Zeus se tornou o líder dos deuses gregos no ano 1590 a.C.?


Peter Paul Rubens (1577–1640)

A mitologia grega descreve Zeus como aquele que exerce autoridade sobre todos os deuses do Olimpo. Era não apenas o deus dos céus, do raio do relâmpago e do trovão, mas também o mantenedor da ordem e da justiça. Era considerado o deus-pai mesmo por aqueles que não eram seus filhos. Era considerado o grande líder dentre todos. O grande escritor Homero em sua famosa Ilíada relata isso com clareza: “Zeus foi ao seu palácio. Todos os deuses se levantaram de seus assentos ao encontro do pai, sem nenhum mostrar omissão e em conjunto foram na sua direção.” (canção I, linhas 533-535). E se este autor não for claro o bastante, ninguém consegue ser mais do que Pausânia em sua quase tão famosa Descrição da Grécia: “Que Zeus é o rei dos deuses, este é um ditado comum entre os homens” (Livro 2; capítulo 24; versículo 4). 

Batalha contra os Titãs? Ou teria sido uma erupção vulcânica?

A ascensão de Zeus como líder do panteão é descrito em diversas fontes, mas nenhuma é tão indisputável quanto os versos da Teogonia de Hesíodo. Ele descreve o nascimento de Zeus e como se manteve escondido no interior da própria Terra até possuir a força necessária para enfrentar seu pai Krono. Os detalhes da guerra entre os titãs liderados por Krono e os olimpianos liderados por Zeus são descritos com detalhes fantásticos nos seus versos: “Ambos os lados mostravam obras braçais violentas. Terrível mugia o mar infinito, retumbava forte a terra, o vasto céu gemia sacudido, no solo estremecia o alto Olimpo sob golpes dos imortais, o abalo pesado atingia o Tártaro nevoento aos surdo estrondo de pés de indizíveis assaltos e ataques brutais. E uns contra outros lançavam dardos gemidosos, que, vindos de ambos, atingem o céu constelado com voz exortante, e batiam-se com grande grito.” (Teogonia, linhas 658-686).

Uma pergunta no entanto pode ser feita: Será que estes versos são realmente tão fantásticos ou eles poderiam ser descrições de um evento histórico. Analisando estes acontecimentos em conjunto, os trechos “mugia o mar”, “retumbava forte a terra” e “céu gemia sacudido” podem muito bem ser descrições de um terremoto. Mais reveladoras ainda podem ser as linhas seguintes que parecem ser descrições bem claras e específicas de um vulcão em erupção com  “dardos” barulhentos que são lançados ao alto e “atingem o céu costelado”.

Se a ocorrência de terremotos previamente a uma erupção vulcânica é praticamente uma regra, os eventos posteriores certamentos são o avanço da lava ardente que destrói tudo ao redor. Não demora mais que um punhado de linhas para começar essa descrição: “A terra nutriz retumbava ao redor queimando-se, crepitou ao fogo vasta floresta, fervia o chão todo e as correntes do Oceano e o mar infecundo, o sopro quente atava os Titãs terrestres, a chama atingia vasta o ar divino. (Teogonia, linhas 691 a 700).

Joseph Wright of Derby (1734–1797)

Principal Candidato: A Erupção da Ilha de Thera!

As erupções vulcânicas possuem sua intensidade medida numa escala que varia de 0 a 8, chamada de Índice de Explosividade Vulcânica (IEV), que é calculada pela quantidade de material expelido pelo vulcão. A famosa erupção do monte Vesúvio, por exemplo, que destruiu as cidades de Pompéia e Herculano foi considerada de grau 5 por ejetar mais 1 km cúbico de material na atmosfera.

Se levarmos em contas todas erupções vulcânicas desde o início da civilização (em 10.000 a.C) até a o tempo de Hesíodo (cerca de 800 a.C) pode-se listar as seguintes erupções superiores a magnitude 5:

Europa, Eurásia e África

  • 1610 – Santorini, Grécia (IEV 7)
  • 2420 – Vesúvio, Itália (IEV 6)
  • 6050 – Menengai, Quênia (IEV 6)
  • 6940 – Vesúvio, Itália (IEV 6)
  • 8230 – Grimsötn, Islândia (IEV 6)

América

  • 1645 – Auletian, EUA (IEV 6)
  • 1750 – Auletian, EUA (IEV 6)
  • 1860 – St. Helens, EUA (IEV 6)
  • 1890 – Hudson, Chile (IEV 6)
  • 1900 – Black Peak, EUA (IEV 6)
  • 2300 –  Cerro Blanco, Argentina (IEV 7)
  • 4050 – Masaya, Nicarágua (IEV 6)
  • 4750 – Hudson, Chile (IEV 6)
  • 5250 – Aniakchak, EUA (IEV 6)
  • 5677 – Crater Lake, EUA (IEV 7)
  • 5900 – Crater Lake, EUA, (IEV 6)
  • 7420 – Fisher Caldera, EUA (IEV 6)
  • 8000 – Ko’olauHonolulu, EUA (IEV 5)
  • 8000 – Smisopchnoi, EUA (IEV 7)
  • 8500 – Nevado de Toluca (IEV 6)

