mesma perseguição e na mesma cidade, uma mulher sustentou o mesmo combate; mas uma tradição afirma que esta era da heresia de Marcião. [Eusébio 7.12.1]
  7. Não muito depois, enquanto Valeriano sofria sua escravidão entre os bárbaros, começou a reinar sozinho seu filho, e governou com a maior sensatez. [Eusébio 7.13.1]
  8. Imediatamente pôs fim por meio de editos à perseguição contra os Cristãos, e ordenou por uma resolução aos que presidiam a palavra que livremente exercessem suas funções costumeiras. [Eusébio 7.13.1]
  9. A resolução rezava assim ao imperador César Publio Licinio Galieno Pio Félix Augusto, a Dionísio, Pina, Demétrio e aos demais bispos: [Eusébio 7.13.1]
  10. “Ordenei que o benefício de meu dom se estenda por todo o mundo, com o fim de que se
    evacuem os lugares sagrados.” [Eusébio 7.13.1]
  11. “Por isso também possais desfrutar da regra contida em minha resolução, de maneira que ninguém possa molestar-vos.” [Eusébio 7.13.1]
  12. E aquilo que possais recuperar, na medida do possível, já faz tempo que o concedi. [Eusébio 7.13.1]
  13. Para tanto, Aurélio Cirínio, que está à frente dos assuntos supremos, manterá cuidadosamente a regra dada por mim.” [Eusébio 7.13.1]
  14. Conserva-se também, do mesmo imperador, outra disposição que dirigiu a outros bispos e na qual permite a recuperação dos lugares chamados cemitérios. [Eusébio 7.13.1]
  15. Neste tempo, o bispo Sixto que seguia ainda regendo a igreja de Roma; Demetriano a de Antioquia, em sucessão a Fábio; e Firmiliano a de Cesaréia da Capadócia. [Eusébio 7.14.1]
  16. Além destes, regiam as igrejas do Ponto Gregório e seu irmão Atenodoro, discípulos de Orígenes. [Eusébio 7.14.1]
  17. Quanto a Cesaréia da Palestina, tendo morrido Teoctisto, recebe o episcopado em sucessão Domno; [Eusébio 7.14.1]
  18. Mas tendo este sobrevivido pouco tempo, foi instituído sucessor Teotecno, nosso contemporâneo, que também era da escola de Orígenes. [Eusébio 7.14.1]
  19. Mas também em Jerusalém, morto Mazabanes, recebe em sucessão o trono Himeneo, o mesmo que brilhou muitos anos em nossa época. [Eusébio 7.14.1]

IX – Marino e Astírio

  1. Por estes anos, apesar de que em todas as partes as igrejas tinham paz, em Cesaréia da Palestina foi decapitado por ter dado testemunho de Cristo um tal Marino. [Eusébio 7.15.1]
  2. Ele pertencia aos altos cargos do exército e se distinguia por sua linhagem e suas riquezas. [Eusébio 7.15.1]
  3. A causa foi que, entre os romanos há uma insígnia de honra: o “Vitis”, o qual aqueles que a alcançam se tornam centuriões. [Eusébio 7.15.1]
  4. Havendo uma vaga liberada, o escalão designava Marino para esta promoção. [Eusébio 7.15.1]
  5. Ele já estava a ponto de receber a honra quando se apresentou outro ante o tribunal afirmado que, segundo as antigas leis, Marino não podia tomar parte nas dignidades romanas. [Eusébio 7.15.1]
  6. Isso porque era cristão e não sacrificava aos imperadores, por isso, o cargo lhe pertencia. [Eusébio 7.15.1]
  7. Diante disto, o juiz Aqueo sentiu-se turbado e começou a perguntar a Marino o que eke pensava. [Eusébio 7.15.1]
  8. No entanto, como viu que este insistia em confessar que era cristão, concedeu-lhe o prazo de três horas para que refletisse. [Eusébio 7.15.1]
  9. Achando-se fora do tribunal, acercou-se dele Teotecno, bispo do lugar, e afastou-o para conversar, e tomando-o pela mão conduziu-o à igreja. [Eusébio 7.15.1]
  10. Uma vez dentro, colocou-o ante o próprio santuário e, levantando-lhe um pouco o manto, mostrou sua espada, que pendia, ao mesmo tempo. [Eusébio 7.15.1]
  11. Ele apresentava e contrapunha a Escritura dos divinos Evangelhos, mandando que entre as duas
    coisas escolhesse a que preferia. [Eusébio 7.15.1]
  12. Mas Marino, sem vacilar, estendeu a direita e tomou a divina Escritura. [Eusébio 7.15.1]
  13. “Mantém-te pois” – disse-lhe Teotecno – “Mantém-te aferrado a Deus e quem sabe alcances, fortalecido
    por Ele, o que escolheste. Vai em paz.” [Eusébio 7.15.1]
  14. Saiu imediatamente dali; um pregoeiro lançava já seu grito chamando-o de novo ante o tribunal. [Eusébio 7.15.1]
  15. De fato havia-se cumprido o prazo previamente fixado, então se apresentou diante do juiz. [Eusébio 7.15.1] Mostrando um entusiasmo ainda maior por sua fé, tal como estava, foi conduzido ao suplício e foi executado. [Eusébio 7.15.1]
  16. Ali, Astirio é lembrado por sua grande franqueza, agradável a Deus. [Eusébio 7.16.1]
  17. Era membro do senado romano, favorito dos imperadores e conhecido de todos por sua nobre linhagem e por suas propriedades. [Eusébio 7.16.1]
  18. Achava-se presente quando se executou o mártir, e apoiando o ombro, levantou o cadáver sobre sua esplêndida e rica vestimenta e levou-o para enterrá-lo com grande magnificência e dar-lhe digna sepultura. [Eusébio 7.16.1]
  19. Os próximos e conhecidos deste homem que sobreviveram até nossos dias recordam outras inúmeras façanhas suas, inclusive a que segue, grandiosa. [Eusébio 7.16.1]
    XVII505
  20. Em Cesaréia de Filipo, que os fenícios chamam Paneas, diz-se que, nas fontes que ali surgem, ao pé da montanha chamada Paneion. [Eusébio 7.17.1]
  21. Destas fontes, nasce o Jordão, em certo dia de festa uma vítima imolada é ali lançada, e esta, por obra do demônio, torna-se invisível de modo prodigioso. [Eusébio 7.17.1]
  22. O fato é uma maravilha famosa para os que se acham presentes e uma vez Astirio assistia o evento. [Eusébio 7.17.1]
  23. Contemplando a multidão afetada pelo fato, compadeceu-se de seu erro, e levantando os olhos ao céu suplicou por Cristo ao Deus que está sobre todas as coisas. [Eusébio 7.17.1]
  24. Ele pediu que confundisse o demônio enganador do povo e que o fizesse deixar de enganar os homens. [Eusébio 7.17.1]
  25. E conta-se que assim  que orou deste modo, a vítima começou a nadar nas fontes e desta maneira cessou para eles o prodígio. [Eusébio 7.17.1]
  26. Daí em diante não se deu nenhum milagre em torno daquele lugar. [Eusébio 7.17.1]

X – Guerra na Alexandria

  1. Já que fizemos menção a esta cidade, creio que não é justo passar por alto um relato digno de memória inclusive para nossos descendentes. [Eusébio 7.18.1]
  2. De fato, a hemorrágica, que pelos Evangelhos sabemos que encontrou a cura de seu mal por obra de nosso Salvador, diz-se que era originária desta cidade. [Eusébio 7.18.1]
  3. Nela se encontra sua casa onde ainda subsistem monumentos admiráveis da boa obra nela realizada pelo Salvador. [Eusébio 7.18.1]
  4. Efetivamente, sobre uma pedra alta, diante das portas de sua casa, alça-se uma estátua de mulher, em bronze, com um joelho dobrado e com as mãos estendidas para a frente como uma suplicante. [Eusébio 7.18.1]
  5.  Em frente a esta, outra do mesmo material, efígie de um homem em pé, belamente vestido com um manto e estendendo sua mão para a mulher. [Eusébio 7.18.1]
  6. Aos seus pés, sobre a mesma pedra, brota uma estranha espécie de planta, que sobe até a orla do manto de bronze e que é um antídoto contra todo tipo de enfermidades. [Eusébio 7.18.1]
  7. Dizem que esta estátua reproduzia a imagem de Jesus e conservava-se até estes dias, como comprova-se pela passagem por aquela cidade. [Eusébio 7.18.1]
  8. E não é estranho que tenham feito isto os pagãos de outro tempo que receberam algum benefício de nosso Salvador. [Eusébio 7.18.1]
  9. Quando perguntamos por que se conservam pintadas em quadros as imagens de seus apóstolos Paulo e Pedro, e inclusive do próprio Cristo, é natural pois os antigos costumam honrá-los deste modo. [Eusébio 7.18.1]
  10. Simplesmente, os consideram como salvadores, segundo o uso pagão vigente de imagens entre eles.
  11. O trono de Tiago, primeiro que recebeu do Salvador e dos apóstolos o episcopado da igreja de Jerusalém e ao qual os livros divinos chamam inclusive de irmão de Cristo508, foi preservado até hoje. [Eusébio 7.19.1]
  12. Os irmãos do lugar vêm rodeando-o de cuidados por sucessivas gerações e claramente mostram a todos que veneração têm os antigos. [Eusébio 7.19.1]
  13. Eles continuam tendo os de hoje para com os santos varões, por serem amados de Deus. [Eusébio 7.19.1]
  14. Quanto a Dionísio, além de suas cartas já mencionadas, compôs por aquele tempo outras que ainda
    se conservam: as festivas. [Eusébio 7.20.1]
  15. Nelas tece palavras muito mais solenes acerca da festa da Páscoa. Uma é dirigida a Flávio, e outra a Domécio e Dídimo. [Eusébio 7.20.1]
  16. Ele propõe inclusive um cânon de oito anos, alegando que não convém celebrar a festa da Páscoa senão depois do equinócio da primavera. [Eusébio 7.20.1]
  17. Além destas cartas escreveu também outra a seus co-presbíteros de Alexandria, e ao mesmo
    tempo a outras pessoas em termos distintos; estas quando ainda durava a perseguição. [Eusébio 7.20.1]
  18. Apenas havia-se restabelecido a paz, e já estava de volta a Alexandria; mas eclodiu outra sedição e uma guerra. [Eusébio 7.21.1]
  19. Deste modo que não lhe era possível visitar a todos os irmãos da cidade, divididos como estavam em um e outro bando da sedição. [Eusébio 7.21.1]
  20. Uma vez mais, na festa da Páscoa, da própria Alexandria, como se estivesse do outro lado da fronteira, entrou em comunicação com eles por carta. [Eusébio 7.21.1]
  21. E escrevendo também depois disto a Hieraco, um bispo do Egito, outra carta festiva, menciona a rebelião dos alexandrinos de seu tempo. [Eusébio 7.21.2]
  22. Ele escreveu “E quanto a mim, por que admirar-se de que me seja penoso comunicar-me inclusive por carta com os que moram longe?”
  23. “Conversar comigo mesmo e deliberar com minha própria alma torna-se impossível?” [Eusébio 7.21.2]
  24. “O certo é que, na relação com minha própria entranha, isto é, com os irmãos que compartem meu teto e meus sentimentos, cidadãos também de minha própria igreja, necessito correspondência epistolar.” [Eusébio 7.21.3]
  25. “Ainda esta não vejo como arranjar-me para transmiti-la, porque seria mais fácil atravessar, já não digo para lá da fronteira, mas até do Oriente para o Ocidente, do que atravessar a própria Alexandria.” [Eusébio 7.21.3]
  26. “Pois mais vasta e mais impraticável do que aquele enorme e não trilhado deserto que Israel atravessou em duas gerações é a avenida mais central da cidade.” [Eusébio 7.21.3]

XI – Doença na Alexandria

  1. “Daquele mar que, partido e separado por dois muros, pelos assassinatos neles cometidos, parecem iguais a um mar Vermelho quando os egípcios afundaram na mesma trilha. [Eusébio 7.21.5]
  2. E o rio que banha a cidade, algumas vezes foi visto mais ressecado do que o deserto sedento e mais árido que aquele no qual, ao atravessá-lo, Israel passou tanta sede. [Eusébio 7.21.5]
  3. O mesmo que Moisés gritou suplicando e por obra do único que faz maravilhas brotou bebida para eles de uma rocha. [Eusébio 7.21.5]
  4. E outras vezes, ao contrário, tanto transbordou que inundou toda a várzea, as e ruas e os campos, até ameaçar com a vinda das águas dos tempos de Noé. [Eusébio 7.21.6]
  5. E sempre corre manchado com sangue, por homicídios e afogamentos, como nos tempos de Moisés, quando converteu-se em sangue para o faraó e empestava. [Eusébio 7.21.6]
  6. Que outra água poderia purificar a água que tudo purifica? Como o vasto oceano, intransponível para o homem, poderia derramar-se e purificar este mar amargo? [Eusébio 7.21.7]
  7. Ou como o grande rio que sai do Éden poderia lavar o sangue impuro, ainda que vazasse os quatro braços em que se divide para um só: o Giom? [Eusébio 7.21.7]
  8. E quando poderia tornar-se puro o ar infestado pelos miasmas procedentes de todas as partes? [Eusébio 7.21.8]
  9. Porque tais hálitos emanam da terra, tais ventos do mar, tais eflúvios dos rios e tais exalações dos portos, que o rocio poderia ser o pus de cadáveres que apodrecem em todos os elementos indicados. [Eusébio 7.21.8]
  10. E logo o povo se admira e está incerto de onde provém as contínuas pestes e as graves enfermidades, de onde as corrupções de toda espécie e a reiterada mortandade dos homens. [Eusébio 7.21.9]
  11. E por que a grande cidade não sustenta já em si mesma aquela tão grande multidão de homens que antes alimentava, [Eusébio 7.21.9]
  12. Começando pelas crianças de peito até os anciãos de extrema velhice, passando pelo grande número de ‘velhos prematuros’, como eram chamados. [Eusébio 7.21.9]
  13. “Ao contrário, os quarentões e mesmo os setentões eram tão numerosos então, que agora seu número não chega a completar-se ainda que estejam inscritos”
  14. Estes são assinalados para a ração pública de víveres desde os quatorze até os oitenta anos; e os que aparentam ser os mais jovens parecem contemporâneos dos mais velhos de então. [Eusébio 7.21.9]
  15. “E desta maneira, ainda que vendo constantemente diminuída e consumida a família humana sobre a terra, não tremem, apesar de aproximar-se cada vez mais sua completa destruição.” [Eusébio 7.21.9]
  16. Depois disto, quando a peste interrompeu a guerra e a festa se aproximava, novamente Dionísio entrou em comunicação por carta com os irmãos, indicando-lhes os padecimentos desta calamidade. [Eusébio 7.22.1]
  17. Ele disse com estas palavras: “Certamente aos pagãos não parecerá tempo de festas a presente ocasião.” [Eusébio 7.22.2]
  18. “Para eles, nem este nem outro o é; não me refiro aos tempos de luto, mas nem sequer dos que se poderiam crer sumamente alegres.” [Eusébio 7.22.2]
  19. “Atualmente, ao menos, é certo que tudo são lamentações, tudo prantos, e os gemidos ressoam em toda a cidade por causa da multidão dos mortos e dos que cada dia continuam morrendo.” [Eusébio 7.22.2]
  20. “Porque, como está escrito dos primogênitos do Egito, assim também agora levantou-se um grande clamor, pois não há casa onde não haja um morto. [Eusébio 7.22.3]
  21. “E quem sabe não fosse mais do que um, porque em  verdade são muitas e terríveis as coisas que sucederam inclusive antes disto. [Eusébio 7.22.3]
  22. “Primeiramente nos expulsaram, e somos os únicos que, apesar de sermos perseguidos por todos e estarmos condenados a morrer, celebramos a festa da páscoa. [Eusébio 7.22.4]
  23. “Cada lugar de tribulação de cada um se converterá em paragem de assembléia festiva: campo, deserto, nave, albergue, cárcere. [Eusébio 7.22.4]
  24. “Mas a mais esplendorosa de todas as festas foi celebrada pelos mártires perfeitos, premiados com o festim do céu. [Eusébio 7.22.4]
  25. “E depois disto lançaram-se encima a guerra e a fome, que sofremos junto com os pagãos. [Eusébio 7.22.5]
  26. “Suportamos todos os maus-tratos que nos deram, mas entramos à parte no que eles faziam e padeciam entre si, e mais uma vez gozamos da paz de Cristo, que só a nós foi dada. [Eusébio 7.22.5]
  27. “Tínhamos conseguido, tanto eles quanto nós, um brevíssimo intervalo quando irrompeu esta enfermidade, coisa mais temível para eles do que todo temor e portanto mais cruel do que qualquer calamidade. [Eusébio 7.22.6]
  28. “Como escreve um particular escritor seu, foi única coisa que sobrepujou toda previsão. [Eusébio 7.22.6]
  29. “Mas não é assim para nós, pois foi um exercício e uma prova em nada inferiores às demais. [Eusébio 7.22.6]
  30. “Efetivamente, em nada nos perdoou, ainda que tenha ceifado muitos entre os pagãos.” [Eusébio 7.22.6]

XII – Imperador Galieno

  1. “Em todo caso, a maioria de nossos irmãos, por excesso de seu amor e de seu afeto fraterno, esqueceram-se de si mesmos [Eusébio 7.22.7]
  2.  “Unidos uns com os outros, visitavam os enfermos sem precaução, serviam-nos com abundância, cuidavam-nos em Cristo. [Eusébio 7.22.7]
  3. “E até morriam contentíssimos com eles, contagiados pelo mal dos outros, atraindo sobre si a enfermidade do próximo e assumindo voluntariamente suas dores. [Eusébio 7.22.7]
  4. “E muitos que curaram e fortaleceram outros, morreram, transferindo para si mesmos a morte daqueles. [Eusébio 7.22.7]
  5. “Convertiam então em realidade o dito popular, que sempre parecia ser de mera cortesia: ‘Despedindo-se deles humildes servidores’. [Eusébio 7.22.7]
  6. “Em todo caso, os melhores de nossos irmãos partiram da vida desde modo, presbíteros, diáconos e laicos, todos muito louvados. [Eusébio 7.22.8]
  7. “Este tipo de morte, pela grande piedade e fé robusta que envolve, em nada parece ser inferior mesmo ao martírio. [Eusébio 7.22.9]
  8. “E assim tomavam com as palmas das mãos e em seus seios os corpos dos santos, limpavam-lhes os olhos e fechavam suas bocas. [Eusébio 7.22.9]
  9. “Agarrando-se a eles e abraçando-os, depois de lavá-los e envolvê-los em sudários, levavam-nos sobre os ombros e os enterravam. [Eusébio 7.22.9]
  10. “Pouco depois eles mesmos recebiam os mesmos cuidados, pois sempre os que ficavam seguiam os passos dos que os precederam. [Eusébio 7.22.9]
  11. “Já entre os pagãos foi o contrário: até afastavam os que começavam a adoecer e repeliam até aos mais queridos. [Eusébio 7.22.10]
  12. “Eles lançavam os moribundos para as ruas e cadáveres insepultos ao lixo, tentando evitar o contágio e a companhia da morte, tarefa nada fácil até para os que usavam mais engenho em esquivá-la.” [Eusébio 7.22.10]
  13. “Depois desta carta, quando a cidade já estava em paz, Dionísio enviou ainda uma carta festiva aos irmãos do Egito, e logo voltou a escrever outras. [Eusébio 7.22.11]
  14. “Conservam-se dele também uma Sobre o sábado e outra Sobre o exercício. [Eusébio 7.22.11]
  15. “Comunicando-se uma vez mais por carta com Hermamon e os irmãos do Egito, explica muitas coisas sobre a perversidade de Décio e de seus sucessores, e menciona a paz dos tempos do imperador Galieno. [Eusébio 7.22.12]
  16. “Nada é melhor do que ouvir como foram estes acontecimentos: “Assim pois aquele Macriano, traindo o seu imperador Valeriano e atacando o outro Galieno, logo desapareceu com sua pilhagem, sem deixar traços. [Eusébio 7.23.1]
  17. “Todos proclamaram e reconheceram Galieno, que era ao mesmo tempo velho e novo imperador, pois era-o antes como corregente ao lado do seu pai Valeriano e veio depois deles. [Eusébio 7.23.1]
  18. “Efetivamente, conforme o dito do profeta Isaías: Vede que chega o do princípio, e o que agora surgir será novo. [Eusébio 7.23.2]
  19. “Porque assim como uma nuvem, deslizando sob os raios do sol, por um momento o cobre e sombreia e se mostra em lugar dele, esta logo passou ou se desfez. [Eusébio 7.23.2]
  20. “Novamente surge e reaparece o sol, que antes já havia saído, assim Macriano pôs-se diante e aproximou-se em pessoa ao imponente poder imperial de Galieno, mas lofo passou [Eusébio 7.23.2]
  21. “O poder imperial, como se tivesse deposto sua velhice e estivesse novamente purificado de sua anterior maldade, floresce agora com maior vigor. [Eusébio 7.23.3]
  22. “Ele foi visto e ouvido muito mais longe penetrando por todas as partes”. [Eusébio 7.23.3]
  23. “Também me agrada examinar novamente os dias dos anos imperiais, porque estou vendo que os mais ímpios, apesar de seu renome, ao fim de pouco tempo caíram no anonimato. [Eusébio 7.23.4]
  24. Por outro lado, Galieno, mais santo e amado de Deus, tendo passado já seu sétimo ano, cumpre agora o nono ano no qual celebraremos a festa da páscoa.” [Eusébio 7.23.4]

