Quem governou Israel em 1230 a.C. no auge da Era dos Heróis: Josué?

Gustave Doré (1832–1883)

As datas de 1250 a.C até 1180 a.C são atualmente as mais aceitas para o período que corresponde respectivamente ao nascimento de Hércules e à guerra de Troia. Quando seguimos a cronologia da Bíblia, encontramos que o governante que liderou os Israelenses nesse período foi a juíza e profetisa Débora, como pode ser visto neste post. No entanto, existem códigos utilizados na Bíblia que podem alterar essa conclusão.

O código mais relacionado com as datações da Bíblia diz respeito ao uso do número 40 e seus múltiplos (40, 80, 120… 400) como passível de seguinte tradução: “muito tempo, mas não se sabe precisar quanto”. Assim, Jesus jejuou por 40 dias no deserto; Josué atuou como espião também por 40 dias; os governos de Davi e Salomão duraram 40 anos; Moisés passou 40 anos no deserto; e os Hebreus foram escravizados por 400 anos; dentre inúmeros outros exemplos. Se levarmos isso em consideração, se torna impossível realizar uma simples conta de somar para estabelecer a cronologia bíblica. E, quando desconsideramos essas datas, abre-se um grande leque de possibilidades para refazer toda essa cronologia através de evidências arqueológica.

Evidência contra o juizado de Débora em 1230 a.C.

No caso da juíza Débora existem muitas evidências contrárias dela ter governado Israel no ano de 1230 a.C., sendo a principal delas:

1) Sítio Arqueológico de Harzor:

No post anteror, a principal evidência a favor de Débora ser a juíza nesse periodo é a camada de destruição que existe no sítio de Hazor que ocorreu por volta do ano de 1230 a.C. e estaria relacionada com os trechos: “Depois da morte de Eúde, mais uma vez os israelitas fizeram o que o Senhor reprova. Assim o Senhor os entregou nas mãos de Jabim, rei de Canaã, que reinava em Hazor.” (Juízes 4:1-2) (…) “Naquele dia Deus subjugou Jabim, o rei cananeu, perante os israelitas. E os israelitas atacaram cada vez mais a Jabim, o rei cananeu, até que eles o destruíram.” (Juízes 23-24). No entanto, esse texto pode ser visto como evidência contrária também. Note que em nenhum momento é relatada a destruição da cidade como encontrada nas ruínas do sítio arqueológico de Hazor. Só relata a morte de seu rei Jabim.

Sítio Arqueológico de Tel Hazor

2) As Carruagens de Ferro:

A maior evidência contrária, no entanto, está numa única linha do Livro dos Juízes contradiz toda possibilidade de Débora ter sido um juíza no ano de 1230 a.C. quando descreve a preparação do general inimigo para a batalha contra o povo de Israel: “Os israelitas clamaram ao Senhor, porque Jabim, que tinha novecentos carros de ferro, os havia oprimido cruelmente durante vinte anos. (Juízes 4.3). É mais do que comprovado que no ano de 1230 a.C. não havia a tecnologia para fundir o ferro de forma eficiente para usar em carruagens (ferro fundido é alcançado com temperaturas de 1482 Celsius enquanto o bronze com 1084 Celsius). Os melhores objetos de ferro já encontrados nesse época são adagas do faraó Tutancamôn por volta de 1330 a.C. e um machado de Merneptá por volta de 1210 a.C. Só após a evolução da Forja e a invenção do Fole após o período de 1200 a.C. que carruagens de ferro passaram a ser construídas e largamente utilizadas.    

Sinais de destruição e camadas de cinzas no Sítio Arqueológico de Tel Hazor

Evidência a favor do governo de Josué em 1230 a.C.

No caso do líder Josué, que sucedeu o famoso libertador Moisés no êxodo, a evidência contrária está na própria cronologia da Bíblia que coloca seu governo mais de cem e cinquenta anos antes dessa data, por volta de 1350 a.C.. No entanto, como estamos desconsiderando a cronologia bíblica, vamos nos ater às evidências históricas.

1) Sítio Arqueológico de Harzor:

Diferente da narrativa de Débora na Bíblia, a destruição da cidade de Hazor por Josué não poupa descrições que batem com a camada destruição ocorrida em 1230 a.C.: “E a todos os que nela estavam, feriram ao fio da espada, e totalmente os destruíram; nada restou do que tinha fôlego, e a Hazor queimou a fogo.” (Josué 11:11). 

2) Chegada dos Filisteus em Canaã: 

Outra evidência está nos maiores inimigos de Israel em toda a narrativa da Bíblia: os Philisteus. A a primeira batalha contra eles ocorreu sob a liderança do comandante Sangar: “Depois dele foi Sangar, filho de Anate, que feriu a seiscentos homens dos philisteus com uma aguilhada de bois; e também ele libertou a Israel. (Juízes 3:31). Existem paralelos ocorridos dessa batalha com um evento gravado no templo mortuário de Ramsés III (não confundir com Ramsés, o Grande), no templo de Medinet Habu.

Illustrators of the 1890 Holman Bible

Este documento egípcio relata as guerras ocorridos tanto no Delta do Nilo como em Canaã no ano de 1175 a.C,, em que o faraó derrotou e aprisionou seus inmigos. “O Senhor pôs grande terror de mim no coração de seus chefes; o medo e terror de mim estava diante deles; para que eu possa carregar seus guerreiros, amarrados em minhas mãos, e conduzi-los à tua alma, ó meu augusto pai. Venha, para pegá-los, sendo eles os Peleset (Pw-l’-s’-t), Denyen (D’-y-n-yw-n’), Shekelesh” (S’-k-rw-s)”. Note que, na escrita silábica que vigorava tanto no Egito quanto em Israel, que não leva em consideração as vogais, ambas palavras Filisteia (Pleshet, em hebraico original) e Peleset (Pw’l’-s’-t, em egípcio original) são considerados idênticas por todos os especialistas em linguística.

Essa informação se complementa com as escrituras no Papiro Harris I, um manuscrito de 1,500 linhas de texto encontrado também em Medinet Habu. O faraó Ramsés III descreve sobre os prisoneiros da batalha dessas batalhas: “Eu os assentei em locais fortificados que estão em meu nome. Numerosas eram suas classes, com centenas de milhares fortes. Eu cobrei tributo, em roupas e grãos, de seus mercados e silos todos os anos”. Era uma prática comum no Egito integrar prisioneiros aos seus domínios, pois eles não tinham interesses em escravos. Assim, para muitos historiadores, esses locais fortificados são as cinco cidades dos Philisteus descritas na Bíblia: Ascalão, Asdode, Ecrom, Gath e Gaza.

Conclusão

O surgimento de carruagens de ferro após de 1200 a.C e a vitória do líder Sangar em 1175 a.C. são eventos que antecederam o juizado de Débora. Desta forma, é impossível que ela tenha sido juíza no ano de 1230 a.C. apesar da cronologia bíblica colocá-la nesse período. Na verdade, minha conclusão é apenas uma. Apesar da discrepância de 160 anos desde a morte de Josué nessa cronologia e a data da destruição de Hazor, eu realmente acredito nas evidências arqueológicas que apontam como o líder dos israelenses em 1230 a.C o fundador do estado israelita e sucessor do famoso Moisés: o próprio Josué, quem primeiro conquistou suas terras.

 

 

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