Oceania e Ásia Oriental

  • 1050 – Pinatubo, Filipinas (IEV 6)
  • 1350 – Avachinsky, Rússia (IEV 5)
  • 1370 – Pago, Nova Guiné (IEV 5)
  • 1460 – Taupo, Nova Zelândia (IEV 6)
  • 1500 – Avachinsky, Rússia (IEV 5)
  • 2040 – Long Island, Nova Guiné (IEV 6)
  • 3200 – Avachinsky, Rússia (IEV 5)
  • 3550 – Pinatubo, Filipinas (IEV 6)
  • 3580 – Taal, Filipinas (IEV 6)
  • 3580 – Haroharo, Nova Zelândia (IEV 5)
  • 4000 – Pago, Nova Guiné (IEV 6)
  • 4340 – Avachinsky, Rússia (IEV 5)
  • 4360 – Macauley, Nova Guiné (IEV 6)
  • 5284 – Kikai, Japão (IEV 7)
  • 5550 – Mashu, Japão (IEV 6)
  • 5550 – Tao-Rusyr, Rússia (IEV 6)
  • 5560 – Tuhua, Nova Zelândia (IEV 5)
  • 5700 – Khangar, Rússia (IEV 6)
  • 5980 – Avachinsky, Rússia (IEV 5)
  • 6060 – Haroharo, Nova Zelândia (IEV 5)
  • 6440 – Kurile Lake, Russia (IEV 7)
  • 6600 – Karymsky Lake, Russia (IEV 6)
  • 7460 – Pinatubo, Filipinas (IEV 6)
  • 6440 – Lvinaya Past, Russia (IEV 6)
  • 7420 – Rotoma Caldera, Nova Zelândia (IEV 5)
  • 8130 – Taupo, Nova Zelândia (IEV 5)
  • 8750 – Ulleugdo, Coréia (IEV 6)
  • 9450 – Tongariro, Nova Zelândia (IEV 5)
  • 9460 – Taupo, Nova Zelândia (IEV 5)
  • 9650 – Tongariro, Nova Zelândia (IEV 5)

Ilha de Santorini atualmente, evidenciando a destruição que o vulcão no seu centro.

Não há dúvidas que de todas as erupções anteriores, nenhuma se enquadra tão perfeitamente no período mitológico quanto erupção de Santorini. Essa erupção ocorre perfeitamente na localização (visível em toda a Grécia), no período histórico (só quatrocentos anos antes da Guerra de Troia) e na magnitude (sendo de grau sete, ele se figura como uma das maiores erupções já vistas pelo homem).

As características do evento realmente foram de proporções cataclísmicas . As cinzas do vulcão atingiram alturas de trinta mil metros de altura e formaram camadas densas que até hoje são encontradas sob o solo. Rochas foram lançadas para todos os lados. Por fim, uma tsunami atingiu a costa da de Creta destruindo todo o litoral a uma distância de cem quilômetros do local

Determinando uma data…

Levando-se em consideração que a vitória contra os Titãs marcou o início da reino de Zeus sobre os deuses, basta determinar a data da erupção de Santorini para chegar a uma data. Os métodos utilizados e os resultados obtidos desta datação foram:

1) Análise do Artesanato Soterrado

Foram encontrados vasos que estão relacionados com o período da civilização minóica entre os aos de 1600 e 1500 a.C (Minóica Tardia IA), da civilização Micênica dos anos 1550 e 1500 a.C (Heládica Tardia IA) e da civilização Fenícia de 1800 a 1550 a.C (Sírio-Palestino Bronze IIB). Esses achados praticamente traçam uma linha tangente bem precisa no ano de 1550 a.C para a ocorrência da erupção.  É tão bem definida e aceita pelos arqueólogos que eles praticamente desconsideram as divergências que ocorrem com a datação pelo carbono.

2) Datação de Carbono em Ramo de Oliveira

A destruição promovida pela lava foi tão poderosa que é difícil encontrar qualquer sinal de matéria orgânica passível de análise. Um ramo de oliveira abaixo da lava do vulcão foi encontrado e logo foi testado. A datação do radiocarbono determinou a data de 1613 a.C., com possível intervalo entre 1627 e 1600 a.C. (95% de confiança). A crítica dos arqueólogos fica sobre a escassez do material testado e possíveis alterações do calor sobre ele.

3) Datação da Cinzas em Camadas de Gelo

Na Islândia, onde o gelo se acumula permanentemente é possível traçar datas histórias conforme a profundidade das geleiras. Cinzas de uma erupção vulcânica nas profundidades referentes ao ano de 1642 a.C com possível intervalo entre os anos de 1647 e 1637 a.C. O debate decorre da possibilidade de se tratar das cinzas de alguma erupção não foi registrada de um diferente vulcão (possíveis e mais prováveis candidatos são os vulcões do Alaska).