XIII – Imperador Galieno

  1. Além de tudo isto, escreveu também os dois livros sobre as promessas, cujo tema era Népos, bispo dos do Egito. [Eusébio 7.24.1]
  2. Ele ensinava que as promessas feitas aos santos nas divinas Escrituras devem ser interpretadas mais ao modo judeu e supunha que haveria um milênio de delícias corpóreas sobre esta terra seca. [Eusébio 7.24.1]
  3. Em todo caso, acreditando reforçar sua própria suposição com o Apocalipse de João, compôs sobre
    ele uma obra que intitulou Refutação dos alegoristas. [Eusébio 7.24.2]
  4. Contra esta obra ergue-se Dionísio em seus livros Sobre as promessas. [Eusébio 7.24.3]
  5. No primeiro expõe seu próprio pensamento sobre a doutrina, e no segundo discute acerca do Apocalipse de João. [Eusébio 7.24.3]
  6. Nele faz menção a Népos no começo, e escreve o seguinte: “Ele se apoia mais do que deveriam para demonstrar irrefutavelmente que o reinado de Cristo será sobre a terra.” [Eusébio 7.24.4]
  7. “Em muitas outras coisas aprovo Népos e o amo: por sua fé, por sua laboriosidade, por seu estudo sério das
    Escrituras e por sua numerosa produção de hinos. [Eusébio 7.24.4]
  8. “Muitos irmãos vêm se reconfortando até hoje com tudo isso, e meu respeito pelo homem é absoluto, ainda mais estando já morto. [Eusébio 7.24.4]
  9. “Porém, como a verdade me é mais querida e mais estimada do que todas as coisas, deve-se louvá-lo e estar de acordo com ele, sem reservas. [Eusébio 7.24.4]
  10. “Pois se diz algo retamente, mas também, se em algo não parece correto o que escreveu, deve-se examiná-lo e corrigi-lo. [Eusébio 7.24.4]
  11. “Para com alguém que está presente e que se explica por palavra, poderia ser suficiente uma conversação oral, que a base de perguntas e respostas vai persuadindo e reduzindo os contendores; [Eusébio 7.24.5]
  12. “Mas havendo no meio um escrito, e muito persuasivo segundo alguns, e contando de outra parte com alguns mestres que, não estimava a Lei e os Profetas. [Eusébio 7.24.5]
  13. “Deixando de seguir os Evangelhos e desprezava as Cartas dos apóstolos, proclamando sem mais o ensinamento deste livro como um grande e oculto mistério.
  14. “Não permitem a nossos irmãos mais simples ter pensamentos elevados e magníficos sobre a manifestação gloriosa e realmente divina de nosso Senhor. [Eusébio 7.24.5]
  15. “Nem de nossa ressurreição dentre os mortos nem de nossa reunião e configuração com Ele. [Eusébio 7.24.5]
  16. “Mas os persuadem a esperar coisas mínimas e mortais, como são as presentes, no reino de Deus, é necessário que também nós discutamos com nosso irmão Népos como se estivesse presente.” [Eusébio 7.24.5]
  17. “Ao dito acrescenta, depois de outras coisas, o seguinte: “Assim pois, achando-me em Arsinoé, onde, como sabes, há muito prevalece esta doutrina. [Eusébio 7.24.6]
  18. “Chegando ao ponto de que ocorrer cismas e apostasias de igrejas inteiras, convoquei os presbíteros e mestres dos irmãos das aldeias. [Eusébio 7.24.6]
  19. “E estando presentes também os irmãos que queriam, exortei-os a realizar em público o exame da doutrina. [Eusébio 7.24.6]
  20. “Ao me apresentarem este livro como arma e muro inatacável, estive com eles três dias em sessão contínua, da aurora ao anoitecer, tentando emendar o que estava escrito. [Eusébio 7.24.7]
  21. “Pude então admirar sobremaneira o equilíbrio, o amor à verdade, a facilidade de compreensão e a inteligência dos irmãos [Eusébio 7.24.7]
  22. “Por ordem e com moderação, desenvolvíamos as perguntas, as objeções e os pontos de coincidência. [Eusébio 7.24.8]
  23. “Por um lado, tínhamos nos recusado a nos aterrarmos obstinada e insistentemente às decisões tomadas uma só vez, ainda que isto não nos parecesse justo. [Eusébio 7.24.8]
  24. “Por outro, também não evitávamos as objeções, mas na medida do possível tentávamos abordar os temas propostos e dominá-los. [Eusébio 7.24.8]
  25. “Tampouco nos envergonhávamos de mudar de idéia e concordar se a razão o exigisse. [Eusébio 7.24.8]
  26. “Antes, com a melhor consciência, sem disfarces e com o coração aberto a Deus, aceitávamos o que ficasse estabelecido pelas argumentações e pelos ensinamentos das Santas Escrituras. [Eusébio 7.24.8]
    9. “E por último, o líder e introdutor desta doutrina, o chamado Coracion, confessou e atestou para
    que todos os irmãos presentes ouvissem que não mais se entregaria a isto. [Eusébio 7.24.9]
  27. “Nem discutiria sobre isto, nem o recordaria nem ensinaria, pois estava suficientemente convencido pelos argumentos opostos. [Eusébio 7.24.9]
  28. “E dos outros irmãos, uns se alegravam do colóquio, assim como da condescendência e disposição comum para com todos…” [Eusébio 7.24.9]

 

XIV – Heresia de Paulo

  1. Ao bispo Sixto, que presidiu a igreja de Roma durante onze meses, sucedeu Dionísio, homônimo do bispo de
    Alexandria. [Eusébio 7.27.1]
  2. E neste tempo, ao emigrar também Demetriano desta vida em Antioquia, recebeu o episcopado Paulo, o de Samosata. [Eusébio 7.27.1]
  3. Como este, contrariamente ao ensinamento da Igreja, tinha acerca de Cristo pensamentos baixos e ao nível do chão, dizendo que por natureza foi um homem comum. [Eusébio 7.27.1]
  4. Dionísio de Alexandria, convidado para assistir ao concilio, dando como desculpa sua velhice e debilidade corporal, adia sua presença pessoal, e por meio de uma carta expõe seu pensamento sobre o tema debatido. [Eusébio 7.27.1]
  5. Os outros pastores das igrejas, por outro lado, cada qual de sua terra, iam se reunindo como contra
    uma peste do rebanho de Cristo, e todos se apressavam em direção a Antioquia. [Eusébio 7.27.1]
  6. Entre eles, os que mais sobressaíram foram: Firmiliano, bispo de Cesaréia da Capadócia; os irmãos Gregório e Atenodoro, pastores das igrejas do Ponto; e depois deles, Heleno, da igreja de Tarso, e Nicomas, da de Iconio. [Eusébio 7.28.1]
  7. Mas não somente eles, como também Himeneo, da igreja de Jerusalém; e Teotecno, da de Cesaréia, limítrofe desta; e além destes, Máximo, que dirigia também com muito brilho os irmãos de Bostra. [Eusébio 7.28.1]
  8. E não seria muito difícil enumerar muitíssimos outros reunidos junto com os presbíteros e diáconos pelo mesmo motivo na citada cidade; mas de todos, pelo menos os mais destacados eram estes. [Eusébio 7.28.1]
  9. Todos pois, reuniram-se para o mesmo, em diferentes e repetidas ocasiões; e em cada reunião levantavam-se razoamentos e perguntas. [Eusébio 7.28.2]
  10. Os partidários do samosatense, tentando ocultar ainda e dissimular o que houvesse de heresia. [Eusébio 7.28.2]
  11. Os outros, de sua parte, pondo todo seu empenho em desnudar e trazer à vista a heresia e a blasfêmia daquele contra Cristo. [Eusébio 7.28.2]
  12. Mas por este tempo morreu Dionísio, no décimo segundo ano do império de Galieno, depois de haver presidido o episcopado de Alexandria durante dezessete anos. Sucede-o Máximo  [Eusébio 7.28.3].
  13. Tendo sido Galieno dono do poder durante quinze anos completos, foi instituído seu sucessor Cláudio. Este, quando terminou seu segundo ano, transmitiu o principado a Aureliano. [Eusébio 7.28.4]
  14. Nos tempos deste, reuniu-se um último concilio de numerosíssimos bispos onde foi surpreendido em flagrante e já por todos condenado abertamente por heterodoxia, o líder da heresia de Antioquia. [Eusébio 7.29.1]
  15. Ele foi excomungado da Igreja católica que está sob o céu. [Eusébio 7.29.1]
  16. Quem mais fez para acabar com sua dissimulação e deixá-lo convicto foi Malquion, homem muito eloqüente e diretor da classe de retórica nas escolas gregas de Antioquia. [Eusébio 7.29.2]
  17. Não só isto, mas também considerado digno do presbiterado da comunidade local, pela excelentíssima legitimidade de sua fé em Cristo. [Eusébio 7.29.2]
  18. Este havia empreendido contra ele, com taquígrafos que iam registrando, uma investigação que sabemos que se conservou até os dias de Diocleciano.
  19. Entre todos somente ele foi capaz de surpreender em flagrante aquele homem, apesar de sua dissimulação e engano. [Eusébio 7.29.2]
  20. Então os pastores ali reunidos com o mesmo fim escrevem de comum acordo uma só carta dirigida pessoalmente a Dionísio, bispo de Roma, e a Máximo, da de Alexandria. [Eusébio 7.30.1]
  21. Eles as transmitiram a todas as províncias, pondo a claro para todos seu próprio zelo e a perversa heterodoxia de Paulo. [Eusébio 7.30.1]
  22. Assim como transmitiam os argumentos e perguntas que haviam brandido contra ele, e expondo ainda com detalhe toda a vida e conduta daquele homem. [Eusébio 7.30.1]
  23. Talvez seja bom citar nesta obra, para fazer memória, as seguintes palavras suas: “A Dionísio, a Máximo, a todos nossos colegas no ministério por todo o mundo habitado. [Eusébio 7.30.2]
  24. “Aos Bispos, presbíteros e diáconos, e a toda a Igreja católica que está sob o céu: [Eusébio 7.30.2]
  25. “Heleno, Himeneo, Teófilo, Teotecno, Máximo, Proclo, Nicomas, Eliano, Paulo, Bolano, Protógenes, Hieraco, Eutiquio, Teodoro, Malquion, Lúcio, [Eusébio 7.30.2]
  26. “E todos os demais que conosco habitam as cidades e povoações vizinhas, bispos, presbíteros, diáconos e as igrejas de Deus: aos amados irmãos, saúde no Senhor”. [Eusébio 7.30.2]
  27. “Escrevíamos e ao mesmo tempo exortávamos a muitos, inclusive a bispos de longe, a vir e curar este mortífero ensinamento, assim como também aos benditos Dionísio o de Alexandria e Firmiliano de Capadócia. [Eusébio 7.30.2]
  28. Destes, o primeiro escreveu uma carta a Antioquia, não considerando o autor do erro digno nem de uma saudação, pelo que não lhe escreveu pessoalmente, mas a toda a comunidade, em carta. [Eusébio 7.30.3]
  29. Firmiliano, por outro lado, que inclusive veio duas vezes, condenou certamente as inovações daquele.[Eusébio 7.30.3]
  30. Como Paulo prometera mudar, crendo e esperando que o assunto se arranjaria oportunamente sem desdouro para a doutrina, Firmiliano o foi deferindo. [Eusébio 7.30.4]
  31. Estava sendo enganado pelo homem que negava a seu próprio Deus e Senhor e não observava a fé que anteriormente ele mesmo possuía. [Eusébio 7.30.4]
  32. Mas agora Firmiliano estava já a ponto de chegar a Antioquia e havia chegado concretamente até
    Tarso, pois havia experimentado a maldade negadora de Deus daquele homem. [Eusébio 7.30.5]
  33. mas no intervalo, estando nós outros reunidos chamando-o e esperando que chegasse, alcançou-o a
    morte. [Eusébio 7.30.5]

XV – Heresia de Paulo

  1. Paulo, desde o ponto em que se afastou da regra e passou a ensinamentos falsos e bastardos, não se
    devem julgar as ações do que está fora. [Eusébio 7.30.6]
  2. Nem sequer pelo fato de que era primeiramente pobre e mendigo e não havia recebido de seus pais riqueza nenhuma nem havendo-a adquirido mediante um ofício ou qualquer ocupação. [Eusébio 7.30.7]
  3. Agora chegou a uma excessiva opulência proveniente de suas ilegalidades, de seus roubos sacrílegos e do que pede e suga dos irmãos, defraudando os que foram vítimas de injustiça e prometendo ajuda por um salário. [Eusébio 7.30.7]
  4. Em realidade, enganando também estes e tirando proveito sem razão da facilidade com que dão os que estão em apuros apenas para se libertarem do incômodo, já que ele considera a religião como fonte de lucros. [Eusébio 7.30.7]
  5. Tampouco porque tinha pensamentos altivos e se orgulhava de estar investido com dignidades mundanas, preferindo que o chamem ducenário do que bispo. [Eusébio 7.30.8]
  6. Avançando jactancioso pela praça e lendo e ditando cartas enquanto passeia em público, escoltado por guardas muito numerosos, uns precedendo-o e outros seguindo-o. [Eusébio 7.30.8]
  7. O resultado é que a própria fé se vê desprezada e odiada por causa de sua ostentação e do orgulho de seu coração. [Eusébio 7.30.8]
  8. Tampouco se devem julgar os jogos de prestidigitação que organizava nas reuniões eclesiásticas aspirando a glória, deslumbrando a imaginação e ferindo com estas coisas as almas dos mais simplórios. [Eusébio 7.30.9]
  9. Fez preparar para si uma tribuna e um trono elevado, não como discípulo de Cristo, mas igual aos príncipes do mundo. [Eusébio 7.30.9]
  10. Tinha-e assim o chamava- seu secretum548; com a mão golpeava a coxa e com os pés batia na tribuna. [Eusébio 7.30.9]
  11. E aos que não o aprovavam nem agitavam os lenços, como nos teatros, nem lançavam gritos nem se levantavam de um salto junto com seus sequazes; [Eusébio 7.30.9]
  12. Homens e mulheres que nesta desordem o ouviam, portanto escutando com gravidade e em boa ordem, como na casa de Deus, a estes desprezava e insultava. [Eusébio 7.30.9]
  13. E aos intérpretes da doutrina que partiram desta vida ele insultava em público grosseiramente, enquanto que de si mesmo falava com grande ênfase, não como um bispo, mas como um sofista e um charlatão. [Eusébio 7.30.9]
  14. Fez também que cessassem os salmos em honra de nosso Senhor Jesus Cristo, porque dizia que eram modernos e obra de homens bastante moderno. [Eusébio 7.30.10]
  15. Em troca, preparou umas mulheres para que em sua honra salmodiassem em meio a igreja no grande dia de Páscoa. É de estremecer-se ouvindo-as! [Eusébio 7.30.10]
  16. E que coisas deixava que os bispos e presbíteros tratassem em suas homílias ao povo dos campos e cidades limítrofes, seus aduladores! [Eusébio 7.30.10]
    11. Porque ele não quer confessar conosco que o Filho de Deus desceu do céu, isto para expor de antemão algo do que escreveremos, e que não o diremos como simples afirmação. [Eusébio 7.30.11]
  17. Mas que será demonstrado com muitas passagens dos documentos que vos enviamos, e sobretudo aquele em que se diz que Jesus Cristo é de baixo. [Eusébio 7.30.11]
  18. Mas aqueles, quando lhe cantam salmos e o louvam ante o povo, afirmam que seu ímpio mestre desceu como anjo do céu. [Eusébio 7.30.11]
  19. E ele não só não impede isto, mas até, em sua soberba, acha-se presente quando o dizem. [Eusébio 7.30.11]
  20. Quanto às mulheres subintroductas, como as chamam os antioquenhos, as dele e as dos presbíteros e diáconos de seu séquito, [Eusébio 7.30.12]
  21. Aos quais ajuda a ocultar este e os demais pecados incuráveis, já de plena consciência e com provas convincentes para tê-los a sua mercê e para que, temendo por si mesmos, não se atrevam a acusá-lo das injustiças que comete por palavra e por obra. [Eusébio 7.30.12]
  22. E mais, inclusive tornou-os ricos, pelo que o querem e admiram os que se perdem por tais coisas… -, por que haveríamos de escrever isto?
  23. Ainda assim, sabemos, queridos, que o bispo e o clero inteiro devem ser para a multidão um exemplo549 de toda obra boa. [Eusébio 7.30.13]
  24. Não ignoramos tampouco quantos caíram por ter introduzido para si mulheres, enquanto outros tornaram-se suspeitosos tanto que, mesmo concedendo-lhe que nada fazia de indecoroso. [Eusébio 7.30.13]
  25. Não obstante era necessário ao menos precaver-se contra a suspeita que nasce de um tal assunto, para não escandalizar ninguém e evitar que outros o tentem. [Eusébio 7.30.13]
  26. Porque, como poderia repreender e advertir outro para que não coabite mais sob o mesmo teto com uma mulher e se guarde de cair, como está escrito. [Eusébio 7.30.14]
  27. Um que já afastou uma de si, mas que tem consigo duas em plena juventude e de boa aparência, e que, se vai para outro lugar, para lá as leva consigo, e isto com desperdício de luxo? [Eusébio 7.30.14]
  28. Por causa disto choram todos e se lamentam dentro de si mesmos, mas é tanto o temor à tirania e poder dele que ninguém se atreve a uma acusação. [Eusébio 7.30.15]
  29. Mas, como já dissemos, disto poderíamos corrigir um homem que tivesse ao menos um
    pensamento católico e se contasse entre nós, mas de um que traiu o mistério. [Eusébio 7.30.16]
  30. Um que se pavoneia da abominável heresia de Artemas, por que, de fato, não seria necessário manifestar quem é seu pai? cremos que não se pode pedir contas de tudo isto. [Eusébio 7.30.16]

XVI – Imperador Aureliano

  1. “Por conseguinte, ao seguir opondo-se a Deus e não ceder, vimo-nos forçados a excomungá-lo e a estabelecer em seu lugar para a Igreja católica. [Eusébio 7.30.17]
  2. Segundo providência de Deus, estamos convencidos estabelecemos outro bispo, Domno, o filho do bem-aventurado Demetriano. [Eusébio 7.30.17]
  3. Este havia presidido antes daquele, de forma notável, esta mesma igreja, varão adornado com todas as
    qualidades que convém a um bispo. [Eusébio 7.30.17]
  4. E isto vos manifestamos para que lhe escrevais e recebais dele as cartas de comunhão. [Eusébio 7.30.17]
  5. Quanto ao outro, que escreva a Artemas e que tenham comunhão com ele os que pensem como Artemas.” [Eusébio 7.30.17]
  6. Assim pois, caído Paulo do episcopado e da ortodoxia de sua fé, sucedeu-o Domno, como foi dito, no ministério da igreja de Antioquia. [Eusébio 7.30.18]
  7. Mesmo assim, como Paulo não quisesse de modo algum sair do edifício da igreja, o imperador Aureliano, a quem se solicitou, decidiu muito oportunamente o que deveria ser feito. [Eusébio 7.30.19]
  8. Ele ordenou que se outorgasse a casa àqueles com quem estivessem em correspondência epistolar os bispos da doutrina da Itália e da cidade de Roma. [Eusébio 7.30.19]
  9. Assim é que o homem antes mencionado, para extrema vergonha sua, foi expulso da igreja pelo poder mundano. [Eusébio 7.30.19]
  10. Assim era para conosco Aureliano, pelo menos por então. Mas, já avançado seu império, mudou de
    pensamento sobre nós. [Eusébio 7.30.20]
  11. Ele se deixava excitar por certos conselhos para que suscitasse uma perseguição contra nós. Eram muitos os rumores sobre este ponto em todos os ambientes. [Eusébio 7.30.20]
  12. Mas, quando estava a ponto de fazê-lo e, por assim dizer, já assinava os decretos contra nós, a justiça divina o alcançou, retendo-o no ato como que amarrando-lhe os braços. [Eusébio 7.30.21]
  13. Com isto permitiu a todos ver claramente que nunca os poderes desta vida teriam facilidade contra as igrejas de Cristo. [Eusébio 7.30.21]
  14. A mão que nos protege, por juízo divino e celeste, para nossa instrução e conversão, não permitia que isto se levasse a cabo nos tempos que ela julga bons. [Eusébio 7.30.21]
  15. Assim pois, a Aureliano, que exerceu o poder durante seis anos, sucede Probo, e a este, que o deteve mais ou menos os mesmos anos, Caro, junto com seus filhos Carino e Numeriano. [Eusébio 7.30.22]
  16. E tendo estes por sua vez durado outros três anos incompletos, o poder absoluto passa a Diocleciano e aos que foram introduzidos depois dele por adoção. [Eusébio 7.30.22]
  17. Sob esses poderes levou-se a cabo a perseguição de nosso tempo e nela a destruição das igrejas. [Eusébio 7.30.22]
  18. Muito pouco tempo antes disto, Félix sucede no ministério ao bispo de Roma Dionísio, que nele havia passado nove anos. [Eusébio 7.30.22]

XVII – Eusébio na Igreja da Laodiceia

  1. Neste tempo, também aquele louco chamado Manes, epônimo da endemoninhada heresia, armava-se do extravio da razão. [Eusébio 7.31.1]
  2. O demônio, sim, o próprio Satanás, adversário de Deus, empurrava aquele homem para ruína de muitos. [Eusébio 7.31.1]
  3. Como era bárbaro em sua vida, por sua própria fala e seus costumes, e demoníaco e demente por natureza, empreendia façanhas em consonância com isto [Eusébio 7.31.1]
  4. Ele tentava fazer o papel de Cristo, ora proclamando-se a si mesmo o Consolador e o Espírito Santo em pessoa. [Eusébio 7.31.1]
  5. Estava inflado por sua loucura, ora elegendo, como Cristo, doze discípulos co-partícipes de seu novo sistema. [Eusébio 7.31.1]
  6. Em realidade, impingiu umas falsas e ímpias doutrinas a base de remendos recolhidos das inúmeras e ímpias heresias, já há muito extintas. [Eusébio 7.31.2]
  7. Desde a Pérsia as foi transmitindo como veneno mortífero até nossa própria terra habitada, e desde então o ímpio nome dos maniqueus pulula até hoje entre muitos. [Eusébio 7.31.2]
  8. Este foi, pois, o fundamento desta gnose de falso nome, que brotou nos tempos mencionados. [Eusébio 7.31.2]
  9. Por este tempo, havendo Félix presidido a igreja de Roma durante cinco anos, sucede-o Eutiquiano. [Eusébio 7.32.1]
  10. Este, que não sobreviveu dez meses inteiros, deixou o cargo a Caio, contemporâneo nosso. [Eusébio 7.32.1]
  11. Mas havendo este exercido a presidência uns quinze anos, institui-se como sucessor Marcelino, a quem também arrebatará a perseguição. [Eusébio 7.32.1]
  12. E por estas datas regia o episcopado de Antioquia, depois de Domno, Timeu, a quem sucedeu Cirilo, contemporâneo nosso. [Eusébio 7.32.1]
  13. De seu tempo conhecemos Doroteu, varão douto e julgado digno do presbiterado de Antioquia. [Eusébio 7.32.2]
  14. Este foi um amante das coisas divinas e exercitou-se na língua hebraica, tanto que até podia ler e compreender as próprias escrituras hebreias. [Eusébio 7.32.2]
  15. Ele não era alheio aos estudos mais liberais, nem à instrução preliminar dos gregos. [Eusébio 7.32.3]
  16. Além disto era eunuco por natureza, feito assim já desde seu próprio nascimento. [Eusébio 7.32.3]
  17. Desta maneira, o imperador honrou-o com a administração da tinturaria de púrpura de Tiro. [Eusébio 7.32.3]
  18. 4. A este escutamos explicar as Escrituras com sapiência na igreja. [Eusébio 7.32.4]
  19. E depois de Cirilo o episcopado da igreja de Antioquia foi recebido em sucessão por Tirano, em cujos dias o ataque às igrejas alcançou o cume. [Eusébio 7.32.4]
  20. Já a igreja de Laodicéia, depois de Sócrates, foi governada por Eusébio, oriundo da cidade de Alexandria, cuja causa de sua emigração foi o assunto referente a Paulo. [Eusébio 7.32.5]
  21. Por causa deste subiu à Síria, e os que nela se ocupavam das coisas de Deus impediram-no de voltar a sua casa. [Eusébio 7.32.5]
  22. Para nossos contemporâneos foi um exemplo amável de religião, como facilmente se descobre nas expressões de Dionísio anteriormente citadas. [Eusébio 7.32.5]

XVIII – Anatolio na Igreja da Laodiceia

  1. Foi instituído como o sucessor de Eusébio em Laodiceia um bom homem chamado Anatólio que, como se diz, sucede a outro bom. [Eusébio 7.32.6]
  2. Também era alexandrino de origem, e por seus estudos, por sua educação grega e por sua filosofia alcançou os primeiros postos entre os mais ilustres de nossos contemporâneos. [Eusébio 7.32.6]
  3. Avançou até o cume da aritmética, da geometria, da astronomia e de toda especulação teórica, da dialética como da física, assim como da retórica. [Eusébio 7.32.6]
  4. Por esta causa, como quer uma tradição, os cidadãos de Alexandria o consideraram digno de organizar ali a escola da sucessão de Aristóteles. [Eusébio 7.32.6]
  5. Recordam-se, pois, dele, inúmeras outras façanhas de quando houve o sítio do Piruquío em Alexandria, já que todas as autoridades o consideravam digno de um privilégio especial. [Eusébio 7.32.7]
    8. Dizem que faltando o trigo aos sitiados, a ponto de que a fome lhes era mais insuportável do que os inimigos de fora, o mencionado Anatolio, que se achava presente, tomou as seguintes disposições. [Eusébio 7.32.7]
  6. Como a outra parte da cidade estava aliada ao exército romano e não se encontrava sitiada, Anatolio enviou uma mensagem a Eusébio, que se encontrava entre os não sitiados. [Eusébio 7.32.7]
  7. Eusébio, de fato ainda estava ali, antes de sua emigração para a Síria, tinha glória e famoso nome que haviam chegado até o general em chefe dos romanos. [Eusébio 7.32.8]
  8. Ele informou-o dos que pereciam de fome ao largo do assédio. [Eusébio 7.32.7]
  9. Este, assim que o soube, pediu ao general romano, como um enorme favor, que garantisse a segurança aos desertores do campo inimigo. [Eusébio 7.32.9]
  10. E quando conseguiu sua petição, fê-lo saber a Anatolio. Este, imediatamente depois de receber a promessa, reuniu o conselho dos alexandrinos. [Eusébio 7.32.9]
  11. Começou pedindo a todos que oferecessem sua destra aos romanos em sinal de amizade, mas assim que viu que sua promessa os enfurecia, disse: “Mesmo assim, creio que ao menos nisto não me sereis contrários.” [Eusébio 7.32.9]
  12.  “Aconselhar a pôr para fora das portas pelo menos as pessoas supérfluas e absolutamente inúteis, anciãs, crianças e anciãos, e que se vão para onde queiram. [Eusébio 7.32.9]
  13. “Por que vamos tê-los entre nós inutilmente se não for já para morrer? [Eusébio 7.32.9]
  14. “E para que estamos esgotando pela fome os enfermos e quebrantados de corpo?
  15. “Não nos é necessário alimentar apenas aos homens e aos jovens, e reservar o trigo necessário para os que são capazes de guardar a cidade?” [Eusébio 7.32.9]
  16. Com tais arrazoados conseguiu persuadir o conselho, e levantando-se o primeiro, votou um decreto. [Eusébio 7.32.10]
  17. Decidiu despedir da cidade todo aquele que não fosse apto para o serviço militar, homem ou mulher, já que não havia esperança de salvação para os que ficassem na cidade. [Eusébio 7.32.10]
  18. Era melhor que nela passassem o tempo sem utilidade alguma, pois morreriam de fome. [Eusébio 7.32.10]
  19. Deste modo, quando todos os demais do conselho emitiram o mesmo voto, faltou muito pouco
    para que salvassem a todos os sitiados. [Eusébio 7.32.11]
  20. Preocupou-se de que primeiro fugissem os que procediam da igreja, e logo também os demais que estavam na cidade, de qualquer idade que fossem. [Eusébio 7.32.11]
  21. E não somente dos que caíam dentro do decreto, mas também, com o pretexto destes, muitos outros que,
    secretamente disfarçados de mulher. [Eusébio 7.32.11]
  22. E por cuidado daquele, saíam à noite das portas e lançava-se ao exército romano. [Eusébio 7.32.11]
  23. Ali Eusébio recebia a todos, e como um pai e médico, com todo tipo de providências e de cuidados, restaurava os maltratados pelo longo assédio. [Eusébio 7.32.11]
  24. De tais pastores foi digna a igreja de Laodicéia, onde os dois se sucederam depois que emigraram para lá desde a cidade de Alexandria, com a ajuda da providência divina, ao terminar a mencionada guerra. [Eusébio 7.32.12]
  25. Não foram muitas as obras compostas por Anatólio, mas chegaram a nós as suficientes para poder perceber através delas sua eloqüência e sua grande erudição. [Eusébio 7.32.13-20]
  26. O bispo de Cesaréia da Palestina, Teotecno, foi o primeiro que impôs a Anatólio as mãos para o episcopado, buscando de antemão procurar para sua igreja um sucessor seu para depois da morte. [Eusébio 7.32.21]
  27. E, efetivamente, por breve espaço de tempo ambos presidiram a mesma igreja, mas Anatólio foi chamado a Antioquia pelo concilio reunido contra Paulo. [Eusébio 7.32.21]
  28. Ao passar pela cidade de Laodicéia, os irmãos dali retiveram-no em seu poder, por ter morrido Eusébio. [Eusébio 7.32.21]
  29. Mas tendo partido desta vida também Anatólio, nomeou-se Estevão, último bispo daquela igreja antes da perseguição. [Eusébio 7.32.21]

XIX – Teodoto na Igreja da Laodiceia

  1. Admirado por muitos em razão de suas doutrinas filosóficas e de toda sua cultura grega, Estevão não tinha, porém, as mesmas disposições a respeito da fé divina. [Eusébio 7.32.22]
  2. Isso ele no demonstrou o transcurso da perseguição, que se mostrou um homem solapado, covarde e pouco viril, mais que o verdadeiro filósofo. [Eusébio 7.32.22]
  3. Mas não por isso iria a igreja arruinar-se; antes o próprio Deus e salvador de todos a restabeleceu, fazendo que imediatamente se proclamasse bispo daquela igreja a Teodoto [Eusébio 7.32.23].
  4. Era um homem que com suas próprias obras tornava realidade o que seu nome e o de bispo significam, que era “Dom de Deus”. [Eusébio 7.32.23]
  5. Efetivamente, em primeiro lugar, Teodoto destacava-se na ciência que cura os corpos. [Eusébio 7.32.23]
  6. Mas na terapêutica das almas não teve igual, por seu amor aos homens, sua nobreza, sua compaixão e seu zelo em ser útil aos que necessitavam dele. [Eusébio 7.32.23]
  7. Também havia se exercitado muito no que tange aos ensinamentos divinos. Assim era Teodoto. [Eusébio 7.32.23]
  8. Em Cesaréia da Palestina, Teotecno, que havia exercido com toda solicitude seu episcopado, é sucedido por Agapio. [Eusébio 7.32.24]
  9. Deste, sabe-se lutou muito, despendendo a mais generosa providência na proteção do povo e cuidando de todos com mão abundante, especialmente dos pobres. [Eusébio 7.32.24]
  10. Em seu tempo conhecemos a Panfilo, homem muito distinto, verdadeiro filósofo por sua própria vida e considerado digno do presbiterado da comunidade local. [Eusébio 7.32.25]
  11. Não seria um tema pequeno mostrar quem era e de onde procedia, mas cada aspecto de sua vida e da escola que ele constituiu. [Eusébio 7.32.25]
  12. Assim como seus combates em diferentes confissões quando da perseguição e a coroa do martírio
    que se cingiu ao fim de tudo. [Eusébio 7.32.25]
  13. Explica-se os pormenores sobre Panfilo em obra especial sobre ele, oois bem, este foi o mais admirável de todos os daqui. [Eusébio 7.32.26]
  14. Mesmo assim, entre os mais próximos a nosso tempo sabemos de homens de mui rara qualidade: Pierio, um presbítero de Alexandria, e Melicio, bispo das igrejas do Ponto. [Eusébio 7.32.26]
  15. O primeiro se fez notar por uma vida inteiramente pobre e por seus conhecimentos filosóficos. [Eusébio 7.32.27]
  16. Ele exercitou extraordinariamente em especulações e comentários acerca das coisas divinas e em homílias públicas na igreja. [Eusébio 7.32.27]
  17. E Melicio, o mel de Ática chamavam-no as pessoas instruídas, era como alguém o descreveu: o mais perfeito por sua doutrina. [Eusébio 7.32.27]
  18. É impossível admirar-se como merece o vigor de sua retórica, mas podia-se dizer que ele o tinha por natureza. [Eusébio 7.32.27]
  19. E quanto à perícia no restante e à vasta erudição, quem poderia superar sua excelência? [Eusébio 7.32.27]
  20. Antes que o provasses uma só vez, dirias que era o homem mais hábil e mais firme em todas as
    ciências da razão. [Eusébio 7.32.28]
  21. Além disso, sua vida virtuosa estava também à altura. [Eusébio 7.32.28]
  22. Nós o observamos durante sete anos completos quando, por ocasião da perseguição, andou fugitivo de uma lado para outro pelas regiões da Palestina. [Eusébio 7.32.28]

XX – Igreja de Jerusalém

  1. Na igreja de Jerusalém, depois de Himeneo – o bispo mencionado pouco acima -, recebe o ministério Zabdas. [Eusébio 7.32.29]
  2. Morto este não muito depois, recebe em sucessão o trono apostólico, ali conservado ainda até hoje, Hermon, último bispo até a perseguição de nossos tempos. [Eusébio 7.32.29]
  3. E em Alexandria é Teonas que sucede a Máximo, que exerceu o episcopado depois da morte de Dionísio por dezoito anos. [Eusébio 7.32.30]
  4. Em seu tempo era célebre em Alexandria Aquilas, considerado digno do presbiterado junto com Pierio. [Eusébio 7.32.30]
  5. Estava encarregado da escola da fé sagrada e deu provas de uma obra filosófica de mui rara qualidade, não inferior à de ninguém, e de uma conduta genuinamente evangélica. [Eusébio 7.32.30]
  6. E depois de Teonas, que serviu durante dezenove anos, recebe em sucessão o episcopado dos alexandrinos Pedro, que também se distinguiu muito especialmente durante doze anos inteiros. [Eusébio 7.32.31]
  7. Tendo empregado os três primeiros anos anteriores à perseguição, não completos, em governar a igreja, pelo resto de sua vida entregou-se a uma ascese muito mais vigorosa. [Eusébio 7.32.31]
  8. Sem ocultar-se, velava pelo proveito comum das igrejas, e assim foi como no nono ano da perseguição foi
    decapitado e adornou-se com a coroa do martírio. [Eusébio 7.32.31]
  9. Ele escreveu livros com o tema das sucessões, desde o nascimento de nosso Salvador até a destruição dos oratórios. [Eusébio 7.32.31]
  10. Abarca uns trezentos e cinco anos, em continuação vamos deixar por escrito, para que o saibam aqueles que vierem depois de nós. [Eusébio 7.32.32]
  11. Quantos e de que índole foram os combates dos que em nossos dias portaram-se virilmente na defesa da religião. [Eusébio 7.32.32]

XXI – Igreja de Jerusalém

  1. 1. É uma tarefa gigantesca explicar como merecido quais e quão grandes foram, antes da perseguição de nosso tempo, a glória e a liberdade de que gozou entre todos os homens, gregos e bárbaros, a doutrina da piedade para com o Deus de todas as coisas, anunciada ao mundo por meio de Cristo. [Eusébio 8:1.1]
  2. Ainda assim, a prova disto é a acolhida dos soberanos para com os Cristãos, a quem inclusive entregavam o governo das províncias, dispensando-os da angústia de ter que sacrificar, pela muita amizade que reservavam a nossa doutrina. [Eusébio 8:1.3]
  3. Que necessidade há de falar dos que estavam nos palácios imperiais e dos supremos
    magistrados? [Eusébio 8:1.3]
  4. Estes consentiam que seus familiares – esposas, filhos e criados – agissem abertamente, com toda liberdade, com sua palavra e sua conduta, no referente à doutrina divina. [Eusébio 8:1.3]
  5. Quase permitindo-lhes inclusive gloriar-se da liberdade de sua fé. Consideravam-nos especialmente dignos de aceitação, mais ainda do que seus companheiros de serviço. [Eusébio 8:1.3]
  6. Assim era o famoso Doroteo, o melhor disposto e mais fiel de todos para com eles e por isto o mais distinguido com honras, mais até do que os que ocupavam cargos e governos. [Eusébio 8:1.4]
  7. E com ele o célebre Gorgonio e quantos foram considerados dignos da mesma honra que eles, por razão da palavra de Deus. [Eusébio 8:1.4]
  8. Era visível também de que favor todos os procuradores e governadores julgavam dignos os dirigentes de cada igreja! [Eusébio 8:1.5]
  9. E quem poderia descrever aquelas concentrações de milhares de homens e aquelas multidões das reuniões em cada cidade, igual às célebres concorrências aos oratórios? [Eusébio 8:1.5]
  10. Por esta causa precisamente, já não contentes de modo algum com os antigos
    edifícios, levantaram desde as fundações igrejas de grande amplidão por todas as cidades. [Eusébio 8:1.6]
  11. Com o tempo isto avançava e cobrava cada dia maior vulto e grandeza, sem que inveja alguma o impedisse e sem que um mau demônio fosse capaz de fazê-lo malograr. [Eusébio 8:1.6]
  12. Nem criar obstáculos com conjuros de homens, tanto a mão celestial de Deus protegia e custodiava seu próprio povo, porque em realidade o merecia. [Eusébio 8:1.6]
  13. Mas desde que nossa conduta mudou, passando de uma maior liberdade ao orgulho e à negligência, uns começaram a invejar e injuriar aos outros. [Eusébio 8:1.7]
  14. Faltou pouco para que fizéssemos a guerra mutuamente com as armas. [Eusébio 8:1.7]
  15. Os chefes dilaceravam outros chefes com as lanças das palavras. Os povos se sublevavam contra os povos. [Eusébio 8:1.7]
  16. A hipocrisia e a dissimulação sem nome alcançavam o mais alto grau de malícia. [Eusébio 8:1.7]
  17. Então o juízo de Deus, com parcimônia, como gosta de fazer, quando ainda se reuniam as assembleias, suave e moderadamente suscitava sua visita, começando a perseguição pelos irmãos que militavam no exército. [Eusébio 8:1.7]
  18. E nós, como se estivéssemos insensíveis, não nos preocupamos sobre como tornar-nos benévola e propícia a divindade. [Eusébio 8:1.8]
  19. Mas como alguns ateus, que pensam que nossos assuntos escapam a todo
    cuidado e inspeção, íamos acumulando maldades sobre maldades. [Eusébio 8:1.8]
  20. E os que pareciam ser nossos pastores rechaçavam a norma da religião, inflamando-se em mútuas rivalidades. [Eusébio 8:1.8]
  21. Não faziam mais do que aumentar as rixas, as ameaças, a rivalidade e a inimizade e ódio recíprocos, reclamando encarniçadamente para si o objeto de sua ambição como se fosse o poder absoluto. [Eusébio 8:1.8]
  22. Foi quando, segundo diz Jeremias: o Senhor obscureceu em sua cólera a filha de
    Sion e precipitou do céu para baixo a glória de Israel, sem recordar-se do estrado de seus pés no dia de sua ira; [Eusébio 8:1.8]
  23. Antes, o Senhor submergiu nas profundezas todas as belezas de Israel e destruiu todas suas valas (Lm 2:1-2). [Eusébio 8:1.8]
  24. Segundo o profetizado nos Salmos, “destruiu o testamento de seu servo e com a ruína das igrejas profanou seu santuário, destruiu todas suas valas e plantou a covardia em suas fortalezas”. [Eusébio 8:1.9]
  25. “E todos os caminhantes saqueavam ao passar as multidões do povo, e como se isto fosse pouco, converteu-se em ofensa para seus vizinhos”. [Eusébio 8:1.9]
  26. “Porque exaltou a destra de seus inimigos e desviou o fio de sua espada e não o sustentou na guerra, mas até despojou-o de sua pureza, derrubou ao solo seu trono, encurtou os dias de seu tempo, e por último cobriu-o de ignomínia”. (Sl 89:40-46) [Eusébio 8:1.9]