Conclusão

Existem tentativas de aproximar as duas datas definidas pelos vasos soterrados e pela datação do carbono. Alguns arqueólogos são capazes de aceitar a extensão da data do artesanato no máximo até o ano 1590 a.C. e mesmo assim há muita controvérsia. Os cientistas ainda definem a data limite em 1600 a.C conforme o intervalo de confiança do seu teste. Eu sei que nem a arqueologia, nem a ciência podem enquadrar a minha conclusão romantizada do assunto visto que a erupção em si comprovadamente não durou mais que alguns dias. Mas quem sou eu para discutir com o próprio Hesíodo que narra a Guerra contra os Titãs com duração de dez longos anos. Parece até que ele já previa essa discussão. Assim, fico com todo esse intervalo entre 1600 e 1590 a.C. para o acontecimento do confronto e a ascensão de Zeus ao fim dele.

Pedro Cavalcanti

Cornelis van Haarlem (1562–1638)

 

Queda dos Titãs

A Zeus e a todo panteão eterno,
Que pela Titã Rhea tem nascido,
Mãe Terra lhes revelou sucesso
E um imenso renome adquirido.

No monte Otris, ao lado de Krono
Estavam todos Titãs tão magníficos.
No monte Olimpo, em vil confronto,  
Os deuses doadores altruísticos.

Uns contra outros, em oposição,
Por batalha de dez cheios anos,
Não chegavam a fim ou solução
Nesta guerra de ambíguos danos.

Zeus então buscou três monstruosos
Dando armas e sacro alimento
O Néctar e a Ambrósia, deliciosos,
Que à alma lhes deu vital alento.
 
Escutem-me, filhos do Céu e da Terra,
– Disse Zeus pai, de aberto coração,
Por muito tempo estamos em guerra
Buscando sucesso nessa decisão.
 
Com o seu poder e força sem igual
Enfrentem os Titãs em amarga luta
Pois lembrem de nosso trato cordial 
Que lhes devolveu a luz que desfruta.

Cotos, dos Hecantochires, o guia,
Logo respondeu irrepreensível:
 Zeus! Sabemos de tua sabedoria,
 Que livrou os deuses de mal terrível!
 
 Deixamos sombras e cruéis prisões,
 Com rijo ânimo e alma resoluta
 Para defender vossas jurisdições
 Contra os Titãs em abjeta luta!
 
O panteão doador os louvaria
Para que se lançassem ao combate. 
Ávidos por guerra no mesmo dia,
Foram deuses e deusas ao remate.
 
Titãs; filhos de Krono revoltosos;
E Hecantochires que Zeus conduz
Os três tão terríveis e poderosos
Trazidos do Érebo para Luz.
 
Cem braços e cinqüenta cabeças
Brotavam dos ombros de cada um,
Que lançavam pedras com firmeza
Com cada braço grosso incomum.
 
Todos estavam bem fortificados 
Em fileiras com todo seu ardor. 
Sendo visto de ambos os lados
Obras braçais de fúria e dor.
 
Era assim, de tão horrível sorte,
Que Mar infinito havia rugido. 
A Mãe Terra retumbou forte
E o vasto Céu gemeu sacudido. 
 
Sob imortais golpes truculentos
O Olimpo havia estremecido.
Até os Subterrâneos nevoentos,
Pelo pesado abalo foi atingido.

Uns contra os outros, golpes brutais 
E dardos sibilantes foram lançados.
 Todos erguiam gritos de guerra tais
 Que alcançavam os céus constelados.
 
Não mais Zeus continha seu furor
Que logo encheram todo seu âmago
Ele mostrou seu violento rigor,
Avançando sempre com o relâmpago.
 
Que, junto, com o raio e o trovão
Rodopiaram as chamas sagradas.
Com Terra nutriz sofrendo aflição
Pelo crepitar de matas queimadas.
 
Ferveu por completo o solo todo
E as correntezas do Oceano
Chegando aos Titãs tão quente sopro 
Queimou ao redor o Ar soberano.
 
Os Titãs, apesar de poderosos,
Foram pegos pelo forte clarão
Que fulgurante cegou seus olhos 
Com o relampejar forte do trovão. 
 
Havia o calor pródigo da guerra
Até o Caos sem fim trespassado.
 Era como se sobre a Mãe Terra
Tivesse caído o Céu constelado.
 
Um evento assim tão desastroso
Poderia certamente ter ocorrido.
Pois lançados, um contra o outro,
Céu e Terra, quase foram colididos. 
 
Também ali ocorreu terremotos
E grandes tempestades de areia
Causados por ventos vertiginosos
E pelo grito que Zeus torpedeia.
 
Acresce o tumulto espalhafato
Por ações potentes de que se valha
Inclinando vitória a um dos lados
Mas não recuando a cruel batalha.
 
Na frente destes combates crassos,
Os Hecantochires tinham desperto.
Trezentas rochas de seus braços
Lançaram contra o inimigo certo.
 
Sobre os Titãs, elas fizeram sombra,
Golpeando-os qual míssil acertado 
Sob a terra, esse rival que assombra,
Cada um, foi por completo enterrado.

Assim, sob a Terra de amplas vias,
Os titãs, pelo braço, derrotados
Em cruéis prisões que os angustia,
Foram no Tártaro agrilhoados.

Hesiodo: Teogonia (623-720)
Tradução: Pedro Cavalcanti

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