XXII – Imperador Diocleciano

  1. Tudo isto se cumpriu, efetivamente, em nossos dias, quando com nossos próprios olhos vimos os oratórios inteiramente arrasados, desde o telhado até os fundamentos. [Eusébio 8:2.1]
  2. E as divinas e sagradas Escrituras entregues ao fogo nas praças públicas; [Eusébio 8:2.1]
  3. E os pastores das igrejas ocultando-se aqui e ali vergonhosamente ou presos indecorosamente e escarnecidos pelos inimigos [Eusébio 8:2.1]
  4. Era como, segundo outro oráculo profético, se “lançou o desprezo sobre os príncipes e os faz andar errantes por onde não há caminho”. [Eusébio 8:2.1]
  5. Mas não é tarefa nossa descrever as tristes calamidades que estes por fim passara. [Eusébio 8:2.2]
  6. Tampouco é nosso deixar memória de suas mútuas dissensões e de suas loucuras de antes da perseguição. [Eusébio 8:2.2]
  7. Por isso, decidimos também não contar sobre eles mais do que aquilo que nos
    permita justificar o juízo de Deus. [Eusébio 8:2.2]
  8. Por conseguinte, não nos deixamos levar a fazer memória dos que foram tentados pela perseguição ou dos que naufragaram por completo no assunto de sua salvação e por sua própria vontade se precipitaram nos abismos das ondas. [Eusébio 8:2.3]
  9. Mas à história geral vamos acrescentar unicamente aquilo que possa ser de proveito primeiramente a nós mesmos e logo também a nossa posteridade. [Eusébio 8:2.3]
  10. Vamos, pois; comecemos já desde este ponto a descrever em resumo os
    combates sagrados dos mártires da doutrina divina. [Eusébio 8:2.3]
  11. Era este o ano dezenove do império de Diocleciano e o mês de Distro, que entre os romanos se diria o de março. [Eusébio 8:2.4]
  12. Estando próxima a festa da Paixão do Salvador, por todas as partes estenderam-se editos imperiais mandando arrasar até o solo as igrejas e fazer desaparecer pelo fogo as Escrituras. [Eusébio 8:2.4]
  13. E proclamando privados de honras e de cidadania a aqueles que delas desfrutavam e de liberdade aos particulares se permanecessem fiéis em sua profissão de cristianismo. [Eusébio 8:2.4]
  14. Assim foi o primeiro edito contra nós, mas não muito depois vieram-nos outros editos. [Eusébio 8:2.5]
  15. Eles ordenavam primeiro, lançar nas prisões todos os presidentes das igrejas em todo lugar, e depois, forçá-los por todos os meios a sacrificar. [Eusébio 8:2.5]
  16. Então, pois, precisamente então, numerosos dirigentes das igrejas, lutando animosamente em meio a terríveis tormentos, ofereceram quadros de grandes combates. [Eusébio 8.3.1]
  17. Mas foram milhares os outros, os que de antemão embotaram suas almas com a covardia, e assim facilmente se debilitaram desde a primeira acometida. [Eusébio 8.3.1]
  18. Dos restantes, cada um foi alternando diferentes espécies de tormentos.
  19. Um tendo seu corpo lacerado por açoites; outro castigado com as torturas insuportáveis do potro e dos garfos, nas quais alguns já perderam suas vidas. [Eusébio 8.3.1]
  20. E outros, por sua vez, passaram pelo combate de formas muito diversas. [Eusébio 8.3.2]
  21. A um efetivamente, os demais empurravam pela força, e aproximando-se dos infames e impuros sacrifícios, deixavam-no ir como se tivesse sacrificado, ainda que não o tivesse feito. [Eusébio 8.3.2]
  22. Outro, ainda que de modo algum tivesse se aproximado nem tivesse tocado nada maldito, como os demais diziam que havia tocado, retirava-se em silêncio carregado com a calúnia. [Eusébio 8.3.2]
  23. Outro levantavam meio morto e o lançavam como se já fosse um cadáver. [Eusébio 8.3.2]
  24. E ainda houve quem, deitado ao solo, era arrastado longo trecho pelos pés e era contado entre os
    que haviam sacrificado. [Eusébio 8.3.3]
  25. Um gritava, e a altas vozes atestava sua negativa em sacrificar, e outro vociferava que era cristão e se gloriava de confessar o nome salvador. [Eusébio 8.3.3]
  26. Outro sustentava firme que ele nem havia sacrificado nem sacrificaria jamais. [Eusébio 8.3.3]
  27. Mesmo assim, também estes foram lançados fora à força sob repetidos golpes na boca por parte do
    nutrido grupo de soldados que para este fim estava ali formado. [Eusébio 8.3.4]
  28. E com bofetadas no rosto e nas faces foram reduzidos ao silêncio. [Eusébio 8.3.4]
  29. Tão grande era o afã que os inimigos da religião tinham de aparentar, por todos os meios, que haviam conseguido seu intento. [Eusébio 8.3.4]
  30. Mas nem tais métodos serviam contra os santos mártires. Que discurso seria suficiente para uma descrição exata dos mesmos? [Eusébio 8.3.4]

XXIII – Mártires da Nicomedia

  1. Efetivamente, poder-se-ia relatar que foram inumeráveis os que mostraram um zelo admirável pela religião do Deus do universo. [Eusébio 8.4.1]
  2. Não somente desde o momento em que estourou a perseguição contra todos, mas muito antes, quanto ainda se mantinha a paz. [Eusébio 8.4.1]
  3. Porque muito recentemente quem havia recebido o poder, como quem se levanta de um sono profundo, empreendeu-a contra as igrejas, ainda ocultamente e não às claras, no tempo que sucedeu a Décio e Valeriano. [Eusébio 8.4.2]
  4. E não atacou de um golpe com uma guerra contra nós, mas ainda provou-a somente com os que estavam nas legiões. [Eusébio 8.4.2]
  5. Pois deste modo pensava que capturaria mais facilmente também os demais se primeiro saísse vitorioso na luta contra aqueles. [Eusébio 8.4.2]
  6. Era de se ver então o grande número de soldados abraçando contentíssimos a vida civil e evitando assim converter-se em negadores de sua religião para com o Criador de todas as coisas. [Eusébio 8.4.2]
  7. Efetivamente, quem quer que então fosse o general do exército, este empreendia a perseguição contra as tropas. [Eusébio 8.4.3]
  8. E se dava a classificar e depurar os funcionários militares, como lhes desse a escolha entre seguir gozando a graduação que lhes correspondia, se o obedeciam. [Eusébio 8.4.3]
  9. Ou ver-se, pelo contrário, privados da mesma se se opunham às suas ordens, muitíssimos soldados do reino de Cristo, sem vacilar, preferiram a confissão de Cristo à glória aparente e ao bem-estar que possuíam. [Eusébio 8.4.3]
  10. Nesse momento era raro que um ou dois destes recebessem não somente a perda da graduação, mas também a morte em troca de sua piedosa resistência. [Eusébio 8.4.4]
  11. Pois então o urdidor da conspiração ainda guardava certa moderação e ousava aventurar-se somente a um ou outro derramamento de sangue. [Eusébio 8.4.4]
  12. Já que ainda o assustava, segundo parece, a multidão dos fiéis e ainda vacilava em desatar uma guerra contra todos de uma só vez. [Eusébio 8.4.4]
  13. Mas quando se lançou ao ataque mais abertamente, impossível expressar com palavras o número e a qualidade dos mártires de Deus que aqueles que habitavam as cidades e os campos podiam contemplar. [Eusébio 8.4.5]
  14. Assim pois, tão prontamente como se promulgou em Nicomedia o edito contra as igrejas, um que não era personagem obscuro. [Eusébio 8.5.1]
  15. Mas dos mais preclaros, segundo a estimativa das excelências de sua vida, empurrado pelo zelo de Deus, lançou-se com fé ardente. [Eusébio 8.5.1]
  16. E depois de arrancar o edito que se achava em lugar visível e público, por considerá-lo ímpio e irreligioso, rasgou-o. [Eusébio 8.5.1]
  17. Assim o fez apesar de haver na mesma cidade dois imperadores, o mais antigo de todos Diocleciano e o que depois dele ocupava o quarto posto no governo Galério. [Eusébio 8.5.1]
  18. Mas este foi o primeiro dos que naquela ocasião se distinguiram desta maneira. [Eusébio 8.5.1]
  19. E depois de sofrer em seguida o que era de supor por tal atrevimento, conservou a calma e a tranqüilidade até seu último suspiro. [Eusébio 8.5.1]

XXIV – Mártires das Casas Imperiais

  1. Acima de todos muitos foram celebrados como admiráveis e famosos por sua valentia, assim entre os gregos como entre os bárbaros. [Eusébio 8.6.1]
  2. Esta ocasião fez destacar os divinos e excelentes mártires Doroteo e os servidores imperiais que o acompanhavam. [Eusébio 8.6.1]
  3. Os seus amos os tenham considerado dignos da mais alta honra e no trato não os deixavam atrás de seus próprios filhos. [Eusébio 8.6.1]
  4. Eles julgavam, com toda verdade, maior riqueza do que a glória e o prazer desta vida as injúrias, os trabalhos e os variados gêneros de morte inventados contra eles por causa de sua religião. [Eusébio 8.6.1]
  5. Somente mencionaremos o fim que teve um deles e deixaremos a nossos leitores que por ele concluam o que sucedeu aos outros.
  6. Na mencionada cidade, um deles foi conduzido publicamente ante os imperadores já indicados. [Eusébio 8.6.2]
  7. Ordenaram-lhe, pois, que sacrificasse, e ao opor-se, mandaram pendurá-lo desnudo e lacerar todo
    seu corpo a força de açoites até que, rendido, fizesse o ordenado mesmo contra a vontade.[Eusébio 8.6.2]
  8. Ele se manteve inflexível mesmo depois de padecer estes tormentos, e seus ossos já aparecessem à vista. [Eusébio 8.6.3]
  9. Misturaram vinagre com sal e o derramaram nas partes mais laceradas de seu corpo. [Eusébio 8.6.3]
  10. Mas também desdenhou estas dores, e então trouxeram ao meio umas brasas e fogo, e como se faz com a carne comestível, foram consumindo no fogo o resto de seu corpo. [Eusébio 8.6.3]
  11. Não todo de uma vez, para que não morresse em seguida, mas pouco a pouco. [Eusébio 8.6.3]
  12. Os que o haviam posto sobre a fogueira não podiam soltá-lo até que, ainda depois de tantos padecimentos, desse sinal de aceder ao mandado. [Eusébio 8.6.3]
  13. Mas ele, solidamente aferrado a seu propósito, entregou vencedora sua alma em meio aos tormentos. [Eusébio 8.6.4]
  14. Tal foi o martírio de um dos servidores imperiais, digno realmente do nome que levava: chamava-se Pedro. [Eusébio 8.6.4]
  15. Ainda que não tenham sido menores os tormentos dos outros, em consideração às proporções do livro os omitiremos. [Eusébio 8.6.5]
  16. Unicamente mencionaremos que Doroteo e Gorgonio, juntamente com muitos outros do serviço imperial, depois de passar por combates de todo gênero, morreram enforcados e alcançaram o prêmio da divina vitória. [Eusébio 8.6.5]
  17. Neste tempo, Antimo, que então presidia a igreja de Nicomedia, foi decapitado por seu testemunho de Cristo. [Eusébio 8.6.6]
  18. E a ele se juntou uma multidão compacta de mártires quando nesses mesmos dias, e sem saber-se como, deflagrou-se um incêndio no palácio imperial de Nicomedia. [Eusébio 8.6.6]
  19. Ao suspeitar-se falsamente e correr o boato de que havia sido provocado pelos nossos, a uma ordem imperial, os cristãos daquele lugar. [Eusébio 8.6.6]
  20. Em tropel e amontoadamente, uns foram degolados a espada, e outros acabaram pelo fogo. [Eusébio 8.6.6]
  21. Uma tradição diz que então homens e mulheres saltavam por si mesmos ao fogo com um fervor divino inefável. [Eusébio 8.6.6]
  22. Os verdugos, por sua parte, amarravam outra multidão a umas barcas e a lançavam aos abismos do mar. [Eusébio 8.6.6]
  23. Quanto aos servidores imperiais, depois de sua morte haviam sido confiados à terra com as honras
    correspondentes. [Eusébio 8.6.7]
  24. Mas os que se encaram como donos fizeram-nos exumar novamente, com a opinião de que estes também deveriam ser lançados ao mar. [Eusébio 8.6.7]
  25. Decidiram assim para que não acontecesse que jazendo em sepulcros fossem adorados e os considerassem – ao menos isto pensavam eles – como deuses. [Eusébio 8.6.7]
  26. Tais foram os acontecimentos do começo da perseguição em Nicomedia. [Eusébio 8.6.7]
  27. Mas não muito depois, havendo alguns tentado, na região chamada Melitene, e outros inclusive na
    Síria, atacar o império, saiu uma ordem imperial. [Eusébio 8.6.8]
  28. Em todas as partes ordenou que se encarcerasse e acorrentasse os dirigentes das igrejas. [Eusébio 8.6.8]
  29. E o espetáculo a que isto deu lugar ultrapassa toda narração: em todas as partes se aprisionava uma multidão inumerável. [Eusébio 8.6.9]
  30. E em todo lugar os cárceres, anteriormente aparelhados, desde antigamente, para homicidas e violadores de tumbas, transbordavam agora de bispos, presbíteros, diáconos, leitores e exorcistas. [Eusébio 8.6.9]
  31. Não sobrava sequer lugar ali para os criminosos condenados por suas maldades. [Eusébio 8.6.9]
  32. Mais ainda, ao primeiro edito seguiu-se outro em que se mandava deixar irem livres os encarcerados que tivessem sacrificado e passar pela tortura os que resistissem. [Eusébio 8.6.10]
  33. Como, repito, neste caso alguém poderia enumerar a multidão de mártires de cada província, sobretudo da
    África, Mauritânia, Tebaida e Egito? [Eusébio 8.6.10]
  34. Do Egito, alguns que inclusive haviam emigrado para outras cidades e províncias sobressaíram por seus martírios. [Eusébio 8.6.10]

XXV – Mártires da Fenícia

  1. Nós conhecemos dentre eles pelo menos os que brilharam na Palestina, e inclusive conhecemos os que se sobressaíram em Tiro da Cilicia. [Eusébio 8.7.1]
  2. Vendo-os, quem não ficaria pasmo com os inumeráveis açoites e a resistência com que os suportaram estes campeões da religião verdadeiramente maravilhosos? [Eusébio 8.7.1]
  3. E depois dos açoites, o combate com as feras devoradoras de homens, os ataques de leopardos, de ursos de diferentes espécies, de javalis e de touros feridos com ferro em brasa. [Eusébio 8.7.1]
  4. Domo não pasmar-se da admirável paciência daquelas nobres pessoas frente a cada uma destas feras? [Eusébio 8.7.1]
  5. Também nós nos achamos presentes a estes acontecimentos e observamos como o poder divino do próprio Jesus Cristo, nosso Salvador, de quem eles davam testemunho. [Eusébio 8.7.2]
  6. O poder divino de Cristo se fazia presente e se mostrava claramente aos mártires. [Eusébio 8.7.2]
  7. As feras devoradoras de homens tardaram muito tempo a atrever-se a tocar e até a aproximar-se dos corpos dos amigos de Deus, enquanto se lançavam contra os outros que as açulavam de fora, sem dúvida. [Eusébio 8.7.2]
  8. Os santos campeões foram os únicos a quem de modo algum tocaram, apesar de que se achavam de pé, desnudos. [Eusébio 8.7.2]
  9. Eles lhes faziam gestos com as mãos, provocando-as contra si mesmos, pois assim lhes mandaram que fizessem. [Eusébio 8.7.2]
  10. Inclusive quando se lançavam contra eles, novamente retrocediam, como rechaçadas por uma força mais
    divina. [Eusébio 8.7.2]
  11. O fato de prolongar-se este espetáculo longo tempo causou grande assombro entre os espectadores; [Eusébio 8.7.3]
  12. Chegou ao ponto de que, ante a inação da primeira fera, soltaram uma segunda e até uma terceira contra um só e mesmo mártir. [Eusébio 8.7.3]
  13. Era para ficar atônito ante a intrépida constância daqueles santos em tais circunstâncias e ante a firme e inflexível resistência de seus corpos jovens. [Eusébio 8.7.4]
  14. Ali pois, verias um jovem, da idade de vinte anos incompletos, de pé, sem correntes e com as mãos estendidas em forma de cruz. [Eusébio 8.7.4]
  15. Com ânimo impassível e tranquilo, este se entregava com a maior calma às orações de Deus, sem mover-se nem desviar-se o mínimo do lugar onde se achava. [Eusébio 8.7.4]
  16. OS ursos e leopardos, respirando furor e morte, quase tocavam já sua carne; mas inexplicavelmente por uma força inefável e divina, a ponto já de fechar suas mandíbulas, novamente saíam correndo para trás. [Eusébio 8.7.4]
  17. Também poderias ter visto outros, sendo cinco no total, que foram lançados a um touro bravo. [Eusébio 8.7.5]
  18. Aos pagãos que se aproximavam, este os lançava ao ar com seus cornos e os despedaçava, deixando-os
    meio mortos para serem retirados. [Eusébio 8.7.5]
  19. Já quando se lançava furioso e ameaçador somente contra os santos mártires, nem podia aproximar-se deles. [Eusébio 8.7.5]
  20. Ainda que desse golpes aqui e acolá com suas patas e chifres, e respirasse furor e ameaça porque o açulavam com ferro em brasa viva, a providência sagrada o arrastava para trás. [Eusébio 8.7.5]
  21. Assim, como este touro não lhes fizesse o mínimo dano, soltaram contra eles outras feras. [Eusébio 8.7.5]
  22. Finalmente, depois de terríveis e variadas acometidas destas, todos eles foram degolados a espada e entregues às ondas do mar em vez de à terra e aos sepulcros. [Eusébio 8.7.6]

XXVI – Mártires do Egito

  1. Assim foi também a luta dos egípcios que em Tiro empreenderam publicamente seus combates pela religião. [Eusébio 8.8.1]
  2. Mas deles se poderia admirar ainda mais os que sofreram martírio em sua pátria; [Eusébio 8.8.1]
  3. Homens, mulheres e crianças, em número incontável, desprezando o viver passageiro, suportaram pelo ensinamento de nosso Salvador diferentes gêneros de mortes. [Eusébio 8.8.1]
  4. Uns, depois dos garfos, dos potros, dos açoites crudelíssimos e de infinitos e variados tormentos, que fazem estremecer só de ouvi-los, foram lançados ao fogo. [Eusébio 8.8.1]
  5. Outros foram tragados pelo mar; outros estendiam valentemente as próprias cabeças aos que as cortam. [Eusébio 8.8.1]
  6. Outros inclusive morriam em meio às torturas; a outros consumiu a fome, e outros por sua vez foram crucificados. [Eusébio 8.8.1]
  7. Uns como é costume fazer aos malfeitores, e a outros ainda pior, pregados ao contrário, a cabeça para baixo, e deixados com vida até que morressem de fome sobre o próprio patíbulo. [Eusébio 8.8.1]
  8. Mas os ultrajes e dores que suportaram os mártires de Tebaida ultrapassam toda descrição. [Eusébio 8.9.1]
  9. Laceravam-lhes todo seu corpo empregando conchas em vez de garfos, até que perdessem a vida. [Eusébio 8.9.1]
  10. Atavam as mulheres por um pé e as suspendiam no ar com umas máquinas, com a cabeça para baixo e o corpo inteiramente desnudo e a descoberto. [Eusébio 8.9.1]
  11. Ofereciam a todos os observadores o espetáculo mais vergonhoso, o mais cruel e mais desumano de todos. [Eusébio 8.9.1]
  12. Outros, por sua vez, morriam amarrados a árvores e ramos: puxando com umas máquinas juntavam os ramos mais robustos e estendiam até cada um deles as pernas dos mártires. [Eusébio 8.9.2]
  13. E deixavam que os ramos voltassem a sua posição natural. Assim haviam inventado o esquartejamento instantâneo daqueles contra quem empreendiam tais coisas. [Eusébio 8.9.2]
  14. E tudo isto se perpetrava já não por uns poucos dias ou por uma breve temporada, mas por um longo espaço de anos inteiros, morrendo às vezes mais de dez pessoas, às vezes mais de vinte. [Eusébio 8.9.3]
  15. Em outras ocasiões, não menos de trinta, e alguma vez até cerca de sessenta. [Eusébio 8.9.3]
  16. E ainda houve uma vez que em um só dia deu-se morte a cem homens, certamente com seus filhinhos e suas mulheres, condenados a vários e sucessivos castigos. [Eusébio 8.9.3]
  17. E nós mesmos, achando-nos no lugar dos fatos, vimos muitos sofrerem em massa e num só dia. [Eusébio 8.9.4]
  18. Uns a decapitação, e outros o suplício do fogo, até o ferro perder o fio de tanto matar e partir-se em pedaços por puro desgaste. [Eusébio 8.9.4]
  19. Os próprios assassinos se revezavam entre si pelo cansaço. [Eusébio 8.9.4]
    5. Então podíamos contemplar o ímpeto admirável e a força e fervor realmente divinos dos que creram
    e seguem crendo no Cristo de Deus. [Eusébio 8.9.5]
  20. Efetivamente, ainda se estava ditando sentença contra os primeiros e já de outras partes saltavam para o tribunal ante o juiz outros que se confessavam cristãos. [Eusébio 8.9.5]
  21. Eles não se preocupavam em absoluto com os terríveis e multiformes gêneros de tortura, mas sim
    proclamando impassíveis, com toda liberdade, a religião do Deus do universo. [Eusébio 8.9.5]
  22. E recebendo a suprema sentença de morte com alegria, regozijo e bom humor, ao ponto de cantar salmos, hinos e ações de graças ao Deus do universo até exalar o último alento. [Eusébio 8.9.5]
  23. Admiráveis foram também estes, em verdade, mas mais admiráveis foram especialmente aqueles
    que, brilhando por sua riqueza e seu nome, por sua glória, sua eloqüência e filosofia.  [Eusébio 8.9.6]
  24. Mesmo assim, tudo isto preteriram à verdadeira religião e à fé em nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo. [Eusébio 8.9.6]
  25. Assim era Filoromo, encarregado de certa magistratura importante da administração imperial de Alexandria. [Eusébio 8.9.7]
  26. Por sua dignidade e cargo romanos, cada dia administrava justiça com escolta de soldados. [Eusébio 8.9.7]
  27. E assim era Fileas, bispo da igreja de Tmuis, varão ilustre por seus cargos e funções públicas desempenhadas em sua pátria, não menos que por seus conhecimentos de filosofia. [Eusébio 8.9.7]
  28. Estes homens, ainda que um grande número de parentes e de amigos, assim como outros magistrados ativos lhes suplicassem. [Eusébio 8.9.8]
  29. E apesar de que o próprio juiz lhes exortasse a que tivessem compaixão de si mesmos e olhassem por seus filhos e mulheres, de modo algum se deixaram levar por tão fortes argumentos. [Eusébio 8.9.8]
  30. Não escolheram o amor à vida e o desprezo as leis sobre a confissão e a negação de nosso Salvador, mas, resistiram a todas as ameaças e insolências do juiz com varonil e filosófica razão. [Eusébio 8.9.8]
  31. Mais ainda, com ânimo pleno de piedade e amor de Deus, foram ambos decapitados. [Eusébio 8.9.8]

XXVII – Carta de Fileas

X
[Informes escritos do mártir Fileas acerca do ocorrido em Alexandria]
1. Posto que já dissemos que Fileas foi digno de grande consideração por seus muitos conhecimentos
profanos, venha ele mesmo ser testemunha de si mesmo e ao mesmo tempo nos declare quem
era e nos conte com maior exatidão do que nós faríamos os martírios ocorridos em seu tempo
em Alexandria. Estas são suas palavras:
DA CARTA DE FILEAS AOS TMUITAS
2. “Como nas divinas e sagradas Escrituras encontramos todos estes exemplos, modelos e bons
indicadores, os bem-aventurados mártires que estavam conosco, sem vacilar o mínimo, fixando
limpidamente os olhos de suas almas no Deus do universo e abraçando em suas mentes a morte pela
religião, aferravam-se tenazmente a sua vocação por terem encontrado que nosso
Senhor Jesus Cristo se fez homem por nossa causa, para destruir pela raiz todo pecado e provernos de viático de entrada na vida eterna, pois não teve como usurpação o ser igual a Deus, mas
que esvaziou-se a si mesmo tomando forma de servo, e reconhecido em sua figura como
homem, humilhou-se a si mesmo até a morte, e morte de cruz579
.
3. Pelo que, os mártires portadores de Cristo, procurando os dons maiores580
, suportaram todo
trabalho e toda classe de invenções de tormentos, não uma só vez, mas alguns até duas vezes, e
ainda que os guardas rivalizassem em ameaças contra eles, não só por palavra, mas também por
obra, não abandonaram sua resolução, por aquele cujo amor perfeito lança fora todo o temor581
.
4. E que discurso bastaria para enumerar sua força e seu valor em cada tormento? Porque, como
todo aquele que o quisesse tinha permissão para ultrajá-los, uns os golpeavam com paus, outros
com varas, outros com açoites, outros com correias e outros com cordas.
5. O espetáculo das torturas variava e continha em si muita maldade, porque alguns eram
pendurados do potro, com as duas mãos amarradas às costas, e por meio de certas máquinas
distendiam-lhes todos os membros, e estando assim, os verdugos, a uma ordem, se enfureciam
com seus corpos em sua totalidade, não somente nas costas, como se costumava com os
assassinos, mas castigavam-nos com suas armas defensivas582 inclusive no ventre, nas pernas e nas
faces. Outros eram pendurados do pórtico atados por uma só mão; a tensão das articulações e dos
membros era mais terrível que qualquer dor. Outros, por fim, eram atados às colunas cara a cara e
sem pousar os pés no chão: com o peso do corpo, as ataduras se tensionavam e apertavam
fortemente.
6. E isto suportavam não somente enquanto o governador conversava com eles e deles se ocupava,
mas quase durante o dia inteiro, pois enquanto passava aos outros, deixava que seus ministros
vigiassem os primeiros para o caso de algum, vencido pelas torturas, parecer ceder, mas ordenando
impiedosamente que apertassem ainda mais as ataduras583 e que, descendo os que ao fim
expirassem, os arrastassem pela terra.
7. E não tinham por nós a mínima consideração, mas agiam como se não existíssemos, um segundo
tormento que, além dos golpes, inventaram nossos adversários.
8. Havia os que inclusive depois dos tormentos jaziam sobre o cepo com os pés distendidos até o
quarto furo, de forma que até por força tinham que ficar de boca para cima sobre o cepo,
impotentes, por terem recentes as feridas dos golpes por todo o corpo. Outros jaziam estirados
no solo por efeito dos tormentos aplicados de uma vez, e ofereciam aos curiosos um espetáculo mais cruel do que ao serem atormentados, pois levavam em seus corpos as marcas das múltiplas e
diversas torturas inventadas.
9. Assim as coisas, uns morriam em meio aos tormentos, envergonhando com sua constância o
adversário; outros, encerrados meio mortos no cárcere, faleciam ao cabo de poucos dias
oprimidos pelas dores; e os demais, conseguida a recuperação de suas forças a base de
cuidados584, com o tempo e a estadia no cárcere fizeram-se ainda mais animosos.
10. Assim pois, quando lhes foi exigido escolher585: ou tocar o sacrifício abominável e não ser
molestado, conseguindo deles a liberdade maldita, ou não sacrificar e receber condenação à
morte, eles, sem vacilar o mínimo, marcharam alegremente para a morte, pois sabiam que as
Sagradas Escrituras nos prescrevem: Quem oferecer, diz, sacrifícios a outros deuses será
exterminado586
; e não terás outros deuses além de mim587.”
11. Tais são as palavras que o mártir, como verdadeiro filósofo e amigo de Deus, estando ainda no
cárcere antes de sua última sentença, escreveu aos irmãos de sua igreja, confiando-lhes a situação
em que se encontrava e, ao mesmo tempo, exortando-os a manterem-se firmemente fiéis à
religião de Cristo mesmo depois de sua iminente consumação.
12. Mas que necessidade há de estender-se prolixamente e de juntar a combates recentes outros
combates ainda mais recentes, sustentados pelos santos mártires em toda a terra, sobretudo
aqueles que já não eram atacados em conformidade com uma lei comum, mas com todo o aparato
de uma guerra?

XXVIII – Mártires da Frígia

XI
[Dos mártires da Frígia]
1. Ocorreu pois, que já então, na Frígia, toda uma pequena cidade de cristãos foi cercada com todos
seus homens por soldados que lhe atearam fogo e queimaram a todos, inclusive crianças e
mulheres, que invocavam a gritos o Deus do universo. A razão foi que todos os habitantes da
cidade em massa, inclusive o próprio inspetor imperial de contas, os duunviros e todos os
magistrados com o povo inteiro, haviam-se confessado cristãos e não obedeciam nem o mínimo
aos que lhes ordenavam adorar os ídolos.
2. E houve outro, chamado Adaucto, possuidor de uma dignidade romana e procedente de uma
linhagem ilustre da Itália, que havia avançado por todos os graus da honra ante os imperadores,
ao ponto de haver passado irrepreensivelmente aos postos da administração geral, no que eles
chamam de ofício de diretor superior e intendente geral. Havendo-se distinguido além de tudo
isto por suas obras virtuosas na religião e por suas repetidas confissões do Cristo de Deus,
suportou o combate pela religião no exercício de seu cargo de intendente geral e foi coroado com
a diadema do martírio.
XII
[De muitíssimos outros, homens e mulheres, que combateram de diversas maneiras]
1. Que necessidade tenho eu agora de recordar por seus nomes os demais, de contar a multidão dos
homens ou de pintar os variados tormentos dos admiráveis mártires? Uns foram mortos com
machados, como ocorreu aos da Arábia; a outros queimaram as pernas, como sucedeu aos da
Capadócia; às vezes os penduravam do alto pelos pés, cabeça para baixo, e acendiam debaixo um
fogo lento, cuja fumaça os asfixiava ao arder a lenha, como no caso dos da Mesopotâmia; e às
vezes cortavam-lhes o nariz, as orelhas e as mãos e partiam em pedaços os restantes membros e
partes de seus corpos, como aconteceu em Alexandria.
2. Para que reavivar a recordação dos de Antioquia, dos que eram assados em braseiros, não para
fazê-los morrer, mas para alongar seu tormento; e dos que preferiam meter sua mão direita no
fogo a tocar o sacrifício maldito? Alguns deles, para fugir da prova, antes de serem presos e de

XXIX – Mártires da Frígia

cair nas mãos dos conspiradores, eles mesmos se lançavam do alto de suas casas, considerando
o morrer como um subtrair-se à maldade dos ímpios.
3. E certa pessoa, santa e admirável pela virtude de sua alma, ainda que mulher por seu corpo, e
famosa ainda entre todas as de Antioquia, por sua riqueza, sua linhagem e seu bom nome, havia
criado suas filhas nas leis da religião, um par de virgens notáveis pela beleza de seu corpo e em
plena juventude. Moveu-se contra elas muita inveja que por todos os meios se esforçava em
descobrir seu esconderijo. Ao inteirar-se de que se achavam em terra estrangeira, arranjou-se
astutamente para chamá-las a Antioquia, e assim caíram nas redes dos soldados. Vendo-se a si
mesma e as suas filhas em tal apuro, a mãe falou-lhes e lhes expôs os horrores que lhes viriam dos
homens, inclusive o mais terrível e insuportável de todos, a ameaça de violação, exortando-se a
si mesma e exortando as filhas a não tolerar nem sequer que chegassem a roçar-lhes os ouvidos.
Dizia-lhes também que entregar suas almas à escravidão dos demônios era pior do que todas as
mortes e que toda ruína, e lhes sugeria que a única solução de tudo isto era a fuga para o Senhor.
4. Então, estando de acordo as três, arranjaram decentemente seus vestidos em torno de seus
corpos e, chegadas ao meio do caminho, pediram aos guardas permissão para afastarem-se um
momento, e se lançaram ao rio que corria ali ao lado.
5. Estas pois, lançaram-se elas mesmas, mas na mesma Antioquia houve outro par de virgens, em
tudo dignas de Deus e verdadeiramente irmãs, ilustres por sua linhagem, brilhantes por sua
posição, jovens na idade, formosas de corpo, santas de alma, piedosas de caráter e admiráveis em
seu zelo, às quais, como se a terra não fosse capaz de suportar tanta grandeza, os servos dos
demônios mandaram lançar ao mar. Isto é o que ocorreu a estas.
6. Outros, de sua parte, sofreram no Ponto tormentos que, só de ouvi-los fazem estremecer. A uns
trespassaram os dedos com hastes pontiagudas, cravadas pela ponta das unhas; a outros, depois de
fundir chumbo no fogo, fervendo e candente como estava, vertiam-no sobre as costas e lhes
queimavam as partes mais necessárias do corpo;
7. e outros sofreram em seus membros secretos e em suas entranhas tormentos vergonhosos,
implacáveis e impossíveis de expressar com palavras, tormentos que aqueles nobres e legítimos
juízes imaginavam com o maior zelo, mostrando sua crueldade como um alarde de sabedoria e
tratando com esforço de superar-se uns aos outros na invenção de suplícios, sempre mais novos,
como num concurso com prêmios.
8. Mas o fim destas calamidades chegou quando, já sucumbindo à fadiga de tal excesso de males,
cansados de matar e fartos e aborrecidos de tanto derramamento de sangue, voltaram-se ao que
tinham por bom e humano, de modo que já parecia que nada terrível se empreenderia contra nós.
9. Porque não convinha, diziam, manchar as cidades com sangue de sua própria gente, nem acusar de
crueldade o poder supremo dos príncipes, benévolo e suave para com todos, antes, fazia-se
necessário estender a todos o benefício da humana e imperial autoridade e não mais castigar com a
pena de morte. Efetivamente, segundo eles, por causa da humanidade dos imperadores, este seu
castigo ficava abolido contra nós.
10. Então ordenou-se arrancar os olhos e inutilizar uma das pernas, pois para eles isto era humano e
o castigo mais leve aplicado contra nós; em conseqüência, por causa desta humanidade dos
ímpios, já não era possível descrever a multidão incalculável de mutilados: uns, aos quais primeiro
foi arrancado o olho direito com a espada e logo cauterizado; outros, aos quais haviam inutilizado
o pé esquerdo, também por meio de cautérios nas articulações, e os que haviam condenado às
minas de cobre de cada província, não tanto por seu serviço quanto para maltratá-los e fazê-los
sofrer. Além de todos estes, outros sucumbiram em diversos combates que nem sequer é possível
catalogar, já que suas façanhas vencem toda palavra.
11. Nestes combates, os magníficos mártires de Cristo brilharam por toda a terra habitada e, como
era natural, por todas as partes enchiam de assombro as testemunhas oculares de seu valor, e em
si mesmos ofereciam a prova manifesta do poder verdadeiramente divino e inefável de nosso
Salvador. Mas seria longo, para não dizer impossível, fazer menção de cada um por seus nomes.

XXX – Presidentes da Igreja

  1. As palavras não seriam bastantes para descrever a abundância de bens e a prosperidade de que foi digno o governo de Roma antes de sua guerra contra os cristãos durante este período em que os governantes eram amigáveis e pacíficos com eles. [Eusébio 8.13.9]
  2. Era o tempo em que os que governavam o império universal cumpriam o décimo e o vigésimo aniversário de seu comando [Eusébio 8.13.9]
  3. E passavam sua vida em completa e sólida paz entre festas, jogos públicos e esplêndidos banquetes e festins.
  4. Mas quando sua autoridade, livre de obstáculos, crescia dia a dia e prosperava a grandes passos, de repente deram uma mudança em sua pacífica disposição para com os cristãos [Eusébio 8.13.10]
  5. Eles suscitaram uma guerra sem quartel. [Eusébio 8.13.10]
  6. Mas não se haviam cumprido os dois anos de semelhante movimento quando por todo o Império se produziu algo imprevisto que transtornou todos os assuntos.  [Eusébio 8.13.10]
  7. Efetivamente, havendo-se abatido sobre o primeiro e principal imperador, que era Diocleciano, uma enfermidade que não augurava nada bom [Eusébio 8.13.10]
  8. Ela lhe transtornou a mente até aliená-lo, e retirou-se à vida comum e privada junto com Maximiano, que ocupava o segundo posto nas honras. [Eusébio 8.13.11]
  9. Mas ainda que isso não se realizasse assim, o Império já se partia em dois, todo ele, coisa que jamais foi registrado anteriormente. [Eusébio 8.13.11]
  10. Uma parte do império ficou com o imperador Constâncio, que em toda sua vida havia tratado os seus súditos com a maior suavidade e benevolência e à doutrina divina com a melhor amizade. [Eusébio 8.13.12]
  11. Ele terminou sua vida segundo a lei comum da natureza, deixando seu filho legítimo Constantino como imperador e augusto em seu lugar. [Eusébio 8.13.12]
  12. Bondoso e suave mais que os outros imperadores, Constâncio foi o primeiro dentre eles ao qual proclamaram Deus, [Eusébio 8.13.12]
  13. Pois Deus o considerava digno de toda a honra que se deve a um imperador depois de sua morte. [Eusébio 8.13.12]
  14. Constâncio foi também o único dos nossos contemporâneos que durante todo o tempo de seu mandato portou-se de um modo digno do Império. [Eusébio 8.13.13]
  15. No demais, mostrou-se para todos o mais favorável e benfeitor, não participando o mínimo da guerra contra os cristãos. [Eusébio 8.13.13]
  16. Antes até, preservou livres de dano e de constrangimentos, os fiéis que eram seus súditos. [Eusébio 8.13.13]
  17. Tampouco derrubou os edifícios das igrejas nem admitiu novidade alguma contra eles. [Eusébio 8.13.13]
  18. E teve o final de sua vida triplamente abençoado, pois foi o único que morreu querido e glorioso em seus próprios domínios imperiais, junto a um sucessor, seu legítimo filho, prudentíssimo e muito piedoso em tudo. [Eusébio 8.13.13]
  19. Este filho Constantino, imediatamente foi proclamado desde o início imperador e augusto pelas legiões após a morte do paterna. [Eusébio 8.13.14]
  20. E muito antes destas proclamações, também o foi pelo próprio Deus como imperador universal. [Eusébio 8.13.14]
  21. Ele se mostrou uma cópia de seu pai na piedade para com a doutrina cristã. [Eusébio 8.13.14]
  22. Mas, além de Constantino, também se proclamou a Licínio como imperador e augusto por voto comum dos imperadores. [Eusébio 8.13.14]
  23. E também Maxêncio, que era filho do antigo Maximiano, que se irritou terrivelmente pois até este momento ainda seguia com o único título de césar. [Eusébio 8.13.15]
  24. Em consequência, como era um grande tirano, arrebatou para si fraudulentamente a dignidade de imperador e augusto. [Eusébio 8.13.15]
  25. Neste tempo surpreendeu-se tramando um atentado contra a vida de Constantino e depois de sua abdicação voltou ao cargo e morreu com a mais vergonhosa morte. [Eusébio 8.13.15]
  26. Foi o primeiro de quem destruíram as inscrições honoríficas, as estátuas e tudo o que se costumava oferecer, como de um homem por demais sacrílego e ímpio. [Eusébio 8.13.15]

XXXI – Inimigos da Igreja (Galério)

  1. O outro que assumiu o governo de Roma ao mesmo tempo que Constâncio foi Galério que iniciou a perseguição contra os cristãos.
  2. O fato é que, durante todos os dez anos que durou a perseguição, Galério e os três outros imperadores augustos que sucederam Constâncio não deixaram de conspirar e guerrear mutuamente. [Eusébio 8.15.1]
  3. Os mares não eram navegáveis, e todos que desembarcavam de onde quer que fosse, não escapavam de ser submetidos a toda classe de maus-tratos: [Eusébio 8.15.1]
  4. Retorciam-nos sobre o potro e lhes laceravam as costas, enquanto os interrogavam entre torturas de toda espécie, caso procedessem do lado inimigo; [Eusébio 8.15.1]
  5. E por último submetiam os cristãos ao suplício da cruz ou do fogo. [Eusébio 8.15.1]
  6. Além disso, por toda parte fabricavam-se e se preparavam escudos e couraças, dardos, lanças e demais instrumentos de guerra; assim como embarcações e armas navais. [Eusébio 8.15.2]
  7. Ninguém podia esperar a cada dia outra coisa senão um ataque dos inimigos. [Eusébio 8.15.2]
  8. E como se fosse pouco, também a fome e a peste subsequentes se abateram sobre eles. [Eusébio 8.15.2]
  9. Esta era a situação ao longo da perseguição, que com a ajuda da graça de Deus, no décimo ano já estava terminada, ainda que de fato tenha começado a ceder depois do oitavo. [Eusébio 8.16.1]
  10. Efetivamente, assim que a graça divina e celestial começou a mostrar uma preocupação benévola e propícia para com os cristão. [Eusébio 8.16.1]
  11. Também nossos governantes, aqueles mesmos que nos haviam feito a guerra, mudaram milagrosamente de pensamento e cantaram a retratação. [Eusébio 8.16.1]
  12. Extinguiram mediante editos favoráveis e ordens cheias de suavidade a fogueira da perseguição, que havia alcançado tal amplidão. [Eusébio 8.16.1]
  13. Mas a causa desta mudança não foi algo próprio dos homens, nem como alguém poderia dizer, compaixão ou humanidade dos governantes. [Eusébio 8.16.2]
  14. Afinal, eles mesmos eram os que cada dia, desde o começo até esse momento, imaginavam mais e piores suplícios contra os cristãos. [Eusébio 8.16.2]
  15. Renovavam constantemente, umas vezes de um modo e outras de outro, com diversas invenções, os maus-tratos que lhes infligiam. [Eusébio 8.16.2]
  16. A mudança ocorreu devido a mais evidentemente visita da própria providência divina. [Eusébio 8.16.2]
  17. Ela reconciliou o povo consigo atacando Galério, que era o perpetrador de seus males. [Eusébio 8.16.2]
  18. Ela descarregou sua ira sobre o líder da maldade e de toda a perseguição. [Eusébio 8.16.2]
  19. Isso ocorreu por juízo de Deus pois, não obstante, a Escritura diz: Ai daquele por quem vem a ofensa! [Eusébio 8.16.3]
  20. Ela o Alcançou, pois, um castigo divino que, começando por sua própria carne, avançou até sua alma. [Eusébio 8.16.3]
  21. Efetivamente, de repente saiu-lhe um abcesso em meio às partes secretas de seu corpo,
  22. Logo uma chaga fistulosa em profundidade, sem possibilidade de cura, foi-lhe corroendo profundamente as entranhas. [Eusébio 8.16.4]
  23. Dali brotava um ninho de vermes e exalava um fedor mortal. [Eusébio 8.16.4]
  24. Pois a massa de suas carnes, produzida pela gula e transformada antes da enfermidade em excessiva de gordura, se tornou pútrida. [Eusébio 8.16.4]
  25. E ao apodrecer então, oferecia o aspecto mais insuportável e espantoso aos que se aproximavam. [Eusébio 8.16.4]
  26. Dos médicos, uns, absolutamente incapazes de suportar a exagerada enormidade do fedor, foram por isso degolados. [Eusébio 8.16.5]
  27. Outros, sem poder ajudá-lo em nada por estar inchada toda a massa e já não haver esperança de salvação, foram por isso assassinados sem piedade. [Eusébio 8.16.5]

XXXII – Trégua

  1. Lutando contra males tão grandes, Galério deu-se conta das atrocidades que havia ousado cometer contra  os adoradores de Deus. [Eusébio 8.17.1]
  2. Em consequência, recolhendo em si seu pensamento, primeiramente confessou o Deus do universo. [Eusébio 8.17.1]
  3. Depois, chamando os de seu séquito, deu ordens para que, sem tardar um momento, fizessem cessar a perseguição contra os cristãos [Eusébio 8.17.1]
  4. E, mediante uma lei e um decreto imperiais, apressou-se em reconstruir suas igrejas e praticassem o culto de costume, oferecendo orações pelo imperador. [Eusébio 8.17.1]
  5. Imediatamente pois, as obras seguiram as palavras.
  6. E, por todas as cidades, se divulgou um edito que continha a revogação do que foi feito com os cristãos nos seguintes termos: [Eusébio 8.17.2]
  7. O Imperador César Galério Valério Maximiano, Augusto Invicto, Pontífice Máximo, Germânico Máximo, Egípcio Máximo, Tebeu Máximo, Sármata Máximo cinco vezes, Persa Máximo duas vezes, Carpo Máximo seis vezes, Armênio Máximo, Medo Máximo, Adiabeno Máximo, Tribuno da Plebe vinte vezes, Imperator dezenove vezes, Cônsul oito vezes, Pai da Pátria, e Procônsul; [Eusébio 8.17.3]
  8. E o Imperador César Flávio Valério Constantino Augusto Pio Félix Invicto, Pontífice Máximo, Tribuno da Plebe, Imperator cinco vezes, Cônsul, Pai da Pátria, Procônsul; [Eusébio 8.17.4]
  9. E o Imperador César Valério Liciniano Licínio Augusto Pio Félix, Invicto, Pontífice Máximo, Tribuno da Plebe quatro vezes, Imperator três vezes, Cônsul, Pai da Pátria, Procônsul, [Eusébio 8.17.5]
  10. Aos habitantes de suas próprias províncias, saúde. [Eusébio 8.17.5]
  11. Entre as outras medidas que tomamos para utilidade e proveito do Estado, já anteriormente foi vontade nossa endereçar todas as coisas conforme as antigas leis e ordem pública dos romanos [Eusébio 8.17.6]
  12. E prover para que também os cristãos, que tinham abandonado a seita de seus antepassados, voltassem ao bom propósito. [Eusébio 8.17.6]
  13. Porque, devido a alguma razão especial, é tão grande a ambição que os retém e a loucura que os domina que não seguem o que ensinaram os antigos, o mesmo que talvez seus próprios progenitores estabeleceram anteriormente. [Eusébio 8.17.7]
  14. Mas, segundo o próprio desígnio e a real vontade de cada um, fizeram leis para si mesmos, e guardam estas, tendo conseguido reunir variadas multidões em diversos lugares. [Eusébio 8.17.7]
  15. Por esta causa, quando a isto seguiu uma ordem nossa de que mudassem para o estabelecido pelos antigos, um grande número esteve sujeito a perigo, e outro grande número viu-se perturbado e sofreu toda classe de mortes. [Eusébio 8.17.8]
  16. Mas a maioria persistiu na mesma loucura e vimos que nem rendiam aos deuses celestes o culto devido nem atendiam ao dos cristãos, [Eusébio 8.17.9]
  17. Firmes em nossa benignidade e em nosso constante costume de outorgar perdão a todos os homens, críamos que era necessário estender também de boa vontade ao presente caso nossa indulgência; [Eusébio 8.17.9]
  18. Para que novamente haja cristãos e reparem os edifícios em que se reuniam, de tal maneira que não pratiquem nada contrário à ordem pública. [Eusébio 8.17.9]
  19. Por meio de outra carta mostrarei aos juízes o que deverão observar. [Eusébio 8.17.9]
  20. Em consequência, em troca desta nossa indulgência, deverão rogar a seu Deus por nossa salvação, pela do Estado e por sua própria; [Eusébio 8.17.10]
  21. Com o fim de que, por todos os meios, o Estado se mantenha são e possam eles viver tranquilos em seus próprios lares.” [Eusébio 8.17.10]
  22. Este era o teor do edito escrito em língua latina e tradução dentro do possível para o grego. [Eusébio 8.17.11]

XXXIII – Inimigos da Igreja (Maxêncio)

  1. O imperador e augusto Maxêncio, que em Roma havia-se constituído um tirano, começou fingindo ter a fé cristã, para agradar e adular o povo romano. [Eusébio 8.14.1]
  2. E por esta razão ordenou a seus súditos interromper a perseguição contra os cristãos, simulando piedade e pensando que assim pareceria acolhedor e mais brando que seus antecessores. [Eusébio 8.14.1]
  3. Na verdade não resultou nas obras como se esperava que seria, mas que, chegando a todo tipo de sacrilégios, não descuidou de uma só obra de perversidade e desregramento. [Eusébio 8.14.2]
  4. Ele cometeu adultérios e todo tipo de corrupção. [Eusébio 8.14.2]
  5. Por exemplo, separando de seus maridos as legítimas esposas, ultrajava-as da maneira mais desonrosa e em seguida mandava-as de volta aos maridos; [Eusébio 8.14.2]
  6. E cuidava de não fazer isto com pessoas insignificantes e obscuras, mas antes, escolhia dentre os mais eminentes dos que haviam alcançado os primeiros postos do senado romano. [Eusébio 8.14.2]
  7. A mais extraordinariamente admirável das mulheres em Roma, era a mais nobre em verdade e a mais casta de todas quantas o tirano Maxêncio tentou atropelar, imitando Maximino. [Eusébio 8.14.17]
  8. Efetivamente, assim se soube que ela também era cristã. [Eusébio 8.14.17]
  9. Estava em sua casa os que serviam ao tirano em tais empreitadas, e que seu marido, ainda que prefeito dos romanos, por medo havia permitido que a levassem com eles. [Eusébio 8.14.17]
  10. Ela então pediu permissão por um momento com o pretexto de arrumar-se, [Eusébio 8.14.17]
  11. E entrando em seu quarto, sozinha, ela mesma cravou-se uma espada e morreu
    instantaneamente. [Eusébio 8.14.17]
  12. Aos que a levariam deixou seu cadáver e a todos os homens presentes e
    futuros mostrou com suas ótimas obras, mais sonoras que qualquer voz, que a única coisa invencível e indestrutível é a virtude dos cristãos. [Eusébio 8.14.17]
  13. Tal abundância de maldade acumulou-se, de fato, num mesmo tempo por obra dos dois tiranos que haviam recebido separadamente Oriente e Ocidente. [Eusébio 8.14.18]
  14. E quem, procurando a causa de tantos males, poderia duvidar que foram produzidos pela perseguição a nós? [Eusébio 8.14.18]
  15. Pelo menos este estado de confusão não cessou de modo algum até que os cristãos obtivessem a liberdade. [Eusébio 8.14.18]
  16. Todos os que estavam a sua mercê, plebeus e magistrados, famosos e gente comum, todos estavam cansados de tão terrível tirania. [Eusébio 8.14.3]
  17. E ainda que estivessem em calma e suportassem sua amarga escravidão, ainda assim, não mudava em nada a sanguinária crueldade do tirano. [Eusébio 8.14.3]
  18. Efetivamente, às vezes com um pretexto fútil dava carta branca a seu corpo de guarda para executar uma matança contra o povo. [Eusébio 8.14.3]
  19. E assim foram assassinadas multidões incontáveis do povo romano no meio da cidade. [Eusébio 8.14.3]
  20. E não por obra das lanças e armas dos citas e bárbaros, mas dos próprios cidadãos. [Eusébio 8.14.3]
  21. Assim, por exemplo, não é possível calcular o número de senadores assassinados com vistas a apoderar-se de suas fortunas. [Eusébio 8.14.4]
  22. Pois foram infinitos os eliminados em diferentes ocasiões e por diferentes causas, todas inventadas. [Eusébio 8.14.4]
  23. Mas o cúmulo dos males levou o tirano Maxêncio à magia. [Eusébio 8.14.5]
  24. Com vistas à magia, fazia abrir o ventre de mulheres grávidas, escrutinar as entranhas de crianças recém-nascidas e degolar leões. [Eusébio 8.14.5]
  25. Ele criava algumas abomináveis invocações sobre demônios e um sacrifício conjurador da guerra, [Eusébio 8.14.5]
  26. Pois ele tinha posto toda sua esperança nestes meios para chegar à vitória. [Eusébio 8.14.5]
  27. Em consequência, enquanto ele esteve como tirano em Roma, é impossível dizer o que fez para escravizar seus súditos. [Eusébio 8.14.6]
  28. Os próprios víveres mais necessários chegaram a uma escassez e penúria extremas [Eusébio 8.14.6]
  29. Os seus contemporâneos não lembram ter visto em Roma nem em nenhuma outra parte. [Eusébio 8.14.6]

XXXIV – Inimigos da Igreja (Maximino)

  1. Quanto ao tirano do Oriente, Maximino, que sucedeu Galério por ser seu filho adotivo, ele fez um pacto secreto de amizade com o tirano Maxêntio de Roma, como com um irmão na maldade. [Eusébio 8.14.7]
  2. Ele se esforçava em ocultá-lo o maior tempo possível, mas foi descoberto e pagou logo como lhe era merecido. [Eusébio 8.14.7]
  3. Era de admirar como também ele havia conseguido afinidade e irmandade, e mais, o primeiro lugar em maldade e a palma em perversidade, com o tirano de Roma. [Eusébio 8.14.8]
  4. Efetivamente, ele considerava que os principais charlatães e magos eram dignos da mais alta honra, de tão medroso e extremamente supersticioso que era [Eusébio 8.14.8]
  5. E pela importância que dava a errar em matéria de ídolos e demônios. [Eusébio 8.14.8]
  6. Sem consultar adivinhos e oráculos era absolutamente incapaz de atrever-se a mover sequer uma unha. [Eusébio 8.14.8]
  7. Esta foi a causa de que se entregasse com maior fúria e frequência à perseguição contra os cristãos. [Eusébio 8.14.9]
  8. Deu ordem de levantar templos em todas as cidades e renovar diligentemente os santuários destruídos pelo passar do tempo. [Eusébio 8.14.9]
  9. Estabeleceu em cada lugar e em cada cidade sacerdotes de ídolos, e sobre estes, como sumo sacerdote de cada província, com escolta e guarda militar, um dos
    magistrados que mais brilhantemente houvessem se distinguido em todos os cargos públicos, [Eusébio 8.14.9]
  10. E por fim, presenteou o comando e as maiores honras, sem a menor reserva, a toda classe de feiticeiros, por crê-los gente piedosa e amiga dos deuses. [Eusébio 8.14.9]
  11. Partindo destes princípios, vexava e oprimia já não uma cidade ou uma região, mas todas as províncias que estavam sob seu domínio. [Eusébio 8.14.10]
  12. Ele o fazia com cobranças de ouro, prata e riquezas sem conta, e com gravíssimas acusações falsas e outras diferentes penas, segundo a ocasião. [Eusébio 8.14.10]
  13. Tomando dos ricos os bens acumulados por seus antepassados, distribuía a mãos cheias riquezas e montes de dinheiro aos aduladores que o rodeavam. [Eusébio 8.14.10]
  14. Na verdade, entregava-se a tais excessos de bebida e de embriaguez que, bebendo, enlouquecia e perdia a razão. [Eusébio 8.14.11]
  15. Dava tais ordens estando bêbado, que no dia seguinte, recobrados os sentidos,
    tinha que arrepender-se. [Eusébio 8.14.11]
  16. Não se permitia ficar atrás de ninguém como crápula e desregrado, tornando-se mestre de maldade para os que o rodeavam, governantes e governados. [Eusébio 8.14.11]
  17. Incitava o exército com todo tipo de prazeres e intemperanças a entregar-se à frouxidão. [Eusébio 8.14.11]
  18. E provocava os governantes e comandantes militares a cair sobre os súditos com rapinas e mesquinhez, tendo-os quase como companheiros de tirania. [Eusébio 8.14.11]
  19. Para que recordar as torpezas passionais daquele homem ou contar a multidão de mulheres que corrompeu? [Eusébio 8.14.12]
  20. De fato, não passava por uma cidade sem cometer adultérios continuamente e
    raptar donzelas. [Eusébio 8.14.12]
  21. Saía-se bem nessas façanhas com todos, exceto unicamente com os cristãos, que, desprezando a morte, desdenhavam tamanha tirania.[Eusébio 8.14.13]
  22. Os homens, efetivamente, suportavam o fogo e o ferro, a crucificação, as feras e as profundezas do mar, [Eusébio 8.14.13]
  23. Ou que lhes amputassem e queimassem os membros, que lhes furassem e arrancassem os olhos; a mutilação, enfim, de todo o corpo. [Eusébio 8.14.13]
  24. E, como se fosse pouco, a fome, as minas e os grilhões, mostrando-se em tudo isto mais prontos a padecer pela religião do que a dar aos ídolos o culto devido a Deus. [Eusébio 8.14.13]
  25. E quanto às mulheres, não era, menos fortalecidas que os homens pelo ensinamento da doutrina divina. [Eusébio 8.14.14]
  26. Umas suportavam os mesmos combates que os homens e levaram os mesmos prêmios por sua virtude; [Eusébio 8.14.14]
  27. Outras, arrastadas para serem desonradas, preferiram entregar sua alma à morte antes que o corpo à desonra. [Eusébio 8.14.14]
  28. E certo que, de todas as que foram violadas pelo tirano, somente uma, cristã e das mais distintas e ilustres de Alexandria, conseguiu com sua firmeza mais que varonil vencer a alma apaixonada e dissoluta de Maximino. [Eusébio 8.14.15]
  29. Mesmo sendo muito célebre por sua riqueza, sua linhagem e sua
    educação, tudo preteria a sua castidade. [Eusébio 8.14.15]
  30. Maximino insistiu muito, mas não era capaz de matar a que já estava disposta a morrer, pois sua paixão era mais forte do que sua cólera. [Eusébio 8.14.15]
  31. Condenou-a então ao desterro e confiscou toda sua propriedade.
  32. E outras incomparáveis mulheres, não podendo nem escutar sequer ameaças de violação, suportaram por parte dos governadores de província todo tipo de tormentos, de torturas e de suplícios mortais. [Eusébio 8.14.16]
  33. Por isso também estas foram admiráveis. [Eusébio 8.14.16]

XXXV – Calmaria

  1. A revogação da ordem imperial foi exposta por todas as partes e em todo lugar da Ásia, assim como nas províncias circundantes. [Eusébio 9.1.1]
  2. Cumprido isto desta maneira, Maximino, o tirano do Oriente, ímpio como nenhum outro e convertido no maior inimigo da religião do Deus do universo, ficou muito desgostoso do conteúdo do escrito [Eusébio 9.1.1]
  3. Ele, em vez do edito, ordenou verbalmente aos governantes a ele sujeitos que afrouxassem na guerra contra nós. [Eusébio 9.1.1]
  4. Efetivamente, não lhe era permitido contradizer de outra forma o juízo dos mais poderosos. [Eusébio 9.1.1]
  5. Assim pois, Sabino, honrado entre eles com a dignidade dos magistrados mais elevados, dá a conhecer a decisão do imperador aos governadores de cada província mediante uma carta em latim. Sua tradução é a seguinte: [Eusébio 9.1.2]
  6. “Com o mais nobre e mais santo zelo, já faz tempo que a divindade de nossos senhores, santíssimos imperadores, determinou orientar as mentes de todos os homens ao sagrado e reto caminho de viver; [Eusébio 9.1.3]
  7. Para que, inclusive os que pareciam seguir um costume alheio ao dos romanos, rendessem o culto devido aos deuses imortais. [Eusébio 9.1.3]
  8. Mas a obstinação e a rude vontade de alguns chegou a tal ponto que nem com a justa razão da ordem podia-se afastá-los de sua própria determinação, nem o castigo prometido os afastava. [Eusébio 9.1.4]
  9. Por causa desta atitude muitos estiveram em perigo. [Eusébio 9.1.5]
  10. Assim, a divindade de nossos senhores, os poderosíssimos imperadores julgaram segundo a grande nobreza de sua piedade. [Eusébio 9.1.5]
  11. Era algo alheio a seu próprio e diviníssimo propósito estar lançando os homens a um perigo tão grande por uma tal causa. [Eusébio 9.1.5]
  12. Por isso, se ordenou escrever a tua inteligência por meio de minha devoção. [Eusébio 9.1.5]
  13. Assim, se algum cristão for encontrado tomando parte na religião de sua própria nação, o afastes do mal e do perigo que o ameaça; [Eusébio 9.1.5]
  14. E não julgues que alguém deva ser castigado por este motivo, [Eusébio 9.1.5]
  15. já que com o correr de tão longo tempo foi comprovado que de nenhuma maneira é possível persuadi-los a se afastarem de semelhante obstinação. [Eusébio 9.1.5]
  16. Por conseguinte, tua solicitude deve escrever aos curadores, aos magistrados municipais e aos prepostos de distrito rural de cada cidade para que saibam que, de agora em diante, não lhes convém preocupar-se com o edito para sua perseguição.” [Eusébio 9.1.6]
  17. Depois disto, os governantes de cada província, pensando que a intenção do que se lhes escrevia era a verdade, dão a conhecer por meio de cartas o pensamento imperial aos curadores, aos magistrados municipais e aos prepostos de distrito rural. [Eusébio 9.1.7]
  18. Mas não fizeram avançar o assunto somente por meio de cartas, mas também, e muito principalmente, por meio das obras. [Eusébio 9.1.7]
  19. Com o objetivo de levar a cabo a decisão imperial, tiravam à luz do dia e davam liberdade a todos que tinham encerrados nos cárceres por terem confessado a divindade, [Eusébio 9.1.7]
  20. E deixavam ir também os que dentre eles estavam condenados às minas. [Eusébio 9.1.7]
  21. Ainda que se equivocassem, eles acreditavam que isto era o que verdadeiramente pensava o imperador. [Eusébio 9.1.7]
  22. E ao ocorrerem deste modo as coisas, de repente, como uma luz que brilha saindo da noite escura, em cada cidade podia-se ver igrejas congregadas. [Eusébio 9.1.8]
  23. Também reuniões concorridíssimas e, além disso, as cerimônias executadas do modo costumeiro. [Eusébio 9.1.8]
  24. E todo pagão infiel era surpreendido de grande espanto ante isto e se maravilhava de mudança tão prodigiosa, [Eusébio 9.1.8]
  25. E a gritos proclamava grande, único e verdadeiro o Deus dos cristãos. [Eusébio 9.1.8]
  26. Dos nossos, os que haviam sustentado valente e fielmente o combate das perseguições recobraram novamente sua liberdade franca para com todos; [Eusébio 9.1.9]
  27. Em troca, os que, enfermos na fé, haviam naufragado em suas almas apressavam-se alegremente em busca de remédio, [Eusébio 9.1.9]
  28. Imploravam e pediam aos fortes sua mão direita salvadora e suplicando a Deus que lhes fosse propício. [Eusébio 9.1.9]
  29. E logo, os nobres atletas da religião, liberados do sofrimento das minas, regressava a suas casas caminhando majestosos e radiantes através das cidades [Eusébio 9.1.10]
  30. Eles transbordavam uma indizível alegria e uma liberdade franca que não é possível traduzir com palavras. [Eusébio 9.1.10]
  31. Assim pois, ao longo dos caminhos e das praças, multidões em tropel realizavam sua viagem louvando a Deus com cantos e salmos, [Eusébio 9.1.11]
  32. E os que antes estavam presos com duríssimos castigos e desterrados de suas pátrias, agora recobravam seus lares com rosto transbordante de alegria e satisfação, [Eusébio 9.1.11]
  33. Era tanto que inclusive os que antes gritavam contra nós, ao ver agora um prodígio tão contrário ao que se poderia esperar, uniam-se também a nosso regozijo pelo ocorrido. [Eusébio 9.1.11]

XXXVI – Tempestade

  1. Mas o tirano Maximiano que governava a parte do Oriente, inimigo que era do bem e conspirador contra todos os bons, incapaz de suportar isto, nem seis meses completos agüentou que se fizesse desta maneira. [Eusébio 9.2.1]
  2. Por conseguinte, pôs-se a planejar meios para destruir a paz. [Eusébio 9.2.1]
  3. Primeiramente tentou com um pretexto impedir-nos a reunião nos cemitério; [Eusébio 9.2.1]
  4. Depois, valendo-se de alguns homens malvados, enviou a si mesmo embaixadas contra os cristãos, pois exortou aos cidadãos de Antioquia. [Eusébio 9.2.1]
  5. Desejava que eles pedissem para a este imperador que ele permitisse um cristão habitar em sua pátria. [Eusébio 9.2.1]
  6. E que sugerissem a outros esta mesma manobra. [Eusébio 9.2.1]
  7. Na própria Antioquia o autor de tudo isto foi Teotecno, homem temível, charlatão, malvado, que não fazia honra a seu nome. [Eusébio 9.2.1]
  8. Era, segundo parece, curador da cidade. [Eusébio 9.2.1]
  9. Este homem fez a guerra aos cristãos o quanto pôde e por todos os meios se esforçou para que fossem caçados em seus esconderijos como ladrões sacrílegos. [Eusébio 9.3.1]
  10. A tudo isto, ele maquinou baseado na calúnia e nas acusações contra os cristãos, sendo o causador da morte de inúmeras pessoas. [Eusébio 9.3.1]
  11. Ele terminou por erigir uma estátua de Zeus Filios com práticas de magia e bruxarias. [9.3.1]
  12. Inventou para este deus pagão cerimônias impuras, iniciações de mau agouro e purificações abomináveis. [Eusébio 9.3.1]
  13. E até diante do imperador fez pompa de sua prodigiosa categoria mediante o que ele tinha por oráculos. [Eusébio 9.3.1]
  14. Este, para adular seu dono e senhor no que lhe agradava, excitou o demônio contra os cristãos. [9.3.1]
  15. Ele disse que o deus ordenava expulsar os cristãos para fora dos limites da cidade e da região circundante por serem seus inimigos. [Eusébio 9.3.1]
  16. Este foi o primeiro que se saiu bem em seu propósito. [Eusébio 9.4.1]
  17. Todas as demais autoridades que habitavam as cidades sujeitas ao mesmo comando apressavam-se a tomar resoluções semelhantes. [Eusébio 9.4.1]
  18. Os governadores de província, ao perceberem que isto agradava o imperador Maximiano sugeriam a seus súditos que fizessem o mesmo. [Eusébio 9.4.1]
  19. O tirano, satisfeitíssimo, dava seu assentimento a estas decisões mediante um decreto. [Eusébio 9.4.1]
  20. Novamente reavivou-se a perseguição contra os cristãos. [Eusébio 9.4.2]
  21. O próprio Maximino estabeleceu para cada cidade os sacerdotes dos ídolos, [Eusébio 9.4.2]
  22. E acima destes sumos sacerdotes, a todos os que mais se distinguiam nas funções públicas e que tinham adquirido fama em todas. [Eusébio 9.4.2]
  23. Também eles foram muito solícitos em tudo o que tangia ao culto dos deuses que tinham a seu cuidado. [Eusébio 9.4.2]
  24. Em resumo, a absurda superstição deste imperador induzia todos os súditos, governantes e governados.  a fazer tudo contra os cristão para obter as suas graças. [Eusébio 9.4.3]
  25. Em troca dos benefícios que acreditavam que obteriam dele, faziam-lhe este favor, o maior: [Eusébio 9.4.3]
  26. Que era desejar o extermínio dos cristãos e continuar fazendo exibição das mais novas maldades contra eles.
  27.  Depois de se inventar umas Memórias de Pilatos e de Nosso Salvador, abarrotadas de todo gênero de blasfêmia contra Cristo. [Eusébio 9.5.1]
  28. Estas receberam a anuência do soberano para serem distribuídas por todo o país sujeito a seu comando. [Eusébio 9.5.1]
  29. Estas tinham instruções escritas para que em todo lugar, assim no campo como nas cidades, fossem expostas publicamente a todos. [Eusébio 9.5.1]
  30. E que os professores nas escolas cuidassem de ensiná-las às crianças em vez das ciências, e fazer com que as decorassem. [Eusébio 9.5.1]
  31. Enquanto isto se cumpria desta maneira, havia outro, um comandante militar, que os romanos chamam Dux. [Eusébio 9.5.2]
  32. Ele ordenou que tirassem à força da praça pública de Damasco da Feníia umas mulheres desprezíveis e as ameaçava com a aplicação de torturas, [Eusébio 9.5.2]
  33. Forçava-as a declarar por escrito que durante algum tempo haviam sido cristãs e que entre os cristãos tinham visto ações criminosas, [9.5.2]
  34. Declaravam que estes cristãos cometiam ações licenciosas nas próprias casas do Senhor. [Eusébio 9.5.2]
  35. E tudo quanto queriam que elas disseram para caluniar a doutrina cristã. [Eusébio 9.5.2]
  36. Em seguida inseriu estas declarações em texto e as comunicou ao imperador. [Eusébio 9.5.2]
  37. Ele ordenou que também este documento fosse tornado público em todo lugar e em cada cidade. [Eusébio 9.5.2]

XXXVII – Perseguição (Silvano, Pedro e Luciano)

  1.  Não demorou muito, para que este comandante militar pagasse a pena de sua maldade suicidando-se. [Eusébio 9.6.1]
  2. Quanto aos cristãos, novamente recomeçaram os desterros e as terríveis perseguições, [Eusébio 9.6.1]
  3. E mais uma vez os governadores de todas as províncias levantaram-se contra eles; [Eusébio 9.6.1]
  4. Até o ponto de que alguns dos mais eminentes na doutrina divina foram presos e receberam sentença inapelável de morte. [Eusébio 9.6.1]
  5. Deles, três em Emesa, cidade da Fenícia, que se confessaram cristãos e foram entregues como pasto às feras. [Eusébio 9.6.1]
  6. Entre eles estava o bispo Silvano, de avançada idade, que havia exercido seu ministério durante quarenta anos completos.
  7. Também por este mesmo tempo, havia Pedro, que presidia brilhantemente as igrejas de Alexandria [Eusébio 9.6.2]
  8. Era um modelo divino de bispo por sua vida virtuosa e por seu estudo assíduo das Sagradas Escrituras. [Eusébio 9.6.2]
  9. Ele foi preso sem nenhum motivo e sem que se esperasse tal coisa, de repente e sem razão, como por ordem de Maximino, e foi decapitado. [Eusébio 9.6.2]
  10. E junto com ele sofreram a mesma pena muitos outros bispos do Egito. [Eusébio 9.6.2]
  11. E Luciano era homem excelentíssimo em tudo, merecedor de aplauso por sua vida, sua continência e seus conhecimentos sagrados, presbítero da igreja de Antioquia. [Eusébio 9.6.3]
  12. Ele foi conduzido à cidade de Nicomedia, onde casualmente se encontrava o imperador. [Eusébio 9.6.3]
  13. Tendo exposto publicamente em presença do soberano a defesa da doutrina pela qual o faziam comparecer, foi encarcerado e executado. [Eusébio 9.6.3]
  14. Na verdade, foi muito o que aquele inimigo do bem fez. [Eusébio 9.6.4]
  15. Maximino organizou contra os cristãos em breve espaço de tempo. [Eusébio 9.6.4]
  16. Pareceu levantar uma perseguição muito mais cruel do que a primeira. [Eusébio 9.6.4]
  17. Gravavam-se em esteias de bronze e se expunham ao público no meio das cidades as decisões que as cidades votavam contra os cristãos e os decretos com as ordens imperiais correspondentes [Eusébio 9.7.1]
  18. E as crianças nas escolas cada dia tinham em seus lábios a Jesus, Pilatos e as Memórias inventadas para insultar. [Eusébio 9.7.1]
  19. O próprio edito de Maximino evidenciava a arrogância jactanciosa e insolente do ódio daquele homem contra Deus. [Eusébio 9.7.2]
  20. O desagrado do mal por parte da justiça divina sempre alerta contra os ímpios, que o perseguia de perto. [Eusébio 9.7.2]
  21. Não muito depois, impelido por ela, começou a dizer sobre os cristãos todo o contrário e o decretou em leis escritas. [Eusébio 9.7.2]
  22. Estas medidas contra os cristãos se tornaram públicas em cada província. [Eusébio 9.7.15]
  23. Impediu aos interesses cristãos qualquer boa esperança, ao menos quanto ao que depende dos homens. [Eusébio 9.7.15]
  24. Tanto é que, segundo aquele divino oráculo, sendo possível, até os próprios que eleitos pudessem tropeçar sob tais circunstâncias. [Eusébio 9.7.15]
  25. Mesmo assim, quando a esperança já estava quase morrendo na maioria, de repente, Deus, campeão de sua própria Igreja, fez travar o freio ao orgulho do tirano contrário aos cristão. [Eusébio 9.7.16]
  26. Ele demonstrou que o céu era um aliado posto ao seu lado. [Eusébio 9.7.16]

XXXVIII – Justiça Divina

  1. Por conseguinte, os aguaceiros costumeiros e as chuvas contínuas retiveram seu habitual tributo à terra mesmo sendo a estação invernal. [Eusébio 9.8.1]
  2. Uma fome inesperada fez sua aparição, ao que se juntou a peste e o ataque de alguma outra enfermidade: [Eusébio 9.8.1]
  3. Uma úlcera que, por causa de sua inflamação, chamava-se significativamente carbúnculo, ocorrendo por todo o corpo. [Eusébio 9.8.1]
  4. E causava sérios perigos aos pacientes, e não só isso, mas atacando na maior parte dos casos particularmente os olhos, deixava cegos inúmeros homens, mulheres e crianças. [Eusébio 9.8.1]
  5. Por cima disto tudo sobreveio ao tirano a guerra contra os armênios, amigos antigos e aliados dos romanos. [Eusébio 9.8.2]
  6. Como também eles eram cristãos e cultivavam com diligência a piedade para com a divindade, o inimigo de Deus tratou de obrigá-los a sacrificar aos ídolos e demônios, [Eusébio 9.8.2]
  7. E de amigos Maximino tornou-os inimigos, e de aliados, adversários. [Eusébio 9.8.2]
  8. O fato de que tudo isto afluísse de um golpe e a um mesmo tempo serviu para refutar a jactância do ousado tirano contra Deus. [Eusébio 9.8.3]
  9. Efetivamente, ele vinha se vangloriando de que, por causa de seu zelo pelos ídolos e de sua obsessão contra os cristãos, nem a fome, nem a peste, nem sequer a guerra tinham lugar em seus dias. [Eusébio 9.8.3]
  10. Estas calamidades pois, sobrevindo juntas e ao mesmo tempo, constituíram também o prelúdio de sua queda. [Eusébio 9.8.3]
  11. Assim, ele mesmo se ocupava junto com suas tropas na guerra contra os armênios, enquanto a fome e a peste juntas deixavam terrivelmente exaustos os demais habitantes das cidades sujeitas a ele. [Eusébio 9.8.4]
  12. Por uma medida de trigo dava-se em troca dois mil e quinhentos dracmas áticos. [Eusébio 9.8.4]
  13. Em consequência eram milhares os que morriam nas cidades, ainda que mais numerosos do que estes fossem os que morriam nos campos e nas aldeias. [Eusébio 9.8.5]
  14. Chegou a tal o ponto de que os antigos censos, abundantes em camponeses, por pouco não foram completamente apagados. [Eusébio 9.8.5]
  15. Morreram quase todos de uma vez por falta de alimento e pela pestilenta enfermidade. [Eusébio 9.8.5]
  16. Assim pois, alguns julgaram bom vender seus mais apreciados bens aos mais ricos por umas migalhas de alimento. [Eusébio 9.8.6]
  17. Outros, vendendo pouco a pouco suas posses, haviam chegado à mais extrema penúria. [Eusébio 9.8.6]
  18. Houve ainda alguns que, tendo mastigado fiapos de ervas ou comido por descuido certas plantas mortíferas, arruinaram o estado físico de seu corpo e pereceram. [Eusébio 9.8.6]
  19. Algumas mulheres nobres das cidades, empurradas pela indigência ao mais vergonhoso mister, saíam pelas praças públicas a mendigar. [Eusébio 9.8.7]
  20. Somente no rubor de seu rosto e na decência de sua vestimenta deixavam entrever a prova de sua antiga criação nobre. [Eusébio 9.8.7]
  21. E outros, já secos, como fantasmas cadavéricos, lutando com a morte e resvalando aqui e acolá, terminavam caindo, impotentes para manter-se em pé. [Eusébio 9.8.8]
  22. Estendidos de boca para baixo no meio das praças, imploravam que se lhes estendesse um pedacinho de pão. [Eusébio 9.8.8]
  23. E com a alma já nos últimos sopros, gritavam que estavam famintos, sem ter mais forças do que para este único e doloroso grito. [Eusébio 9.8.8]
  24. Outros, por outro lado, os que pareciam ser dos mais acomodados, estupefatos ante a multidão de pedintes, depois de terem repartido inumeráveis esmolas, passaram a se encerrar numa atitude dura e insensível. [Eusébio 9.8.9]
  25. Esperavam ainda não padecer também eles o mesmo que os pedintes. [Eusébio 9.8.9]
  26. De fato, em meio às praças e às vielas ofereciam já à vista o mais lamentável espetáculo os cadáveres desnudos que jaziam insepultos desde muitos dias. [Eusébio 9.8.9]
  27. Alguns até já eram repasto para os cães, e por esta causa, sobretudo, os vivos começaram a matar cães, temerosos de que tivessem raiva e se dedicassem a devorar homens. [Eusébio 9.8.10]
  28. Mas a própria peste causava maiores estragos em todas as casas, sobretudo naquelas em que a fome não era capaz de exterminá-los porque abundavam em provisões. [Eusébio 9.8.11]
  29. Assim, os opulentos: magistrados, governadores e muitíssimos funcionários, deixados pela fome como de propósito para a peste, padeceram uma morte cruel e rapidíssima. [Eusébio 9.8.11]

XXXIX – Queda de Maximimo

  1. Tudo, em consequência, estava cheio de gemidos e por todas as vielas, praças e avenidas não se podia contemplar outra coisa que as lamentações com seu costumeiro acompanhamento de flautas e ruído de golpes. [Eusébio 9.8.11]
  2. Desta maneira, lutando ao mesmo tempo com as armas acima, a peste e a fome, a morte devorou em pouco tempo famílias inteiras. [Eusébio 9.8.12]
  3. Chegou ao ponto de ser possível ver num só enterro levarem-se os corpos de dois ou três mortos. [Eusébio 9.8.12]
  4. Tais calamidades eram o pagamento pela grande jactância de Maximino e pelas petições das cidades contra os cristãos. [Eusébio 9.8.13]
  5. Era assim que a todos os pagãos se manifestava a prova do zelo e da piedade dos cristãos em tudo. [Eusébio 9.8.13]
  6. Eles eram os únicos que nesta circunstância calamitosa demonstravam com suas próprias obras a compaixão e o amor aos homens. [Eusébio 9.8.14]
  7. Uns perseveravam todo o dia no cuidado e no enterro dos mortos, pois eram milhares os que não tinham quem se ocupasse deles. [Eusébio 9.8.14]
  8. Outros, reunindo num mesmo lugar a multidão dos que em toda a cidade estavam esgotados pela fome, repartiam pão para todos. [Eusébio 9.8.14]
  9. O fato correu de boca em boca e todos os homens glorificavam o Deus dos cristãos, e convencidos pelas próprias obras, confessavam que estes eram os únicos verdadeiramente piedosos e temerosos a Deus. [Eusébio 9.8.14]
  10. Depois de cumprido isto como foi dito, Deus, o maior e celestial defensor dos cristãos mostrou sua ira e seu desagrado contra todos os homens. [Eusébio 9.8.15]
  11. E novamente devolveu aos cristãos, em resposta aos excessos que eles haviam mostrado contra eles, o raio propício e esplendoroso de sua providência para seus seguidores. [Eusébio 9.8.15]
  12. Como numa escuridão profunda, fez com que do modo mais maravilhoso nos iluminasse a luz da paz, que dele procede, [Eusébio 9.8.15]
  13. E a todos deixou manifesto que Deus mesmo foi e segue sendo o supervisor de nossos interesses. [Eusébio 9.8.15]
  14. Ele que açoita seu povo e que, valendo-se das circunstâncias segundo a ocasião, converte-o novamente. [Eusébio 9.8.15]
  15. Por fim, o que depois de uma boa lição se mostra propício e piedoso para os que Nele esperam. [Eusébio 9.8.15]
  16. Assim pois, Constantino, filho de um pai piedoso e prudentíssimo em tudo, foi levantado contra os ímpios tiranos pelo Imperador supremo, o Deus do universo e Salvador. [Eusébio 9.9.1]
  17. Quando ele se determinou a lutar segundo a lei da guerra, ele combateu tendo como aliado o próprio Deus da maneira mais extraordinária. [Eusébio 9.9.1]
  18. Maximino, sobrevivendo muito pouco tempo no Oriente, sucumbiu nas mãos de Licínio, que então ainda não estava transtornado. [Eusébio 9.9.1]
  19. E Maxêncio caiu em Roma pelo impacto causado por Constantino. [Eusébio 9.9.1]
  20. Pois Constantino foi o primeiro que mostrou moderação com os oprimidos pelos tiranos em Roma. [Eusébio 9.9.2]
  21. Ele invocou como aliado em suas orações ao Deus do céu e a seu Verbo, e ainda ao próprio Salvador de todos, Jesus Cristo. [Eusébio 9.9.2]

XL – Visão

  1. Constantino considerava o mundo inteiro como um corpo imenso e percebia que a cabeça de tudo, a cidade real do Império Romano, estava curvada pelo peso de uma opressão tirânica. [Constantino 1.36]
  2. A princípio ele havia deixado a tarefa de libertação para aqueles que governavam as outras divisões do império, como sendo seus superiores em idade. [Constantino 1.36]
  3. Mas quando nenhum deles provou ser capaz de proporcionar alívio, e aqueles que tentaram experimentaram uma desastrosa derrota, ele disse que a vida era sem prazer enquanto ele visse a cidade imperial assim afligida, e preparou-se para a derrubada da tirania. [Constantino 1.36]
  4. Estando convencido, no entanto, de que precisava de uma ajuda mais poderosa do que suas forças militares podiam lhe dar, por causa dos encantamentos perversos e mágicos que foram tão diligentemente praticados pelo tirano, ele procurou a ajuda divina. [Constantino 1.37]
  5. Considerava a posse de armas e uma numerosa soldadesca de importância secundária, mas acreditava que o poder cooperativo da Divindade é invencível e inabalável. [Constantino 1.37]
  6. Ele considerou, portanto, em que Deus poderia confiar para proteção e assistência. [Constantino 1.37]
  7. Enquanto envolvido nesta investigação, ocorreu-lhe o pensamento sobre os muitos imperadores que o precederam. [Constantino 1.37]
  8. Estes, que depositaram suas esperanças em uma multidão de deuses e os serviram com sacrifícios e ofertas.
  9. E assim foram em primeiro lugar enganados por predições lisonjeiras e oráculos que lhes prometiam prosperidade. [Constantino 1.37]
  10. E, por fim, tiveram um fim infeliz, enquanto nenhum de seus deuses ficara por perto para avisá-los da ira iminente do céu. [Constantino 1.37]
  11. Foi o único que seguiu um curso totalmente oposto, que havia condenado seu erro e honrado o único Deus Supremo durante toda a sua vida. [Constantino 1.37]
  12. Tinha-o formalmente para ser o Salvador e Protetor de seu império, e o Doador de todas as coisas boas. [Constantino 1.37]
  13. Refletindo sobre isso, ponderou bem o fato de que aqueles que confiaram em muitos deuses também caíram por múltiplas formas de morte.
  14. Estes não deixaram para trás nem família ou descendência, linhagem, nome ou memorial entre os homens. [Constantino 1.37]
  15. Enquanto o Deus de seu pai, por outro lado, tinha dado manifestações de seu poder e muitos símbolos. [Constantino 1.37]
  16. E considerando ainda que aqueles que já haviam pegado em armas contra algum tirano e marchado para o campo de batalha sob a proteção de uma multidão de deuses, tiveram um fim desonroso. [Constantino 1.37]
  17. Pois um deles, se retirou vergonhosamente da competição sem um golpe; e o outro, foi morto no meio de suas próprias tropas, tornou-se, por assim dizer, um mero esporte de morte. [Constantino 1.37]
  18. Revisando, eu digo, todas essas considerações, ele julgou ser realmente tolice participar da adoração ociosa daqueles que não eram deuses. [Constantino 37]
  19. E, depois de tais evidências convincentes, errar da verdade; e, portanto, sentiu que cabia a ele honrar apenas o Deus de seu pai. [Constantino 1.37]
  20. Assim, ele chamou o Deus de seu pai com fervorosa oração e súplicas para que lhe revelasse quem ele era e estendesse a mão direita para ajudá-lo em suas dificuldades atuais. [Constantino 1.38]
  21. E enquanto ele orava assim com fervorosa súplica, um sinal mais maravilhoso apareceu-lhe do céu, cujo relato seria difícil de acreditar se tivesse sido relatado por qualquer outra pessoa. [Constantino 1.38]
  22. Mas o próprio imperador vitorioso muito tempo depois declarou isso quando foi homenageado por seus amigos e p ares, confirmando sua declaração por um juramento. [Constantino 1.38]
  23. Ele disse que por volta do meio-dia, quando o dia já estava começando a declinar, ele viu com seus próprios olhos o troféu de uma cruz de luz nos céus, acima do sol, e com a inscrição “Vença através desse Símbolo’. [Constantino 1.38]
  24. Ao ver isso, ele próprio ficou pasmo, e também todo o seu exército, que o seguiu nesta expedição e testemunhou o milagre. [Constantino 1.38]
  25. Ele disse também que duvidava dentro de si mesmo qual poderia ser a importância dessa aparição. [Constantino 1.39]
  26. E enquanto continuava a ponderar e raciocinar sobre seu significado, a noite de repente caiu; [Constantino 1.39]
  27. Então, em seu sono, o Cristo de Deus apareceu a ele com o mesmo sinal que ele tinha visto nos céus. [Constantino 1.39]
  28. E ordenou-lhe que fizesse uma semelhança daquele sinal que ele tinha visto nos céus e o usasse como uma proteção em todos compromissos com seus inimigos. [Constantino 1.39]

XLI – Preparativos

  1. Ao amanhecer ele se levantou e comunicou a maravilha a seus amigos: e então, reunindo os trabalhadores em ouro e pedras preciosas, ele sentou-se no meio deles e lhes descreveu a figura do sinal que tinha visto. [Constantino 1.40]
  2. Uma longa lança, revestida de ouro, formava a figura da cruz por meio de uma barra transversal colocada sobre ela. [Constantino 1.41]
  3. No topo do conjunto foi fixada uma coroa de ouro e pedras preciosas; e dentro deste, o símbolo com o nome do Salvador, duas letras indicando o nome de Cristo por meio de seus caracteres iniciais, a letra P sendo cruzada por X em seu centro. [Constantino 1.41]
  4. Essas letras o imperador estavam no hábito de usar seu capacete posteriormente.[Constantino 1.41]
  5. Na barra transversal da lança estava suspenso um pano, uma peça real, coberta com um bordado abundante das mais brilhantes pedras preciosas. [Constantino 1.41]
  6. E que, sendo também ricamente entrelaçado com ouro, apresentava um grau indescritível de beleza ao observador. [Constantino 1.41]
  7. Este estandarte era de forma quadrada, e o bastão vertical, cuja parte inferior era de grande comprimento, trazia um retrato dourado de meio corpo do imperador piedoso e seus filhos na parte superior, sob o troféu de a cruz, e imediatamente acima da faixa bordada. [Constantino 1.41]
  8. O imperador constantemente fazia uso deste sinal de salvação como uma salvaguarda contra todo poder adverso e hostil. [Constantino 1.41]
  9. E ordenou que outros semelhantes a ele fossem carregados à frente de todos os seus exércitos. [Constantino 41]
  10. Constantino foi atingido pelo espanto com a visão extraordinária e decidiu adorar nenhum outro Deus, exceto aquele que havia aparecido a ele, [Constantino 1.42]
  11. ele enviou aqueles que estavam familiarizados com os mistérios de suas doutrinas e perguntou quem era esse Deus e o que se pretendia com o sinal da visão que ele tinha visto. [Constantino 1.42]
  12. Eles afirmaram que Ele era Deus, o Filho unigênito do único Deus: que o sinal que apareceu era o símbolo da imortalidade, e o troféu daquela vitória sobre a morte que Ele havia obtido em tempos passados ​​quando peregrinou na terra. [Constantino 1.42]
  13. Eles lhe ensinaram também as causas de Seu advento e explicaram-lhe o verdadeiro relato de Sua encarnação. [Constantino 1.42]
  14. Assim, ele foi instruído nesses assuntos e ficou impressionado com a admiração pela manifestação divina que se apresentara a seus olhos. [Constantino 1.42]
  15. Comparando, portanto, a visão celestial com a interpretação dada, ele encontrou seu julgamento confirmado. [Constantino 1.42]
  16. E, na convicção de que o conhecimento dessas coisas havia sido comunicado a ele pelo ensino divino, ele determinou a partir de então dedicar-se à leitura dos escritos inspirados. [Constantino 1.42]
  17. Além disso, ele fez dos sacerdotes de Deus seus conselheiros, e considerou que era sua incumbência honrar o Deus que havia aparecido a ele com toda devoção. [Constantino 1.42]
  18. E depois disso, sendo fortalecido por esperanças bem fundamentadas Nele, ele se apressou em apagar o fogo ameaçador da tirania. [Constantino 1.42]
  19. Enquanto isso, o tirano que se possuiu da cidade imperial, procedeu a grandes extremos na impiedade e maldade, de modo a se aventurar sem hesitação em toda ação vil e impura. [Constantino 1.43]
  20. Ele separava as mulheres de seus maridos, e depois de algum tempo as mandava de volta, e esses insultos ele fazia não aos homens de condição mesquinha ou obscura, mas aos que ocupavam os primeiros lugares no senado romano. [Constantino 1.43]
  21. Além disso, embora ele vergonhosamente desonrasse quase um número incontável de mulheres livres, ele era incapaz de satisfazer seus desejos desregrados e intemperantes. [Constantino 1.43]
  22. Mas quando tentou corromper também mulheres cristãs, ele não pôde mais assegurar o sucesso de seus desígnios, visto que elas preferiram submeter suas vidas à morte do que entregar suas pessoas para serem contaminadas por ele. [Constantino 1.43]
  23. Uma certa mulher, esposa de um dos senadores que detinha a autoridade de prefeito, percebeu que aqueles que ministravam ao tirano em tais assuntos estavam diante de sua casa. [Constantino 1.44]
  24. Como era cristã e sabia que seu marido por medo ordenou que a levassem e a levassem embora, implorou por um curto espaço de tempo para se arrumar em seu vestido usual e entrou em seu quarto. [Constantino 1.44]
  25. Lá, sendo deixada sozinha, ela embainhou uma espada em seu próprio peito e imediatamente morreu, deixando de fato seu corpo morto para os proxenetas. [Constantino 1.44]
  26. Declarava assim a toda a humanidade, tanto para as gerações presentes como as futuras, por um ato que falou mais alto do que quaisquer palavras, que a castidade pela qual os cristãos são famosos é a única coisa que é invencível e indestrutível. [Constantino 1.44]

XXLII – Batalha

  1. Todos os homens, portanto, tanto as pessoas quanto os magistrados, fossem de alto ou baixo grau, tremiam de medo daquele cuja ousadia maldade era tal como descrito, foram todos oprimidos por sua cruel tirania. [Constantino 1.45]
  2. Embora eles se submetessem em silêncio e suportassem essa amarga servidão, ainda assim não havia como escapar da crueldade sanguinária do tirano. [Constantino 1.45]
  3. Pois ao mesmo tempo, sob algum pretexto insignificante, ele expôs a população a ser massacrada por seu próprio guarda-costas. [Constantino 1.45]
  4. E incontáveis ​​multidões do povo romano foram mortas bem no meio da cidade pelas lanças e armas, não de citas ou bárbaros, mas de seus próprios concidadãos. [Constantino 1.45]
  5. Além disso, é impossível calcular o número de senadores cujo sangue foi derramado com vistas à apreensão de seus respectivos bens, pois em momentos diversos e sob várias acusações fictícias, multidões deles morreram. [Constantino 1.45]
  6. O ponto culminante da maldade do tirano foi o recurso à feitiçaria: às vezes com fins mágicos, rasgando mulheres com filhos, outras vezes vasculhando as entranhas de bebês recém-nascidos. [Constantino 1.46]
  7. Ele matou leões também; e praticava certas artes horríveis para evocar demônios e evitar a guerra que se aproximava, esperando por esses meios obter a vitória. [Constantino 46]
  8. Em suma, é impossível descrever os múltiplos atos de opressão pelos quais este tirano de Roma escravizou seus súditos, [Constantino 1.46]
  9. E deste modo, foram reduzidos à mais extrema penúria e falta de comida necessária, uma escassez como nossos contemporâneos não lembre-se de sempre ter existido em Roma. [Constantino 1.46]
  10. Constantino, porém, cheio de compaixão por todas essas misérias, começou a se armar de todos os preparativos bélicos contra a tirania. [Constantino 1.47]
  11. Assumiu, portanto, o Deus Supremo como seu patrono, e invocando Seu Cristo para ser seu preservador e auxiliar. [Constantino 1.47]
  12. E colocou o troféu vitorioso, o símbolo salutar, diante de seus soldados e guarda-costas, ele marchou com todas as suas forças, tentando obter novamente para os romanos a liberdade que herdaram de seus ancestrais. [Constantino 1.47]
  13. Maxêncio, confiando mais em suas artes mágicas do que na afeição de seus súditos, não ousou nem mesmo avançar para fora dos portões da cidade. [Constantino 1.47]
  14. Guardou todos os lugares e distritos e cidades sujeitos à sua tirania, com grandes corpos de soldados. [Constantino 1.47]
  15. O imperador Constantino, confiando na ajuda de Deus, avançou contra a primeira, segunda e terceira divisões das forças do tirano, derrotou todos com facilidade no primeiro ataque e abriu caminho para o interior de Itália. [Constantino 1.47]
  16. Ele já se aproximava muito perto da própria Roma, quando, para salvá-lo da necessidade de lutar com todos os romanos por causa do tirano, o próprio Deus puxou o tirano, por cordas secretas, para longe dos portões. [Constantino 1.48]
  17. Os milagres registrados nas Sagradas Escrituras, que Deus da antiguidade operou contra os ímpios desacreditados pela maioria como fábulas, mas acreditados pelos fiéis, ele em todos os atos confirmou a todos igualmente, crentes e descrentes, que eram testemunhas oculares das maravilhas. [Constantino 1.48]
  18. Pois como fez nos dias de Moisés e da nação hebraica, que eram adoradores de Deus, quando “os carros de Faraó e seu exército foram lançados ao mar e seus capitães de carros escolhidos se afogaram no Mar Vermelho”. [Constantino 1.48]
  19. Da mesma forma, nesta época, Maxêncio e seus soldados, “desceram às profundezas como pedra” [Constantino 1.48]
  20. Em sua fuga diante das forças divinamente auxiliadas de Constantino, ele tentou atravessar o rio que estava em seu caminho, sobre a qual fez uma forte ponte de barcos. [Constantino 1.48]
  21. Ele armou uma máquina de destruição contra si mesmo na esperança de enlaçar aquele que era amado por Deus. [Constantino 1.48]
  22. Mas Deus estava ao lado de um para protegê-lo, enquanto o outro, ímpio, provou ser o miserável criador desses dispositivos secretos para sua própria ruína. [Constantino 1.48]
  23. Ele fez uma cova, cavou-a e caiu na vala que abriu. Sua maldade voltará sobre sua própria cabeça, e sua violência descerá sobre sua própria cabeça. [Constantino 1.48]
  24. Assim, sob a direção divina, a máquina erguida na ponte, com a emboscada escondida nela, cedeu inesperadamente antes da hora marcada. [Constantino 1.48]
  25. A ponte começou a afundar e os barcos com os homens neles foram corporalmente para o fundo. [Constantino 1.48]
  26. Primeiro, o próprio tirano  desgraçado e depois os seus assistentes armados e guardas, assim como os oráculos sagrados haviam descrito antes, “afundaram como chumbo nas poderosas águas”. [Constantino 1.48]

XLIII – Vitória

  1. Para que aqueles que assim obtiveram a vitória de Deus possam muito bem, se não com as mesmas palavras, mas de fato com o mesmo espírito que o povo de seu grande servo Moisés, cantar e falar como eles fizeram sobre o ímpio tirano da antiguidade. [Constantino 1.48]
  2. “Cantemos ao Senhor, pois ele foi grandemente glorificado: o cavalo e seu cavaleiro lançaram ao mar. Ele se tornou meu ajudador e meu escudo para a salvação.” [Constantino 1.48]
  3. E novamente: “Quem é como tu, Senhor, entre os deuses? Quem é como tu, glorioso em santidade, maravilhoso em louvores, fazendo maravilhas?” [Constantino 1.48]
  4. Tendo então cantado esses e outros louvores a Deus, o Governante de tudo e o Autor da vitória, a exemplo de seu grande servo Moisés, Constantino entrou triunfante na cidade imperial. [Constantino 1.49]
  5. E aqui todo o corpo do senado, e outros de posição e distinção na cidade, foram libertados por assim dizer das restrições de uma prisão, junto com toda a população romana. [Constantino 1.49]
  6. Seus semblantes expressivos da alegria de seus corações, o receberam com aclamações e alegria abundante; homens, mulheres e crianças, com incontáveis ​​multidões de servos, saudaram-no como libertador, preservador e benfeitor, com gritos incessantes. [Constantino 1.49]
  7. Mas ele, sendo possuidor de piedade interior para com Deus, não foi nem tornado arrogante por esses aplausos, nem elevado pelos elogios que ouviu: [Constantino 1.49]
  8. Mas, sendo consciente de que havia recebido ajuda de Deus, ele imediatamente rendeu uma ação de graças a ele como o autor de sua vitória. [Constantino 1.49]
  9. Por proclamação ruidosa e inscrições monumentais deu a conhecer a todos os homens o símbolo salutar, erguendo este grande troféu da vitória sobre os seus inimigos no seio da cidade imperial. [Constantino 50]
  10. Gravou expressamente em caracteres indeléveis, que o salutar símbolo era a salvaguarda do governo romano e de todo o império. [Constantino 1.50]
  11. Assim, ordenou imediatamente que fosse colocada sob a mão de uma estátua que o representasse, na parte mais frequentada de Roma, uma lança elevada na forma de uma cruz e gravada nela a seguinte inscrição em latim: [Constantino 1.50]
  12. “Por virtude deste sinal salutar, que é verdadeiro teste de valor, preservei e liberei sua cidade do jugo da tirania. Também determinei na liberdade o Senado romano e o Povo, e o restaurei à sua antiga distinção e esplendor.” [Constantino 1.50]
  13. Assim, o piedoso imperador, glorificando-se na confissão da cruz vitoriosa, proclamou o Filho de Deus aos romanos com grande ousadia de testemunho. [Constantino 1.51]
  14. E os habitantes da cidade, um e todos, senado e povo, revivendo, por assim dizer, da pressão de uma dominação amarga e tirânica, pareciam desfrutar de raios de luz mais puros e renascer para uma vida nova e fresca . [Constantino 1.51]
  15. Todas as nações, também, até o limite do oceano ocidental, sendo libertadas das calamidades que até então as haviam assediado, e alegradas por festivais alegres, não deixaram de louvá-lo como o vitorioso, o piedoso, o benfeitor comum. [Constantino 1.51]
  16. Todos, de fato, com uma voz e uma boca, declararam que Constantino apareceu pela graça de Deus como uma bênção geral para a humanidade. [Constantino 1.51]
  17. O édito imperial também foi publicado em toda parte, por meio do qual aqueles que haviam sido injustamente privados de suas propriedades foram autorizados a desfrutar de suas próprias propriedades. [Constantino 51]
  18. Aqueles que haviam sofrido injustamente o exílio eram chamados de volta a suas casas. [Constantino 51]
  19. Além disso, ele libertou da prisão e de todo tipo de perigo e medo aqueles que, por causa da crueldade do tirano, haviam sido submetidos a esses sofrimentos. [Constantino 1.51]
  20. O imperador também convidou pessoalmente a sociedade dos ministros de Deus, distinguiu-os com o mais alto respeito e honra possível. [Constantino 1.52]
  21. Mostrou-lhes favor por atos e palavras como pessoas consagradas ao serviço de seu Deus. [Constantino 1.52]
  22. Consequentemente, eles foram admitidos à sua mesa, embora fossem mesquinhos em seus trajes e aparência externa. [Constantino 1.52]
  23. Ainda assim, não em sua avaliação, visto que ele pensava que não via o homem como visto pelo olho vulgar, mas o Deus nele. [Constantino 1.52]
  24. Ele os fez também seus companheiros de viagem, acreditando que Aquele de quem eram servos o ajudaria assim. [Constantino 1.52]
  25. Além disso, ele deu de seus próprios recursos privados benefícios dispendiosos às igrejas de Deus. [Constantino 1.52]
  26. Ele tanto ampliou como elevou os edifícios sagrados; e embelezando os santuários augustos da igreja com ofertas abundantes. [Constantino 1.52]

XLIV – Grandes Feitos

  1. Da mesma forma, ele distribuiu dinheiro em grande parte para aqueles que estavam em necessidade. [Constantino 1.53]
  2. Além disso, mostrou-se filantropo e benfeitor até mesmo para os pagãos, que não tinham direito a ele; [Constantino 1.53]
  3. E mesmo para os mendigos do fórum, miseráveis ​​e sem trabalho, ele fornecia, não só dinheiro, ou comida necessária, mas também roupas decentes. [Constantino 1.53]
  4. Mas no caso daqueles que já foram prósperos e experimentaram uma reversão de circunstâncias, sua ajuda foi concedida de forma ainda mais generosa. [Constantino 1.53]
  5. A tais pessoas, em um espírito verdadeiramente real, ele conferiu benefícios magníficos; deu terras a alguns e honrou outros com várias dignidades. [Constantino 1.53]
  6. Órfãos de infelizes, ele cuidou como um pai, enquanto aliviava a miséria das viúvas e cuidava delas com especial solicitude. [Constantino 1.53]
  7. Ele até deu virgens, deixadas desprotegidas pela morte de seus pais, em casamento com homens ricos com quem ele conhecia pessoalmente. [Constantino 1.53]
  8. Mas isso ele fez depois de primeiro conceder às noivas as porções que deviam trazer para a comunhão do casamento. [Constantino 1.53]
  9. Em suma, assim como o sol, quando se levanta sobre a terra, generosamente concede seus raios de luz a todos, o mesmo fez Constantino, saindo do palácio imperial na madrugada e subindo com a luminária celestia. [Constantino 1.53]
  10. Os raios de sua própria beneficência para todos os que vieram a sua presença. [Constantino 1.53]
  11. Era quase impossível estar perto dele sem receber algum benefício, nem nunca aconteceu que alguém que esperava obter sua ajuda ficasse desapontado com sua esperança. [Constantino 1.53]
  12. Tal era seu caráter geral para com todos. Mas ele exerceu um cuidado peculiar sobre a igreja de Deus: [Constantino 1.54]
  13. Enquanto nas várias províncias havia alguns que diferiam uns dos outros no julgamento, ele, como algum bispo geral constituído por Deus, convocou sínodos de seus ministros. [Constantino 1.54]
  14. Tampouco desprezou estar presente e sentar-se com eles em sua assembleia. [Constantino 1.54]
  15. Participou de suas deliberações, ministrando a tudo o que dizia respeito à paz de Deus. [Constantino 1.54]
  16. Ele se sentou, também, no meio deles, como um indivíduo entre muitos, dispensando seus guardas e soldados, e todos cujo dever era defender sua pessoa, as protegido pelo temor de Deus e cercado pela tutela de seus amigos fiéis. [Constantino 1.54]
  17. Aqueles que ele viu inclinados a um julgamento são, e exibindo um temperamento calmo e conciliador, receberam sua alta aprovação. [Constantino 1.54]
  18. Pois ele evidentemente se deleitava com uma harmonia geral de sentimentos; enquanto ele considerava a inflexível aversão de vontades. [Constantino 1.54]

XXLV – Conversão

  1. A princípio, Constantino sentiu uma leve indisposição corporal, que logo foi seguida por uma doença positiva. [Constantino 3.61]
  2. Em consequência disso, ele visitou os banhos quentes de sua própria cidade; e daí passou para aquele que levava o nome de sua mãe. [Constantino 3.61]
  3. Ele passou algum tempo na igreja dos mártires e ofereceu súplicas e orações a Deus. [Constantino 3.61]
  4. Estando finalmente convencido de que sua vida estava chegando ao fim, ele sentiu que havia chegado o tempo em que deveria buscar a purificação dos pecados de sua carreira passada. [Constantino 3.61]
  5. Acreditou firmemente que quaisquer erros que tivesse cometido como homem mortal, sua alma seria purificada deles através da eficácia das palavras místicas e das águas salutares do batismo. [Constantino 3.61]
  6. Impressionado com esses pensamentos, ele derramou suas súplicas e confissões a Deus, ajoelhando-se na calçada da própria igreja. [Constantino 3.61]
  7. Pela primeira vez, recebeu a imposição das mãos com a oração. [Constantino 3.61]
  8. Depois disso, ele prosseguiu até os subúrbios de Nicomédia, e lá, tendo convocado os bispos para encontrá-lo, dirigiu-se a eles nas seguintes palavras: [Constantino 3.61]
  9. “É chegado o tempo que há muito espero, com fervoroso desejo e oração para obter a salvação de Deus. [Constantino 3.62]
  10. É chegada a hora em que eu também posso receber a bênção daquele selo que confere a imortalidade; a hora em que Posso receber o selo da salvação. [Constantino 3.62]
  11. Eu tinha pensado em fazer isso nas águas do rio Jordão, onde nosso Salvador foi batizado: mas Deus, que sabe o que é conveniente para nós, se agrada que eu deveria receber esta bênção aqui. [Constantino 3.62]
  12. Seja assim, então, sem demora. [Constantino 3.62]
  13. Se fosse a vontade do Senhor da vida e da morte, minha existência aqui seria prolongada e eu deveria estar destinado doravante a me associar com o povo de Deus unindo me com eles em oração como membro da sua Igreja. [Constantino 3.62]
  14. Prescreverei a mim mesmo, a partir de agora, o curso de vida que convém ao seu serviço.” [Constantino 3.62]
  15. Depois de ter falado assim, os prelados realizaram as sagradas cerimônias da maneira usual e, dando-lhe as instruções necessárias, fizeram-no participante da ordenança mística. [Constantino 3.62]
  16. Constantino foi assim o primeiro de todos os soberanos que foi regenerado e aperfeiçoado em uma igreja dedicada aos mártires de Cristo. [Constantino 3.62]
  17. E dotado com o selo divino do batismo, ele se regozijou em espírito; foi renovado e cheio da luz celestial. [Constantino 3.62]
  18. A sua alma se alegrou por causa do fervor de sua fé, e maravilhada com a manifestação do poder de Deus. [Constantino 3.62]
  19. No final da cerimônia ele se vestiu com vestes imperiais reluzentes, brilhantes como a luz, e reclinou-se em um sofá do mais puro branco, recusando-se a vestir-se mais com a púrpura. [Constantino 3.62]
  20. Ele então ergueu a voz e derramou um tom de agradecimento a Deus; após o que ele acrescentou essas palavras. [Constantino 3.63]
  21. “Agora sei que sou verdadeiramente abençoado: agora tenho a certeza de que sou considerado digno da imortalidade e tornado participante da luz divina.” [Constantino 3.63]
  22. Ele ainda expressou sua compaixão pela condição infeliz daqueles que eram estranhos às bênçãos que ele desfrutava. [Constantino 3.63]
  23. E quando os tribunos e generais de seu exército apareceram em sua presença com lamentações e lágrimas com a perspectiva de seu luto, e com orações para que seu dias ainda poderiam ser prolongados, ele assegurou-lhes em resposta que agora estava de posse da verdadeira vida. [Constantino 3.63]
  24. Assegurou-lhes que ninguém, exceto ele mesmo, poderia saber o valor das bênçãos que recebera; de modo que ele estava mais ansioso para se apressar do que adiar sua partida para Deus. [Constantino 3.63]
  25. Ele então passou a completar o arranjo necessário de seus negócios, legando uma doação anual aos habitantes romanos de sua cidade imperial; repartindo a herança do império, como uma propriedade patrimonial, entre seus próprios filhos; em suma, fazer toda a disposição de acordo com seu próprio desejo. [Constantino 3.63]
  26. Todos esses eventos ocorreram durante o festival mais importante da augusta e santa solenidade de Pentecostes. [Constantino 3.64]
  27. Ele se distingue por um período de sete semanas, e é selado com aquele dia em que as Sagradas Escrituras atestam, a ascensão de nosso Salvador comum em céu, e a descida do Espírito Santo entre os homens. [Constantino 3.64]
  28. No decorrer dessa festa, o imperador recebeu os privilégios que descrevi; e no último dia de todos, ele foi removido por volta do meio-dia para a presença de seu Deus. [Constantino 3.64]
  29. Deixou seus restos mortais para seus companheiros mortais, e levando à comunhão com Deus aquela parte de seu ser que era capaz de compreendê-lo e amá-lo. [Constantino 3.64]

 

FIM

 

Eusebio_de_Cesareia